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28 de agosto de 2020
18 de abril de 2017
TROVA # 120
ANDANÇAS
MUSICAIS
Para Caroline Rohan, com amor...
Lojas de discos sempre foram o meu
local preferido no mundo. Se elas são grandes e possuem livros à mancheia,
tenho vontade de entrar nelas e não voltar para a vida social nunca mais,
afinal eu sempre teria algo de novo para ouvir ou alguma coisa de interessante
para ler.
O século XXI e a Era da Mediocridade infelizmente
não conseguem conviver com as lojas de discos. Música se tornou um artigo
supérfluo, que basicamente se ouve no rádio do carro ou nos fones de ouvido de
celular. Visito as casas das pessoas e não vejo mais as coleções de LPs e CDs
impondo suas presenças nas salas de estar, para minha tristeza e decepção. As mídias
musicais continuam cada vez mais caras e são embaladas em um digipack vagabundo. As poucas lojas de
discos que sobraram se tornaram espaços frequentados por colecionadores e
amantes ferrenhos da arte musical como eu, que se satisfazem com tais fetiches
encontrados em utopias sonoras.
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| A lendária Modern Sound, em Copacabana |
As lojas de discos não sobreviveram à
chegada do MP3 e ao streaming e
muitas tiveram que fechar suas portas. Quase morri de tristeza quando a Modern Sound, a lendária loja da Rua
Barata Ribeiro, em Copacabana, fechou. Toda vez que eu ia ao Ilha Plaza
Shopping, localizado na Ilha do Governador, no subúrbio carioca onde nasci e me
criei, e constatava que uma loja de CDs tinha encerrado suas atividades, sentia
pontadas no coração. Não deixei de bradar o meu ódio mortal quando a Neto Discos, localizada no coração da
Rua Augusta e onde comprei alguns dos itens mais adorados da minha coleção de
discos, deixou de existir para virar um restaurante mexicano.
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| Um vendedor da antiga Neto Discos, na Rua Augusta |
Ainda bem que existem alguns recantos
nos quais ainda podemos exercitar nossa paixão por versos e sons em LPs e CDs:
a Augusta velha de guerra, a Galeria do Rock e o sebo Berinjela são pilares de
resistência que ainda me fazem feliz tal qual os protagonistas dos filmes
Durval Discos (Anna Muylaert) ou de Aquarius (Kleber Mendonça Filho), ao ouvirem
um clássico da música (inter)nacional soando truinfal por uma sala.
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| Marisa Orth & Ary França em Durval Discos (2002), de Anna Muylaert |
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| Sonia Braga em Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho |
*
Eu poderia encher várias linhas com
anedotas cômicas, bizarras, vergonhosas e tristes sobre minhas experiências dentro
de lojas de discos. Todavia, gostaria de resgatar uma experiência mais recente
e que foi bastante especial para mim...
*
Minhas temporadas de férias no Rio de
Janeiro sempre são bastante intensas e animadas. Especialmente porque não
consigo mais passar mais de sete dias na Cidade Maravilhosa. Por isso, meus
encontros com minha amiga Caroline Rohan, que me ama e me aguenta por quase
duas décadas de amizade, sempre são hilários e repletos de boas memórias. Nosso
último encontro de 2016 foi na nossa Copacabana velha de guerra e de tantas
anedotas para contar.
Carolzinha me levou a um paraíso que todo
amante da boa música gostaria de ir na época de Natal: em uma loja de discos na
Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Posto 5. Depois de ter jurado que não gastaria
nem um centavo com novas aquisições, entrei em contradição ao ver a vitrine com
algo extraordinário: uma cópia do álbum de 1973 de Frank Sinatra em LP muito
bem-conservada e por um preço baratinho. Ao ver a capa de Ol’ Blue Eyes is Back com o
sorriso reluzente e triunfante da Voz,
ignorei por alguns minutos de que ainda nem tenho um tocador de discos de vinil
em casa. Fiquei namorando outros LPs e alguns CDs, mas minha paixão por Sinatra
falou mais alto do que a razão- além da vitrola que ainda não tenho, estou em
uma quebra de braços com a falta de espaço para meus livros e meus discos.
Depois da farra e de algumas conversas
e com o meu Sinatra debaixo dos meus braços, continuamos nossas andanças por
Copa, fomos visitar a recém-inaugurada estátua de nosso amado mestre Nelson
Rodrigues e paramos em um bar para tomar nossas bebidinhas que os canários não
bebem. Antes de ir embora da Zona Sul, pedi a Carol que me levasse para o Beco das Garrafas, um beco na Rua
Duvivier onde Elis Regina começou a cantar e fez história. Fiquei encantado ao
saber que a tal esquina hoje abriga uma loja de discos com uma seção fabulosa
de livros de música.
O melhor da visita à Bossa Nova &
Companhia foi poder conversar com os vendedores da loja, entusiasmados em falar
comigo porque Carolzinha fez questão de dizer que o amigo dela era escritor e
possui um Blog sobre música. Conversamos sobre as discografias de Ney
Matogrosso e Maria Bethânia, contei algumas histórias e ouvi outras deliciosas.
Fiquei com vontade não apenas de ter lançado meu livro por lá, como quis ficar
por lá para sempre, pois a atmosfera do local é composta de versos e sons da
melhor qualidade.
Saí de Copacabana com a crença de que a
vida ainda pode ser leve e doce. Tranquila como uma canção de amor entoada por
Frank Sinatra, poética como um samba gravado por Maria Bethânia e intensa como uma
interpretação antológica de Elis Regina. Graças a uma amiga adorada e que
sempre está disposta a me fazer feliz – naquele dia, eu ganhei de presente um
chaveiro de lembrança com os nomes de Tom Jobim e de Vinícius de Moraes, dois
dos arautos da música brasileira moderna. Graças a Caroline Rohan, meu amor
pela arte musical, livros e lojas de discos anda comigo aonde quer que eu vou:
afinal, sempre é bom estar em boa companhia...
30 de janeiro de 2017
TROVA # 109
AS
PONTES DA AMIZADE
“Some people
go to priests; others to poetry; I to my friends. The beauty of the world,
which is so soon to perish, has two edges, one of laughter, one of anguish,
cutting the heart asunder. If you do not tell the truth about yourself, you
cannot tell it about people.”
(Virginia
Woolf)
Estou longe de ser um tipo, digamos,
popular: não tenho um milhão de amigos, porém sou bastante grato a cada uma das
amizades que tenho e não posso deixar de agradecer aos que um dia me concederam
doces momentos em parceria. Afinal, devo muito do que sou hoje aos encontros e
desencontros que a vida me proporcionou em 30 e poucos anos de caminhada.
Quando era mais jovem, meu temperamento
forte, introspectivo e sensível contrastava com a tendência expansiva de
membros de minha família: eu vivia em meus universos paralelos que cabiam
dentro do meu antigo quarto, enquanto o mundo de meu irmão mais novo não cabia
dentro das quatro paredes de nosso velho apartamento, já que ele vivia na rua e
era uma das pessoas mais populares do pedaço, enquanto eu sempre colecionei os
frutos da minha impopularidade.
Amizades são como pontes: elas sempre
te levam para algum lugar, seja o destino final bom ou ruim. Quando há um
sentimento verdadeiro, podemos alcançar lugares infinitos dentro das relações
humanas. Por outro lado, no momento em que o interesse, a conveniência e a
falsidade entram em cena, falsos amigos possuem máscaras de péssima qualidade e
que, um dia, caem. Depois dos 35 anos de idade, busco relações mais sólidas,
maior qualidade de vida, amigos com a possibilidade de agregar algo de bom. Quero
um amigo inteiro e não pela metade.
Como eu sempre fui um ancião
aprisionado em um corpo de jovem, meu desconforto com o mundo diminuiu um pouco
quando fui para a Faculdade de Letras, um terreno supostamente livre de
preconceitos de quaisquer tipos. O fato de pessoas de variadas faixas etárias
estudarem juntas me fez sentir mais à vontade dentro da sala de aula, algo inédito
para mim até então. Carrego amizades, colegas e umas duas ou três paixões um
tanto secretas no meu convívio pessoal e dentro do meu peito até hoje.
Ao trocar o Rio de Janeiro por são
Paulo no início de 2006, pensei que não sobreviveria à mudança para uma cidade
tão diferente da minha terra natal. Consegui me adaptar completamente graças às
amizades que fiz e aos velhos companheiros que não me abandonaram apesar da
distância. Foi a partir da vida adulta que pude entender o sentido do ditado “Quem
tem amigos não morre pagão”.
O mundo da música, por exemplo, já nos
ofertou amizades inesquecíveis: John Lennon e Paul McCartney fizeram a trilha
sonora de várias gerações à frente dos Beatles. Mick Jagger e Keith Richards
colocaram os egos e às mágoas de lado em nome de mais de cinco décadas de
carreira dos Rolling Stones. Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes fizeram
de sua relação uma parceria que levou a música brasileira para o mundo inteiro.
Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Caetano Veloso e Gilberto Gil modernizaram a
canção brasileira graças a mais de 50 anos de amizade.
Estes exemplos nos mostram que amizades
genuínas sobrevivem a brigas, cobranças, disputas de ego, distâncias e o
próprio tempo. É preciso buscar inspiração nestas pessoas para que possamos
viver de maneira mais leve, alegre e plena. Isso acontece se tivermos amizades
que podemos contar nas pontas dos dedos ou um milhão de amigos...
21 de dezembro de 2016
DISCOS DE VINIL # 12
NEY MATOGROSSO – O CAIR DA TARDE
(1997)
Em
1997 já era possível eleger qual tinha sido a voz mais ousada da música
brasileira da segunda metade do século XX: seu nome era Ney Matogrosso. Em pouco
mais de duas décadas e meia de atividades musicais, Ney já tinha feito um pouco
de quase tudo – cantou música Pop à
frente do grupo Secos & Molhados, virou um Homem de Neanderthal para, logo depois, ser um dos Bandidos mais ilustres da MPB. Anos
depois, tornou-se em um irresistível Pescador
de Pérolas uma década e meia depois ao interpretar os clássicos do
cancioneiro brasileiro e fez projetos especiais memoráveis baseados no legado
musical de Chico Buarque e Ângela Maria.
Entretanto,
o projeto musical que Ney Matogrosso concretizou em 1997 era mais radical em
relação a tudo que tinha feito até então. O Cair da Tarde seria um disco no qual Ney apenas interpretaria o
repertório de Heitor Villa-Lobos. Porém, a proposta se completou com canções do
maestro soberano Antônio Carlos Jobim, um grande discípulo e admirador da obra
de Villa-Lobos. Clássicos da Bossa Nova e da música e câmara, da MPB e de
trilhas sonoras do Cinema Brasileiro ao lado de cirandas e das cirandas mais
belas do folclore nacional, um repertório ousadíssimo e incomum para os fãs e
seguidores do astro. Algo impensável de se cantar no Brasil do final da década
de 1990, embalado pela vulgaridade musical do pagode romântico e de bundas
televisivas que tremiam loucamente ao som de tchans ordinários e de boquinhas de garrafas assanhadas.
Ney
Matogrosso convocou um time extraordinário de músicos para esta gravação:
Leandro Braga (piano), Márcio Montarroyos (trompete), Zero (Percussão), Ricardo
Silveira (violões e guitarras), Bruce Henry (baixo acústico) e Zé Nogueira
(sopros) compuseram a banda de apoio de O Cair da Tarde.
Em algumas faixas, o grupo Uakti (Marco Antônio Guimarães, Arthur Ribeiro,
Paulo Sérgio Santos e Décio Ramos) fez participações especialíssimas com sua
sonoridade regional e bastante peculiar. A obra de Tom Jobim e Villa-Lobos não
recebeu um tratamento sinfônico e grandiloquente, típico da tradicional música
de câmara, porém foi abordada com enorme reverência e delicadeza por Ney.
“Cair
da Tarde” (Heitor Villa-Lobos & Dora Vasconcellos) é o número de abertura
do disco: o instrumental delicado do Uakti, somado ao trabalho fenomenal dos
músicos da banda de apoio de Ney (com destaque para o piano de Leandro Braga e
os sopros de Márcio Montarroyos), nos transporta para um belo recanto de uma
floresta do Amazonas, com seus bichos soltos pela mata exótica e verdejante. As
faixas seguintes, abordam a melancolia e as belezas de um Brasil que não existe
mais, destruído pela insensibilidade humana e pela ganância dos homens. “Veleiros”,
“Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos & Dora Vasconcellos), “Prelúdio
Número 3 [Prelúdio da Solidão] (Heitor Villa-Lobos & Hermínio Bello de
Carvalho), “Modinha” e “Sem Você” (Antônio Carlos Jobim & Vinícius de
Moraes) são exemplos deste fato.
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| Márcio Montarroyos |
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| UAKTI |
O Cair da Tarde surpreende os
fãs de Ney Matogrosso e os ouvintes de Jobim e Villa-Lobos por apresentarem
releituras intimistas de clássicos do cancioneiro brasileiro. “Trenzinho do
Caipira” (Heitor Villa-Lobos & Ferreira Gullar) e “Águas de Março” (Antônio
Carlos Jobim) receberam releituras exuberantes e bastante distintas dos
originais. “Pato Preto” (Antônio Carlos Jobim) fecha o disco, com esperança de
trazer uma espécie de alento para o ouvinte, depois de ter sido exposto à tanta
tristeza.
Não
há dúvidas de que O Cair da Tarde é o projeto musical mais audacioso da carreira de
Ney Matogrosso. Apesar de ser um disco bastante radical, já vendeu mais de 70
mil cópias, um marco para a carreira de Ney. Por outro lado, há alguns fatos
importantes sobre este disco que são dignos de registro:
·
Turnê
–
Ney Matogrosso não saiu em turnê com este disco. Segundo o artista, ele queria
colocar uma ilha dentro de um lago em pleno palco, com o Uakti de um lado e a
banda de apoio do outro. O altíssimo custo da empreitada fez com que Ney
desistisse da ideia, para tristeza de seus fãs, que até hoje imaginam como
teria sido este espetáculo;
·
Capa
do Disco –
A capa de O Cair da Tarde traz a foto de um besouro que pertence ao acervo
científico do Museu Nacional, administrado pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ). É a única imagem da discografia de Ney Matogrosso que não traz
uma pose do cantor ou qualquer ilustração que fizesse alusão ao artista;
·
Temática
–
Antes de Maria Bethânia ter feito bastante sucesso com o repertório do CD e
show Brasileirinho, Ney Matogrosso foi uma das
primeiras vozes do alto escalão a lançar seu olhar para um Brasil menos conhecido
por parte dos ouvintes de MPB.
O
Cair da Tarde
não é apenas um dos trabalhos mais expressivos da obra de Ney Matogrosso, como
também é um dos momentos mais belos da história da música brasileira. Um disco
que deve ser ouvido no volume máximo a partir das 17h30 de cada tarde, para que
o ouvinte possa se despir de sua máscara urbana insensível e opressora para
poder viver a experiência indescritível de viver um Brasil que só existe nas
obras de Heitor Villa-Lobos e Antônio Carlos Jobim.
27 de novembro de 2016
TROVA # 100
O
MESTRE CENTENÁRIO
(uma
declaração de amor ao samba no dia de seus 100 anos)
“Meu bem, perdoa
Perdoa meu coração pecador
Você sabe que jamais
Eu viverei sem o seu amor”
(Paulinho da Viola, 1976)
A primeira coisa que eu deveria fazer
pelo samba, este mestre centenário, é lhe pedir perdão. Quando eu era mais
jovem, no auge da minha sanha elitista e arrogante de pobre de direita, achava
que a coisa mais chique do mundo era ouvir música em inglês. Ledo engano: no
momento em que eu entendi o meu lugar de fala, de onde eu venho e tudo o mais,
entendi que ser sambista é também ser chique e elegante, é nobreza de altíssimo
nível, da patente das mais elevadas.
Um dos pouquíssimos orgulhos que ainda
possuo de ser carioca de nascimento é o de ter nascido na mesma cidade que foi um dos berços principais do samba. Foi em um fundo de quintal de uma casa nas
imediações da Praça Onze e do bairro do Estácio que o ritmo musical trazido
pelos africanos para as bandas de cá começou a sua trajetória. Todo sambista
carrega a ancestralidade dos escravos em seu DNA e deve agradecer à Tia Ciata
por ter aberto as portas de sua residência para os primeiríssimos sambistas.
É também preciso pedir a benção de
Donga por ter gravado “Pelo Telefone”, a primeiríssima gravação jamais feita de
um samba em disco. E não podemos nos esquecer de pedir a proteção de Ismael
Silva por ter sido o grande criador da primeira escola de samba. Por fim, não
devemos nos esquecer que nossa ginga e malemolência é fruto da malandragem dos
sambistas que faziam música e fugiam da polícia nos anos 1930 para poder ter o
seu direito de expressão artística garantido. Sim, sambista brasileiro já teve
cara de bandido...
É claro que alguns me dirão que o
samba nasceu lá na Bahia, porém meu coração carioca sempre irá discordar ou
ignorar esta tese. No entanto, isto é assunto para outro texto, que um dia
prometo escrever...
*
Samba sempre foi assunto seríssimo lá
dentro de casa. Meu tio Silvio Bertho, irmão mais velho de meu pai, foi
advogado, boêmio e radialista dos bons – dizem que ele era dono de vastíssimo
conhecimento de música e de um acervo de discos de samba de fazer inveja a
muita gente; meu tio Celso Bertho também foi radialista e adorava um partido
alto. Já do lado da família de minha mãe, os Rangel, não havia muita diferença:
guardo a eterna referência musical dos discos dos meus avós – meu avô Adhemar,
por exemplo, era um grande admirador da obra de Paulinho da Viola; já D.
Magaly, minha avó, me apresentou à música de Bezerra da Silva. Foi graças a ela
que eu descobri que o embaixador dos morros e favelas era mais Rock ‘n’ Roll do que muitos roqueiros juntos e enfileirados.
Por fim, não posso deixar de mencionar
a contribuição do Sr. Orlando Bertho, meu Pai, para os meus ouvidos:
ex-integrante da ala de bateria da União da Ilha do Governador, era chamado de “O
Rei do Tamborim” por vários de seus amigos e colegas de escola de samba. O instrumento
ainda existe e, se não me engano, volta à ativa todo mês de fevereiro durante
as festas de Carnaval. Foi graças ao seu acervo de LPs, CDs e fitas K7 que eu
ouvi falar em mestres do samba como Mestre Marçal, Beth Carvalho, Grupo Fundo
de Quintal, Jorge Aragão e todos os clássicos do samba-enredo que passaram por
metros e mais metros de avenida.
Diante dos exemplos familiares que
citei, só posso chegar a uma conclusão hoje em dia: não tinha como fugir da
batucada, pois ela já estava dentro do coração e dos ouvidos dos dois lados da
família.
*
Foi depois dos meus 20 anos de idade –
época em que ingressei na Faculdade de Letras – que o meu interesse pelo samba
se deu de vez. Graças a Ney Matogrosso descobri a obra de Cartola graças a dois
discos belíssimos com a fina flor da obra do Divino Mestre da Estação Primeira
de Mangueira. Clara Nunes e Paulinho da Viola, estandartes da Portela, surgiram
para mim neste período e me incentivaram a amar o azul e branco da principal
escola de samba de Madureira. Logo depois da graduação, Maurício Martins do
Carmo, meu ex-professor e ex-orientador de TCC, me pediu uma encomenda: uma
pesquisa para um seminário comemorativo homenageando um dos maiores bambas do
samba, Lamartine Babo. Fui nocauteado pela genialidade do grande criador de
marchinhas carnavalescas de todo o Brasil e apresentei (modéstia à parte!) um
belo trabalho no evento organizado pela Universidade Estácio de Sá.
[Preciso fazer um adendo importante e
necessário: se eu não tivesse me envolvido tão intensamente com o objeto de
pesquisa da minha Dissertação de Mestrado e que resultou em meu primeiro livro –
a obra musical do grupo Secos & Molhados –, creio que teria dado
continuidade às minhas pesquisas sobre o samba. Quando eu for mais velho e um
pouquinho mais sábio, espero poder oferecer minha contribuição para um dos
temas mais debatidos em matéria de canção popular].
*
Em 2006, dei um dos meus giros de 180
graus nesta vida e troquei o Rio de Janeiro por São Paulo. Troquei a Cidade
Maravilhosa pela Terra da Garoa. Saí do berço em rumo ao “túmulo do samba”. Meu
choque anafilático da troca de uma capital pela outra foi aliviado graças à
obra de Adoniran Barbosa e dos Demônios da Garoa, uma das paixões musicais do Sr.
Leonildo Moreira Serra, meu segundo pai – ele adorava ouvir as canções de um
disco dos Demônios que eu converti para MP3 no carro enquanto dirigia. Nenhum compositor
soube captar a alma paulistana com a sensibilidade apurada e irreverente de
Adoniran, a voz principal do samba paulistano.
Foi quando me converti em cidadão
paulistano que os meus ouvidos se abriram de vez para o legado de outros bambas
do samba: Noel Rosa & Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Wilson Baptista
& Mário Reis, Elza Soares, Martinho da Vila, Clementina de Jesus &
Jovelina Pérola Negra, Carlos Cachaça & Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara,
Alcione & Beth Carvalho, João Nogueira & Zeca Pagodinho... Sim, meus
ouvidos já estavam escolados em matéria de batucada, não tanto quanto os
ouvidos do meu pai, dos meus avós ou dos meus tios, todavia nada mal para quem
odiava o som de um cavaquinho...
Diante de um marcado fonográfico cada vez
mais comercial e menos cultural, o samba continua agonizando em praça pública,
mas nunca morre. Em um século de vida, o mestre centenário já fez parcerias das
mais inusitadas com a MPB: Nara Leão foi a primeira artista de seu núcleo musical
elitista a buscar inspiração para cantar o Brasil através da obra de Zé Kéti e
Cartola; Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil sempre foram extremamente
respeitosos e reverentes com o legado de seus colegas sambistas; Divas da canção
brasileira como Maria Bethânia, Marisa Monte, Zélia Duncan, Simone e Adriana
Calcanhotto (re)gravaram clássicos e/ou renovaram a linguagem do samba com
muita classe e propriedade; Tereza Cristina e Fabiana Cozza, por sua vez,
conseguiram extrapolar os limites das rodas de samba e flertam constantemente
com outros gêneros musicais; Mart’Nália e Diogo Nogueira, por exemplo, são
muito mais do que “filhos de peixe” e conseguem sambar com seus próprios pés,
sem a necessidade de depender do legado ou da força dos próprios pais. Por outro
lado, outros músicos não necessariamente ligados às raízes do samba ou à elite
da MPB conseguiram parcerias memoráveis com o samba: Marcelo D2 e Paula Lima
são dois exemplos dos quais eu gosto bastante.
*
Este mestre centenário não possui quaisquer
preconceitos ou cerimônias. Adora fazer dobradinhas com a já citada MPB, com o Soul, o Jazz e o Funk. O pagode
romântico que tanto se ouve nas rádios mais popularescas só existe por causa
dos velhos bambas que um dia fugiram da polícia e do governo. Nossa batucada
nos ensinou a importância de nosso valor cultural não apenas para nós mesmos,
como também para o resto do planeta. Não apenas por mero entretenimento ou diversão,
mas principalmente por ser reflexo da luta de um povo contra quaisquer
formas de injustiça e desigualdade. É a lição que vem da voz das ruas, não das
rodinhas insossas de intelectuais repletas de empáfia e arrogância. É o samba o
nosso primeiro e maior mestre em matéria de música popular.
E é, por isso e muito mais, que este
jovem Vinícius pede ao mestre centenário não apenas a benção, como também lhe
pede o seu mais sincero perdão. Sem pieguice ou oportunismo, mas com toda a
sinceridade e amor...
18 de setembro de 2016
TROVA # 87
A MÁQUINA HUMANA
(A Voz &
A Máquina, um show de Elza Soares)
“Sou negra, índia. Sou
samba, jazz, blues, funk, rock ‘n’ roll, bossa, rap, soul, choro, sou punk. Sou
claro. Sou escuro. Sou o sagrado. Sou o profano. Bendita. Maldita. Sou tudo.
Sou nada. Sou Elzazaza. Elza eu sou.”
(Elza Soares)
Nunca me deixei
seduzir pelos sons (re)criados pelos DJs. Sempre achei a música das pick ups um tanto estridentes e
entediantes demais, de uma frieza absoluta. Baladas? Boates? Só aquelas que
tocam o repertório dos anos 1970/1980, mas não me venham com Trash 80’s para cima de mim! No fundo,
no frigir dos ovos, sempre tive a crença de que a máquina servia exclusivamente
para que a música se tornasse algo decorativo, impessoal, sem emoção, com gosto
de uísque com energético.
Por outro lado,
sempre há momentos nos quais somos obrigados a rever os nossos conceitos.
Quando soube que Elza Soares faria uma apresentação de seu espetáculo A Voz & A Máquina no Teatro Porto
Seguro, fiquei bem receoso. Pensei que a proposta deste show estava completamente
distante de trabalhos mais recentes como Elza
Canta e Chora Lupi e A Mulher do Fim
do Mundo, o que era a mais pura verdade. Fui para o teatro com o coração
aberto e várias expectativas, apesar da minha antiga implicância com os DJs.
Mais uma vez eu seria surpreendido por mais uma apresentação devastadora da voz do milênio.
![]() |
| Foto: Edson Lopes Jr. |
Acompanhada de dois
DJs – Ricardo Muralha e Bruno Queiroz – e um tecladista (Antônio Guerra), lá
estava Elza Soares, sentada como uma rainha em sua cadeira no alto de um
praticável. De início, pensei que estava dentro de uma rave que multiplicava a voz de Elzinha repetida e excessivamente. Estava
redondamente enganado. Logo de cara, constatei que as pick ups de Queiroz e Muralha estavam a serviço de uma das vozes
mais lendárias do planeta e não o contrário. As máquinas, condicionadas a
reproduzir sons de forma sistemática e fria, foram humanizadas pelo talento
inconfundível de Elza. A nega subverteu a lógica da invenção do homem branco em
prol de seu canto.
Isso é o que os
artistas revolucionários fazem: fazem da sua voz algo maquinal e tornam a
máquina humana. Este é um dos exemplos que fazem de Lady Elza Soares uma artista singular na música do Brasil e do
mundo... Verdade seja dita: com quase (ou mais de) 80 anos de idade, Elza
poderia simplesmente focar em trabalhos saudosistas, louvando seu passado
musical de grandes sucessos ou colhendo os frutos gerados por A Mulher do Fim do Mundo, um dos CDs/shows
mais extraordinários de todos os tempos. Todavia, Elzinha não está no meio
musical apenas para dar selinho, agradecer, abraçar e fazer improvisos musicais
através de sua voz inconfundível: espetáculos como A Voz & A Máquina nos mostram como ela sabe ser moderna e
inquieta.
Diz-se que a proposta
de Elza, ao montar este show, era de se aproximar de um público mais jovem. Ela
não só alcançou tamanha proeza, como também conseguiu mobilizar fãs mais velhos
para uma típica “curtição jovem”. Graças aos rapazes que a acompanham no palco,
os velhos clássicos de Vinícius de Moraes (“Corcovado”, “Canto de Ossanha” e “Chega
de Saudade), Lupicínio Rodrigues (“Esses Moços”, “Nervos de Aço”) e Jorge
Aragão (“Malandro” e “Vou Festejar”) ficaram, a princípio, irreconhecíveis, mas
sem deixar de apresentar o selo de qualidade do canto de Elza Soares. “A Carne”
(Seu Jorge, Marcelo Yuka & Wilson Capellette), canção gravada por ela em Do Cóccix Até o Pescoço, aparece em A Voz & A Máquina e é um dos pontos
altos da noite. Como nos alerta o número de abertura, “Computadores Fazem Arte”
(Fred Zero Quatro), “computadores fazem arte / artistas fazem dinheiro”. Elzinha
faz a revolução e com muita ousadia.
Apesar da evidente
fragilidade física, Elza Soares reina em cima de seu trono musical através de
seu canto forte e incansável. É uma rainha dos palcos, sem perder a humildade e
a gratidão de quem veio dos estratos menos favorecidos da sociedade brasileira.
Canta os encantos da paixão e as dores da desilusão amorosa com a propriedade
da experiência de uma vida inteira. Fala de injustiças sociais, de algumas esperanças
e conta algumas anedotas de amigos queridos – não contive minhas gargalhadas
quando ela nos contou da provável reação de Vinícius de Moraes se ele visse
suas canções interpretadas daquele jeito. É uma mulher de “nervos de aço”. Uma artista
de “opinião”. É de uma ousadia que pouquíssimos artistas possuem, pois só uma
voz tão poderosa quanto uma máquina conseguiria humanizar a fria tecnologia dos
DJs.
Espero que alguma
gravadora um dia se interesse em registrar A
Voz & A Máquina em CD e DVD. Não desejo isso apenas para que possamos
ouvir mais um trabalho inquietante de Elza Soares, mas para que as gerações que
surgirem depois da minha possam testemunhar (mesmo que pela tela da TV, do smart phone ou do YouTube) que ela é, foi e sempre
será uma das artistas mais criativas e revolucionárias de que já tivemos
notícia...
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