1825 DIAS SEM WHITNEY
HOUSTON
Em memória
de Whitney Houston (1963-2012)
Foi numa
madrugada de domingo, daquela de intervalos perturbadores entre uma cochilada e
outra, nos quais o corpo mais se cansa do que descansa. Recebi a notícia em uma
das vezes em que acordei: Whitney Houston já não estava mais entre nós. Uma das
vozes mais belas do mundo tinha morrido aos 48 anos.
Tal qual
vários artistas de sua geração, Whitney possuía a maldição autodestrutiva de
todo artista: ao mesmo tempo em que ele pode originar e erguer as coisas mais
belas em matéria de arte, ele também consegue ser extremamente eficiente em
matéria de sabotagem própria. Tal qual Michael Jackson, Prince ou Amy
Winehouse, Whitney Houston sucumbiu aos prazeres efêmeros das drogas e do
alcoolismo e não sobreviveu aos dilemas existenciais de ser uma celebridade em
uma terra que respira o sucesso a qualquer preço.
A voz
potente de Whitney me pegou em cheio quando eu ainda era criança, lá pelos idos
de 1989-1990, graças às trilhas sonoras das novelas da TV Globo. Tinha 11 anos
de idade quando a filha de Cissy Houston tomou as paradas de sucesso do planeta
de assalto com as canções de The
Bodyguard ("O Guarda Costas"). Lembro bem de ver um sem-fim de
reportagens sobre a estrela Pop do
momento, além de revistas de meninas com traduções de "I Will Always Love
You", de Dolly Parton, que tocou nos rádios e na MTV até cansar nossos
olhos e ouvidos e fez com que o álbum com as canções do filme fosse o mais
vendido de toda a história. Já a película em si era de uma pobreza dramatúrgica
sem tamanho: Kevin Costner é tão expressivo quanto uma estátua de cera, porém
os videoclipes nos quais a personagem Rachel Marron estava em ação mostrava o
que Whitney Houston sabia fazer melhor: cantar!
Pensando
bem, Whitney Houston tinha um outro talento indiscutível: ela conseguia
arranjar confusão tão bem quanto cantava. Os episódios de manchetes nos jornais
por causa de abuso de drogas, álcool, de canos em aparições públicas e barracos
com o ex-marido Bobby Brown fizeram a festa dos tabloides e dos programas de
celebridades - com direito a um reality show estrelado pelo marido que renovou
os limites do mau gosto. Sem esquecer de somar algumas pitadas de arrogância e
uma vontade sem fim de dizer que está tudo bem para Deus e o mundo. Vergonha?
Vontade de tapar o sol com a peneira? Ou os dois? Só ela poderia saber...
Os anos 1990
acabaram para mim ao som das músicas de My Love is Your
Love (1998), que ganhei de presente em um dos meus aniversários.
Whitney aparece linda e loira na capa do disco, cantando como nunca. A diva
procurou se reconectar com o universo da música Pop ao gravar com nomes de peso como Mariah Carey, Missy Elliot e
Lauryn Hill para continuar, digamos, na crista da onda daquele momento. E, com
o seu talento indiscutível, conseguiu. "It's Not Right, But It's
Okay", "If I Told You That" e "I Learned From the
Best" foram a trilha sonora do final de uma década de brilho e sucesso
para Whitney e de anos de tédio e amargura para mim.
Os anos 2000
não foram muito agradáveis para a estrela: os escândalos sucessivos e o consumo
de drogas começaram a afetar sua forma física e a arranhar sua carreira
musical. As vendas caíram e as turnês apontaram a decepção dos fãs e o desgaste
de Whitney Houston perante o público. O brilho da estrela começava a se apagar.
O novo milênio começava a ficar órfão de grandes vozes e de talentos genuínos.
As pessoas teriam uma voz a menos para poder acreditar de que este mundo seria
um lugar melhor de se habitar.
Em um
universo musical cada vez mais fake e
plastificado, a voz poderosa de Whitney Houston faz uma falta sem tamanho. Sua
partida trágica de nosso convívio - ela morreu afogada em uma banheira de um
hotel em Los Angeles por causa de abuso de drogas e álcool - e seus dramas
pessoais que se tornaram públicos compuseram uma aura extremamente negativa de
uma das vozes mais belas que o mundo já ouviu. Depois de viver 1825 dias sem a
voz de Whitney entre nós, vejo que ela ainda é referência para muitos artistas
a se aventurarem pelo mundo musical. Que ela sempre seja lembrada pelo seu
talento...