14 de novembro de 2020

TROVA # 153

O INVASOR DA DESESPERANÇA

Algumas razões para elegermos Guilherme Boulos para a Prefeitura de São Paulo

 



“E foste um difícil começo

Afasto o que não conheço

E quem vem de outro sonho

Feliz de cidade

Aprende de pressa a chamar-te

De realidade

Porque és o avesso

Do avesso, do avesso, do avesso…”

(Caetano Veloso, 1978)

 

     Todo ano “par” reserva emoções intensas para todos os que se interessam por política no Brasil. Eu me incluo nesse grupo com toda a tranquilidade, já que escolhi São Paulo (maior colégio eleitoral do país) como meu lar há mais de uma década e os pleitos daqui sempre reservam discussões acaloradíssimas. Com a pandemia do coronavírus, as eleições municipais de 2020 foram adiadas em mais de um mês, a maioria dos debates políticos foram cancelados e as campanhas políticas tiveram de mobilizar os meios virtuais para evitar aglomerações.

         Confesso que minhas esperanças por uma renovação em matéria de política foram abaladas quando a cidade de São Paulo trocou um democrata de centro-esquerda (Fernando Haddad) por um lobista que se dizia trabalhador (João Doria) em 2016. Foram aniquiladas de vez quando o Brasil permitiu que um projeto mal-acabado de ditador (a versão brasileira de Donald Trump) subisse a rampa do Palácio do Planalto em 2018. A esperança de que, um dia, tivéssemos políticos dispostos a governar junto com o povo deu lugar para um pessimismo com tintas depressivas, já que a maioria das opções que nos sobraram era uma galeria de tipos grotescos e reacionários, expondo o que existe de pior no pensamento conservador. No entanto, parte de meu sentimento desesperançoso mudou quando soube que Guilherme Boulos, ex-líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), se aliou a Luiza Erundina (Deputada Federal e ex-Prefeita de São Paulo) para uma chapa com o intuito de concorrer às eleições para a Prefeitura da capital paulista pelo PSOL em 2020.


Guilherme Boulos ao lado de Luiza Erundina em 13/11/2020 - Foto: Tatiana Santiago (G1) 


Professor de Filosofia com experiência em escola pública, militante da causa de uma habitação digna para os mais pobres, único dos candidatos que mora em um bairro periférico de São Paulo (Campo Limpo) e uma das figuras mais jovens da política brasileira, Guilherme Boulos sempre foi criticado por seus opositores, que insistiam em lhe impor a pecha de “invasor” de propriedades privadas, além de outros estigmas que ele comprovou não serem verdadeiros. Com apenas 17 segundos de propaganda eleitoral, não tinha as vantagens de seus concorrentes: fez uso de uma campanha intensa pela Internet por meio de memes, postagens irreverentes e bem-humoradas nas redes sociais, sem apelar para o grotesco que sempre deu o tom de alguns de seus concorrentes. Buscou o apoio e a experiência de Erundina, primeira Prefeita que a Pauliceia elegeu, para expor suas propostas de governo. Foi aguerrido nos debates políticos, enfrentando jornalistas nada simpáticos à sua presença, seus adversários e as fake news.

Além disso, o companheiro de Erundina teve a coragem e a enorme ousadia de iniciar e encerrar sua campanha ao primeiro turno das eleições municipais com duas lives de quase 24 horas que mostrou o cotidiano do homem por trás do candidato desde o início da manhã até o fim de um dia de trabalho, mostrando o corpo-a-corpo com os eleitores e revelando alguns momentos de sua intimidade. O resultado dessas estratégias de campanha foi uma arrancada surpreendente de Boulos para o segundo lugar nas intenções de voto, aterrorizando seus adversários e intrigando os analistas políticos. Tudo isso com muita leveza, irreverência e inteligência típicas do povo brasileiro.



Aliás, é preciso deixar claro que o brasileiro, em linhas gerais, sempre foi bem-humorado e irreverente. Os memes que se produzem são uma prova claríssima disso. Em matéria de política, então, a irreverência do eleitor poderia níveis inacreditáveis. Quando o lendário Macaco Tião se revelou como uma revelação e chegou ao segundo lugar na disputa para a Prefeitura do Rio de Janeiro, eu tinha sete anos de idade. Eu estava com oito quando vi Enéas Carneiro revolucionar o Horário Político, chatíssimo por natureza, proferir “Meu nome é Enéas!” para compensar o seu espaço mínimo de programação, que não chegava aos cinco segundos.

         Por outro lado, os artífices da política brasileira sempre fizeram dela um espaço sisudo e nem um pouco irreverente. Debates políticos, apesar de alguns episódios hilários, sempre foram o palco principal dos temperamentos odiosos dos eleitos por meio do voto direto. Mais do que isso, há ainda algo bem pior: as relações frágeis da nossa democracia recém-nascida evidenciavam o caráter mais obscuro de nossa gente, chegada aos níveis mais diversos de corrupção. Aos onze anos de idade, assisti a deposição do primeiro Presidente da Nova República por meio de um golpe midiático espetacular que se travestiu de caras pintadas nas ruas. Entre a adolescência e o início da minha vida adulta, vi o Presidente que criou o Plano Real governar por dois mandatos presidenciais apesar dos escândalos comprovados da compra da emenda de sua reeleição no Congresso Nacional.

         Aos dezessete anos, no final da adolescência, votei pela primeira vez para Presidente da República, com a esperança de que iria eleger um ex-metalúrgico para a cadeira mais ilustre do Brasil, fato que ocorreu apenas 4 anos depois. Por um brevíssimo tempo, achei que a política seria um sinônimo de esperança para, enfim, sanarmos as diferenças sociais que sempre separam ricos de pobres, da classe média de indivíduos miseráveis. Fui enganado: os primeiros escândalos de corrupção envolvendo o Partido dos Trabalhadores não só me deixou frustrado em relação aos meus votos, como também me afastou da política e do direito ao voto por mais de dez anos – sempre aproveitei o fato de ter me mudado para outro Estado para justificar minha ausência.

         Em 2014, na iminência da reeleição de Dilma Rousseff – primeira mulher eleita Presidenta da República Federativa do Brasil –, decidi exercer meu direito ao voto e voltei ao Rio de Janeiro para votar em Dilma. Sempre achei que sua plataforma política necessitava de revisões, de posicionamentos mais críticos, de menos concessões aos barões da política tradicional, porém há um fato inegável: é sempre mais confortável fazer oposição a um governo alinhado a ideais democráticos do que com tecnocratas neoliberais e projetos de ditadores obcecados em cortar gastos públicos e fazer um Estado Mínimo para a população e um Estado Máximo para os altos escalões do governo e suas famílias parasitárias.




Mesmo se o candidato do PSOL para a Prefeitura de São Paulo não atingir seu objetivo principal, é indiscutível que sua campanha fez história: renegou o ódio e a arrogância típicos da maioria dos políticos tradicionais, mobilizou um número enorme de simpatizantes via Internet e tentou fazer política com irreverência e olho-no-olho. Se Guilherme Boulos invadiu alguma coisa durante a campanha eleitoral foi a desesperança do paulistano, que está exausto de ver sua cidade entregue à sujeira. às enchentes, às negociatas com as máfias dos transportes, ao descaso com os servidores públicos municipais, dentre tantas mazelas. Seu projeto de governo talvez não seja o mais perfeito para a cidade, mas, para aperfeiçoá-lo, Boulos se mostra altamente disposto a ouvir as vozes de quem acreditou nele: o povo.

Por isso, espero que as urnas ouçam a voz do povo. Guilherme Boulos está plenamente disposto a construir uma cidade melhor para a próxima década. Ao lado de Luiza Erundina e ao lado do povo, fazendo a política como ela realmente deve ser feita: para todos e não para os mais abastados. Talvez este seja o caminho para um “sonho feliz de cidade”, do jeito que Caetano cantou em uma de suas canções mais emblemáticas.




25 de outubro de 2020

LEITURAS DE SEGUNDA - 17 e 18

 

#17 – ADRIANA CALCANHOTTO



#18 – FERREIRA GULLAR, NICOLAS BEHR, FRANCISCO ALVIM & CONCEIÇÃO EVARISTO



TROVA # 152

 

“ONDE ESTÁ O DINHEIRO?”

Diante dos recentes escândalos de corrupção no Brasil, é melhor não saber a resposta...

 


“Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

Eu vou procurar e hei de encontrar

E com o dinheiro na mão

Eu compro um vagão

Eu compro a nação

Eu compro até seu coração

 

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

No norte não está

No sul estará

Tem gente que sabe e não diz

Está tudo por um triz

E aí está o "X"

E não se pode ser feliz

 

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu

Que ninguém viu

O gato fugiu, o gato fugiu

E seu paradeiro está no estrangeiro

Onde está o dinheiro?

 

Eu vou procurar e hei de encontrar

E com o dinheiro na mão

Eu compro um vagão

Eu compro a nação

Eu compro até seu coração”

(José Maria de Abreu, Francisco Mattoso & Paulo Barbosa na voz de Gal Costa, 1984)

 


No Brasil, como sabemos muito bem, honestidade nunca é regra: ela é exceção! Quando nos referimos à política deste país então, ela se transforma em um verdadeiro mito. Os exemplos de corrupção entre nossos governantes, infelizmente, são dos mais variados e das mais diversas tendências políticas – líderes de esquerda, muito menos de direita jamais podem se gabar de serem defensores de uma trajetória imune de escândalos.

No entanto, quem acompanha o noticiário de política no Brasil em 2020 não pode reclamar de que ele é tedioso. Em tempos de pandemia então, os níveis de revolta atingem níveis cada vez mais altos por meio de novidades que nenhum roteirista de séries sobre o assunto pode imaginar. Mesmo assim, pessoas que nunca tiveram seu nome associado a inquéritos policiais envolvendo dinheiro público ainda se chocam com a desfaçatez de quem deveria estar trabalhando pelo povo.

A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 comprovou algo que Nelson Rodrigues detectou com uma exatidão cirúrgica: “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”. O autor de Vestido de Noiva se referia ao século XX, que nos ofertou duas guerras mundiais e duas ditaduras para o Brasil. Se ele estivesse vivo em 2020, ele continuaria afirmando isso e muito mais, em estado de choque cada vez maior com o nível de imbecilidade de muitos brasileiros. 



Desde 2013, a polarização política que dividiu o país em campos opostos institucionalizou de vez a mentira como fato verídico, a moralidade cristã como máscara para os corruptos e o cinismo da mídia e do mercado financeiro como regra de praxe. Passamos a lidar com as Fake News, um nome mais bonitinho para as lorotas deslavadas que os políticos sempre atiraram pelos quatro ventos para continuar desfrutando das benesses do poder público. Reparem bem: quem fala de honestidade geralmente são os cidadãos mais desonestos! As pessoas que nunca tiveram nada a temer diante da justiça não precisam ficar berrando a sua honestidade em praça pública como duas vizinhas trocando confidências em um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro.

O “excelentíssimo” Presidente da República, um sub-Trump, uma imitação tosca do Presidente dos Estados Unidos (complexo de vira-lata?), adora se gabar em praça pública de que é honesto e de que não existe corrupção no seu governo. Todavia, até seus fãs mais entusiasmados sabem que Bolsonaro tem muito que explicar: além de inquéritos nos quais é investigado, o chefe maior da Nação possui três filhos envolvidos em investigações criminais, uma esposa que recebeu R$ 89 mil de um ex-assessor parlamentar, ex-mulheres envolvidas em transações financeiras suspeitíssimas, alguns Ministros de Estado acusados de crimes ambientais e de corrupção etc etc etc. Um grupo de gente que prega a honestidade em praça pública, cansando a paciência e a inteligência do contribuinte brasileiro e que sempre está a mercê do próximo escândalo.

Em 14 de outubro de 2020, tivemos mais um exemplo a ser lembrado como um dos mais significativos dessa era. O senador Chico Rodrigues (DEM-RR), um dos vice-líderes do Governo no Senado, foi flagrado com dinheiro desviado dentro de sua cueca. A imagem em si não traz necessariamente nenhuma novidade para os que se lembram de casos célebres de corrupção (quem se lembra de um assessor parlamentar de um Deputado do PT que foi flagrado com maços de dinheiro no meio das partes?), porém a novidade era que o Senador de Roraima guardava consigo uma vasta quantia na parte de trás da cueca. O constrangimento do vice-líder do Governo (que empregava um dos sobrinhos do Presidente da República em seu gabinete como assessor parlamentar) poderia ter se restringido ao pedido de que tirasse a bufunfa de onde não deveria estar, mas a vergonha ficou ainda maior ao se constatar que algumas cédulas estavam sujas das fezes do elemento. Uma imagem bem difícil de esquecer!




Chico Rodrigues, um canalha que não possui o menor parentesco com o nosso dramaturgo maior (deixemos isso bem claro!), foi afastado preventivamente pelo Ministro Luís Roberto Barroso do Supremo Tribunal Federal por 90 dias com a justificativa de que o senador não utilizasse o seu poder político para interferir nas investigações policiais. Enquanto o Senado se faz de rogado, foi preciso que uma decisão monocrática do STF garantisse o mínimo de tranquilidade para o processo. O Presidente da República fez questão de dizer que o referido senador não tinha nada a ver com o seu governo.

Lembrei de outra máxima de Nelson Rodrigues que cai como uma luva diante da barbárie que passamos a viver desde meados dos anos 2010: “Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.” Muitos de nós assistimos o Brasil se tornar cada vez mais autoritário com uma mudez gerada pelo estado de choque, perplexos com tanta baixaria. Diante dos recentes escândalos de corrupção no Brasil, é melhor não saber onde o dinheiro da corrupção está pelo motivo de que precisamos evitar pesadelos para que possamos dormir um pouco melhor.

Porém, é impossível ficar mudo diante da hipocrisia que tem se servido das declarações cínicas do Presidente da República. Os memes e as charges sobre o assunto retrataram o atual escândalo com perfeição. Os humoristas e os cronistas tiveram um riquíssimo material para suas colunas nos jornais. A população insatisfeita com tanta sujeira e impossibilitada de protestar publicamente para evitar aglomerações segue cada vez mais irada diante de tanto absurdo.

Se eu fosse o Presidente, iria rezar para que a tal vacina demore o máximo que puder, pois a primeira oportunidade que os opositores tiverem de ir para as ruas protestar contra tudo será muito bem-aproveitada. Enquanto isso não acontece, seguimos na espera, com nossa insatisfação cozinhando dentro de uma panela de pressão prestes a explodir...

19 de outubro de 2020

TROVA # 151

 

LEMBRANÇAS REGADAS A CAFEÍNA

A lição mais significativa em quase 40 anos de idade é a seguinte: seja bastante seletivo em relação a QUEM devemos convidar para tomar um café conosco. 

“I had some dreams

They were clouds in my coffee…”

(Carly Simon, 1972)

 

A planta mágica e milagrosa que conhecemos nos dias de hoje como CAFÉ surgiu há muitos anos atrás em Cafa e Enária, regiões da Etiópia. Tempos depois, a especiaria começou a ser cultivada no Iêmen, região do Oeste da Arábia com os nomes de “Kaweh”, “Kahwah” ou “Cahue” – os três com o mesmo significado: VINHO.

Da Antiguidade até o Século XXI, o café está para nós na mesma proporção que os longos cabelos estavam para Sansão. Atualmente, existem locais nos quais podemos degusta-lo dos modos mais diversos, com preços dos mais variados e das qualidades mais questionáveis também. Diante do que está posto, o fato é indiscutível: entre as nuvens mais espessas da memória, muitas das minhas lembranças foram regadas a doses generosas de café.


Patti Smith - New York, 2015 


Quando conheço experiências de outras pessoas pela vida afora que também foram regadas a café, surge em mim uma pontinha de identificação quase instantânea: Chico Buarque declarou que não consegue trabalhar em projeto nenhum sem cafeína por perto; Patti Smith escreveu um belo livro em 2015 no qual ela conta um pouco de suas andanças e leituras por vários lugares ao redor do mundo, nos brindando com passagens por cafeterias e polaroides de Nova York, Tóquio, Rockaway Beach, Tanger e até pela Guiana Francesa.


Carly Simon - Londres, 1972

De todos os episódios alheios dos famosos e cafés, o meu preferido ocorreu por volta de 1971. Pouco antes de se tornar reconhecida no mundo inteiro por causa do hit “You’re So Vain”, Carly Simon relatou em versos e sons a sua enorme frustração de um amor malsucedido por meio de uma visão surpreendente: seus sonhos de viver a plenitude do sentimento amoroso foram tão consistentes quanto uma imagem passageira de nuvens que estavam refletidas sob o café que estava tomando em uma viagem de avião. Tempos depois, a própria Carly confessou que o insight foi fornecido a ela por um de seus companheiros de banda na época, o pianista Billy Mernit, que pediu para que ela prestasse mais atenção naquela montagem quase absurda e ela entendeu que os sonhos amorosos que ela vivia eram tão consistentes quanto às nuvens que a “visitaram”.



   Minhas primeiras memórias da vida adulta regadas a café remontam a meados dos anos 2000. Naquela época, recém-instalado em São Paulo, minha amiga Ana Paula Raulickis resolveu criar um blog com o sugestivo nome de Caféina. Em cada dia da semana, uma pessoa escrevia um texto sob um pseudônimo e divulgava seus escritos pela Internet afora. Em silenciosa homenagem a Carly Simon, escolhi o codinome Mr. Simon para as minhas poucas postagens do finado blog – tempos depois, a página do Facebook tornou-se o veículo oficial das promoções do Cafeína, além de veículo de divulgação do meu Blog e dos eventos relacionados às noites de lançamento do meu primeiro livro e, evidentemente, de inúmeras declarações de amor ao café capitaneadas incansavelmente pela Ana. De qualquer maneira, foi graças ao Cafeína que eu criei coragem para investir na escrita, sem medo de certos julgamentos por parte dos outros.

O logo da página do Cafeína no Facebook

Antes de me aventurar pela escrita de vez, precisei abraçar uma profissão “oficial”, pois se existem instituições que sempre vencem a batalha do capital elas são os boletos de pagamento. Dar conta de jornadas de trabalho que se estendiam pelos três turnos e com pouco tempo de intervalo entre aulas e reuniões só era possível graças a generosas doses de café. Quando trabalhava com aulas particulares, tinha a vantagem de ter como local de trabalho o café Starbucks ou a Cristallo do Shopping Center 3, no coração da Avenida Paulista. Não foi uma vez ou duas que eu (estabanado profissional que sempre fui) derrubei doses inteiras do líquido mágico das arábias no meu ambiente de trabalho sem chegar a queimar ou sujar nenhum dos meus alunos.

Por outro lado, a cozinha da escola onde trabalho hoje em dia se transformou em um ponto de encontro de alguns colegas de trabalho sempre dispostos a fazer “terapia de grupo”. Falando em situações terapêuticas em grupo, outra prática excelente à qual eu passei a me dedicar com três ex-companheiras de trabalho (e que se tornaram amigas muito queridas) uma ou duas vezes ao ano era marcar encontros que duravam tardes a fio. Quando achamos o local ideal para as nossas sessões de “Badmouthing Café”, o já saudoso Coffeetown Tatuapé (administrado por uma ex-aluna minha muito querida e fechado de vez por culpa da pandemia do coronavírus), não haveria limites para a nossa diversão, generosamente regada a cafés e pedaços de bolo Red Velvet. Momentos como esses, guardados carinhosamente na memória dos meus poucos afetos, nos fazem acreditar que viver vale (muito) a pena.


(É muito importante abrir parênteses para fazer uma diferenciação entre os tipos de pessoas com as quais nos sentamos em mesas de bar e em mesas de café. No momento do porre, qualquer um que estiver por perto serve para afogarmos nossas mágoas em copos de cerveja e/ou caipirinha. O mesmo não se aplica aos seres humanos com quem dividimos o prazer pela cafeína, pois confidências das mais íntimas são trocadas entre um macchiatto e um espresso – se as intimidades vazarem na mesa de um bar o culpado deve ser o álcool, jamais a cafeína. Eu me lembro claramente do sabor dos drinks servidos no Café do Ponto da Rua Augusta: bebidas inesquecíveis ao lado de pessoas que fiz questão de esquecer para todo o sempre. Por isso, a lição mais significativa que os meus quase 40 anos de idade me deram em matéria de amizades foi ser bastante seletivo em relação a QUEM devemos convidar para tomar um café conosco.)

Uma imagem da exposição Cápsula do Tempo: Identidade e Ruptura no Vestir de Ney Matogrosso

Mas, por outro lado, é sempre fundamental resgatarmos algumas memórias repletas do amor e do carinho que só os nossos amigos, irmãos que escolhemos e que nos escolhem para a vida toda. Jamais me esqueci de uma tarde em Santo Amaro, extremo sul de São Paulo, na qual Rosana Barbosa e eu tomamos um generoso café na Kopenhagen depois de visitar a exposição Cápsula do Tempo: Identidade e Ruptura no Vestir de Ney Matogrosso, que reunia vários figurinos de palco de Ney em décadas de carreira pelos palcos do Brasil e do mundo. O achocolatado deles foi um verdadeiro prêmio para nós dois depois de horas de deslocamento de um lado para o outro da cidade.



Café Santo Grão - Foto: Nilton Serra

Outro evento inesquecível para nós aqui de casa foi quando nossos compadres Gabi e Luiz Medelo se deslocaram da Zona Oeste para a Zona Leste de São Paulo às 23h de um sábado para irmos juntos ao badalado Santo Grão, nos Jardins. Para exercitar o meu (desnecessário) pedantismo, decidi deixar o café de lado a princípio para pedir uma dose de Vinho do Porto e ficar bem esfuziante com a “ousadia”. A mesa inteira caiu na gargalhada diante de minha frustração ao descobrir o tamanho MINÚSCULO do cálice no qual a bebida foi servida. Ignorar uma dose de café dentro de um templo da cafeína soa quase como uma ofensa aos amantes do líquido mágico das arábias. Recolhida a revolta, pedi uma xícara de cappuccino e rumamos de volta à ZL para fechar a noite tomando Irish Coffee na antiga Cristallo do Tatuapé, engolida pelas crises econômicas dos anos 2010 e pelas recorrentes especulações imobiliárias.

Uma madrugada na cafeteria Cristallo, do Tatuapé - Foto: Nilton Serra


Uma lembrança que eu guardo com bastante carinho é da primeira da Maria, nossa afilhada. A partir de julho de 2014, foi fundamental que o ritmo de trabalho cada vez mais frenético e alucinante diminuísse para acompanhar o crescimento de uma menininha bastante esperada um pouco mais de perto, já que ela mora a mais de 100 km de distância de São Paulo. Em uma das nossas visitas a Campinas, meus compadres sempre nos ofereceram doses bem fortes de espresso naquelas canecas esmaltadas coloridinhas que alegram o visual de qualquer cozinha e de qualquer mesa de jantar. Maricota, no meu colo, não só ficava animada com as canequinhas, como também pediu a sua para “brincar” de tomar café com os Dindos. Ao me ver sorvendo meus goles do líquido milagroso das arábias, a pequerrucha passou a me imitar também, para total alegria de Tio Vini.

Em meio às incertezas constantes da possibilidade de vivermos a normalidade das cafeterias por causa de uma pandemia e da impossibilidade de abraçarmos quem a gente gosta, a única possiblidade de prazer gerado pela cafeína que me sobrou foi o café que eu tomava de tarde durante os capítulos de Brega & Chique no Canal Viva. Entre um gole e outro, muitas das minhas lembranças da vida antes do vírus retornam como cenas do filme da minha vida que parece um passado bastante longínquo.

Uma selfie durante o isolamento acompanhado de uma xícara de café... 


Porém, como a promessa de conversas íntimas, carinhos e afetos entre xícaras de café ainda é uma promessa dependente de uma vacina ou do bom senso das pessoas, o máximo a ser feito é ligar a câmera do celular para trocar confidências com quem te vê do outro lado da telinha ou reavivar um pequeno diário de lembranças regadas a cafeína...

8 de setembro de 2020

TROVA # 150

 

SETE DE SETEMBRO: INDEPENDÊNCIA, NEGLIGÊNCIA OU MORTE?

Vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros?

              


 

“O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar

Livre para amar

Livre para amar

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser

Ir aonde quiser

Ir aonde quiser

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o brincar

Ame-o e deixe-o correr

Ame-o e deixe-o cansar

Ame-o e deixe-o dormir em paz

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ser o que ele é

Ser o que ele é”

(Gilberto Gil, 1976)

 

Estamos a dois anos do bicentenário do dia em que Dom Pedro I decidiu urrar por “Independência ou Morte” de cima de um burro (e não de um suntuoso cavalo, como sugere a história oficial). Apesar das celebrações oficiais em torno desse marco histórico, nosso país jamais pode se autodeclarar como livre ou independente. As mesmas elites que ditava as regras da economia, da política e de outras amarras há 200 anos AINDA fazem valer a lógica da exclusão no Brasil de hoje.

Antigamente, a gente assistia às novidades passarem diante de nossos olhos tal qual a Carolina do Chico Buarque. Hoje em dia, ficamos a par do que acontece pelas janelas abertas da Internet e dos meios de comunicação. O que não deve ter mudado muito de dois séculos para cá é o nível de revolta do povo, que pouco consegue fazer para mudar a sua (eterna?) condição de explorado e enganado. Enquanto alguns se conformam com atual estado das coisas, outros ficam indignados, revoltados, descabelados e tem a impressão de que atravessam um mar de solidão sem tamanho, sem fim.

Porém, é importante sacramentar a pergunta que não cala de jeito nenhum no ano da graça de 2020: vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros? Parcialmente, eu diria. E vou apontar alguns breves motivos para isso...

O atual Governo Federal, eleito na base das fake news e do ódio que sempre existiu em muitos de nós e que adora propagar pelas redes sociais o seu “patriotismo” típico dos piores anos da Ditadura Militar, tem se revelado como um verdadeiro vassalo dos EUA: submisso aos caprichos e insanidades de Donald Trump, o mandatário que ocupa o posto mais ilustre da República Federativa do Brasil (cujo nome não cito em público de jeito nenhum) já ofertou aos yankees uma base militar no Estado do Maranhão, tem planos de entregar a Amazônia de bandeja para o Tio Sam, fora as declarações “apaixonadas” ao Presidente norte-americanos. Isso sem citar detalhadamente todos os desmandos cometidos contra os mais pobres (Reforma da Previdência, vetos presidenciais que parecem atos institucionais etc.) e favorecendo os mais ricos.

Outro motivo gritante para ilustrar a nossa eterna condição de vira-lata é o seguinte: o Brasil JAMAIS poderá se autodeclarar como “independente” se prosseguir violando direitos do seu povo. O mundo inteiro sabe que nossos governantes administraram a nação de forma plenamente irresponsável quando o assunto é a pandemia causada pelo coronavírus. Na noite de 7 de setembro de 2020, enquanto o Sub-Trump falava à nação brasileira, contabilizamos mais de 4 milhões de infectados e mais de 127 mil mortos pela doença. Enquanto isso, milhões de brasileiros morrem de fome graças à ausência de políticas públicas que apoiem trabalhadores e pequenos empresários; milhares de estudantes não conseguem sequer estudar durante o período de isolamento social porque não conseguem ter acesso à Internet. Já a imprensa brasileira (que teve um papel determinante nas últimas eleições) segue cerceada pelo Governo Federal e parcialmente impossibilitada de noticiar os escândalos de corrupção que mencionem a família do Presidente. E, por fim, assistimos a Amazônia e o Pantanal em chamas, por culpa da imensa irresponsabilidade do Ministério do Meio Ambiente. Se fossemos governados por patriotas de verdade, jamais viveríamos situações tão absurdas assim...

A ocasião do feriado prolongado (a data comemorativa da Independência do Brasil caiu em uma segunda-feira) nos trouxe uma série sem fim de imagens desoladoras: praias, bares e restaurantes do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Nordeste lotadas de banhistas sem sequer termos uma vacina para o vírus; em um evento oficial, o Presidente da República desfila sem máscaras, sem qualquer tipo de proteção individual e com uma horda gigantesca de aloprados ao seu redor. A ciência, em nosso país, é constantemente ignorada e desrespeitada pelas autoridades em prol de um mercado desumano e de uma moral religiosa nada cristã, relegando a vida de milhares de pessoas para o segundo plano. Diante de 127 mil pessoas desaparecidas, temos algum motivo para celebrar?

Por outro lado, minha descrença em dias melhores no futuro sai um pouco de cena ao sabermos que temos uma classe artística e intelectual que consegue pensar o país com muito mais sabedoria e inteligência do que os infelizes que ocupam os Três Poderes e que estão comprometidos até o último fio de cabelo com os projetos de direita que sempre agradou as elites brasileiras. Seríamos muito infelizes sem o legado e o pensamento de lendas brasileiras como Glauber Rocha, Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tarsila do Amaral, Rita Lee, Lima Barreto, Djamila Ribeiro, Silvio Almeida, Antonio Candido, Silviano Santiago, Clarice Lispector, Teresa Cristina e tantos outros brasileiros ilustres e anônimos que sempre amaram o nosso país, apesar de tantos pesares. Graças ao trabalho dessas pessoas, eu me lembro que toda crise, por maior e pior que ela seja, é passageira e que, cedo ou tarde, teremos condição de ir às ruas com tranquilidade e com orgulho das coisas boas que ainda existem por aqui, independente da tendência política de qualquer governo.




7 de setembro de 2020 não deveria ser lembrado futuramente pelos dizeres “Independência ou Morte” ou “Ordem e Progresso”, mas por “Negligência e Morte” ou “Desordem e Retrocesso”. O que me consola diante de tamanho horror é ter a certeza absoluta de que eu jamais contribuí para isso já que, como diz a canção de Gilberto Gil, devemos ser livres para ser e amar como quisermos...