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14 de setembro de 2017

DISCOS DE VINIL # 42

GAL COSTA – CANTAR (1974)


“Seja o avesso
Seja a metade
Se for começo
Fique à vontade…”
(“Me Deixe Mudo”, de Walter Franco, interpretada por Gal Costa no show Cantar)


Em famoso depoimento concedido no ano de 1967, Caetano Veloso apontava a necessidade que a música popular brasileira tinha de retomar a sua “linha evolutiva” para que seguisse novamente rumo à modernidade perdida. Ao lançar as bases estéticas do movimento tropicalista, o filho de D. Canô demonstrava a importância necessária de reler o melhor da tradição da Bossa Nova sem deixar de referenciar os pontos fortes da produção jovem da época – o Iê-Iê-Iê, a música nordestina, sambalanço, samba-rock y otras cositas más… No entanto, com o fim prematuro do Tropicalismo e o exílio forçado de Caetano e Gilberto Gil na Europa, a retomada proposta pelos velhos baianos foi interrompida injusta e violentamente.


Durante o período 1969-1972, Gal Costa foi o estandarte principal do movimento tropicalista em atividade. Seus três primeiros discos e seu show/disco Fa-Tal: Gal a Todo Vapor fizeram de Maria da Graça Costa Penna Burgos uma das maiores estrelas da canção popular produzida neste país. Índia, lançado por Gal em 1973, foi outra pedra fundamental para a consolidação do legado da cantora e lhe rendeu enorme popularidade. Com uma carreira consolidada, o (merecido) reconhecimento como grande artista e como arauto do desbunde e da contracultura no Brasil, Gracinha estava pronta para correr novos riscos musicais, mais radicais do que quaisquer outros que tinha tomado até então…



Para que este risco tomasse fôlego e para que a retomada das propostas veiculadas pelo Tropicalismo se concretizassem em um projeto musical, Caetano Veloso decidiu dirigir o show e o disco que Gal Costa lançaria no ano de 1974. O resultado desta velha parceria foi o antológico disco Cantar, um dos trabalhos mais injustiçados de Gal na época de seu lançamento. A crítica (e, de certa maneira, o público) tinha a expectativa de que este seria mais um trabalho no qual o canto fosse rasgado, com direito a gritos, urros e solos de guitarra lancinantes. Ledo engano: no final de Índia, com a inclusão de uma releitura feita por Gal para “Desafinado” (Tom Jobim & Newton Mendonça), já se ensaiava um retorno de Gracinha às suas raízes, ou seja, a musa tropicalista cantando Bossa Nova de altíssima qualidade com o melhor de sua técnica joãogilbertiana.

Foto: Thereza Eugênia

Entretanto, enganam-se que Cantar é composto apenas de um repertório consagrado nas décadas de 1950 e 1960. As canções inéditas para o projeto receberam gravações definitivas: “Barato Total”, de Gil, abre o disco e mostra o suingue, a ginga e a mensagem central de tudo que “a gente quer é viver” sem ter grandes preocupações com a vida – uma proposta de vida hippie adornadas com os temperos mais saborosos da Bahia. As experimentalistas “Lua, Lua, Lua, Lua” e “Joia”, de Caetano, com letras curtas e que lembram as canções gravadas pela trupe tropicalista no disco-manifesto Panis et Circensis (1968). Além disto, Caetano é autor e co-autor de outras duas canções fundamentais para o disco: “Flor do Cerrado” (um breve tratado sobre vida, morte, permanência e a beleza que pode haver por trás disso) e a belíssima “A Rã”, que merece uma menção à parte…


Gal ao lado de João Donato

A primeira gravação desta canção surgiu pela primeira em meados da década de 1960 em um disco de Sérgio Mendes & Brazil 66, seguida de uma outra gravação feita pelo criador da música, João Donato. Caetano aproveitou as vogais utilizadas por Donato na gravação original, pôs letra e trouxe um personagem feminino para a canção – o original, “The Frog”, induz o ouvinte em pensar em uma figura masculina… Para a versão gravada em Cantar, Caetano convidou o próprio João Donato para tocar piano elétrico, resultando em um arranjo enxuto, porém sofisticado e bastante moderno.

Gal ao lado de João Donato

Há também três canções do repertório da Bossa Nova que receberam releitura de Gal neste disco: a primeira, “Canção que Morre no Ar” (Carlos Lyra & Ronaldo Bôscoli), recebeu um arranjo de cordas belíssimo de Perinho Albuquerque (produtor musical de todos os discos dos velhos baianos no decorrer da década de 1970) e uma das interpretações mais belíssimas da eterna Gracinha. Os versos “Vem / O mundo é sempre amor / O pranto que desliza / Do seio de uma flor / É a luz / Anjo sol (…)”, ao serem entoados por Gal, são resgatados dos clichês bossanovísticos que tanto encantaram os músicos da geração dos tropicalistas. As demais canções que foram resgatadas para o disco Cantar foram da autoria de João Donato e de seu irmão, Lysias Ênio: “Flor de Maracujá”, que recebeu um arranjo de metais em brasa que valoriza a interpretação e a brejeirice de Gal Costa e a antológica “Até quem Sabe”, faixa na qual a intérprete era acompanhada somente pelo piano de Donato.


Um compacto de Cantar

A seleção de repertório, capitaneada pela direção musical de Caetano Veloso, fizeram da boa e velha Bossa algo irremediavelmente moderno e contemporâneo. Infelizmente, a crítica musical acusou o disco de “saudosista”, “retrógrado”, dentre outras baixarias… O público, como consequência, não deu muita bola para o disco, muito menos para o show, que tinha uma versão insólita e surpreendente para “Me Deixe Mudo”, de Walter Franco, que infelizmente ficou de fora do LP e das reedições de Cantar em CD, para tristeza daqueles que curtem garimpar raridades da bela Gracinha. Outro efeito desta rejeição foi que Gal Costa deixou de buscar grandes inovações em seus trabalhos – ouso dizer que guinada semelhante só foi adotada por Gal em 2011 (36 anos depois do lançamento de Cantar), ao lançar Recanto, que teve direção musical do mesmo Caetano (sem o braço direito de Perinho Albuquerque, substituído pela competência incontestável de Moreno Veloso).



Outra sanção sofrida pelo disco, na época, foi o desprezo geral pela beleza das três faixas finais do lado B do disco. A primeira delas, a saborosa rumba “O Céu & O Som” (Péricles Cavalcanti), continha o verso que deu nome ao disco. A segunda, por sua vez, a pungente “Lágrimas Negras”, pareceria de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, é uma das gravações mais marcantes da música brasileira em todos os tempos. A última é a singela canção de ninar “Chululu”, composta e entoada por D. Mariah Costa para embalar Gracinha em seu colo para que ela dormisse com os anjos.


Foto: Thereza Eugênia


As gerações que não vivenciaram o impacto causado por Cantar e sua retomada da “linha evolutiva” em 1974 entenderam que, tal qual Gal cantou em “O Céu & O Som”, “O caminho do céu é / o caminho do som”. O ato de cantar exercido neste disco foi realizado com tamanha maestria por Gal Costa ao ponto de que ir até as nuvens através de uma bela voz é algo perfeitamente possível. As cantoras do Brasil e do mundo deveriam estudar este disco com muita atenção para que possam exercer seu ofício com mais competência. 

OUÇA O DISCO:



OUÇA O ÁUDIO DO SHOW:


23 de março de 2017

DISCOS DE VINIL # 24

GAL COSTA – ESTRATOSFÉRICA (2015)


Os anos 2000 não foram lá muito significativos para a carreira musical de Gal Costa.  Seus álbuns da primeira metade da década, Gal de Tantos Amores (2001), Bossa Tropical (2002) e Todas As Coisas e Eu (2003) não lembram nem um pouco a cantora e intérprete inquieta, provocante e inspirada de álbuns antológicos como Gal (1969), Índia (1973), Cantar (1974), Gal Canta Caymmi (1976), Aquarela do Brasil (1980), Profana (1984) e Plural (1990). As declarações feitas por Gracinha no início da década de 2000, nas quais reclamava abertamente que a MPB carecia de jovens compositores não apenas enfureceu o público, como também trouxe um consequente ostracismo para a eterna porta-estandarte do movimento tropicalista.


No afã de recuperar o diálogo com a produção musical brasileira do século XXI, Gal Costa se associou a João Marcello Bôscoli e sua gravadora Trama e gravou Hoje (2005), um dos trabalhos mais belos de sua discografia. O CD contou com os arranjos e a produção musical de César Camargo Mariano (segundo marido e ex-diretor musical dos discos de Elis Regina no decorrer da década de 1970 e início dos 1980) e agrupou canções de compositores menos conhecidos Carlos Rennó, Junio Barreto, Péri, Lokua Kanza e inéditas de medalhões da MPB como Caetano Veloso, Chico Buarque e José Miguel Wisnik. No entanto, a direção musical de César e o timbre forte de Gal nos dão a sensação de que algumas faixas soam como o créme de la créme da Pimentinha ou de algumas criações das lendárias boates do Beco das Garrafas. Em outras palavras, Hoje, apesar de reunir o melhor da juventude musical dos anos 2000, soa irremediavelmente retrô – ou vintage, como diríamos nos dias de hoje.


A primeira década do terceiro milênio ainda nos levou mais dois discos ao vivo de Gal Costa: o insípido Gal Ao Vivo (2006), um registro em CD e DVD da turnê Hoje, além do burocrático Gal Costa Live At The Blue Note (2006), álbum no qual ela reinterpreta os clássicos da Bossa Nova para Inglês ver. Depois do lançamento destes trabalhos, pouquíssimo se ouviu da cantora mais moderna de todo o Brasil durante a segunda metade dos 2000. Alguns diziam que Gracinha tinha desistido de cantar e queria apenas se dedicar à família, outros diziam que era apenas um breve intervalo. O fato é que ficamos sem ouvir Gal lançar álbuns de canções inéditas por mais de cinco anos – uma eternidade para uma artista que sempre produziu com alta frequência.


E quando ainda havia boatos de que Gracinha ainda estava na pior, ela ressurgiu para os olhos de todo o Brasil com um CD que literalmente sacudiu o meio musical no final de 2011. Recanto contou com 11 canções de seu parceiro musical mais recorrente, Caetano Veloso, e fez com que Gal refizesse as pazes com o público e fosse definitivamente louvada pela crítica especializada. Enganaram-se os tolos que achavam que este disco seria mais um disco de MPB easy-listening, com arranjos que remetiam aos discos clássicos que ambos faziam para a Philips nos anos 1970 ou com a musa tropicalista à frente da Banda Cê (power trio que acompanha Caê em shows e discos desde 2006) cantando temas alegres e fáceis de batucar. Recanto era uma viagem ousada de Caetano e Gal conduzida por Moreno Veloso, Kassin e cia. e por sonoridades eletrônicas, de cunho extremamente radical, com letras bastante fortes para serem ditas por aí.


A partir de 2011, Gal Costa passou a desfrutar de um privilégio que pouquíssimos artistas de sua geração conseguiram vivenciar: sua música não apenas rejuvenesceu, como também seu público se renovou. A quantidade de jovens que se somavam aos fãs mais antigos de Gracinha nos shows aumentou em escalas assustadoramente exponenciais. Gal passou a ser uma cantora da maior importância para, nada mais, nada menos do que CINCO gerações. Depois de alguns de ostracismo, a coisa mais linda que existia era simplesmente, brincando com a bela canção de Torquato e Gil, tê-la perto de nós no disco e, melhor de tudo, no palco. Recanto Ao Vivo (2013) é o testemunho audiovisual da paixão e glória de uma das cantoras mais influentes de todo o Brasil, evidenciando uma artista com uma forma vocal simplesmente invejável e com um repertório irrepreensível.


Com o fim da turnê de Recanto, Gal Costa começou a arquitetar as bases do repertório para um novo show. Seguindo às orientações do jornalista Marcus Preto em relação à direção artística e de repertório, Gal reuniu alguns lados B de seus discos (“Caras e Bocas”, “Tuareg”, “Passarinho”) e algumas inéditas para o recital Espelho D’Água, no qual era acompanhada somente por Guilherme Monteiro na guitarra e no violão. As apresentações, que ocorreram entre meados de 2014 e o início de 2015, foram não apenas uma oportunidade para que público e artista revisitassem um legado de décadas, como também serviu para que Gal e Preto arquitetassem o CD Estratosférica ao lado da produção de Kassin e Moreno Veloso.


Gal Costa queria que seu mais recente CD tivesse a mesma sonoridade juvenil de seu antecessor, porém menos radical do que a experiência musical de Recanto. A banda-base que foi reunida para as gravações consiste de Guilherme Monteiro (Guitarra), Kassin (Baixo), Pupillo (Bateria) e André Lima (Órgão e Teclados) e ainda contou com a participação especial em algumas faixas de Davi Moraes (Guitarra), Moreno Veloso (Cello, Piano, Violão, Coro, etc.), João Donato (Fender Rhodes), Armando Marçal (Percussão), Donatinho (Teclados) e o recém-falecido Lincoln Olivetti (Arranjo de Metais). O grande trunfo de Estratosférica não apenas consegue realizar as intenções previstas por seu time criador, como também consegue estabelecer um diálogo com todas as fases da carreira de Gal: “Sem Medo Nem Esperança”, rock de Antonio Cícero e Artur Nogueira que abre o disco, lembra “Vaca Profana”, “Quando Você Olha Pra Ela”, de Mallu Magalhães, nos remete a “Que Pena” (Ela já não gosta mais de mim) e a outros sambas do bom e velho Jorge Ben (quando este ainda não incluído o sufixo -Jor ao seu nome artístico), “Ecstasy”, parceria de Thalma de Freitas e João Donato, parece surgida de Cantar e “Você Me Deu”, parceria de Zeca e Caetano Veloso, dialoga com o universo pop-eletrônico de Recanto.


Ao contrário de alguns de seus colegas de MPB que chegaram à faixa dos 70 anos de idade e dos 50 anos de carreira – a artista em questão atingiu os dois marcos em setembro de 2015! -, Gal Costa decidiu embarcar em uma nave estratosférica com 15 canções inéditas (além de uma faixa bônus), sem olhar para glórias do passado ou homenagens revisionistas. Já na primeira faixa de seu novo CD, Gracinha lança mão de um tom tão ousado quanto na época em que berrava a plenos pulmões que o Brasil precisava estar atento e forte: “Não sou mais tola / Não mais me queixo / Não tenho medo / Nem esperança / Nada do que fiz / Por mais feliz / Está à altura do que há por fazer”. Em outras palavras, Gal Costa chega aos 70 anos dizendo claramente que o essencial é olhar para frente, pois ela ainda sabe que ainda há muito o que ser feito. Permite-se levar pela batida soul de “Jabitacá”, que parece saída de um dos discos da série Racional, de Tim Maia: “Mas não me deixe navegar / Se já não crê no encanto deste mar / Se nossas manhãs se perderam nas ruas sem jardins / Enfeitou a nossa casa / Com a rosa da mais bela cor / Encontrada nas montanhas do Jabitacá”. Além disso, não tem o menor pudor de entoar as libidinosas palavras do velho amigo Tom Zé, que escreveu uma das melhores faixas do disco, “Por Baixo”: “Por baixo do vestido: a timidez / Baixo da timidez: a seda fina / Baixo dela: uma nuvem de calor / Baixo desse calor: um perfume da China”.


Estratosférica traz algumas parcerias inéditas. “Dez Anjos” marca a primeira parceria entre Milton Nascimento e o incensado rapper pop-star Criolo e traz a voz de Gal Costa entoando um lamento urbano pontuado pela bateria de Pupillo e pelo cello de Moreno Veloso: “Seis almas pra tentar / Sete almas dizem não / Oito almas pra sofrer / Nove almas narrarão / Que dez anjos vão morrer / Todos sem arma na mão”. Já a filosófica “Espelho D’Água” é o fruto do primeiro encontro musical entre os irmãos Marcelo e Thiago Camelo: “Eu vi a revoada / O mar, estrela e o nada / Os olhos da morena / E o nosso espelho d’água”. Já a sensual “Ecstasy” surgiu de uma colaboração entre a cantora e atriz Thalma de Freitas com João Donato, que tocou o piano Fender Rhodes na faixa: “Diga que deseja ter pra si / A maravilha de um pleno existir / Um amor assim / Para chamar de Ecstasy / Adorado amor, tão elegante / Multicolor, fascinante / Viver com você / É alcançar o Ecstasy”. Além disto, Gal gravou pela primeira vez uma canção escrita por Marisa Monte – “Amor Se Acalme” foi uma canção escrita especialmente para a eterna musa do Tropicalismo e reproduz com exatidão o universo de amores e paixões intensas tão comuns ao universo de Memórias, Crônicas e Declarações de Amor: “Amor se acalme / Que a noite já vai dormir / A alma passeia / E o nosso corpo fica aqui / Se isto é sonhar, não sei / Parece viver, só eu e você”.




Este CD de Gal Costa mereceria nota 10 se não fosse por um único detalhe sórdido. Não nos referimos ao repertório, que é irrepreensivelmente belo e moderno. Não é pela capa com a foto de Bob Wolfenson, que conseguiu produzir mais uma imagem fantástica e icônica de Gracinha. Não é pela produção e direção artística impecáveis de Moreno Veloso, Kassin e Marcus Preto. É por causa das faixas-bônus deste trabalho. Estratosférica ganhou três edições: uma em LP, uma em CD e outra digital. Por uma estratégia de marketing errônea da Sony Music, gravadora da artista, o LP não ganhou nenhuma faixa bônus, o CD ficou com apenas uma (uma releitura belíssima de Gal para “Ilusão à Toa”, de Johnny Alf – originalmente gravada para a trilha sonora da novela Babilônia, da Rede Globo) e edição digital concentrou duas gravações que são praticamente inéditas do grande público: “Átimo de Som”, parceria de Arnaldo Antunes e José Miguel Wisnik e “Vou Buscar Você Pra Mim”, canção que Guilherme Arantes compôs especialmente para a intérprete que, por sinal, nunca tinha gravado nada do autor de “Meu Mundo e Nada Mais”.



Estratosférica é o testemunho definitivo que a cantora mais moderna deste país responde pelo nome artístico de Gal Costa. Muitas cantoras tentam imitar, outras tentam copiar, algumas tentam posar de “moderninha”, mas o fato é que gravações como “Muita Sorte”, “Casca” e “Anuviar” fazem com que se torne ainda mais difícil chegar aos pés do Gracinha já fez e ainda irá fazer. Enquanto a concorrência e os haters chegam de circular, Gal voa por um céu de brigadeiro em sua nave estratosférica zumbindo eternamente por nossos ouvidos...

16 de fevereiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 20

TULIPA RUIZ – DANCÊ (2015)


Desde que ouvimos os anúncios de que o terceiro álbum de Tulipa Ruiz já estava a caminho, criou-se um tremendo frisson nas redes sociais em torno da questão da velha e batida questão “será que este álbum vai superar o anterior?” que estamos enfastiados em ter que ler e responder.
Para os ouvintes que agiram como abelhas atentas do pólen musical deixado por Tulipa após os cultuados álbuns Efêmera (2010) e Tudo Tanto (2012), não ficaram muito surpresos com os rumos musicais que a cantora decidiu trilhar em seu terceiro CD. O single “Megalomania” e o EP Tulipa Ruiz Remixes já eram pistas claríssimas de que a flor cantante iria fazer como David Bowie fez conosco em 1983 e iria literalmente colocar a gente para dançar…
Sejamos diretos ao assunto: Dancê (2015), como diz o título, é um CD para o ouvinte bater o pé, tirá-lo do chão, mexer a cabeça de um lado para o outro e sair dançando, embarcando na levada loucamente musical (Sorry, Ivete!) para a qual Tulipa nos convida, sem deixar de nos fazer refletir em uma série de coisas, tal qual em “Prumo”, faixa de abertura do disco, assinada por ela em parceria com Gustavo Ruiz:


Começou
Agora você vai tomar conta de si

Das tuas minhocas, caraminholas,
das encucações, dos teus pepinos
Das pérolas, das abobrinhas,
dos abacaxis, dos nós, dos faniquitos.

Se você está na dúvida se ouvir o CD realmente vale a pena ou não, Dona Tulipa e banda enviam um recado muito claro para os indecisos em “Reclame” (Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz, Caio Lopes, Marcio Arantes e Luiz Chagas):


Trato azedume, mau-olhado, ‘quebrante’, vício
Trato treta de trabalho
Trabalho com amarração
Resolvo o seu problema com baralho, com pôquer, bingo
Pra bituca de cigarro eu tenho a solução
Trago seu amor de volta se me fizer uma visita
A gente faz uma combinação, você acerta e acredita
No duro, dá certo
Nunca houve reclame.

Enquanto bailamos entre sons de metais e brasa e acordes de guitarra capitaneados por Luiz Chagas e Gustavo Ruiz, Tulipa segue disparando seu arsenal de provocações aos ouvintes de Dancê. “Jogo do Contente”, outra parceria dela com Gustavo, traz uma sequência interessante de cutucadas àqueles que insistem em viver dentro de uma determinada zona de conforto:


Todo motivo te leva a querer
Todo querer te faz ter vontade
Toda vontade te faz ter impulso
Todo impulso sempre me estimula

Toda sequência tem uma rotina
Toda rotina te causa estrago
Todo estrago merece um conserto
Todo conserto te modifica.


“Proporcional” questiona, com bom humor, as diferenças entre as medidas das pessoas e aponta que não existem (ou deveriam existir) obstáculos entre as diferenças:


Cada um tem seu formato
Apertado, colado, justo
Largo, folgado, amplo, vasto
Cheio, graúdo, forte, farto
Esguio, fino, compacto.

Visto GG, você P
Você P, eu GG
Visto GG, você P
Você P, eu GG.


“Expirou”, mais uma parceria dos irmãos Tulipa e Gustavo Ruiz, traz a nostalgia de eventos dos quais não tivemos a oportunidade de participar pelo simples fato de que ainda não vivíamos por estas bandas. Alguns exemplos: os barulhentos festivais da canção brasileira nos anos 1960 e 1970, São Francisco, Woodstock e a Swinging London, “Carcará”, “Aquele Abraço” e “Divino Maravilhoso”, os Novos Baianos, as Dunas da Gal, FA-TAL e Cantar, Itamar Assumpção e a Isca de Polícia, Grupo Rumo, Madame Satã são apenas alguns exemplos de coisas que nós, nascidos após 1975, faríamos de um tudo para ter ouvido e vivido na época de seu surgimento. Embalada pela guitarra mítica de Lanny Gordin (que acompanhou Gal Costa em sua também mítica turnê de 1971-72), Tulipa Ruiz saúda a alquimia dos mestres com o devido respeito:


Sinto falta de um tempo que ouvi dos amigos
Tava escrito num livro
Tocou numa vitrola
Foi dançado, cantado, recitado, falado
Publicado, sentido, decupado, contado
Mas eu não tava ali

Quando é que a saudade daquilo que a gente não viveu passa?
Se passa, parece que já foi, mas quando você vê volta
Volta porque tem a sua cara, tem a ver com a sua história.


“Elixir”, quarta faixa do disco, é um petardo para uma sociedade que acorda com Prozac e dorme com Rivotril e acredita que vive um fluxo extremamente natural de sua existência. Fruto de uma noite em claro da própria Tulipa, a canção nos indica o sonho dourado de muitos notívagos angustiados por aí:


Apaga, filtra, manera
Massageia o esqueleto
A cuca, a cabeça, a traqueia
Cotovelo do esqueleto
A lombriga, clavícula, pé e a costela do esqueleto

Dormir é o meu sonho principal
Legado aos olhos como se fosse elixir
Dormir é o meu sonho principal
Legado aos olhos como se fosse elixir

Zero reflexão, zero
Zero reflexão, zero
Zero reflexão, zero
E entra no estado zen.

Uma das faixas mais divertidas de Dancê é “Físico”, mais uma parceria de Tulipa e Gustavo assumidamente inspirada no hit “Physical”, eternizado por Olivia Newton-John em 1981. Para resgatar a sonoridade disco do início dos anos 1980, a trupe contou com a participação especial de Kassin, que tocou baixo, guitarras e sintetizadores. O desejo de Tulipa Ruiz, ao contrário do que sugere a tendência apontada pela estrela de Grease e por pessoas obcecadas em viver relações baseadas somente em atributos físicos, descreve alguém que vai além do que é obviamente esperado nas típicas atrações sexuais:


Tudo que eu gosto tá em você
É puramente físico
(…)

O formato do nariz
Osso pontudo do pescoço
Lóbulo da orelha
Desenho da sobrancelha
Pintas pela pele
Pelos, tornozelo
Dedo, nuca, calcanhar, cabelo
Da boca pra fora
Fora de fora pra dentro
(…)
Você veio assim sem defeito.


“Old Boy”, décima faixa do disco, fala sutilmente sobre a importância do viver com a certeza de que teremos um aprendizado em relação ao que foi vivido. Em outras palavras: uma bela canção sobre a morte, com versos singelos e uma interpretação sóbria de Tulipa:


Vai ter tempo de sobra
Mesmo sendo velho, sabe sobre tudo
Sempre pra valer
Volta e meia, cê volta
Nunca é tarde, pelas tantas recomeça
Vence em convencer
Não tem fim, nem começo
O agora é agora, voa
Já passou, olha, passou
E fica também na sua memória
Sempre você
O tempo e você.


O brilho de Dancê também está nos convidados especiais que participam do disco. A elegância e a jovialidade de João Donato fazem de “Tafetá” um dos momentos mais belos do disco. Balada ao estilo do balancê inconfundível do criador de “A Rã” sem deixar de incorporar o balancê frenético das produções musicais da flor cantante, a faixa é uma ode à beleza masculina capitaneada pelos vocais em canto e contracanto Donato e Tulipa, pontuados pelos metais, violão, percussão e pelo piano fender rhodes em menos de 4 minutos de duração:


Fino
Só você
Elegante
Sabe bem
Muito trato
Combinar
Na lapela
Tem o dom
Tem um padrão
Já que tem
Desenhado
Sabe usar
Tem casaco
Dégradé
Engomado
Tafetá


“Virou”, parceria de Tulipa Ruiz com Felipe Cordeiro, Gustavo Ruiz, Manoel Cordeiro e Luiz Chagas, é uma colaboração que contou com a participação de Felipe Cordeiro, dividindo os vocais com Tulipa e de Manoel Cordeiro (pai de Felipe) que tocou guitarra na faixa. Os versos do refrão já garantem a memorização do ouvinte já a partir das primeiras audições de uma das faixas mais alegres de Dancê:


Era pra ficar no chão
Deu pé, decolou
Era pra ter sido em vão
Como é que durou?
Era pra ficar ali e por aí caminhou

Era pra ser menos sério
Mais cara-de-pau
Era para ser só nuvem e precipitou
Podia não ter dado em nada
Então como é que virou?


No entanto, a participação especial mais intrigante de Dancê foi a do Metá Metá (Juçara Marcal – Voz, Kiko Dinucci – Guitarra, Marcelo Cabral – Baixo, Sergito Machado – Bateria, Thiago França – Sopros em “Algo Maior”, parceria de Tulipa Ruiz, com Gustavo Ruiz e Luiz Chagas. As vozes fortíssimas e distintas de Tulipa e Juçara resultam na sensação angustiante de uma tormenta que está a caminho, mas nunca chega – algo típico para uma interpretação de um grupo de balé contemporâneo, com coreografias típicas de Deborah Colker:


Tá pra nascer algo maior
que vá tirar do lugar as coisas que cismam em não andar
Tá pra nascer algo maior
que tudo o que você já viu, leu, sentiu, soube ou ouviu
Não sinta medo nem dó de ser feliz e se soltar,
de saber bem o que lhe convém
Tá pra nascer quem viva só,
pois de me, myself and I já basta eu, você e nada mais.

Ao ser encerrado com este épico de cinco minutos e trinta e nove segundos, Dancê deixa muito claro que Tulipa Ruiz não é uma cantora que segue os caminhos óbvios já traçados pelo Pop e pela MPB recentes. Também revela um grande disco, feito com inteligência acima do comum. E o melhor de tudo: ele consolida de vez a parceria Tulipa Ruiz – Gustavo Ruiz, que tem um potencial gigantesco para já constar no rol de parceiros célebres de nossa música como Marina Lima – Antonio Cícero (irmãos e parceiros, tal qual Tulipa e Gustavo), Roberto Carlos – Erasmo Carlos e tantas outras…



Enquanto isso, aproveite para afastar os móveis da sala, abrir um espaço bem amplo para que você dar o play e colocar Dancê para rodar na sua cabeça e sair bailando sem a menor vergonha de dançar alegremente. Se Tulipa nos diz que um bom estímulo pode nos trazer boas influências, deixe-se levar por este CD que, para nós, já nasceu clássico.