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6 de agosto de 2017

TROVA # 131

A MELODIA FINAL DO NEGRO GATO

Em memória de Luiz Melodia (1951-2017)


"Eu fico com essa dor
Ou essa dor tem que morrer
A dor que nos ensina
E a vontade de não ter
Sofrer de mais que tudo
Nós precisamos aprender
Eu grito e me solto
Eu preciso aprender

Curo esse rasgo ou ignoro qualquer ser
Sigo enganado ou enganando meu viver
Pois quando estou amando é parecido com sofrer
Eu morro de amores
Eu preciso aprender"
(Luiz Melodia, 1978)


Dias cinzentos e nublados não me trazem boas lembranças. Cauby Peixoto nos abandonou em uma segunda-feira assim. Lou Reed se foi em um domingo bastante nublado. A vida levou Luiz Melodia do nosso convívio em uma sexta-feira cinzenta e de chuvas esparsas. Vítima de um câncer de medula óssea, o negro gato, ébano de carteirinha musical, virou mais uma estrela a brilhar na constelação musical brasileira no dia 4 de agosto de 2017. 




A primeira lembrança que eu tenho de Mestre Melodia era de um homem fino e elegante, de voz grave e límpida. Estava assistindo a primeira transmissão do Acústico MTV de Gal Costa pela saudosa Music Television brasileira. No início do terceiro bloco, a banda de Gal começa a atacar "Pérola Negra". Ao invés da eterna musa da Tropicália começar a cantar o primeiro verso – "Tente passar pelo que estou passando" –, surge uma voz de ébano do lado esquerdo do palco. Era Luiz Melodia, em um terno preto elegantíssimo, adentrando o palco como a Irene de Manuel Bandeira: sem pedir licença. 


Em sentido horário: Luiz Melodia, Gal Costa, Nara Leão, Odair José, Caetano Veloso e Maria Bethânia nos bastidores do Festival Phono 73

A intimidade entre Gal e Melodia vinha de uma longa data - para ser mais exato, do início da década de 1970, quando, graças ao auxílio de Waly Salomão, ela incluiu "Pérola Negra" no setlist do lendário show Fa-Tal: Gal a Todo Vapor (1971) e colocou o jovem bardo do morro do Estácio no mapa da mina da MPB. Um ano depois, Maria Bethânia gravou "Estácio Holly Estácio" em seu álbum Drama - Anjo Exterminado (1972), com muito sucesso. O reconhecimento do talento do jovem Luiz Melodia foi fundamental para que ele, enfim, tivesse a chance de gravar seu primeiro álbum.









As dez canções do álbum Pérola Negra foram lançadas na voz de seu divino criador em 1973, um dos anos mais notáveis no que diz respeito a lançamentos de clássicos da dita "MPB". Luiz Melodia atirou Samba, Rock, Jazz, Foxtrot, Forró, Blues, Choro e outros estilos musicais no ventilador para fazer um álbum clássico, simples de compreensão, mas extremamente complexo em relação ao seu conteúdo, um disco irrepreensivelmente inteligente e popular. Luiz não precisava ter feito outro disco para garantir o seu lugar entre os mais notáveis e talentosos cantores e compositores da música brasileira.








Em pouco mais de quatro décadas de carreira, Luiz Melodia gravou cerca de 20 discos. Alguns bastante reconhecidos pela crítica e pelos ouvintes de música brasileira, outros praticamente ignorados por muitos. Apesar de ter travado uma série de picuinhas e batalhas com a mídia e o mercado fonográfico (que não hesitou em tachá-lo de "maldito") era extremamente querido pelo público e por seus colegas de profissão. Sua obra musical encontrou em Zezé Motta a sua maior intérprete e admiradora no meio musical – a nossa eterna Xica da Silva sempre fez questão de incluir canções de Melodia na maioria de seus projetos musicais. 






O eterno negro gato nunca permitiu que vendessem sua pele para que fizessem qualquer tamborim. Sempre se pautou pela coerência, pela generosidade, pela qualidade musical e pela elegância. A partida prematura de Luiz Melodia, em plena criatividade, aos 66 anos deixa uma lacuna gigante no ambiente musical do Brasil. Foi-se o homem, ficaram as melodias inesquecíveis. Cabe a cada um de nós, amantes da boa música, possamos nos inteirar "da coisa, sem haver engano"...


2 de março de 2017

DISCOS DE VINIL # 22

MARINA LIMA - VIRGEM (1987)




Em 1987, o nome de Marina Lima já era mais do que consagrado no panteão da música brasileira. Sua parceria com seu irmão mais velho, o poeta e filósofo Antônio Cícero, lhe rendeu discos de sucesso e canções gravadas por nomes de peso como Gal Costa, Maria Bethânia e Zizi Possi. Além disso, Marina surgiu na virada da década de 1970 para a de 1980 e foi uma das grandes responsáveis pela inserção de elementos da Pop Music na música brasileira.



Virgem é o oitavo álbum de Marina e contou com a produção do saxofonista Leo Gandelman. A artista ficou a cargo da direção artística e Cícero foi responsável pela assessoria conceitual do trabalho. Os arranjos foram distribuídos entre a cantora, Nico Rezende e os músicos da banda que gravou o disco – William Magalhães, Sérgio dela Mônica, Torcuato Mariano, Renato Rocketh, Sidinho, Paulinho Guitarra e Carlos Maia.




A faixa que abre o disco é a balada de cunho filosófico "Pseudo-Blues", parceria de Nico Rezende e Jorge Salomão. Outra canção de destaque do repertório deste disco é "Doce Espera", assinada apenas por Marina. Originalmente gravada por Maria Bethânia em Dezembros (1986), Marina a retomou com direito a uma longa vinheta de introdução capitaneada por Leo Gandelman. Já a releitura lânguida para "Preciso Dizer Que Te Amo", parceria de Dé Palmeira, Bebel Gilberto e Cazuza, ainda toca nas rádios brasileiras com frequência. Por fim, a regravação de "Hearts", de Jesse Barish (um dos ex-integrantes do Jefferson Airplane) é bastante arrojada e entoada com a energia marcante da autora de "Fullgás".



Marina assinou sozinha mais duas faixas do álbum: "Confessional" é uma ode amorosa a um amor impossível e é uma das canções mais apaixonantes de seu repertório - a versão de Karina Zeviani, gravada no belo disco-tributo Literalmente Loucas - As Canções de Marina Lima (Gravadora Joia Moderna) merece uma audição por ser tão lírica quanto a gravação de original de 1987. Já "Primeiro de Abril (Eu Negar?)", regravada pela própria autora em No Osso (2015), mostra as nuances da voz e do violão de uma das artistas mais inquietas que o Brasil já nos ofertou em matéria de música.




Dentre as demais parcerias de Marina Lima e Antônio Cícero que se encontram em Virgem há o rock "Zerando", faixa dois do disco. O riff marcante da canção é uma das marcas registradas do repertório de Marina e é um dos lados B mais interessantes deste repertório. Já "Prestes a Voar" foi uma outra parceria dos irmãos Correia Lima que foi regravada no especial Acústico MTV, em 2003, com uma versão mais tocante do que a original, de 1987.




O grande sucesso de Virgem foi "Uma Noite e 1/2", de Renato Rocketh, que tocou incessantemente durante o verão da temporada 1987/1988. A letra sexy versava sobre a beleza dos corpos nas praias cariocas, falava em mulheres top less e em "bundinhas de fora" e rendeu um enorme sucesso à Marina. A faixa-título, uma das mais belas parcerias de Marina Lima e Antônio Cícero, recebeu um belo videoclipe do Fantástico e é uma das canções mais frequentes em shows e turnês.



Os ouvintes que desconhecem a chama que emana do cancioneiro de Marina encontrará em Virgem uma excelente porta de entrada para um trabalho musicalmente sofisticado e poeticamente incomum - Cícero contou em uma entrevista de que o verso "os inocentes do Leblon / eles não sabem de você" é uma referência a um poema de Drummond. Além disto, eles poderão constatar que mulheres podem se revelar em verdadeiras esfinges ou fortalezas escondidas nas armadilhas do olhar doce, meigo e levemente desafiador que lhes fitam na capa do disco...