Aproveitei
a época do Carnaval e resolvi continuar ouvindo uma de minhas maiores
inspirações musicais, Paulinho da Viola. Um dos maiores estandartes musicais da
Portela, Paulinho é autor de letras inesquecíveis e de melodias belíssimas que
resultam em sambas inesquecíveis e possui mais de cinquenta anos de
indefectível carreira musical.
Paulo
César Baptista de Faria pertence a uma família de enorme tradição no samba:
filho do violonista César Faria, integrante do lendário grupo de choro Época de
Ouro, Paulinho cresceu ouvindo mestres como Pixinguinha e Jacob do Bandolim
tocando na sala de sua casa. Apesar do pai ter lhe dado seu primeiro violão, Sr.
César não queria que o filho se tornasse músico. No entanto, o jovem Paulinho
começou a se interessar por carnaval e organizou um bloco carnavalesco na zona
norte do Rio de Janeiro.
Aos
19 anos, o jovem Paulo César era um contador e estudava economia. Foi nesta
época que ele teve contato direto com Hermínio Bello de Carvalho, que lhe aconselhou
a carreira de músico. Ao ouvir pela primeira vez as gravações de Cartola, Elton
Medeiros, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Carlos Cachaça e outros, o samba lhe
fisgou em cheio. Começou a compor sambas em parceria com Hermínio e deu início
a uma brilhante trajetória musical.
Meu
primeiro contato com Paulinho da Viola se deu graças ao meu avô, Sr. Adhemar,
que tinha comprado um dos álbuns mais importantes da obra do mestre, Bebadosamba
(1996). Logo depois, o videoclipe de “Ame” era transmitido volta e meia pela
MTV Brasil. Por fim, meu pai comprou uma coletânea de mestre portelense e aquele
rio de versos e trovas nunca mais saiu dos meus ouvidos.
Minhas
memórias com a obra musical de Paulinho da Viola sempre passam pela afetividade
e com memórias de pura nostalgia: lembro, por exemplo, que meu avô não gostou
muito de Bebadosamba porque achou o disco lento
demais – hoje, ao ouvir este álbum, tenho o direito de discordar de meu avô e
acho um dos trabalhos de samba mais belos que jamais se produziu nos últimos tempos.
Lembro de um aniversário meu em que cantei “Foi um rio que passou em minha vida”
no meio de uma roda de samba inesquecível. É graças a Mestre Paulinho e à Clara
Nunes que desenvolvi meu amor e minha admiração pela Portela, apesar de ter ido
pouquíssimas vezes a Madureira em mais de 37 anos de existência.
No
entanto, nem todas as minhas lembranças com o filho do Sr. César são
agradáveis. Não por uma questão de desgraça, mas por uma questão de um tédio
mortal. Em abril de 2011, conseguimos ingressos para assistir a um show de
Paulinho da Viola no SESC Pompeia. Não podia me conter de excitação em poder
cantar clássicos como “Argumento”, “Timoneiro”, “Perdoa”, “Na Casa do Vavá” e
tantos outros. Quando o show começou, Paulinho comunicou ao público que aquela
apresentação seria única e somente de lados B de sua obra. Logo de cara, a
decepção tomou conta daquelas cadeiras do SESC. Depois, tentei aceitar o
argumento do artista, mesmo sentindo a falta de sons familiares de cavacos, de
pandeiros e tamborins acompanhados de versos que eu pudesse cantar junto. Todavia,
quem era eu para alterar a ordem dos sambas de uma lenda de nossa música?
Saí
daquele show depois de ter dormido em alguns trechos, triste por não poder
cantar várias daquelas canções que eu tanto esperava ouvir. Fiquei de mal com
Paulinho da Viola por um tempo, mas retomei a ouvi-lo com a mesma devoção. Afinal,
não poderia ter um coração leviano e ignorar um dos maiores artistas do
planeta. Mas, infelizmente, aquela má impressão permaneceu guardada lá no fundo
das gavetas da memória.
Ainda
tenho a esperança de que vou fazer as pazes em definitivo com Paulinho da Viola
e ir em um de seus shows e poder cantar a fina flor de seu cancioneiro sem
jogar um sorriso de ironia sequer. Afinal, a poesia de Paulinho jamais sumirá
pela poeira das ruas...
Este é meu trigésimo sétimo Carnaval.
Não me lembro de todos, e ainda tenho a memória de alguns inesquecíveis. Já me
rendi aos encantos da folia, porém hoje em dia aproveito os dias de festejos não
apenas para descansar um pouco da loucura recém-iniciada do ano letivo, como
também para ler um pouco, acompanhar os festejos pela TV, ver alguns desfiles
das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e até tento sair em um ou outro bloco carnavalesco,
para não dizer que determinadas emoções eu vivi.
Acadêmicos do Baixo Augusta na Rua da Consolação, com a Pça Roosevelt à esquerda
No passado, eu adorava desfrutar dos
prazeres da carne durante os dias em que o Rei Momo governava as cidades e nos
garantia quatro dias de folia, irreverência e batucada. Porém, os 30 foram
chegando, me mudei para São Paulo (que só foi resgatar os carnavais de
antigamente de alguns anos para cá) e o meu coração passou a pertencer a
alguém. Além disso, minha resistência para aglomerações foi diminuindo e a
minha paciência para programas coletivos ficou bem limitada. Folia imperdível é
a que fica entre o sofá, a cama e o sol da piscina com algumas saídas com hora
marcada para voltar.
As multidões na folia do Rio de Janeiro
Além do empurra-empurra e do pessoal
que bebe demais e resolve satisfazer suas vontades fisiológicas no meio da rua
(não existe coisa mais desagradável do que cheiro de urina), o calor do verão
me deixa profundamente angustiado. Outro motivo que me mantém em casa é a
violência que não dá trégua durante o Carnaval: tenho pavor de assaltos e as
cenas de criminalidade na TV me deixaram ainda mais sem vontade de sair às
ruas. Não há irreverência ou marchinha de carnavalesca que resista à falta de
policiamento nas ruas das grandes cidades brasileiras. Por outro lado, a
vontade de protestar contra os governantes e as injustiças e me divertir
cantando e espantando os males diários ainda me dá vontade de sair de casa e
ainda acreditar que posso me sentir melhor...
A lendária Banda de Ipanema
Diante de uma série de retrocessos e de
direitos que os brasileiros têm perdido nos últimos dois anos, o Carnaval se
tornou em um verdadeiro palco de protesto e resistência do povão e dos
defensores da diversidade contra uma elite que sempre teve amor pelo luxo e
horror a pobre. Enquanto os detentores de um bom capital conseguem investir em
fantasias de alas de escolas de samba, carnavalescos elaboram protestos
inteligentes contra o autoritarismo e a boçalidade que têm dado o tom de tempos
mais recentes. O que seríamos de nós sem a genialidade de Joãosinho Trinta? E como
seria a nossa irreverência se não existissem as marchinhas carnavalescas com
suas letras irreverentes de duplo sentido?
A alegoria de Joãosinho Trinta proibida de desfilar graças à Igreja Católica
Por outro
lado, é importante deixarmos claro uma questão fundamental: o Carnaval é a
celebração da diversidade. Por isso, é um momento para que todos possam se
expressar da maneira que achar melhor: os foliões podem ir para a rua, os roqueiros
podem curtir seu som preferido nas alturas, os nerds podem ficar em casa em maratonas intensas de Netflix, os mais religiosos podem
praticar a sua fé em retiros espirituais orando por suas almas e antissociais
como eu podem ficar entre a rua e o conforto sagrado do lar. Se a
individualidade de cada um fosse respeitada, a liberdade não seria uma constante
apenas durante quatro dias de fevereiro ou março.
(meu
apreço e minha inveja do lendário Solar
da Fossa)
A partir da segunda metade da década de
1960, a expressão “estar na fossa” adquiriu um sentido distinto do original, ou
seja, nada a ver com desilusão amorosa. Tudo isso ocorreu graças a um lendário
casarão convertido em uma suntuosa pensão que abrigou a nata da arte, do
pensamento da cultura do Brasil daquele período. A Pensão Santa Terezinha, mais
conhecido como Solar da Fossa, foi moradia de artistas e intelectuais antenados
e engajados do porte de Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Gal Costa, Ruy
Castro, Naná Vasconcellos, Sueli Costa, Tim Maia, Maria Gladys, Aderbal Freire
Filho, Jards Macalé, Antônio Pedro, Zé Kéti, Abel Silva e mitos outros antes de
alcançarem o reconhecimento e a fama.
Paulinho da Viola em frente ao portão principal do Solar da Fossa na capa de seu disco de 1971
Se eu pudesse pegar o Delorean dos meus
sonhos e voltar ao ano de 1967, eu faria questão de passar uns dias no Solar da
Fossa depois de negociar minha estadia por um precinho bem bacana com D. Jurema
Cavalcanti, a administradora da pensão. Poderia tomar um copo de uísque e
trocar algumas figurinhas com meu amado mestre Ruy Castro sobre música,
literatura e jornalismo. Teria a chance de ouvir Caetano Veloso e Paulinho da
Viola cantarem “Alegria, Alegria” e “Sinal Fechado”, dois clássicos da música
brasileira pela primeira vez. Conheceria o talento imortal de Zé Rodrix, Tim
Maia e de Guarabyra em início de carreira. Assistiria a um show gratuito de
Naná Vasconcellos e seus batuques inconfundíveis no meio do quintal da pensão.
Viveria o deslumbre das belezas juvenis de Gal Costa, Darlene Glória, Maria
Gladys, Betty Faria e Ítala Nandi. E, por fim, poderia xeretar os
relacionamentos amorosos nada discretos de Zé Kéti e Antônio Pedro durante o
meu tempo livre.
O principal celeiro da intelligentsia carioca da época foi
eternizado pelo jornalista Toninho Vaz em Solar
da Fossa: um território de liberdade, impertinências, ideias e ousadias,
publicado em 2011 pela Editora Casa da Palavra. Neste livro, o biógrafo de
Torquato Neto e Paulo Leminski conta como o lendário casarão de Botafogo se
tornou tão conhecido através de centenas de depoimentos de ex-moradores
(ilustres ou não) do Solar da Fossa. Uma leitura deliciosa, que acendeu ainda
mais minha vontade de ter sido um jovem nos anos 1960 só para poder “estar na
fossa”.
Infelizmente, a história do Solar da
Fossa teve os seus altos e baixos, tal qual a trama de qualquer novela global: as
disputas judiciais entre Frederico Mello, o arrendatário do casarão e dos
terrenos e os proprietários do imóvel renderam longas batalhas nos tribunais,
deixando as vidas de várias pessoas em um limbo de incertezas. A guerra entre
Mello, Jurema Cavalcanti, os moradores e os donos do imóvel se findou em 1971
quando a justiça determinou que todos deveriam ser despejados da pensão sob
escolta policial.
Pouco tempo depois, o Solar da Fossa
foi demolido para dar início à construção do Shopping Rio Sul, um dos maiores
templos de consumo da Zona Sul carioca. Era o encerramento de mais um capítulo
das batalhas entre liberdade e capital, entre o conservadorismo da direita
elitista e o sentimento libertador das esquerdas do período, entre a ditadura
militar e a intelligentsia disposta a
resistir contra o regime de exceção. A demolição do casarão e o não-tombamento
pelo patrimônio histórico-cultural do Rio de Janeiro é mais um exemplo de que nossa
tradição em renegar nossa história é muito maior do que o instinto de
preservá-la.
Por outro lado, nem a ditadura, nem os
paladinos do capitalismo, tampouco os militares xucros que comandaram o Brasil
por mais de 20 anos conseguiram que a história do Solar da Fossa fosse legada
ao esquecimento. Afinal, é impossível demolir os edifícios da memória de quem
viveu um momento histórico tão significativo para a história da humanidade como
foi a segunda metade da década de 1960. Para aqueles, a fossa sempre será
libertadora e ensolarada...
(uma
declaração de amor ao samba no dia de seus 100 anos)
“Meu bem, perdoa
Perdoa meu coração pecador
Você sabe que jamais
Eu viverei sem o seu amor”
(Paulinho da Viola, 1976)
A primeira coisa que eu deveria fazer
pelo samba, este mestre centenário, é lhe pedir perdão. Quando eu era mais
jovem, no auge da minha sanha elitista e arrogante de pobre de direita, achava
que a coisa mais chique do mundo era ouvir música em inglês. Ledo engano: no
momento em que eu entendi o meu lugar de fala, de onde eu venho e tudo o mais,
entendi que ser sambista é também ser chique e elegante, é nobreza de altíssimo
nível, da patente das mais elevadas.
Um dos pouquíssimos orgulhos que ainda
possuo de ser carioca de nascimento é o de ter nascido na mesma cidade que foi um dos berços principais do samba. Foi em um fundo de quintal de uma casa nas
imediações da Praça Onze e do bairro do Estácio que o ritmo musical trazido
pelos africanos para as bandas de cá começou a sua trajetória. Todo sambista
carrega a ancestralidade dos escravos em seu DNA e deve agradecer à Tia Ciata
por ter aberto as portas de sua residência para os primeiríssimos sambistas.
É também preciso pedir a benção de
Donga por ter gravado “Pelo Telefone”, a primeiríssima gravação jamais feita de
um samba em disco. E não podemos nos esquecer de pedir a proteção de Ismael
Silva por ter sido o grande criador da primeira escola de samba. Por fim, não
devemos nos esquecer que nossa ginga e malemolência é fruto da malandragem dos
sambistas que faziam música e fugiam da polícia nos anos 1930 para poder ter o
seu direito de expressão artística garantido. Sim, sambista brasileiro já teve
cara de bandido...
É claro que alguns me dirão que o
samba nasceu lá na Bahia, porém meu coração carioca sempre irá discordar ou
ignorar esta tese. No entanto, isto é assunto para outro texto, que um dia
prometo escrever...
*
Samba sempre foi assunto seríssimo lá
dentro de casa. Meu tio Silvio Bertho, irmão mais velho de meu pai, foi
advogado, boêmio e radialista dos bons – dizem que ele era dono de vastíssimo
conhecimento de música e de um acervo de discos de samba de fazer inveja a
muita gente; meu tio Celso Bertho também foi radialista e adorava um partido
alto. Já do lado da família de minha mãe, os Rangel, não havia muita diferença:
guardo a eterna referência musical dos discos dos meus avós – meu avô Adhemar,
por exemplo, era um grande admirador da obra de Paulinho da Viola; já D.
Magaly, minha avó, me apresentou à música de Bezerra da Silva. Foi graças a ela
que eu descobri que o embaixador dos morros e favelas era mais Rock ‘n’ Roll doque muitos roqueiros juntos e enfileirados.
Por fim, não posso deixar de mencionar
a contribuição do Sr. Orlando Bertho, meu Pai, para os meus ouvidos:
ex-integrante da ala de bateria da União da Ilha do Governador, era chamado de “O
Rei do Tamborim” por vários de seus amigos e colegas de escola de samba. O instrumento
ainda existe e, se não me engano, volta à ativa todo mês de fevereiro durante
as festas de Carnaval. Foi graças ao seu acervo de LPs, CDs e fitas K7 que eu
ouvi falar em mestres do samba como Mestre Marçal, Beth Carvalho, Grupo Fundo
de Quintal, Jorge Aragão e todos os clássicos do samba-enredo que passaram por
metros e mais metros de avenida.
Diante dos exemplos familiares que
citei, só posso chegar a uma conclusão hoje em dia: não tinha como fugir da
batucada, pois ela já estava dentro do coração e dos ouvidos dos dois lados da
família.
*
Foi depois dos meus 20 anos de idade –
época em que ingressei na Faculdade de Letras – que o meu interesse pelo samba
se deu de vez. Graças a Ney Matogrosso descobri a obra de Cartola graças a dois
discos belíssimos com a fina flor da obra do Divino Mestre da Estação Primeira
de Mangueira. Clara Nunes e Paulinho da Viola, estandartes da Portela, surgiram
para mim neste período e me incentivaram a amar o azul e branco da principal
escola de samba de Madureira. Logo depois da graduação, Maurício Martins do
Carmo, meu ex-professor e ex-orientador de TCC, me pediu uma encomenda: uma
pesquisa para um seminário comemorativo homenageando um dos maiores bambas do
samba, Lamartine Babo. Fui nocauteado pela genialidade do grande criador de
marchinhas carnavalescas de todo o Brasil e apresentei (modéstia à parte!) um
belo trabalho no evento organizado pela Universidade Estácio de Sá.
[Preciso fazer um adendo importante e
necessário: se eu não tivesse me envolvido tão intensamente com o objeto de
pesquisa da minha Dissertação de Mestrado e que resultou em meu primeiro livro –
a obra musical do grupo Secos & Molhados –, creio que teria dado
continuidade às minhas pesquisas sobre o samba. Quando eu for mais velho e um
pouquinho mais sábio, espero poder oferecer minha contribuição para um dos
temas mais debatidos em matéria de canção popular].
*
Em 2006, dei um dos meus giros de 180
graus nesta vida e troquei o Rio de Janeiro por São Paulo. Troquei a Cidade
Maravilhosa pela Terra da Garoa. Saí do berço em rumo ao “túmulo do samba”. Meu
choque anafilático da troca de uma capital pela outra foi aliviado graças à
obra de Adoniran Barbosa e dos Demônios da Garoa, uma das paixões musicais do Sr.
Leonildo Moreira Serra, meu segundo pai – ele adorava ouvir as canções de um
disco dos Demônios que eu converti para MP3 no carro enquanto dirigia. Nenhum compositor
soube captar a alma paulistana com a sensibilidade apurada e irreverente de
Adoniran, a voz principal do samba paulistano.
Foi quando me converti em cidadão
paulistano que os meus ouvidos se abriram de vez para o legado de outros bambas
do samba: Noel Rosa & Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Wilson Baptista
& Mário Reis, Elza Soares, Martinho da Vila, Clementina de Jesus &
Jovelina Pérola Negra, Carlos Cachaça & Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara,
Alcione & Beth Carvalho, João Nogueira & Zeca Pagodinho... Sim, meus
ouvidos já estavam escolados em matéria de batucada, não tanto quanto os
ouvidos do meu pai, dos meus avós ou dos meus tios, todavia nada mal para quem
odiava o som de um cavaquinho...
Diante de um marcado fonográfico cada vez
mais comercial e menos cultural, o samba continua agonizando em praça pública,
mas nunca morre. Em um século de vida, o mestre centenário já fez parcerias das
mais inusitadas com a MPB: Nara Leão foi a primeira artista de seu núcleo musical
elitista a buscar inspiração para cantar o Brasil através da obra de Zé Kéti e
Cartola; Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil sempre foram extremamente
respeitosos e reverentes com o legado de seus colegas sambistas; Divas da canção
brasileira como Maria Bethânia, Marisa Monte, Zélia Duncan, Simone e Adriana
Calcanhotto (re)gravaram clássicos e/ou renovaram a linguagem do samba com
muita classe e propriedade; Tereza Cristina e Fabiana Cozza, por sua vez,
conseguiram extrapolar os limites das rodas de samba e flertam constantemente
com outros gêneros musicais; Mart’Nália e Diogo Nogueira, por exemplo, são
muito mais do que “filhos de peixe” e conseguem sambar com seus próprios pés,
sem a necessidade de depender do legado ou da força dos próprios pais. Por outro
lado, outros músicos não necessariamente ligados às raízes do samba ou à elite
da MPB conseguiram parcerias memoráveis com o samba: Marcelo D2 e Paula Lima
são dois exemplos dos quais eu gosto bastante.
*
Este mestre centenário não possui quaisquer
preconceitos ou cerimônias. Adora fazer dobradinhas com a já citada MPB, com o Soul, o Jazz e o Funk. O pagode
romântico que tanto se ouve nas rádios mais popularescas só existe por causa
dos velhos bambas que um dia fugiram da polícia e do governo. Nossa batucada
nos ensinou a importância de nosso valor cultural não apenas para nós mesmos,
como também para o resto do planeta. Não apenas por mero entretenimento ou diversão,
mas principalmente por ser reflexo da luta de um povo contra quaisquer
formas de injustiça e desigualdade. É a lição que vem da voz das ruas, não das
rodinhas insossas de intelectuais repletas de empáfia e arrogância. É o samba o
nosso primeiro e maior mestre em matéria de música popular.
E é, por isso e muito mais, que este
jovem Vinícius pede ao mestre centenário não apenas a benção, como também lhe
pede o seu mais sincero perdão. Sem pieguice ou oportunismo, mas com toda a
sinceridade e amor...
(“Oração”, de Dani Black, na
interpretação de Ney Matogrosso)
Gosto muito de uma fala de um filme
de Bruce Willis no qual o herói da trama dizia algo como: “Quando Sinatra está
na cidade, meu coração está com ele!”. O mesmo se aplica a mim quando sei que
Ney Matogrosso vem a São Paulo para mais uma temporada de shows. Sempre faço o
possível (e, por vezes, o impossível) para ver o belo astro em ação no esplendor
de sua forma e energia.
Por mais que um show de Ney não seja
“inédito” para os meus olhos e ouvidos, a emoção de sentir e presenciar a voz,
o corpo e a alma que ele dedica a cada canção que ele interpreta ao vivo é
renovável a cada espetáculo. Daí a necessidade de sempre retomarmos este encontro. Ele do palco, eu da plateia. Um
detalhe importante: Ney já passou dos 70 anos e tem mais energia que muitos
homens de 30! Além de termos uma aula imperdível de interpretação e voz no
contexto da música brasileira, ele não deixa de ser uma inspiração para nós que
tentamos insistir na magia da juventude.
Consagrado no Brasil e respeitado
pelo mundo afora há pouco mais de quatro décadas, Ney Matogrosso podia se
ancorar em velhas fórmulas e/ou repertório consagrados para retornar aos
palcos. No entanto, os olhos de farol buscaram novos
paradigmas para serem quebrados ao escolher um setlist praticamente inédito para o grande público. Nada de hits ou clássicos de Chico Buarque ou
Luhli & Lucina desta vez: o show e CD Atento
aos Sinais privilegiam a produção musical de nomes não tão recorrentes nos
ouvidos do mainstream, como Itamar
Assumpção, Pedro Luís, Vitor Ramil, Dan Nakagawa, Alzira Espíndola, Vitor
Pirralho e alguns outros. Dos baluartes da MPB, Ney escolheu apenas dois lados
B de Paulinho da Viola (compositor bissexto na voz do experiente Matogrosso) e
Caetano Veloso.
Enquanto muitos artistas preferem
subir no palco depois de lançar um CD de canções inéditas, Ney Matogrosso
prefere apostar em uma estratégia incomum na indústria musical de hoje: investe
primeiramente em shows para depois gravar e lançar um álbum com material
inédito. Este processo chega a levar alguns meses para se completar, para
estranhamento e encantamento do público que o acompanha há algum tempo. Quando
assisti minha primeira apresentação de Atento
aos Sinais, confesso que achei o show um tanto indie demais para o meu gosto. A partir do segundo show que vi,
passei a gostar muito mais de tudo que presenciei, afinal de contas, é um tanto
difícil gostar de coisas que não (necessariamente) conhecemos tão bem. A
interpretação irreconhecível de Ney deste repertório teve um papel central
neste processo – fazer com que Itamar Assumpção, Vitor Pirralho, Dan Nakagawa e
Pedro Luís ficassem na ponta da minha língua é um digno trabalho de Hércules!
Além de desbravar novos horizontes
nos palcos e no disco, o ano de 2013 trouxe novas empreitadas e parcerias para
Ney Matogrosso. A mais importante destas, o documentário Olho Nu, que teve a direção de Joel Pizzini, refaz não apenas a
trajetória de um dos cantores mais importantes da música brasileira, como
também expande o olhar do homem e do artista em relação à vida, à arte e ao
contexto no qual vive e atua com brilhantismo. Além disto, o espectador é
brindado com um número sem fim de imagens de arquivo, vídeos antigos e
recentes, locações inusitadas e depoimentos reveladores sobre o artista
documentado.
Lembro-me de um episódio inusitado
quando estive na estreia do filme em São Paulo: 1) Estava comentando com alguém
a respeito da possível presença de Ney na projeção da fita e afirmando piamente
que era impossível que o “home” desse as caras no Espaço Itaú de Cinema quando
me deparo com Ney Matogrosso em carne e osso ao meu lado; 2) Estava
ansiosamente sentado em uma cadeira no fundo da sala de cinema quando vejo Ney se
sentando em uma cadeira na fileira da frente para ver o filme. Assistir a um
documentário sobre meu artista preferido com ele sentado bem à frente de mim
foi realmente um evento memorável...
Os passos tomados por Ney Matogrosso
recentemente indicam que estamos diante de um artista que não olha para trás de
forma alguma. Poderia aproveitar o momento de retrospectiva (documentário, 40
anos de carreira musical) para fazer um flashback
de seu trabalho artístico. No entanto, sua decisão é projetar o seu olhar para
o futuro e fazer uma crônica musical do tempo em que vivemos. Atento aos Sinais é um trabalho que
reflete injustiças sociais (“Rua da Passagem [Trânsito]”, “Incêndio”), detalhes
da intimidade em meio à selva urbana (“Noite Torta”, “Freguês da Meia-Noite”, “Beijos
de Ímã”, “Não Consigo”) e críticas às firulas da modernidade (“Samba do Blackberry” e “Todo o Mundo o Tempo
Todo”).
É bom saber que existem artistas que
estão atentos aos sinais dos tempos atuais. Ney Matogrosso, esboçando uma
jovialidade e energia típicas de um iniciante não é apenas fonte de inspiração
para seus admiradores, é um exemplo que muitos artistas deveriam seguir para se
manterem conectados com a cena musical que pulsa intensamente por aí. É por
estas e muitas outras que desejamos vida longa ao nosso querido artista e que
ele se mantenha atento e forte sempre!
* Este post vai com todo o meu carinho por Rosana
Barbosa, para quem eu sempre escrevi relatos de shows do Ney.