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22 de novembro de 2020

TROVA # 154

O DIA DA INFÂMIA

Como comemorar o Dia da Consciência Negra depois de vermos mais um corpo negro sendo abatido por brancos em rede nacional?

 



“Lord have mercy on this land of mine

We all gonna get it in due time

'Cause I don't belong here

I don't belong there

I've even stopped believing in prayer”

(Nina Simone, 1964) 

 


            O ano de 2020 estava bem propício para o Dia da Consciência Negra no Brasil: depois de mais de cinco décadas, os Estados Unidos foram varridos por uma convulsão político-social por causa do assassinato brutal de George Floyd. Os norte-americanos (e o resto do mundo) ficaram perplexos e revoltados ao ver um homem negro sendo assassinado por asfixia por policiais brancos em rede mundial. Cansados da perpetuação de tantos corpos afro-americanos dizimados por aqueles que possuem o privilégio de cor em uma sociedade racista, os movimentos negros, aliados aos progressistas, foram às ruas de várias cidades norte-americanas clamando por justiça.

            A conta para tanto descaso foi cobrada com juros altíssimos: custou a reeleição de Donald Trump. O magnata, sempre acostumado a vencer seus oponentes usando métodos nada ortodoxos, amargou uma derrota fragorosa nas urnas para o democrata Joe Biden, que não só se aliou ao movimento #BlackLivesMatter, como escolheu uma mulher negra e filha de imigrantes – Kamala Harris – para ser sua vice-presidente. O Brasil assistiu com atenção aos resultados do pleito eleitoral norte-americano: para os progressistas, a derrota de Trump significaria o início do fim do surto extremista que invadiu a política nacional; para os bolsonaristas, significaria não apenas o desespero, como a elaboração de uma estratégia narrativa para justificar uma provável derrota de seu “mito” nas urnas em 2022.

            Feito este breve retrospecto, retornemos à nossa infame realidade: somos um país composto por 54% de negros. Somos um país que não oferece igualdade salarial para brancos e negros. Somos um país que possuem poucos negros nas Câmaras de Vereadores, nas Assembleias Legislativas e no Parlamento. No entanto, apesar da quantidade expressiva de ataques do atual Governo Federal às conquistas da comunidade afrodescendente brasileira e apesar de tantos negros assassinados no país por violência policial (para não citar outros casos), estávamos prontos para passar o dia 20 de novembro de 2020 refletindo a respeito da importância dos negros para o Brasil. Porém, tudo mudou quando recebemos uma notícia na madrugada do Dia da Consciência Negra – João Alberto Silveira Freitas, um homem negro, foi brutalmente espancado até a morte em um supermercado da rede Carrefour por dois seguranças brancos na cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

      Em poucos minutos, o 20 de novembro de 2020 deixou de ser o Dia da Consciência Negra, com reflexões edificantes sobre igualdade racial, colorismo ou os desmandos da branquitude. A data se converteu no Dia da Infâmia: os noticiários pipocando análises relevantes, alguns preconceitos gritantes, causando o horror de viver em um país profundamente racista e desigual. A crônica que eu estava me prometendo para o dia 22 de novembro, dia de Santa Cecília (Padroeira dos Músicos), minha Santinha de devoção, vai ter que esperar. Cecilinha sabe que a angústia precisava ser expiada por meio das teclas do computador e ela vai me entender por isso...



A morte brutal de João Beto, como muitos o chamavam, em pleno Dia da Consciência Negra, serviu não apenas para reacender a revolta de muitos que se sentem injustiçados, como também reabriu a ferida causada pela perda de tantos outros que morreram em vão por conta da irresponsabilidade de homens brancos.

Os que não se esquecem da barbárie diária que mata um negro a cada 23 minutos no Brasil vão se lembrar de Ágatha Félix, menina de oito anos, morta em 20/09/2019 por uma bala disparada da arma de um Policial Militar;


Ou vão relembrar de Miguel Otávio, de 5 anos, morto em 02/06/2020, ao cair de um prédio em Recife (PE) por culpa da negligência da patroa branca de sua mãe, que se recusou a cuidar do menino enquanto a empregada saía para passear com o pet da família;


 

Ou não vão se esquecer de João Pedro, baleado em uma ação policial no dia 18/05/2020 em São Gonçalo (RJ), região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro;




Ou podem mencionar o caso brutal do homicídio do músico Evaldo Rosa, cujo carro foi alvejado por 80 tiros disparados em uma desastrosa operação do Exército Brasileiro em 08/04/2019;





Ou até se relembrar do caso hediondo de Cláudia Silva Ferreira, vítima de uma operação militar da PM do Rio de Janeiro – a moça, além de baleada, foi arrastada por uma viatura policial pelas ruas do subúrbio carioca até a morte.



Os casos, infelizmente, são vários. A incompetência do Estado é a mesma. As autoridades mais importantes do Brasil de 2020 (no caso o Presidente e o Vice-Presidente da República) negam a existência do racismo e minimizam a dor de muitos que já perderam seus entes queridos por conta de um racismo estrutural que sempre corroeu a credibilidade das instituições. Como comemorar o Dia da Consciência Negra depois de vermos mais um corpo negro sendo abatido por brancos em rede nacional? Como comemorar o Dia da Consciência Negra, feriado que deveria ser nacional, mas é sempre refutado por achar que deveríamos ter o “dia da consciência humana”?




A resposta do movimento negro diante do assassinato brutal de João Alberto foi instantânea: manifestações públicas se seguiram de protestos e quebradeiras de supermercados Carrefour, cuja rede é reincidente em casos de racismo – dentre os casos mais recentes, há o de uma funcionária demitida por denunciar um caso de injúria racial. Automaticamente, a mídia brasileira (majoritariamente branca) se apressou em classificar os manifestantes que participaram dos protestos contra o racismo como “vândalos” e “arruaceiros”, uma ironia infeliz, pois os mesmos setores da imprensa brasileira viam os manifestos norte-americanos que varreram as ruas dos EUA como “legítimos”. Eis mais um sinal do quanto que o Brasil precisa de muitos momentos de reflexão como o “Dia da Consciência Negra” para desconstruirmos uma série de estereótipos.





Apesar dos retrocessos, a Avenida Paulista amanheceu com a inscrição “# VIDAS PRETAS IMPORTAM” no trecho que cobre o MASP sentido Consolação. Não é necessariamente uma revolução, mas já é o início de um movimento bastante objetivo: não aceitaremos mais injustiças contra corpos negros em silêncio! A reles crônica que você lê aqui hoje é mais um manifesto contra as injustiças raciais que são recorrentes no cotidiano brasileiro. E tenta ser uma breve homenagem a Zumbi, a João Alberto, Miguel, João Pedro, Evaldo, Ágatha, Cláudia e tantos outros cujos nomes não podemos esquecer jamais!

 

ALGUNS LINKS PARA VOCÊ NÃO ACHAR QUE EU ESTOU PROPAGANDO FAKE NEWS POR AÍ:

·        https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36461295

·        https://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2020/11/no-brasil-nao-existe-racismo-fala-de-mourao-e-a-mais-racista-das-frases.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

·        https://www.conjur.com.br/2020-nov-20/carrefour-historico-agressoes-casos-injuria-racial


20 de novembro de 2017

TROVA # 141

O DIA DA CONSCIÊNCIA



“A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra

Que vai de graça pro presídio
E para debaixo do plástico
Que vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos

A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra

Que fez e faz história
Segurando esse país no braço
O cabra aqui não se sente revoltado
Porque o revólver já está engatilhado
E o vingador é lento
Mas muito bem intencionado
E esse país
Vai deixando todo mundo preto
E o cabelo esticado

Mas mesmo assim
Ainda guardo o direito
De algum antepassado da cor
Brigar sutilmente por respeito
Brigar bravamente por respeito
Brigar por justiça e por respeito
De algum antepassado da cor
Brigar, brigar, brigar

A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra”
(Marcelo Yuka, Seu Jorge & Wilson Cappellette na voz de Elza Soares, 2002)


         Há pouco tempo que foi instituído o Feriado do Dia da Consciência Negra. Infelizmente, não para todas as cidades do país e sem o reconhecimento unânime de toda a população brasileira (alguns acham que precisamos de mais “consciência humana” e não de mais conscientização a respeito da luta e das mazelas da população negra). Zumbi dos Palmares (morto em 20 de novembro de 1695), se estivesse entre nós, teria um trabalho e tanto para acalmar a turba xucra e insensível de cidadãos que expõem os seus pensamentos mais horrendos pela Internet afora.


O que os detratores do feriado de 20 de novembro ignoram ou não reconhecem é que a população negra trazida da África à força para o Brasil ajudou a construir as bases deste país debaixo de muito suor, dor, sangue e chicote. Se levarmos em conta que o racismo nunca deixou de estar presente nas relações entre nós e se faz cada vez mais gritante em tempos nos quais vivemos uma retirada constante de direitos civis, é preciso declaramos apoio incondicional a momentos como este.
Ao acordar mais tarde na manhã de 20 de novembro de 2017, aproveitei para descansar mais um pouco e tomar um café da manhã mais demorado na frente da televisão: vejo a lendária atriz Ruth de Souza, no alto dos seus 96 anos de idade, sendo homenageada em um programa de variedades, assistido por milhões de brasileiros. Senti uma pontinha de orgulho e esperança ao ver uma atriz de um pioneirismo tão grande como Ruth em cadeia nacional, depois de mais de quatro décadas de carreira nas artes cênicas.
Entretanto, a minha euforia foi para as cucuias quando tive a infeliz ideia de acessar as redes sociais e ver comentários de profissionais de educação criticando o Dia da Consciência Negra. Um detalhe importante: são colegas de profissão que, como eu, convivem com uma quantidade expressiva de alunos e pais negros e que possuem muito menos privilégios do que qualquer um de nós que teve a chance de ouro de estudar em boas universidades.


Pausa para as trivialidades do Instagram e do Facebook para ir até a janela ver a origem do barulho ensurdecedor que invade o meu quarto em um passe de mágica: vejo um trânsito absurdo na Rodovia Raposo Tavares para um dia normal (imagine para um feriado...) e dois helicópteros fazendo a ronda da região onde moro. Ao investigar pelo noticiário, descubro que um carro tinha sido interceptado pela polícia com um carregamento de drogas. Vi a figura do criminoso pela televisão sentado no meio-fio perto do ponto de ônibus de frente para a minha janela. Detalhe importante: o meliante estava sem algemas. Perguntei-me: e se ele fosse negro? Estaria provavelmente algemado e espancado pelos meganhas ou até morto, dependendo de sua (falta de) sorte...


Depois da sessão “mundo cão”, fui almoçar enquanto assistia o noticiário do dia. Ao assistir a notícia de um rapaz negro que foi perseguido, acusado de roubo e espancado por seguranças de um terminal de ônibus de São Paulo, senti a comida começando a embrulhar no estômago. Apesar de não ser negro, tenho a compaixão mínima de me colocar no lugar da pessoa que foi agredida. Poderia ser um aluno meu. Poderia ser um amigo meu. Não poderia ter sido eu, pelo fato das pessoas olharem para a cor da minha pele, para as roupas que eu visto e ver que jamais estaria sob suspeita de qualquer delito.


A solução para o mal-estar era dormir um pouco depois do almoço para ver se o desconforto passava. Não passou... Antes de me preparar para as tarefas do dia, caí na infelicidade de ler um texto escrito por um projeto mal-acabado de filósofo, intelectual reacionário, defendendo o jornalista William Waack, flagrado em um vídeo praticando o racismo da forma mais deplorável e abjeta que já vimos nos últimos tempos na TV.


Enquanto arrumava a casa, decidi ouvir música. Escolhi dois CDs dos Rolling Stones para me animar a fazer a faxina da semana. Enquanto ouvia aqueles rocks entremeados de blues clássicos de Howlin’ Wolf e Willie Dixon, fui me lembrando de passagens da biografia das pedras rolantes: o que teria sido de Mick Jagger e Keith Richards se eles não tivessem bebido no manancial poderoso da música negra norte-americana? Duvido que eles teriam tido metade da relevância que possuem para o mundo do entretenimento se Mick e Keith não reverenciassem os negros com tanto respeito...


E teve gente que pensou que Madonna era negra quando surgiu para o mundo do Pop em 1982. Levaram um susto ao ver que a voz de “Everybody” não era de uma “afro-americana” e sim de uma branquela de Michigan recém-radicada em Nova York.  Em mais de 35 anos de carreira, Madge é o que é graças à contribuição da musicalidade dos negros (Rap, Soul, Hip-Hop, etc.) e porque preconceito nunca esteve em seu dicionário musical. Aprendeu mais uma das lições mais importantes de seu guru David Bowie, que fez discos maravilhosos nos quais misturou Soul, Funk com androginia, narcóticos e Rock ‘n’ Roll. Dois exemplos de artistas brancos que sempre trataram os negros com enorme respeito.


Se formos falar em matéria de música brasileira, temos um material gigantesco de músicos brancos que reverenciaram os negros com todo o respeito. Elis Regina, para citar um exemplo feminino, encontrou em “Upa, Neguinho!” um de seus maiores sucessos: a canção de Edu Lobo & Gianfrancesco Guarnieri fala do infante Zumbi dos Palmares e o retrata como uma alternativa para a liberdade que os negros tanto procuraram em séculos de exploração.



Apesar dos negros terem encontrado uma parcela de liberdade e uma boa dose de respeito dentro do universo da música, eles ainda ganharão menos do que os brancos (fato que contribui para o atraso da economia brasileira) e estarão no topo das estatísticas de pessoas assassinadas no Brasil. Enquanto os brancos ainda torcerem o pescoço com medo ou repulsa daqueles que escravizaram no passado, teremos milhares de motivos para que todo dia 20 de novembro seja lembrado dos horrores que nós e nossos antepassados já cometeram por pura maldade, burrice e ignorância...