Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens

17 de maio de 2021

TROVA # 166

“ASTRONAUTA DA SAUDADE”


 
 

“Belezas são coisas acesas por dentro

Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento”

(Jorge Mautner & Nelson Jacobina, 1974)



SAUDADE: palavra que traduz um sentimento agridoce de algo que já não temos mais conosco. Palavra muito difícil de ser traduzida para outros idiomas, bem difícil de explicação para quem não é nativo do idioma português. Dizem que a saudade é síndrome de quem vive no passado, enquanto a ansiedade é pavor do futuro e a depressão é o pânico do presente. Talvez faça sentido, porque sou alguém ansioso por natureza e já vivi episódios graves de depressão. E conheço várias pessoas que se encaixam nessa lógica.


Porém, não podemos nos esquecer jamais de que viver é um jogo muito mais complexo do que a lógica comum e é uma ação que requer, acima de tudo, CORAGEM. Coragem de se expor, coragem de tirar as palavras do pensamento e das conversas íntimas para leva-las para o papel e depois para o ciberespaço. Coragem de desafiar o senso comum imposto por um pensamento conservador e tacanho. Coragem de ser diferente em um contexto que exige que todo mundo seja e aja de maneira igual.


Apesar do que sugere o título do texto que você está lendo, estou longe de ser um entusiasta do que já passou. Guardo com carinho muitas lembranças de outrora, tenho outras memórias bem preservadas na gaveta do rancor. Tenho mais animação pelo futuro, considerando o que ele pode nos trazer de bom e não tão bom assim. Faço do meu presente a possibilidade de construir um futuro melhor para mim e para mais alguns. Escrevo tudo isso para dizer que não sinto uma ponta de saudade do passado que eu vivi, mas invejo profundamente o passado que eu não vivi. A juventude anárquica e desbundada dos anos 1960 e 1970 e muitos dos eventos político-culturais que foram promovidos para combater a caretice brasileira nossa de todo dia.

Caso queiram falar de mim e do que eu escrevo, digam apenas o seguinte: se o passado que me cabe e não me cabe mais são estrelas no espaço sideral, podem me chamar de “astronauta da saudade”, pois meus textos transitam por corpos celestes e resgatam as memórias boas que vivi e as lembranças que gostaria de ter tido. Caso queiram falar de mim e do que eu escrevo, digam também que sou um amigo da arte, da ciência e do conhecimento. Falo e escrevo sobre coisas “fora de moda”: “livros, discos, vídeos à mancheia” e outras coisinhas que o sujeito comum não gosta ou não aprecia mais. Sempre contra a corrente, contra o senso comum e a velha pasmaceira.


Cada texto que escrevo vai muito além do desejo de ser lido ou do mero instinto de me comunicar por meio de palavras para velhos conhecidos ou um leitor cujo rosto eu não conheço. Cada postagem em meu blog sempre foi uma maneira de procurara a beleza no presente com o auxílio da música. Em algumas ocasiões fui bem-sucedido, em outras nem tanto. No resumo de tudo, foi mantido o exercício da escrita como um ofício prazeroso e com a garantia de que erros e acertos estão devidamente registrados, apesar de levemente revisados.


Já que tornar público o que há de mais íntimo por parte do pensamento é o fato que está diante de seus olhos, aproveito para fazer um convite para você que chegou até aqui: ouça os textos, leia os discos e as canções que se encontram por aqui. O blog foi uma viagem e tanto. Quem sabe o livro seja também. Por isso, junte-se a mim e faça uma boa viagem pelas letras e sons que reuni aqui depois de tantos anos...

14 de dezembro de 2020

TROVA # 156

 MINHA AMADA CECILINHA

Uma crônica para homenagear a Santa Protetora dos Músicos

Foto: Nilton Serra


    Já advirto ao leitor destas mal traçadas linhas: esta crônica não é sobre Cecília Meirelles. Também não é sobre Cecilia Bartoli, a soprano italiana que encanta qualquer leigo em matéria de música clássica. Quem sabe até poderia ser sobre Cecília Meirelles, uma das maiores expressões brasileiras em matéria de poesia em Língua Portuguesa. Poderia ser sobre a canção “Cecília”, uma das canções mais belas (e desconhecidas) do repertório de Chico Buarque de Hollanda. Talvez esta homenagem seja sobre nossa afilhada, uma menininha de seis anos que tem uma personalidade tão marcante que renderia uma crônica bem legal. Todavia, nenhuma delas é a musa do texto de hoje.




         Para os que me conhecem bem, Cecilinha é Santa Cecília, não o famoso bairro que fica na região central de São Paulo e que é adorado por nove entre dez jovens descolados, mas a Santa mesmo. Nascida em Roma, Itália, por volta do ano 150 D.C., Santa Cecília era filha de uma família nobre. Cristã, decidiu fazer voto de castidade para vivenciar o amor divino típico dos mártires que se sacrificam pela fé. Em uma era na qual a fé em Cristo era sinônimo de perseguição, foi condenada à tortura. Seu martírio levou muito mais do que se esperava, pois a jovem manteve sua fé inabalável e enfrentou seu destino trágico. Condenada à morte por uma machada no pescoço, Cecília recebeu um golpe fatal, porém ainda chegou a sobreviver por mais três dias e chegou a conversar e dar conselhos para aqueles que vinham rezar por ela. Seu ofício final foi o de cantar até não ter mais forças e morrer como uma das principais mártires da Igreja Católica.


         Desde então, Santa Cecília se tornou conhecida não apenas como mártir, mas principalmente como a Santa Padroeira dos Músicos, cujo dia é comemorado no dia 22 de novembro. Apesar de não ser músico profissional e de não tocar nenhum instrumento musical (fiz aulas de canto por um ano), devo muito do que sou profissionalmente à música. Por outro lado, minha vida acadêmica e profissional está intimamente ligada a versos e sons: eu me tornei Professor de Inglês motivado pelo que ouvia no rádio e conduzi minha vida acadêmica pesquisando o que havia de melhor da música brasileira. No entanto, dois episódios ocorridos comigo no dia 22 de novembro fizeram com que eu concluísse de uma vez por todas de que havia uma luz a guiar o meu caminho de um lugar o qual eu jamais poderia enxergar.


         O primeiro deles aconteceu em 2010. Paul McCartney estava prestes a começar uma turnê brasileira depois de quase duas décadas sem tocar por estas bandas. Tentei comprar ingressos para o show de 21 de novembro, domingo, mas, como existem tantos Beatlemaníacos por aqui quanto membros de torcida organizada, as entradas se esgotaram antes de um mero estalar de dedos. Faltando poucos dias para a apresentação, Macca anunciou que faria um show extra na segunda-feira, 22 de novembro de 2010. Diante da oportunidade de ouro, convoquei uma amiga e partimos em retirada para o Estádio do Morumbi e conseguimos três ingressos de pista para o segundo show da turnê Up and Coming.

Foto: Nilton Serra


         Segundo o relato de alguns amigos que foram ao show de 21 de novembro, Paul fez um belíssimo show para um Morumbi lotado e ensolarado. Tudo indicava uma semana sem catástrofes climáticas. Porém, segunda-feira, essa eterna bagunceira dos ânimos e dos humores do ser humano, nos reservava surpresas eletrizantes: São Pedro, em um péssimo dia, se revoltou e enviou uma tempestade daquelas em cima da Cidade de São Paulo! Mas foi uma chuva daquelas de parar a cidade inteira. Saí mais cedo do trabalho e fui para o estádio com seis horas de antecedência com o coração na boca e preocupado com a possibilidade de não chegar no local da apresentação. 

Entre Fabíola Bueno e Nilton Serra, o autor da maioria das imagens que estão na postagem de hoje.

Era dia de Santa Cecília e, sem que eu me desse conta, o aguaceiro resolveu dar uma trégua no Morumbi minutos antes de Paul McCartney entrar no palco. Para compensar os ânimos, Macca abriu o show tocando “Magical Mystery Tour”, dos Beatles (canção que eu jamais imaginei ouvir ao vivo na vida), alegrando o público já nos primeiros segundos da segunda apresentação de sua turnê por São Paulo. Dez anos depois, ao me lembrar daquele dia, constatei que Cecilinha sempre protege os músicos e os amantes de versos e sons como este aqui que vos escreve.



O segundo episódio no qual Santa Cecília apareceu na minha vida se deu quatro anos do show de Paul McCartney. Estávamos na região de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, para o batizado de nossa primeira afilhada. Por questões profissionais, não tínhamos muita opção a não ser postergar a cerimônia para o feriadão da terceira semana de novembro de 2014, já que a distância entre a capital e Rio Preto é de mais de 400 km. Na manhã de sábado, 22 de novembro, descobrimos que estávamos no dia da padroeira dos músicos e que o nome da pimpolha que estava prestes a ser batizada era Maria Cecília. Por maior que fosse a coincidência, já era mais do que tempo de retribuir as graças alcançadas. Afinal, a vida não é feita de acasos e sempre precisamos retribuir o carinho que recebemos...

O primeiro altar de Cecilinha: o RÁDIO!

Alguns anos depois, ganhei uma imagem de Santa Cecília de aniversário de meus pais. Vivia uma fase feliz na minha vida, tinha acabado de me mudar para um apartamento novo e estava às voltas com móveis e eletrodomésticos novos. Não pensei duas vezes antes de escolher um altar, diria, “um tanto peculiar”, para a santinha: ela passou a ficar em cima do meu antigo rádio, abençoando meu lar ao lado de todos os músicos que desfilavam pelo aparelho de som. 


Porém, a vida gosta de armar algumas surpresas para a gente: Cecilinha ficou soberana de versos e sons em cima do meu antigo aparelho de som até o dia em que o rádio quebrou de vez. Enquanto me acostumava ao meu apartamento novo, segundo em menos de dois anos, e com a bagunça de uma mudança e da falta de espaço, mal sabia onde guardava vários dos meus pertences. Certo dia, em um surto de arrumação, quis colocar minha imagem de Santa Cecília em um local seguro, pois receberíamos visitas para um dia de domingo. Acreditem se quiser, mas toda criança que vem nos visitar fica encantada pelo meu escritório: não apenas por causa dos livros, mas por causa das miniaturas e trecos mil que coleciono e se acumulam no caos.

Por motivos de superproteção, guardei minha amada Cecilinha em um lugar secreto da estante. Lugar esse tão secreto, mas tão secreto que eu nem conseguia mais me lembrar. Eu andava tão estressado nos últimos três meses do ano de 2019 que eu mal imaginava para onde minha imagem de Santa Cecília poderia ter ido. Fiquei triste, frustrado, arrasado e cheguei a procurar outras imagens da santinha para substituir a que meus pais me deram de presente. Nenhuma delas à altura da beleza da original, diga-se de passagem.

Minha Cecilinha ficou brincando de pique-esconde, fazendo a Lindoneia desaparecida por quase três meses comigo. Seu “sumiço” chegou a virar piada aqui em casa, com direito a algumas especulações acerca de seu paradeiro: 1) Cecilinha tinha sido levada por acidente, possibilidade que eu prontamente descartei; 2) Tinha guardado a Cecilinha por acidente nas milhares de caixas que ainda sobraram da mudança; 3) Cecilinha se revoltou porque não havia mais rádio em casa, se revoltou com a minha bagunça e simplesmente teria ido embora em sinal de protesto! Hipóteses completamente descartadas no início de janeiro de 2020, quando ela foi encontrada em uma das prateleiras dos meus livros de música. Ela surgiu reluzente e levemente empoeirada, mas pronta para assumir seu posto definitivo: o novo aparelho de som (bem melhor do que o anterior!) que compramos para a nova casa...

A lição que eu tirei depois das “férias” da minha amada Cecilinha foi bem clara: sempre deixe ela próxima do rádio, para que ela esteja sempre a postos para proteger não apenas os músicos, como todos os artistas e os amigos da arte que são de boa índole e bom coração. Além disso, eu sempre posso recorrer a ela no momento em que eu necessitar de cuidados mais específicos ou apenas quando estiver com vontade de conversar com ela. Se ela iluminou o meu caminho mais de uma vez, não custa deixar ela bem perto do canto mais atraente da casa: aquele que sempre tem uma boa música para a gente ouvir.


         O bom de revirar as caixas que ainda sobraram da mudança foi poder achar uma imagem de São Francisco de Assis, vulgo Chiquinho, o outro santinho daqui de casa. Cecilinha ganhou um parceiro e tanto nas preces e nas conversas íntimas que temos com eles. Eis uma dupla e tanto: enquanto uma protege os músicos, o outro é o protetor dos animais e da ecologia: eis uma parceria de muito sucesso...



14 de novembro de 2020

TROVA # 153

O INVASOR DA DESESPERANÇA

Algumas razões para elegermos Guilherme Boulos para a Prefeitura de São Paulo

 



“E foste um difícil começo

Afasto o que não conheço

E quem vem de outro sonho

Feliz de cidade

Aprende de pressa a chamar-te

De realidade

Porque és o avesso

Do avesso, do avesso, do avesso…”

(Caetano Veloso, 1978)

 

     Todo ano “par” reserva emoções intensas para todos os que se interessam por política no Brasil. Eu me incluo nesse grupo com toda a tranquilidade, já que escolhi São Paulo (maior colégio eleitoral do país) como meu lar há mais de uma década e os pleitos daqui sempre reservam discussões acaloradíssimas. Com a pandemia do coronavírus, as eleições municipais de 2020 foram adiadas em mais de um mês, a maioria dos debates políticos foram cancelados e as campanhas políticas tiveram de mobilizar os meios virtuais para evitar aglomerações.

         Confesso que minhas esperanças por uma renovação em matéria de política foram abaladas quando a cidade de São Paulo trocou um democrata de centro-esquerda (Fernando Haddad) por um lobista que se dizia trabalhador (João Doria) em 2016. Foram aniquiladas de vez quando o Brasil permitiu que um projeto mal-acabado de ditador (a versão brasileira de Donald Trump) subisse a rampa do Palácio do Planalto em 2018. A esperança de que, um dia, tivéssemos políticos dispostos a governar junto com o povo deu lugar para um pessimismo com tintas depressivas, já que a maioria das opções que nos sobraram era uma galeria de tipos grotescos e reacionários, expondo o que existe de pior no pensamento conservador. No entanto, parte de meu sentimento desesperançoso mudou quando soube que Guilherme Boulos, ex-líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), se aliou a Luiza Erundina (Deputada Federal e ex-Prefeita de São Paulo) para uma chapa com o intuito de concorrer às eleições para a Prefeitura da capital paulista pelo PSOL em 2020.


Guilherme Boulos ao lado de Luiza Erundina em 13/11/2020 - Foto: Tatiana Santiago (G1) 


Professor de Filosofia com experiência em escola pública, militante da causa de uma habitação digna para os mais pobres, único dos candidatos que mora em um bairro periférico de São Paulo (Campo Limpo) e uma das figuras mais jovens da política brasileira, Guilherme Boulos sempre foi criticado por seus opositores, que insistiam em lhe impor a pecha de “invasor” de propriedades privadas, além de outros estigmas que ele comprovou não serem verdadeiros. Com apenas 17 segundos de propaganda eleitoral, não tinha as vantagens de seus concorrentes: fez uso de uma campanha intensa pela Internet por meio de memes, postagens irreverentes e bem-humoradas nas redes sociais, sem apelar para o grotesco que sempre deu o tom de alguns de seus concorrentes. Buscou o apoio e a experiência de Erundina, primeira Prefeita que a Pauliceia elegeu, para expor suas propostas de governo. Foi aguerrido nos debates políticos, enfrentando jornalistas nada simpáticos à sua presença, seus adversários e as fake news.

Além disso, o companheiro de Erundina teve a coragem e a enorme ousadia de iniciar e encerrar sua campanha ao primeiro turno das eleições municipais com duas lives de quase 24 horas que mostrou o cotidiano do homem por trás do candidato desde o início da manhã até o fim de um dia de trabalho, mostrando o corpo-a-corpo com os eleitores e revelando alguns momentos de sua intimidade. O resultado dessas estratégias de campanha foi uma arrancada surpreendente de Boulos para o segundo lugar nas intenções de voto, aterrorizando seus adversários e intrigando os analistas políticos. Tudo isso com muita leveza, irreverência e inteligência típicas do povo brasileiro.



Aliás, é preciso deixar claro que o brasileiro, em linhas gerais, sempre foi bem-humorado e irreverente. Os memes que se produzem são uma prova claríssima disso. Em matéria de política, então, a irreverência do eleitor poderia níveis inacreditáveis. Quando o lendário Macaco Tião se revelou como uma revelação e chegou ao segundo lugar na disputa para a Prefeitura do Rio de Janeiro, eu tinha sete anos de idade. Eu estava com oito quando vi Enéas Carneiro revolucionar o Horário Político, chatíssimo por natureza, proferir “Meu nome é Enéas!” para compensar o seu espaço mínimo de programação, que não chegava aos cinco segundos.

         Por outro lado, os artífices da política brasileira sempre fizeram dela um espaço sisudo e nem um pouco irreverente. Debates políticos, apesar de alguns episódios hilários, sempre foram o palco principal dos temperamentos odiosos dos eleitos por meio do voto direto. Mais do que isso, há ainda algo bem pior: as relações frágeis da nossa democracia recém-nascida evidenciavam o caráter mais obscuro de nossa gente, chegada aos níveis mais diversos de corrupção. Aos onze anos de idade, assisti a deposição do primeiro Presidente da Nova República por meio de um golpe midiático espetacular que se travestiu de caras pintadas nas ruas. Entre a adolescência e o início da minha vida adulta, vi o Presidente que criou o Plano Real governar por dois mandatos presidenciais apesar dos escândalos comprovados da compra da emenda de sua reeleição no Congresso Nacional.

         Aos dezessete anos, no final da adolescência, votei pela primeira vez para Presidente da República, com a esperança de que iria eleger um ex-metalúrgico para a cadeira mais ilustre do Brasil, fato que ocorreu apenas 4 anos depois. Por um brevíssimo tempo, achei que a política seria um sinônimo de esperança para, enfim, sanarmos as diferenças sociais que sempre separam ricos de pobres, da classe média de indivíduos miseráveis. Fui enganado: os primeiros escândalos de corrupção envolvendo o Partido dos Trabalhadores não só me deixou frustrado em relação aos meus votos, como também me afastou da política e do direito ao voto por mais de dez anos – sempre aproveitei o fato de ter me mudado para outro Estado para justificar minha ausência.

         Em 2014, na iminência da reeleição de Dilma Rousseff – primeira mulher eleita Presidenta da República Federativa do Brasil –, decidi exercer meu direito ao voto e voltei ao Rio de Janeiro para votar em Dilma. Sempre achei que sua plataforma política necessitava de revisões, de posicionamentos mais críticos, de menos concessões aos barões da política tradicional, porém há um fato inegável: é sempre mais confortável fazer oposição a um governo alinhado a ideais democráticos do que com tecnocratas neoliberais e projetos de ditadores obcecados em cortar gastos públicos e fazer um Estado Mínimo para a população e um Estado Máximo para os altos escalões do governo e suas famílias parasitárias.




Mesmo se o candidato do PSOL para a Prefeitura de São Paulo não atingir seu objetivo principal, é indiscutível que sua campanha fez história: renegou o ódio e a arrogância típicos da maioria dos políticos tradicionais, mobilizou um número enorme de simpatizantes via Internet e tentou fazer política com irreverência e olho-no-olho. Se Guilherme Boulos invadiu alguma coisa durante a campanha eleitoral foi a desesperança do paulistano, que está exausto de ver sua cidade entregue à sujeira. às enchentes, às negociatas com as máfias dos transportes, ao descaso com os servidores públicos municipais, dentre tantas mazelas. Seu projeto de governo talvez não seja o mais perfeito para a cidade, mas, para aperfeiçoá-lo, Boulos se mostra altamente disposto a ouvir as vozes de quem acreditou nele: o povo.

Por isso, espero que as urnas ouçam a voz do povo. Guilherme Boulos está plenamente disposto a construir uma cidade melhor para a próxima década. Ao lado de Luiza Erundina e ao lado do povo, fazendo a política como ela realmente deve ser feita: para todos e não para os mais abastados. Talvez este seja o caminho para um “sonho feliz de cidade”, do jeito que Caetano cantou em uma de suas canções mais emblemáticas.




8 de setembro de 2020

TROVA # 150

 

SETE DE SETEMBRO: INDEPENDÊNCIA, NEGLIGÊNCIA OU MORTE?

Vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros?

              


 

“O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar

Livre para amar

Livre para amar

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser

Ir aonde quiser

Ir aonde quiser

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o brincar

Ame-o e deixe-o correr

Ame-o e deixe-o cansar

Ame-o e deixe-o dormir em paz

 

O seu amor

Ame-o e deixe-o ser o que ele é

Ser o que ele é”

(Gilberto Gil, 1976)

 

Estamos a dois anos do bicentenário do dia em que Dom Pedro I decidiu urrar por “Independência ou Morte” de cima de um burro (e não de um suntuoso cavalo, como sugere a história oficial). Apesar das celebrações oficiais em torno desse marco histórico, nosso país jamais pode se autodeclarar como livre ou independente. As mesmas elites que ditava as regras da economia, da política e de outras amarras há 200 anos AINDA fazem valer a lógica da exclusão no Brasil de hoje.

Antigamente, a gente assistia às novidades passarem diante de nossos olhos tal qual a Carolina do Chico Buarque. Hoje em dia, ficamos a par do que acontece pelas janelas abertas da Internet e dos meios de comunicação. O que não deve ter mudado muito de dois séculos para cá é o nível de revolta do povo, que pouco consegue fazer para mudar a sua (eterna?) condição de explorado e enganado. Enquanto alguns se conformam com atual estado das coisas, outros ficam indignados, revoltados, descabelados e tem a impressão de que atravessam um mar de solidão sem tamanho, sem fim.

Porém, é importante sacramentar a pergunta que não cala de jeito nenhum no ano da graça de 2020: vale a pena amar um país que pouco oferece aos brasileiros? Parcialmente, eu diria. E vou apontar alguns breves motivos para isso...

O atual Governo Federal, eleito na base das fake news e do ódio que sempre existiu em muitos de nós e que adora propagar pelas redes sociais o seu “patriotismo” típico dos piores anos da Ditadura Militar, tem se revelado como um verdadeiro vassalo dos EUA: submisso aos caprichos e insanidades de Donald Trump, o mandatário que ocupa o posto mais ilustre da República Federativa do Brasil (cujo nome não cito em público de jeito nenhum) já ofertou aos yankees uma base militar no Estado do Maranhão, tem planos de entregar a Amazônia de bandeja para o Tio Sam, fora as declarações “apaixonadas” ao Presidente norte-americanos. Isso sem citar detalhadamente todos os desmandos cometidos contra os mais pobres (Reforma da Previdência, vetos presidenciais que parecem atos institucionais etc.) e favorecendo os mais ricos.

Outro motivo gritante para ilustrar a nossa eterna condição de vira-lata é o seguinte: o Brasil JAMAIS poderá se autodeclarar como “independente” se prosseguir violando direitos do seu povo. O mundo inteiro sabe que nossos governantes administraram a nação de forma plenamente irresponsável quando o assunto é a pandemia causada pelo coronavírus. Na noite de 7 de setembro de 2020, enquanto o Sub-Trump falava à nação brasileira, contabilizamos mais de 4 milhões de infectados e mais de 127 mil mortos pela doença. Enquanto isso, milhões de brasileiros morrem de fome graças à ausência de políticas públicas que apoiem trabalhadores e pequenos empresários; milhares de estudantes não conseguem sequer estudar durante o período de isolamento social porque não conseguem ter acesso à Internet. Já a imprensa brasileira (que teve um papel determinante nas últimas eleições) segue cerceada pelo Governo Federal e parcialmente impossibilitada de noticiar os escândalos de corrupção que mencionem a família do Presidente. E, por fim, assistimos a Amazônia e o Pantanal em chamas, por culpa da imensa irresponsabilidade do Ministério do Meio Ambiente. Se fossemos governados por patriotas de verdade, jamais viveríamos situações tão absurdas assim...

A ocasião do feriado prolongado (a data comemorativa da Independência do Brasil caiu em uma segunda-feira) nos trouxe uma série sem fim de imagens desoladoras: praias, bares e restaurantes do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Nordeste lotadas de banhistas sem sequer termos uma vacina para o vírus; em um evento oficial, o Presidente da República desfila sem máscaras, sem qualquer tipo de proteção individual e com uma horda gigantesca de aloprados ao seu redor. A ciência, em nosso país, é constantemente ignorada e desrespeitada pelas autoridades em prol de um mercado desumano e de uma moral religiosa nada cristã, relegando a vida de milhares de pessoas para o segundo plano. Diante de 127 mil pessoas desaparecidas, temos algum motivo para celebrar?

Por outro lado, minha descrença em dias melhores no futuro sai um pouco de cena ao sabermos que temos uma classe artística e intelectual que consegue pensar o país com muito mais sabedoria e inteligência do que os infelizes que ocupam os Três Poderes e que estão comprometidos até o último fio de cabelo com os projetos de direita que sempre agradou as elites brasileiras. Seríamos muito infelizes sem o legado e o pensamento de lendas brasileiras como Glauber Rocha, Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tarsila do Amaral, Rita Lee, Lima Barreto, Djamila Ribeiro, Silvio Almeida, Antonio Candido, Silviano Santiago, Clarice Lispector, Teresa Cristina e tantos outros brasileiros ilustres e anônimos que sempre amaram o nosso país, apesar de tantos pesares. Graças ao trabalho dessas pessoas, eu me lembro que toda crise, por maior e pior que ela seja, é passageira e que, cedo ou tarde, teremos condição de ir às ruas com tranquilidade e com orgulho das coisas boas que ainda existem por aqui, independente da tendência política de qualquer governo.




7 de setembro de 2020 não deveria ser lembrado futuramente pelos dizeres “Independência ou Morte” ou “Ordem e Progresso”, mas por “Negligência e Morte” ou “Desordem e Retrocesso”. O que me consola diante de tamanho horror é ter a certeza absoluta de que eu jamais contribuí para isso já que, como diz a canção de Gilberto Gil, devemos ser livres para ser e amar como quisermos...

25 de agosto de 2020

LEITURAS DE SEGUNDA - 1 a 6

#1 - PATTI SMITH


#2 - JOÃO BOSCO & ALDIR BLANC


#3 - GILBERTO GIL


#4 - IVAN LINS & VITOR MARTINS


#5 - CLARICE LISPECTOR, SÉRGIO VAZ & LEO MANNINI


#6 - LIMA BARRETO, EDUARDO ALVES DA COSTA, CAETANO VELOSO & GILBERTO GIL



7 de fevereiro de 2018

TROVA # 145

BREVE MANUAL DE ETIQUETA PARA PLATEIAS DE SHOWS


         Um dia eu ainda irei escrever um livro para satisfazer as demandas do mercado. Quem sabe um desses manuais de moda e etiqueta ao estilo da Glória Kalil só que aplicado aos eventos musicais, porém com muita ironia e o deboche que me cabem neste latifúndio cibernético.
         Os principais eventos de um artista que se aventura pelo universo da música são os shows. Neste momento, o público possui a tão esperada oportunidade de ver a banda, o cantor ou a cantora de que tanto gosta no exercício de sua arte em carne e osso. Se existe a chance de ouro de ir até o camarim e estar com o seu ídolo face-to-face, você ainda pode trocar algumas palavrinhas com ele, tirar uma foto e pegar um autógrafo.
         Com o advento dos smart phones e das redes sociais, uma parcela do público de shows literalmente perdeu algumas noções básicas de bons modos e civilidade enquanto o artista faz o seu trabalho perante a plateia. Por isso, aproveito esta chance para fazer um TOP 10 dos comportamentos mais desagradáveis em shows:

    1) CHECAR REDES SOCIAIS DURANTE A APRESENTAÇÃO – É simplesmente inacreditável que os detentores de ingressos dediquem o seu tempo e dinheiro enquanto plateia para checar os chats do WhatsApp, os likes e DMs do Instagram, as transmissões ao vivo do Snapchat, Instastories e do Facebook. Além do fato de que o olho humano se desloca para lente da câmera e/ou para o visor do celular e de que a luminosidade e os ruídos dos telefones incomodam a concentração dos demais.

        2) TIRAR FOTOS E FILMAR O SHOW INTEIRO COM CÂMERAS, TABLETS E CELULARES – Não há coisa mais tosca, cafona do que posar para uma lente fotográfica com a cara mais feliz do planeta enquanto um músico se apresenta para uma plateia. Selfies em shows são o que há de mais brega em matéria de comportamento humano: dois ou mais animadinhos sempre incomodam aqueles que estão dispostos a desfrutar de uma boa música ao vivo.
Lembro, certa vez, de um surto que tive com uma louca que queria porque queria que eu interrompesse todas as atividades para tirar uma foto comigo e com meus amigos durante um show de Zélia Duncan. Em outra ocasião, tive que disputar terreno em uma plateia do SESC Itaquera para não derrubar um tripé de filmadora que estava estrategicamente posicionada para a filmagem de um show inteiro: não era a TV SESC, era um fã obcecado que achou mais importante ter que filmar tudo...
Deixar os outros em posição desconfortável por causa de um capricho tão egoísta – tirar fotos e filmar – é de uma insensibilidade sem tamanho. Restringir a liberdade alheia por um desejo seu é o cúmulo do ridículo...

3) CONVERSAR COM QUEM ESTÁ AO LADO DURANTE O SHOW – Certas pessoas se comportam em locais de show como se estivessem em estádios de futebol. Apenas se esquecem de que os músicos estão longe de serem craques da bola e de que cada número do setlist não é um lance futebolístico digno de análise ou comentário. Por isso, para que raios agem como se fossem o Neto ou o Galvão Bueno?!
Não me esqueço de um show de Angela Rô Rô no Teatro FECAP no qual um casal sentado atrás de mim comentava as piadas e canções daquele dia como se estivéssemos em uma final de Copa do Mundo. Por isso, amiguinho: não comente nada durante o espetáculo, sinta a música. Deixe para fazer isso durante a pizza após o evento...

4) RECLAMAR EM VOZ ALTA PORQUE NÃO OCARAM A SUA CANÇÃO PREFERIDA DURANTE O SHOW – Há comentários que são infinitamente desagradáveis. Principalmente quando são feitos durante uma apresentação que está agradando a maioria do público. Não estrague a alegria dos outros e não atrapalhe o trabalho de quem está no palco: Robert Plant não vai tocar “Stairway to Heaven”, Marisa Monte não é obrigada a tocar “Bem Que Se Quis”, Ney Matogrosso não canta “Telma Eu Não Sou Gay” nem por um decreto! O artista não tem a obrigação de tocar o que o público exige e nós, pagantes, não somos obrigados a encarar as lamentações dos outros.

5) GRITAR PEDIDOS DURANTE O SHOW – Teatros e casas de shows não são bares ou restaurantes com música ao vivo, onde basta enviar um bilhetinho pedindo “Flor de Lis”, “Oceano”, “Sozinho” e outros clássicos das FMs. E não existe nada mais deprimente do que ouvir um “TOCA RAUL!” em meio a uma apresentação. Deixem o espírito do Mestre Raul Seixas em paz...

6) BEBER MUITO DURANTE O SHOW – Se bêbados já são pessoas desagradáveis em bares, imaginem em eventos musicais com open bar? São representantes do que há de mais inconveniente no pedaço: ter que se deparar com poças de vômito, com o péssimo comportamento provocado pelo álcool e outras situações horrorosas é o cúmulo da falta de elegância! Além da alta possibilidade de barracos, provocações e brigas...

7) JOGAR O CORPO PARA FRENTE DO PALCO DURANTE O SHOW – O direito mínimo das pessoas que enfrentam horas e horas de fila para conseguir um lugar privilegiado na frente do palco, é ter o seu espaço garantido durante o evento. Por isso, é muita falta de educação e de ética chegar poucos minutos antes do show e ficar empurrando os demais para conseguir um lugarzinho bacaninha para ver a estrela da noite. Se queres conforto, chegue mais cedo!

8) LEVANTAR DO ASSENTO DURANTE O SHOW – Em certas ocasiões, precisamos fazer uma passagem pelo banheiro durante uma apresentação musical. Quando isso acontece comigo, me levanto de onde eu estou repleto de vergonha e vou discretamente ao destino tão desejado. Venhamos e convenhamos, há pessoas que extrapolam os limites do bom senso. Exemplo: estava eu em um show de Gal Costa numa renomada casa de show de São Paulo quando notei o burburinho de duas mesas de lados opostos da Pista VIP, onde eu, por acaso, estava. Uma moça da mesa do lado esquerdo se locomovia freneticamente para o lado direito (e vice-versa) enquanto Gal cantava o repertório de Recanto para ficar conversando com os amiguinhos durante o show. Nenhum problema em relação à hiperatividade da criatura se não fosse o fato de que ela estava EM PÉ ao lado direito da casa bem na frente deste que vos escreve para fofocar. Meu surto foi inevitável: expulsei a cidadã do meu campo de vista com meia dúzia de patadas e grosserias e voltei ao show de Gal com uma raiva imensa do tempo perdido. É muita petulância alheia com alguém que pagou ingresso caro para assistir uma das artistas que você mais gosta.

9) GRITAR DECLARAÇÕES DE AMOR PARA QUEM ESTÁ NO PALCO DURANTE O SHOW – Deixemos algo bem claro: você pode gritar e berrar o quando você quiser para o artista que ele é amado, desejado ou que ele é “lindo, tesão, bonito e gostosão” ou até que deseja fazer coisas impublicáveis com ele ou ela. (In)felizmente, quem está no palco geralmente não poderá ouvir os anseios da plateia. Shows de Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Ana Carolina reúnem uma quantidade sem fim de frases que eu tenho vergonha que reproduzir aqui. Show de Chico Buarque então é um festival eterno de correio para o monstro de olhos azuis que me faz entender o fato dele raramente sair em turnê. No entanto, tem uma passagem hilária ocorrida comigo: em uma área VIP de um show de Paul McCartney em São Paulo, um rapaz de 20 e poucos anos não cansava de gritar “I love you, Paul!” para o ex-Beatle, inerte aos desejos histéricos individuais de 2 ou 3 e empenhado com um show de quase 180 minutos pela frente. Já uma amiga minha me contou que quase espancou uma quarentona louca que berrava na pista (500m de distância do palco!) de um show dos Rolling Stones de que Mick Jagger TINHA que fazer um filho com ela a todo custo.

10) ARRANJAR CONFUSÃO NO CAMARIM APÓS O SHOW – Se existe a oportunidade de outro de ir até o camarim e estar, por breves instantes, com o seu ídolo face to face após um show, já é um motivo e tanto para se sentir nas nuvens: trocar algumas palavrinhas, tirar uma foto e ainda pegar um autógrafo são ingredientes perfeitos para a plenitude da sua felicidade musical. Entretanto, há pessoas que desconhecem noções básicas de respeito e civilidade em situações assim. A admiração se transforma em histeria. As vozes histéricas se convertem em um desrespeito pessoal à figura do artista: ninguém é obrigado a tirar um milhão de selfies ou a autografar uma série sem fim de capas de disco ou de quinquilharias e ainda ter que sorrir freneticamente depois de horas extenuantes de ensaios, passagens de som e dos shows em si. O camarim não é a Ilha de Caras! Além disso, sempre há aqueles fãs que se acham mais dignos do que outros e adoram menosprezar os demais fãs e sugam o artista como um vampiro sedento por sua presa inocente. Diante do caos típico de toda porta de camarim, lembro-me sempre de uma frase muito sábia dita por minha fada madrinha: “O ingresso te dá direito ao show e não a uma ida ao camarim!”.  Quando não estamos no meio daquelas rodadas bregas de meet and greet, vale levar em conta que o artista não é propriedade particular do fã. Por isso e por muito mais, respeito e privacidade sempre fazem bem em uma hora dessas.  
Eis 10 dicas de etiqueta para que você possa se comportar adequadamente em eventos musicais. Se você seguir estas recomendações à risca, cada show será uma oportunidade e tanto de ser um acontecimento inesquecível. Nem a Glorinha Kalil ou essas blogueirinhas de plantão teriam te dado dicas tão bacanas como essas...