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17 de janeiro de 2021

TROVA # 159

 

A GLORIFICAÇÃO DA IGNORÂNCIA

Dois episódios de intolerância e burrice que podem levar a democracia para o colapso


“The lunatic is in my head

The lunatic is in my head

You raise the blade,

you make the change

You re-arrange me ‘til I’m sane

You lock the door

and throw away the key

There’s someone in my head

but it’s not me”

(Roger Waters, 1973)

 

                Todos nós sabíamos que os primeiros dias de 2021 não seriam nada fáceis para o Brasil, tampouco para o resto do mundo. Porém, dois eventos ocorridos na primeira quinzena de janeiro demonstram que, tal qual nos diz o ditado, “miséria pouca é bobagem”.

         Nos EUA, Donald Trump entrou no ano novo ainda sem ter admitido que a derrota por Joe Biden nas eleições presidenciais de 2020. O mundo inteiro sabia que o demônio de laquê faria mais uma investida contra as instituições norte-americanas para garantir mais quatro anos dentro da Casa Branca. A transferência de poder, longe de ser harmônica e republicana, tem sido uma troca de acusações, deixando a opinião pública em alerta por se tratar do país mais poderoso do planeta.

         No dia 6 de janeiro de 2021, o mundo tomou conhecimento da cartada de Trump para manter o poder. Diretamente de Washington, incitou uma horda de supremacistas brancos fanáticos para marchar até o prédio do Capitólio e impedir os membros do Congresso Nacional de diplomar Biden como o 46.º Presidente dos EUA. Os invasores invadiram um prédio público com facilidade, promovendo arruaças, quebra-quebras, pondo a vida de centenas de congressistas em risco. Cinco pessoas foram mortas em um dos eventos mais vergonhosos da história da democracia, com direito a transmissão mundial e em tempo real.

         Para estas retinas um tanto fatigadas, a cena mais estarrecedora de 6 de janeiro foi revelada no dia seguinte. Um vídeo divulgado por Donald Trump Jr., filho mais velho do Presidente, mostrava imagens da comitiva presidencial acompanhando a insurreição do Capitólio por meio de imagens de câmeras de segurança diretamente dos jardins da Casa Branca. Enquanto a barbárie avançava ferozmente, acuando os congressistas norte-americanos e demais presentes, os autofalantes tocavam “Gloria”, um sucesso de Laura Branigan que tinha feito enorme sucesso no início dos anos 1980.


Ao mesmo tempo em que correligionários trumpistas dançavam e urravam de alegria e excitação, ouviam-se os versos “Gloria, / don't you think you're fallin'? / If everybody wants you, / why isn't anybody callin'?” [Glória, / você ainda não entendeu que está caindo? / Se todo mundo lhe quer / por que não há ninguém chamando?”]. Por uma ironia do destino, os trumpistas bailavam tinha a trilha sonora perfeita para demonstrar que não se importavam com o fato de que mais de 80 milhões de pessoas e de que centenas de delegados se recusaram a prosseguir com o projeto de governo catastrófico de Donald Trump por mais quatro anos. O escárnio e o deboche daqueles indivíduos me deixaram profundamente revoltado por não haver nenhuma demonstração de empatia ou apreço pelas instituições.


Como consequência do horror que se abateu pelo Capitólio, um pedido de impeachment contra Donald Trump foi impetrado pela oposição do Partido Democrata, julgando-o culpado pela invasão do Congresso dos Estados Unidos. Nenhum político estadunidense conseguiu a marca histórica de ter sido condenado duas vezes por pedidos de impedimento (da primeira vez ele foi absolvido pelo Senado dos EUA). A ignorância trumpista, depois de tantos males feitos em 4 anos, parece estar chegando ao seu apogeu.

         Logo após os States vivenciarem os espasmos das primeiras vertigens de sua democracia, o nosso processo democrático apresentava novos sinais de que está adentrando em falência múltipla. Enquanto o número de doentes por COVID-19 aumentava assustadoramente devido às reuniões familiares e aglomerações das festas de fim de ano, o Indigno Presidente da República Federativa do Brasil se dizia preocupado com o futuro da nação ao demonstrar pesar com a importância do voto impresso e de que o ambiente político-social brasileira ficaria pior do que o norte-americano se ele não for reeleito em 2022. Durante os primeiros dias do ano, o Ministro da Saúde (um militar “especialista” em logística) destilava a sua arrogância e o seu desconhecimento da complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS), deixando a imprensa e a população em estado de perplexidade diante de seus pronunciamentos. O conhecimento científico passou a contar com o deboche do Presidente e de seus asseclas.

         Porém, a tragédia anunciada há tempos por epidemiologistas e outros especialistas em pandemias, controles epidêmicos e cargas virais se concretizou no raiar do dia 14 de janeiro de 2021. O sistema de saúde de Manaus, capital do Amazonas, atingiu o nível máximo de internações, esgotou todo o seu estoque de oxigênio e entrou em colapso. Enquanto doentes morriam por asfixia, profissionais de saúde e familiares se desesperavam para tentar salvar quem agonizava nos leitos hospitalares. Durante a espera de uma vacina para nos protegermos do coronavírus, assistimos milhares de brasileiros mortos por dia sem poder fazer quase nada. A ignorância bolsonarista, depois de tantos males feitos em 2 anos, parece estar chegando ao seu ápice.

*

         A Era da Mediocridade em escala mundial foi inaugurada por Trump em 2016 e teve nas chamadas fake news o seu combustível para tomar a democracia de assalto. Dois anos depois, o Brasil elegeu um dos políticos mais repugnantes da história para o posto político mais alto da República graças a um misto de desinformação, desumanidade e desserviço. O espaço público tem convivido com o que há de mais abominável em matéria de seres humanos ultimamente, deixando todo o ódio de classe, de raça e de gênero aniquilar o que ainda resta de direitos humanos por estas bandas.

Ao contrário do que acontece na letra de “Brain Damage”, uma das canções mais emblemáticas do repertório do Pink Floyd, o louco que estava na minha cabeça não era eu. De uns tempos para cá, ele deixou de habitar os meus pesadelos para apresentar a intolerância com o intuito de ofuscar a sabedoria e a diversidade, causando uma histeria coletiva de ódio e de ignorância. Graças às correntes toscas de redes sociais e de aplicativos de mensagens, passei a ter um respeito maior pela figura pública de Roger Waters, ex-baixista e líder da lendária banda inglesa, pois poucos escreveram tão bem sobre ódio e intolerância em matéria de canção. Em tempos de mediocridade e ignorância, é fundamental louvamos quem preza por liberdade e democracia e Waters sempre fez questão de denunciar fascistas e autoritários para seus ouvintes.


Por fim, nunca é demais dizer que a chamada “Era da Mediocridade” exige um preço alto daqueles que ainda cultivam a inteligência. Mais do que exaltada, a ignorância é glorificada por meio de autofalantes e pelos brados dos idiotas e tem matado milhares de brasileiros por uma peste que não tem previsão de nos abandonar tão cedo. Mas, enquanto estivermos aqui, estaremos respirando, cantando, escrevendo, protestando e xingando contra todo e qualquer autoritarismo. Afinal, os “esquerdistas” também amam. Às vezes, até demais...



9 de dezembro de 2020

TROVA # 155

ME & MR. LENNON

Algumas memórias pessoais regadas ao legado de John Lennon

Strawberry Fields (2012) - Foto: Nilton Serra

 

“People say I'm lazy

Dreaming my life away

Well they give me all kinds of advice

Designed to enlighten me

When I tell them that I'm doing fine watching shadows on the wall

‘Don't you miss the big time boy, you're no longer on the ball?’”

(John Lennon, 1980)

 

 

         Quando John Lennon foi alvejado pela arma de fogo de um facínora em frente ao Dakota Building, no coração de Nova York, eu ainda não tinha nascido. Lennon foi morto na noite de 8 de dezembro de 1980. Eu nasci em 23 de janeiro de 1981 e “(Just Like) Starting Over” estava em primeiro lugar nas paradas de sucesso das rádios no mundo inteiro. Por culpa de uma margem de erro infeliz, não pude ter a honra de habitar o mesmo universo de um dos artistas mais importantes de todos os tempos. Eis mais um item a ser incluído no ranking das minhas invejas musicais...




         Dentre os Beatles, John Lennon foi o primeiro que atravessou minha vida. Eu tinha de 12 para 13 anos quando uma de minhas tias-avós nos emprestou um LP que continha os maiores sucessos dos Fab Four e outro que era a coletânea Shaved Fish (1975), que continham as gravações mais importantes dos primeiros 6 anos de carreira solo de John. Em poucos dias, canções como “Instant Karma”, “#9 Dream”, “Whatever Gets You Thru the Night”, “Mind Games”, “Give Peace a Chance” e a incansável “Imagine” passaram a fazer parte do que eu mais ouvi em quase 4 décadas de vida. Isso porque eu não mencionei “Merry Xmas (War is Over)”, composta por Lennon e Yoko Ono (sua eterna companheira na vida e na arte), uma das canções natalinas mais tocantes de todos os tempos – sim, eu ouço essa canção todo final de ano no modo repeat com a eterna vontade de renovação das esperanças para o ano seguinte. Um dia ainda há de dar certo...






Na mesma época, dezembro de 1993, consegui ouvir Double Fantasy (1980), último disco que Lennon lançou em vida e com aquela capa deslumbrante mostrando John e Yoko na capa, apaixonados e felizes. Esse LP que apareceu lá em casa, emprestado por não sei quem, também fez de mim um fã do eterno Beatle . A aparição desse disco na mesma época que minha tia emprestou os outros vinis são exemplos de situações que somente o destino consegue oferecer uma explicação. Para minha alegria, ele ficou lá em casa por um bom tempo, período suficiente para que eu decorasse os versos de canções como “Woman”, que eu sei de cor até hoje.



         Para mim, todo mês de dezembro está associado à figura de John Lennon. Não somente por causa dos Beatles, ou de Shaved Fish ou Double Fantasy ou por causa das lembranças de seu destino insólito que as reportagens especiais resgatam todo final de ano. Nessa época do ano, prefiro deixar de lado o tradicional catálogo de canções natalinas para ouvir os clássicos que John deixou para nós e sair cantando “So this is Christmas / and what have you done? / Another year over/ And a new one just begun...” por aí sem pudor nenhum.

       Outros episódios marcantes da minha vida adulta estão intimamente atrelados ao legado de John Lennon. O primeiro deles foi no final de 2005 quando eu precisei apresentar um seminário em meu último curso na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde fazia meu Mestrado em Letras. Um dos capítulos mais interessantes de Paixões – amores e desamores que mudaram a História, da jornalista e escritora espanhola Rosa Montero, era justamente sobre o relacionamento de John e Yoko, marcado por turbulências de todo o tipo – drogas, ciúmes, choques de ego, traições, idas e vindas e coube a mim a tarefa de fazer a apresentação daquele livro. A coincidência absurda foi justamente que a minha participação no seminário ocorreu no dia 8 de dezembro de 2005, data que marcava o 25.º aniversário de John Lennon: lá estava eu a falar sobre um dos meus artistas preferidos no meio acadêmico. Foi uma conjunção de astros bem interessante e que rendeu conversas bem bacanas sobre o livro de Rosa e o legado de Lennon.

Outro momento marcante na minha vida também foi regado à música de John. Quando me mudei do Rio para São Paulo em março de 2006, precisei me adaptar rapidamente a uma nova cidade, com uma nova rotina e um emprego difícil. A trilha sonora daqueles dias desafiadores era o álbum Imagine (1971), um dos maiores sucessos comerciais de toda a carreira de Lennon, que eu tinha em MP3. Faixas como “It’s So Hard”, “Gimme Some Truth” e “How?” ajudaram a alegrar meus dias de cão, nos quais eu mal tinha dinheiro para pegar o ônibus.




Em 2012, já vivendo uma fase financeira bem melhor, aproveitei um feriado prolongado em meados de novembro para visitar Nova York, uma das cidades mais incríveis do planeta. Não é preciso ser um conhecedor profundo da vida e obra de John Lennon para saber que a sua imagem pós-Beatles se confundia com a Big Apple, lugar que ele escolheu como lar durante os seus últimos anos de vida. Assim que pisei em terras norte-americanas, fiz questão de passear pelo Central Park, onde John e Yoko caminhavam com bastante frequência, no meu primeiro dia nos EUA. Logo depois, aproveitei para fazer uma parada na frente do Dakota e tirar algumas fotos no Strawberry Fields, memorial em homenagem a John, não muito distante de lá. Quem diria que aquele menino de 12 para 13 anos que descobriu a música de John Lennon graças a três LPs emprestados chegaria tão perto de lugares por onde passou um dos maiores ídolos da história da música?


Dakota Building (2012) - Foto: Nilton Serra

O ano de 2020 traz uma marca melancólica para os admiradores de John Lennon: se estivesse vivo, o ex-Beatle teria completado 80 anos de idade no dia 9 de outubro. E o dia 8 de dezembro marca o 40.º aniversário da noite em que começamos a chorar e a amargar sua partida precoce. Antes de morrer, Lennon vivia uma nova fase a todo vapor: retornava à carreira artística depois de 5 anos longe dos holofotes, estava feliz com o álbum que acabara de lançar em parceria com Yoko Ono e planejava uma turnê mundial.

Graças aos esforços de Yoko e de Sean Lennon (filho do casal), o legado do ex-Beatle se mantém vivo nas memórias e nos corações de muitos fãs ao redor do mundo inteiro. E eu me incluo orgulhosamente entre esses admiradores... Como ele cantou muito bem: “And we all shine on / Like the moon and the stars and the sun”. Que possamos viver cantando e brilhando como a lua, as estrelas e o sol. Sem medo de sermos julgados e sem medo de sermos felizes...      


    

 

27 de julho de 2017

DISCOS DE VINIL # 35

DAVID BOWIE – YOUNG AMERICANS (1975)


Entre 1973 e 1975, David Bowie fez jus ao seu apelido: CAMALEÃO DO ROCK. Em um espaço de um ano e meio, Ziggy Stardust foi morto na frente de milhares de pessoas no Hammersmith Odeon, um álbum de covers (Pin-Ups) foi lançado para que o mundo se refizesse da morte do roqueiro alienígena e Halloween Jack foi a persona que anunciou a era dos Diamond Dogs em meio à catastrófica Hunger City. Em poucas palavras, podemos dizer que o universo de som e imagem de Bowie vivia sob o signo constante da renovação na década de 1970. Quando tínhamos uma imagem icônica do autor de “Changes” em mente, lá vinha ele com uma mudança de visual e concepção musical para confundir as cabeças de todo mundo…




Em meados de 1974, ao estrear a Diamond Dogs Tour, veio a primeira surpresa: enquanto o mundo esperava um artista andrógino e que traria uma persona semelhante à de Ziggy Stardust (visto que nem Aladdin Sane, tampouco Halloween Jack eram tão distintos da figura do alienígena), surge a figura de um astro do Rock com um corte de cabelo levemente mais discreto (as madeixas cor de fogo de Ziggy, mais curtas, passaram a dar espaço a mechas loiras), magérrimo, esguio e elegantemente vestido em um terno azul bebê da Pierre Cardin com direito a suspensórios – Bowie, que na época, devia pesar pouco mais de 40 kg, seguia uma “dieta” a base de leite integral, café, pimentões, pastilhas de menta, cigarros e… cocaína (Basta observar a capa do álbum David Live, lançado pelo astro em 1974, para constatar o estado de degradação física pelo qual ele atravessava naquele tempo)…


A turnê de divulgação de Diamond Dogs foi um marco não apenas para a carreira de David Bowie ou do Rock: ela foi precursora de muitos espetáculos de música que passaram a ser realizados a partir de então. Ao misturar música, teatro e cenários típicos de qualquer show da Broadway, Bowie tornou-se referência para artistas como arautos de outras tribos e gerações como Madonna, Kanye West, Lady Gaga e Morrissey e inspirou colegas de profissão como Elton John, Kiss e até (quem diria?) os Rolling Stones (leia-se: Mick Jagger e a sua eterna obsessão em parecer jovem através de sua música!). No entanto, quando a tour estreou em julho de 1974, o camaleão inglês andava fascinado pela música negra americana como nunca esteve, o que já indicava uma mudança de direção musical para caminhos paralelos aos do Rock durante aqueles shows.


No mês de agosto de 1974, durante o primeiro intervalo das excursões de Diamond Dogs, o autor de “Space Oddity” decidiu ir para o estúdio gravar as novas composições que já tinha dentro da gaveta. O local escolhido para as gravações do álbum que viria a ser conhecido como Young Americans foi o Sigma Sound Studios, no estado da Philadelphia, berço do Soul norte-americano. A produção do disco ficou dividida entre Tony Visconti, Harry Maslin e o próprio Bowie e estabeleceu-se o acordo de que todas as faixas seriam gravadas ao vivo, com todos os músicos compartilhando o mesmo espaço – o próprio Visconti, ao falar sobre este trabalho, relatou que o disco é nada mais, nada menos que “85% Live David Bowie”. Durante as gravações do disco, a turnê Diamond Dogs voltou para a estrada, mas já rebatizada como Philly Dogs, em alusão descarada ao som que se produzia no lendário estúdio da Philadelphia.

Bowie no estúdio junto de Robin Clark, Ava Cherry e o jovem Luther Vandross

O termo que define o som que o camaleão inglês queria produzir naquele momento era “Plastic Soul”, uma espécie de música Soul feita por um branco! Se David Bowie quisesse realmente alcançar tamanho nível de excelência, teria que ir em busca de músicos que estivessem em sintonia com o Soul, o Funk e o Jazz. Para tal, o jovem astro não mediu esforços: verdadeiras autoridades no assunto foram convocadas para as gravações do novo projeto – Andy Newmark (baterista do Sly & The Family Stone), o guitarrista Carlos Alomar (que se tornou parceiro e colaborador fixo por alguns anos), o saxofonista de jazz David Sanborn, o já experiente pianista e tecladista Mike Garson (que já acompanhava Bowie em turnês desde 1973) e um jovem fã de Diana Ross que fez os arranjos vocais e se tornaria famoso como cantor no final daquela mesma década de 1970 – Luther Vandross.


Em 1974/75 era incomum vermos artistas brancos flertarem descaradamente com a música negra a ponto de cantar e tocar como um Bluesman do Delta do Mississipi, por exemplo. Elvis Presley aprendeu tudo com os negros. O canto de Janis Joplin sofreu influências de Bessie Smith e Tina Turner. Os Beatles e os Rolling Stones não teriam feito os sons que mudaram os rumos do planeta se não conhecessem as bandas de Blues dos Estados Unidos. E David Bowie estava mais alucinado do que nunca pelo Soul americano. No entanto, fazer com que sua música cruzasse a fronteira das rádios negras não era tarefa para qualquer um: a partir de Young Americans, Bowie foi um dos primeiros a transcender tais limites com “Fame” (parceria do astro com John Lennon e o guitarrista Carlos Alomar), que foi catapultada para o primeiro lugar das paradas de sucesso americanas, fato inédito para o próprio homem que estava por detrás da máscara de Ziggy Stardust.

Bowie entre Warren Peace e Ava Cherry, sua namorada na época

Seis faixas que constam em Young Americans foram gravadas na Philadelphia entre agosto e novembro de 1974. A faixa-título, que narra a rapsódia de um casal nativo da terra de Uncle Sam, conta com a participação brilhante dos backing vocais de Ava Cherry, Robin Clark, Diane Sumler, Anthony Hilton, Warren Peace e Luther Vandross. Estes cantores emprestaram seu talento para outras faixas do disco como as baladas “Win” e “Can You Hear Me?”, faixas que contam o sax alto de David Sanborn e belíssimos arranjos de cordas. Em faixas mais rápidas do disco como “Somebody Up There Likes Me” e “Fascination” (parceria de Bowie com Vandross), as vozes destes artistas também brilham intensamente. E a interação destes cantores com Bowie é impressionante em “Right”: as frases e palavras que lead singer e backup singers trocam dão a impressão de golpes de boxe na medida em que um completa as falas do outro em um jogo vocal alucinante.


As duas faixas que completam Young Americans surgiram de um encontro importantíssimo entre David Bowie e John Lennon. Os dois se conheceram em meados de 1974, enquanto a Diamond Dogs Tour passava pelos EUA e o “final de semana perdido” do ex-Beatle chegava ao fim. Bowie chegou a apresentar faixas do disco que estava gravando para Lennon, o que rendeu alguns conselhos valiosíssimos para o autor de “Life on Mars?” (o mais importante deles era a dispensa do empresário Tony Defries, que se consumou pouco tempo depois) e rendeu algumas parcerias que acabaram entrando no álbum que Bowie lançara em 1975: a já citada “Fame” – uma mistura de Rock e Funk capitaneada por um riff arrasador de Carlos Alomar – e uma releitura de “Across The Universe” – canção lançada pelos Fab Four em Let It Be (1970). Um detalhe interessante é que esta segunda faixa contou com a participação especial de John, já reintegrado a New York e reconciliado com Yoko.


Bowie ao lado de John e Yoko

Apesar das duas faixas gravadas nos estúdios Electric Ladyland, em NYC, serem particularmente interessantes, não acho que elas necessariamente dialogam com a proposta do disco pelo fato que elas não são um retrato do som da Philadelphia que Bowie tanto quis produzir em seu ambicioso projeto. Ironicamente, “Fame” já prenuncia a proposta a ser desenvolvida por David Bowie em seu próximo projeto pós – Young Americans: o antológico e aclamadíssimo Station to Station, lançado em 23 de janeiro de 1976.



Bowie ao lado de Liz Taylor

As faixas de Young Americans que foram descartadas do álbum vieram a público anos depois. A segunda versão para “John I’m Only Dancing” deixou de lado a sonoridade Rock dos tempos de Ziggy Stardust para abrir as portas para as batidas da Disco Music que surgia no final de 1974 e chegou a ser tocada em algumas apresentações de Philly Dogs. Já as baladas “Who Can I Be Now?” e “It’s Gonna Be Me” – lançadas em uma edição especial de 2007 de Young Americans (que você ouve acima) – são duas interpretações marcantes de David Bowie que atestam a sua evolução enquanto cantor. Já a releitura de “It’s Hard To Be A Saint In Te City” (de Bruce Springsteen) e a inédita “After Today” saíram na caixa Sound + Vision (1990).



Young Americans fez com que David Bowie deixasse de ser o homem das estrelas deliciosamente bizarro para se transformar em um elegante homem do Soul, com ternos impecáveis e com um som indefectível. Ao analisarmos o legado que este álbum ofertou para a música do planeta, quatro décadas após o seu surgimento, concluímos que foi um dos primeiros trabalhos de um artista branco que fazem música negra sem oportunismos, modismos e cacoetes. Um disco que deve ser ouvido bem alto, com muito carinho e com muita atenção…


25 de abril de 2017

TROVA # 121

A MÚSICA QUE NOS SALVA


“Desobediência é a solução
Contra a tirania de sua tradição
Sua chibata bate mas eu tô de pé”
(Eduardo Brechó & Jairo Pereira, 2017)


            Os meus 20 e poucos anos foram bastante intensos. E me deram ocasiões que me ensinaram bastante. Uma das minhas favoritas aconteceu após um show de Rita Lee no Canecão, quando esperava a musa para poder tirar uma foto com ela e ficar alguns segundos perto de uma das artistas que mais influentes do Brasil. Rita, esfuziante e sorridente, conversava com amigos e fãs e logo nos atendeu, para emoção de todos os que estavam presentes. Meu encantamento foi ainda maior quando eu reparei que Ritz estava vestida com uma camiseta escrita: “music saves” [a música nos salva].


            Quando saí do Canecão, fiz da música meu estandarte e meu cavalo de batalha intelectual: ela me acompanhou na pós-graduação, na minha carreira enquanto professor, nas minhas pesquisas, no meu blog, na minha vida. Ela me ajuda a achar respostas para vários dos meus conflitos, me conforta, me dá alento. Especialmente em tempos nos quais a democracia no Brasil e no mundo é desafiada por medidas impopulares, pelos ataques aos direitos da sociedade e pela ascensão de lideranças profundamente conservadoras.


*

            A popularidade de 5% do Presidente ilegítimo Michel Temer é o retrato perfeito da convulsão social que o Brasil está prestes a se afundar se os direitos sociais continuarem a serem retirados com a desculpa de que há um ajuste fiscal a ser feito. Não basta limitar os gastos públicos em saúde e educação por vinte anos, o empresariado e a elite – vingativa, por odiarem um governo que, apesar dos erros políticos crassos, fez muito pelos pobres e pela classe média em 13 anos de governo – desejam sempre mais: já regulamentaram a terceirização para todos as atividades profissionais e querem aprovar uma reforma trabalhista e previdenciária sem mais nem menos. Silvio Santos, procurado por Temer, aproveitou para mandar sua equipe realizar comerciais de 30 segundos defendendo as reformas propostas pelo governo. Os manifestantes sequer possuem o direito de protestar contra seus algozes dentro do Congresso Nacional: são recebidos a pontapés, com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo pelas autoridades sem direito a qualquer espécie de argumento...
Na lógica dos golpistas, o pobre sempre é culpado, o menos favorecido é quem deve pagar. A lógica dos ilegítimos ignora os bilhões de reais que as grandes corporações devem para a Previdência Social, por exemplo. Enquanto o GAFE enlouquece com a manipulação de cada delação premiada da Odebrecht para tapear o povo brasileiro, a razão para as “medidas impopulares” fica cada vez mais clara: o “ajuste” serve para proteger os empresários devedores de fortunas para o Estado, que perdoa suas dívidas para poder explorar a classe trabalhadora ainda mais... Enquanto isso, e tome música para preencher os espaços da casa, já que o noticiário é a ficção mais inútil disponível no momento.

*

Enquanto isso, no Tucanistão (mais conhecida como São Paulo ou Sampa, para os mais íntimos): os cidadãos veem um Prefeito que transformou a sua gestão (não se enganem, beautiful people: a especialidade dele é marketing, não a gestão em si!) em um enorme reality show. Os cidadãos paulistanos tomam conhecimento dos feitos pelo exercício do mandato através da promoção rasteira realizada pelas redes sociais de um indivíduo que se diz apolítico, mas que toma decisões extremamente políticas: defende o empresariado do qual ele faz parte, prejudica os menos favorecidos, foi conivente com as intervenções de um dos vereadores da câmara que visitou duas escolas com o intuito principal de intimidar os professores da Secretaria Municipal da Educação, aumentou os valores das passagens de ônibus mesmo com a qualidade terrível dos transportes da cidade, permitiu o aumento de velocidade das Marginais Tietê e Pinheiros – causando o aumento vertiginoso de acidentes e mortes por acidentes automobilísticos –, isso sem mencionar as catástrofes permanentes na área cultural: extinção do Clube do Choro e dos turnos de 24h da Biblioteca Mário de Andrade e a destruição dos grafites da avenida 23 de maio. Pergunto: estas medidas foram benéficas para quem? Enquanto a resposta não chega, a elite paulistana e os pobres de direita veem na figura do “PrefeiTOP” o seu expoente mais perfeito...


Já o ilustre Governador do Estado de São Paulo, eleito no auge da crise hídrica que quase matou os paulistas de sede e acusado por corrupção nas “míticas” delações da Odebrecht, é responsável por uma das linhas auxiliares do GAFE:  a TV Cultura, um dos canais mais respeitados do mundo por exibir uma programação estupenda, apesar de exibir programas de entrevistas bastante tendenciosos e noticiários com comentadores raivosos e simpáticos de ideologias fascistas. Uma das polêmicas mais chocantes surgidas nos últimos dias foi à censura sofrida pela banda Aláfia: ao se apresentarem no programa Cultura Livre, tocaram a canção “Liga nas de Cem”, na qual faz uma crônica sensacional do ódio das elites paulistanas pelos mais pobres e dá nome aos bois ao citar Alckmin e Dória no final da letra. A apresentadora Roberta Martinelli e os músicos fizeram barulho diante do corte hediondo. O lado bom da polêmica foi fazer com que a Aláfia se tornasse mais conhecida diante deste caos polarizado no qual vivemos. E a música continua nos salvando da mediocridade do Tucanistão...



*


            E o Dia de São Jorge de 2017 ficou mais triste com a partida de uma das vozes mais importantes da Jovem Guarda: Jerry Adriani partiu para outro plano aos 70 anos de idade, vítima de um câncer. Mesmo sofrendo as dores da doença, Jerry se apresentou ao vivo cantando para as multidões do Brasil até um mês antes de morrer. A música lhe salvou da dor e lhe trouxe uma espécie de alento para um sofrimento sem fim. Apesar de não ser fã, fiquei comovido com sua história e com a sua força diante dos fatos – não desistiu de sua carreira em um momento sequer, seguiu em frente enquanto pôde.



            Que os brasileiros encontrem inspiração no exemplo de Jerry Adriani para seguir resistindo por seus direitos e consiga parar o país na Greve Geral programada para o dia 28 de abril de 2017. Afinal, vejo que a luta contra aqueles que não nos representam no Congresso Nacional e à elite ignorante e egoísta parece não ter fim...


5 de abril de 2017

TROVA # 117

A VERDADE, ACIMA DE TUDO


"I'm sick and tired of hearing things
From uptight, short-sighted, narrow-minded hypocritics
All I want is the truth
Just gimme some truth

I’ve had enough of reading things
By neurotic, psychotic, pig-headed politicians
All I want is the truth
Just gimme some truth

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of hope
Money for dope
Money for rope

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of soap
Money for dope
Money for rope

I'm sick to death of seeing things
From tight-lipped, condescending, mamas little chauvinists
All I want is the truth
Just gimme some truth now

I've had enough of watching scenes
Of schizophrenic, ego-centric, paranoiac, prima-donnas
All I want is the truth now
Just gimme some truth

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of soap
Its money for dope
Money for rope

Ah, I'm sick and tired of hearing things
From uptight, short-sighted, narrow-minded hypocrites
All I want is the truth now
Just gimme some truth now

Ive had enough of reading things
By neurotic, psychotic, pig-headed politicians
All I want is the truth now
Just gimme some truth now

All I want is the truth now
Just gimme some truth now
All I want is the truth
Just gimme some truth
All I want is the truth
Just gimme some truth"
(John Lennon, 1971)


Uma das canções mais fortes do repertório de John Lennon está eternizada em seu segundo álbum após a dissolução dos Beatles: "Gimme Some Truth", primeira faixa do lado B de Imagine (1971), denuncia um sentimento de cansaço de hipócritas, de prima-donnas inúteis,  de políticos porcos, limitados e de pouca visão. Lennon escrevia sobre as pessoas que faziam o mundo do início dos anos 1970. Ao reouvir a canção na segunda metade dos anos 2010, já em pleno século XXI, tenho a impressão de que pouco mudou no Brasil e no mundo de lá para cá.
O conceito de verdade, segundo o dicionário Houaiss, nos diz: "propriedade detestar conforme os fatos ou a realidade; exatidão, autenticidade, veracidade". O grande problema das pessoas hoje é que elas assumiram para si os conceitos mais particulares do que é verdadeiro, sem levar em conta a consistência dos fatos e as consequências deles. A partir deste fator, devemos pensar em alguns aspectos.
Diante deste caos, a quantidade de notícias falsas que se espalham pelo espaço público é simplesmente absurda. O que leva isto a acontecer com tanta frequência em pleno século XXI, momento no qual a informação se propaga com uma rapidez escandalosa? A preguiça das pessoas em verificar a consistência das informações é um fato determinante - muitos não leem ou analisam o que compartilham nas redes sociais e a barbárie se faz através dos botões like e share.
A expressão que mais tem sido utilizada no presente momento é o de “pós-verdade”. Apesar de algumas explicações bem fundamentadas, não consegui mudar minha opinião acerca desta “nova” ideia: para mim, é nada mais, nada menos do que a verdade que bem lhe convém. Tendo em vista que as redes sociais e a grande mídia têm dado voz a lúcidos e aos idiotas de plantão, torna-se ainda mais difícil para mim encontrar outra interpretação. Cada um possui suas verdades pessoais, as suas pós-verdades e muitos querem impor suas concepções como se fossem fatos verdadeiros absolutos.
Depois de 2013 e do golpe de estado parlamentar que atingiu a democracia brasileira três anos depois, as falácias conservadoras tem encontrado eco em muitas pessoas que se diziam apolíticas ou desinteressadas em política. De uma hora para outra, a sensação que eu tenho é de que todo mundo se politizou de uma tal maneira a ponto de provocar uma polarização nos debates e discussões que extrapolam os limites de respeito e da sensatez. Os direitos à liberdade de grupos minoritários são ignorados em prol do sucesso de instituições financeiras e de meia dúzia de famílias endinheiradas que controlam o país na base da rédea curta.
As pessoas que não possuem o hábito de estudo, de leitura e não são versadas em uma tradição humanitária e reflexiva, adotam o discurso da elite como se fosse o seu e dão projeção a vozes ultraconservadoras que alegam serem a opção para a corrupção presente no Brasil desde a sua fundação. Quando as manifestações públicas de 2013 culminaram nos protestos que clamavam os brasileiros a tomarem as ruas de 2015 em diante, esses desinformados pelo GAFE (o conglomerado formado pelos grupos Globo, Abril, Folha e Estadão) se converteram na mesma espécie de massa de manobra que nos levou para uma ditadura reacionária e sangrenta de mais de duas décadas.

Se quisermos evitar a máxima famosa de Karl Marx de que a história se repete pela primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, devemos rasgar os estatutos hipócritas e buscar a natureza humana das coisas, o respeito por todas as partes, exigir a verdade, acima de tudo. É ela que nos liberta, é ela que nos fará cidadãos mais justos e honestos em um país repleto de contradições. Assim, afastamos os hipócritas, chauvinistas, egocêntricos, paranoicos e psicóticos de plantão...