Mostrando postagens com marcador Vinícius de Moraes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vinícius de Moraes. Mostrar todas as postagens

18 de abril de 2017

TROVA # 120

ANDANÇAS MUSICAIS


Para Caroline Rohan, com amor...

         Lojas de discos sempre foram o meu local preferido no mundo. Se elas são grandes e possuem livros à mancheia, tenho vontade de entrar nelas e não voltar para a vida social nunca mais, afinal eu sempre teria algo de novo para ouvir ou alguma coisa de interessante para ler.
       O século XXI e a Era da Mediocridade infelizmente não conseguem conviver com as lojas de discos. Música se tornou um artigo supérfluo, que basicamente se ouve no rádio do carro ou nos fones de ouvido de celular. Visito as casas das pessoas e não vejo mais as coleções de LPs e CDs impondo suas presenças nas salas de estar, para minha tristeza e decepção. As mídias musicais continuam cada vez mais caras e são embaladas em um digipack vagabundo. As poucas lojas de discos que sobraram se tornaram espaços frequentados por colecionadores e amantes ferrenhos da arte musical como eu, que se satisfazem com tais fetiches encontrados em utopias sonoras.

A lendária Modern Sound, em Copacabana

   As lojas de discos não sobreviveram à chegada do MP3 e ao streaming e muitas tiveram que fechar suas portas. Quase morri de tristeza quando a Modern Sound, a lendária loja da Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, fechou. Toda vez que eu ia ao Ilha Plaza Shopping, localizado na Ilha do Governador, no subúrbio carioca onde nasci e me criei, e constatava que uma loja de CDs tinha encerrado suas atividades, sentia pontadas no coração. Não deixei de bradar o meu ódio mortal quando a Neto Discos, localizada no coração da Rua Augusta e onde comprei alguns dos itens mais adorados da minha coleção de discos, deixou de existir para virar um restaurante mexicano.

Um vendedor da antiga Neto Discos, na Rua Augusta


     Ainda bem que existem alguns recantos nos quais ainda podemos exercitar nossa paixão por versos e sons em LPs e CDs: a Augusta velha de guerra, a Galeria do Rock e o sebo Berinjela são pilares de resistência que ainda me fazem feliz tal qual os protagonistas dos filmes Durval Discos (Anna Muylaert) ou de Aquarius (Kleber Mendonça Filho), ao ouvirem um clássico da música (inter)nacional soando truinfal por uma sala.

Marisa Orth & Ary França em Durval Discos (2002), de Anna Muylaert



Sonia Braga em Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho

*

   Eu poderia encher várias linhas com anedotas cômicas, bizarras, vergonhosas e tristes sobre minhas experiências dentro de lojas de discos. Todavia, gostaria de resgatar uma experiência mais recente e que foi bastante especial para mim...

*
 
Carolzinha & Eu - uma amizade de quase vinte anos
     
      Minhas temporadas de férias no Rio de Janeiro sempre são bastante intensas e animadas. Especialmente porque não consigo mais passar mais de sete dias na Cidade Maravilhosa. Por isso, meus encontros com minha amiga Caroline Rohan, que me ama e me aguenta por quase duas décadas de amizade, sempre são hilários e repletos de boas memórias. Nosso último encontro de 2016 foi na nossa Copacabana velha de guerra e de tantas anedotas para contar.


     Carolzinha me levou a um paraíso que todo amante da boa música gostaria de ir na época de Natal: em uma loja de discos na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Posto 5. Depois de ter jurado que não gastaria nem um centavo com novas aquisições, entrei em contradição ao ver a vitrine com algo extraordinário: uma cópia do álbum de 1973 de Frank Sinatra em LP muito bem-conservada e por um preço baratinho. Ao ver a capa de Ol’ Blue Eyes is Back com o sorriso reluzente e triunfante da Voz, ignorei por alguns minutos de que ainda nem tenho um tocador de discos de vinil em casa. Fiquei namorando outros LPs e alguns CDs, mas minha paixão por Sinatra falou mais alto do que a razão- além da vitrola que ainda não tenho, estou em uma quebra de braços com a falta de espaço para meus livros e meus discos.


   Depois da farra e de algumas conversas e com o meu Sinatra debaixo dos meus braços, continuamos nossas andanças por Copa, fomos visitar a recém-inaugurada estátua de nosso amado mestre Nelson Rodrigues e paramos em um bar para tomar nossas bebidinhas que os canários não bebem. Antes de ir embora da Zona Sul, pedi a Carol que me levasse para o Beco das Garrafas, um beco na Rua Duvivier onde Elis Regina começou a cantar e fez história. Fiquei encantado ao saber que a tal esquina hoje abriga uma loja de discos com uma seção fabulosa de livros de música.



        O melhor da visita à Bossa Nova & Companhia foi poder conversar com os vendedores da loja, entusiasmados em falar comigo porque Carolzinha fez questão de dizer que o amigo dela era escritor e possui um Blog sobre música. Conversamos sobre as discografias de Ney Matogrosso e Maria Bethânia, contei algumas histórias e ouvi outras deliciosas. Fiquei com vontade não apenas de ter lançado meu livro por lá, como quis ficar por lá para sempre, pois a atmosfera do local é composta de versos e sons da melhor qualidade.



         Saí de Copacabana com a crença de que a vida ainda pode ser leve e doce. Tranquila como uma canção de amor entoada por Frank Sinatra, poética como um samba gravado por Maria Bethânia e intensa como uma interpretação antológica de Elis Regina. Graças a uma amiga adorada e que sempre está disposta a me fazer feliz – naquele dia, eu ganhei de presente um chaveiro de lembrança com os nomes de Tom Jobim e de Vinícius de Moraes, dois dos arautos da música brasileira moderna. Graças a Caroline Rohan, meu amor pela arte musical, livros e lojas de discos anda comigo aonde quer que eu vou: afinal, sempre é bom estar em boa companhia...



30 de janeiro de 2017

TROVA # 109

AS PONTES DA AMIZADE



“Some people go to priests; others to poetry; I to my friends. The beauty of the world, which is so soon to perish, has two edges, one of laughter, one of anguish, cutting the heart asunder. If you do not tell the truth about yourself, you cannot tell it about people.”
(Virginia Woolf)



Estou longe de ser um tipo, digamos, popular: não tenho um milhão de amigos, porém sou bastante grato a cada uma das amizades que tenho e não posso deixar de agradecer aos que um dia me concederam doces momentos em parceria. Afinal, devo muito do que sou hoje aos encontros e desencontros que a vida me proporcionou em 30 e poucos anos de caminhada.


Quando era mais jovem, meu temperamento forte, introspectivo e sensível contrastava com a tendência expansiva de membros de minha família: eu vivia em meus universos paralelos que cabiam dentro do meu antigo quarto, enquanto o mundo de meu irmão mais novo não cabia dentro das quatro paredes de nosso velho apartamento, já que ele vivia na rua e era uma das pessoas mais populares do pedaço, enquanto eu sempre colecionei os frutos da minha impopularidade.


Amizades são como pontes: elas sempre te levam para algum lugar, seja o destino final bom ou ruim. Quando há um sentimento verdadeiro, podemos alcançar lugares infinitos dentro das relações humanas. Por outro lado, no momento em que o interesse, a conveniência e a falsidade entram em cena, falsos amigos possuem máscaras de péssima qualidade e que, um dia, caem. Depois dos 35 anos de idade, busco relações mais sólidas, maior qualidade de vida, amigos com a possibilidade de agregar algo de bom. Quero um amigo inteiro e não pela metade.


Como eu sempre fui um ancião aprisionado em um corpo de jovem, meu desconforto com o mundo diminuiu um pouco quando fui para a Faculdade de Letras, um terreno supostamente livre de preconceitos de quaisquer tipos. O fato de pessoas de variadas faixas etárias estudarem juntas me fez sentir mais à vontade dentro da sala de aula, algo inédito para mim até então. Carrego amizades, colegas e umas duas ou três paixões um tanto secretas no meu convívio pessoal e dentro do meu peito até hoje.


Ao trocar o Rio de Janeiro por são Paulo no início de 2006, pensei que não sobreviveria à mudança para uma cidade tão diferente da minha terra natal. Consegui me adaptar completamente graças às amizades que fiz e aos velhos companheiros que não me abandonaram apesar da distância. Foi a partir da vida adulta que pude entender o sentido do ditado “Quem tem amigos não morre pagão”.


O mundo da música, por exemplo, já nos ofertou amizades inesquecíveis: John Lennon e Paul McCartney fizeram a trilha sonora de várias gerações à frente dos Beatles. Mick Jagger e Keith Richards colocaram os egos e às mágoas de lado em nome de mais de cinco décadas de carreira dos Rolling Stones. Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes fizeram de sua relação uma parceria que levou a música brasileira para o mundo inteiro. Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Caetano Veloso e Gilberto Gil modernizaram a canção brasileira graças a mais de 50 anos de amizade.



Estes exemplos nos mostram que amizades genuínas sobrevivem a brigas, cobranças, disputas de ego, distâncias e o próprio tempo. É preciso buscar inspiração nestas pessoas para que possamos viver de maneira mais leve, alegre e plena. Isso acontece se tivermos amizades que podemos contar nas pontas dos dedos ou um milhão de amigos...


21 de dezembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 12

NEY MATOGROSSO – O CAIR DA TARDE (1997)


                                                                            

                              
                
Em 1997 já era possível eleger qual tinha sido a voz mais ousada da música brasileira da segunda metade do século XX: seu nome era Ney Matogrosso. Em pouco mais de duas décadas e meia de atividades musicais, Ney já tinha feito um pouco de quase tudo – cantou música Pop à frente do grupo Secos & Molhados, virou um Homem de Neanderthal para, logo depois, ser um dos Bandidos mais ilustres da MPB. Anos depois, tornou-se em um irresistível Pescador de Pérolas uma década e meia depois ao interpretar os clássicos do cancioneiro brasileiro e fez projetos especiais memoráveis baseados no legado musical de Chico Buarque e Ângela Maria.


Entretanto, o projeto musical que Ney Matogrosso concretizou em 1997 era mais radical em relação a tudo que tinha feito até então. O Cair da Tarde seria um disco no qual Ney apenas interpretaria o repertório de Heitor Villa-Lobos. Porém, a proposta se completou com canções do maestro soberano Antônio Carlos Jobim, um grande discípulo e admirador da obra de Villa-Lobos. Clássicos da Bossa Nova e da música e câmara, da MPB e de trilhas sonoras do Cinema Brasileiro ao lado de cirandas e das cirandas mais belas do folclore nacional, um repertório ousadíssimo e incomum para os fãs e seguidores do astro. Algo impensável de se cantar no Brasil do final da década de 1990, embalado pela vulgaridade musical do pagode romântico e de bundas televisivas que tremiam loucamente ao som de tchans ordinários e de boquinhas de garrafas assanhadas.


Ney Matogrosso convocou um time extraordinário de músicos para esta gravação: Leandro Braga (piano), Márcio Montarroyos (trompete), Zero (Percussão), Ricardo Silveira (violões e guitarras), Bruce Henry (baixo acústico) e Zé Nogueira (sopros) compuseram a banda de apoio de O Cair da Tarde. Em algumas faixas, o grupo Uakti (Marco Antônio Guimarães, Arthur Ribeiro, Paulo Sérgio Santos e Décio Ramos) fez participações especialíssimas com sua sonoridade regional e bastante peculiar. A obra de Tom Jobim e Villa-Lobos não recebeu um tratamento sinfônico e grandiloquente, típico da tradicional música de câmara, porém foi abordada com enorme reverência e delicadeza por Ney.



“Cair da Tarde” (Heitor Villa-Lobos & Dora Vasconcellos) é o número de abertura do disco: o instrumental delicado do Uakti, somado ao trabalho fenomenal dos músicos da banda de apoio de Ney (com destaque para o piano de Leandro Braga e os sopros de Márcio Montarroyos), nos transporta para um belo recanto de uma floresta do Amazonas, com seus bichos soltos pela mata exótica e verdejante. As faixas seguintes, abordam a melancolia e as belezas de um Brasil que não existe mais, destruído pela insensibilidade humana e pela ganância dos homens. “Veleiros”, “Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos & Dora Vasconcellos), “Prelúdio Número 3 [Prelúdio da Solidão] (Heitor Villa-Lobos & Hermínio Bello de Carvalho), “Modinha” e “Sem Você” (Antônio Carlos Jobim & Vinícius de Moraes) são exemplos deste fato.

Márcio Montarroyos


UAKTI

O Cair da Tarde surpreende os fãs de Ney Matogrosso e os ouvintes de Jobim e Villa-Lobos por apresentarem releituras intimistas de clássicos do cancioneiro brasileiro. “Trenzinho do Caipira” (Heitor Villa-Lobos & Ferreira Gullar) e “Águas de Março” (Antônio Carlos Jobim) receberam releituras exuberantes e bastante distintas dos originais. “Pato Preto” (Antônio Carlos Jobim) fecha o disco, com esperança de trazer uma espécie de alento para o ouvinte, depois de ter sido exposto à tanta tristeza.


Não há dúvidas de que O Cair da Tarde é o projeto musical mais audacioso da carreira de Ney Matogrosso. Apesar de ser um disco bastante radical, já vendeu mais de 70 mil cópias, um marco para a carreira de Ney. Por outro lado, há alguns fatos importantes sobre este disco que são dignos de registro:


·        Turnê – Ney Matogrosso não saiu em turnê com este disco. Segundo o artista, ele queria colocar uma ilha dentro de um lago em pleno palco, com o Uakti de um lado e a banda de apoio do outro. O altíssimo custo da empreitada fez com que Ney desistisse da ideia, para tristeza de seus fãs, que até hoje imaginam como teria sido este espetáculo;
·        Capa do Disco – A capa de O Cair da Tarde traz a foto de um besouro que pertence ao acervo científico do Museu Nacional, administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É a única imagem da discografia de Ney Matogrosso que não traz uma pose do cantor ou qualquer ilustração que fizesse alusão ao artista;
·        Temática – Antes de Maria Bethânia ter feito bastante sucesso com o repertório do CD e show Brasileirinho, Ney Matogrosso foi uma das primeiras vozes do alto escalão a lançar seu olhar para um Brasil menos conhecido por parte dos ouvintes de MPB.


O Cair da Tarde não é apenas um dos trabalhos mais expressivos da obra de Ney Matogrosso, como também é um dos momentos mais belos da história da música brasileira. Um disco que deve ser ouvido no volume máximo a partir das 17h30 de cada tarde, para que o ouvinte possa se despir de sua máscara urbana insensível e opressora para poder viver a experiência indescritível de viver um Brasil que só existe nas obras de Heitor Villa-Lobos e Antônio Carlos Jobim.


27 de novembro de 2016

TROVA # 100

O MESTRE CENTENÁRIO
(uma declaração de amor ao samba no dia de seus 100 anos)



“Meu bem, perdoa
Perdoa meu coração pecador
Você sabe que jamais
Eu viverei sem o seu amor”
(Paulinho da Viola, 1976)


A primeira coisa que eu deveria fazer pelo samba, este mestre centenário, é lhe pedir perdão. Quando eu era mais jovem, no auge da minha sanha elitista e arrogante de pobre de direita, achava que a coisa mais chique do mundo era ouvir música em inglês. Ledo engano: no momento em que eu entendi o meu lugar de fala, de onde eu venho e tudo o mais, entendi que ser sambista é também ser chique e elegante, é nobreza de altíssimo nível, da patente das mais elevadas.
Um dos pouquíssimos orgulhos que ainda possuo de ser carioca de nascimento é o de ter nascido na mesma cidade que foi um dos berços principais do samba. Foi em um fundo de quintal de uma casa nas imediações da Praça Onze e do bairro do Estácio que o ritmo musical trazido pelos africanos para as bandas de cá começou a sua trajetória. Todo sambista carrega a ancestralidade dos escravos em seu DNA e deve agradecer à Tia Ciata por ter aberto as portas de sua residência para os primeiríssimos sambistas.


É também preciso pedir a benção de Donga por ter gravado “Pelo Telefone”, a primeiríssima gravação jamais feita de um samba em disco. E não podemos nos esquecer de pedir a proteção de Ismael Silva por ter sido o grande criador da primeira escola de samba. Por fim, não devemos nos esquecer que nossa ginga e malemolência é fruto da malandragem dos sambistas que faziam música e fugiam da polícia nos anos 1930 para poder ter o seu direito de expressão artística garantido. Sim, sambista brasileiro já teve cara de bandido...



É claro que alguns me dirão que o samba nasceu lá na Bahia, porém meu coração carioca sempre irá discordar ou ignorar esta tese. No entanto, isto é assunto para outro texto, que um dia prometo escrever...

*


Samba sempre foi assunto seríssimo lá dentro de casa. Meu tio Silvio Bertho, irmão mais velho de meu pai, foi advogado, boêmio e radialista dos bons – dizem que ele era dono de vastíssimo conhecimento de música e de um acervo de discos de samba de fazer inveja a muita gente; meu tio Celso Bertho também foi radialista e adorava um partido alto. Já do lado da família de minha mãe, os Rangel, não havia muita diferença: guardo a eterna referência musical dos discos dos meus avós – meu avô Adhemar, por exemplo, era um grande admirador da obra de Paulinho da Viola; já D. Magaly, minha avó, me apresentou à música de Bezerra da Silva. Foi graças a ela que eu descobri que o embaixador dos morros e favelas era mais Rock ‘n’ Roll do que muitos roqueiros juntos e enfileirados.



Por fim, não posso deixar de mencionar a contribuição do Sr. Orlando Bertho, meu Pai, para os meus ouvidos: ex-integrante da ala de bateria da União da Ilha do Governador, era chamado de “O Rei do Tamborim” por vários de seus amigos e colegas de escola de samba. O instrumento ainda existe e, se não me engano, volta à ativa todo mês de fevereiro durante as festas de Carnaval. Foi graças ao seu acervo de LPs, CDs e fitas K7 que eu ouvi falar em mestres do samba como Mestre Marçal, Beth Carvalho, Grupo Fundo de Quintal, Jorge Aragão e todos os clássicos do samba-enredo que passaram por metros e mais metros de avenida.




Diante dos exemplos familiares que citei, só posso chegar a uma conclusão hoje em dia: não tinha como fugir da batucada, pois ela já estava dentro do coração e dos ouvidos dos dois lados da família.

*





         Foi depois dos meus 20 anos de idade – época em que ingressei na Faculdade de Letras – que o meu interesse pelo samba se deu de vez. Graças a Ney Matogrosso descobri a obra de Cartola graças a dois discos belíssimos com a fina flor da obra do Divino Mestre da Estação Primeira de Mangueira. Clara Nunes e Paulinho da Viola, estandartes da Portela, surgiram para mim neste período e me incentivaram a amar o azul e branco da principal escola de samba de Madureira. Logo depois da graduação, Maurício Martins do Carmo, meu ex-professor e ex-orientador de TCC, me pediu uma encomenda: uma pesquisa para um seminário comemorativo homenageando um dos maiores bambas do samba, Lamartine Babo. Fui nocauteado pela genialidade do grande criador de marchinhas carnavalescas de todo o Brasil e apresentei (modéstia à parte!) um belo trabalho no evento organizado pela Universidade Estácio de Sá.




         [Preciso fazer um adendo importante e necessário: se eu não tivesse me envolvido tão intensamente com o objeto de pesquisa da minha Dissertação de Mestrado e que resultou em meu primeiro livro – a obra musical do grupo Secos & Molhados –, creio que teria dado continuidade às minhas pesquisas sobre o samba. Quando eu for mais velho e um pouquinho mais sábio, espero poder oferecer minha contribuição para um dos temas mais debatidos em matéria de canção popular].



*

         Em 2006, dei um dos meus giros de 180 graus nesta vida e troquei o Rio de Janeiro por São Paulo. Troquei a Cidade Maravilhosa pela Terra da Garoa. Saí do berço em rumo ao “túmulo do samba”. Meu choque anafilático da troca de uma capital pela outra foi aliviado graças à obra de Adoniran Barbosa e dos Demônios da Garoa, uma das paixões musicais do Sr. Leonildo Moreira Serra, meu segundo pai – ele adorava ouvir as canções de um disco dos Demônios que eu converti para MP3 no carro enquanto dirigia. Nenhum compositor soube captar a alma paulistana com a sensibilidade apurada e irreverente de Adoniran, a voz principal do samba paulistano.


         Foi quando me converti em cidadão paulistano que os meus ouvidos se abriram de vez para o legado de outros bambas do samba: Noel Rosa & Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Wilson Baptista & Mário Reis, Elza Soares, Martinho da Vila, Clementina de Jesus & Jovelina Pérola Negra, Carlos Cachaça & Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara, Alcione & Beth Carvalho, João Nogueira & Zeca Pagodinho... Sim, meus ouvidos já estavam escolados em matéria de batucada, não tanto quanto os ouvidos do meu pai, dos meus avós ou dos meus tios, todavia nada mal para quem odiava o som de um cavaquinho...


         Diante de um marcado fonográfico cada vez mais comercial e menos cultural, o samba continua agonizando em praça pública, mas nunca morre. Em um século de vida, o mestre centenário já fez parcerias das mais inusitadas com a MPB: Nara Leão foi a primeira artista de seu núcleo musical elitista a buscar inspiração para cantar o Brasil através da obra de Zé Kéti e Cartola; Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil sempre foram extremamente respeitosos e reverentes com o legado de seus colegas sambistas; Divas da canção brasileira como Maria Bethânia, Marisa Monte, Zélia Duncan, Simone e Adriana Calcanhotto (re)gravaram clássicos e/ou renovaram a linguagem do samba com muita classe e propriedade; Tereza Cristina e Fabiana Cozza, por sua vez, conseguiram extrapolar os limites das rodas de samba e flertam constantemente com outros gêneros musicais; Mart’Nália e Diogo Nogueira, por exemplo, são muito mais do que “filhos de peixe” e conseguem sambar com seus próprios pés, sem a necessidade de depender do legado ou da força dos próprios pais. Por outro lado, outros músicos não necessariamente ligados às raízes do samba ou à elite da MPB conseguiram parcerias memoráveis com o samba: Marcelo D2 e Paula Lima são dois exemplos dos quais eu gosto bastante.


*

         Este mestre centenário não possui quaisquer preconceitos ou cerimônias. Adora fazer dobradinhas com a já citada MPB, com o Soul, o Jazz e o Funk. O pagode romântico que tanto se ouve nas rádios mais popularescas só existe por causa dos velhos bambas que um dia fugiram da polícia e do governo. Nossa batucada nos ensinou a importância de nosso valor cultural não apenas para nós mesmos, como também para o resto do planeta. Não apenas por mero entretenimento ou diversão, mas principalmente por ser reflexo da luta de um povo contra quaisquer formas de injustiça e desigualdade. É a lição que vem da voz das ruas, não das rodinhas insossas de intelectuais repletas de empáfia e arrogância. É o samba o nosso primeiro e maior mestre em matéria de música popular.


E é, por isso e muito mais, que este jovem Vinícius pede ao mestre centenário não apenas a benção, como também lhe pede o seu mais sincero perdão. Sem pieguice ou oportunismo, mas com toda a sinceridade e amor...


18 de setembro de 2016

TROVA # 87

A MÁQUINA HUMANA
(A Voz & A Máquina, um show de Elza Soares)



“Sou negra, índia. Sou samba, jazz, blues, funk, rock ‘n’ roll, bossa, rap, soul, choro, sou punk. Sou claro. Sou escuro. Sou o sagrado. Sou o profano. Bendita. Maldita. Sou tudo. Sou nada. Sou Elzazaza. Elza eu sou.”
(Elza Soares)


Nunca me deixei seduzir pelos sons (re)criados pelos DJs. Sempre achei a música das pick ups um tanto estridentes e entediantes demais, de uma frieza absoluta. Baladas? Boates? Só aquelas que tocam o repertório dos anos 1970/1980, mas não me venham com Trash 80’s para cima de mim! No fundo, no frigir dos ovos, sempre tive a crença de que a máquina servia exclusivamente para que a música se tornasse algo decorativo, impessoal, sem emoção, com gosto de uísque com energético.


Por outro lado, sempre há momentos nos quais somos obrigados a rever os nossos conceitos. Quando soube que Elza Soares faria uma apresentação de seu espetáculo A Voz & A Máquina no Teatro Porto Seguro, fiquei bem receoso. Pensei que a proposta deste show estava completamente distante de trabalhos mais recentes como Elza Canta e Chora Lupi e A Mulher do Fim do Mundo, o que era a mais pura verdade. Fui para o teatro com o coração aberto e várias expectativas, apesar da minha antiga implicância com os DJs. Mais uma vez eu seria surpreendido por mais uma apresentação devastadora da voz do milênio.


Foto: Edson Lopes Jr.
Acompanhada de dois DJs – Ricardo Muralha e Bruno Queiroz – e um tecladista (Antônio Guerra), lá estava Elza Soares, sentada como uma rainha em sua cadeira no alto de um praticável. De início, pensei que estava dentro de uma rave que multiplicava a voz de Elzinha repetida e excessivamente. Estava redondamente enganado. Logo de cara, constatei que as pick ups de Queiroz e Muralha estavam a serviço de uma das vozes mais lendárias do planeta e não o contrário. As máquinas, condicionadas a reproduzir sons de forma sistemática e fria, foram humanizadas pelo talento inconfundível de Elza. A nega subverteu a lógica da invenção do homem branco em prol de seu canto.


Isso é o que os artistas revolucionários fazem: fazem da sua voz algo maquinal e tornam a máquina humana. Este é um dos exemplos que fazem de Lady Elza Soares uma artista singular na música do Brasil e do mundo... Verdade seja dita: com quase (ou mais de) 80 anos de idade, Elza poderia simplesmente focar em trabalhos saudosistas, louvando seu passado musical de grandes sucessos ou colhendo os frutos gerados por A Mulher do Fim do Mundo, um dos CDs/shows mais extraordinários de todos os tempos. Todavia, Elzinha não está no meio musical apenas para dar selinho, agradecer, abraçar e fazer improvisos musicais através de sua voz inconfundível: espetáculos como A Voz & A Máquina nos mostram como ela sabe ser moderna e inquieta.


Diz-se que a proposta de Elza, ao montar este show, era de se aproximar de um público mais jovem. Ela não só alcançou tamanha proeza, como também conseguiu mobilizar fãs mais velhos para uma típica “curtição jovem”. Graças aos rapazes que a acompanham no palco, os velhos clássicos de Vinícius de Moraes (“Corcovado”, “Canto de Ossanha” e “Chega de Saudade), Lupicínio Rodrigues (“Esses Moços”, “Nervos de Aço”) e Jorge Aragão (“Malandro” e “Vou Festejar”) ficaram, a princípio, irreconhecíveis, mas sem deixar de apresentar o selo de qualidade do canto de Elza Soares. “A Carne” (Seu Jorge, Marcelo Yuka & Wilson Capellette), canção gravada por ela em Do Cóccix Até o Pescoço, aparece em A Voz & A Máquina e é um dos pontos altos da noite. Como nos alerta o número de abertura, “Computadores Fazem Arte” (Fred Zero Quatro), “computadores fazem arte / artistas fazem dinheiro”. Elzinha faz a revolução e com muita ousadia.


Apesar da evidente fragilidade física, Elza Soares reina em cima de seu trono musical através de seu canto forte e incansável. É uma rainha dos palcos, sem perder a humildade e a gratidão de quem veio dos estratos menos favorecidos da sociedade brasileira. Canta os encantos da paixão e as dores da desilusão amorosa com a propriedade da experiência de uma vida inteira. Fala de injustiças sociais, de algumas esperanças e conta algumas anedotas de amigos queridos – não contive minhas gargalhadas quando ela nos contou da provável reação de Vinícius de Moraes se ele visse suas canções interpretadas daquele jeito. É uma mulher de “nervos de aço”. Uma artista de “opinião”. É de uma ousadia que pouquíssimos artistas possuem, pois só uma voz tão poderosa quanto uma máquina conseguiria humanizar a fria tecnologia dos DJs.




Espero que alguma gravadora um dia se interesse em registrar A Voz & A Máquina em CD e DVD. Não desejo isso apenas para que possamos ouvir mais um trabalho inquietante de Elza Soares, mas para que as gerações que surgirem depois da minha possam testemunhar (mesmo que pela tela da TV, do smart phone ou do YouTube) que ela é, foi e sempre será uma das artistas mais criativas e revolucionárias de que já tivemos notícia...