8 de setembro de 2020

TROVA # 150

 

SETE DE SETEMBRO: INDEPENDÊNCIA, NEGLIGÊNCIA OU MORTE?

Vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros?

              


 

“O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar

Livre para amar

Livre para amar

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser

Ir aonde quiser

Ir aonde quiser

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o brincar

Ame-o e deixe-o correr

Ame-o e deixe-o cansar

Ame-o e deixe-o dormir em paz

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ser o que ele é

Ser o que ele é”

(Gilberto Gil, 1976)

 

Estamos a dois anos do bicentenário do dia em que Dom Pedro I decidiu urrar por “Independência ou Morte” de cima de um burro (e não de um suntuoso cavalo, como sugere a história oficial). Apesar das celebrações oficiais em torno desse marco histórico, nosso país jamais pode se autodeclarar como livre ou independente. As mesmas elites que ditava as regras da economia, da política e de outras amarras há 200 anos AINDA fazem valer a lógica da exclusão no Brasil de hoje.

Antigamente, a gente assistia às novidades passarem diante de nossos olhos tal qual a Carolina do Chico Buarque. Hoje em dia, ficamos a par do que acontece pelas janelas abertas da Internet e dos meios de comunicação. O que não deve ter mudado muito de dois séculos para cá é o nível de revolta do povo, que pouco consegue fazer para mudar a sua (eterna?) condição de explorado e enganado. Enquanto alguns se conformam com atual estado das coisas, outros ficam indignados, revoltados, descabelados e tem a impressão de que atravessam um mar de solidão sem tamanho, sem fim.

Porém, é importante sacramentar a pergunta que não cala de jeito nenhum no ano da graça de 2020: vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros? Parcialmente, eu diria. E vou apontar alguns breves motivos para isso...

O atual Governo Federal, eleito na base das fake news e do ódio que sempre existiu em muitos de nós e que adora propagar pelas redes sociais o seu “patriotismo” típico dos piores anos da Ditadura Militar, tem se revelado como um verdadeiro vassalo dos EUA: submisso aos caprichos e insanidades de Donald Trump, o mandatário que ocupa o posto mais ilustre da República Federativa do Brasil (cujo nome não cito em público de jeito nenhum) já ofertou aos yankees uma base militar no Estado do Maranhão, tem planos de entregar a Amazônia de bandeja para o Tio Sam, fora as declarações “apaixonadas” ao Presidente norte-americanos. Isso sem citar detalhadamente todos os desmandos cometidos contra os mais pobres (Reforma da Previdência, vetos presidenciais que parecem atos institucionais etc.) e favorecendo os mais ricos.

Outro motivo gritante para ilustrar a nossa eterna condição de vira-lata é o seguinte: o Brasil JAMAIS poderá se autodeclarar como “independente” se prosseguir violando direitos do seu povo. O mundo inteiro sabe que nossos governantes administraram a nação de forma plenamente irresponsável quando o assunto é a pandemia causada pelo coronavírus. Na noite de 7 de setembro de 2020, enquanto o Sub-Trump falava à nação brasileira, contabilizamos mais de 4 milhões de infectados e mais de 127 mil mortos pela doença. Enquanto isso, milhões de brasileiros morrem de fome graças à ausência de políticas públicas que apoiem trabalhadores e pequenos empresários; milhares de estudantes não conseguem sequer estudar durante o período de isolamento social porque não conseguem ter acesso à Internet. Já a imprensa brasileira (que teve um papel determinante nas últimas eleições) segue cerceada pelo Governo Federal e parcialmente impossibilitada de noticiar os escândalos de corrupção que mencionem a família do Presidente. E, por fim, assistimos a Amazônia e o Pantanal em chamas, por culpa da imensa irresponsabilidade do Ministério do Meio Ambiente. Se fossemos governados por patriotas de verdade, jamais viveríamos situações tão absurdas assim...

A ocasião do feriado prolongado (a data comemorativa da Independência do Brasil caiu em uma segunda-feira) nos trouxe uma série sem fim de imagens desoladoras: praias, bares e restaurantes do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Nordeste lotadas de banhistas sem sequer termos uma vacina para o vírus; em um evento oficial, o Presidente da República desfila sem máscaras, sem qualquer tipo de proteção individual e com uma horda gigantesca de aloprados ao seu redor. A ciência, em nosso país, é constantemente ignorada e desrespeitada pelas autoridades em prol de um mercado desumano e de uma moral religiosa nada cristã, relegando a vida de milhares de pessoas para o segundo plano. Diante de 127 mil pessoas desaparecidas, temos algum motivo para celebrar?

Por outro lado, minha descrença em dias melhores no futuro sai um pouco de cena ao sabermos que temos uma classe artística e intelectual que consegue pensar o país com muito mais sabedoria e inteligência do que os infelizes que ocupam os Três Poderes e que estão comprometidos até o último fio de cabelo com os projetos de direita que sempre agradou as elites brasileiras. Seríamos muito infelizes sem o legado e o pensamento de lendas brasileiras como Glauber Rocha, Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tarsila do Amaral, Rita Lee, Lima Barreto, Djamila Ribeiro, Silvio Almeida, Antonio Candido, Silviano Santiago, Clarice Lispector, Teresa Cristina e tantos outros brasileiros ilustres e anônimos que sempre amaram o nosso país, apesar de tantos pesares. Graças ao trabalho dessas pessoas, eu me lembro que toda crise, por maior e pior que ela seja, é passageira e que, cedo ou tarde, teremos condição de ir às ruas com tranquilidade e com orgulho das coisas boas que ainda existem por aqui, independente da tendência política de qualquer governo.




7 de setembro de 2020 não deveria ser lembrado futuramente pelos dizeres “Independência ou Morte” ou “Ordem e Progresso”, mas por “Negligência e Morte” ou “Desordem e Retrocesso”. O que me consola diante de tamanho horror é ter a certeza absoluta de que eu jamais contribuí para isso já que, como diz a canção de Gilberto Gil, devemos ser livres para ser e amar como quisermos...

30 de agosto de 2020

TROVA # 149

BREGA, CHIQUE e FUNDAMENTAL

O isolamento social se tornou menos chato graças à reprise de Brega & Chique no Canal Viva... 

Desde que a pandemia nos obrigou a ficar em casa por tempo indeterminado, passamos a trabalhar em modo remoto, deixamos de sair para nos divertir e viver os outros prazeres da vida lá fora. Desde que a vida dentro do confinamento se tornou uma realidade sem glamour nenhum e com um tédio persistente, tive que apelar para uma companheira que andava meio sumida por uns tempos: a TV.

Uma opção mais saudável para aguentar a nova rotina à qual fomos submetidos desde meados de março foi assistir às reprises de novelas antigas que o Canal Viva tem levado ao ar há 10 anos, para alegria deste velho noveleiro que vos escreve. Finalmente tinha encontrado uma alternativa mais saudável para o tédio e o desespero ao alternar a atenção dos telespectadores daqui de casa entre o Viva e a Globo News e dar conta da insanidade que impera do lado de fora da nossa casa.

Afinal de contas, é preciso deixar claro que minha infância não foi passada lendo livros como eu gostaria, muito menos brincando na rua com outras crianças da minha idade (sempre fui um antissocial de carteirinha). Eu passei “a aurora da minha vida” na frente da TV assistindo os infantis da época e prestando atenção nas novelas da Rede Globo. Passei anos da minha vida adulta renegando os folhetins da infância até compreender depois de muito tempo que eu não seria quem eu sou hoje se eu não tivesse assistido clássicos da nossa dramaturgia na época como Vale Tudo, Bebê a Bordo, Que Rei Sou Eu?, Tieta, Rainha da Sucata, Lua Cheia de Amor, Vamp, Deus nos Acuda, Quatro por Quatro, as segundas versões de Mulheres de Areia e A Viagem, além da clássica A Próxima Vítima (provavelmente a última novela que eu assisti na íntegra durante a época em que foi ao ar).

As novelas não apenas fazem parte da cultura popular do brasileiro, como também é a porta de entrada de muitos deles para conhecermos a obra de gigantes da Literatura: jamais teria tido acesso à obra de Jorge Amado, de Nelson Rodrigues ou de Eça de Queiroz se não fosse o trabalho da teledramaturgia brasileira. Eis um fato do qual nem eu, nem você que me lê podemos fugir e, sim, devemos encará-lo de frente, sem vergonha nenhuma e com uma bela dose de orgulho.

* 

Um dos maiores magos do gênero telenovela foi Cassiano Gabus Mendes, autor de clássicos como Beto Rockfeller (1968), Anjo Mau (1976), Marrom Glacê (1979), Elas por Elas (1982), Ti Ti Ti (1985), Que Rei Sou Eu? (1989) dentre outros. Uma de suas marcas registradas era a sátira de costumes: o autor fazia questão de criticar o que existe de mais mesquinho e superficial na nossa sociedade, expondo os personagens ao ridículo por meio de situações fúteis e até preconceituosas. Suas novelas atraíam diversas faixas do público, arrancando risadas de crianças e adultos.




A oportunidade de conhecer melhor o universo de Cassiano se deu graças ao Canal Viva, que começou a reprisar Brega & Chique (1987) desde fevereiro de 2020, para a alegria dos saudosos das novelas da década de 1980 – eu só tinha seis anos na época em que a novela foi ao ar entre abril e novembro de 1987, por isso eu só me lembro de uma mísera cena. A trama principal da novela (exibida às 7h da noite na antiga programação da Rede Globo) é bastante simples para os telespectadores acostumados com as novelas de hoje: Herbert Alvaray (Jorge Dória), um homem rico é casado com Rafaela (Marília Pêra) uma dondoca e pai de três filhos adultos, porém mantém uma segunda família em um bairro de subúrbio com uma segunda mulher, Rosemere (Glória Menezes), uma mulher doce e humilde, com quem Herbert teve uma filha. 



Prestes a falir, Herbert decide simular a própria morte (com o apoio de seu advogado, fiel escudeiro e confidente) para fugir de seus credores e foge para a Suíça, deixando a sua família na miséria e uma herança de 1 milhão de dólares para a amante, que fica rica da noite para o dia. Obrigada a se reinventar, sua primeira esposa decide alugar uma casa na mesma vila no bairro pobre onde a amante do marido vive. Sem saber do homem que partilhavam no passado, as duas não só passam a se conhecer, como também se tornam em grandes amigas. 


Somemos a esse caldo, a presença constante de Zilda (Nívea Maria) – amiga próxima família e também amante de Herbert – e de Montenegro (Marco Nanini), o fiel advogado, apaixonado por Rafaela Alvaray, primeira esposa de seu chefe. O quadro de personagens se completa com os demais moradores da vila onde as duas famílias moravam e mais um elemento surpresa: Cláudio Serra (Raul Cortez), a identidade falsa de Herbert Alvaray, refeito de uma cirurgia plástica meses depois de sua fuga, pronto para rever suas famílias e suas amantes, já que está irreconhecível para aqueles que o conheciam como o falecido marido de Rafaela.

A trama, bem típica dos folhetins que a Globo fazia nos anos 1980 e às vezes tenta refazer por meio de remakes que quase sempre deixam a desejar, se sustentou perante a audiência da época graças à direção do esfuziante Jorge Fernando e de um elenco espetacular encabeçado pela saudosa Marília Pêra, Glória Menezes, Marco Nanini, Jorge Dória, Raul Cortez, Nívea Maria, Marcos Paulo (Luís Paulo) e Dennis Carvalho (Baltazar), além da participação de veteranos e jovens talentos da época como Cássia Kiss, Patrícia Pillar, Cássio Gabus Mendes, Cristina Mullins, Célia Biar, Neuza Amaral, Tato Gabus Mendes, Patrícia Travassos, Jayme Periard e por aí vai. A produção marcava o retorno de Marília às novelas depois de mais de uma década afastada de produções desse tipo. O sucesso de Brega & Chique foi tão retumbante na época de sua exibição, em 1987, que chegou a bater os níveis de audiência de O Outro, novela da oito de Aguinaldo Silva que ia ao ar na mesma época.







Assistir as trapalhadas e peripécias de Rafaela Alvaray (minha personagem preferida da novela e que tirou várias gargalhadas minhas em dias nos quais o noticiário andava caudaloso) não foi apenas um verdadeiro antídoto para os horrores que ficaram do lado de fora da porta da nossa casa, como também me deu uma pontilha de orgulho de ter nascido no mesmo país que Marília Pêra, uma das artistas mais brilhantes que o mundo já conheceu. Sua interpretação para a perua que deixa de ser rica para se transformar em uma vendedora de marmitas é uma das melhores atuações já vistas na história da televisão brasileira. A Rosemere de Glória Menezes, pobretona que se transforma em uma noveau riche em estalar de dedos, é uma interpretação sutil e de uma inteligência que demonstra o porquê da esposa de Tarcísio Meira ser uma das maiores damas de nossa teledramaturgia. A personagem Zilda foge dos estereótipos das mocinhas ingênuas e de bom caráter que Nívea Maria sempre interpretou até então. Jorge Dória e Raul Cortez, respectivamente, fizeram de Herbert Alvaray / Cláudio Serra um vilão marcado por um mau-caratismo sedutor, levemente caricato e infinitamente ordinário, para deleite de suas amadas e do público. E, por fim, o pacato e apaixonado Alberico Montenegro é um exemplo extraordinário do quanto Marco Nanini era hilário antes do surgimento da TV Pirata e muito antes do remake de A Grande Família – a dupla que ele formava com Marília rendia as melhores cenas de Brega & Chique.







Dois elementos da novela de Cassiano Gabus Mendes merecem destaque: as imagens da abertura e os discos que compunham a trilha sonora nacional e internacional de Brega & Chique. A entrada dos créditos do elenco, autores e direção aparecia em meio a imagens de mulheres estonteantes (candidatas de Miss Brasil entre elas) desfilando seus looks duvidosos e elegantes disputando o mesmo homem para, no fim, revelar a nudez milenar do ator e modelo fotográfico Vinícius Manne ao som de “Pelado”, do Ultraje a Rigor (quem se lembra do refrão, hoje clássico: “Pelado pelado / nu com a mão no bolso”?) – por causa disso, a novela chegou a ser ter problemas com a Censura por revelar aquilo que há por debaixo das roupas que vestimos.




Já os discos que fizeram a trilha sonora da novela continham o que havia de melhor na música brasileira e internacional no ano de 1987: uma gravação inédita de Caetano Veloso na época (“Preciso Aprender a Só Ser”), além de sucessos de Fábio Jr., Erasmo Carlos, Leo Gandelman, Beto Guedes, Raul Seixas e da dupla Rita Lee & Roberto de Carvalho, para não citar outros. A versão internacional trazia uma versão de Boy George para “Everything I Own”, do Bread, além de sucessos de Genesis, Whitesnake, George Michael, Simply Red, Jimmy Cliff e Janet Jackson etc. A trilha estrangeira de Brega & Chique deve ter sido uma das trilhas de novela que eu mais devo ter ouvido na vida, já que meus pais tinham uma versão dela em fita cassete, cuja capa mostrava alguns dos melhores atributos de Vinícius Manne.



Entre os meses de março e setembro de 2020, Brega & Chique foi minha companheira inseparável das tardes regadas a um bom café ou das madrugadas (quando não conseguia assistir o capítulo da tarde, assistia à reprise que passava às 0h45). As comédias não nos ajudam a esquecer dos males de uma pandemia, mas certamente nos ajudam na medida em que nos trazem diversão e doses de ironia para nos fazer pensar e rir do quão ridículos nós (ainda) somos. Afinal de contas, é preciso rir em meio às lágrimas que temos vertido ultimamente...

25 de agosto de 2020

LEITURAS DE SEGUNDA - 1 a 6

#1 - PATTI SMITH


#2 - JOÃO BOSCO & ALDIR BLANC


#3 - GILBERTO GIL


#4 - IVAN LINS & VITOR MARTINS


#5 - CLARICE LISPECTOR, SÉRGIO VAZ & LEO MANNINI


#6 - LIMA BARRETO, EDUARDO ALVES DA COSTA, CAETANO VELOSO & GILBERTO GIL



23 de agosto de 2020

TROVA # 148

 

SONS DA QUARENTENA

Adriana Calcanhotto é a prova de que o isolamento social pode até ser produtivo...

 

“No dia em que fui mais feliz...”

(Adriana Calcanhotto & Antonio Cicero, 1994)

 

1

    Adriana Calcahotto surgiu na minha vida há exatos 30 anos atrás: seu primeiro álbum, Enguiço (1990), tinha uma canção que tocava incessantemente durante as aventuras e desventuras de Mariana Szimanski, personagem de Renata Sorrah na novela Rainha da Sucata, de Silvio de Abreu. Eu tinha 9 anos de idade e não tinha condições para compreender a complexidade de versos como “E o meu coração embora / finja fazer mil viagens / fica batendo parado / naquela estação”, escritos por Caetano Veloso. De qualquer maneira, Adriana (Adrix para os íntimos) plantou a semente da dúvida e da intriga na estação dos meus afetos musicais.


Na medida em que fui deixando de dissociar o trabalho musical de Adriana Calcanhotto das trilhas sonoras das telenovelas da Rede Globo, fui descobrindo, aos poucos, que estávamos diante de uma cantora e compositora refinada, de uma sofisticação que ia muito além do dial da JB FM, da Antena 1, da Alpha, ou dos bons tempos da 98 FM. Graças à influência de duas primas paternas, descobri o terceiro álbum de Adriana, A Fábrica do Poema (1994) e me apaixonei perdidamente por seu trabalho. Quando ela lançou Maritmo (1998), comecei a comprar seus discos e fui me intrigando ainda mais: versos como “Entre por esta porta agora / E diga que me adora / Você tem meia hora / Pra mudar a minha vida” causaram um impacto profundo semelhante ao que eu tive com a Literatura de Clarice Lispector na década seguinte –compreender o que estava por trás das letras de Adrix, Antonio Cicero, Waly Salomão e outros letristas com quem ela estabelecia parcerias incríveis e geniais era uma tarefa bastante incomum para um jovem de 17 anos de idade que vivia em plena década de 1990, falemos a verdade...


Foi no lançamento do álbum / turnê Cantada (2002) que eu tive a coragem de ir a um show sozinho pela primeira vez na vida: vejam a barreira cultural que eu, um suburbano carioca de 21 anos da Ilha do Governador sem praticamente um centavo no bolso, tive que atravessar ao entrar no Canecão (templo musical da MPB que ficava em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro) apenas para ver Adriana Calcanhotto ao vivo. Essa é a primeira de algumas ousadias que eu devo a ela. Falar/escrever sobre seu trabalho musical é ter a certeza absoluta de estar remexendo em um baú de memórias afetivas e de shows memoráveis. Poderia ficar falando da beleza de O Micróbio do Samba (2012-2013) por horas seguidas, no qual uma interpretação de “Argumento” (Paulinho da Viola), em meio a luzes e fumaças transformava o palco em um cenário de um de filme de Bergman. Ou então poderia tecer várias crônicas musicais sobre espetáculos mais recentes como Olhos de Onda (2014), A Mulher do Pau Brasil (2018) ou Margem (2019-2020) com a paixão e as técnicas de escrita e análise que fui adquirindo pela vida acadêmica e profissional afora. No entanto, as circunstâncias que se abateram pelo Brasil e pelo mundo a partir de março de 2020 me impedem de fazer isso.

 

2

 

Até o final da tarde do dia 13 de março de 2020, uma sexta-feira 13, o mundo vivia a plenitude de sua normalidade. Minha rotina vivia a pleno vapor da intensidade de um ano letivo recém-iniciado em um novo ambiente de trabalho, mais saudável, porém com seus desafios. A turbulência profissional dos tempos de outrora dava lugar a um ritmo de trabalho mais leve e com a dose necessária de um conforto conquistado a custa de duras penas. Tinha acabado de concluir meu quarto curso de pós-graduação e traçava planos para iniciar mais um projeto acadêmico, já que a vida seguia nos desafiando e nos surpreendendo. Além disso, meus planos de voltar a escrever crônicas seguiam a todo vapor com outras promessas de publicação, já que a gaveta e o caderninho de anotações andavam repletos de escritos inéditos.

Enquanto isso, eu voltava a religar os laços com minha família carioca, depois da festa que comemorava o 5.º ano de vida do meu sobrinho. Apesar de ter que conviver com rendimentos mais modestos, estava em condições de pagar as contas – dentre os boletos, as prestações mensais da tão sonhada casa própria. A vida social se dividia entre os amigos, afilhados, parentes queridos, shows, cinema, teatro, livrarias e o apartamento novo, conquista principal de quase 15 anos de vida a dois. Em poucas palavras, viver não era um exercício de sofrimento, era um prazer do qual não se provava há bastante tempo. Mas, todas as nossas certezas, convicções e rotinas foram por água abaixo depois do décimo-terceiro dia do terceiro mês de 2020.

Foi naquele dia que a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou que o planeta estava diante de uma pandemia causada pelo vírus Sars-Cov-2, vulgo coronavírus, desconhecido por especialistas em medicina até recentemente. Para nos protegermos do inimigo invisível, era preciso fazer quarentena, isto é, ficar dentro de casa em pleno isolamento social para que o vírus não se espalhasse tanto e a curva de contágios diminuísse. Assim, não só nos protegeríamos da doença, como teríamos a garantia de que nossos entes e amigos queridos estariam sãos e salvos na medida do possível. Em menos de cinco dias, minha vida marcada por uma rotina trepidante ficou reduzida à convivência restrita à proteção dos 55 m² do meu apartamento “perdido na cidade”, com compromissos cancelados e a suspensão das atividades presenciais na escola onde trabalho por tempo indeterminado.

O pior da quarentena foi me obrigar a ser espectador da nossa desgraça em tempo real. Enquanto o número de infectados pelo coronavírus subia a níveis galopantes, vitimando milhares de pessoas, assistíamos a tensão política tomar conta do noticiário com a mesma intensidade dos contágios causados pela pandemia. Fato evidente e consumado: o Brasil é definitivamente o país mais emocionante de se viver nesta época, já que temos o vírus e o pandemônio político disputando os holofotes da imprensa a todo custo. As atividades ligadas aos setores culturais, como já sabemos, foram profundamente atingidas pela crise sanitária, já que aglomerações não são permitidas em nome da segurança de artistas, equipe e público. Por isso, tivemos que nos contentar com nossos ídolos fazendo aparições em lives caseiras em suas redes sociais para tentar diminuir as distâncias provocadas pelo distanciamento social obrigatório. Assim, não precisaríamos ter que nos condenar a ficar “fazendo longas cartas pra ninguém” em meio a tanta loucura...

 

3

 

Eis que, depois de dois meses de isolamento, Adriana Calcanhotto decidiu surpreender seu público com uma novidade musical: decidiu voltar a compor e gravou um álbum inteiro durante a pandemia. Só (2020) reúne nove canções inéditas que vão muito além da crônica musical de costumes e sentimentos: as faixas foram compostas, produzidas, gravadas e mixadas (tudo à distância) entre 27 de março e 8 de maio de 2020, um tempo recorde. É um trabalho que faz uma radiografia e tanto da vida brasileira antes e durante a pandemia com a sensibilidade que Adriana já emprestou a trabalhos anteriores como Senhas (1992) ou Loucura (2015). Ao contrário do que podia se esperar de um disco surgido em regime de confinamento, Só é um trabalho bem-humorado, irreverente, mas sem deixar de abordar certos aspectos difíceis da realidade atual. “Ninguém na Rua”, faixa de abertura, trata de solidão do isolamento sem deixar de encontrar o remédio para o sofrimento na memória e no pensamento de quem a gente ama. “Era Só” trata, com bastante simplicidade, do sentimento que (ainda) é a eterna “razão pra rima”.




Da vida que ficou lá fora antes de buscarmos proteção em nossas casas durante a quarentena, ficou a lembrança da vida vivida pelos quatro cantos do Brasil (“Lembrando da Estrada”) e as recordações de uma vida leve e liberta das convenções sociais que nos amarram (“Eu Vi Você Sambar”). A farra, antes amaldiçoada por simplesmente ser libertina e libertadora, hoje é maldita por aqueles que justificam que o Carnaval de 2020, por exemplo, ajudou a propagar o vírus entre nós – é importante deixar claro que a OMS declarou que não estávamos em pandemia dias durante os festejos do Rei Momo.




Na 4.ª faixa de Só, “O Que Temos”, Adriana nos lembra de que a solidão nos deu uma nova companheira para encararmos o mundo que ficou lá fora: as janelas são os nossos ingressos para a intimidade do outro, para o contato com o nosso semelhante, para o veículo das nossas revoltas e protestos, já que não podemos fazer passeatas e temos de nos contentar com notas de repúdio que não levam o Brasil a lugar algum que seja diferente do fundo do poço. O “Sol Quadrado” que nos ilumina também nos lembra de tudo de bom e de ruim que semeamos pelo mundo afora sempre irá nos trazer resultados (positivos ou negativos): “Diz uma lei da física / Que o que jogas pro alto volta para o teu telhado / O mundo dá voltas e agora / até o gado tá baratinado”. Em meio a um cotidiano no qual nós nos obrigamos a nos alimentar de notícias (o que seria de nós sem os jornalistas que se aventuram no front de batalha contra o coronavírus?), a melancolia e a tristeza acabam se tornando em nossas companheiras mais frequentes durante a quarentena. “Tive Notícias”, sexta faixa de Só, reproduz o sentimento de solidão que nos atormenta em meio de afetos e desafetos amorosos, que nos privam de beijos e abraços quando mais necessitamos deles.




Por outro lado, a quarentena também nos traz outro companheiro bastante desagradável: o tédio. Mas, Adriana Calcanhotto, versada na boa e velha Tropicália, decidiu brincar com isso e achou “melhor fazer uma canção”. Decidiu devorar o funk carioca, várias de suas expressões de duplo sentido e conotação sexual explícita para compor “Bunda Lê Lê”. O título chega até a nos remeter a algum sucesso de Latino ou Mr. Catra, mas é, segundo Adriana, o “Funk da Quarentena” que nos pergunta repetidamente: “O que que faz na quarentena?”. A resposta é bem simples: ler, estudar, ir à luta por um mundo melhor diante de tanta ignorância e falta de educação que existe no Brasil de hoje. Alguns ouvidos menos sensíveis e mais elitistas (arrogantes?) torceram o nariz e fizeram pouco de Adrix. Outros, incluindo este reles blogueiro de fim de semana, simplesmente adoraram.



Como encerramento para Só, Adriana Calcanhotto escolheu a canção mais inspirada de sua safra do isolamento. “Corre o Munda” é uma alusão direta ao Rio Mondego, que banha a cidade portuguesa de Coimbra, onde a artista passou a residir durante parte do ano por causa de suas aulas na renomada universidade (os romanos chamavam o rio de “Munda”, daí o termo). Não é simplesmente uma declaração de amor por terras portuguesas, é uma canção que trata da esperança que ainda há dentro de cada um de nós de retomar o ritmo da vida que ficou lá fora, de lançar-se ao mundo, de navegar, de viver por meio dos versos e sons de uma “compositora sem eira nem beira” em uma viagem cuja embarcação é a palavra cantada.

A quarentena foi, para algumas pessoas, sinônimo de prostração, revolta, depressão com alguns picos de produtividade e toneladas de teletrabalho e desespero. Se o nosso isolamento vai deixar algum legado para os outros é algo difícil de sabermos, mas o distanciamento de Adriana Calcanhotto nos oferta uma obra a ser apreciada futuramente com a vontade de saber mais a respeito de uma guerra travada contra inimigos invisíveis (o vírus, o tédio, o desespero, a angústia, a revolta) diante dos olhos e outros algozes bem visíveis diante dos seres humanos de bom coração (esses sequer merecem ser mencionados pelo nome).

Viu, Adriana? Por culpa sua e desse seu disco ótimo, que foi dedicado à memória de Moraes Moreira, estou até superando o meu bloqueio criativo e estou voltando às minhas crônicas. Devo mais uma a ti!


18 de agosto de 2020

ESTAMOS VOLTANDO...

Sim, é isso mesmo que você está lendo no título desta postagem: estamos voltando com as atividades do Blog Trovas de Vinil a partir desta semana!

Apesar de uns dizerem que blogs estão fora de moda (sim, até estão...), vamos sempre contra a corrente, contra as tendências, contra os estereótipos e vamos voltar às atividades dentro em breve! 

Já temos algumas postagens no forno, com crônicas, aventuras e desventuras musicais deste que vos escreve... por isso, AGUARDEM!

Até breve!

Vinil


1 de março de 2018

DISCOS DE VINIL # 49


ANGELA RÔ RÔ – COMPASSO (2006)


“Estou bem melhor como cantora sem a nicotina e o alcatrão. Tenho mais fôlego, mais lucidez e melhorou meu sistema nervoso. Desafino menos.”
(Angela Rô Rô)

         Angela Rô Rô é uma das cantoras mais talentosas da música brasileira: em uma carreira que se expande por quatro décadas, lançou 14 álbuns até o final de 2017 – 11 de estúdio e 3 ao vivo. Suas canções falam das mais variadas formas de amor – declarações de liberdade, protestos contra a depredação da natureza e as famosas odes amorosas em forma de canção são os temas mais recorrentes de sua obra musical.
         Compasso é o único álbum de inéditas lançado por Angela Rô Rô na década de 2000. Bastante elogiado pela crítica e aclamado pelo público, é um trabalho de parcerias interessantes: além do seu escudeiro de décadas, o tecladista Ricardo MacCord, há dobradinhas com a poeta e letrista Ana Terra (co-autora de “Amor Meu Grande Amor”) e com o pianista e produtor Antonio Adolfo, com quem a artista trabalhou em seus primeiros anos de carreira. O ouvinte é brindado com uma diversidade musical bastante interessante: Rock, Jazz, Forró, Blues, Bossa Nova e baladas românticas bem ao gosto das rádios de MPB.
         A faixa-título é uma declaração de amor à nova vida que surgia, um manifesto da nova Angela Rô Rô que surgia para os olhos e ouvidos do seu público: sóbria, sorridente e bastante esbelta (não menos louca, diga-se de passagem!) – uma imagem bastante distinta da gordinha sexy que vivia em plena esbórnia e cantava a fossa e a boemia como pouquíssimos. O uísque dos tempos de outrora fora substituído pela água mineral. A irreverência, como consequência, passou a ser abastecida por um bom humor menos agressivo:


É o que pulsa o meu sangue quente
É o que faz meu animal ser gente
É o meu compasso mais civilizado e controlado

Estou deixando o ar me respirar
Bebendo água pra lubrificar
Mirando a mente em algo producente
Meu alvo é a paz!

Vou carregar de tudo vida afora
Marcas de amor, de luto e espora
Deixo alegria e dor ao ir embora

Amo a vida a cada segundo
Pois para viver eu transformei meu mundo
Abro feliz o peito, é meu direito!
        
“Contagem regressiva”, um rock assinado pela cantora e Ricardo MacCord, se assemelha por demais com as gravações clássicas de Angela Rô Rô do início dos anos 1980 e uma das melhores faixas de Compasso, pois atesta o seu talento de intérprete:


Se alguma coisa perturba você
Larga a aflição e vem me ver
Se a solidão caça você
Larga essa dor, eu vou te ver!

Pode contar comigo contagem regressiva
Que eu ponho fim a essa tristeza compulsiva
Também, pra quê que serve amigo?
Chamego e conforto, teu barco à deriva
Posso ser teu porto! Meu bem!

Se o amor assusta você
Conta comigo, vem me ver
Se o amor feriu você
Sou teu amigo, vou te ver

Pode contar comigo contagem regressiva
Que eu ponho fim a essa tristeza compulsiva
Também, pra quê que serve amigo?
Chamego e conforto, teu barco à deriva
Posso ser teu porto! Meu bem!

         Dentre as faixas românticas de Compasso, destaca-se “Paixão”, parceria bissexta de Angela Rô Rô com a poeta Ana Terra, mais de duas décadas depois de “Amor, Meu Grande Amor”. Com Ricardo MacCord, compôs as apaixonadas “Sem Adeus” e “Loucura Maior”. No entanto, a faixa mais apaixonada deste CD é “Chance de Amar”, sétima faixa do disco, uma dobradinha de Rô Rô com o pianista, compositor e produtor musical Antônio Adolfo:  


Não é por sentir que te quero
Nem por saber esperar
Por todas as vezes que antes... foi vacilar
Sem medo de perdas ou ganhos
Sem pensar se amar
Ao longo de todos os anos... valeu tentar

Apenas a música lenta... tocando dentro de mim
Lembrando que um sonho de alento... não tem fim

Não é por pensar em você... como quem quer estudar
Todas as aulas da vida... sem faltar.
Sem culpa da curiosidade... pois tão pouco te vi
Ao longo de toda a cidade... ando a sorrir

Apenas a música lenta... tocando dentro de mim
Lembrando que todo o tormento... tem um fim

É por ser tanto que quero... que vou saber esperar
Por qualquer tipo de afeto... que brotar
Sem medo de perdas ou ganhos, sem pensar se amar
Ao longo de todos os anos... valeu tentar

Apenas a música lenta... tocando dentro de nós.
Lembrando num gesto amigo... não somos sós.

Teu caminho a liberdade... pro meu caminho cruzar.
Aprendi a dar valor... a qualquer chance de amar
A menor chance de amar.
A qualquer chance de amar.

No quesito diversidade musical, os fãs de Angela Rô Rô foram brindados com “Dá Pé!”, um reggae filosófico e bem debochado, bem ao estilo irreverente da artista. “Menti pra Você”, uma Bossa marcada pelos arranjos de MacCord, vai na contramão dos clássicos do gênero ao falar de amores fugazes, porém intensos. “Arranca Essa Flor” é um bolero delicado e inspirado no repertório musical de Omara Portuondo, uma das mais belas vozes cubanas. Por fim, “Não Adianta” é um forró, um lamento apaixonado que trata de dor e desilusão e comprova o quando Rô Rô é um intérprete versátil e inteligente, ao transitar com naturalidade por universos musicais distintos:


Tenho um coração apaixonado
Não adianta nem tentar curar
Não vejo mais o verde das pastagens
Nem ouço a brisa da alegria me chamar

Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais querer você
Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais querer você

Tenho um coração tão machucado
Não adianta nem amaciar!
Não ouço o riacho versejando
E os passarinhos cedo a cantar...

Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais querer você
Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais querer você

O sol se põe tardinha quase noite
E a sua ausência vira um açoite
Depois de um dia inteiro trabalhando
Não durmo com a saudade me açoitando

E o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que eu não posso mais querer você
E o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que eu não posso mais amar você

O sol se põe tardinha quase noite
E a sua ausência vira um açoite
Depois de um dia inteiro trabalhando
Não durmo com a saudade me açoitando

E o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que eu não posso mais querer você
E o meu sonho sem sono vem a me dizer
Que eu não posso mais amar você

Talvez toda essa gente sinta o mesmo
E a essa hora corra para o bar
Só sei que o sentimento por você
Me fez até não querer mais me embriagar

Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais querer você
Pois só escuto a dor a me dizer
Que eu não posso mais amar você

Angela Rô Rô guardou para o final de Compasso as três faixas mais intensas do disco. “Bater Não Doi” e “Nossos Enganos” são duas canções de protesto bastante fortes, com mensagem direta: as consequências dos atos mais irresponsáveis dos seres humanos, a falta de perspectivas de um mundo a mercê dos desmandos dos homens, a vilania e a ambição do homo sapiens:


São nossos os nossos enganos
Os danos que danam em nós
Os erros que erramos unidos
Pagamos com a vida a sós

A vida com as horas contadas
O encontro marcado às escuras
Caminho de pedras marcadas
E um chão de penas duras

A raça humana ingrata
Só fez ferir a terra
De um jeito que não haja mais amanhã

Cruel geral tormenta
Doença, fome e guerra
Tão triste reconhecer que sou vilã

         O álbum se encerra com “Dorme, Sonha...”, um acalanto apaixonado e que foi número de abertura das primeiras apresentações da turnê deste álbum em São Paulo. Uma Angela Rô Rô lírica, intensa e apaixonada surge para o ouvinte, convidando sua musa amada para o sono redentor dos amantes apaixonados e sedentos por amor:


Dorme, dorme, dorme e sonha
Deixa o seu perfume em minha fronha
Acorda, acordo, a corda está sem nós
A corda deu um laço não estamos sós

Dorme e sonha espanta o medo
Meu amor é só o seu brinquedo
Acorda, acordo o seu adeus certeiro
leva o sonho do meu travesseiro
Em breve sei que vou sentir seu cheiro

         Compasso é um dos cinco trabalhos mais importantes da discografia de Angela Rô Rô, visto que apresentou a artista a uma nova geração de ouvintes de MPB e satisfez fãs saudosos de novos sucessos, do lirismo e da fina ironia de uma das cantoras mais talentosas de nossa música. Apesar de sóbria e limpa de quaisquer tipos de narcóticos, a loucura de Rô Rô se manteve intacta com o passar do tempo: continua intensa, hilária e apaixonada, por isso, é uma artista fundamental.