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27 de dezembro de 2016

TROVA # 104

PARA GEORGE, COM AMOR




"It's a cruel world
We've so much to lose
And what we have to learn
We rarely choose"
(George Michael, 1996)


George Michael nos deixou no Natal de 2016. Discretamente, longe dos holofotes, sem muito alarde por parte de sua assessoria de imprensa. Misteriosamente. Milhões de fãs chocados, afinal, ele tinha apenas 53 anos de idade e estava trabalhando em um álbum de canções inéditas. Uma perda sem tamanho para a música, o ativismo LGBT e para as causas humanitárias do planeta.



George formou o duo Wham! ao lado de Andrew Ridgeley durante a primeira metade dos anos 1980

As lembranças mais doces da minha infância eram relacionadas aos sons que se ouviam dentro de casa. George Michael foi uma das trilhas sonoras mais marcantes, se não foi o mais impactante dos meus primeiros anos. "Careless Whisper" e “Wake Me Up, Before You Go-Go” eram figurinhas fáceis e tocavam bastante do toca-fitas do carro de meu Pai em meados da década de 1980. Até hoje eu me lembro do violão e da guitarra anos 1950 de Faith (1987), primeiro álbum solo de George. Meu avô adorava ouvir aquele disco nas manhãs de sábado, enquanto eu brincava na piscina, vivendo a felicidade dos meus 7, 8 anos de idade.






George Michael foi a grande novidade do universo Pop do final da década de 1980. Conseguiu fazer frente aos feitos de Prince, Madonna e Michael Jackson com sua música inteligente e seu visual retrô - casacos de couro, calça jeans, camiseta branca, topetes estilo Elvis com luzes, barba impecável e cerrada, um brinco dourado de crucifixo e um sex appeal de arrebatar multidões (homens e mulheres!). 




A diferença de George para os pares de sua geração? Em um ÚNICO álbum, ele compunha letras bastante densas para canções que iam do R&B e Pop típico dos anos 1980 ("Monkey") ao Jazz ("Kissing a Fool"), sem deixar de passar por baladas açucaradas ("One More Try") e pelos remixes típicos de santuários bate-estacas ("I Want Your Sex"). Faith resistiu ao passar dos anos e se tornou um dos discos mais vendidos da história da música, com videoclipes belíssimos – o clipe extraordinário de "Father Figure", que narra a saga amorosa de uma top model e um yellow cab driver, por exemplo, não sai da minha cabeça até hoje -  e que fizeram do jovem Georgios Kyriacos Panayiotou (o verdadeiro nome do astro) um ícone da música popular.






Quando Listen without Prejudice, Vol. 1 (o segundo volume foi cogitado, mas nunca lançado) veio a público, em 1990, eu tinha 9 anos de idade. Apesar de várias canções daquele disco tocado nas rádios, na MTV e em trilhas sonoras de novela da Globo, George Michael entrou em uma guerra intensa com a sua gravadora na época, a Sony Music, que achou as canções daquele disco um tanto "elaboradas" demais para o gosto popular. Por outro lado, George estava lutando arduamente para quebrar a imagem do "machão-hétero-comedor" que tinha se popularizado a partir do sucesso de Faith.






As brigas judiciais entre George Michael e a Sony Music renderam uma série de capítulos amargos para ambas as partes. O astro foi obrigado a lançar dois discos pela gravadora (um de inéditas, outro com um apanhado de sua carreira musical) para que a disputa finalmente se encerrasse. Enquanto os tribunais trabalhavam no caso, George foi investindo em projetos paralelos: o EP Five Live foi resultado de uma colaboração do cantor com o grupo Queen e com a participação especial de Lisa Stansfield. Além disso, várias participações em discos-tributos e álbuns com renda revertida para pesquisas de cura da AIDS. 



Eu tinha 12 anos na época em que George Michael assumiu temporariamente o lugar do récem-falecido Freddie Mercury e fez um trabalho esplêndido com o Queen. Havia uma grande esperança de que o grupo retornasse aos discos e aos palcos com um novo vocalista, que teria grandes chances de fazer um excelente trabalho. George, inteligentemente, recusou o convite. Primeiro, porque sabia do risco e da responsabilidade de assumir o posto de alguém insubstituível. Segundo, porque ele tinha coisas a dizer. Estava mais velho, mais calejado com as rasteiras da vida, mais experiente com a dor de ser alguém famoso.



Ao lado de Elton John durante o funeral da Princesa Diana, em 1997

Quando Older foi lançado, em meados do primeiro semestre de 1996, eu tinha 15 anos. Finalmente ficou claro para o resto do planeta o que já era para lá de óbvio para alguns: George Michael era homossexual. Suas canções atingiram o ápice do tom confessional, pois falavam de dor, de abandono, de sofrimento, de tesão, de fama e tantas outras coisas. Além disso, George experimentou diálogos da música Pop com o Funk, o R&B e o Jazz sem se esquecer das baladas certeiras, mas com uma diferença marcante: a presença de cordas e metais em várias das faixas do disco. A influência da música de Antônio Carlos Jobim, morto na época das gravações, foi provavelmente uma razão. Já a inspiração para o tom poético denso das letras se deve à morte de seu companheiro da época Anselmo Feleppa, um estilista brasileiro morto em consequência da AIDS.





Ouvi Older praticamente sem parar durante o verão de 1997. Enquanto George estabelecia sua imagem como um ícone gay, aquele CD continha canções que eram declarações de plena liberdade de corpo, de espírito, de sexualidade, de tantas outras coisas. “Fastlove, Pt.”1 até hoje me causa espécie pela quantidade de tesão e voyeurismo envolvidos em cada take daquele videoclipe e pela cena antológica de ver o Pop Star dançando debaixo de vários chuveiros sem o menor "medo do que suas fãs heterossexuais poderiam achar".






Nem preciso dizer aqui que Older é o meu trabalho preferido de George Michael. Por sua ousadia, por sua sofisticação, por sua coragem em dizer aquilo tudo em uma época na qual ser homossexual (ainda) era uma verdadeira sina. Apesar do disco foi um tremendo sucesso na Europa e na América do Sul – os norte-americanos reagiram friamente, visto que uma onda de boybands e novas Pop Stars femininas estava passando pelas terras de Uncle Sam –, George não fez uma turnê mundial do CD...






Os meios de comunicação não demoraram nem um pouco para explorar a vida sexual de George Michael com todo o sensacionalismo possível. Um episódio ocorrido com o Pop Star por volta de 1998 foi matéria de inúmeros tabloides: George foi flagrado fazendo sexo em um policial à paisana em um banheiro público de um parque. Após o fim da tempestade, era preciso divulgar o CD duplo Ladies & Gentlemen - The Best of George Michael, no entanto o astro decidiu fazer um videoclipe brilhante para a canção "Outside", no qual vários casais eram flagrados pela polícia praticando relações sexuais em público. Ver George Michael dançando vestido de policial, com direito a um cassetete na mão e zombando da repressão foi uma tirada bastante bem-humorada e uma crítica feroz às instituições como todo. Os canais da MTV exibiram o vídeo à exaustão (com cortes, diga-se de passagem), mas não havia problema: a Music Television não teria sido o que foi sem os clipes de George Michael! 

k.d. Lang, George Michael, Mick Hucknall e David Bowie






Ao invés de lançar um registro oficial de sua apresentação no programa MTV Unplugged, que trazia versões desplugadas de seus sucessos e gravações inéditas, George Michael se juntou ao renomado produtor musical Phil Ramone e lançou o belíssimo álbum de covers Songs From the Last Century em 1999. Fiquei boquiaberto para a versão jazzy de "Roxanne", o cartão de entrada de Sting à frente do lendário grupo The Police para o mundo da música. Já a releitura que George fez para "Wild is the Wind" é uma das gravações mais belas que eu já ouvi na minha vida, superando as versões de Frank Sinatra, David Bowie e da incomparável Nina Simone. A gravação de "Brother, Can You Spare a Dime?" é surpreendente para alguém que reinava as ondas do rádio e da MTV com o que havia de mais chiclete em termos de música Pop. É um dos discos mais belos já gravados por uma voz masculina na história da música do planeta, infelizmente ignorado por muitos. 





A partir da década de 2000, George Michael perdeu a criatividade musical de seus melhores anos. Patience (2003) está longe do nível de sofisticação de seus trabalhos anteriores. Twenty-Five (2006) foi um trabalho de revisão de seus primeiros 25 anos de carreira e foi promovido por uma turnê extensa por vários países do mundo. Symphonica (2014) continha os melhores momentos da turnê que George levou para os palcos entre 2011 e 2013. Um trabalho belíssimo de intérprete, que mostra a versatilidade e a sensibilidade de um grande cantor.





Os últimos anos não foram nada generosos para George: lutou intensamente contra a dependência química, contra internações por pneumonia, aumento de peso e crises de depressão. Foi um enorme benfeitor de causas humanitárias, atuou como voluntário de maneira anônima e nunca hesitou em doar quantias generosas para qualquer pessoa necessitada de algo. Era um grande ser humano. Um artista bastante sensível e criativo. George Michael brilhou pelas ondas do rádio, pelas TVs e pelos palcos enquanto pôde... A partir de 25 de dezembro de 2016, ele voltou a brilhar no céu!



Farewell, George! Thank you for your timeless music...



30 de novembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 9

ARETHA FRANKLIN – ARETHA IN PARIS (1968)


Enquanto os franceses estavam tomando as ruas para fazer as grandes revoluções e tentar derrubar o então presidente Charles de Gaulle do poder, a bela Aretha Louise Franklin, de 26 anos, estava levando a sua revolução para um dos palcos mais célebres da capital francesa: o Olympia de Paris.
Recém-saída de uma grande gravadora – a Columbia, que não tinha explorado o potencial da filha do Reverendo Franklin como deveria – Aretha modernizou sua imagem e passou a cantar Soul Music da melhor qualidade. A Atlantic Records lhe deu a chance de gravar três discos que lhe renderam hit singles de relativo sucesso e que, finalmente, apresentaram o que aquela jovem de vinte e poucos anos tinha de oferecer ao planeta.
Aretha in Paris reúne o sensacional repertório que Aretha Franklin gravou em seus três primeiros trabalhos na Atlantic: o seminal I Never Loved a Man The Way I Loved You (1967), o menos conhecido (e não menos importante) Aretha Arrives (1967) e o ES-SEN-CI-AL Lady Soul (1968). O canto de Aretha (alto, límpido, rascante, intenso, dramático) cresce a cada nota, a cada scat, a cada interpretação inconfundível que leva a assinatura de uma artista que estava redefinindo as bases da música negra que se fazia no planeta em 1968.



A banda que acompanha Aretha merece uma menção honrosa: além das imprescindíveis vocalistas de apoio (Carolyn Franklin – uma das irmãs da cantora -, Charnessa Jones e Wyline Ivey), que ofereciam o suporte necessário para que Lady Soul pudesse fazer com o que o seu canto voasse bem alto, havia o quarteto competentíssimo formado por Jerry Weaver (guitarra), Gary Illingworth (Piano), George Davidson (Bateria) e Rodderick Hicks (Baixo) e um time de, nada mais, nada menos do que OITO músicos que tocam instrumentos de sopro (sax tenor, sax barítono, trompete, trombone…). Em um total de QUINZE músicos no palco, todos eles estavam a serviço de uma das vozes mais belas e versáteis que os Estados Unidos da América já ofertaram ao resto do mundo: a de Aretha Franklin!


Ao ser anunciada para entrar no palco, os músicos começam a tocar uma versão Soul de “Satisfaction”, de Mick Jagger & Keith Richards, cuja letra e interpretação não possuem muito a ver com as insinuações libidinosas que os Rolling Stones deixavam claro no original. A releitura de Aretha, com metais em brasa, retira a conotação sexual e dá a sugestão de uma garota insatisfeita sentimentalmente. É a deixa perfeita para o próximo número “Don’t Let Me Lose This Dream”, parceria de Franklin com seu primeiro marido, Ted White: uma canção romântica, que fala de amor, que dá a oportunidade para que casais apaixonados se abracem e comecem a dançar pelo salão…


Terceiro número: acorde prolongado da guitarra de Jerry Weaver enquanto Aretha introduz, via vibratos, o primeiro verso de “Soul Serenade”, de Luther Dixon e Curtis Ousley: “Only you can hear my soul serenade”… Logo após, os metais entram discretamente, enquanto o quarteto prossegue com a batida e provocando, surpreendentemente, palmas do público. Na medida em que a canção evolui, os metais são soprados cada vez mais alto e Lady Soul, sem se intimidar, vai cantando com mais energia e volume, com mais e mais scats e fazendo vibrar cada sílaba da canção, fazendo de suas releituras obras-primas, principalmente por se tornarem irreconhecíveis em relação ao original. O mesmo processo ocorre no número seguinte, o soturno blues “Night Life”, de Willie Nelson, no qual Aretha consegue arrancar aplausos da plateia em cena aberta devido à intensidade de sua interpretação. Depois destes números, o público parisiense já estava literalmente nas mãos da filha do Reverendo Franklin.
A próxima faixa do disco foi o único hit single de Aretha Arrives: “Baby I Love You”, de Ronnie Shannon, autor de outro clássico da Rainha do Soul que trataremos logo a seguir. Com direito a metais em brasa e as vocalistas de apoio cantando e dançando num jogo que complementava a interpretação de Franklin, é um dos números mais dançantes do show do Olympia! Logo depois, o álbum segue com a releitura que Aretha fez para “Groovin” – que fez sucesso com The Young Rascals e com o Booker T. & the M.G’s em 1967 – em Lady Soul.
O Lado A de Aretha in Paris se encerra com uma das criações mais emblemáticas do repertório da canção de todos os tempos: “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”, parceria do casal Carole King e Gerry Goffin a partir de uma ideia do produtor de Aretha na Atlantic Records, Jerry Wexler. A canção, que se tornou um hino do feminismo moderno (pois retratar o sentimento amoroso feminino em uma década na qual normas de comportamento estavam sendo revistas) faz parte do repertório de Lady Soul e se tornou em uma das marcas registradas do trabalho de Aretha Franklin.
O Lado B do primeiro registro ao vivo de Aretha Franklin em disco se inicia com uma versão eletrizante de “Come Back Baby”, de Ray Charles, mais um número rápido com direito a arranjos de sopros incandescentes e vocais de apoio frenéticos. O show prossegue com Aretha sentada ao piano para tocar mais uma pareceria dela com Ted White, o pérfido blues “Dr. Feelgood (Love is a Serious Business)”, com direito a alguns grunhidos, scats lancinantes e interações com as vocalistas de apoio e com a própria plateia.
Mais uma faixa de Lady Soul coloca o show em um ritmo frenético e alucinante: “(Sweet Sweet Baby) Since You’ve Been Gone”, outra parceria de Aretha Franklin e Ted White, é outra canção que não deve ter deixado nenhuma pessoa no Olympia imóvel em seus assentos na medida em que a Rainha do Soul revela em pouco menos de dois minutos e meio. O final do disco reserva mais três pérolas que redefiniram a imagem e o som de Aretha; mais do que isso: trata-se de uma trinca de ases que fizeram da filha do Reverendo Franklin uma das maiores personalidades da música universal dos últimos tempos.
A primeira delas, “I Never Loved a Man (The Way I Love You)”, refaz uma das gravações mais emblemáticas de Aretha Franklin. A letra e melodia de Ronnie Shannon, na qual Aretha relata – com seu fraseado indefectível – os desencontros e as desventuras amorosas com o objeto de seu desejo, é uma das canções mais belas de todo o repertório da Soul Music. A segunda é a demolidora “Chain of Fools”, de Don Covay, cuja versão original também é de Franklin e está no emblemático Lady Soul, foi suficiente para incendiar a plateia e quem estiver ouvindo Aretha in Paris em qualquer parte do mundo.
A última das três é a ultra incendiária releitura de “Respect”, clássico de Otis Redding, que se tornou um dos emblemas mais significativos da liberação feminista no final dos anos 1960. A interpretação que Aretha Franklin deu para a canção é extremamente marcante pelo fato de que, na versão de estúdio, a Rainha do Soul, ao lado de suas irmãs de Erma e Carolyn, fizeram do estribilho original “But all I’m askin’ is for a little respect when I come home” algo inteiramente explosivo ao incluir ideias como a repetição da expressão “Sock it to me” (que, em Português, significa algo como “Pode me encarar, não tenho medo de você) e das letras da palavra RESPECT exasperadamente, com o intuito de vencer o algoz pelo cansaço, talvez.
O disco chega ao fim com a certeza de ter registrado uma das maiores cantoras de todos os tempos no auge de sua forma e de seu talento. A Aretha Franklin que o mundo ouvia em 1968 era uma cantora de Soul Music que tinha todo um background de cantora de Jazz e de standards e de uma infância na qual aprendeu o seu ofício (ou o seu dom divino, segundo a própria cantora) dentro do universo Gospel da Igreja na qual seu pai era Reverendo. Sem deixar de estar atenta às tendências musicais que ocorriam no ambiente musical de sua geração (Willie Nelson, Ray Charles, Otis Redding, The Rolling Stones) e de compor belas canções, Aretha tinha se tornado em uma das artistas mais modernas e ousadas de todos os tempos.


Aretha in Paris é um dos títulos mais importantes da discografia de Miss Franklin não apenas por ser um retrato de uma artista no melhor do exercício de seu ofício. Ao contrário do que foi dito sobre este disco na época, é um trabalho que deve ser ouvido e reouvido mais vezes por se tratar de um item raro e esgotado nas lojas de discos e para que as pessoas possam se lembrar e/ou saibam como são os princípios do bel-canto sem levar em consideração os enlatados que os reality shows tentam nos fazer digerir goela abaixo. 




7 de janeiro de 2014

TROVA # 31

ALGUMAS NOITES AO SOM DE
 ARETHA FRANKLIN
 
Aretha Franklin: The Queen of Soul

“Ser uma cantora é um dom natural. Isso significa que eu estou usando para o mais alto grau possível o dom que Deus me deu para usar. Estou feliz com isso.”
(Aretha Franklin)



      Houve uma época em que meus finais de noite não variavam muito. Ao final de meu expediente como Professor de Inglês em uma escola em um dos extremos da Zona Sul de São Paulo, depois de todas as minhas aulas do dia, era necessário fazer as típicas tarefas burocráticas que compõem a nossa rotina de trabalho. Graças à Internet (esta santa maravilha do mundo moderno) e ao YouTube (santo remédio para os carentes de memórias musicais e referenciais artísticas femininas que vão além da Miley Cirus, Beyoncé, Katy Perry, Selena Gomez, Lady GaGa ou outro artifício Pop feminino), eu podia executar esta (árdua) tarefa ao som de uma das melhores autoridades no quesito CANTO em todos os universos: Aretha Franklin!


         Aretha Louise Franklin é uma dessas cantoras que não se fazem mais nos dias de hoje. Seu canto começou a se desenvolver na Igreja Batista na qual seu pai, C. L. Franklin era reverendo, a partir dos 10 anos de idade. Aos 14, gravou seu primeiro disco. Aos 19, já era uma das estrelas mais jovens da Columbia Records. Aos 25, já era proclamada The Queen of Soul e já tinha garantido seu lugar na história da música do planeta. Aos 45, foi a PRIMEIRA MULHER a ser nomeada para o Rock ‘n’ Roll Hall of Fame.

Aretha foi a primeira mulher a ser nomeada para o
Rock 'n' Roll Hall of Fame.

         Aretha Franklin é uma unanimidade para estrelas das mais diversas no mundo da música: de Annie Lennox a Mariah Carey, de George Michael a Adam Lambert, a Rainha do Soul é referência máxima de excelência e integridade artística. Sua flexibilidade vocal de mezzo soprano, sua inteligência interpretativa e seu repertório clássico são exemplos do que existe de melhor em termos de ARTE. Não é a toa que outras pessoas que queiram se aventurar no mundo da música queiram buscar um pouquinho do brilho de Tia Aretha, não?


*
 
O retrato de uma Rainha quando jovem.
         Ouvir a voz da Rainha do Soul ao final de uma noite de trabalho intenso não faz apenas o meu viver mais digno de ser vivido. Tal experiência me conduz de volta aos idos de 1994 e 1995, quando meu avô Adhemar ainda era vivo. Visitar sua casa aos domingos não era apenas uma garantia de comer o feijão inesquecível de minha avó Magaly, como também garantia o meu direito absoluto de ouvir música de excelente qualidade. Lembro-me muitíssimo bem quando uma série de CDs da Sony Music intitulada Golden Collection adentrou uma das casas da rua Pinto Alpoim, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro: dentre estes tesouros, sucessos de Tony Bennett, Doris Day, Johnny Mathis e, evidentemente, Aretha Franklin em sua fase Columbia!


         Quando ouço a orquestra introduzir “Take a Look”, de Clyde Otis e a voz (sofrida) de Aretha suplicando logo de cara os versos “Take a look at the mirror / Look at yourself / But don’t you look too close / ‘Cause you just might see / The person you hate the most… (Olhe para o espelho / Veja a ti mesmo / Mas não olhe muito perto / Pois você pode até ver / A pessoa que você mais odeia)”, sinto um arrepio gigantesco e nunca entendi o porquê de tamanha sensação. Ao revisitar a letra de Otis, constatei que ela perguntava a Nosso Senhor a razão dos homens agredirem deliberadamente uns e outros – seja fisicamente, seja através das palavras – enquanto o ódio não se tornar a única recompensa a recebermos...


         As gravações dos anos clássicos da fase Columbia consistem em interpretações maravilhosas do cancioneiro clássico norte-americano. Por exemplo, o disco que Aretha gravou em homenagem a Dinah Washington no início de 1964 é de uma beleza absurda só pelas releituras de “Unforgettable” (Irving Gordon) e “Cold, Cold Heart” (Hank Williams). Nesta época, standards da autoria de Hoagy Carmichael, Irving Berlin, Sammy Cahn, Burt Bachrach, Johnny Mercer, Oscar Hammerstein II, Harold Arlen, Cole Porter e outros foram gravados pela jovem Aretha Franklin. Todas estes clássicos foram inclusos em um box maravilhoso chamado Take a Look – Aretha Franklin complete on Columbia, com a qual eu sonho ter em minha coleção em um belo dia. Além disto, há um álbum antológico lançado por Aretha em maio de 1965 chamado Yeah!!!, no qual a filha do reverendo Franklin revira clássicos do Jazz como "Love for Sale" (Porter) do avesso. Uma pérola, um achado, uma raridade que merece ser ouvida!



*

         Já a fase Atlantic deu à Aretha o definitivo reconhecimento que fez da filha do reverendo Franklin uma lenda do soul. As gravações incendiárias de “Chain of Fools”, “Bridge Over Troubled Water”, “Amazing Grace”, “I Never Loved A Man (The Way I Loved You)”, “(You Make Me Feel) A Natural Woman”, “Do Right Woman, Do Right Man”, “The Weight”, “Think”, “I Say A Little Prayer” e “Respect” são lendárias e inesquecíveis, de uma autenticidade e de uma intensidade que faria qualquer um do signo de escorpião ficar ruborizado com a eletricidade envolvida em cada nota, em cada acorde, em cada vocalize, em casa vibrato.

Lady Soul (1968) é um trabalho ESSENCIAL de Aretha Franklin! Se você ainda não o ouviu, faça-o o quanto antes...

         Há dois acontecimentos interessantíssimos sobre Lady Soul que a jornalista Sheila Weller conta em seu delicioso livro Girls like Us. Na década de 1960, pelo menos, Aretha Franklin era extremamente criteriosa na escolha de seu repertório. Vários compositores queriam que a Rainha do Soul imortalizasse uma de suas canções nos sulcos de vinil que soam e ressoam pelas casas de tanta gente. Paul McCartney enviou, certa vez, uma canção belíssima para que Aretha gravasse. Era um belíssimo spiritual, daqueles típicos para serem cantados em igrejas, com direito a órgãos Hammond B3 e corais de negros ao fundo para oferecer o suporte necessário para os vocais incendiários da Rainha. Apesar de ter gravado a canção dos Beatles, a cantora não permitiu que a gravação fosse comercializada até o início de 1970. O mundo conheceu a tal parceria Lennon-McCartney na gravação que figura no algum This Girl's In Love with You e no derradeiro álbum dos Beatles – o título da canção? “Let It Be”!


        A fama de exigente que Aretha ostentava chegou a deixar compositores do porte de Carole King e Gerry Goffin inseguros em relação à qualidade de seu trabalho. Certa vez, Gerry encontrou Jerry Wexler (produtor de Franklin durante a fase Atlantic) na Grand Central Station de Nova York em um belo dia nos anos 1960 e pediu para que eles compusessem uma canção chamada “You Make Me Feel Like A Natural Woman”. Três semanas depois, Goffin e King, temerosos diante da fama da Diva, estavam no escritório de Wexler na gravadora com a canção em mãos para que ela fosse gravada por Aretha, que adorou a canção do casal. Gravada em 1967 e lançada em single em setembro do mesmo ano, “Natural Woman” se tornou em uma das marcas registradas do canto de Aretha Franklin e já foi regravada inúmeras vezes.





*

         Seja na Columbia, seja na Atlantic (fases de Aretha das quais conheço bem), meus finais de noite se tornaram bem mais agradáveis enquanto fazia meu diário de classe, arrumava meus livros e meus cacarecos que levo para as minhas aulas. Como tenho a honra de trabalhar em um local no qual as salas de aula são equipadas com excelentes equipamentos de som, não havia sensação melhor de deixar o som de “Chain, Chain, Chain (Chain, Chain, Chain) / Chain of Fools” ressoar pelos corredores da escola depois de todos os meus alunos terem ido embora para casa ao final de cada batalha diária. Foram momentos de nostalgia e alegria que deixaram a minha rotina muito mais interessante e rica em qualidade musical. Tudo isso graças ao talento indiscutível de Aretha Franklin.


Aretha em foto de 1980.

         Entre a dor, a tristeza, o ódio, a desilusão, o amor e o fervor, Aretha Franklin é sempre a opção mais inteligente entre as vozes negras norte-americanas. Vale a pena ouvir o canto desta mulher, para que acreditemos no quanto que a música ainda tem o poder de transformar o estado de espírito das pessoas...


Cantando para Barack Obama durante a posse do primeiro mandado do primeiro presidente negro da história dos EUA.