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25 de fevereiro de 2018

TROVA # 147


MESTRE PAULINHO
(DUAS OU TRÊS COISINHAS SOBRE PAULINHO DA VIOLA)



“Meu bem, perdoa
Perdoa meu coração pecador
Você sabe que jamais eu viverei
Sem o seu amor”
(Paulinho da Viola, 1976)



Aproveitei a época do Carnaval e resolvi continuar ouvindo uma de minhas maiores inspirações musicais, Paulinho da Viola. Um dos maiores estandartes musicais da Portela, Paulinho é autor de letras inesquecíveis e de melodias belíssimas que resultam em sambas inesquecíveis e possui mais de cinquenta anos de indefectível carreira musical.


Paulo César Baptista de Faria pertence a uma família de enorme tradição no samba: filho do violonista César Faria, integrante do lendário grupo de choro Época de Ouro, Paulinho cresceu ouvindo mestres como Pixinguinha e Jacob do Bandolim tocando na sala de sua casa. Apesar do pai ter lhe dado seu primeiro violão, Sr. César não queria que o filho se tornasse músico. No entanto, o jovem Paulinho começou a se interessar por carnaval e organizou um bloco carnavalesco na zona norte do Rio de Janeiro.


Aos 19 anos, o jovem Paulo César era um contador e estudava economia. Foi nesta época que ele teve contato direto com Hermínio Bello de Carvalho, que lhe aconselhou a carreira de músico. Ao ouvir pela primeira vez as gravações de Cartola, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Carlos Cachaça e outros, o samba lhe fisgou em cheio. Começou a compor sambas em parceria com Hermínio e deu início a uma brilhante trajetória musical.


Meu primeiro contato com Paulinho da Viola se deu graças ao meu avô, Sr. Adhemar, que tinha comprado um dos álbuns mais importantes da obra do mestre, Bebadosamba (1996). Logo depois, o videoclipe de “Ame” era transmitido volta e meia pela MTV Brasil. Por fim, meu pai comprou uma coletânea de mestre portelense e aquele rio de versos e trovas nunca mais saiu dos meus ouvidos.


Minhas memórias com a obra musical de Paulinho da Viola sempre passam pela afetividade e com memórias de pura nostalgia: lembro, por exemplo, que meu avô não gostou muito de Bebadosamba porque achou o disco lento demais – hoje, ao ouvir este álbum, tenho o direito de discordar de meu avô e acho um dos trabalhos de samba mais belos que jamais se produziu nos últimos tempos. Lembro de um aniversário meu em que cantei “Foi um rio que passou em minha vida” no meio de uma roda de samba inesquecível. É graças a Mestre Paulinho e à Clara Nunes que desenvolvi meu amor e minha admiração pela Portela, apesar de ter ido pouquíssimas vezes a Madureira em mais de 37 anos de existência.


No entanto, nem todas as minhas lembranças com o filho do Sr. César são agradáveis. Não por uma questão de desgraça, mas por uma questão de um tédio mortal. Em abril de 2011, conseguimos ingressos para assistir a um show de Paulinho da Viola no SESC Pompeia. Não podia me conter de excitação em poder cantar clássicos como “Argumento”, “Timoneiro”, “Perdoa”, “Na Casa do Vavá” e tantos outros. Quando o show começou, Paulinho comunicou ao público que aquela apresentação seria única e somente de lados B de sua obra. Logo de cara, a decepção tomou conta daquelas cadeiras do SESC. Depois, tentei aceitar o argumento do artista, mesmo sentindo a falta de sons familiares de cavacos, de pandeiros e tamborins acompanhados de versos que eu pudesse cantar junto. Todavia, quem era eu para alterar a ordem dos sambas de uma lenda de nossa música?


Saí daquele show depois de ter dormido em alguns trechos, triste por não poder cantar várias daquelas canções que eu tanto esperava ouvir. Fiquei de mal com Paulinho da Viola por um tempo, mas retomei a ouvi-lo com a mesma devoção. Afinal, não poderia ter um coração leviano e ignorar um dos maiores artistas do planeta. Mas, infelizmente, aquela má impressão permaneceu guardada lá no fundo das gavetas da memória.


Ainda tenho a esperança de que vou fazer as pazes em definitivo com Paulinho da Viola e ir em um de seus shows e poder cantar a fina flor de seu cancioneiro sem jogar um sorriso de ironia sequer. Afinal, a poesia de Paulinho jamais sumirá pela poeira das ruas...




Marisa Monte e Paulinho da Viola

12 de fevereiro de 2018

TROVA # 146

DIAS DE FOLIA

Av. Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro

“Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!”
(Chico Buarque de Hollanda)



         Este é meu trigésimo sétimo Carnaval. Não me lembro de todos, e ainda tenho a memória de alguns inesquecíveis. Já me rendi aos encantos da folia, porém hoje em dia aproveito os dias de festejos não apenas para descansar um pouco da loucura recém-iniciada do ano letivo, como também para ler um pouco, acompanhar os festejos pela TV, ver alguns desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e até tento sair em um ou outro bloco carnavalesco, para não dizer que determinadas emoções eu vivi.

Acadêmicos do Baixo Augusta na Rua da Consolação, com a Pça Roosevelt à esquerda

         No passado, eu adorava desfrutar dos prazeres da carne durante os dias em que o Rei Momo governava as cidades e nos garantia quatro dias de folia, irreverência e batucada. Porém, os 30 foram chegando, me mudei para São Paulo (que só foi resgatar os carnavais de antigamente de alguns anos para cá) e o meu coração passou a pertencer a alguém. Além disso, minha resistência para aglomerações foi diminuindo e a minha paciência para programas coletivos ficou bem limitada. Folia imperdível é a que fica entre o sofá, a cama e o sol da piscina com algumas saídas com hora marcada para voltar.

As multidões na folia do Rio de Janeiro

         Além do empurra-empurra e do pessoal que bebe demais e resolve satisfazer suas vontades fisiológicas no meio da rua (não existe coisa mais desagradável do que cheiro de urina), o calor do verão me deixa profundamente angustiado. Outro motivo que me mantém em casa é a violência que não dá trégua durante o Carnaval: tenho pavor de assaltos e as cenas de criminalidade na TV me deixaram ainda mais sem vontade de sair às ruas. Não há irreverência ou marchinha de carnavalesca que resista à falta de policiamento nas ruas das grandes cidades brasileiras. Por outro lado, a vontade de protestar contra os governantes e as injustiças e me divertir cantando e espantando os males diários ainda me dá vontade de sair de casa e ainda acreditar que posso me sentir melhor...

A lendária Banda de Ipanema

         Diante de uma série de retrocessos e de direitos que os brasileiros têm perdido nos últimos dois anos, o Carnaval se tornou em um verdadeiro palco de protesto e resistência do povão e dos defensores da diversidade contra uma elite que sempre teve amor pelo luxo e horror a pobre. Enquanto os detentores de um bom capital conseguem investir em fantasias de alas de escolas de samba, carnavalescos elaboram protestos inteligentes contra o autoritarismo e a boçalidade que têm dado o tom de tempos mais recentes. O que seríamos de nós sem a genialidade de Joãosinho Trinta? E como seria a nossa irreverência se não existissem as marchinhas carnavalescas com suas letras irreverentes de duplo sentido?   

A alegoria de Joãosinho Trinta proibida de desfilar graças à Igreja Católica


            Por outro lado, é importante deixarmos claro uma questão fundamental: o Carnaval é a celebração da diversidade. Por isso, é um momento para que todos possam se expressar da maneira que achar melhor: os foliões podem ir para a rua, os roqueiros podem curtir seu som preferido nas alturas, os nerds podem ficar em casa em maratonas intensas de Netflix, os mais religiosos podem praticar a sua fé em retiros espirituais orando por suas almas e antissociais como eu podem ficar entre a rua e o conforto sagrado do lar. Se a individualidade de cada um fosse respeitada, a liberdade não seria uma constante apenas durante quatro dias de fevereiro ou março.



26 de fevereiro de 2017

TROVA # 113

FOSSA ENSOLARADA
(meu apreço e minha inveja do lendário Solar da Fossa)


     

       A partir da segunda metade da década de 1960, a expressão “estar na fossa” adquiriu um sentido distinto do original, ou seja, nada a ver com desilusão amorosa. Tudo isso ocorreu graças a um lendário casarão convertido em uma suntuosa pensão que abrigou a nata da arte, do pensamento da cultura do Brasil daquele período. A Pensão Santa Terezinha, mais conhecido como Solar da Fossa, foi moradia de artistas e intelectuais antenados e engajados do porte de Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Gal Costa, Ruy Castro, Naná Vasconcellos, Sueli Costa, Tim Maia, Maria Gladys, Aderbal Freire Filho, Jards Macalé, Antônio Pedro, Zé Kéti, Abel Silva e mitos outros antes de alcançarem o reconhecimento e a fama.

Paulinho da Viola em frente ao portão principal do Solar da Fossa na capa de seu disco de 1971

         Se eu pudesse pegar o Delorean dos meus sonhos e voltar ao ano de 1967, eu faria questão de passar uns dias no Solar da Fossa depois de negociar minha estadia por um precinho bem bacana com D. Jurema Cavalcanti, a administradora da pensão. Poderia tomar um copo de uísque e trocar algumas figurinhas com meu amado mestre Ruy Castro sobre música, literatura e jornalismo. Teria a chance de ouvir Caetano Veloso e Paulinho da Viola cantarem “Alegria, Alegria” e “Sinal Fechado”, dois clássicos da música brasileira pela primeira vez. Conheceria o talento imortal de Zé Rodrix, Tim Maia e de Guarabyra em início de carreira. Assistiria a um show gratuito de Naná Vasconcellos e seus batuques inconfundíveis no meio do quintal da pensão. Viveria o deslumbre das belezas juvenis de Gal Costa, Darlene Glória, Maria Gladys, Betty Faria e Ítala Nandi. E, por fim, poderia xeretar os relacionamentos amorosos nada discretos de Zé Kéti e Antônio Pedro durante o meu tempo livre.




      O principal celeiro da intelligentsia carioca da época foi eternizado pelo jornalista Toninho Vaz em Solar da Fossa: um território de liberdade, impertinências, ideias e ousadias, publicado em 2011 pela Editora Casa da Palavra. Neste livro, o biógrafo de Torquato Neto e Paulo Leminski conta como o lendário casarão de Botafogo se tornou tão conhecido através de centenas de depoimentos de ex-moradores (ilustres ou não) do Solar da Fossa. Uma leitura deliciosa, que acendeu ainda mais minha vontade de ter sido um jovem nos anos 1960 só para poder “estar na fossa”.


        Infelizmente, a história do Solar da Fossa teve os seus altos e baixos, tal qual a trama de qualquer novela global: as disputas judiciais entre Frederico Mello, o arrendatário do casarão e dos terrenos e os proprietários do imóvel renderam longas batalhas nos tribunais, deixando as vidas de várias pessoas em um limbo de incertezas. A guerra entre Mello, Jurema Cavalcanti, os moradores e os donos do imóvel se findou em 1971 quando a justiça determinou que todos deveriam ser despejados da pensão sob escolta policial.


         Pouco tempo depois, o Solar da Fossa foi demolido para dar início à construção do Shopping Rio Sul, um dos maiores templos de consumo da Zona Sul carioca. Era o encerramento de mais um capítulo das batalhas entre liberdade e capital, entre o conservadorismo da direita elitista e o sentimento libertador das esquerdas do período, entre a ditadura militar e a intelligentsia disposta a resistir contra o regime de exceção. A demolição do casarão e o não-tombamento pelo patrimônio histórico-cultural do Rio de Janeiro é mais um exemplo de que nossa tradição em renegar nossa história é muito maior do que o instinto de preservá-la.



         Por outro lado, nem a ditadura, nem os paladinos do capitalismo, tampouco os militares xucros que comandaram o Brasil por mais de 20 anos conseguiram que a história do Solar da Fossa fosse legada ao esquecimento. Afinal, é impossível demolir os edifícios da memória de quem viveu um momento histórico tão significativo para a história da humanidade como foi a segunda metade da década de 1960. Para aqueles, a fossa sempre será libertadora e ensolarada...


27 de novembro de 2016

TROVA # 100

O MESTRE CENTENÁRIO
(uma declaração de amor ao samba no dia de seus 100 anos)



“Meu bem, perdoa
Perdoa meu coração pecador
Você sabe que jamais
Eu viverei sem o seu amor”
(Paulinho da Viola, 1976)


A primeira coisa que eu deveria fazer pelo samba, este mestre centenário, é lhe pedir perdão. Quando eu era mais jovem, no auge da minha sanha elitista e arrogante de pobre de direita, achava que a coisa mais chique do mundo era ouvir música em inglês. Ledo engano: no momento em que eu entendi o meu lugar de fala, de onde eu venho e tudo o mais, entendi que ser sambista é também ser chique e elegante, é nobreza de altíssimo nível, da patente das mais elevadas.
Um dos pouquíssimos orgulhos que ainda possuo de ser carioca de nascimento é o de ter nascido na mesma cidade que foi um dos berços principais do samba. Foi em um fundo de quintal de uma casa nas imediações da Praça Onze e do bairro do Estácio que o ritmo musical trazido pelos africanos para as bandas de cá começou a sua trajetória. Todo sambista carrega a ancestralidade dos escravos em seu DNA e deve agradecer à Tia Ciata por ter aberto as portas de sua residência para os primeiríssimos sambistas.


É também preciso pedir a benção de Donga por ter gravado “Pelo Telefone”, a primeiríssima gravação jamais feita de um samba em disco. E não podemos nos esquecer de pedir a proteção de Ismael Silva por ter sido o grande criador da primeira escola de samba. Por fim, não devemos nos esquecer que nossa ginga e malemolência é fruto da malandragem dos sambistas que faziam música e fugiam da polícia nos anos 1930 para poder ter o seu direito de expressão artística garantido. Sim, sambista brasileiro já teve cara de bandido...



É claro que alguns me dirão que o samba nasceu lá na Bahia, porém meu coração carioca sempre irá discordar ou ignorar esta tese. No entanto, isto é assunto para outro texto, que um dia prometo escrever...

*


Samba sempre foi assunto seríssimo lá dentro de casa. Meu tio Silvio Bertho, irmão mais velho de meu pai, foi advogado, boêmio e radialista dos bons – dizem que ele era dono de vastíssimo conhecimento de música e de um acervo de discos de samba de fazer inveja a muita gente; meu tio Celso Bertho também foi radialista e adorava um partido alto. Já do lado da família de minha mãe, os Rangel, não havia muita diferença: guardo a eterna referência musical dos discos dos meus avós – meu avô Adhemar, por exemplo, era um grande admirador da obra de Paulinho da Viola; já D. Magaly, minha avó, me apresentou à música de Bezerra da Silva. Foi graças a ela que eu descobri que o embaixador dos morros e favelas era mais Rock ‘n’ Roll do que muitos roqueiros juntos e enfileirados.



Por fim, não posso deixar de mencionar a contribuição do Sr. Orlando Bertho, meu Pai, para os meus ouvidos: ex-integrante da ala de bateria da União da Ilha do Governador, era chamado de “O Rei do Tamborim” por vários de seus amigos e colegas de escola de samba. O instrumento ainda existe e, se não me engano, volta à ativa todo mês de fevereiro durante as festas de Carnaval. Foi graças ao seu acervo de LPs, CDs e fitas K7 que eu ouvi falar em mestres do samba como Mestre Marçal, Beth Carvalho, Grupo Fundo de Quintal, Jorge Aragão e todos os clássicos do samba-enredo que passaram por metros e mais metros de avenida.




Diante dos exemplos familiares que citei, só posso chegar a uma conclusão hoje em dia: não tinha como fugir da batucada, pois ela já estava dentro do coração e dos ouvidos dos dois lados da família.

*





         Foi depois dos meus 20 anos de idade – época em que ingressei na Faculdade de Letras – que o meu interesse pelo samba se deu de vez. Graças a Ney Matogrosso descobri a obra de Cartola graças a dois discos belíssimos com a fina flor da obra do Divino Mestre da Estação Primeira de Mangueira. Clara Nunes e Paulinho da Viola, estandartes da Portela, surgiram para mim neste período e me incentivaram a amar o azul e branco da principal escola de samba de Madureira. Logo depois da graduação, Maurício Martins do Carmo, meu ex-professor e ex-orientador de TCC, me pediu uma encomenda: uma pesquisa para um seminário comemorativo homenageando um dos maiores bambas do samba, Lamartine Babo. Fui nocauteado pela genialidade do grande criador de marchinhas carnavalescas de todo o Brasil e apresentei (modéstia à parte!) um belo trabalho no evento organizado pela Universidade Estácio de Sá.




         [Preciso fazer um adendo importante e necessário: se eu não tivesse me envolvido tão intensamente com o objeto de pesquisa da minha Dissertação de Mestrado e que resultou em meu primeiro livro – a obra musical do grupo Secos & Molhados –, creio que teria dado continuidade às minhas pesquisas sobre o samba. Quando eu for mais velho e um pouquinho mais sábio, espero poder oferecer minha contribuição para um dos temas mais debatidos em matéria de canção popular].



*

         Em 2006, dei um dos meus giros de 180 graus nesta vida e troquei o Rio de Janeiro por São Paulo. Troquei a Cidade Maravilhosa pela Terra da Garoa. Saí do berço em rumo ao “túmulo do samba”. Meu choque anafilático da troca de uma capital pela outra foi aliviado graças à obra de Adoniran Barbosa e dos Demônios da Garoa, uma das paixões musicais do Sr. Leonildo Moreira Serra, meu segundo pai – ele adorava ouvir as canções de um disco dos Demônios que eu converti para MP3 no carro enquanto dirigia. Nenhum compositor soube captar a alma paulistana com a sensibilidade apurada e irreverente de Adoniran, a voz principal do samba paulistano.


         Foi quando me converti em cidadão paulistano que os meus ouvidos se abriram de vez para o legado de outros bambas do samba: Noel Rosa & Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Wilson Baptista & Mário Reis, Elza Soares, Martinho da Vila, Clementina de Jesus & Jovelina Pérola Negra, Carlos Cachaça & Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara, Alcione & Beth Carvalho, João Nogueira & Zeca Pagodinho... Sim, meus ouvidos já estavam escolados em matéria de batucada, não tanto quanto os ouvidos do meu pai, dos meus avós ou dos meus tios, todavia nada mal para quem odiava o som de um cavaquinho...


         Diante de um marcado fonográfico cada vez mais comercial e menos cultural, o samba continua agonizando em praça pública, mas nunca morre. Em um século de vida, o mestre centenário já fez parcerias das mais inusitadas com a MPB: Nara Leão foi a primeira artista de seu núcleo musical elitista a buscar inspiração para cantar o Brasil através da obra de Zé Kéti e Cartola; Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil sempre foram extremamente respeitosos e reverentes com o legado de seus colegas sambistas; Divas da canção brasileira como Maria Bethânia, Marisa Monte, Zélia Duncan, Simone e Adriana Calcanhotto (re)gravaram clássicos e/ou renovaram a linguagem do samba com muita classe e propriedade; Tereza Cristina e Fabiana Cozza, por sua vez, conseguiram extrapolar os limites das rodas de samba e flertam constantemente com outros gêneros musicais; Mart’Nália e Diogo Nogueira, por exemplo, são muito mais do que “filhos de peixe” e conseguem sambar com seus próprios pés, sem a necessidade de depender do legado ou da força dos próprios pais. Por outro lado, outros músicos não necessariamente ligados às raízes do samba ou à elite da MPB conseguiram parcerias memoráveis com o samba: Marcelo D2 e Paula Lima são dois exemplos dos quais eu gosto bastante.


*

         Este mestre centenário não possui quaisquer preconceitos ou cerimônias. Adora fazer dobradinhas com a já citada MPB, com o Soul, o Jazz e o Funk. O pagode romântico que tanto se ouve nas rádios mais popularescas só existe por causa dos velhos bambas que um dia fugiram da polícia e do governo. Nossa batucada nos ensinou a importância de nosso valor cultural não apenas para nós mesmos, como também para o resto do planeta. Não apenas por mero entretenimento ou diversão, mas principalmente por ser reflexo da luta de um povo contra quaisquer formas de injustiça e desigualdade. É a lição que vem da voz das ruas, não das rodinhas insossas de intelectuais repletas de empáfia e arrogância. É o samba o nosso primeiro e maior mestre em matéria de música popular.


E é, por isso e muito mais, que este jovem Vinícius pede ao mestre centenário não apenas a benção, como também lhe pede o seu mais sincero perdão. Sem pieguice ou oportunismo, mas com toda a sinceridade e amor...


29 de dezembro de 2013

TROVA # 29

OS SINAIS ATENTOS DE
NEY MATOGROSSO*


“Peço aos céus para me proteger
Eu não hei de ceder ao vazio desses dias iguais

Mal em mim nunca há de fincar
Mel em mim nunca há de findar
Olhos nus e atento aos sinais

Faço fé pra poder ver
A vida há de ser sempre mais.”

(“Oração”, de Dani Black, na interpretação de Ney Matogrosso)


          Gosto muito de uma fala de um filme de Bruce Willis no qual o herói da trama dizia algo como: “Quando Sinatra está na cidade, meu coração está com ele!”. O mesmo se aplica a mim quando sei que Ney Matogrosso vem a São Paulo para mais uma temporada de shows. Sempre faço o possível (e, por vezes, o impossível) para ver o belo astro em ação no esplendor de sua forma e energia.


Por mais que um show de Ney não seja “inédito” para os meus olhos e ouvidos, a emoção de sentir e presenciar a voz, o corpo e a alma que ele dedica a cada canção que ele interpreta ao vivo é renovável a cada espetáculo. Daí a necessidade de sempre retomarmos este encontro. Ele do palco, eu da plateia. Um detalhe importante: Ney já passou dos 70 anos e tem mais energia que muitos homens de 30! Além de termos uma aula imperdível de interpretação e voz no contexto da música brasileira, ele não deixa de ser uma inspiração para nós que tentamos insistir na magia da juventude.


Consagrado no Brasil e respeitado pelo mundo afora há pouco mais de quatro décadas, Ney Matogrosso podia se ancorar em velhas fórmulas e/ou repertório consagrados para retornar aos palcos. No entanto, os olhos de farol buscaram novos paradigmas para serem quebrados ao escolher um setlist praticamente inédito para o grande público. Nada de hits ou clássicos de Chico Buarque ou Luhli & Lucina desta vez: o show e CD Atento aos Sinais privilegiam a produção musical de nomes não tão recorrentes nos ouvidos do mainstream, como Itamar Assumpção, Pedro Luís, Vitor Ramil, Dan Nakagawa, Alzira Espíndola, Vitor Pirralho e alguns outros. Dos baluartes da MPB, Ney escolheu apenas dois lados B de Paulinho da Viola (compositor bissexto na voz do experiente Matogrosso) e Caetano Veloso.




Enquanto muitos artistas preferem subir no palco depois de lançar um CD de canções inéditas, Ney Matogrosso prefere apostar em uma estratégia incomum na indústria musical de hoje: investe primeiramente em shows para depois gravar e lançar um álbum com material inédito. Este processo chega a levar alguns meses para se completar, para estranhamento e encantamento do público que o acompanha há algum tempo. Quando assisti minha primeira apresentação de Atento aos Sinais, confesso que achei o show um tanto indie demais para o meu gosto. A partir do segundo show que vi, passei a gostar muito mais de tudo que presenciei, afinal de contas, é um tanto difícil gostar de coisas que não (necessariamente) conhecemos tão bem. A interpretação irreconhecível de Ney deste repertório teve um papel central neste processo – fazer com que Itamar Assumpção, Vitor Pirralho, Dan Nakagawa e Pedro Luís ficassem na ponta da minha língua é um digno trabalho de Hércules!



Além de desbravar novos horizontes nos palcos e no disco, o ano de 2013 trouxe novas empreitadas e parcerias para Ney Matogrosso. A mais importante destas, o documentário Olho Nu, que teve a direção de Joel Pizzini, refaz não apenas a trajetória de um dos cantores mais importantes da música brasileira, como também expande o olhar do homem e do artista em relação à vida, à arte e ao contexto no qual vive e atua com brilhantismo. Além disto, o espectador é brindado com um número sem fim de imagens de arquivo, vídeos antigos e recentes, locações inusitadas e depoimentos reveladores sobre o artista documentado.



Lembro-me de um episódio inusitado quando estive na estreia do filme em São Paulo: 1) Estava comentando com alguém a respeito da possível presença de Ney na projeção da fita e afirmando piamente que era impossível que o “home” desse as caras no Espaço Itaú de Cinema quando me deparo com Ney Matogrosso em carne e osso ao meu lado; 2) Estava ansiosamente sentado em uma cadeira no fundo da sala de cinema quando vejo Ney se sentando em uma cadeira na fileira da frente para ver o filme. Assistir a um documentário sobre meu artista preferido com ele sentado bem à frente de mim foi realmente um evento memorável...


Os passos tomados por Ney Matogrosso recentemente indicam que estamos diante de um artista que não olha para trás de forma alguma. Poderia aproveitar o momento de retrospectiva (documentário, 40 anos de carreira musical) para fazer um flashback de seu trabalho artístico. No entanto, sua decisão é projetar o seu olhar para o futuro e fazer uma crônica musical do tempo em que vivemos. Atento aos Sinais é um trabalho que reflete injustiças sociais (“Rua da Passagem [Trânsito]”, “Incêndio”), detalhes da intimidade em meio à selva urbana (“Noite Torta”, “Freguês da Meia-Noite”, “Beijos de Ímã”, “Não Consigo”) e críticas às firulas da modernidade (“Samba do Blackberry” e “Todo o Mundo o Tempo Todo”).


É bom saber que existem artistas que estão atentos aos sinais dos tempos atuais. Ney Matogrosso, esboçando uma jovialidade e energia típicas de um iniciante não é apenas fonte de inspiração para seus admiradores, é um exemplo que muitos artistas deveriam seguir para se manterem conectados com a cena musical que pulsa intensamente por aí. É por estas e muitas outras que desejamos vida longa ao nosso querido artista e que ele se mantenha atento e forte sempre!
  


* Este post vai com todo o meu carinho por Rosana Barbosa, para quem eu sempre escrevi relatos de shows do Ney.