19 de outubro de 2020

TROVA # 151

 

LEMBRANÇAS REGADAS A CAFEÍNA

A lição mais significativa em quase 40 anos de idade é a seguinte: seja bastante seletivo em relação a QUEM devemos convidar para tomar um café conosco. 

“I had some dreams

They were clouds in my coffee…”

(Carly Simon, 1972)

 

A planta mágica e milagrosa que conhecemos nos dias de hoje como CAFÉ surgiu há muitos anos atrás em Cafa e Enária, regiões da Etiópia. Tempos depois, a especiaria começou a ser cultivada no Iêmen, região do Oeste da Arábia com os nomes de “Kaweh”, “Kahwah” ou “Cahue” – os três com o mesmo significado: VINHO.

Da Antiguidade até o Século XXI, o café está para nós na mesma proporção que os longos cabelos estavam para Sansão. Atualmente, existem locais nos quais podemos degusta-lo dos modos mais diversos, com preços dos mais variados e das qualidades mais questionáveis também. Diante do que está posto, o fato é indiscutível: entre as nuvens mais espessas da memória, muitas das minhas lembranças foram regadas a doses generosas de café.


Patti Smith - New York, 2015 


Quando conheço experiências de outras pessoas pela vida afora que também foram regadas a café, surge em mim uma pontinha de identificação quase instantânea: Chico Buarque declarou que não consegue trabalhar em projeto nenhum sem cafeína por perto; Patti Smith escreveu um belo livro em 2015 no qual ela conta um pouco de suas andanças e leituras por vários lugares ao redor do mundo, nos brindando com passagens por cafeterias e polaroides de Nova York, Tóquio, Rockaway Beach, Tanger e até pela Guiana Francesa.


Carly Simon - Londres, 1972

De todos os episódios alheios dos famosos e cafés, o meu preferido ocorreu por volta de 1971. Pouco antes de se tornar reconhecida no mundo inteiro por causa do hit “You’re So Vain”, Carly Simon relatou em versos e sons a sua enorme frustração de um amor malsucedido por meio de uma visão surpreendente: seus sonhos de viver a plenitude do sentimento amoroso foram tão consistentes quanto uma imagem passageira de nuvens que estavam refletidas sob o café que estava tomando em uma viagem de avião. Tempos depois, a própria Carly confessou que o insight foi fornecido a ela por um de seus companheiros de banda na época, o pianista Billy Mernit, que pediu para que ela prestasse mais atenção naquela montagem quase absurda e ela entendeu que os sonhos amorosos que ela vivia eram tão consistentes quanto às nuvens que a “visitaram”.



   Minhas primeiras memórias da vida adulta regadas a café remontam a meados dos anos 2000. Naquela época, recém-instalado em São Paulo, minha amiga Ana Paula Raulickis resolveu criar um blog com o sugestivo nome de Caféina. Em cada dia da semana, uma pessoa escrevia um texto sob um pseudônimo e divulgava seus escritos pela Internet afora. Em silenciosa homenagem a Carly Simon, escolhi o codinome Mr. Simon para as minhas poucas postagens do finado blog – tempos depois, a página do Facebook tornou-se o veículo oficial das promoções do Cafeína, além de veículo de divulgação do meu Blog e dos eventos relacionados às noites de lançamento do meu primeiro livro e, evidentemente, de inúmeras declarações de amor ao café capitaneadas incansavelmente pela Ana. De qualquer maneira, foi graças ao Cafeína que eu criei coragem para investir na escrita, sem medo de certos julgamentos por parte dos outros.

O logo da página do Cafeína no Facebook

Antes de me aventurar pela escrita de vez, precisei abraçar uma profissão “oficial”, pois se existem instituições que sempre vencem a batalha do capital elas são os boletos de pagamento. Dar conta de jornadas de trabalho que se estendiam pelos três turnos e com pouco tempo de intervalo entre aulas e reuniões só era possível graças a generosas doses de café. Quando trabalhava com aulas particulares, tinha a vantagem de ter como local de trabalho o café Starbucks ou a Cristallo do Shopping Center 3, no coração da Avenida Paulista. Não foi uma vez ou duas que eu (estabanado profissional que sempre fui) derrubei doses inteiras do líquido mágico das arábias no meu ambiente de trabalho sem chegar a queimar ou sujar nenhum dos meus alunos.

Por outro lado, a cozinha da escola onde trabalho hoje em dia se transformou em um ponto de encontro de alguns colegas de trabalho sempre dispostos a fazer “terapia de grupo”. Falando em situações terapêuticas em grupo, outra prática excelente à qual eu passei a me dedicar com três ex-companheiras de trabalho (e que se tornaram amigas muito queridas) uma ou duas vezes ao ano era marcar encontros que duravam tardes a fio. Quando achamos o local ideal para as nossas sessões de “Badmouthing Café”, o já saudoso Coffeetown Tatuapé (administrado por uma ex-aluna minha muito querida e fechado de vez por culpa da pandemia do coronavírus), não haveria limites para a nossa diversão, generosamente regada a cafés e pedaços de bolo Red Velvet. Momentos como esses, guardados carinhosamente na memória dos meus poucos afetos, nos fazem acreditar que viver vale (muito) a pena.


(É muito importante abrir parênteses para fazer uma diferenciação entre os tipos de pessoas com as quais nos sentamos em mesas de bar e em mesas de café. No momento do porre, qualquer um que estiver por perto serve para afogarmos nossas mágoas em copos de cerveja e/ou caipirinha. O mesmo não se aplica aos seres humanos com quem dividimos o prazer pela cafeína, pois confidências das mais íntimas são trocadas entre um macchiatto e um espresso – se as intimidades vazarem na mesa de um bar o culpado deve ser o álcool, jamais a cafeína. Eu me lembro claramente do sabor dos drinks servidos no Café do Ponto da Rua Augusta: bebidas inesquecíveis ao lado de pessoas que fiz questão de esquecer para todo o sempre. Por isso, a lição mais significativa que os meus quase 40 anos de idade me deram em matéria de amizades foi ser bastante seletivo em relação a QUEM devemos convidar para tomar um café conosco.)

Uma imagem da exposição Cápsula do Tempo: Identidade e Ruptura no Vestir de Ney Matogrosso

Mas, por outro lado, é sempre fundamental resgatarmos algumas memórias repletas do amor e do carinho que só os nossos amigos, irmãos que escolhemos e que nos escolhem para a vida toda. Jamais me esqueci de uma tarde em Santo Amaro, extremo sul de São Paulo, na qual Rosana Barbosa e eu tomamos um generoso café na Kopenhagen depois de visitar a exposição Cápsula do Tempo: Identidade e Ruptura no Vestir de Ney Matogrosso, que reunia vários figurinos de palco de Ney em décadas de carreira pelos palcos do Brasil e do mundo. O achocolatado deles foi um verdadeiro prêmio para nós dois depois de horas de deslocamento de um lado para o outro da cidade.



Café Santo Grão - Foto: Nilton Serra

Outro evento inesquecível para nós aqui de casa foi quando nossos compadres Gabi e Luiz Medelo se deslocaram da Zona Oeste para a Zona Leste de São Paulo às 23h de um sábado para irmos juntos ao badalado Santo Grão, nos Jardins. Para exercitar o meu (desnecessário) pedantismo, decidi deixar o café de lado a princípio para pedir uma dose de Vinho do Porto e ficar bem esfuziante com a “ousadia”. A mesa inteira caiu na gargalhada diante de minha frustração ao descobrir o tamanho MINÚSCULO do cálice no qual a bebida foi servida. Ignorar uma dose de café dentro de um templo da cafeína soa quase como uma ofensa aos amantes do líquido mágico das arábias. Recolhida a revolta, pedi uma xícara de cappuccino e rumamos de volta à ZL para fechar a noite tomando Irish Coffee na antiga Cristallo do Tatuapé, engolida pelas crises econômicas dos anos 2010 e pelas recorrentes especulações imobiliárias.

Uma madrugada na cafeteria Cristallo, do Tatuapé - Foto: Nilton Serra


Uma lembrança que eu guardo com bastante carinho é da primeira da Maria, nossa afilhada. A partir de julho de 2014, foi fundamental que o ritmo de trabalho cada vez mais frenético e alucinante diminuísse para acompanhar o crescimento de uma menininha bastante esperada um pouco mais de perto, já que ela mora a mais de 100 km de distância de São Paulo. Em uma das nossas visitas a Campinas, meus compadres sempre nos ofereceram doses bem fortes de espresso naquelas canecas esmaltadas coloridinhas que alegram o visual de qualquer cozinha e de qualquer mesa de jantar. Maricota, no meu colo, não só ficava animada com as canequinhas, como também pediu a sua para “brincar” de tomar café com os Dindos. Ao me ver sorvendo meus goles do líquido milagroso das arábias, a pequerrucha passou a me imitar também, para total alegria de Tio Vini.

Em meio às incertezas constantes da possibilidade de vivermos a normalidade das cafeterias por causa de uma pandemia e da impossibilidade de abraçarmos quem a gente gosta, a única possiblidade de prazer gerado pela cafeína que me sobrou foi o café que eu tomava de tarde durante os capítulos de Brega & Chique no Canal Viva. Entre um gole e outro, muitas das minhas lembranças da vida antes do vírus retornam como cenas do filme da minha vida que parece um passado bastante longínquo.

Uma selfie durante o isolamento acompanhado de uma xícara de café... 


Porém, como a promessa de conversas íntimas, carinhos e afetos entre xícaras de café ainda é uma promessa dependente de uma vacina ou do bom senso das pessoas, o máximo a ser feito é ligar a câmera do celular para trocar confidências com quem te vê do outro lado da telinha ou reavivar um pequeno diário de lembranças regadas a cafeína...

8 de setembro de 2020

TROVA # 150

 

SETE DE SETEMBRO: INDEPENDÊNCIA, NEGLIGÊNCIA OU MORTE?

Vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros?

              


 

“O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar

Livre para amar

Livre para amar

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser

Ir aonde quiser

Ir aonde quiser

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o brincar

Ame-o e deixe-o correr

Ame-o e deixe-o cansar

Ame-o e deixe-o dormir em paz

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ser o que ele é

Ser o que ele é”

(Gilberto Gil, 1976)

 

Estamos a dois anos do bicentenário do dia em que Dom Pedro I decidiu urrar por “Independência ou Morte” de cima de um burro (e não de um suntuoso cavalo, como sugere a história oficial). Apesar das celebrações oficiais em torno desse marco histórico, nosso país jamais pode se autodeclarar como livre ou independente. As mesmas elites que ditava as regras da economia, da política e de outras amarras há 200 anos AINDA fazem valer a lógica da exclusão no Brasil de hoje.

Antigamente, a gente assistia às novidades passarem diante de nossos olhos tal qual a Carolina do Chico Buarque. Hoje em dia, ficamos a par do que acontece pelas janelas abertas da Internet e dos meios de comunicação. O que não deve ter mudado muito de dois séculos para cá é o nível de revolta do povo, que pouco consegue fazer para mudar a sua (eterna?) condição de explorado e enganado. Enquanto alguns se conformam com atual estado das coisas, outros ficam indignados, revoltados, descabelados e tem a impressão de que atravessam um mar de solidão sem tamanho, sem fim.

Porém, é importante sacramentar a pergunta que não cala de jeito nenhum no ano da graça de 2020: vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros? Parcialmente, eu diria. E vou apontar alguns breves motivos para isso...

O atual Governo Federal, eleito na base das fake news e do ódio que sempre existiu em muitos de nós e que adora propagar pelas redes sociais o seu “patriotismo” típico dos piores anos da Ditadura Militar, tem se revelado como um verdadeiro vassalo dos EUA: submisso aos caprichos e insanidades de Donald Trump, o mandatário que ocupa o posto mais ilustre da República Federativa do Brasil (cujo nome não cito em público de jeito nenhum) já ofertou aos yankees uma base militar no Estado do Maranhão, tem planos de entregar a Amazônia de bandeja para o Tio Sam, fora as declarações “apaixonadas” ao Presidente norte-americanos. Isso sem citar detalhadamente todos os desmandos cometidos contra os mais pobres (Reforma da Previdência, vetos presidenciais que parecem atos institucionais etc.) e favorecendo os mais ricos.

Outro motivo gritante para ilustrar a nossa eterna condição de vira-lata é o seguinte: o Brasil JAMAIS poderá se autodeclarar como “independente” se prosseguir violando direitos do seu povo. O mundo inteiro sabe que nossos governantes administraram a nação de forma plenamente irresponsável quando o assunto é a pandemia causada pelo coronavírus. Na noite de 7 de setembro de 2020, enquanto o Sub-Trump falava à nação brasileira, contabilizamos mais de 4 milhões de infectados e mais de 127 mil mortos pela doença. Enquanto isso, milhões de brasileiros morrem de fome graças à ausência de políticas públicas que apoiem trabalhadores e pequenos empresários; milhares de estudantes não conseguem sequer estudar durante o período de isolamento social porque não conseguem ter acesso à Internet. Já a imprensa brasileira (que teve um papel determinante nas últimas eleições) segue cerceada pelo Governo Federal e parcialmente impossibilitada de noticiar os escândalos de corrupção que mencionem a família do Presidente. E, por fim, assistimos a Amazônia e o Pantanal em chamas, por culpa da imensa irresponsabilidade do Ministério do Meio Ambiente. Se fossemos governados por patriotas de verdade, jamais viveríamos situações tão absurdas assim...

A ocasião do feriado prolongado (a data comemorativa da Independência do Brasil caiu em uma segunda-feira) nos trouxe uma série sem fim de imagens desoladoras: praias, bares e restaurantes do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Nordeste lotadas de banhistas sem sequer termos uma vacina para o vírus; em um evento oficial, o Presidente da República desfila sem máscaras, sem qualquer tipo de proteção individual e com uma horda gigantesca de aloprados ao seu redor. A ciência, em nosso país, é constantemente ignorada e desrespeitada pelas autoridades em prol de um mercado desumano e de uma moral religiosa nada cristã, relegando a vida de milhares de pessoas para o segundo plano. Diante de 127 mil pessoas desaparecidas, temos algum motivo para celebrar?

Por outro lado, minha descrença em dias melhores no futuro sai um pouco de cena ao sabermos que temos uma classe artística e intelectual que consegue pensar o país com muito mais sabedoria e inteligência do que os infelizes que ocupam os Três Poderes e que estão comprometidos até o último fio de cabelo com os projetos de direita que sempre agradou as elites brasileiras. Seríamos muito infelizes sem o legado e o pensamento de lendas brasileiras como Glauber Rocha, Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tarsila do Amaral, Rita Lee, Lima Barreto, Djamila Ribeiro, Silvio Almeida, Antonio Candido, Silviano Santiago, Clarice Lispector, Teresa Cristina e tantos outros brasileiros ilustres e anônimos que sempre amaram o nosso país, apesar de tantos pesares. Graças ao trabalho dessas pessoas, eu me lembro que toda crise, por maior e pior que ela seja, é passageira e que, cedo ou tarde, teremos condição de ir às ruas com tranquilidade e com orgulho das coisas boas que ainda existem por aqui, independente da tendência política de qualquer governo.




7 de setembro de 2020 não deveria ser lembrado futuramente pelos dizeres “Independência ou Morte” ou “Ordem e Progresso”, mas por “Negligência e Morte” ou “Desordem e Retrocesso”. O que me consola diante de tamanho horror é ter a certeza absoluta de que eu jamais contribuí para isso já que, como diz a canção de Gilberto Gil, devemos ser livres para ser e amar como quisermos...

30 de agosto de 2020

TROVA # 149

BREGA, CHIQUE e FUNDAMENTAL

O isolamento social se tornou menos chato graças à reprise de Brega & Chique no Canal Viva... 

Desde que a pandemia nos obrigou a ficar em casa por tempo indeterminado, passamos a trabalhar em modo remoto, deixamos de sair para nos divertir e viver os outros prazeres da vida lá fora. Desde que a vida dentro do confinamento se tornou uma realidade sem glamour nenhum e com um tédio persistente, tive que apelar para uma companheira que andava meio sumida por uns tempos: a TV.

Uma opção mais saudável para aguentar a nova rotina à qual fomos submetidos desde meados de março foi assistir às reprises de novelas antigas que o Canal Viva tem levado ao ar há 10 anos, para alegria deste velho noveleiro que vos escreve. Finalmente tinha encontrado uma alternativa mais saudável para o tédio e o desespero ao alternar a atenção dos telespectadores daqui de casa entre o Viva e a Globo News e dar conta da insanidade que impera do lado de fora da nossa casa.

Afinal de contas, é preciso deixar claro que minha infância não foi passada lendo livros como eu gostaria, muito menos brincando na rua com outras crianças da minha idade (sempre fui um antissocial de carteirinha). Eu passei “a aurora da minha vida” na frente da TV assistindo os infantis da época e prestando atenção nas novelas da Rede Globo. Passei anos da minha vida adulta renegando os folhetins da infância até compreender depois de muito tempo que eu não seria quem eu sou hoje se eu não tivesse assistido clássicos da nossa dramaturgia na época como Vale Tudo, Bebê a Bordo, Que Rei Sou Eu?, Tieta, Rainha da Sucata, Lua Cheia de Amor, Vamp, Deus nos Acuda, Quatro por Quatro, as segundas versões de Mulheres de Areia e A Viagem, além da clássica A Próxima Vítima (provavelmente a última novela que eu assisti na íntegra durante a época em que foi ao ar).

As novelas não apenas fazem parte da cultura popular do brasileiro, como também é a porta de entrada de muitos deles para conhecermos a obra de gigantes da Literatura: jamais teria tido acesso à obra de Jorge Amado, de Nelson Rodrigues ou de Eça de Queiroz se não fosse o trabalho da teledramaturgia brasileira. Eis um fato do qual nem eu, nem você que me lê podemos fugir e, sim, devemos encará-lo de frente, sem vergonha nenhuma e com uma bela dose de orgulho.

* 

Um dos maiores magos do gênero telenovela foi Cassiano Gabus Mendes, autor de clássicos como Beto Rockfeller (1968), Anjo Mau (1976), Marrom Glacê (1979), Elas por Elas (1982), Ti Ti Ti (1985), Que Rei Sou Eu? (1989) dentre outros. Uma de suas marcas registradas era a sátira de costumes: o autor fazia questão de criticar o que existe de mais mesquinho e superficial na nossa sociedade, expondo os personagens ao ridículo por meio de situações fúteis e até preconceituosas. Suas novelas atraíam diversas faixas do público, arrancando risadas de crianças e adultos.




A oportunidade de conhecer melhor o universo de Cassiano se deu graças ao Canal Viva, que começou a reprisar Brega & Chique (1987) desde fevereiro de 2020, para a alegria dos saudosos das novelas da década de 1980 – eu só tinha seis anos na época em que a novela foi ao ar entre abril e novembro de 1987, por isso eu só me lembro de uma mísera cena. A trama principal da novela (exibida às 7h da noite na antiga programação da Rede Globo) é bastante simples para os telespectadores acostumados com as novelas de hoje: Herbert Alvaray (Jorge Dória), um homem rico é casado com Rafaela (Marília Pêra) uma dondoca e pai de três filhos adultos, porém mantém uma segunda família em um bairro de subúrbio com uma segunda mulher, Rosemere (Glória Menezes), uma mulher doce e humilde, com quem Herbert teve uma filha. 



Prestes a falir, Herbert decide simular a própria morte (com o apoio de seu advogado, fiel escudeiro e confidente) para fugir de seus credores e foge para a Suíça, deixando a sua família na miséria e uma herança de 1 milhão de dólares para a amante, que fica rica da noite para o dia. Obrigada a se reinventar, sua primeira esposa decide alugar uma casa na mesma vila no bairro pobre onde a amante do marido vive. Sem saber do homem que partilhavam no passado, as duas não só passam a se conhecer, como também se tornam em grandes amigas. 


Somemos a esse caldo, a presença constante de Zilda (Nívea Maria) – amiga próxima família e também amante de Herbert – e de Montenegro (Marco Nanini), o fiel advogado, apaixonado por Rafaela Alvaray, primeira esposa de seu chefe. O quadro de personagens se completa com os demais moradores da vila onde as duas famílias moravam e mais um elemento surpresa: Cláudio Serra (Raul Cortez), a identidade falsa de Herbert Alvaray, refeito de uma cirurgia plástica meses depois de sua fuga, pronto para rever suas famílias e suas amantes, já que está irreconhecível para aqueles que o conheciam como o falecido marido de Rafaela.

A trama, bem típica dos folhetins que a Globo fazia nos anos 1980 e às vezes tenta refazer por meio de remakes que quase sempre deixam a desejar, se sustentou perante a audiência da época graças à direção do esfuziante Jorge Fernando e de um elenco espetacular encabeçado pela saudosa Marília Pêra, Glória Menezes, Marco Nanini, Jorge Dória, Raul Cortez, Nívea Maria, Marcos Paulo (Luís Paulo) e Dennis Carvalho (Baltazar), além da participação de veteranos e jovens talentos da época como Cássia Kiss, Patrícia Pillar, Cássio Gabus Mendes, Cristina Mullins, Célia Biar, Neuza Amaral, Tato Gabus Mendes, Patrícia Travassos, Jayme Periard e por aí vai. A produção marcava o retorno de Marília às novelas depois de mais de uma década afastada de produções desse tipo. O sucesso de Brega & Chique foi tão retumbante na época de sua exibição, em 1987, que chegou a bater os níveis de audiência de O Outro, novela da oito de Aguinaldo Silva que ia ao ar na mesma época.







Assistir as trapalhadas e peripécias de Rafaela Alvaray (minha personagem preferida da novela e que tirou várias gargalhadas minhas em dias nos quais o noticiário andava caudaloso) não foi apenas um verdadeiro antídoto para os horrores que ficaram do lado de fora da porta da nossa casa, como também me deu uma pontilha de orgulho de ter nascido no mesmo país que Marília Pêra, uma das artistas mais brilhantes que o mundo já conheceu. Sua interpretação para a perua que deixa de ser rica para se transformar em uma vendedora de marmitas é uma das melhores atuações já vistas na história da televisão brasileira. A Rosemere de Glória Menezes, pobretona que se transforma em uma noveau riche em estalar de dedos, é uma interpretação sutil e de uma inteligência que demonstra o porquê da esposa de Tarcísio Meira ser uma das maiores damas de nossa teledramaturgia. A personagem Zilda foge dos estereótipos das mocinhas ingênuas e de bom caráter que Nívea Maria sempre interpretou até então. Jorge Dória e Raul Cortez, respectivamente, fizeram de Herbert Alvaray / Cláudio Serra um vilão marcado por um mau-caratismo sedutor, levemente caricato e infinitamente ordinário, para deleite de suas amadas e do público. E, por fim, o pacato e apaixonado Alberico Montenegro é um exemplo extraordinário do quanto Marco Nanini era hilário antes do surgimento da TV Pirata e muito antes do remake de A Grande Família – a dupla que ele formava com Marília rendia as melhores cenas de Brega & Chique.







Dois elementos da novela de Cassiano Gabus Mendes merecem destaque: as imagens da abertura e os discos que compunham a trilha sonora nacional e internacional de Brega & Chique. A entrada dos créditos do elenco, autores e direção aparecia em meio a imagens de mulheres estonteantes (candidatas de Miss Brasil entre elas) desfilando seus looks duvidosos e elegantes disputando o mesmo homem para, no fim, revelar a nudez milenar do ator e modelo fotográfico Vinícius Manne ao som de “Pelado”, do Ultraje a Rigor (quem se lembra do refrão, hoje clássico: “Pelado pelado / nu com a mão no bolso”?) – por causa disso, a novela chegou a ser ter problemas com a Censura por revelar aquilo que há por debaixo das roupas que vestimos.




Já os discos que fizeram a trilha sonora da novela continham o que havia de melhor na música brasileira e internacional no ano de 1987: uma gravação inédita de Caetano Veloso na época (“Preciso Aprender a Só Ser”), além de sucessos de Fábio Jr., Erasmo Carlos, Leo Gandelman, Beto Guedes, Raul Seixas e da dupla Rita Lee & Roberto de Carvalho, para não citar outros. A versão internacional trazia uma versão de Boy George para “Everything I Own”, do Bread, além de sucessos de Genesis, Whitesnake, George Michael, Simply Red, Jimmy Cliff e Janet Jackson etc. A trilha estrangeira de Brega & Chique deve ter sido uma das trilhas de novela que eu mais devo ter ouvido na vida, já que meus pais tinham uma versão dela em fita cassete, cuja capa mostrava alguns dos melhores atributos de Vinícius Manne.



Entre os meses de março e setembro de 2020, Brega & Chique foi minha companheira inseparável das tardes regadas a um bom café ou das madrugadas (quando não conseguia assistir o capítulo da tarde, assistia à reprise que passava às 0h45). As comédias não nos ajudam a esquecer dos males de uma pandemia, mas certamente nos ajudam na medida em que nos trazem diversão e doses de ironia para nos fazer pensar e rir do quão ridículos nós (ainda) somos. Afinal de contas, é preciso rir em meio às lágrimas que temos vertido ultimamente...

25 de agosto de 2020

LEITURAS DE SEGUNDA - 1 a 6

#1 - PATTI SMITH


#2 - JOÃO BOSCO & ALDIR BLANC


#3 - GILBERTO GIL


#4 - IVAN LINS & VITOR MARTINS


#5 - CLARICE LISPECTOR, SÉRGIO VAZ & LEO MANNINI


#6 - LIMA BARRETO, EDUARDO ALVES DA COSTA, CAETANO VELOSO & GILBERTO GIL



23 de agosto de 2020

TROVA # 148

 

SONS DA QUARENTENA

Adriana Calcanhotto é a prova de que o isolamento social pode até ser produtivo...

 

“No dia em que fui mais feliz...”

(Adriana Calcanhotto & Antonio Cicero, 1994)

 

1

    Adriana Calcahotto surgiu na minha vida há exatos 30 anos atrás: seu primeiro álbum, Enguiço (1990), tinha uma canção que tocava incessantemente durante as aventuras e desventuras de Mariana Szimanski, personagem de Renata Sorrah na novela Rainha da Sucata, de Silvio de Abreu. Eu tinha 9 anos de idade e não tinha condições para compreender a complexidade de versos como “E o meu coração embora / finja fazer mil viagens / fica batendo parado / naquela estação”, escritos por Caetano Veloso. De qualquer maneira, Adriana (Adrix para os íntimos) plantou a semente da dúvida e da intriga na estação dos meus afetos musicais.


Na medida em que fui deixando de dissociar o trabalho musical de Adriana Calcanhotto das trilhas sonoras das telenovelas da Rede Globo, fui descobrindo, aos poucos, que estávamos diante de uma cantora e compositora refinada, de uma sofisticação que ia muito além do dial da JB FM, da Antena 1, da Alpha, ou dos bons tempos da 98 FM. Graças à influência de duas primas paternas, descobri o terceiro álbum de Adriana, A Fábrica do Poema (1994) e me apaixonei perdidamente por seu trabalho. Quando ela lançou Maritmo (1998), comecei a comprar seus discos e fui me intrigando ainda mais: versos como “Entre por esta porta agora / E diga que me adora / Você tem meia hora / Pra mudar a minha vida” causaram um impacto profundo semelhante ao que eu tive com a Literatura de Clarice Lispector na década seguinte –compreender o que estava por trás das letras de Adrix, Antonio Cicero, Waly Salomão e outros letristas com quem ela estabelecia parcerias incríveis e geniais era uma tarefa bastante incomum para um jovem de 17 anos de idade que vivia em plena década de 1990, falemos a verdade...


Foi no lançamento do álbum / turnê Cantada (2002) que eu tive a coragem de ir a um show sozinho pela primeira vez na vida: vejam a barreira cultural que eu, um suburbano carioca de 21 anos da Ilha do Governador sem praticamente um centavo no bolso, tive que atravessar ao entrar no Canecão (templo musical da MPB que ficava em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro) apenas para ver Adriana Calcanhotto ao vivo. Essa é a primeira de algumas ousadias que eu devo a ela. Falar/escrever sobre seu trabalho musical é ter a certeza absoluta de estar remexendo em um baú de memórias afetivas e de shows memoráveis. Poderia ficar falando da beleza de O Micróbio do Samba (2012-2013) por horas seguidas, no qual uma interpretação de “Argumento” (Paulinho da Viola), em meio a luzes e fumaças transformava o palco em um cenário de um de filme de Bergman. Ou então poderia tecer várias crônicas musicais sobre espetáculos mais recentes como Olhos de Onda (2014), A Mulher do Pau Brasil (2018) ou Margem (2019-2020) com a paixão e as técnicas de escrita e análise que fui adquirindo pela vida acadêmica e profissional afora. No entanto, as circunstâncias que se abateram pelo Brasil e pelo mundo a partir de março de 2020 me impedem de fazer isso.

 

2

 

Até o final da tarde do dia 13 de março de 2020, uma sexta-feira 13, o mundo vivia a plenitude de sua normalidade. Minha rotina vivia a pleno vapor da intensidade de um ano letivo recém-iniciado em um novo ambiente de trabalho, mais saudável, porém com seus desafios. A turbulência profissional dos tempos de outrora dava lugar a um ritmo de trabalho mais leve e com a dose necessária de um conforto conquistado a custa de duras penas. Tinha acabado de concluir meu quarto curso de pós-graduação e traçava planos para iniciar mais um projeto acadêmico, já que a vida seguia nos desafiando e nos surpreendendo. Além disso, meus planos de voltar a escrever crônicas seguiam a todo vapor com outras promessas de publicação, já que a gaveta e o caderninho de anotações andavam repletos de escritos inéditos.

Enquanto isso, eu voltava a religar os laços com minha família carioca, depois da festa que comemorava o 5.º ano de vida do meu sobrinho. Apesar de ter que conviver com rendimentos mais modestos, estava em condições de pagar as contas – dentre os boletos, as prestações mensais da tão sonhada casa própria. A vida social se dividia entre os amigos, afilhados, parentes queridos, shows, cinema, teatro, livrarias e o apartamento novo, conquista principal de quase 15 anos de vida a dois. Em poucas palavras, viver não era um exercício de sofrimento, era um prazer do qual não se provava há bastante tempo. Mas, todas as nossas certezas, convicções e rotinas foram por água abaixo depois do décimo-terceiro dia do terceiro mês de 2020.

Foi naquele dia que a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou que o planeta estava diante de uma pandemia causada pelo vírus Sars-Cov-2, vulgo coronavírus, desconhecido por especialistas em medicina até recentemente. Para nos protegermos do inimigo invisível, era preciso fazer quarentena, isto é, ficar dentro de casa em pleno isolamento social para que o vírus não se espalhasse tanto e a curva de contágios diminuísse. Assim, não só nos protegeríamos da doença, como teríamos a garantia de que nossos entes e amigos queridos estariam sãos e salvos na medida do possível. Em menos de cinco dias, minha vida marcada por uma rotina trepidante ficou reduzida à convivência restrita à proteção dos 55 m² do meu apartamento “perdido na cidade”, com compromissos cancelados e a suspensão das atividades presenciais na escola onde trabalho por tempo indeterminado.

O pior da quarentena foi me obrigar a ser espectador da nossa desgraça em tempo real. Enquanto o número de infectados pelo coronavírus subia a níveis galopantes, vitimando milhares de pessoas, assistíamos a tensão política tomar conta do noticiário com a mesma intensidade dos contágios causados pela pandemia. Fato evidente e consumado: o Brasil é definitivamente o país mais emocionante de se viver nesta época, já que temos o vírus e o pandemônio político disputando os holofotes da imprensa a todo custo. As atividades ligadas aos setores culturais, como já sabemos, foram profundamente atingidas pela crise sanitária, já que aglomerações não são permitidas em nome da segurança de artistas, equipe e público. Por isso, tivemos que nos contentar com nossos ídolos fazendo aparições em lives caseiras em suas redes sociais para tentar diminuir as distâncias provocadas pelo distanciamento social obrigatório. Assim, não precisaríamos ter que nos condenar a ficar “fazendo longas cartas pra ninguém” em meio a tanta loucura...

 

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Eis que, depois de dois meses de isolamento, Adriana Calcanhotto decidiu surpreender seu público com uma novidade musical: decidiu voltar a compor e gravou um álbum inteiro durante a pandemia. Só (2020) reúne nove canções inéditas que vão muito além da crônica musical de costumes e sentimentos: as faixas foram compostas, produzidas, gravadas e mixadas (tudo à distância) entre 27 de março e 8 de maio de 2020, um tempo recorde. É um trabalho que faz uma radiografia e tanto da vida brasileira antes e durante a pandemia com a sensibilidade que Adriana já emprestou a trabalhos anteriores como Senhas (1992) ou Loucura (2015). Ao contrário do que podia se esperar de um disco surgido em regime de confinamento, Só é um trabalho bem-humorado, irreverente, mas sem deixar de abordar certos aspectos difíceis da realidade atual. “Ninguém na Rua”, faixa de abertura, trata de solidão do isolamento sem deixar de encontrar o remédio para o sofrimento na memória e no pensamento de quem a gente ama. “Era Só” trata, com bastante simplicidade, do sentimento que (ainda) é a eterna “razão pra rima”.




Da vida que ficou lá fora antes de buscarmos proteção em nossas casas durante a quarentena, ficou a lembrança da vida vivida pelos quatro cantos do Brasil (“Lembrando da Estrada”) e as recordações de uma vida leve e liberta das convenções sociais que nos amarram (“Eu Vi Você Sambar”). A farra, antes amaldiçoada por simplesmente ser libertina e libertadora, hoje é maldita por aqueles que justificam que o Carnaval de 2020, por exemplo, ajudou a propagar o vírus entre nós – é importante deixar claro que a OMS declarou que não estávamos em pandemia dias durante os festejos do Rei Momo.




Na 4.ª faixa de Só, “O Que Temos”, Adriana nos lembra de que a solidão nos deu uma nova companheira para encararmos o mundo que ficou lá fora: as janelas são os nossos ingressos para a intimidade do outro, para o contato com o nosso semelhante, para o veículo das nossas revoltas e protestos, já que não podemos fazer passeatas e temos de nos contentar com notas de repúdio que não levam o Brasil a lugar algum que seja diferente do fundo do poço. O “Sol Quadrado” que nos ilumina também nos lembra de tudo de bom e de ruim que semeamos pelo mundo afora sempre irá nos trazer resultados (positivos ou negativos): “Diz uma lei da física / Que o que jogas pro alto volta para o teu telhado / O mundo dá voltas e agora / até o gado tá baratinado”. Em meio a um cotidiano no qual nós nos obrigamos a nos alimentar de notícias (o que seria de nós sem os jornalistas que se aventuram no front de batalha contra o coronavírus?), a melancolia e a tristeza acabam se tornando em nossas companheiras mais frequentes durante a quarentena. “Tive Notícias”, sexta faixa de Só, reproduz o sentimento de solidão que nos atormenta em meio de afetos e desafetos amorosos, que nos privam de beijos e abraços quando mais necessitamos deles.




Por outro lado, a quarentena também nos traz outro companheiro bastante desagradável: o tédio. Mas, Adriana Calcanhotto, versada na boa e velha Tropicália, decidiu brincar com isso e achou “melhor fazer uma canção”. Decidiu devorar o funk carioca, várias de suas expressões de duplo sentido e conotação sexual explícita para compor “Bunda Lê Lê”. O título chega até a nos remeter a algum sucesso de Latino ou Mr. Catra, mas é, segundo Adriana, o “Funk da Quarentena” que nos pergunta repetidamente: “O que que faz na quarentena?”. A resposta é bem simples: ler, estudar, ir à luta por um mundo melhor diante de tanta ignorância e falta de educação que existe no Brasil de hoje. Alguns ouvidos menos sensíveis e mais elitistas (arrogantes?) torceram o nariz e fizeram pouco de Adrix. Outros, incluindo este reles blogueiro de fim de semana, simplesmente adoraram.



Como encerramento para Só, Adriana Calcanhotto escolheu a canção mais inspirada de sua safra do isolamento. “Corre o Munda” é uma alusão direta ao Rio Mondego, que banha a cidade portuguesa de Coimbra, onde a artista passou a residir durante parte do ano por causa de suas aulas na renomada universidade (os romanos chamavam o rio de “Munda”, daí o termo). Não é simplesmente uma declaração de amor por terras portuguesas, é uma canção que trata da esperança que ainda há dentro de cada um de nós de retomar o ritmo da vida que ficou lá fora, de lançar-se ao mundo, de navegar, de viver por meio dos versos e sons de uma “compositora sem eira nem beira” em uma viagem cuja embarcação é a palavra cantada.

A quarentena foi, para algumas pessoas, sinônimo de prostração, revolta, depressão com alguns picos de produtividade e toneladas de teletrabalho e desespero. Se o nosso isolamento vai deixar algum legado para os outros é algo difícil de sabermos, mas o distanciamento de Adriana Calcanhotto nos oferta uma obra a ser apreciada futuramente com a vontade de saber mais a respeito de uma guerra travada contra inimigos invisíveis (o vírus, o tédio, o desespero, a angústia, a revolta) diante dos olhos e outros algozes bem visíveis diante dos seres humanos de bom coração (esses sequer merecem ser mencionados pelo nome).

Viu, Adriana? Por culpa sua e desse seu disco ótimo, que foi dedicado à memória de Moraes Moreira, estou até superando o meu bloqueio criativo e estou voltando às minhas crônicas. Devo mais uma a ti!