A
MÚSICA, AS MEMÓRIAS E A MAGIA DE BARBRA STREISAND
“If you see me in the alley
Looking like I don't belong
You can put me in your greenest valley
I'll still be singing the same old song”
(Barbara Keith na voz de Barbra Streisand, 1971)
Barbra Streisand surgiu para os meus
ouvidos quando eu estava entrando na adolescência. Enquanto as pessoas da
minha idade piravam no som das bandas descoladas como Nirvana, Red Hot Chilli
Peppers ou Pearl Jam, eu me encantava com sucessos como “Guilty”, “Woman in
Love” e “The Way We Were”. Achava o primeiro disco que ela gravou com o Barry
Gibb dos Bee Gees o verdadeiro máximo e fiquei super feliz quando eu adquiri
uma versão comemorativa de 25 anos de Guilty para a minha coleção. Era
mais um sinal de que o meu ouvido musical era anormal em comparação às pessoas
da minha idade.
O que me encantava tanto no trabalho de
Barbra Streisand? A voz. Seu talento estupendo de atriz lhe fazia uma performer
seja de canções dos musicais da Broadway, seja de canções pop contemporâneas. Apesar
dela ser odiada pelos daqui de casa e de seu gosto do que os falantes de língua
inglesa chamam de corny para o seu repertório
mais recente e de seus excessos de Diva, não deixei de comprar seus álbuns. Eu sempre
digo para qualquer um que se há mais de três discos de um mesmo artista é
porque estamos diante de um fã. Daqui da mesa do escritório, vejo mais de dez
CDs e um LP da artista de quem escrevo hoje.
Devo confessar por aqui que, apesar de
gostar bastante dos serviços de streaming,
não sou muito afeiçoado ao Netflix. Minha preguiça em acompanhar novelas e
séries de TV se tornou uma parte congênita de mim desde que minha rotina tem
sido tomada pela minha vida profissional e dos meus estudos. Porém, ao saber que
The Music... The Mem’ries...
The Magic!, a turnê de 2016-2017 em que Barbra Streisand
comemorou 6 décadas de uma carreira de sucesso, aproveitei a solidão de uma
noite de quarta-feira e fui conferir o resultado.
Aos 75 anos de idade, Barbra Streisand
infelizmente não possui a mesma extensão vocal (os agudos eram uma de suas
marcas registradas) de outros tempos. Por outro
lado, a teatralidade que ela imprimiu a clássicos como “People” (Bob Merrill
& Jule Styne) e “I Didn’t Know What Time It Was” (Rodgers & Hart) ou a
canções pop como “Being At War With
Each Other” (Carole King), “The Way We Were” (Marvin Hamlisch, Alan &
Marilyn Bergman) ou “Evergreen” (parceria bissexta de Streisand com Paul
Williams) é simplesmente comovente. Ao contrário de turnês anteriores,
onde poderíamos notar a presença de orquestras repletas de cordas e sopros, Barbra
é acompanhada por um número restrito e competente de músicos no palco.
Apesar das excelentes interpretações, The Music... The Mem’ries... The Magic! possui momentos, digamos, um tanto over para os não-admiradores
de Barbra Streisand: o diálogo entre Barbra e o gerente do restaurante no qual
ela pede o seu jantar pareceu fake demais
até para este que vos escreve; a homenagem à cadelinha Sammy (companheira fiel
da estrela durante as turnês), comovente para os amantes de pets, e suas aparições forçadas no palco
deviam ser um desgaste para a pobre criaturinha – os donos de cãezinhos sabem
que eles possuem audição extremamente sensível; imaginem o desconforto de
milhares de pessoas aplaudindo e berrando por sua dona em plena boca de cena...
No entanto, pouquíssimas mulheres na
história da música sabem encantar, entreter e provocar uma plateia como Babs:
Madonna, Beyoncé, Adele e muitas outras mulheres que se aventurarem pelo showbiz devem aprender um pouquinho com
ela em matéria de como se interpretar uma canção, como se vestir com
sensualidade e elegância, como se dirigir ao público contando histórias, piadas
e anedotas de cunho político e por aí vai... Dois detalhes a respeito de sua
história profissional me deixaram boquiaberto: Barbra tem pavor de palco e só
fez apenas cem concertos públicos até hoje. Chega a ser impactante saber que
uma das figuras femininas mais longevas do entretenimento mundial não fez um
centésimo de apresentações ao vivo do que todas as estrelas da música Pop juntas e mesmo assim tem muito a
ensinar a todas elas.
E torço para que Barbra sempre consiga
dominar o medo do palco para não apenas ensinar aos seus pares com quantos
refletores e notas musicais se fazem um bom espetáculo, como também tenha
canções belíssimas para cantar para o mundo por bastante tempo. Afinal de
contas, precisamos de belas vozes para que possamos ainda acreditar na beleza
de nosso cotidiano. Como a boa nos redime e nos salva dos males do dia-a-dia, a
música, as memórias e a magia de Barbra Streisand nos fazem crer em um mundo um
pouco melhor. Mesmo que este efeito tenha a duração de apenas duas horas...
(alguns episódios pessoais e públicos
de como o dinheiro pode nos causar amor e ódio)
"Money, so they say
Is the root
of all evil today
But if you
ask for a rise
It's no
surprise that they're giving none away"
(Roger Waters - "Money", canção do lendário álbum The
Dark Side of The Moon [1973], do Pink Floyd)
Minha relação com o dinheiro sempre foi muito
difícil. Complicada mesmo, tal qual uma relação intempestiva de dois amantes
que se amam muito e que vivem em pé de guerra permanente.
Já fiz coisas horrorosas por não ter o tal do vil
metal em mãos para adquirir algo. Já fiz coisas indignas, cedendo às tiranias
dos outros, para poder garantir um pingo de estabilidade financeira.
Consequência direta? Chegar à conclusão do quanto eu me anulei para poder
satisfazer às demandas do mercado do qual eu faço parte - no caso, a educação
privada. Consequência indireta? Minha qualidade de vida se tornou bastante
comprometida ao ter que trabalhar todas às noites e durante meus finais de
semana durante anos.
Devo confessar não me arrependo de muitas coisas
que já fiz por dinheiro. Entretanto, aprendi muito sobre mim, sobre os outros e
(especialmente) sobre a falta de escrúpulos das instituições, amparadas pelo
Capitalismo que nos rege. Acreditei piamente (e, de vez em quando, ainda acredito)
na frase clássica de Nelson Rodrigues que dizia: "O dinheiro compra tudo.
Até amor verdadeiro". Quando comecei a me olhar no espelho e ver os
reflexos do envelhecimento rápido (calvície, olheiras de estimação, metabolismo
mais baixo, gordura localizada) e que estava vivendo 3 anos em 1, aprendi da
maneira mais dura e difícil de que não há salário alto ou benefício que
compense a sua qualidade de vida.
Quando você trabalha por horas e horas a fio sem
ter possibilidades significativas de crescimento profissional, com a ausência
de um plano de carreira que dê aquele sorriso no rosto para que você pondere a
necessidade de sacrifícios, quase tudo relacionado ao universo do trabalho
deixa de fazer sentido para ti, afinal o lucro que está sendo gerado, em
primeiro lugar, jamais pertencerá a você. Remuneração nenhuma substitui a
possibilidade de você ver seu sobrinho que mora em outro estado crescer pelas
redes sociais ou pelo celular ou a primeira visita da afilhada que veio passar
o dia na sua casa enquanto você não está. Os momentos familiares perdidos por
causa do seu trabalho doem na alma. Penso na dor de meu pai ao passar sua
juventude tendo que trabalhar para sustentar esposa e dois filhos. Penso no
sofrimento de meu avô em ter que começar um negócio próprio praticamente do
zero e fazer prosperar através de muito suor enquanto os filhos cresciam e sua
mulher trabalhava arduamente para dar conta de uma casa.
Já ganhei um bocadinho de plata nesta vida afora como professor em escolas regulares e institutos de idiomas. Não investi meus rendimentos e
economias em um negócio próprio por jamais me imaginar como chefe ou alguém que
deve administrar as finanças ou tomar decisões de grande porte. Jamais
ambicionei o desejo de ter um carro 0km ou refeições regadas a champanhe e
caviar como uma prioridade de vida. Roupas de marca e de fino trato até me
interessam, mas prefiro meus velhos farrapos ao invés de ter que investir
milhares de reais em um camisa pólo ou um sapato de presença que vá além de 200
reais. Jet set? Restaurantes claros
e/ou cafés da moda? Baladinhas do momento ou casas de stand-up comedy? Não, obrigado! / No Thanks! Cogitei a possibilidade de um dia ter um teto para poder
chamar de meu, porém os bancos ainda acham que o meu cartão de crédito é uma
navalha. Um claríssimo exemplo de um amor jamais correspondido. Um ódio
descaradamente declarado.
Desde sempre, compreendi que o mundo seria muito
mais interessante pra mim a partir de um investimento maciço na
intelectualidade. Não me tornei um grande pensador, tampouco em um influente
formador de opinião. Por outro lado, já posso plantar meus amigos, meus discos
e meus livros e nada mais - algo muito mais atraente do que roupas, festas,
carrões e drinks à base de Red Bull.
Com isso, não me sinto na eterna obrigação de agradar todo mundo, o que me faz
um inimigo público de peso de acordo com uma boa parcela da sociedade.
Resumindo: por ter escolhido o caminho menos óbvio, o dinheiro é algo de pouca
relevância para mim, apesar de ser essencial para muitas atividades que faço.
A consequência por ter me feito um indivíduo menos
materialista e mais pragmático? Desenvolvi uma capacidade crônica em lidar com
dinheiro. Os credores e os bancos me amam de paixão por causa desta aptidão e
pela facilidade impressionante em contrair dívidas. Minha revolta com o
Capitalismo tem sido minha resposta para o fato do vil metal nunca ter gostado
de mim, o que é um sentimento mútuo entre nós dois. O que me consola é o fato
de não ser o único: o Poeta Vinícius de Moraes era conhecido entre seus
familiares e amigos pela sua enorme incapacidade em lidar com as finanças. Dizem
as lendas que o Poetinha, que se casou nove vezes, saía de cada um de seus
divórcios apenas com uma muda de roupas e o seu Portinari debaixo
do braço, prova claríssima do seu profundo desapego em relação à grana.
Em contrapartida, a ambição e a vontade desmedida
por dinheiro pode levar o ser humano a cometer atos indecentes, deploráveis,
nojentos, dignos de causar vergonha. Alguns exemplos bastante palpáveis deste
fato são a corrupção dos políticos que elegemos, a eterna ganância das
corporações, o desrespeito pelo ser humano em prol do lucro individual é
limitado. Por causa do amor por este malandro que não nos ama ou não nos
corresponde da mesma maneira, invertemos os valores da sociedade em que
vivemos, passando a fazer da exceção à regra. Atitudes éticas se tornam em
artigos enfadonhos. A arte e o pensamento crítico são relegados para outros
planos e deixam de ser prioridade. O lucro e o sucesso são a cartilha a ser
seguida.
O artista e o intelectual, por estarem plenamente
comprometidos com a sensibilidade, geralmente possuem dificuldades gritantes em
lidar com o vil metal. Leonard Cohen, por exemplo, se lançou em uma extensa
turnê mundial devido a um gigantesco desfalque dado por sua ex-empresária. Os
Beatles se separaram de vez em 1970 devido às disputas financeiras que azedaram
a amizade e parceria musical de John Lennon e Paul McCartney. Os Rolling Stones
seguiram rumo ao exílio na França a partir de 1971 por causa das dívidas
astronômicas de Jagger & Richards com o fisco inglês. Dizem que Barbra Streisand
retornou aos palcos depois de 20 anos de recusa em fazer turnês simplesmente
porque o dinheiro tinha acabado. Sinais evidentes que as verdinhas podem
amá-los, como também odiá-los com uma intensidade impressionante.
Sem falsa modéstia ou “vitimismo” descarado, afirmo, sem rodeios, que pertenço ao grupo daqueles que o dinheiro sempre odiou. Com muito orgulho é um
pouco de vergonha. Sempre me pergunto por onde esse verdinho anda depois do dia
6 ou 7 de cada mês, pensando nas culpas e na minha eterna inaptidão em lidar com
ele. O vil metal, o mais malandro de todos os malandros, volta sorrateiramente
ou no último dia da temporada ou no quinto dia útil para, logo depois, bater
cruelmente em retirada. Quando eu aprender a ser um romântico calculista, ele
vai ficar do meu lado durante uma temporada mensal completa. Até lá, preciso
entender a lição do velho Tio Patinhas e tomar decisões mais pautadas pelo
cérebro, não pelo coração. Quem sabe a maturidade dos meus 30 e poucos anos me
dê a oportunidade de um dia poder zombar daqueles que sorriram diante dos meus
fracassos e das solas gastas dos meus sapatos furados. Talvez eu não consiga
comprar um time de futebol ou um Lear Jet,
mas quem sabe posso garantir um mínimo de conforto para a velhice?
(algumas palavrinhas sobre nossas
experiências musicais: do LP ao streaming)
Para Márcia Rodrigues de Souza,
uma leitora devota e apaixonada da
Arte da Crônica
Para Neil Young,
com todo o meu carinho, pelos seus 70
anos de vida
"O
caminho do céu
No
caminho do som
O
caminho do céu é
No
caminho do som
O
caminho do céu
No
caminho do som
O
caminho do céu é
No
caminho do som
(Me
ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor)
Voar,
voar
(Me
ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor)
Há
uma alma na asa no ar
(Me
ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor)
Cantar,
cantar
(Me
ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor)
Há
uma asa na alma no ar
(Me
ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor)
(Quem
foi que disse que a mulher não voa?)
(Quem
foi que disse que a mulher não voa?)
Me
ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor
Me
ensina a cantar, me ensina a voar, me ensina a cantar, amor
Me
ensina a voar, me ensina a cantar, me ensina a voar, amor
O
caminho do céu
No
caminho do som
O
caminho do céu é
No
caminho do som
(Quem
foi que disse que a mulher não voa?)
(Quem
foi que disse que a mulher não voa?)
Voar,
voar
Há
uma alma na asa no ar
Cantar,
cantar
Há
uma asa na alma no ar
Me
ensina a cantar, amor
O
caminho do céu, o caminho do céu
No
caminho do som, no caminho do som
O
caminho do céu é
No
caminho do som"
(Péricles Cavalcanti - "O Céu &
O Som" -
canção gravada por Gal
Costa em seu álbum Cantar, de 1974)
É muito comum dizer que nossas memórias são
musicais. Posso precisar cada momento da minha vida com o disco que eu ouvia na
época, relacionar com o aparelho de som que estava disponível para os meus
ouvidos naquele tempo e por aí vai. Minha relação com versos e sons sempre foi
intensificada pelas mais diversas formas de acesso à música: comecei a amar a
música loucamente através de uma velha fita cassete gravada da saudosa Rádio
Cidade do Rio de Janeiro que reproduzia os acordes de "Sweet Child
O'Mine"; passei rapidamente pelo final da era dos Long Plays na década de 1990 quando ganhei um de presente de
aniversário aos 12 anos de idade; enlouqueci de vez aos 13 quando um CD de Rod
Stewart virou minha cabeça de tal jeito e me fez o colecionador insano de discos no qual
me transformei.
Li um texto de Zélia Duncan certa feita no qual ela
descreve suas paixões musicais e ela comentou sobre a importância dos encartes
dos vinis e dos CDs para um ouvinte atento de música popular. Como bom curioso
que sempre fui, eu sempre me interessei em saber quem eram os autores das
canções, os músicos e produtores por trás dos clássicos, os responsáveis por
trás dos astros e das estrelas da canção. Além de tudo, não podemos deixar de
lado a importância do aspecto visual marcante da capa de um LP: como ignorar
Simone seminua vestindo apenas um jeans azul em cima de uma cama com lençóis de
cetim branco? Como esquecer do rosto angelical (e um tanto perturbador) de
Barry Manilow em roupas brancas com aquele colar de pianista em ouro 24k no
quarto de meu finado Tio Jorginho no antigo apartamento dos meus avós em
Laranjeiras? Como não nos lembrarmos da garçonete com cara de louca servindo o
café da manhã do Supertramp na capa e na contracapa de Breakfast in America? Ou como deixar passar por nossos olhos a
imagem sensualíssima de Ney Matogrosso quase nu nadando pelas águas do pantanal
mato-grossense? E o que podemos dizer da capa impactante do primeiro disco do
Secos & Molhados, que chega a ser praticamente surrealista? Ah, e não
podemos nos esquecer de Gal e a sua tanga lendária em Índia ou de Bethânia e o seu antológico arco de conchinhas que coroava a sua cabeça na imagem que ilustra a capa
de Pássaro Proibido...
Ouvir música tornou-se um ritual sagrado para mim:
o ato de permitir que os versos e sons de uma fita K7, um LP ou CD adentrassem
o ambiente sem pedir licença tal qual a Irene do Manuel Bandeira sempre foi
natural para mim. De preferência com um volume bem alto, para que eu pudesse
escutar tudo enquanto estivesse fazendo outra coisa - estudando, lavando a
louça, fazendo a barba, tomando banho, trabalhando em casa ou qualquer
atividade profissional corriqueira. A casa de meu avô Adhemar na Ilha do
Governador era um sonho para qualquer amante da boa música e confesso que foi
lá onde praticamente aprendi a cultivar este ato. Lá havia um quarto de música
onde poderíamos encontrar desde os discos de orquestra de Tommy Dorsey ou
clássicos de Al Jolson e Willie Nelson até os discos de MPB e música romântica
de minha avó Magaly - leia-se: da fina flor da MPB de Chico Buarque à breguice suprema do romantismo de Julio Iglesias! Como a casa
era grande, eles viviam sozinhos e sempre havia os infinitos afazeres do dia-a-dia, era
possível escutar o que eles estavam ouvindo da garagem de casa, o que eu achava
ótimo, pois era um ambiente oposto à claustrofobia de dois quartos, sala, cozinha e banheiro onde eu vivi por anos e anos... Foi daquela casa que veio a minha primeira lição musical: se você realmente quer ouvir música,
não pode ser feito em um volume baixo!
Para que a experiência musical ocorra de uma forma
bacana, é preciso ter uma aparelhagem de som potente e que faça com que os
acordes possam se propagar pelos cantos da casa como pássaros recém-libertos de
gaiolas. Lembro de duas anedotas do universo da música encantadoras e
impossíveis de serem ignoradas por aqui: a primeira é do Sr. Antônio Matogrosso
Pereira, um militar de altíssima patente da Aeronáutica e pai de Ney
Matogrosso, um dos artistas mais controversos e revolucionários da música
brasileira. Quando Ney lançou seu primeiro disco e show solo (Água do
Céu-Pássaro / Homem de Neanderthal), o fascínio do Sr.
Matogrosso pela arte do filho famoso era tamanho que ele não admitia que
ninguém ouvisse o LP em volume baixo para que ele se remetesse ao som
ensurdecedor que ele tinha ouvido no teatro.
A outra anedota é de Barbra Streisand, notoriamente
conhecida pelo fato de não ouvir música em casa ou em praticamente lugar nenhum
a não ser o estúdio de gravação. No início da década de 1970, Babs deixava de
ser uma cantora com um repertório baseado exclusivamente em um repertório de
musicais graças aos esforços do lendário produtor Richard Perry, que produziu
um de seus melhores títulos de toda a sua discografia – Stoney End (1971). Para que houvesse tamanha modernização do som de
Streisand, a Diva precisava nada mais, nada menos do que uma aparelhagem de som
que tocasse os discos mais influentes da época. Em uma noite remota, Perry
recebe uma ligação de Barbra pedindo que ele a ajudasse com a fiação do som
estéreo desconectado e que a musa simplesmente não saberia o que fazer...
Músicos que apreciam o prazer de ouvir música ainda são de uma enorme diferença
no meio musical...
A experiência musical de qualidade pode ser
qualquer coisa, menos barata. É cara, requer investimento em LPs, em CDs, em
edições especiais dos artistas que a gente mais gosta e admira. Além disto,
precisamos daquelas estantes de madeiras elegantes e suntuosas que tenham a
capacidade de armazenar os nossos tesouros musicais mais valiosos - sonhar não
custa nada, não é verdade? Não existe nada no mundo que me deixa com mais
inveja do que alguém que tira uma foto na frente de um belo móvel com coleções
e mais coleções de LPs e CDs devidamente enfileirados de acordo com o afeto
musical do colecionador. Porém, quando pensamos nas vicissitudes que regem o
cotidiano, chegamos à infeliz e nada romântica conclusão de que existe um
problema crônico de espaço físico para o colecionador de música: como muitos de
nós não somos ricos no sentido de pertencer às elites econômicas do Brasil,
sempre estamos às voltas com o dilema do armazenamento. Eu, por exemplo, por
ter um horror absoluto de perder meus CDs, cheguei à obsessiva tarefa de fazer
backups dos arquivos em MP3 assim que eu comprava o disco na loja e chegava em
casa.
VINIL em frente ao aparelho de som da família, em 1991.
Um fato que ainda me surpreende em 2015 é
justamente este revival da audição de
Long Plays, algo que eu pensei que
jamais acontecesse depois do surgimento do Compact
Disc, do Napster e do MP3 e dos
recentes serviços de streaming! Ironicamente, nunca se ouviram tantos vinis
como na primeira década de 2010: pesquisas feitas no primeiro semestre de 2015
apontam que os norte-americanos consumiram mais LPs do que assistiram vídeos no
YouTube ou no Vevo, por exemplo. Vitrolas portáteis, antes objetos de máxima
expressão do que se entende por vintage, hoje são vendidas por pouco mais de
200 ou 300 reais. Já não podemos dizer a mesma coisa a respeito do preço dos
LPs novinhos em folha: alguns chegam a custar cinco vezes mais do que um CD em
período de lançamento, o que me deixa à margem de toda essa festança retrô que
habita as casas de amigos, conhecidos e desafetos que cultivamos por aí. 120
reais em uma edição de Amy Winehouse em vinil? 100 reais por um LP do Secos
& Molhados que eu já tenho em casa?! Não, obrigado! / No, thanks!
Uma das novidades mais interessantes que surgiram
na relação entre o público consumidor de música e a arte que ainda se cultiva
através de versos e sons, na minha modestíssima opinião, está nos serviços de streaming. Pagar por um serviço pelo qual
você pode ter acesso a uma infinidade de títulos (além de raridades!) por um
preço relativamente razoável é algo bastante prático e confortável para o
pagante. É evidente que ouvir música pelo tablet
ou pelo celular não é tão prazeroso quanto estar com o seu aparelho de som
ligado; no entanto, a praticidade de podermos escutar o que quisermos a partir
do simples toque do dedo na tela do smartphone
vale qualquer desvantagem. Além disto, não é mais preciso sair fazendo upload
de arquivos de musicas no seu celular de forma insana (além de ser chato, o iTunes oferece tudo, menos
praticidade!), não há mais a necessidade de carregarmos uma penca de discos
para o carro (a não ser se você tem bebês de colo que só ouvem discos bem
específicos e raros) e tem o fator segurança em primeiro lugar: certa feita,
levaram vários de nossos CDs mais queridos na triste ocasião de um furto
ocorrido dentro do carro de minha mãe, na qual levaram tudo de valor que havia
dentro do veículo.
Um dos fatores negativos que o streaming apresenta, na minha concepção, é a falta de vontade do
ouvinte de ser um pesquisador nato de música ou, como diríamos vulgarmente, um
"rato de livrarias, sebos e (das ainda sobreviventes) lojas de discos". Na
medida em que os álbuns se encontram livremente dispostos em cada telefone
celular, um pesquisador de música em potencial deixa de surgir no pedaço. Por
outro lado, é um serviço muitíssimo mais econômico: onde eu encontraria a
versão Deluxe de All Things Must Pass, primeiro (e monumental) álbum do ex-Beatle
George Harrison, por menos de 50 reais? E a gravação antológica de "The In
Crowd", do Ramsey Lewis Trio, que tocava incessantemente durante o Irrational Man, de Woody Allen? Ou um
álbum raríssimo como o belo disco ao vivo que Aretha Franklin gravou em Paris
em 1968 sem ter que revirar as lojas virtuais de cabeça para baixo? Ou então a
discografia praticamente completa de Nina Simone, que custaria os olhos da cara
em qualquer loja decente do ramo?!
Evidentemente, existem pessoas que não veem o
streaming como algo realmente benéfico para a sociedade. O U2, por exemplo,
alega que vários desses serviços não pagam direitos autorais adequadamente para
os músicos. Neil Young, um eterno purista em termos de qualidade de som,
proibiu a fina flor de seu catálogo de estar disponível no Spotify, na Apple Music e
na Deezer e outros sem antes decretar
com um pingo de dó: "streaming has
ended for me". Depois do anúncio de Neil, tratei de sair correndo para
o celular e redescobrir algumas pérolas daquele baú de pepitas que ele nos deu.
Fui (re)ouvir Tonight's The Night e
fiquei tão apaixonado por aquele disco que resolvi escrever sobre ele...
A boa música que vem do fone de ouvido, seja do
celular, seja das caixas de som sempre tem algo a nos dizer. Ela pode nos levar
para um paraíso repleto de versos e sons e nos fazer esquecer da mediocridade
infeliz, tacanha e arrasadora que assola o cotidiano de cada um. O século XXI e
as suas mais altas tecnologias nos renderam opções que nos permitem exercer a
liberdade de ouvirmos o que quisermos sem termos que pensar ou pesquisar muito,
o que, nestes tempos de modernidade líquida (pegando emprestado um termo de
Zygmunt Bauman), não deixa de ser algo completamente ruim...
Leia mais sobre Tonight's the Night, de Neil Young, no Pequenos Clássicos Perdidos:
Certamente você não me
conhece... Meu nome é Vinícius (vulgo: Vinil), tenho 31 anos, sou Professor
(e blogueiro ocasional!), cresci e aprendi Inglês ouvindo seus sucessos! Vivo
em um lugar da América do Sul que as pessoas chamam de Brasil - é por isso que
escrevo em Português. Acho que você já esteve aqui no meu país algumas vezes
para fazer shows, mas infelizmente nunca dei tanta atenção. Yes, shame on me!
Por que eu decidi te
escrever? Porque eu fiquei estarrecido com a sua partida tão repentina e tão
sentida! Em 17 de maio de 2012, a Disco
Music se calou. Pior do que isso: fez a sua última dança! Com o apagar de sua estrela, Mrs. Summer, ficamos órfãos de uma das criadoras
de uma era inesquecível. Você foi referência para talentos de sua geração e que
também mais influenciou os que surgiram nas décadas seguintes.
Posso te dar algumas
provas evidentes disso... Madonna seguiu seus passos ao levar para as pistas de
dança uma fórmula te deu muito sucesso com o seu primeiro hit, “Love to love you baby”: sexo, um
som hipnotizante e muito groove! Moby
e David Guetta eram fascinados por seu som incomum; Kylie Minogue, Beyoncé,
Nicki Minaj e outras popstars da vez te
consideravam uma diva das pistas e uma modelo inquestionável; até Barbra
Streisand se rendeu aos seus encantos e se juntou a ti em seus dias
inesquecíveis de Disco Queen no final
da década de 1970 naquele dueto antológico,
“No More Tears (Enough is Enough)”. Seu nome não significou um mero modismo, mas foi um exemplo de música de excelente qualidade!!!
Ah, já que eu mencionei a Barbra... Como nós, ela ficou bem chocada
ao saber da sua saída de cena. Achou que você
estava tão cheia de vida na última vez em vocês se viram. Sempre te admirou por
você ter tido uma voz e um talento imbatíveis. E mais do que isso: disse pela
enésima vez que adorou ter gravado com você e bla blá blá... Pena que vocês nunca cantaram
juntas ao vivo... Teria sido sensacional! Elton John, outro admirador confesso seu,
disse que seus discos "soam bem em
qualquer época" (...). E disse mais: "É uma desgraça total ela nunca
ter sido inclusa no Hall da Fama do Rock, especialmente quando eu vejo artistas
de qualidade inferior chegando lá". É duro, mas temos que concordar com as
palavras de Sir Elton. Ninguém precisou viver intensamente os chamados “embalos
de sábado à noite” para não lembrar clássicos do Pop como “I Feel Love”, “Bad Girls”, “Hot Stuff”, “On The Radio”, “She
Works Hard For The Money”, “Last Dance”... E também concordo com Barbra
Streisand: tu tinhas uma voz belíssima, formada pelos sons das Igrejas batistas
norte-americanas, o que te deixava na mesma galeria de outras divas de formação
semelhante como Aretha Franklin, Dionne Warwick e Whitney Houston (para não
citar outras!).
Minha relação com o seu legado começou por volta de 1994/1995, quando você lançou Endless Summer, aquela coletânea na qual
você reviu toda a sua carreira e nos deu duas canções inéditas. Evidentemente
isto se deu através da influência dos meus pais, que viveram intensamente os já
citados “embalos de sábado à noite” e gostavam muito de te ouvir cantar. Porém, as suas
canções, Mrs. Summer, não se restringiram apenas a uma era que hoje se encontra
distante no tempo: elas fazem parte de um repertório universal que povoa os
inconscientes sonoros coletivos. Afinal, todos nós amamos uns aos outros, todos
nós desejamos uns aos outros, todos nós dançamos uns com os outros, todos nós fazemos sexo uns com os outros e você
soube dizer isto tudo muitíssimo bem com a sua música. Quando Madonna resolveu incluir
“I Feel Love” na Confessions Tour,
não se tratava apenas de citar um sample
seu ou de realizar um mero tributo ou homenagem a ti. A Rainha do Pop te reconhece como
O
baluarte da Dance Music, o que é, no mínimo, justo para uma artista negra
que abriu portas em um universo mercadológico dominado por brancos (a Disco era um tipo de música feita por
negros para ser apreciada por brancos!). Ao ouvirmos a gravação original de “I
Feel Love”, temos a nítida sensação foi gravada ontem, de tão moderna que ainda
soa para nossos ouvidos tão fatigados de ouvir tantas asneiras por aí...
Sua perda, Mrs. Summer, foi muito sentida por diversos segmentos da
música internacional. O que eu acho mais lastimável é o fato de uma mulher de
63 anos, em momento de alta criatividade profissional (fiquei sabendo que você
estava gravando um disco que sucederia seu último trabalho, Crayons, de 2009), ter sido mais uma
vítima do câncer. E ainda pior: você apenas lutou 10 meses contra a doença! O
Presidente Obama disse que sua voz era inesquecível e que"a música perdeu uma lenda
muito cedo". Uma amiga minha de
anos comentou no Facebook: “Esta é uma doença
que não escolhe: pode ser negro, branco, pobre, rico, jovem, velho,
inteligente, burro... tudo o que nos resta é rezar para que os pesquisadores e cientistas
achem a cura para o câncer o quanto antes. E rezar para que Deus proteja
aqueles que a gente ama!”. Compartilho do mesmo desejo da amiga em questão, mas
Deus não me deu esta sorte... já perdi três parentes para o câncer. Espero que
seu marido e suas filhas consigam achar forças para viver daqui para diante,
pois imagino o quão deve ser difícil!
Por isto, acho que o melhor a fazer por ora é encerrar esta Trova
de Vinil por aqui lembrando que sua música, Donna Summer (parafraseando
“Last Dance”) sempre estará “ao nosso lado, para nos
guiar e para nos segurar” em nossos maus (e bons momentos).
Rest in Peace, Mrs.
Summer! May you rest in Lord’s arms...