3 de maio de 2017

TROVA # 123

O INCÊNDIO DOS VAGABUNDOS


“Workers can you stand it?
Oh, tell me how you can
Will you be a lousy scab
or will you be a man?

Which side are you on boys?
Which side are you on?

Don't scab for the bosses
Don't listen to their lies
Poor folks ain't got a chance
Unless they organize

Which side are you on boys?
Which side are you on?”
(Florence Reece na voz de Natalie Merchant, 2003)



“Fogo, fogo, fogo, água
Incêndio nas ruas
bomba, bomba, bomba, praça
Vielas, ratos, figuras, nuas

Plástico, jornal, rajada
Contagem, atraso
Pânico, pulseira, brinco, colar
Carteira, rádio, anel, sacola

Incêndio nas ruas
Incêndio nas ruas
Incêndio nas ruas
Incêndio nas ruas”
(Pedro Luís na voz de Ney Matogrosso, 2013)


         Quer queira, quer não, o Brasil parou no dia 28 de abril de 2017. A greve geral, originalmente convocada pelas centrais sindicais, teve a adesão de professores das redes pública e privada, metroviários, condutores e cobradores de ônibus e outros grupos de trabalhadores. O GAFE tentou desqualificar e descaracterizar o movimento através de uma cobertura jornalística parcial e descaradamente tendenciosa. O alto empresariado, as elites e os pobres de direita se sentiram aviltados por terem tido o seu direito de ir e vir abalado por “baderneiros defensores do Lula”. A classe política governista minimizou os protestos, mas se manteve em pânico ao constatar que aproximadamente 35 milhões de brasileiros literalmente cruzaram os braços.


         Para mim, a fala mais estarrecedora sobre a greve geral foi a do Prefeito de São Paulo e de um de seus subprefeitos. Ambos qualificaram os manifestantes de “vagabundos”, alegando que sexta-feira é dia de trabalho, ameaçaram os servidores públicos municipais e cortaram o ponto dos funcionários que não compareceram aos seus postos de trabalho naquele dia. Exemplo este seguido pelo Presidente da República, Michel Temer, em relação aos funcionários públicos federais, cujo dia também foi descontado – afinal de contas, o melhor dia para realizar uma greve deveria ser o domingo, pois, assim, não atrapalha o direito alheio de ir e voltar para onde desejasse. O povo lhes informou, sem o menor pesar, de que domingo é o dia das elites protestarem; a classe trabalhadora batalha por seus direitos durante a semana mesmo.


         No entanto, a mais genuína prova de vagabundagem não vem daqueles que cruzaram os braços e foram às ruas protestar contra as reformas trabalhista e previdenciária propostas pelo Governo Temer: os verdadeiros desocupados são os representantes da elite e do empresariado, donos das grandes corporações que devem bilhões de reais à Previdência Social e demais órgãos oficiais ao sonegarem encargos e tributos que resolveriam os problemas econômicos do país em um estalar de dedos. A ganância, a arrogância, a avareza e a hipocrisia destas pessoas nos obrigam a pagar taxas cada vez mais exorbitantes, pois elas se recusam em dividir as fortunas e os lucros de seus dividendos com o restante da sociedade. Com isso, a paciência dos contribuintes é carcomida e incendiada pelo cinismo de fazer inveja ao próprio Tio Patinhas.


         Os 4% de aprovação de Temer na Presidência da República evidenciam que o povo está farto da hipocrisia e da ganância de uma classe política que tem feito pouquíssimo para solucionar as questões endêmicas do Brasil. Some-se a este caldeirão fumegante 14 milhões de desempregados e uma grande mídia irresponsável e tendenciosa, a quem “carinhosamente” chamamos de GAFE. A revolta das pessoas nas ruas e nas redes sociais protestando, atravancando vias públicas e proferindo palavras de ordem para quem quiser ouvir é genuína, pois só a classe trabalhadora sabe o preço e a dor da ausência de direitos trabalhistas. Por outro lado, a reação dos policiais diante dos protestos (não-)pacíficos foi agressiva e truculenta, como sempre: milhares de cassetetes em riste, balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram utilizados para reprimir os manifestantes de maneira vil e covarde.




         A imprensa estrangeira, ao contrário do GAFE, não escondeu a greve geral para debaixo do tapete dos fatos e acontecimentos do dia. A comunidade internacional tomou conhecimento não apenas da crise política que tem assolado o Brasil há anos, como também da revolta dos “vagabundos” que incendiaram as principais ruas, estradas e avenidas do Brasil. Afinal, ainda persiste a esperança de que o incêndio promovido pelo povo seja uma resposta à altura do retrocesso pelo qual ele passa e sente na pele. 

1 de maio de 2017

TROVA # 122

A VOZ ONIPRESENTE
(OU minhas experiências com Belchior)


Em memória de Belchior (1946-2017)


“E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês”
(Belchior, 1976)


         Foi em um domingo, véspera de feriado, após o almoço de família. Tomei conhecimento de que Belchior tinha desaparecido de vez de nossas vidas. Estava em sua casa em uma bela e pacata cidade no interior do Rio Grande do Sul. Seu coração velho de guerra e combatente por mais de 70 anos de sonho de sangue e de América do Sul parou de bater enquanto o poeta da canção ouvia música clássica. De nada adiantarão as campanhas na Internet ou o amor verdadeiro dos fãs para que ele volte. De nada adiantará as reportagens sensacionalistas dos programas de TV ou a proliferação de comunidades nas redes sociais. E muito menos adiantarão as pichações clamando a sua volta legítima para o convívio dos brasileiros e a saída de um presidente ilegítimo do poder. Aquele rapaz latino-americano com pouco dinheiro no bolso não irá mais voltar.



         Antes de desaparecer da vida artística e dos olhos do grande público, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes foi um dos nomes mais importantes da música brasileira da década de 1970 para cá. Foi gravado por nomes da mais alta estirpe da MPB – Elis Regina, Roberto Carlos, Vanusa, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Zélia Duncan foram alguns dos artistas que gravaram suas canções. Álbuns como Anunciação (1976) e Coração Selvagem (1977) se tornaram não apenas verdadeiros clássicos, como também eram itens básicos de qualquer boa discografia de MPB.




         Belchior é uma falha gravíssima no meu departamento de ouvinte e pesquisador de música brasileira. Nunca fui um fã ávido ou ouvi seus trabalhos com atenção por pura falta de vergonha na cara ou da oportunidade de alguém que me dissesse: “Escute este disco aqui, pois ele vai fazer a sua cabeça”. Ele sempre esteve onipresente nas coisas que eu aprendi através de meus amados discos – o Trovador do Ceará sempre esteve nos meus ouvidos através das interpretações de Ney e de Roberto, de Elba, Vanusa ou Zélia, mas principalmente nas gravações eternas de Elis, a Pimentinha mais ousada, intensa e desaforada que o universo já teve notícia.





         Ao descobrir o álbum Falso Brilhante cintilando de maneira triunfal na discoteca de minha avó, D. Magaly, fiquei tão encantado com a voz de Elis Regina e a poética rascante de Belchior que o tal CD passou um bom tempo tocando só para mim lá em casa. Tempos depois, comprei uma cópia remasterizada do álbum de Elis e devolvi o “emprestado” para minha avó; afinal, a boa arte não deve ser um privilégio exclusivo dos sortudos: ela deve ser compartilhada, ouvida e amplificada no mais alto volume possível para que muitos conheçam o que os brasileiros sabem fazer melhor: música!




         O Trovador do Ceará não foi apenas aclamado como um grande poeta da canção brasileira: depois de passar pelas faculdades de medicina e filosofia, ele viveu como um Rimbaud. Veio do Ceará para São Paulo em busca de melhores oportunidades no universo da música e sofreu intensamente com as exigências mercantilistas da fama e da celebridade em um contexto capitalista. Escreveu canções sobre a ditatura militar que ele tanto sentiu na pele, outras de fortíssima crítica social, belas declarações de amor e misturou Edgar Allan Poe e Luiz Gonzaga com Beatles e Bob Dylan. Provocou um supostamente antiquado Caetano Veloso em meados dos anos 1970 em “Apenas Um Rapaz Latino-Americano” e foi convocado para o embate pelo sempre debochado Raul Seixas em “Eu Também Vou Reclamar”. Largou a fama e uma carreira de sucesso na década de 2000, vagou entre o Brasil e Uruguai, acumulou dívidas babilônicas (afinal, nunca ligava para o vil metal que ele tanto criticava) e viveu em um anonimato praticamente absoluto até o fim de seus dias.




         A saída de cena de Belchior trouxe enorme comoção de artistas, fãs e amantes de música brasileira. Além disto, surgiram os relatos de que o artista inquieto e bastante criativo durante seus últimos tempos – trabalhava em uma tradução de A Divina Comédia, de Dante Alighieri e compunha novas canções sem parar. Motivado pela revolta de um Brasil assolado pelas consequências de um golpe de estado parlamentar, o Trovador do Ceará planejava voltar aos palcos e fazer de sua arte um instrumento para combater as injustiças de nossos homens.



         Infelizmente, Belchior não conseguiu realizar o retorno triunfal que tanto planejava. Como ele teve o poder de influenciar as gerações posteriores a dele, deixou uma legião de admiradores que jamais permitirá que canções como “Medo de Avião”, “Paralelas”, “Como Nossos Pais”, “Apenas Um Rapaz Latino-Americano”, “A Palo Seco” e “Velha Roupa Colorida” caiam no esquecimento. Algo bastante justo para artistas de sua grandeza. Quem sabe assim aquela voz grave e roufenha se torna mais presente no cotidiano deste que vos escreve e aquece este coração velho de guerra?


27 de abril de 2017

DISCOS DE VINIL # 29

DAVID BOWIE – DIAMOND DOGS (1974)



 Os jovens que acreditam que Lady Gaga inventou as regras para fazer um disco megalomaníaco certamente não ouviram este disco de David Bowie com a devida atenção! Se é que ouviram ou sabem da importância de Bowie para a música do planeta… Diamond Dogs, lançado pelo astro inglês em 24 de abril de 1974, não é apenas uma das maiores pirações musicais de Bowie, mas também se trata de um dos discos mais comentados de toda a história da música!


Antes de apontar os mitos e os fatos em torno deste clássico que completa 40 anos neste mês de abril, é preciso pensar o seguinte: qual era a pele que revestia o camaleão em 1974?


Bowie tinha “assassinado” Ziggy Stardust em cima do palco do Hammersmith Odeon, em julho de 1973. Gravou um delicioso disco de covers (Pin-Ups) para tentar se livrar do alienígena-personagem que encarnara com tamanha perfeição. Hunky Dory e The Man who Sold The World já tinham se tornado figuras de um passado distante. Dentro de dois anos criaria e encarnaria o retorno de “The Thin White Duke” e em menos de um ano deixaria as vestimentas de roqueiro para trás para viver um elegante Soulman que faria o som e a imagem do Plastic Soul de Young Americans (1975).



No entanto, qual foi a personagem escolhida por Bowie entre o período de 1973 e 1974? “Halloween Jack”, um cara bem legal que habita a apocalíptica e decadente Hunger City, tema de Diamond Dogs.


Na verdade, Jack não era nada mais, nada menos do que um espectro de Ziggy: o corte de cabelo (com direito ao mullet irreconhecível), a maquiagem, o olhar desafiador eram exatamente os mesmos que Bowie lançava mão dois anos antes. Qual foi a jogada de mestre de Bowie para que o assassinato de Ziggy Stardust realmente fizesse sentido: um álbum conceitual!


A ideia inicial de David Bowie era fazer uma espécie de Opera Rock de 1984, obra-prima do escritor George Orwell. No entanto, a esposa de Orwell negou os direitos ao Camaleão inglês, que decidiu fazer uma alegoria das ideias do escritor em seu disco. Além disto, Bowie dispensou todos os seus colegas do “The Spiders from Mars” antes da gravação de Diamond Dogs.



Os fãs e os críticos sentiram grande falta do genial Mick Ronson, que tinha um estilo único ao dedilhar as cordas de uma guitarra, além de ser um instrumentista de mão cheia. A sonoridade do álbum ficou bastante crua no que diz respeito aos acordes de guitarra, apesar de Bowie se revezar entre guitarras, saxofones e teclados moog e mellotron e dos arranjos de cordas de Tony Visconti para a faixa “1984”. As influências do som dos Rolling Stones, para a felicidade dos amantes do bom Rock, ainda estavam lá (os riffs de guitarra da faixa-título e de “Rebel Rebel” refletem este fato com perfeição). No lugar das visões oníricas de “Ziggy Stardust” e “Aladdin Sane”, visões niilistas do caos urbano e das paranóias humanas (insufladas pelos abusos de cocaína cometidos por David Bowie himself)…


Para dar a imagem definitiva do habitante mais ilustre da Hunger City que se esvai em genocídio, enquanto o Big Brother observa todos os acontecimentos com o seu olhar atento, o artista plástico Guy Peellaert pintou uma criatura híbrida para a imagem da capa do disco: um cão com a genitália à mostra que tinha o rosto de Halloween Jack! O choque, obviamente, não se deu com o fato do cachorro estampar o rosto de David Bowie, mas aconteceu pelo fato de que havia um órgão sexual visível para quem visse a capa de Diamond Dogs. A capa, obviamente, foi censurada. As fotos da sessão que mostra Bowie segurando um cão enfurecido e prestes a atacar o primeiro indivíduo que estivesse ao alcance de suas mandíbulas nem sequer foram utilizadas para o mesmo fim do trabalho de Peelaert. Enquanto isso, cópias da edição original do disco são vendidas por quantias altíssimas no mercado negro.




A turnê resultante do disco teve início em julho de 1974 e rendeu o primeiro álbum ao vivo de Bowie, David Live (1974). A Hunger City foi recriada nos palcos com direito a um cenário baseado em Metropolis, do diretor alemão Fritz Lang. Foi, sem dúvida, a turnê mais ambiciosa de David Bowie até o momento. Músicos de primeira qualidade como o maestro e pianista Michael Kamen (e diretor musical do show), o tecladista Mike Garson, o guitarrista Earl Slick, o baixista Herbie Flowers, o baterista Tony Newman e o saxofonista David Sanborn, dentre outros, foram convocados para a Diamond Dogs Tour.


Os shows da turnê foram o marco da transição do arauto do Glam Rock para o Soulman esquelético e branco que sacudiu o planeta com uma música negra de altíssima qualidade. A foto que ilustra a capa traz um Bowie magérrimo, vestido com um belo terno azul bebê e que não lembra em nada a imagem de Ziggy Stardust. O alienígena, enfim, estava morto!






Menos de um ano depois de Diamond Dogs, a música de David Bowie tinha sofrido uma mutação tão radical quanto as trocas de pele de seu criador. A partir deste disco conceitual, o astro inglês estava pronto para viver intensamente uma mudança radical na música que estava fazendo a partir de 1974-1975. O resultado disto? O antológico Young Americans, que daria um novo direcionamento para a música de um dos artistas mais geniais de todos os tempos...




25 de abril de 2017

TROVA # 121

A MÚSICA QUE NOS SALVA


“Desobediência é a solução
Contra a tirania de sua tradição
Sua chibata bate mas eu tô de pé”
(Eduardo Brechó & Jairo Pereira, 2017)


            Os meus 20 e poucos anos foram bastante intensos. E me deram ocasiões que me ensinaram bastante. Uma das minhas favoritas aconteceu após um show de Rita Lee no Canecão, quando esperava a musa para poder tirar uma foto com ela e ficar alguns segundos perto de uma das artistas que mais influentes do Brasil. Rita, esfuziante e sorridente, conversava com amigos e fãs e logo nos atendeu, para emoção de todos os que estavam presentes. Meu encantamento foi ainda maior quando eu reparei que Ritz estava vestida com uma camiseta escrita: “music saves” [a música nos salva].


            Quando saí do Canecão, fiz da música meu estandarte e meu cavalo de batalha intelectual: ela me acompanhou na pós-graduação, na minha carreira enquanto professor, nas minhas pesquisas, no meu blog, na minha vida. Ela me ajuda a achar respostas para vários dos meus conflitos, me conforta, me dá alento. Especialmente em tempos nos quais a democracia no Brasil e no mundo é desafiada por medidas impopulares, pelos ataques aos direitos da sociedade e pela ascensão de lideranças profundamente conservadoras.


*

            A popularidade de 5% do Presidente ilegítimo Michel Temer é o retrato perfeito da convulsão social que o Brasil está prestes a se afundar se os direitos sociais continuarem a serem retirados com a desculpa de que há um ajuste fiscal a ser feito. Não basta limitar os gastos públicos em saúde e educação por vinte anos, o empresariado e a elite – vingativa, por odiarem um governo que, apesar dos erros políticos crassos, fez muito pelos pobres e pela classe média em 13 anos de governo – desejam sempre mais: já regulamentaram a terceirização para todos as atividades profissionais e querem aprovar uma reforma trabalhista e previdenciária sem mais nem menos. Silvio Santos, procurado por Temer, aproveitou para mandar sua equipe realizar comerciais de 30 segundos defendendo as reformas propostas pelo governo. Os manifestantes sequer possuem o direito de protestar contra seus algozes dentro do Congresso Nacional: são recebidos a pontapés, com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo pelas autoridades sem direito a qualquer espécie de argumento...
Na lógica dos golpistas, o pobre sempre é culpado, o menos favorecido é quem deve pagar. A lógica dos ilegítimos ignora os bilhões de reais que as grandes corporações devem para a Previdência Social, por exemplo. Enquanto o GAFE enlouquece com a manipulação de cada delação premiada da Odebrecht para tapear o povo brasileiro, a razão para as “medidas impopulares” fica cada vez mais clara: o “ajuste” serve para proteger os empresários devedores de fortunas para o Estado, que perdoa suas dívidas para poder explorar a classe trabalhadora ainda mais... Enquanto isso, e tome música para preencher os espaços da casa, já que o noticiário é a ficção mais inútil disponível no momento.

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Enquanto isso, no Tucanistão (mais conhecida como São Paulo ou Sampa, para os mais íntimos): os cidadãos veem um Prefeito que transformou a sua gestão (não se enganem, beautiful people: a especialidade dele é marketing, não a gestão em si!) em um enorme reality show. Os cidadãos paulistanos tomam conhecimento dos feitos pelo exercício do mandato através da promoção rasteira realizada pelas redes sociais de um indivíduo que se diz apolítico, mas que toma decisões extremamente políticas: defende o empresariado do qual ele faz parte, prejudica os menos favorecidos, foi conivente com as intervenções de um dos vereadores da câmara que visitou duas escolas com o intuito principal de intimidar os professores da Secretaria Municipal da Educação, aumentou os valores das passagens de ônibus mesmo com a qualidade terrível dos transportes da cidade, permitiu o aumento de velocidade das Marginais Tietê e Pinheiros – causando o aumento vertiginoso de acidentes e mortes por acidentes automobilísticos –, isso sem mencionar as catástrofes permanentes na área cultural: extinção do Clube do Choro e dos turnos de 24h da Biblioteca Mário de Andrade e a destruição dos grafites da avenida 23 de maio. Pergunto: estas medidas foram benéficas para quem? Enquanto a resposta não chega, a elite paulistana e os pobres de direita veem na figura do “PrefeiTOP” o seu expoente mais perfeito...


Já o ilustre Governador do Estado de São Paulo, eleito no auge da crise hídrica que quase matou os paulistas de sede e acusado por corrupção nas “míticas” delações da Odebrecht, é responsável por uma das linhas auxiliares do GAFE:  a TV Cultura, um dos canais mais respeitados do mundo por exibir uma programação estupenda, apesar de exibir programas de entrevistas bastante tendenciosos e noticiários com comentadores raivosos e simpáticos de ideologias fascistas. Uma das polêmicas mais chocantes surgidas nos últimos dias foi à censura sofrida pela banda Aláfia: ao se apresentarem no programa Cultura Livre, tocaram a canção “Liga nas de Cem”, na qual faz uma crônica sensacional do ódio das elites paulistanas pelos mais pobres e dá nome aos bois ao citar Alckmin e Dória no final da letra. A apresentadora Roberta Martinelli e os músicos fizeram barulho diante do corte hediondo. O lado bom da polêmica foi fazer com que a Aláfia se tornasse mais conhecida diante deste caos polarizado no qual vivemos. E a música continua nos salvando da mediocridade do Tucanistão...



*


            E o Dia de São Jorge de 2017 ficou mais triste com a partida de uma das vozes mais importantes da Jovem Guarda: Jerry Adriani partiu para outro plano aos 70 anos de idade, vítima de um câncer. Mesmo sofrendo as dores da doença, Jerry se apresentou ao vivo cantando para as multidões do Brasil até um mês antes de morrer. A música lhe salvou da dor e lhe trouxe uma espécie de alento para um sofrimento sem fim. Apesar de não ser fã, fiquei comovido com sua história e com a sua força diante dos fatos – não desistiu de sua carreira em um momento sequer, seguiu em frente enquanto pôde.



            Que os brasileiros encontrem inspiração no exemplo de Jerry Adriani para seguir resistindo por seus direitos e consiga parar o país na Greve Geral programada para o dia 28 de abril de 2017. Afinal, vejo que a luta contra aqueles que não nos representam no Congresso Nacional e à elite ignorante e egoísta parece não ter fim...


20 de abril de 2017

DISCOS DE VINIL # 28

KID ABELHA – MEU MUNDO GIRA EM TORNO DE VOCÊ (1996)



         O Kid Abelha foi uma das atrações principais do chamado “Rock Brasileiro” na década de 1980: a bela vocalista Paula Toller ao lado do saxofonista George Israel, do guitarrista Bruno Fortunato e de Leoni (baixista, letrista e vocalista, que participou dos primeiros discos da banda) foram alçados ao estrelato, com canções estouradas nas rádios, participações em programas de TV e videoclipes no Fantástico.


         Na década seguinte, já sem Leoni, o Kid Abelha perdeu em termos de lirismo e contestação, mas manteve a qualidade musical de seus discos. Paula Toller foi alçada à condição de sex symbol e passou a cantar melhor, fazendo uso de seu belo timbre não apenas para interpretar as canções do Kid, como também clássicos de Tim Maia e Roberto Carlos. Um dos melhores momentos da carreira da banda é Meu Mundo Gira em Torno de Você, décimo álbum da banda, lançado em 1996.
         Meu Mundo... é um dos discos mais vendidos da discografia do Kid Abelha – cerca de meio milhão de cópias vendidas em um pouco mais de 20 anos. O motivo para o sucesso se deve, em primeiro lugar, pela guinada de Paula, George e Bruno Fortunato por uma sonoridade mais voltada para o Pop, tendência adotada desde o início da década de 1990 com os discos Iê Iê Iê (1992) e Meio Desligado (1994). Além disto, a escolha do primeiro single foi a regravação de “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, de Hyldon, um dos maiores expoentes da música soul produzida no Brasil.


         O álbum é composto de canções de Paula Toller e George Israel, porém há algumas parcerias bissextas. A primeira delas, “Como É Que Eu Vou Embora” (primeira faixa do disco), é uma colaboração da cantora Cris Braun com George. Já a faixa-título é uma parceria de Paula, George e Jorge Mautner, além de duas parcerias com Lui Farias – “Combinação” e “La Nouveauté” –, cineasta e marido de Paula. Por fim, “A Moto” é um trabalho da vocalista do grupo ao lado de Herbert Vianna, guitarrista e líder do grupo Os Paralamas do Sucesso.

Paula Toller & Herbert Vianna


         “Te Amo Pra Sempre” chegou a ganhar um videoclipe que tocou bastante no verão de 1997 na extinta e saudosa MTV Brasil, com Paula Toller dançando na praia de biquíni tal qual uma menininha de dezoito anos. Uma canção jovial, com um refrão marcante como chiclete, com a duração perfeita para tocar no rádio e grudar nos seus ouvidos para sempre. Dentre os lados B de Meu Mundo... está “Vou Mergulhar”, décima faixa do disco, que faz alusão direta a “Além do Horizonte”, lendária parceria de Roberto e Erasmo Carlos.


         A crítica especializada da época detestou o disco, com versos completamente despretensiosos como os de “O Animal”, que encerrava o disco: “Me mimar demais / Foi o seu mal / A partir de agora / Seja um animal”. Os fãs ignoraram a caretice dos críticos e fizeram com que Meu Mundo... recebesse reedições de ouro e de platina, com remixes dos sucessos do disco.

         Se eu fosse escolher um disco essencial do Kid Abelha, não pensaria duas vezes e ficaria com Meu Mundo Gira em Torno de Você. Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato resumem em um único disco toda a essência de seu trabalho...