See them walking, if you dare, if you call that
walking
Stumble, stagger, fall and drag themselves along the
streets of heaven"
(Natalie Merchant & Robert Buck, 1987)
Ser uma
estrela do Rock deve ter, sem a menor sombra de dúvida, os seus atrativos: você
adquire fama por aquilo que você gosta e acredita, faz amigos e pode fazer
música pelos palcos dos quatro cantos do mundo. Uma vida de prazer, luxúria e
diversão, supostamente.
No entanto,
a realidade descrita acima nunca aconteceu para os astros da música. John Lennon
e Kurt Cobain, por exemplo, tiveram uma infância infeliz e uma vida adulta
traumática; Elton John e Eric Clapton viveram anos e anos às voltas com as
drogas e o alcoolismo; Além das drogas, Neil Young teve dois filhos com
paralisia cerebral; Robert Plant e Keith Richards perderam dois filhos com
menos de cinco anos enquanto estavam no auge da fama.
Se formos
buscar ainda mais exemplos de histórias tristes que compõem o universo dos
artistas do Rock ‘n’ Roll, chegaremos
à obvia conclusão de que a mídia e a publicidade criaram o mito do self made man realizado através de fama,
dinheiro e notas musicais através do combustível sexo, drogas e Rock ’n’ Roll. Quando lemos ou ouvimos
notícias de desgraças ocorridas com estes astros, o choque é logo substituído pela
reação instantânea: “Como esse cara foi cometer suicídio se ele tinha uma bela
família, dinheiro e fama”?...
Chris Cornell (1964-2017)
Confesso que
me senti deste jeito ao ouvir da morte de Chris Cornell (ex-vocalista do Soundgarden
e Audioslave) em 18 de maio e de Chester Bennington (ex-vocalista do Linkin
Park e do Stone Temple Pilots) em 20 de julho de 2017. Ambos se suicidaram por
enforcamento e apresentavam quadros bastante agudos de depressão. Os dois
tinham um extenso histórico de abuso de drogas e álcool e viviam em estado de
angústia plena. Nunca fui fã do Soundgarden, gostava do som do Audioslave, sempre
achei Linkin Park um tanto teen
demais para os meus ouvidos e morreria sem saber que Chester tinha se
aventurado na tarefa de substituir o lendário Scott Weiland como vocalista do
Stone Temple Pilots. Porém, fiquei muito triste em saber do fim trágico dos
dois artistas.
Chester Bennington (1976-2017)
A depressão
é o verdadeiro mal do século XXI. Se não for tratada com terapia e medicamentos
controlados, induz o paciente ao suicídio. Não é preciso fazer uma pesquisa
extensa para comprovarmos este fato. Por outro lado, as relações econômicas e
profissionais que aí estão nos desviam de uma discussão tão fundamental para a
compreensão de onde e como devemos enfrentar os desafios do terceiro milênio: o
sistema vende figuras de homens sadios, perfeitos e felizes para que possamos
nos espelhar nesses arquétipos e, como consequência, elevar o nível de consumo
e de dividendos para os artífices destas “imagens perfeitas”.
Suicídio é
coisa muito séria: é o último recurso de quem não tem absolutamente mais nada a
perder para poder cessar com a amargura e o sofrimento que castigam o corpo e
adoecem a alma. O grande problema de pessoas que invertem as leis naturais ou
do destino e optam por dar um fim às suas próprias vidas fazem com que os
membros de suas famílias morram um pouco junto do ente que se suicidou. Isto é
o mais dolorido: morrer junto de quem nós mais amamos...
Penso nas
famílias de Chris Cornell e Chester Bennington e imagino a dificuldade de suas
esposas e filhos em poder aceitar os fatos de que seus maridos e pais não
existem mais por uma arapuca montada pela depressão. O lendário ex-vocalista do
Soundgarden escolheu a última canção que cantou em cima de um palco – um trecho
de “In My Time of Dying”, do Led Zeppelin. Chester escolheu a data de sua
partida – o dia do aniversário de seu amigo Chris Cornell. Macabras coincidências?
Sim, infelizmente! Mas que teriam sido evitadas se tivéssemos descoberto os
pedidos de ajuda escondidos em cada gesto, em cada ato público de tristeza.
Por isso,
devemos lutar bravamente contra este mal silencioso e perverso para que não
encontremos outros anjos derrubados pela depressão e pelo suicídio. Por eles,
por seus entes, por nós...
A vida tem me ofertado uma série de "nãos" nos últimos dois anos. Daqueles bem grandes, em letras garrafais, típicos de serem expostos em outdoors em praça pública. Às vezes me revoltei, em outras me deprimi. Em nenhuma, baixei a cabeça e deixei de me levantar e seguir lutando. Afinal de contas, se chorei ou se sorri, o importante é que muitos "nãos" eu vivi...
Chorar de pena de si próprio é aceitável. Porém, a sua lágrima pode ser o troféu do inimigo, por isso, evito o choro em público a qualquer custo. Depois do susto da queda, é preciso praticar a arte do sorriso: na impossibilidade de sorrir de felicidade, vamos sorrir nem seja de raiva, de ódio ou pelo puro exercido do sarcasmo nosso de cada dia. Levantar, sacudir a poeira, dar a volta por cima e seguir lutando.
Não creio em perfis de sucesso. Creio no resultado de muito trabalho, persistência e excelência naquilo que se faz. Creio em episódios bem-sucedidos, em circunstâncias distintas - isto é, o velho "estar no lugar certo e na hora certa". Não creio em resultados obtidos por meio de bajulação ou "puxasaquice", creio em competência. Minhas crenças não me oferecem um lugar confortável no meio acadêmico, tampouco no mercado de trabalho. Infelizmente, eu preciso pagar um preço alto por ser íntegro e coerente com os meus princípios. Eis o maior "não" que a vida me dá.
As pessoas acostumadas com a importância do sucesso e da felicidade em suas vidas arrotam meias-verdades e frases feitas por aí como se tivessem o maior conhecimento filosófico possível. Pessoas obcecadas por princípios éticos e justos são sempre aquelas que leem mais, que pesquisam mais, que questionam mais, que incomodam mais. Os "bem-sucedidos" de acordo com as leis do mercado de um mundo capitalista são os oportunistas limitados que creem em perfis de sucesso. Os incompreendidos e marginalizados pela sociedade são os que não se enquadram nas caixinhas que aprisionam toda espécie de pensamento.
Eu me orgulho de pertencer ao segundo grupo. Com muitos "nãos", com poucos sons de "sim" e inúmeras respostas dizendo "talvez" ou "quem sabe?". Repito: o preço é alto. O retorno e a recompensa são poucos. Por outro lado, ter minha liberdade de pensamento e a independência intelectual preservadas são duas coisas para as quais não há preço algum. Em meio à dor da negação e o livre trânsito por portas que se fecham e portais que se abrem, é importante sorrir. Apesar da incerteza, mesmo com a temporária escuridão, sigamos sorrindo e cantando. Afinal, esta é a maior arte a ser desenvolvida por cada um de nós...
“It’s really wonderful to be able to be
nobody, and then have a moment when I can be somebody, and then go right back
to being nobody again.”
“I don’t want to live in a culture of
despair, I’d like to live in a culture of hope.”
“I think of myself as a musician and not a
celebrity. Celebrity status is smoething you have to deliberately pursue – I couldn’t
imagine myself seeking that.”
Natalie Merchant
Existem,
neste mundo, três tipos de artistas da canção: 1) Os que te fazem acreditar em
um mundo melhor; 2) Os que te fazem um ser humano melhor; 3) Os que te motivam
a viver melhor no decorrer das insanidades do dia-a-dia. Natalie Merchant é uma
das poucas pessoas que conseguem a realizar estas três façanhas comigo há pouco
mais de 20 anos.
Eu
devia ser mais um daqueles adolescentes sem graça e sem algo de especial que
estava prestes a iniciar o último ano do Ensino Fundamental quando ouvi o cover que o 10,000 Maniacs tinha feito
para "Because the Night" (parceria bissexta de Patti Smith e Bruce
Springsteen) no rádio no início de 1994. Eu tinha acabado de completar 13 anos
de idade e meus ouvidos ficaram completamente vidrados naquela voz com aquela
interpretação dramática e agridoce daquela "menininha" de vestidinho
preto, cabelo estilo Joãozinho e sapatos de bailarina que tinha saído de
Jamestown, New York, para as ondas das rádios do planeta. Era, nada mais, nada
menos do que um dos trechos mais eletrizantes do especial MTV Unplugged que finalmente levou os Maniacs ao estrelato antes de
Natalie deixar a banda, meses depois.
Anos
mais tarde, já adepto da TV a cabo e seguidor frenético da MTV Brasil, vi um
vídeo de 4 minutos no qual Miss Merchant perambulava aparentemente sem rumo
pelas ruas da cidade de New York com uma câmera fotográfica nas mãos, além de
zilhões de ideias e desejos a serem soltos e registrados por aí. Natalie se
apresentava como uma flanéur em pânico (sem deixar de manter uma certa postura
de deboche perante ao mal-estar da civilização) pelas ruas de Manhattan em seu
primeiro clipe solo. Era "Carnival", uma de suas obras-primas...
A
partir de então, passei a olhar com mais atenção cada um dos passos musicais de
Natalie Merchant. No Natal de 1998, tive a oportunidade de pedir um dos discos
que mudaram minha percepção em termos de música: Tigerlily, o primeiro álbum solo de Merchant. Na época em que ainda
existiam lojas de discos no centro do Rio de Janeiro (não essas megastores ou meras seções de CDs e DVDs
nas livrarias!), passei a pedir a meus pais que sempre me dessem CDs de Natalie
de presente de Natal - certas vezes eu ganhava dinheiro para que eu mesmo
comprasse um presente de minha livre escolha e o tão aguardado álbum de inéditas
chegava em minhas mãos geralmente todo dia 30 de Dezembro. Com o lançamento de Ophelia, seu segundo CD solo, tornei-me
um verdadeiro fã e seguidor de sua obra.
A
sonoridade pop que fez de Miss Merchant uma verdadeira estrela durante sua
passagem pelo 10,000 Maniacs não estava em plena evidência em Tigerlily e saiu completamente de cena a
partir de Ophelia. Enquanto cantora e
compositora, Natalie queria arriscar novas sonoridades, traçar caminhos
musicais mais sofisticados, quebrar as amarras impostas pelo pop-rock da
revista Billboard ou pela revista Rolling Stone. O preço pago pela
artista foi justamente o afastamento das paradas de sucesso e,
consequentemente, do grande público - seu primeiro disco chegou a vender
milhões de cópias, ao contrário de seu sucessor.
Em
um era em que Britneys e Aguileras queriam ser princesinhas no reinado de
Madonna na corte das Boy-Bands (ah, os nefastos anos 1990...), Tigerlily era um Pop inteligente demais para 1995. Ophelia era um mergulho profundo demais em uma sociedade a qual
sempre privilegiou o espetáculo per se, ainda mais em 1998! Como resposta ao
mergulho (Pessoano demais? Shakespeariano demais?) de Natalie em projetos musicais
muito densos, a Elektra - selo da Warner Records que produzia e distribuía seus
discos nos EUA e pelo resto do mundo - decidiu lançar Natalie Merchant Live in Concert em CD, DVD e Home Video (as
imagens deste show são uma raridade hoje em dia, visto que estão fora de
catálogo!).
O
registro audiovisual de duas noites de shows da Ophelia Tour apresenta uma artista ousada e intensa, com um
repertório que foge da obviedade das paradas de sucesso do final da década de
1990. O palco era o local no qual os sentimentos mais obscuros de Natalie
(raiva, ódio, euforia, medo...) se concretizavam, para estupefação e deleite do
público ao ver uma moça aparente tão recatada e reservada se transformar em uma
megera indomada em cena. As escolhas artísticas acertadas - sem abrir
concessões ao mercado fonográfico, como fizeram algumas colegas de sua geração
- de Miss Merchant lhe renderam pleno respeito da crítica especializada e a
intensa admiração de um público restrito e fidelíssimo.
Em
2000, Natalie decidiu trilhar um caminho ainda mais radical: saiu em turnê
pelos EUA para divulgar um setlist
composto única e somente de canções tradicionais do folk norte-americano e sem lançar nenhum disco de inéditas. A pesquisa
e a (indiscutível) qualidade do repertório infelizmente não foram suficientes
para que a Elektra lançasse aquele projeto em CD - isto foi feito pela própria
Natalie Merchant três anos mais tarde com o lançamento do antológico The House Carpenter's Daughter.
No
início da primeira década do novo milênio, a Elektra solicitou mais um disco de
inéditas de Merchant e ficou acordado que as gravações teriam início em New
York City. Natalie dividiria a produção com o renomado T-Bone Burnett (Robert
Plant & Alisson Krauss, O' brother
where ar'thou?) e as gravações teriam início em 15/06/2001 e seriam
concluídas até o dia 9 de setembro do mesmo ano. Motherland seria reconhecido como um dos trabalhos mais
contundentes e engajados de Natalie Merchant (e da música americana de todos os
tempos) se o atentado às torres gêmeas do World
Trade Center não tivesse se consumado 48h depois do fim do processo de
criação do projeto.
A
voz de Natalie jamais se mostrará tão politicamente ativa como em 2001 -
"This House is on Fire" versa sobre conflitos armados, o imperialismo
e a tirania da segunda era Bush; a faixa que deu nome ao CD é um hino pacifista
comovente, além de um pedido de paz em um mundo que é sumaria e paulatinamente
destruído a cada dia; "Saint Judas" é o inventário do racismo oriundo
de um regime político escravocrata e excludente; "Golden Boy" recria
a saga de um jovem assassino que pode ter saído de Columbine High School ou de We
Need to Talk About Kevin, de Lionel Shriver; "Tell Yourself" é
uma ode à beleza que existe fora dos padrões da ditadura da estética imposta
pelo American Way of Life, uma
conclamação à auto-estima de meninas que não se enquadram nos pressupostos de
beleza que colonizam os imaginários das pessoas que habitam o norte das
Américas.
O
público cativo de Natalie Merchant se encantou por Motherland. Dois casos deste fato foram os seguintes: David Letterman, de tão estupefato com a voz e a performance de "Just Can't Last", pediu que Natalie e a banda voltassem para tocar na noite seguinte da fatídica apresentação de 12 de novembro de 2001. Todos voltaram na noite seguinte para tocar "Build a Levee" na noite seguinte, para deleite da equipe do programa e do público em geral. Elton John, na época do lançamento do disco, cansou de fazer elogios sucessivos a Motherland e disse que era o melhor trabalho que Natalie já tinha feito até então. Era fato evidente que a voz de Miss Merchant estava mais amadurecida e tinha conquistado
mais tons graves, por exemplo. Suas interpretações se tornaram mais pungentes e
inesquecíveis (como não se encantar com "I'm not Gonna Beg", que
teria sido composta para Aretha Franklin?). No entanto, suas mensagens de cunho
político e pacifista foram neutralizadas pela paranoia que se apoderou dos EUA
após os ataques de 11 de Setembro de 2001: declarar abertamente que o lar
americano estava em chamas ou de que o sofrimento simplesmente não iria
perdurar ("Just Can't Last") foi um pouco demais para uma nação cujo
orgulho estava seriamente ferido por aeronaves suicidas. Um detalhe
interessante sobre o quanto a paranoia e a maluquice estavam atingindo níveis
surreais: a arte original - capa e fotos de encarte do CD - foram descartadas e
substituídas por uma bucólica foto da cantora sentada ao lado de uma árvore com
uma cesta de frutas no colo - ou seja, uma imagem completamente desprovida de
quaisquer conotações políticas. O disco infelizmente não teve altos índices de
vendagem e Natalie foi dispensada da Elektra pouco tempo depois.
A
consequência mais duradoura do afastamento de Natalie Merchant de uma grande
gravadora foi justamente o fato de ficarmos sem ouvir qualquer espécie de
material inédito por mais de uma década. Por outro lado, Natalie pode
concretizar projetos pessoais musicais que jamais conseguiria dar cabo em uma
grande gravadora: The House Carpenter's
Daughter foi um deles. O CD de raridades contido em Retrospective (1995-2005) é uma pepita ofertada aos fãs de
Merchant. O casamento e a maternidade longe dos holofotes em um país no qual os
paparazzi registram cada movimento das pessoas famosas foi outro.
O
exílio da artista dos palcos e dos discos foi importante para que ela
conseguisse se reinserir no mundo musical com um dos projetos musicais mais
ambiciosos de todos os tempos. Leave Your
Sleep, um CD duplo com 26 canções baseadas em poemas escritos para
crianças. Christina Rossetti, Ogden Nash, e. e. cummings e outros artífices da
Literatura tornaram-se co-autores de 26 canções que encantaram pequenos e
adultos. A semestre deste projeto se deu graças à maternidade: em 2003,
Merchant deu luz à Lucía, sua única filha. No afã de alfabetizar a menina,
Natalie resolveu dar voz a textos poéticos que estavam distantes da memória das
pessoas ao expandir seu número de leitores ao fazer destes ouvintes de poemas
musicados.
Leave Your Sleep foi o retorno de Natalie Merchant ao mundo da
música depois de sete anos sem lançar álbuns com gravações inéditas e após nove
sem apresentar canções de sua autoria para o público. Contratada pela Nonesuch
Records, selo musical especializado em Jazz
e Folk, Merchant obteve a liberdade
pela qual sempre lutou no decorrer de toda a sua carreira: gravar canções que
dialogam com os mais diversos estilos musicais (Rock, Folk, Jazz, Bluegrass, etc.) não apenas com acompanhamento musical simples,
como também com direito a orquestras sinfônicas que enriquecem o trabalho da
canção popular, dando à musicalidade de Natalie novos caminhos a serem
percorridos.
O
período compreendido entre 2010 e 2014 serviu não apenas para que Miss Merchant
divulgasse este trabalho monumental, como também foi importante para que a
artista pudesse, enfim, garimpar o que existia de mais genuíno e autêntico em
seus arquivos e/ou voltasse a compor letra e música para novas canções. Treze
anos após a gravação e o lançamento de Motherland,
já era o momento de Natalie Merchant trazer mais uma coleção de material
inédito.
As
dez canções que fariam parte do projeto The
Hunger Banquet (O Banquete dos Famintos) foram gravadas em estúdio no final
de 2013. Porém, ao saber que a trilogia Jogos Vorazes (The Hunger Games), de
Suzanne Collins, era um dos maiores sucessos editoriais na mesma época em que o
CD seria lançado, Merchant decidiu deixar o título de seu trabalho de lado e
intitulou sua coleção de inéditas apenas com o nome de Natalie Merchant. Apesar do tema das novas criações da autora de
"Carnival" e "Life is Sweet" delimitarem as propostas de um
projeto específico - o banquete para aqueles que sentiriam fome de viver, de
sentir, de comer... - as canções não deixam de trabalhar velhos temas já
abordados pela obra da cantora, tais como: repressão x libertação
("Ladybird", "Giving up Everything"), conflitos globais
("It's A-Coming", "Go Down, Moses"), morte, ciúme e
finitude ("Maggie Said", "Seven Deadly Sins" e "The
End"), fama, glória e ostracismo ("Lulu"), egoísmo e indignação
perante o status quo
("Texas" e "Black Sheep"). Tratava-se de uma espécie de
recomeço para uma artista que retornava à cena do música Pop depois de uma
praticamente uma década e meia, ou talvez, uma retomada da crítica a valores
humanos tão presentes em Motherland,
a partir de letras simples e diretas como as de Tigerlily e de arranjos que combinam ora tons menores tais quais os
de The House Carpenter's Daughter,
ora épicos e grandiloquentes como os de Ophelia
e Leave Your Sleep. Em suma: Natalie Merchant resume, em 10 canções
inéditas, tudo o que uma artista conseguiu realizar em carreira solo desde 1995!
Natalie
Merchant anuncia um banquete de famintos em seu disco homônimo e deixa em
aberto a possibilidade para que nos saciemos através de um disco de gravações
emocionantes, pungentes e marcantes - "Lulu" tornou-se uma das
obras-primas de todo o repertório de Natalie. A cada trabalho que lança, vemos
não apenas uma mulher que aceitou envelhecer graciosamente (Natalie surpreendeu
seus fãs ao deixar de fingir seus cabelos de perto a partir de 2012, deixando
seus cabelos naturalmente grisalhos) em um mundo musical no qual senhoras de
fibra e de cabelos brancos como Patti Smith e Emmylou Harris são exceções à
regra principal de que o Pop jamais envelhece - vide a obsessão infinita de
Madonna em parecer jovem à beira dos 60 anos de idade. Envelhecer, produzir e
declarar independência musical na era do iTunes
é sinal de muita coragem e ousadia: Miss Merchant o possui, como uma bela
matrona italiana prestes a nos servir um banquete para cada um de nós, famintos
por boa música.
“Educação é aquilo que a maior
parte das pessoas recebe, muitos transmitem e poucos possuem.”
Karl Kraus
An apple for the teacher? Ok, you can give me a break!!!
Escrevo em permanente estado de crise. Não porque
escrever neste Blog é um tormento (pelo contrário: é um prazer
indescritível!), digo isto porque escrevo em condições adversas: intervalos de
aula, nas madrugadas, nos horários de almoço, no transporte público e em outras
“brechas” que o meu horário apertado de Professor me permite.
Resolvi fazer estas Trovas
de Vinil por algumas razões pessoais e intransferíveis: 1) Para
exercitar o talento de jornalista frustrado e não consumado que possuo; 2) Para
tratar do assunto que mais curto neste universo – MÚSICA; 3) Para achar uma
espécie de alento para as minhas crises de ira, angústia, ansiedade e depressão
– leia-se: para me divertir um bocado! 4) Para esquecer um pouco do meu lado “Professor”
– por mais difícil que isto possa me parecer...
“And I just can't pore my heart out
To another living thing
I'm a whisper, I'm a shadow
But I'm standing up to sing”
(Out of Tears – Mick Jagger / Keith Richards)
Sempre nutri um amor perceptível pela escrita – desde os tempos da
escola, creio. Já dei início a alguns blogs
e nunca os levei adiante por falta de inatividade e pela quantidade gigantesca
de coisas que eu tinha para fazer. Em outras palavras, por falta de tempo, por
imaturidade minha e/ou da proposta do que se escrevia. Por outras razões que
desconheço e/ou não quero lembrar. Devo confessar que tenho um gosto imenso por
coisas “menos nobres” intelectualmente: adoro ler crônicas (nada contra os
grandes poetas ou romancistas, ok?) e peças teatrais, gêneros literários tidos
como mais fáceis de compreensão (a tal da fruição
que o Roland Barthes sempre fala...). E claro: adoro ler as entrelinhas do que as
“mãos sujas do sangue das canções” nos escondem. Estes são os meios que
encontrei para ficar mais próximo da arte cultivada por mestres como Drummond,
Nelson Rodrigues, Machado, Clarice e outros. Fazer o quê? Tal qual o seu
Carlos, eu também resolvi ser gauche
(torto) na vida...
Tal qual Virginia Woolf, artista pela
tenho profunda admiração por tudo que fez em vida e obra, escrevo/leio/penso/crio
várias coisas ao mesmo tempo. Minhas bolsas estão sempre repletas de coisas
para descobrir, para fazer, para compreender, etc. Falta de foco? Talvez! Vontade
de descobrir o mundo inteiro em um dia e não conseguir? Creio que sim! Necessidade
de escrever para tentar curar um mal oculto que persiste e insiste? Com
certeza! Organização? Não, de jeito nenhum! Minha percepção de mundo é tão
desorganizada e caótica, que nenhum dia que abarcasse algo além de 24 horas seria suficiente para
que eu conseguisse impor uma ordem para este caos que deram o nome de Vinícius.
Oi, meu nome é Vinícius, mas você também pode me chamar de CAOS!
Escrevo Trovas de Vinil em um quase estado de emergência, de procura
por mim mesmo e das coisas do mundo, de uma possível cura, de uma vontade de
reunir coisas e pessoas das quais eu gosto. Escrevo em busca de respostas, de
perguntas, de anseios reunidos e de desabafos necessários como este que publico
hoje! Fico muito triste quando não consigo reunir forças para escrever aqui,
pois me falta a técnica de concisão, rapidez e eficiência que todo bom
jornalista tem. Gostaria de ser mais direto e reto nas coisas que escrevo – ao
contrário de muitos blogueiro profissionais e tarimbados no assunto... É por
esta razão que me considero um blogger
amador: não só porque ainda me falta o talento necessário, mas por falta de tempo
e dedicação e, principalmente, pela necessidade
de não escrever qualquer coisa – Sim, detesto parecer fútil ou comum! Afinal de
contas, como diria Caetano Veloso, as prateleiras e a chamada World Wide Web estão repletas de confusões
pensadas, ditas e declaradas, não é?
2012 foi um dos anos mais revolucionários que eu vivi (e ainda estamos
em Setembro, hein?). Além de criar este blog,
aprendi coisas novas, decidi trilhar caminhos profissionais que antes abominava,
abracei uma nova oportunidade que jamais pensei que apareceria depois de 11
anos trabalhando em sala de aula. Feliz? Sim! Exausto? Sim, porque mudar, por não ser tarefa fácil, requer
tempo, dedicação e um preço alto a pagar! Alguns me amaldiçoa(ra)m pelas minhas
escolhas, outros ficaram na torcida, poucos me deram apoio incondicional e
vários ficaram pelo caminho... Ao grupo dos medíocres, vai o meu agradecimento,
pois as adversidades sempre contribuem para o nosso crescimento! Ao pessoal da
torcida agradeço o carinho e o coleguismo; Aos que ficam pelo caminho, deixo
minhas saudades, faço a promessa de manter contato e renovo a esperança do
reencontro em situações / momentos menos adversos. Aos que me ofereceram apoio
incansável e incondicional especialmente nos momentos mais recentes, dou a
garantia do meu amor e da minha eterna gratidão.
“The time has come
For closing books
And long last looks must end
And as I leave
I know that I am leaving my best friend
A friend who taught me right from wrong
And weak from strong
That's hard to learn
What, what can I give you in return?”
(To Sir With Love - Don Black / Mark London)
Ser professor e blogueiro nas horas vagas (além de outras atribuições,
evidentemente!) é algo um tanto difícil se você quer fazer as coisas direito. Primeiro
porque vivemos em um tempo no qual os profissionais do ensino (Professores, Teachers, Instrutores de Ensino, Mestres
ou Doutores, ou seja qual for o nome que esteja em mente...) são itens
desvalorizados, burocratizados e, vez por outra – dependendo da necessidade do
empregador e/ou ins-ti-tui-ção –,
substituíveis (Yes, nós também somos descartáveis
como copinhos plásticos de acordo com a vontade de quem dá as cartas do jogo!)...
No entanto, apesar de não ter me formado jornalista como eu sempre sonhei desde
os meus 13 anos de idade, tenho bastante orgulho de ter me tornado em um Professor
de Línguas (e suas respectivas Literaturas, por gentileza!). Assim, eu me sinto
mais capaz de defender algumas causas perdidas do dia-a-dia nos espaços real e
virtual. Faço das palavras minhas armas, da linguagem minha trincheira, do amor
que sinto pelas pessoas e pelas coisas meu combustível e deste Blog meu palanque de letras, sons e
imagens. Apesar da falta de sentimento que reina por este mundo afora, eu “sou
amor da cabeça aos pés”! E outros também são, por isso “não se assuste, pessoa
/ se eu te disser que a vida é boa”... Por isso, segue o conselho: veja os vídeos, leia o pouco que tenho a dizer e sinta a música, pois é por ela que muitos de nós temos razão de
existir...
“Não se assuste pessoa
Se eu lhe disser que a vida é boa
Não se assuste pessoa
Se eu lhe disser que a vida é boa
Enquanto eles se batem
Dê um rolê e você vai ouvir
Apenas quem já dizia
Eu não tenho nada
antes de você ser eu sou...
Eu sou, eu sou, eu sou amor
Da cabeça aos pés
Eu sou, eu sou, eu sou amor
Da cabeça aos pés
E só tô beijando o rosto de quem dá valor
Pra quem vale mais o gosto do que cem mil réis
Eu sou, eu sou, eu sou amor
Da cabeça aos pés
Eu sou, eu sou, eu sou amor” Da cabeça
aos pés”