23 de agosto de 2020

TROVA # 148

 

SONS DA QUARENTENA

Adriana Calcanhotto é a prova de que o isolamento social pode até ser produtivo...

 

“No dia em que fui mais feliz...”

(Adriana Calcanhotto & Antonio Cicero, 1994)

 

1

    Adriana Calcahotto surgiu na minha vida há exatos 30 anos atrás: seu primeiro álbum, Enguiço (1990), tinha uma canção que tocava incessantemente durante as aventuras e desventuras de Mariana Szimanski, personagem de Renata Sorrah na novela Rainha da Sucata, de Silvio de Abreu. Eu tinha 9 anos de idade e não tinha condições para compreender a complexidade de versos como “E o meu coração embora / finja fazer mil viagens / fica batendo parado / naquela estação”, escritos por Caetano Veloso. De qualquer maneira, Adriana (Adrix para os íntimos) plantou a semente da dúvida e da intriga na estação dos meus afetos musicais.


Na medida em que fui deixando de dissociar o trabalho musical de Adriana Calcanhotto das trilhas sonoras das telenovelas da Rede Globo, fui descobrindo, aos poucos, que estávamos diante de uma cantora e compositora refinada, de uma sofisticação que ia muito além do dial da JB FM, da Antena 1, da Alpha, ou dos bons tempos da 98 FM. Graças à influência de duas primas paternas, descobri o terceiro álbum de Adriana, A Fábrica do Poema (1994) e me apaixonei perdidamente por seu trabalho. Quando ela lançou Maritmo (1998), comecei a comprar seus discos e fui me intrigando ainda mais: versos como “Entre por esta porta agora / E diga que me adora / Você tem meia hora / Pra mudar a minha vida” causaram um impacto profundo semelhante ao que eu tive com a Literatura de Clarice Lispector na década seguinte –compreender o que estava por trás das letras de Adrix, Antonio Cicero, Waly Salomão e outros letristas com quem ela estabelecia parcerias incríveis e geniais era uma tarefa bastante incomum para um jovem de 17 anos de idade que vivia em plena década de 1990, falemos a verdade...


Foi no lançamento do álbum / turnê Cantada (2002) que eu tive a coragem de ir a um show sozinho pela primeira vez na vida: vejam a barreira cultural que eu, um suburbano carioca de 21 anos da Ilha do Governador sem praticamente um centavo no bolso, tive que atravessar ao entrar no Canecão (templo musical da MPB que ficava em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro) apenas para ver Adriana Calcanhotto ao vivo. Essa é a primeira de algumas ousadias que eu devo a ela. Falar/escrever sobre seu trabalho musical é ter a certeza absoluta de estar remexendo em um baú de memórias afetivas e de shows memoráveis. Poderia ficar falando da beleza de O Micróbio do Samba (2012-2013) por horas seguidas, no qual uma interpretação de “Argumento” (Paulinho da Viola), em meio a luzes e fumaças transformava o palco em um cenário de um de filme de Bergman. Ou então poderia tecer várias crônicas musicais sobre espetáculos mais recentes como Olhos de Onda (2014), A Mulher do Pau Brasil (2018) ou Margem (2019-2020) com a paixão e as técnicas de escrita e análise que fui adquirindo pela vida acadêmica e profissional afora. No entanto, as circunstâncias que se abateram pelo Brasil e pelo mundo a partir de março de 2020 me impedem de fazer isso.

 

2

 

Até o final da tarde do dia 13 de março de 2020, uma sexta-feira 13, o mundo vivia a plenitude de sua normalidade. Minha rotina vivia a pleno vapor da intensidade de um ano letivo recém-iniciado em um novo ambiente de trabalho, mais saudável, porém com seus desafios. A turbulência profissional dos tempos de outrora dava lugar a um ritmo de trabalho mais leve e com a dose necessária de um conforto conquistado a custa de duras penas. Tinha acabado de concluir meu quarto curso de pós-graduação e traçava planos para iniciar mais um projeto acadêmico, já que a vida seguia nos desafiando e nos surpreendendo. Além disso, meus planos de voltar a escrever crônicas seguiam a todo vapor com outras promessas de publicação, já que a gaveta e o caderninho de anotações andavam repletos de escritos inéditos.

Enquanto isso, eu voltava a religar os laços com minha família carioca, depois da festa que comemorava o 5.º ano de vida do meu sobrinho. Apesar de ter que conviver com rendimentos mais modestos, estava em condições de pagar as contas – dentre os boletos, as prestações mensais da tão sonhada casa própria. A vida social se dividia entre os amigos, afilhados, parentes queridos, shows, cinema, teatro, livrarias e o apartamento novo, conquista principal de quase 15 anos de vida a dois. Em poucas palavras, viver não era um exercício de sofrimento, era um prazer do qual não se provava há bastante tempo. Mas, todas as nossas certezas, convicções e rotinas foram por água abaixo depois do décimo-terceiro dia do terceiro mês de 2020.

Foi naquele dia que a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou que o planeta estava diante de uma pandemia causada pelo vírus Sars-Cov-2, vulgo coronavírus, desconhecido por especialistas em medicina até recentemente. Para nos protegermos do inimigo invisível, era preciso fazer quarentena, isto é, ficar dentro de casa em pleno isolamento social para que o vírus não se espalhasse tanto e a curva de contágios diminuísse. Assim, não só nos protegeríamos da doença, como teríamos a garantia de que nossos entes e amigos queridos estariam sãos e salvos na medida do possível. Em menos de cinco dias, minha vida marcada por uma rotina trepidante ficou reduzida à convivência restrita à proteção dos 55 m² do meu apartamento “perdido na cidade”, com compromissos cancelados e a suspensão das atividades presenciais na escola onde trabalho por tempo indeterminado.

O pior da quarentena foi me obrigar a ser espectador da nossa desgraça em tempo real. Enquanto o número de infectados pelo coronavírus subia a níveis galopantes, vitimando milhares de pessoas, assistíamos a tensão política tomar conta do noticiário com a mesma intensidade dos contágios causados pela pandemia. Fato evidente e consumado: o Brasil é definitivamente o país mais emocionante de se viver nesta época, já que temos o vírus e o pandemônio político disputando os holofotes da imprensa a todo custo. As atividades ligadas aos setores culturais, como já sabemos, foram profundamente atingidas pela crise sanitária, já que aglomerações não são permitidas em nome da segurança de artistas, equipe e público. Por isso, tivemos que nos contentar com nossos ídolos fazendo aparições em lives caseiras em suas redes sociais para tentar diminuir as distâncias provocadas pelo distanciamento social obrigatório. Assim, não precisaríamos ter que nos condenar a ficar “fazendo longas cartas pra ninguém” em meio a tanta loucura...

 

3

 

Eis que, depois de dois meses de isolamento, Adriana Calcanhotto decidiu surpreender seu público com uma novidade musical: decidiu voltar a compor e gravou um álbum inteiro durante a pandemia. (2020) reúne nove canções inéditas que vão muito além da crônica musical de costumes e sentimentos: as faixas foram compostas, produzidas, gravadas e mixadas (tudo à distância) entre 27 de março e 8 de maio de 2020, um tempo recorde. É um trabalho que faz uma radiografia e tanto da vida brasileira antes e durante a pandemia com a sensibilidade que Adriana já emprestou a trabalhos anteriores como Senhas (1992) ou Loucura (2015). Ao contrário do que podia se esperar de um disco surgido em regime de confinamento, é um trabalho bem-humorado, irreverente, mas sem deixar de abordar certos aspectos difíceis da realidade atual. “Ninguém na Rua”, faixa de abertura, trata de solidão do isolamento sem deixar de encontrar o remédio para o sofrimento na memória e no pensamento de quem a gente ama. “Era Só” trata, com bastante simplicidade, do sentimento que (ainda) é a eterna “razão pra rima”.




Da vida que ficou lá fora antes de buscarmos proteção em nossas casas durante a quarentena, ficou a lembrança da vida vivida pelos quatro cantos do Brasil (“Lembrando da Estrada”) e as recordações de uma vida leve e liberta das convenções sociais que nos amarram (“Eu Vi Você Sambar”). A farra, antes amaldiçoada por simplesmente ser libertina e libertadora, hoje é maldita por aqueles que justificam que o Carnaval de 2020, por exemplo, ajudou a propagar o vírus entre nós – é importante deixar claro que a OMS declarou que não estávamos em pandemia dias durante os festejos do Rei Momo.




Na 4.ª faixa de , “O Que Temos”, Adriana nos lembra de que a solidão nos deu uma nova companheira para encararmos o mundo que ficou lá fora: as janelas são os nossos ingressos para a intimidade do outro, para o contato com o nosso semelhante, para o veículo das nossas revoltas e protestos, já que não podemos fazer passeatas e temos de nos contentar com notas de repúdio que não levam o Brasil a lugar algum que seja diferente do fundo do poço. O “Sol Quadrado” que nos ilumina também nos lembra de tudo de bom e de ruim que semeamos pelo mundo afora sempre irá nos trazer resultados (positivos ou negativos): “Diz uma lei da física / Que o que jogas pro alto volta para o teu telhado / O mundo dá voltas e agora / até o gado tá baratinado”. Em meio a um cotidiano no qual nós nos obrigamos a nos alimentar de notícias (o que seria de nós sem os jornalistas que se aventuram no front de batalha contra o coronavírus?), a melancolia e a tristeza acabam se tornando em nossas companheiras mais frequentes durante a quarentena. “Tive Notícias”, sexta faixa de , reproduz o sentimento de solidão que nos atormenta em meio de afetos e desafetos amorosos, que nos privam de beijos e abraços quando mais necessitamos deles.




Por outro lado, a quarentena também nos traz outro companheiro bastante desagradável: o tédio. Mas, Adriana Calcanhotto, versada na boa e velha Tropicália, decidiu brincar com isso e achou “melhor fazer uma canção”. Decidiu devorar o funk carioca, várias de suas expressões de duplo sentido e conotação sexual explícita para compor “Bunda Lê Lê”. O título chega até a nos remeter a algum sucesso de Latino ou Mr. Catra, mas é, segundo Adriana, o “Funk da Quarentena” que nos pergunta repetidamente: “O que que faz na quarentena?”. A resposta é bem simples: ler, estudar, ir à luta por um mundo melhor diante de tanta ignorância e falta de educação que existe no Brasil de hoje. Alguns ouvidos menos sensíveis e mais elitistas (arrogantes?) torceram o nariz e fizeram pouco de Adrix. Outros, incluindo este reles blogueiro de fim de semana, simplesmente adoraram.



Como encerramento para , Adriana Calcanhotto escolheu a canção mais inspirada de sua safra do isolamento. “Corre o Munda” é uma alusão direta ao Rio Mondego, que banha a cidade portuguesa de Coimbra, onde a artista passou a residir durante parte do ano por causa de suas aulas na renomada universidade (os romanos chamavam o rio de “Munda”, daí o termo). Não é simplesmente uma declaração de amor por terras portuguesas, é uma canção que trata da esperança que ainda há dentro de cada um de nós de retomar o ritmo da vida que ficou lá fora, de lançar-se ao mundo, de navegar, de viver por meio dos versos e sons de uma “compositora sem eira nem beira” em uma viagem cuja embarcação é a palavra cantada.

A quarentena foi, para algumas pessoas, sinônimo de prostração, revolta, depressão com alguns picos de produtividade e toneladas de teletrabalho e desespero. Se o nosso isolamento vai deixar algum legado para os outros é algo difícil de sabermos, mas o distanciamento de Adriana Calcanhotto nos oferta uma obra a ser apreciada futuramente com a vontade de saber mais a respeito de uma guerra travada contra inimigos invisíveis (o vírus, o tédio, o desespero, a angústia, a revolta) diante dos olhos e outros algozes bem visíveis diante dos seres humanos de bom coração (esses sequer merecem ser mencionados pelo nome).

Viu, Adriana? Por culpa sua e desse seu disco ótimo, que foi dedicado à memória de Moraes Moreira, estou até superando o meu bloqueio criativo e estou voltando às minhas crônicas. Devo mais uma a ti!


18 de agosto de 2020

ESTAMOS VOLTANDO...

Sim, é isso mesmo que você está lendo no título desta postagem: estamos voltando com as atividades do Blog Trovas de Vinil a partir desta semana!

Apesar de uns dizerem que blogs estão fora de moda (sim, até estão...), vamos sempre contra a corrente, contra as tendências, contra os estereótipos e vamos voltar às atividades dentro em breve! 

Já temos algumas postagens no forno, com crônicas, aventuras e desventuras musicais deste que vos escreve... por isso, AGUARDEM!

Até breve!

Vinil


1 de março de 2018

DISCOS DE VINIL # 49


ANGELA RÔ RÔ – COMPASSO (2006)


Estou bem melhor como cantora sem a nicotina e o alcatrão. Tenho mais fôlego, mais lucidez e melhorou meu sistema nervoso. Desafino menos.
(Angela Rô Rô)

         Angela Rô Rô é uma das cantoras mais talentosas da música brasileira: em uma carreira que se expande por quatro décadas, lançou 14 álbuns até o final de 2017 – 11 de estúdio e 3 ao vivo. Suas canções falam das mais variadas formas de amor – declarações de liberdade, protestos contra a depredação da natureza e as famosas odes amorosas em forma de canção são os temas mais recorrentes de sua obra musical.
         Compasso é o único álbum de inéditas lançado por Angela Rô Rô na década de 2000. Bastante elogiado pela crítica e aclamado pelo público, é um trabalho de parcerias interessantes: além do seu escudeiro de décadas, o tecladista Ricardo MacCord, há dobradinhas com a poeta e letrista Ana Terra (co-autora de “Amor Meu Grande Amor”) e com o pianista e produtor Antonio Adolfo, com quem a artista trabalhou em seus primeiros anos de carreira. O ouvinte é brindado com uma diversidade musical bastante interessante: Rock, Jazz, Forró, Blues, Bossa Nova e baladas românticas bem ao gosto das rádios de MPB.
         A faixa-título é uma declaração de amor à nova vida que surgia, um manifesto da nova Angela Rô Rô que surgia para os olhos e ouvidos do seu público: sóbria, sorridente e bastante esbelta (não menos louca, diga-se de passagem!) – uma imagem bastante distinta da gordinha sexy que vivia em plena esbórnia e cantava a fossa e a boemia como pouquíssimos. O uísque dos tempos de outrora fora substituído pela água mineral. A irreverência, como consequência, passou a ser abastecida por um bom humor menos agressivo:


É o que pulsa o meu sangue quente
É o que faz meu animal ser gente
É o meu compasso mais civilizado e controlado

Estou deixando o ar me respirar
Bebendo água pra lubrificar
Mirando a mente em algo producente
Meu alvo é a paz!

Vou carregar de tudo vida afora
Marcas de amor, de luto e espora
Deixo alegria e dor ao ir embora

Amo a vida a cada segundo
Pois para viver eu transformei meu mundo
Abro feliz o peito, é meu direito!
        
“Contagem regressiva”, um rock assinado pela cantora e Ricardo MacCord, se assemelha por demais com as gravações clássicas de Angela Rô Rô do início dos anos 1980 e uma das melhores faixas de Compasso, pois atesta o seu talento de intérprete:


Se alguma coisa perturba você
Larga a aflição e vem me ver
Se a solidão caça você
Larga essa dor, eu vou te ver!

Pode contar comigo contagem regressiva
Que eu ponho fim a essa tristeza compulsiva
Também, pra quê que serve amigo?
Chamego e conforto, teu barco à deriva
Posso ser teu porto! Meu bem!

Se o amor assusta você
Conta comigo, vem me ver
Se o amor feriu você
Sou teu amigo, vou te ver

Pode contar comigo contagem regressiva
Que eu ponho fim a essa tristeza compulsiva
Também, pra quê que serve amigo?
Chamego e conforto, teu barco à deriva
Posso ser teu porto! Meu bem!

         Dentre as faixas românticas de Compasso, destaca-se “Paixão”, parceria bissexta de Angela Rô Rô com a poeta Ana Terra, mais de duas décadas depois de “Amor, Meu Grande Amor”. Com Ricardo MacCord, compôs as apaixonadas “Sem Adeus” e “Loucura Maior”. No entanto, a faixa mais apaixonada deste CD é “Chance de Amar”, sétima faixa do disco, uma dobradinha de Rô Rô com o pianista, compositor e produtor musical Antônio Adolfo:  


Não é por sentir que te quero
Nem por saber esperar
Por todas as vezes que antes... foi vacilar
Sem medo de perdas ou ganhos
Sem pensar se amar
Ao longo de todos os anos... valeu tentar

Apenas a música lenta... tocando dentro de mim
Lembrando que um sonho de alento... não tem fim

Não é por pensar em você... como quem quer estudar
Todas as aulas da vida... sem faltar.
Sem culpa da curiosidade... pois tão pouco te vi
Ao longo de toda a cidade... ando a sorrir

Apenas a música lenta... tocando dentro de mim
Lembrando que todo o tormento... tem um fim

É por ser tanto que quero... que vou saber esperar
Por qualquer tipo de afeto... que brotar
Sem medo de perdas ou ganhos, sem pensar se amar
Ao longo de todos os anos... valeu tentar

Apenas a música lenta... tocando dentro de nós.
Lembrando num gesto amigo... não somos sós.

Teu caminho a liberdade... pro meu caminho cruzar.
Aprendi a dar valor... a qualquer chance de amar
A menor chance de amar.
A qualquer chance de amar.

No quesito diversidade musical, os fãs de Angela Rô Rô foram brindados com “Dá Pé!”, um reggae filosófico e bem debochado, bem ao estilo irreverente da artista. “Menti pra Você”, uma Bossa marcada pelos arranjos de MacCord, vai na contramão dos clássicos do gênero ao falar de amores fugazes, porém intensos. “Arranca Essa Flor” é um bolero delicado e inspirado no repertório musical de Omara Portuondo, uma das mais belas vozes cubanas. Por fim, “Não Adianta” é um forró, um lamento apaixonado que trata de dor e desilusão e comprova o quando Rô Rô é um intérprete versátil e inteligente, ao transitar com naturalidade por universos musicais distintos:


Tenho um coração apaixonado
Não adianta nem tentar curar
Não vejo mais o verde das pastagens
Nem ouço a brisa da alegria me chamar

Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais querer você
Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais querer você

Tenho um coração tão machucado
Não adianta nem amaciar!
Não ouço o riacho versejando
E os passarinhos cedo a cantar...

Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais querer você
Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais querer você

O sol se põe tardinha quase noite
E a sua ausência vira um açoite
Depois de um dia inteiro trabalhando
Não durmo com a saudade me açoitando

E o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que eu não posso mais querer você
E o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que eu não posso mais amar você

O sol se põe tardinha quase noite
E a sua ausência vira um açoite
Depois de um dia inteiro trabalhando
Não durmo com a saudade me açoitando

E o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que eu não posso mais querer você
E o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que eu não posso mais amar você

Talvez toda essa gente sinta o mesmo
E a essa hora corra para o bar
Só sei que o sentimento por você
Me fez até não querer mais me embriagar

Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais querer você
Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais amar você

Angela Rô Rô guardou para o final de Compasso as três faixas mais intensas do disco. “Bater Não Doi” e “Nossos Enganos” são duas canções de protesto bastante fortes, com mensagem direta: as consequências dos atos mais irresponsáveis dos seres humanos, a falta de perspectivas de um mundo a mercê dos desmandos dos homens, a vilania e a ambição do homo sapiens:


São nossos os nossos enganos
Os danos que danam em nós
Os erros que erramos unidos
Pagamos com a vida a sós

A vida com as horas contadas
O encontro marcado às escuras
Caminho de pedras marcadas
E um chão de penas duras

A raça humana ingrata
Só fez ferir a terra
De um jeito que não haja mais amanhã

Cruel geral tormenta
Doença, fome e guerra
Tão triste reconhecer que sou vilã

         O álbum se encerra com “Dorme, Sonha...”, um acalanto apaixonado e que foi número de abertura das primeiras apresentações da turnê deste álbum em São Paulo. Uma Angela Rô Rô lírica, intensa e apaixonada surge para o ouvinte, convidando sua musa amada para o sono redentor dos amantes apaixonados e sedentos por amor:


Dorme, dorme, dorme e sonha
Deixa o seu perfume em minha fronha
Acorda, acordo, a corda está sem nós
A corda deu um laço não estamos sós

Dorme e sonha espanta o medo
Meu amor é só o seu brinquedo
Acorda, acordo o seu adeus certeiro
leva o sonho do meu travesseiro
Em breve sei que vou sentir seu cheiro

         Compasso é um dos cinco trabalhos mais importantes da discografia de Angela Rô Rô, visto que apresentou a artista a uma nova geração de ouvintes de MPB e satisfez fãs saudosos de novos sucessos, do lirismo e da fina ironia de uma das cantoras mais talentosas de nossa música. Apesar de sóbria e limpa de quaisquer tipos de narcóticos, a loucura de Rô Rô se manteve intacta com o passar do tempo: continua intensa, hilária e apaixonada, por isso, é uma artista fundamental.



25 de fevereiro de 2018

TROVA # 147


MESTRE PAULINHO
(DUAS OU TRÊS COISINHAS SOBRE PAULINHO DA VIOLA)



Meu bem, perdoa
Perdoa meu coração pecador
Você sabe que jamais eu viverei
Sem o seu amor
(Paulinho da Viola, 1976)



Aproveitei a época do Carnaval e resolvi continuar ouvindo uma de minhas maiores inspirações musicais, Paulinho da Viola. Um dos maiores estandartes musicais da Portela, Paulinho é autor de letras inesquecíveis e de melodias belíssimas que resultam em sambas inesquecíveis e possui mais de cinquenta anos de indefectível carreira musical.


Paulo César Baptista de Faria pertence a uma família de enorme tradição no samba: filho do violonista César Faria, integrante do lendário grupo de choro Época de Ouro, Paulinho cresceu ouvindo mestres como Pixinguinha e Jacob do Bandolim tocando na sala de sua casa. Apesar do pai ter lhe dado seu primeiro violão, Sr. César não queria que o filho se tornasse músico. No entanto, o jovem Paulinho começou a se interessar por carnaval e organizou um bloco carnavalesco na zona norte do Rio de Janeiro.


Aos 19 anos, o jovem Paulo César era um contador e estudava economia. Foi nesta época que ele teve contato direto com Hermínio Bello de Carvalho, que lhe aconselhou a carreira de músico. Ao ouvir pela primeira vez as gravações de Cartola, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Carlos Cachaça e outros, o samba lhe fisgou em cheio. Começou a compor sambas em parceria com Hermínio e deu início a uma brilhante trajetória musical.


Meu primeiro contato com Paulinho da Viola se deu graças ao meu avô, Sr. Adhemar, que tinha comprado um dos álbuns mais importantes da obra do mestre, Bebadosamba (1996). Logo depois, o videoclipe de “Ame” era transmitido volta e meia pela MTV Brasil. Por fim, meu pai comprou uma coletânea de mestre portelense e aquele rio de versos e trovas nunca mais saiu dos meus ouvidos.


Minhas memórias com a obra musical de Paulinho da Viola sempre passam pela afetividade e com memórias de pura nostalgia: lembro, por exemplo, que meu avô não gostou muito de Bebadosamba porque achou o disco lento demais – hoje, ao ouvir este álbum, tenho o direito de discordar de meu avô e acho um dos trabalhos de samba mais belos que jamais se produziu nos últimos tempos. Lembro de um aniversário meu em que cantei “Foi um rio que passou em minha vida” no meio de uma roda de samba inesquecível. É graças a Mestre Paulinho e à Clara Nunes que desenvolvi meu amor e minha admiração pela Portela, apesar de ter ido pouquíssimas vezes a Madureira em mais de 37 anos de existência.


No entanto, nem todas as minhas lembranças com o filho do Sr. César são agradáveis. Não por uma questão de desgraça, mas por uma questão de um tédio mortal. Em abril de 2011, conseguimos ingressos para assistir a um show de Paulinho da Viola no SESC Pompeia. Não podia me conter de excitação em poder cantar clássicos como “Argumento”, “Timoneiro”, “Perdoa”, “Na Casa do Vavá” e tantos outros. Quando o show começou, Paulinho comunicou ao público que aquela apresentação seria única e somente de lados B de sua obra. Logo de cara, a decepção tomou conta daquelas cadeiras do SESC. Depois, tentei aceitar o argumento do artista, mesmo sentindo a falta de sons familiares de cavacos, de pandeiros e tamborins acompanhados de versos que eu pudesse cantar junto. Todavia, quem era eu para alterar a ordem dos sambas de uma lenda de nossa música?


Saí daquele show depois de ter dormido em alguns trechos, triste por não poder cantar várias daquelas canções que eu tanto esperava ouvir. Fiquei de mal com Paulinho da Viola por um tempo, mas retomei a ouvi-lo com a mesma devoção. Afinal, não poderia ter um coração leviano e ignorar um dos maiores artistas do planeta. Mas, infelizmente, aquela má impressão permaneceu guardada lá no fundo das gavetas da memória.


Ainda tenho a esperança de que vou fazer as pazes em definitivo com Paulinho da Viola e ir em um de seus shows e poder cantar a fina flor de seu cancioneiro sem jogar um sorriso de ironia sequer. Afinal, a poesia de Paulinho jamais sumirá pela poeira das ruas...




Marisa Monte e Paulinho da Viola