7 de maio de 2017

70.000 visualizações + OUTRAS LEITURAS


Olá a todos!

O Trovas de Vinil já teve mais de 70.000 visualizações! Atingimos a marca no final da manhã de 5 de maio de 2017. 

É uma honra sem tamanho saber que os textos que levo ao ar são visualizados não apenas pelos amigos, como também por pessoas que eu não conheço. Principalmente por se tratar de um projeto tão pessoal e tão querido por mim. Gostaria de agradecer a todos que leem, que comentam e que compartilham nossos textos pelas redes sociais.


E gostaria de aproveitar para falar de dois projetos "paralelos" que eu gostaria de apresentar para os que ainda não os conhecem: o primeiro deles é o meu livro O Doce & O Amargo do Secos & Molhados, que publiquei no final de 2015. Neste trabalho, baseado em minha Dissertação de Mestrado, fiz uma análise da trajetória e das canções do lendário grupo Secos & Molhados a partir de um levantamento histórico da canção brasileira contemporânea. Conheça um pouco mais sobre o meu livro através da página do Facebook: https://www.facebook.com/odoceeoamargodossecosemolhados/?ref=bookmarks


O segundo projeto do qual eu gostaria que vocês conhecessem é Mutações, livro de estreia de Renata Emily Fonseca Rodrigues, cujo prefácio é de minha autoria. Neste livro, a autora (que é a irmã que a vida me deu), reuniu textos poéticos, aforismos e crônicas e breves contos sobre o cotidiano dos seres humanos em pleno século XXI. Renata Emily tem muito a nos dizer. Conheça mais sobre a obra na página do Facebook: https://www.facebook.com/mutacoes2016/


Recados dados, pessoal! Espero que vocês continuem curtindo nosso Blog e se interessem pelas duas leituras que apresentei aqui para vocês. 
Muito obrigado a todos!


Beijos e abraços musicais do
VINIL

5 de maio de 2017

DISCOS DE VINIL # 30

RAUL SEIXAS – KRIG-HA, BANDOLO (1973)


 


Em um de seus sucessos mais expressivos na década de 1970, Rita Lee dizia que “um tal de Raul Seixas vem de disco voador”. Se levássemos em conta a música, a aparência, o estilo e a ambição de Raul dos Santos Seixas, poderíamos ter certeza de que Ritz estava nos dizendo a mais pura verdade. No entanto, os fatos dizem o contrário… Em seu primeiro sucesso, “Let Me Sing, Let Me Sing” dizia, descaradamente, miusturando Rock e Baião:


“Não vim aqui tratar dos seus problemas
O seu Messias ainda não chegou
Eu vim rever a moça de Ipanema
E vim dizer que o sonho
O sonho terminou
Eu vim rever a moça de Ipanema
E vim dizer que o sonho
O sonho terminou”

Pelo simples fato de não se tratar de um mero Messias do Rock, Raul também avisava que não estava aqui para agir e cantar como as belas cigarras, que encantam e seduzem a todos:

“Tenho 48 quilos, certo?
48 quilos de baião
Num vou cantar como a cigarra canta
Mas desse meu canto eu não lhe abro mão
Num vou cantar como a cigarra canta
Mas desse meu canto eu não lhe abro mão”

Quando Mestre Raul começou a tocar incessantemente entre nós a partir de 1973, já pudemos ver de cara que o baiano fã de Elvis Presley não tinha vindo para este mundo de estrelas musicais a passeio. Raulzito veio para fazer muito, mas muito barulho! Deixou para trás uma respeitada carreira de produtor musical, para dar início a uma carreira individual vitoriosa e brilhante. O título de sua estreia musical: Krig-Ha, Bandolo (título retirado de uma história de quadrinhos) quer dizer, nada mais nada menos do que, “Cuidado, lá vem o inimigo!”. Na foto da capa do disco, vemos um cantor que contraria toda a lógica do star system da Música Brasileira de 1973 – Raul se mostra magro, esquelético, de olhos entreabertos (efeitos da cannabis?), uma tatuagem na mão e um cordão dourado no centro do peito.
Definitivamente, Raul Seixas veio para ser um inimigo: da moral tradicionalista que regia o Brasil dos militares, dos bons costumes que nossos pais pregavam e nos obrigavam a seguir, ao bom gosto musical, dos velhos e novos baianos e sua música que deixava de ser contracultura para ser apropriada pelo sistema em meados da década de 1970.
Consequentemente, Raul Seixas se tornou um dos inimigos musicais mais perseguidos da ditadura militar entre 1973 e 1975 não pelo fato de assumir um discurso político, mas por assumir uma postura cáustica, irreverente e libertária perante o Brasil e o mundo que vivíamos nos anos 1970. Por outro lado, Raulzito se tornou o Rockstar brasileiro mais importante de nosso país graças à autenticidade de seu talento, de uma obra musical que se consolidou ao longo de duas décadas de sucesso e, principalmente, à sua estreia arrebatadora em disco.
Krig-Ha, Bandolo se inicia com uma belíssima introdução: Raulzito cantando “Good Rockin’ Tonight”, sucesso de Elvis Presley, deliciosamente desafinado aos nove anos de idade, revelando uma ambição de ser um astro que não se vê mais por aí em pleno século XXI. Para os que pensavam que estávamos ouvindo um disco de Rock, a faixa que se segue é um tapa muito bem dado nos ouvidos de pouca imaginação: “Mosca na Sopa” é um ponto de umbanda misturado com Rockabilly com um refrão tão empolgante e de uma ousadia tão gigantesca (Quem mais pensaria em misturar Macumba com Rock em 1973? Quem?!). Já avisava o baiano, com seu sotaque arrastado:


“Eu sou a mosca que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar
Eu sou a mosca que perturba o seu sono
Eu sou a mosca no seu quarto a zumbizar”

Raul Seixas não queria ser uma unanimidade. Queria conquistar o mundo com suas ideias, com seu ideal, com sua sociedade alternativa. Queria ser, como diz um de seus maiores clássicos, uma “Metamorfose Ambulante” ao invés de ‘ter aquela velha opinião formada sobre tudo’. Queria provocar a moral e os bons costumes do Brasil de 1973 com a sua “Dentadura Postiça” ao anunciar que ‘Vai subir / O preço do horror’. Queria nos avisar, via “As Minas do Rei Salomão”, que ‘Do passado me esqueci / No presente me perdi’ e que ‘Se chamarem diga que eu saí’.
Em “Al Capone”, avisa personalidades de peso como Frank Sinatra, Jesus Cristo, Júlio César e o velho mafioso de Chicago que em algum momento a picaretagem tem o seu fim, afinal, o velho Raulzito (que iria anunciar em pouco menos de uma década que tinha nascido há 10 mil anos atràs) era o astrólogo que conhecia os percalços da ‘história do princípio ao fim’. Na belíssima “Cachorro Urubu”, concluía que ‘A história é a mesma / Aprendi na quaresma / Depois do Carnaval / A carne é algo mortal / Com multa de avançar sinal’. E já em “Rockxixe”, enfim, avisava, sem a menor dó dos medíocres:


“Você é forte, mas eu sou muito mais lindo
O meu cinto cintilante, a minha bota, o meu boné
Não tenho pressa, tenho muita paciência
Na esquina da falência que eu te pego pelo pé”

Apesar de se revelar uma persona um tanto complexa de se compreender, Raulzito conseguia ter os seus momentos de lirismo e romantismo. Em “A Hora do Trem Passar”, ele suplica à mulher amada: ‘Diga meu amor, pois eu preciso escolher / Apagar as luzes, ficar perto de você’. Em “How Could I Know?”, pergunta, em inglês: ‘Como eu iria saber / que os meus olhos podiam ver no escuro?’, contrariando todas as expectativas de que era impossível distinguir o joio do trigo em tempos de trevas e escuridão.
No entanto, a canção mais emblemática de Raul Seixas foi escolhida para ser a última canção de Krig-Ha, Bandolo. “Ouro de Tolo” é uma crítica monumental ao pequeno burguês que sonhava com o sabor artificial do bolo solado do Milagre Econômico brasileiro, que esconde injustiças sociais, econômicas através de um viés político autoritário. Raulzito alega que deveria estar contente em meio ao seu Corcel 73, ao seu emprego que lhe faz um cidadão responsável, por ter tido sucesso, por deixar de passar fome no Rio de Janeiro, por ter o domingo para passear no zoológico e outras pequenices que fazem a vida de qualquer burguesia.
Eterno insatisfeito, porém, Raul acha que ‘vencer na vida’, seguindo a cartilha do sistema, é uma piada de péssimo gosto, por ser decepcionante, limitado, medíocre. Afinal de contas, nós, humanos, somos grandessíssemos idiotas que usam apenas 10% de nossas cabeças e que sendo doutores, padres ou policiais que contribuem para um ‘belo quadro social’ que não existe, que é falido desde a sua instituição via argumentos falaciosos. Diante da mediocridade que nos ronda, o que não precisamos fazer para nos livrar de uma existência comum. Deixemos a resposta para Mestre Raul:



“Eu é que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador”


Para Raul Seixas, a fuga desta realidade absurda era o disco voador que, como o Godot de Samuel Beckett, nunca veio. Para a nossa felicidade, já que os extraterrestres deixaram Raulzito conosco cantando e tocando até o final da década de 1980, quando a Morte veio lhe buscar depois de anos e anos de abusos de álcool e drogas. No entanto, a mulher misteriosa com a foice na mão não nos levou a música. 
Por tudo isto, o momento pede que revisitemos Krig-Ha, Bandolo e possamos entender mais uma vez o porquê de Raul Seixas ser um dos artistas mais geniais do planeta. 


3 de maio de 2017

TROVA # 123

O INCÊNDIO DOS VAGABUNDOS


“Workers can you stand it?
Oh, tell me how you can
Will you be a lousy scab
or will you be a man?

Which side are you on boys?
Which side are you on?

Don't scab for the bosses
Don't listen to their lies
Poor folks ain't got a chance
Unless they organize

Which side are you on boys?
Which side are you on?”
(Florence Reece na voz de Natalie Merchant, 2003)



“Fogo, fogo, fogo, água
Incêndio nas ruas
bomba, bomba, bomba, praça
Vielas, ratos, figuras, nuas

Plástico, jornal, rajada
Contagem, atraso
Pânico, pulseira, brinco, colar
Carteira, rádio, anel, sacola

Incêndio nas ruas
Incêndio nas ruas
Incêndio nas ruas
Incêndio nas ruas”
(Pedro Luís na voz de Ney Matogrosso, 2013)


         Quer queira, quer não, o Brasil parou no dia 28 de abril de 2017. A greve geral, originalmente convocada pelas centrais sindicais, teve a adesão de professores das redes pública e privada, metroviários, condutores e cobradores de ônibus e outros grupos de trabalhadores. O GAFE tentou desqualificar e descaracterizar o movimento através de uma cobertura jornalística parcial e descaradamente tendenciosa. O alto empresariado, as elites e os pobres de direita se sentiram aviltados por terem tido o seu direito de ir e vir abalado por “baderneiros defensores do Lula”. A classe política governista minimizou os protestos, mas se manteve em pânico ao constatar que aproximadamente 35 milhões de brasileiros literalmente cruzaram os braços.


         Para mim, a fala mais estarrecedora sobre a greve geral foi a do Prefeito de São Paulo e de um de seus subprefeitos. Ambos qualificaram os manifestantes de “vagabundos”, alegando que sexta-feira é dia de trabalho, ameaçaram os servidores públicos municipais e cortaram o ponto dos funcionários que não compareceram aos seus postos de trabalho naquele dia. Exemplo este seguido pelo Presidente da República, Michel Temer, em relação aos funcionários públicos federais, cujo dia também foi descontado – afinal de contas, o melhor dia para realizar uma greve deveria ser o domingo, pois, assim, não atrapalha o direito alheio de ir e voltar para onde desejasse. O povo lhes informou, sem o menor pesar, de que domingo é o dia das elites protestarem; a classe trabalhadora batalha por seus direitos durante a semana mesmo.


         No entanto, a mais genuína prova de vagabundagem não vem daqueles que cruzaram os braços e foram às ruas protestar contra as reformas trabalhista e previdenciária propostas pelo Governo Temer: os verdadeiros desocupados são os representantes da elite e do empresariado, donos das grandes corporações que devem bilhões de reais à Previdência Social e demais órgãos oficiais ao sonegarem encargos e tributos que resolveriam os problemas econômicos do país em um estalar de dedos. A ganância, a arrogância, a avareza e a hipocrisia destas pessoas nos obrigam a pagar taxas cada vez mais exorbitantes, pois elas se recusam em dividir as fortunas e os lucros de seus dividendos com o restante da sociedade. Com isso, a paciência dos contribuintes é carcomida e incendiada pelo cinismo de fazer inveja ao próprio Tio Patinhas.


         Os 4% de aprovação de Temer na Presidência da República evidenciam que o povo está farto da hipocrisia e da ganância de uma classe política que tem feito pouquíssimo para solucionar as questões endêmicas do Brasil. Some-se a este caldeirão fumegante 14 milhões de desempregados e uma grande mídia irresponsável e tendenciosa, a quem “carinhosamente” chamamos de GAFE. A revolta das pessoas nas ruas e nas redes sociais protestando, atravancando vias públicas e proferindo palavras de ordem para quem quiser ouvir é genuína, pois só a classe trabalhadora sabe o preço e a dor da ausência de direitos trabalhistas. Por outro lado, a reação dos policiais diante dos protestos (não-)pacíficos foi agressiva e truculenta, como sempre: milhares de cassetetes em riste, balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram utilizados para reprimir os manifestantes de maneira vil e covarde.




         A imprensa estrangeira, ao contrário do GAFE, não escondeu a greve geral para debaixo do tapete dos fatos e acontecimentos do dia. A comunidade internacional tomou conhecimento não apenas da crise política que tem assolado o Brasil há anos, como também da revolta dos “vagabundos” que incendiaram as principais ruas, estradas e avenidas do Brasil. Afinal, ainda persiste a esperança de que o incêndio promovido pelo povo seja uma resposta à altura do retrocesso pelo qual ele passa e sente na pele. 

1 de maio de 2017

TROVA # 122

A VOZ ONIPRESENTE
(OU minhas experiências com Belchior)


Em memória de Belchior (1946-2017)


“E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês”
(Belchior, 1976)


         Foi em um domingo, véspera de feriado, após o almoço de família. Tomei conhecimento de que Belchior tinha desaparecido de vez de nossas vidas. Estava em sua casa em uma bela e pacata cidade no interior do Rio Grande do Sul. Seu coração velho de guerra e combatente por mais de 70 anos de sonho de sangue e de América do Sul parou de bater enquanto o poeta da canção ouvia música clássica. De nada adiantarão as campanhas na Internet ou o amor verdadeiro dos fãs para que ele volte. De nada adiantará as reportagens sensacionalistas dos programas de TV ou a proliferação de comunidades nas redes sociais. E muito menos adiantarão as pichações clamando a sua volta legítima para o convívio dos brasileiros e a saída de um presidente ilegítimo do poder. Aquele rapaz latino-americano com pouco dinheiro no bolso não irá mais voltar.



         Antes de desaparecer da vida artística e dos olhos do grande público, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes foi um dos nomes mais importantes da música brasileira da década de 1970 para cá. Foi gravado por nomes da mais alta estirpe da MPB – Elis Regina, Roberto Carlos, Vanusa, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Zélia Duncan foram alguns dos artistas que gravaram suas canções. Álbuns como Anunciação (1976) e Coração Selvagem (1977) se tornaram não apenas verdadeiros clássicos, como também eram itens básicos de qualquer boa discografia de MPB.




         Belchior é uma falha gravíssima no meu departamento de ouvinte e pesquisador de música brasileira. Nunca fui um fã ávido ou ouvi seus trabalhos com atenção por pura falta de vergonha na cara ou da oportunidade de alguém que me dissesse: “Escute este disco aqui, pois ele vai fazer a sua cabeça”. Ele sempre esteve onipresente nas coisas que eu aprendi através de meus amados discos – o Trovador do Ceará sempre esteve nos meus ouvidos através das interpretações de Ney e de Roberto, de Elba, Vanusa ou Zélia, mas principalmente nas gravações eternas de Elis, a Pimentinha mais ousada, intensa e desaforada que o universo já teve notícia.





         Ao descobrir o álbum Falso Brilhante cintilando de maneira triunfal na discoteca de minha avó, D. Magaly, fiquei tão encantado com a voz de Elis Regina e a poética rascante de Belchior que o tal CD passou um bom tempo tocando só para mim lá em casa. Tempos depois, comprei uma cópia remasterizada do álbum de Elis e devolvi o “emprestado” para minha avó; afinal, a boa arte não deve ser um privilégio exclusivo dos sortudos: ela deve ser compartilhada, ouvida e amplificada no mais alto volume possível para que muitos conheçam o que os brasileiros sabem fazer melhor: música!




         O Trovador do Ceará não foi apenas aclamado como um grande poeta da canção brasileira: depois de passar pelas faculdades de medicina e filosofia, ele viveu como um Rimbaud. Veio do Ceará para São Paulo em busca de melhores oportunidades no universo da música e sofreu intensamente com as exigências mercantilistas da fama e da celebridade em um contexto capitalista. Escreveu canções sobre a ditatura militar que ele tanto sentiu na pele, outras de fortíssima crítica social, belas declarações de amor e misturou Edgar Allan Poe e Luiz Gonzaga com Beatles e Bob Dylan. Provocou um supostamente antiquado Caetano Veloso em meados dos anos 1970 em “Apenas Um Rapaz Latino-Americano” e foi convocado para o embate pelo sempre debochado Raul Seixas em “Eu Também Vou Reclamar”. Largou a fama e uma carreira de sucesso na década de 2000, vagou entre o Brasil e Uruguai, acumulou dívidas babilônicas (afinal, nunca ligava para o vil metal que ele tanto criticava) e viveu em um anonimato praticamente absoluto até o fim de seus dias.




         A saída de cena de Belchior trouxe enorme comoção de artistas, fãs e amantes de música brasileira. Além disto, surgiram os relatos de que o artista inquieto e bastante criativo durante seus últimos tempos – trabalhava em uma tradução de A Divina Comédia, de Dante Alighieri e compunha novas canções sem parar. Motivado pela revolta de um Brasil assolado pelas consequências de um golpe de estado parlamentar, o Trovador do Ceará planejava voltar aos palcos e fazer de sua arte um instrumento para combater as injustiças de nossos homens.



         Infelizmente, Belchior não conseguiu realizar o retorno triunfal que tanto planejava. Como ele teve o poder de influenciar as gerações posteriores a dele, deixou uma legião de admiradores que jamais permitirá que canções como “Medo de Avião”, “Paralelas”, “Como Nossos Pais”, “Apenas Um Rapaz Latino-Americano”, “A Palo Seco” e “Velha Roupa Colorida” caiam no esquecimento. Algo bastante justo para artistas de sua grandeza. Quem sabe assim aquela voz grave e roufenha se torna mais presente no cotidiano deste que vos escreve e aquece este coração velho de guerra?


27 de abril de 2017

DISCOS DE VINIL # 29

DAVID BOWIE – DIAMOND DOGS (1974)



 Os jovens que acreditam que Lady Gaga inventou as regras para fazer um disco megalomaníaco certamente não ouviram este disco de David Bowie com a devida atenção! Se é que ouviram ou sabem da importância de Bowie para a música do planeta… Diamond Dogs, lançado pelo astro inglês em 24 de abril de 1974, não é apenas uma das maiores pirações musicais de Bowie, mas também se trata de um dos discos mais comentados de toda a história da música!


Antes de apontar os mitos e os fatos em torno deste clássico que completa 40 anos neste mês de abril, é preciso pensar o seguinte: qual era a pele que revestia o camaleão em 1974?


Bowie tinha “assassinado” Ziggy Stardust em cima do palco do Hammersmith Odeon, em julho de 1973. Gravou um delicioso disco de covers (Pin-Ups) para tentar se livrar do alienígena-personagem que encarnara com tamanha perfeição. Hunky Dory e The Man who Sold The World já tinham se tornado figuras de um passado distante. Dentro de dois anos criaria e encarnaria o retorno de “The Thin White Duke” e em menos de um ano deixaria as vestimentas de roqueiro para trás para viver um elegante Soulman que faria o som e a imagem do Plastic Soul de Young Americans (1975).



No entanto, qual foi a personagem escolhida por Bowie entre o período de 1973 e 1974? “Halloween Jack”, um cara bem legal que habita a apocalíptica e decadente Hunger City, tema de Diamond Dogs.


Na verdade, Jack não era nada mais, nada menos do que um espectro de Ziggy: o corte de cabelo (com direito ao mullet irreconhecível), a maquiagem, o olhar desafiador eram exatamente os mesmos que Bowie lançava mão dois anos antes. Qual foi a jogada de mestre de Bowie para que o assassinato de Ziggy Stardust realmente fizesse sentido: um álbum conceitual!


A ideia inicial de David Bowie era fazer uma espécie de Opera Rock de 1984, obra-prima do escritor George Orwell. No entanto, a esposa de Orwell negou os direitos ao Camaleão inglês, que decidiu fazer uma alegoria das ideias do escritor em seu disco. Além disto, Bowie dispensou todos os seus colegas do “The Spiders from Mars” antes da gravação de Diamond Dogs.



Os fãs e os críticos sentiram grande falta do genial Mick Ronson, que tinha um estilo único ao dedilhar as cordas de uma guitarra, além de ser um instrumentista de mão cheia. A sonoridade do álbum ficou bastante crua no que diz respeito aos acordes de guitarra, apesar de Bowie se revezar entre guitarras, saxofones e teclados moog e mellotron e dos arranjos de cordas de Tony Visconti para a faixa “1984”. As influências do som dos Rolling Stones, para a felicidade dos amantes do bom Rock, ainda estavam lá (os riffs de guitarra da faixa-título e de “Rebel Rebel” refletem este fato com perfeição). No lugar das visões oníricas de “Ziggy Stardust” e “Aladdin Sane”, visões niilistas do caos urbano e das paranóias humanas (insufladas pelos abusos de cocaína cometidos por David Bowie himself)…


Para dar a imagem definitiva do habitante mais ilustre da Hunger City que se esvai em genocídio, enquanto o Big Brother observa todos os acontecimentos com o seu olhar atento, o artista plástico Guy Peellaert pintou uma criatura híbrida para a imagem da capa do disco: um cão com a genitália à mostra que tinha o rosto de Halloween Jack! O choque, obviamente, não se deu com o fato do cachorro estampar o rosto de David Bowie, mas aconteceu pelo fato de que havia um órgão sexual visível para quem visse a capa de Diamond Dogs. A capa, obviamente, foi censurada. As fotos da sessão que mostra Bowie segurando um cão enfurecido e prestes a atacar o primeiro indivíduo que estivesse ao alcance de suas mandíbulas nem sequer foram utilizadas para o mesmo fim do trabalho de Peelaert. Enquanto isso, cópias da edição original do disco são vendidas por quantias altíssimas no mercado negro.




A turnê resultante do disco teve início em julho de 1974 e rendeu o primeiro álbum ao vivo de Bowie, David Live (1974). A Hunger City foi recriada nos palcos com direito a um cenário baseado em Metropolis, do diretor alemão Fritz Lang. Foi, sem dúvida, a turnê mais ambiciosa de David Bowie até o momento. Músicos de primeira qualidade como o maestro e pianista Michael Kamen (e diretor musical do show), o tecladista Mike Garson, o guitarrista Earl Slick, o baixista Herbie Flowers, o baterista Tony Newman e o saxofonista David Sanborn, dentre outros, foram convocados para a Diamond Dogs Tour.


Os shows da turnê foram o marco da transição do arauto do Glam Rock para o Soulman esquelético e branco que sacudiu o planeta com uma música negra de altíssima qualidade. A foto que ilustra a capa traz um Bowie magérrimo, vestido com um belo terno azul bebê e que não lembra em nada a imagem de Ziggy Stardust. O alienígena, enfim, estava morto!






Menos de um ano depois de Diamond Dogs, a música de David Bowie tinha sofrido uma mutação tão radical quanto as trocas de pele de seu criador. A partir deste disco conceitual, o astro inglês estava pronto para viver intensamente uma mudança radical na música que estava fazendo a partir de 1974-1975. O resultado disto? O antológico Young Americans, que daria um novo direcionamento para a música de um dos artistas mais geniais de todos os tempos...