SAUDADE:
palavra que traduz um sentimento agridoce de algo que já não temos mais
conosco. Palavra muito difícil de ser traduzida para outros idiomas, bem
difícil de explicação para quem não é nativo do idioma português. Dizem que a saudade
é síndrome de quem vive no passado, enquanto a ansiedade é pavor do futuro e a
depressão é o pânico do presente. Talvez faça sentido, porque sou alguém
ansioso por natureza e já vivi episódios graves de depressão. E conheço várias
pessoas que se encaixam nessa lógica.
Porém,
não podemos nos esquecer jamais de que viver é um jogo muito mais complexo do
que a lógica comum e é uma ação que requer, acima de tudo, CORAGEM. Coragem de
se expor, coragem de tirar as palavras do pensamento e das conversas íntimas
para leva-las para o papel e depois para o ciberespaço. Coragem de desafiar o
senso comum imposto por um pensamento conservador e tacanho. Coragem de ser
diferente em um contexto que exige que todo mundo seja e aja de maneira igual.
Apesar
do que sugere o título do texto que você está lendo, estou longe de ser um
entusiasta do que já passou. Guardo com carinho muitas lembranças de outrora, tenho
outras memórias bem preservadas na gaveta do rancor. Tenho mais animação pelo
futuro, considerando o que ele pode nos trazer de bom e não tão bom assim. Faço
do meu presente a possibilidade de construir um futuro melhor para mim e para
mais alguns. Escrevo tudo isso para dizer que não sinto uma ponta de saudade do
passado que eu vivi, mas invejo profundamente o passado que eu não vivi. A
juventude anárquica e desbundada dos anos 1960 e 1970 e muitos dos eventos
político-culturais que foram promovidos para combater a caretice brasileira
nossa de todo dia.
Caso
queiram falar de mim e do que eu escrevo, digam apenas o seguinte: se o passado
que me cabe e não me cabe mais são estrelas no espaço sideral, podem me chamar
de “astronauta da saudade”, pois meus textos transitam por corpos celestes e
resgatam as memórias boas que vivi e as lembranças que gostaria de ter tido.
Caso queiram falar de mim e do que eu escrevo, digam também que sou um amigo da
arte, da ciência e do conhecimento. Falo e escrevo sobre coisas “fora de moda”:
“livros, discos, vídeos à mancheia” e outras coisinhas que o sujeito comum não
gosta ou não aprecia mais. Sempre contra a corrente, contra o senso comum e a
velha pasmaceira.
Cada
texto que escrevo vai muito além do desejo de ser lido ou do mero instinto de
me comunicar por meio de palavras para velhos conhecidos ou um leitor cujo
rosto eu não conheço. Cada postagem em meu blog
sempre foi uma maneira de procurara a beleza no presente com o auxílio da
música. Em algumas ocasiões fui bem-sucedido, em outras nem tanto. No resumo de
tudo, foi mantido o exercício da escrita como um ofício prazeroso e com a
garantia de que erros e acertos estão devidamente registrados, apesar de
levemente revisados.
Já
que tornar público o que há de mais íntimo por parte do pensamento é o fato que
está diante de seus olhos, aproveito para fazer um convite para você que chegou
até aqui: ouça os textos, leia os discos e as canções que se encontram por
aqui. O blog foi uma viagem e tanto.
Quem sabe o livro seja também. Por isso, junte-se a mim e faça uma boa viagem
pelas letras e sons que reuni aqui depois de tantos anos...
Uma
crônica para homenagear a Santa Protetora dos Músicos
Foto: Nilton Serra
Já
advirto ao leitor destas mal traçadas linhas: esta crônica não é sobre Cecília
Meirelles. Também não é sobre Cecilia Bartoli, a soprano italiana que encanta
qualquer leigo em matéria de música clássica. Quem sabe até poderia ser sobre
Cecília Meirelles, uma das maiores expressões brasileiras em matéria de poesia
em Língua Portuguesa. Poderia ser sobre a canção “Cecília”, uma das canções
mais belas (e desconhecidas) do repertório de Chico Buarque de Hollanda. Talvez
esta homenagem seja sobre nossa afilhada, uma menininha de seis anos que tem
uma personalidade tão marcante que renderia uma crônica bem legal. Todavia,
nenhuma delas é a musa do texto de hoje.
Para os que me conhecem bem, Cecilinha
é Santa Cecília, não o famoso bairro que fica na região central de São Paulo e
que é adorado por nove entre dez jovens descolados, mas a Santa mesmo. Nascida
em Roma, Itália, por volta do ano 150 D.C., Santa Cecília era filha de uma
família nobre. Cristã, decidiu fazer voto de castidade para vivenciar o amor
divino típico dos mártires que se sacrificam pela fé. Em uma era na qual a fé
em Cristo era sinônimo de perseguição, foi condenada à tortura. Seu martírio
levou muito mais do que se esperava, pois a jovem manteve sua fé inabalável e
enfrentou seu destino trágico. Condenada à morte por uma machada no pescoço,
Cecília recebeu um golpe fatal, porém ainda chegou a sobreviver por mais três
dias e chegou a conversar e dar conselhos para aqueles que vinham rezar por
ela. Seu ofício final foi o de cantar até não ter mais forças e morrer como uma
das principais mártires da Igreja Católica.
Desde
então, Santa Cecília se tornou conhecida não apenas como mártir, mas
principalmente como a Santa Padroeira dos Músicos, cujo dia é comemorado no dia
22 de novembro. Apesar de não ser músico profissional e de não tocar nenhum
instrumento musical (fiz aulas de canto por um ano), devo muito do que sou
profissionalmente à música. Por outro lado, minha vida acadêmica e profissional
está intimamente ligada a versos e sons: eu me tornei Professor de Inglês
motivado pelo que ouvia no rádio e conduzi minha vida acadêmica pesquisando o
que havia de melhor da música brasileira. No entanto, dois episódios ocorridos
comigo no dia 22 de novembro fizeram com que eu concluísse de uma vez por todas
de que havia uma luz a guiar o meu caminho de um lugar o qual eu jamais poderia
enxergar.
O primeiro deles aconteceu em 2010. Paul
McCartney estava prestes a começar uma turnê brasileira depois de quase duas
décadas sem tocar por estas bandas. Tentei comprar ingressos para o show de 21
de novembro, domingo, mas, como existem tantos Beatlemaníacos por aqui quanto
membros de torcida organizada, as entradas se esgotaram antes de um mero
estalar de dedos. Faltando poucos dias para a apresentação, Macca anunciou que
faria um show extra na segunda-feira, 22 de novembro de 2010. Diante da
oportunidade de ouro, convoquei uma amiga e partimos em retirada para o Estádio
do Morumbi e conseguimos três ingressos de pista para o segundo show da turnê Up and Coming.
Foto: Nilton Serra
Segundo o relato de alguns amigos que
foram ao show de 21 de novembro, Paul fez um belíssimo show para um Morumbi
lotado e ensolarado. Tudo indicava uma semana sem catástrofes climáticas.
Porém, segunda-feira, essa eterna bagunceira dos ânimos e dos humores do ser
humano, nos reservava surpresas eletrizantes:São Pedro, em um péssimo dia, se revoltou e enviou
uma tempestade daquelas em cima da Cidade de São Paulo! Mas foi uma chuva
daquelas de parar a cidade inteira. Saí mais cedo do trabalho e fui para o
estádio com seis horas de antecedência com o coração na boca e preocupado com a
possibilidade de não chegar no local da apresentação.
Entre Fabíola Bueno e Nilton Serra, o autor da maioria das imagens que estão na postagem de hoje.
Era dia de Santa Cecília
e, sem que eu me desse conta, o aguaceiro resolveu dar uma trégua no Morumbi
minutos antes de Paul McCartney entrar no palco. Para compensar os ânimos,
Macca abriu o show tocando “Magical Mystery Tour”, dos Beatles (canção que eu
jamais imaginei ouvir ao vivo na vida), alegrando o público já nos primeiros
segundos da segunda apresentação de sua turnê por São Paulo. Dez anos depois,
ao me lembrar daquele dia, constatei que Cecilinha sempre protege os músicos e
os amantes de versos e sons como este aqui que vos escreve.
O segundo episódio no
qual Santa Cecília apareceu na minha vida se deu quatro anos do show de Paul
McCartney. Estávamos na região de São José do Rio Preto, interior de São Paulo,
para o batizado de nossa primeira afilhada. Por questões profissionais, não
tínhamos muita opção a não ser postergar a cerimônia para o feriadão da
terceira semana de novembro de 2014, já que a distância entre a capital e Rio
Preto é de mais de 400 km. Na manhã de sábado, 22 de novembro, descobrimos que
estávamos no dia da padroeira dos músicos e que o nome da pimpolha que estava
prestes a ser batizada era Maria Cecília. Por maior que fosse a coincidência,
já era mais do que tempo de retribuir as graças alcançadas. Afinal, a vida não
é feita de acasos e sempre precisamos retribuir o carinho que recebemos...
O primeiro altar de Cecilinha: o RÁDIO!
Alguns anos depois,
ganhei uma imagem de Santa Cecília de aniversário de meus pais. Vivia uma fase
feliz na minha vida, tinha acabado de me mudar para um apartamento novo e
estava às voltas com móveis e eletrodomésticos novos. Não pensei duas vezes
antes de escolher um altar, diria, “um tanto peculiar”, para a santinha: ela
passou a ficar em cima do meu antigo rádio, abençoando meu lar ao lado de todos
os músicos que desfilavam pelo aparelho de som.
Porém, a vida gosta de armar algumas surpresas para a
gente:Cecilinha
ficou soberana de versos e sons em cima do meu antigo aparelho de som até o dia
em que o rádio quebrou de vez. Enquanto me acostumava ao meu apartamento novo,
segundo em menos de dois anos, e com a bagunça de uma mudança e da falta de
espaço, mal sabia onde guardava vários dos meus pertences. Certo dia, em um
surto de arrumação, quis colocar minha imagem de Santa Cecília em um local
seguro, pois receberíamos visitas para um dia de domingo. Acreditem se quiser,
mas toda criança que vem nos visitar fica encantada pelo meu escritório: não
apenas por causa dos livros, mas por causa das miniaturas e trecos mil que
coleciono e se acumulam no caos.
Por motivos de superproteção, guardei
minha amada Cecilinha em um lugar secreto da estante. Lugar esse tão secreto,
mas tão secreto que eu nem conseguia mais me lembrar. Eu andava tão estressado
nos últimos três meses do ano de 2019 que eu mal imaginava para onde minha
imagem de Santa Cecília poderia ter ido. Fiquei triste, frustrado, arrasado e
cheguei a procurar outras imagens da santinha para substituir a que meus pais
me deram de presente. Nenhuma delas à altura da beleza da original, diga-se de
passagem.
Minha Cecilinha ficou brincando de
pique-esconde, fazendo a Lindoneia desaparecida por quase três meses comigo.
Seu “sumiço” chegou a virar piada aqui em casa, com direito a algumas
especulações acerca de seu paradeiro: 1) Cecilinha tinha sido levada por
acidente, possibilidade que eu prontamente descartei; 2) Tinha guardado a
Cecilinha por acidente nas milhares de caixas que ainda sobraram da mudança; 3)
Cecilinha se revoltou porque não havia mais rádio em casa, se revoltou com a minha
bagunça e simplesmente teria ido embora em sinal de protesto! Hipóteses
completamente descartadas no início de janeiro de 2020, quando ela foi
encontrada em uma das prateleiras dos meus livros de música. Ela surgiu
reluzente e levemente empoeirada, mas pronta para assumir seu posto definitivo:
o novo aparelho de som (bem melhor do que o anterior!) que compramos para a
nova casa...
A lição que eu tirei depois das
“férias” da minha amada Cecilinha foi bem clara: sempre deixe ela próxima do
rádio, para que ela esteja sempre a postos para proteger não apenas os músicos,
como todos os artistas e os amigos da arte que são de boa índole e bom coração.
Além disso, eu sempre posso recorrer a ela no momento em que eu necessitar de
cuidados mais específicos ou apenas quando estiver com vontade de conversar com
ela. Se ela iluminou o meu caminho mais de uma vez, não custa deixar ela bem
perto do canto mais atraente da casa: aquele que sempre tem uma boa música para
a gente ouvir.
O bom de revirar as caixas que ainda
sobraram da mudança foi poder achar uma imagem de São Francisco de Assis, vulgo
Chiquinho, o outro santinho daqui de casa. Cecilinha ganhou um parceiro e tanto
nas preces e nas conversas íntimas que temos com eles. Eis uma dupla e tanto:
enquanto uma protege os músicos, o outro é o protetor dos animais e da
ecologia: eis uma parceria de muito sucesso...
Algumas razões para elegermos Guilherme Boulos para
a Prefeitura de São Paulo
“E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho
Feliz de cidade
Aprende de pressa a chamar-te
De realidade
Porque és o avesso
Do avesso, do avesso, do
avesso…”
(Caetano Veloso, 1978)
Todo
ano “par” reserva emoções intensas para todos os que se interessam por política
no Brasil. Eu me incluo nesse grupo com toda a tranquilidade, já que escolhi
São Paulo (maior colégio eleitoral do país) como meu lar há mais de uma década
e os pleitos daqui sempre reservam discussões acaloradíssimas. Com a pandemia
do coronavírus, as eleições municipais de 2020 foram adiadas em mais de um mês,
a maioria dos debates políticos foram cancelados e as campanhas políticas
tiveram de mobilizar os meios virtuais para evitar aglomerações.
Confesso que minhas esperanças por uma
renovação em matéria de política foram abaladas quando a cidade de São Paulo
trocou um democrata de centro-esquerda (Fernando Haddad) por um lobista que se
dizia trabalhador (João Doria) em 2016. Foram aniquiladas de vez quando o
Brasil permitiu que um projeto mal-acabado de ditador (a versão brasileira de
Donald Trump) subisse a rampa do Palácio do Planalto em 2018. A esperança de
que, um dia, tivéssemos políticos dispostos a governar junto com o povo deu
lugar para um pessimismo com tintas depressivas, já que a maioria das opções
que nos sobraram era uma galeria de tipos grotescos e reacionários, expondo o
que existe de pior no pensamento conservador. No entanto, parte de meu
sentimento desesperançoso mudou quando soube que Guilherme Boulos, ex-líder do
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), se aliou a Luiza Erundina (Deputada
Federal e ex-Prefeita de São Paulo) para uma chapa com o intuito de concorrer
às eleições para a Prefeitura da capital paulista pelo PSOL em 2020.
Guilherme Boulos ao lado de Luiza Erundina em 13/11/2020 - Foto: Tatiana Santiago (G1)
Professor de Filosofia com experiência em escola
pública, militante da causa de uma habitação digna para os mais pobres, único dos candidatos que
mora em um bairro periférico de São Paulo (Campo Limpo) e uma das figuras mais
jovens da política brasileira, Guilherme Boulos sempre foi criticado por seus
opositores, que insistiam em lhe impor a pecha de “invasor” de propriedades
privadas, além de outros estigmas que ele comprovou não serem verdadeiros. Com apenas
17 segundos de propaganda eleitoral, não tinha as vantagens de seus
concorrentes: fez uso de uma campanha intensa pela Internet por meio de memes,
postagens irreverentes e bem-humoradas nas redes sociais, sem apelar para o
grotesco que sempre deu o tom de alguns de seus concorrentes. Buscou o apoio e
a experiência de Erundina, primeira Prefeita que a Pauliceia elegeu, para expor
suas propostas de governo. Foi aguerrido nos debates políticos, enfrentando jornalistas
nada simpáticos à sua presença, seus adversários e as fake news.
Além disso, o companheiro de Erundina teve a
coragem e a enorme ousadia de iniciar e encerrar sua campanha ao primeiro turno
das eleições municipais com duas lives
de quase 24 horas que mostrou o cotidiano do homem por trás do candidato desde
o início da manhã até o fim de um dia de trabalho, mostrando o corpo-a-corpo
com os eleitores e revelando alguns momentos de sua intimidade. O resultado
dessas estratégias de campanha foi uma arrancada surpreendente de Boulos para o
segundo lugar nas intenções de voto, aterrorizando seus adversários e
intrigando os analistas políticos. Tudo isso com muita leveza, irreverência e
inteligência típicas do povo brasileiro.
Aliás, é preciso deixar claro que o brasileiro,
em linhas gerais, sempre foi bem-humorado e irreverente. Os memes que se produzem são uma prova
claríssima disso. Em matéria de política, então, a irreverência do eleitor poderia
níveis inacreditáveis. Quando o lendário Macaco Tião se revelou como uma
revelação e chegou ao segundo lugar na disputa para a Prefeitura do Rio de
Janeiro, eu tinha sete anos de idade. Eu estava com oito quando vi Enéas
Carneiro revolucionar o Horário Político, chatíssimo por natureza, proferir “Meu
nome é Enéas!” para compensar o seu espaço mínimo de programação, que não
chegava aos cinco segundos.
Por outro lado, os artífices da
política brasileira sempre fizeram dela um espaço sisudo e nem um pouco
irreverente. Debates políticos, apesar de alguns episódios hilários, sempre foram
o palco principal dos temperamentos odiosos dos eleitos por meio do voto direto.
Mais do que isso, há ainda algo bem pior: as relações frágeis da nossa
democracia recém-nascida evidenciavam o caráter mais obscuro de nossa gente,
chegada aos níveis mais diversos de corrupção. Aos onze anos de idade, assisti a
deposição do primeiro Presidente da Nova República por meio de um golpe
midiático espetacular que se travestiu de caras pintadas nas ruas. Entre a
adolescência e o início da minha vida adulta, vi o Presidente que criou o Plano
Real governar por dois mandatos presidenciais apesar dos escândalos comprovados
da compra da emenda de sua reeleição no Congresso Nacional.
Aos dezessete anos, no final da adolescência,
votei pela primeira vez para Presidente da República, com a esperança de que
iria eleger um ex-metalúrgico para a cadeira mais ilustre do Brasil, fato que
ocorreu apenas 4 anos depois. Por um brevíssimo tempo, achei que a política
seria um sinônimo de esperança para, enfim, sanarmos as diferenças sociais que
sempre separam ricos de pobres, da classe média de indivíduos miseráveis. Fui
enganado: os primeiros escândalos de corrupção envolvendo o Partido dos
Trabalhadores não só me deixou frustrado em relação aos meus votos, como também
me afastou da política e do direito ao voto por mais de dez anos – sempre aproveitei
o fato de ter me mudado para outro Estado para justificar minha ausência.
Em 2014, na iminência da reeleição de
Dilma Rousseff – primeira mulher eleita Presidenta da República Federativa do
Brasil –, decidi exercer meu direito ao voto e voltei ao Rio de Janeiro para
votar em Dilma. Sempre achei que sua plataforma política necessitava de
revisões, de posicionamentos mais críticos, de menos concessões aos barões da
política tradicional, porém há um fato inegável: é sempre mais confortável fazer
oposição a um governo alinhado a ideais democráticos do que com tecnocratas
neoliberais e projetos de ditadores obcecados em cortar gastos públicos e fazer
um Estado Mínimo para a população e um Estado Máximo para os altos escalões do
governo e suas famílias parasitárias.
Mesmo se o candidato do PSOL para a Prefeitura
de São Paulo não atingir seu objetivo principal, é indiscutível que sua
campanha fez história: renegou o ódio e a arrogância típicos da maioria dos
políticos tradicionais, mobilizou um número enorme de simpatizantes via Internet e tentou fazer política com irreverência
e olho-no-olho. Se Guilherme Boulos invadiu alguma coisa durante a campanha
eleitoral foi a desesperança do paulistano, que está exausto de ver sua cidade
entregue à sujeira. às enchentes, às negociatas com as máfias dos transportes,
ao descaso com os servidores públicos municipais, dentre tantas mazelas. Seu projeto
de governo talvez não seja o mais perfeito para a cidade, mas, para
aperfeiçoá-lo, Boulos se mostra altamente disposto a ouvir as vozes de quem
acreditou nele: o povo.
Por isso, espero que as urnas ouçam a voz do
povo. Guilherme Boulos está plenamente disposto a construir uma cidade melhor
para a próxima década. Ao lado de Luiza Erundina e ao lado do povo, fazendo a
política como ela realmente deve ser feita: para todos e não para os mais
abastados. Talvez este seja o caminho para um “sonho feliz de cidade”, do jeito
que Caetano cantou em uma de suas canções mais emblemáticas.
SETE
DE SETEMBRO: INDEPENDÊNCIA, NEGLIGÊNCIA OU MORTE?
Vale a pena
amar um país que pouco oferece aos brasileiros?
“O seu
amor
Ame-o e
deixe-o livre para amar
Livre para
amar
Livre para
amar
O seu amor
Ame-o e
deixe-o ir aonde quiser
Ir aonde
quiser
Ir aonde
quiser
O seu amor
Ame-o e
deixe-o brincar
Ame-o e
deixe-o correr
Ame-o e
deixe-o cansar
Ame-o e
deixe-o dormir em paz
O seu amor
Ame-o e
deixe-o ser o que ele é
Ser o que
ele é”
(Gilberto
Gil,
1976)
Estamos a
dois anos do bicentenário do dia em que Dom Pedro I decidiu urrar por “Independência
ou Morte” de cima de um burro (e não de um suntuoso cavalo, como sugere a história
oficial). Apesar das celebrações oficiais em torno desse marco histórico, nosso
país jamais pode se autodeclarar como livre ou independente. As mesmas
elites que ditava as regras da economia, da política e de outras amarras há 200
anos AINDA fazem valer a lógica da exclusão no Brasil de hoje.
Antigamente,
a gente assistia às novidades passarem diante de nossos olhos tal qual a
Carolina do Chico Buarque. Hoje em dia, ficamos a par do que acontece pelas
janelas abertas da Internet e dos
meios de comunicação. O que não deve ter mudado muito de dois séculos para cá é
o nível de revolta do povo, que pouco consegue fazer para mudar a sua (eterna?)
condição de explorado e enganado. Enquanto alguns se conformam com atual estado
das coisas, outros ficam indignados, revoltados, descabelados e tem a impressão
de que atravessam um mar de solidão sem tamanho, sem fim.
Porém, é
importante sacramentar a pergunta que não cala de jeito nenhum no ano da graça
de 2020: vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros? Parcialmente,
eu diria. E vou apontar alguns breves motivos para isso...
O atual
Governo Federal, eleito na base das fake news
e do ódio que sempre existiu em muitos de nós e que adora propagar pelas redes
sociais o seu “patriotismo” típico dos piores anos da Ditadura Militar, tem se
revelado como um verdadeiro vassalo dos EUA: submisso aos caprichos e
insanidades de Donald Trump, o mandatário que ocupa o posto mais ilustre da República
Federativa do Brasil (cujo nome não cito em público de jeito nenhum) já ofertou
aos yankees uma base militar no
Estado do Maranhão, tem planos de entregar a Amazônia de bandeja para o Tio
Sam, fora as declarações “apaixonadas” ao Presidente norte-americanos. Isso sem
citar detalhadamente todos os desmandos cometidos contra os mais pobres
(Reforma da Previdência, vetos presidenciais que parecem atos institucionais
etc.) e favorecendo os mais ricos.
Outro motivo
gritante para ilustrar a nossa eterna condição de vira-lata é o seguinte: o
Brasil JAMAIS poderá se autodeclarar como “independente” se prosseguir violando
direitos do seu povo. O mundo inteiro sabe que nossos governantes administraram
a nação de forma plenamente irresponsável quando o assunto é a pandemia causada
pelo coronavírus. Na noite de 7 de setembro de 2020, enquanto o Sub-Trump
falava à nação brasileira, contabilizamos mais de 4 milhões de infectados e
mais de 127 mil mortos pela doença. Enquanto isso, milhões de brasileiros
morrem de fome graças à ausência de políticas públicas que apoiem trabalhadores
e pequenos empresários; milhares de estudantes não conseguem sequer estudar
durante o período de isolamento social porque não conseguem ter acesso à Internet. Já a imprensa brasileira (que
teve um papel determinante nas últimas eleições) segue cerceada pelo Governo
Federal e parcialmente impossibilitada de noticiar os escândalos de corrupção
que mencionem a família do Presidente. E, por fim, assistimos a Amazônia e o
Pantanal em chamas, por culpa da imensa irresponsabilidade do Ministério do
Meio Ambiente. Se fossemos governados por patriotas de verdade, jamais viveríamos
situações tão absurdas assim...
A ocasião
do feriado prolongado (a data comemorativa da Independência do Brasil caiu em
uma segunda-feira) nos trouxe uma série sem fim de imagens desoladoras: praias,
bares e restaurantes do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Nordeste lotadas de
banhistas sem sequer termos uma vacina para o vírus; em um evento oficial, o
Presidente da República desfila sem máscaras, sem qualquer tipo de proteção individual
e com uma horda gigantesca de aloprados ao seu redor. A ciência, em nosso país,
é constantemente ignorada e desrespeitada pelas autoridades em prol de um
mercado desumano e de uma moral religiosa nada cristã, relegando a vida de
milhares de pessoas para o segundo plano. Diante de 127 mil pessoas
desaparecidas, temos algum motivo para celebrar?
Por outro
lado, minha descrença em dias melhores no futuro sai um pouco de cena ao
sabermos que temos uma classe artística e intelectual que consegue pensar o
país com muito mais sabedoria e inteligência do que os infelizes que ocupam os
Três Poderes e que estão comprometidos até o último fio de cabelo com os
projetos de direita que sempre agradou as elites brasileiras. Seríamos muito
infelizes sem o legado e o pensamento de lendas brasileiras como Glauber Rocha,
Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tarsila do
Amaral, Rita Lee, Lima Barreto, Djamila Ribeiro, Silvio Almeida, Antonio
Candido, Silviano Santiago, Clarice Lispector, Teresa Cristina e tantos outros
brasileiros ilustres e anônimos que sempre amaram o nosso país, apesar de
tantos pesares. Graças ao trabalho dessas pessoas, eu me lembro que toda crise,
por maior e pior que ela seja, é passageira e que, cedo ou tarde, teremos
condição de ir às ruas com tranquilidade e com orgulho das coisas boas que
ainda existem por aqui, independente da tendência política de qualquer governo.
7 de
setembro de 2020 não deveria ser lembrado futuramente pelos dizeres “Independência
ou Morte” ou “Ordem e Progresso”, mas por “Negligência e Morte” ou “Desordem e
Retrocesso”. O que me consola diante de tamanho horror é ter a certeza absoluta
de que eu jamais contribuí para isso já que, como diz a canção de Gilberto Gil,
devemos ser livres para ser e amar como quisermos...
Um dia eu ainda irei escrever um livro para satisfazer as demandas do
mercado. Quem sabe um desses manuais de moda e etiqueta ao estilo da Glória
Kalil só que aplicado aos eventos musicais, porém com muita ironia e o deboche
que me cabem neste latifúndio cibernético.
Os
principais eventos de um artista que se aventura pelo universo da música são os
shows.
Neste momento, o público possui a tão esperada oportunidade de ver a banda, o
cantor ou a cantora de que tanto gosta no exercício de sua arte em carne e
osso. Se existe a chance de ouro de ir até o camarim e estar com o seu ídolo face-to-face, você ainda pode trocar
algumas palavrinhas com ele, tirar uma foto e pegar um autógrafo.
Com o
advento dos smart phones e das redes
sociais, uma parcela do público de shows literalmente perdeu algumas noções
básicas de bons modos e civilidade enquanto o artista faz o seu trabalho
perante a plateia. Por isso, aproveito esta chance para fazer um TOP 10 dos
comportamentos mais desagradáveis em shows:
1)CHECAR REDES SOCIAIS
DURANTE A APRESENTAÇÃO – É simplesmente
inacreditável que os detentores de ingressos dediquem o seu tempo e dinheiro
enquanto plateia para checar os chats do WhatsApp, os likes e DMs do Instagram,
as transmissões ao vivo do Snapchat, Instastories e do Facebook. Além do fato
de que o olho humano se desloca para lente da câmera e/ou para o visor do
celular e de que a luminosidade e os ruídos dos telefones incomodam a
concentração dos demais.
2) TIRAR FOTOS E FILMAR O
SHOW INTEIRO COM CÂMERAS, TABLETS E CELULARES – Não há coisa mais tosca, cafona do que posar para uma lente fotográfica
com a cara mais feliz do planeta enquanto um músico se apresenta para uma
plateia. Selfies em shows são o que
há de mais brega em matéria de comportamento humano: dois ou mais animadinhos
sempre incomodam aqueles que estão dispostos a desfrutar de uma boa música ao
vivo.
Lembro, certa vez, de um surto que tive com uma
louca que queria porque queria que eu interrompesse todas as atividades para
tirar uma foto comigo e com meus amigos durante
um show de Zélia Duncan. Em outra ocasião, tive que disputar terreno em uma
plateia do SESC Itaquera para não derrubar um tripé de filmadora que estava
estrategicamente posicionada para a filmagem de um show inteiro: não era a TV
SESC, era um fã obcecado que achou mais importante ter que filmar tudo...
Deixar os outros em posição desconfortável por causa de um capricho tão
egoísta – tirar fotos e filmar – é de uma insensibilidade sem tamanho.
Restringir a liberdade alheia por um desejo seu é o cúmulo do ridículo...
3) CONVERSAR COM QUEM ESTÁ
AO LADO DURANTE O SHOW – Certas pessoas se
comportam em locais de show como se estivessem em estádios de futebol. Apenas
se esquecem de que os músicos estão longe de serem craques da bola e de que
cada número do setlist não é um lance
futebolístico digno de análise ou comentário. Por isso, para que raios agem
como se fossem o Neto ou o Galvão Bueno?!
Não me esqueço de um show de Angela Rô Rô no Teatro FECAP no qual um
casal sentado atrás de mim comentava as piadas e canções daquele dia como se
estivéssemos em uma final de Copa do Mundo. Por isso, amiguinho: não comente
nada durante o espetáculo, sinta a música. Deixe para fazer isso durante a
pizza após o evento...
4) RECLAMAR EM VOZ ALTA
PORQUE NÃO OCARAM A SUA CANÇÃO PREFERIDA DURANTE O SHOW – Há comentários que são infinitamente desagradáveis. Principalmente
quando são feitos durante uma apresentação que está agradando a maioria do
público. Não estrague a alegria dos outros e não atrapalhe o trabalho de quem
está no palco: Robert Plant não vai tocar “Stairway to Heaven”, Marisa Monte
não é obrigada a tocar “Bem Que Se Quis”, Ney Matogrosso não canta “Telma Eu
Não Sou Gay” nem por um decreto! O artista não tem a obrigação de tocar o que o
público exige e nós, pagantes, não somos obrigados a encarar as lamentações dos
outros.
5) GRITAR PEDIDOS DURANTE
O SHOW – Teatros e casas de shows não são bares ou
restaurantes com música ao vivo, onde basta enviar um bilhetinho pedindo “Flor
de Lis”, “Oceano”, “Sozinho” e outros clássicos das FMs. E não existe nada mais
deprimente do que ouvir um “TOCA RAUL!” em meio a uma apresentação. Deixem o
espírito do Mestre Raul Seixas em paz...
6)BEBER MUITO DURANTE O
SHOW – Se bêbados já são pessoas desagradáveis em bares,
imaginem em eventos musicais com open bar? São representantes do que há de mais
inconveniente no pedaço: ter que se deparar com poças de vômito, com o péssimo
comportamento provocado pelo álcool e outras situações horrorosas é o cúmulo da
falta de elegância! Além da alta possibilidade de barracos, provocações e
brigas...
7)JOGAR O CORPO PARA
FRENTE DO PALCO DURANTE O SHOW – O direito
mínimo das pessoas que enfrentam horas e horas de fila para conseguir um lugar
privilegiado na frente do palco, é ter o seu espaço garantido durante o evento.
Por isso, é muita falta de educação e de ética chegar poucos minutos antes do
show e ficar empurrando os demais para conseguir um lugarzinho bacaninha para
ver a estrela da noite. Se queres conforto, chegue mais cedo!
8)LEVANTAR DO ASSENTO
DURANTE O SHOW – Em certas ocasiões, precisamos fazer uma passagem
pelo banheiro durante uma apresentação musical. Quando isso acontece comigo, me
levanto de onde eu estou repleto de vergonha e vou discretamente ao destino tão
desejado. Venhamos e convenhamos, há pessoas que extrapolam os limites do bom
senso. Exemplo: estava eu em um show de Gal Costa numa
renomada casa de show de São Paulo quando notei o burburinho de duas mesas de
lados opostos da Pista VIP, onde eu, por acaso, estava. Uma moça da mesa do
lado esquerdo se locomovia freneticamente para o lado direito (e vice-versa)
enquanto Gal cantava o repertório de Recanto para ficar conversando com
os amiguinhos durante o show. Nenhum problema em relação à hiperatividade da
criatura se não fosse o fato de que ela estava EM PÉ ao lado direito da casa
bem na frente deste que vos escreve para fofocar. Meu surto foi inevitável:
expulsei a cidadã do meu campo de vista com meia dúzia de patadas e grosserias
e voltei ao show de Gal com uma raiva imensa do tempo perdido. É muita
petulância alheia com alguém que pagou ingresso caro para assistir uma das
artistas que você mais gosta.
9) GRITAR DECLARAÇÕES DE AMOR PARA QUEM ESTÁ NO PALCO DURANTE O SHOW – Deixemos
algo bem claro: você pode gritar e berrar o quando você quiser para o artista
que ele é amado, desejado ou que ele é “lindo, tesão, bonito e gostosão” ou até
que deseja fazer coisas impublicáveis com ele ou ela. (In)felizmente, quem está
no palco geralmente não poderá ouvir os anseios da plateia. Shows de Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Ana
Carolina reúnem uma quantidade sem fim de frases que eu tenho vergonha que
reproduzir aqui. Show de Chico Buarque então é um festival eterno de correio
para o monstro de olhos azuis que me faz entender o fato dele raramente sair em
turnê. No entanto, tem uma passagem hilária ocorrida comigo: em uma área VIP de
um show de Paul McCartney em São Paulo, um rapaz de 20 e poucos anos não
cansava de gritar “I love you, Paul!” para o ex-Beatle, inerte aos desejos
histéricos individuais de 2 ou 3 e empenhado com um show de quase 180 minutos
pela frente. Já uma amiga minha me contou que quase espancou uma quarentona
louca que berrava na pista (500m de distância do palco!) de um show dos Rolling
Stones de que Mick Jagger TINHA que fazer um filho com ela a todo custo.
10) ARRANJAR CONFUSÃO NO CAMARIM APÓS O SHOW – Se existe a oportunidade
de outro de ir até o camarim e estar, por breves instantes, com o seu ídolo face to face após um show, já é um
motivo e tanto para se sentir nas nuvens: trocar algumas palavrinhas, tirar uma
foto e ainda pegar um autógrafo são ingredientes perfeitos para a plenitude da
sua felicidade musical. Entretanto, há pessoas que desconhecem noções básicas de respeito e
civilidade em situações assim. A admiração se transforma em histeria. As vozes
histéricas se convertem em um desrespeito pessoal à figura do artista: ninguém
é obrigado a tirar um milhão de selfies
ou a autografar uma série sem fim de capas de disco ou de quinquilharias e
ainda ter que sorrir freneticamente depois de horas extenuantes de ensaios,
passagens de som e dos shows em si. O camarim não é a Ilha de Caras! Além disso, sempre há aqueles fãs que se acham mais
dignos do que outros e adoram menosprezar os demais fãs e sugam o artista como
um vampiro sedento por sua presa inocente. Diante do caos típico de toda porta
de camarim, lembro-me sempre de uma frase muito sábia dita por minha fada
madrinha: “O ingresso te dá direito ao show e não a uma ida ao camarim!”. Quando não estamos no meio daquelas rodadas
bregas de meet and greet, vale levar
em conta que o artista não é propriedade particular do fã. Por isso e por muito
mais, respeito e privacidade sempre fazem bem em uma hora dessas.
Eis 10 dicas de etiqueta para que você possa se
comportar adequadamente em eventos musicais. Se você seguir estas recomendações
à risca, cada show será uma oportunidade e tanto de ser um acontecimento
inesquecível. Nem a Glorinha Kalil ou essas blogueirinhas de plantão teriam te
dado dicas tão bacanas como essas...