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25 de dezembro de 2017

TROVA # 143

O DIA DA BADERNA


“Na linha do horizonte
Do alto da montanha
Por onde quer que eu ande
Esse amor me acompanha
A luz que vem do alto
Aponta o meu caminho
É forte no meu peito
Eu não ando sozinho

Te vejo pelos campos
Te sinto até nos ares
Te encontro nas montanhas
E te ouço nos mares

Você é meu escudo
Você pra mim é tudo
Minha fé me leva até você

Pra quem te traz no peito
O mundo é mais florido
A vida aqui na Terra
Tem um outro sentido

Eu ando e não me canso
Esqueço a minha cruz
Firme nesse rumo
Que a você me conduz

Em todos os momentos
Que eu olho pro espaço
Sou forte e minha fé
Me faz um homem de aço

Você é meu escudo
Você pra mim é tudo
Minha fé me leva até você

Em todos os momentos
Que eu olho pro espaço
Sou forte e minha fé
Me faz um homem de aço

Você é meu escudo
Você pra mim é tudo
Minha fé me leva até você

Você é meu escudo
Você pra mim é tudo
Minha fé me leva até você

Você é meu escudo
Você pra mim é tudo
Minha fé me leva até você
Até você!”
(Roberto Carlos & Erasmo Carlos na voz de Rita Benneditto)


         Em tempos de crise, fica difícil encontrar motivação para celebrar qualquer coisa. Especialmente quando se trata de festividades deslavadamente incentivadas pelo mercado. Os shopping centers ficam repletos de gente em busca de presentes em um frenesi que leva o nosso suado décimo-terceiro salário em um rabo de foguete. A excitação em comprar, comprar e comprar e ganhar, ganhar e ganhar presentes recebe o nome de “espírito natalino”.
         Jesus Cristo, o aniversariante do dia 25 de dezembro, era o que hoje chamaríamos de comunista bolivariano, tal qual foi brilhantemente alardeado por Gregório Duvivier em sua coluna da Folha de S. Paulo: “não acumulou riqueza, não se formou, ao invés disso vivia descalço cercado de leprosos defendendo bandido... O sujeito tava mais pra Marighella que pra Gandhi (...)”.
A “celebração” do aniversário de Jesus Cristo faz com que as pessoas organizem comilanças babilônicas, regadaas a litros e litros de bebida; a televisão seleciona o que há de mais bisonho em termos de música antes de exibir a Missa do Galo e os parentes com os quais nos encontramos pouquíssimas vezes ao ano e que mal nos conhecem, ora se animam com a sua presença figurativa no sofá, ora se ressentem da sua ausência. O aniversariante do dia fica ofuscado pelo Funk carioca, pelo pagode e pela sofrência das meninas do “feminejo” ou de outros ritmos musicais na crista da onda...



Para o seu lugar, entrou o imbatível Papai Noel (mais conhecido como Santa Claus) distribuindo presentes na pele dos chefes de família, fazendo a festa da criançada e movendo a roda do Capitalismo, tão bem lembrado pelo escritor Gabriel García-Márquez em uma crônica sobre esta época do ano: “O menino Jesus foi destronado pelo Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papai Noel dos franceses e aos que conhecemos de mais. Chegou-nos com o trenó levado por um alce e o saco carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve.”.


         Cristo era um defensor dos fracos, dos oprimidos, era o maior dos justos. Pensando na essência de seu legado e também por puro comodismo, passei a me questionar a necessidade de tanta pompa e circunstância prescrita pelo credo capitalista para esta época do ano. Decidi que o Natal deste ano deveria ser um momento de reflexão, de agradecimento e, principalmente, de descanso: como só tive férias a partir do dia 22 de dezembro, achei mais prudente e mais proveitoso ficar em casa, sem um pingo de ostentação: desfrutei de uma ceia natalina mais simples e cercado apenas das pessoas mais íntimas; nada de troca de presentes ou de seleções de amigo secreto; nada de ter que me obrigar a ser simpático com pessoas que desconheço ou quase nunca vejo; nada de roupa nova para a ocasião – ganhei um pijama de uma amiga minha e adorei passar a virada de 24 para 25 de dezembro assim. A conta bancária agradece e o bom humor também!



         Infelizmente, as postagens nas redes sociais me levam a crer que muitos se esqueceram do verdadeiro legado deste perturbador da ordem chamado Jesus Cristo e só ficaram com a baderna de comidas, bebidas e presentes com direito à trilha sonora da TV ligada. Se a crise obrigasse a maioria dos indivíduos a crescerem diante da escassez de recursos e da desunião entre os homens, já seria um bom (re)começo para a humanidade. No entanto, muitos preferem a letargia confortável do consumismo...

12 de fevereiro de 2017

TROVA # 111

1825 DIAS SEM WHITNEY HOUSTON


Em memória de Whitney Houston (1963-2012)

Foi numa madrugada de domingo, daquela de intervalos perturbadores entre uma cochilada e outra, nos quais o corpo mais se cansa do que descansa. Recebi a notícia em uma das vezes em que acordei: Whitney Houston já não estava mais entre nós. Uma das vozes mais belas do mundo tinha morrido aos 48 anos.



Tal qual vários artistas de sua geração, Whitney possuía a maldição autodestrutiva de todo artista: ao mesmo tempo em que ele pode originar e erguer as coisas mais belas em matéria de arte, ele também consegue ser extremamente eficiente em matéria de sabotagem própria. Tal qual Michael Jackson, Prince ou Amy Winehouse, Whitney Houston sucumbiu aos prazeres efêmeros das drogas e do alcoolismo e não sobreviveu aos dilemas existenciais de ser uma celebridade em uma terra que respira o sucesso a qualquer preço.




A voz potente de Whitney me pegou em cheio quando eu ainda era criança, lá pelos idos de 1989-1990, graças às trilhas sonoras das novelas da TV Globo. Tinha 11 anos de idade quando a filha de Cissy Houston tomou as paradas de sucesso do planeta de assalto com as canções de The Bodyguard ("O Guarda Costas"). Lembro bem de ver um sem-fim de reportagens sobre a estrela Pop do momento, além de revistas de meninas com traduções de "I Will Always Love You", de Dolly Parton, que tocou nos rádios e na MTV até cansar nossos olhos e ouvidos e fez com que o álbum com as canções do filme fosse o mais vendido de toda a história. Já a película em si era de uma pobreza dramatúrgica sem tamanho: Kevin Costner é tão expressivo quanto uma estátua de cera, porém os videoclipes nos quais a personagem Rachel Marron estava em ação mostrava o que Whitney Houston sabia fazer melhor: cantar!


Pensando bem, Whitney Houston tinha um outro talento indiscutível: ela conseguia arranjar confusão tão bem quanto cantava. Os episódios de manchetes nos jornais por causa de abuso de drogas, álcool, de canos em aparições públicas e barracos com o ex-marido Bobby Brown fizeram a festa dos tabloides e dos programas de celebridades - com direito a um reality show estrelado pelo marido que renovou os limites do mau gosto. Sem esquecer de somar algumas pitadas de arrogância e uma vontade sem fim de dizer que está tudo bem para Deus e o mundo. Vergonha? Vontade de tapar o sol com a peneira? Ou os dois? Só ela poderia saber...




Os anos 1990 acabaram para mim ao som das músicas de My Love is Your Love (1998), que ganhei de presente em um dos meus aniversários. Whitney aparece linda e loira na capa do disco, cantando como nunca. A diva procurou se reconectar com o universo da música Pop ao gravar com nomes de peso como Mariah Carey, Missy Elliot e Lauryn Hill para continuar, digamos, na crista da onda daquele momento. E, com o seu talento indiscutível, conseguiu. "It's Not Right, But It's Okay", "If I Told You That" e "I Learned From the Best" foram a trilha sonora do final de uma década de brilho e sucesso para Whitney e de anos de tédio e amargura para mim.






Os anos 2000 não foram muito agradáveis para a estrela: os escândalos sucessivos e o consumo de drogas começaram a afetar sua forma física e a arranhar sua carreira musical. As vendas caíram e as turnês apontaram a decepção dos fãs e o desgaste de Whitney Houston perante o público. O brilho da estrela começava a se apagar. O novo milênio começava a ficar órfão de grandes vozes e de talentos genuínos. As pessoas teriam uma voz a menos para poder acreditar de que este mundo seria um lugar melhor de se habitar.






Em um universo musical cada vez mais fake e plastificado, a voz poderosa de Whitney Houston faz uma falta sem tamanho. Sua partida trágica de nosso convívio - ela morreu afogada em uma banheira de um hotel em Los Angeles por causa de abuso de drogas e álcool - e seus dramas pessoais que se tornaram públicos compuseram uma aura extremamente negativa de uma das vozes mais belas que o mundo já ouviu. Depois de viver 1825 dias sem a voz de Whitney entre nós, vejo que ela ainda é referência para muitos artistas a se aventurarem pelo mundo musical. Que ela sempre seja lembrada pelo seu talento...



30 de setembro de 2013

TROVA # 21


A MÁGICA MTV BRASIL

 



 

“Every little thing she does is magic

Everything she do she turns me on

Even though my life before was tragic

Now I know my love for her goes on …”

(Sting, à frente do The Police – 1981)

 

No início da década de 1990, briguei com unhas e dentes pelo que Sting, em férias do The Police, pedia no início do famoso hit do Dire Straits: “I want my MTV!”. A partir de outubro de 2013, serei mais um dentre vários órfãos da MTV Brasil. A Music Television brasileira foi mais do que um mero canal de TV ou puro entretenimento para este que vos escreve. Ela teve um papel decisivo na minha educação musical e na minha formação cultural. Graças a ela, tive a oportunidade de fugir do marasmo medíocre e fatal da TV aberta e ter a oportunidade de ver os integrantes do Olimpo musical nacional e internacional em plena atividade.
 

Por outro lado, é também preciso deixar a hipocrisia e o saudosismo para trás: a MTV Brasil dos últimos tempos estava profundamente decadente, cambaleava morbidamente em praça pública, tal qual um Michael Jackson de This Is It ou um Elvis Presley com vários quilos acima do peso. Sua programação não tinha mais o brilhantismo e a inteligência do que víamos nos anos 1990/2000. Os VJs que estavam a cargo da programação não possuíam o mesmo carisma daqueles que um dia revolucionaram a maneira de se fazer TV neste país. Além disto, a propagação viral da Internet, das redes sociais e do You Tube fez com que a nossa Music Television deixasse de ser um celeiro que revelava novos talentos e que consolidava a imagem e o som dos grandes astros nas retinas e ouvidos do grande público jovem brasileiro.
 

Também não podemos nos esquecer da presença sadia do canal no comportamento dos jovens que a assistiam com programas e vinhetas de cunho informativo e educativo – as campanhas de combate à AIDS, as campanhas de conscientização política e a memorável campanha “Desligue a TV e vá ler um livro!” foram alguns dos pontos marcantes da minha memória televisiva emetivesca. E quem não se lembra de programas bárbaros como o Barraco MTV, o Disk MTV, o Top 20 Brasil, o MTV Non Stop, o MTV No Ar, o Supernova, o TVLeeZão, Os Piores Clipes do Mundo, o Furo MTV, o Pé na Cozinha e as cerimônias do Video Music Brasil? Ou do programa que Thunderbird (entre as suas milhares de idas e vindas) comandou em 2003, no qual DOIS novos VJs foram escolhidos? Meus dedos da mão direita também terão uma enorme dificuldade de esquecer o número "25" no dial do controle remoto...
 

Não me esqueço do primeiro videoclipe que assisti quando sintonizava (com muita dificuldade) o canal 24 UHF da TV do meu antigo quarto: “Every Little Thing She Does Is Magic”, do The Police. Enquanto Sting, Andy Summers e Stewart Copeland dançavam como três patetas enlouquecidos, eu tive a oportunidade descobrir que a mágica de cada clipe, de cada vinheta, de cada VJ estava nas pequenas coisinhas. Coisinhas estas que me livraram da solidão típica de qualquer adolescente excêntrico. Não, Xuxa não foi minha babá eletrônica. Sim, a MTV (parcialmente) me educou e me moldou no decorrer dos meus “anos de formação”.
 
 
Modéstia a parte, posso afirmar sem a menor vergonha e com muito orgulho que se não fosse pela MTV Brasil eu jamais teria conhecido os integrantes do The Police (que habitavam minha imaginação desde a tenra infância) em plena atividade, ou não teria vivido o retorno triunfal de Madonna ao mundo Pop com o incensado Ray of Light (1998), os Rolling Stones convertidos em gigantes e dominando uma Nova York com som e luxúria no vídeo de “Love Is Strong” (do antológico Voodoo Lounge, de 1994) ou a reaparição do Blondie depois de quase duas décadas de inatividade com No Exit (1999). Bandas emblemáticas do BritPop e dos EUA como Blur, Oasis, Nirvana, Pearl Jam e Red Hot Chilli Peppers teriam passado incólumes por meus olhos e ouvidos. R.E.M. e 10,000 Maniacs, duas das referências musicais mais importantes para mim, foram apresentados a mim via Music Television. Mestres da música brasileira como Caetano Veloso, Rita Lee (com ou sem Os Mutantes e/ou Roberto de Carvalho), Tom Zé, Itamar Assumpção, Cazuza, Barão Vermelho, Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Gilberto Gil, Marina Lima, Cássia Eller, Gal Costa, Nando Reis, Zélia Duncan, Pitty, Zeca Baleiro, Planet Hemp, Chico Science, Fernanda Abreu e tantos outros seriam destituídos de qualquer significado para mim se eu não tivesse brigado pela minha MTV. Gigantes do Rock ‘n’ Roll como os Beatles (juntos ou solo), Led Zeppelin, Janis Joplin, The Black Crowes, Bob Dylan, Queen, Deee-Lite, Talking Heads, Radiohead, Metallica, Bom Jovi, Deep Purple, Black Sabbath (com ou sem Ozzy Osbourne), Garbage, Portishead, Lou Reed, Iggy Pop, Peter Gabriel, Eric Clapton e tantos outros não teriam sequer tamanho de um Gulliver sem a presença de seus videoclipes na TV. O mesmo teria acontecido se artífices do Pop do porte de Alanis Morissette, kd Lang, Prince, Annie Lennox (à frente ou não do Eurythmics), Stevie Wonder, Sheryl Crow, Mariah Carey, Human League, Shakira, Whitney Houston, Janet e/ou Michael Jackson, George Michael, Paula Cole, Fiona Apple, Jamiroquai, Beyoncé e tantos outros não estivessem na programação da MTV um dia. O que teria sido de mim sem a elegância de David Bowie, Bryan Ferry e Natalie Merchant?


Se eu não tivesse tido contato com estes nomes via MTV Brasil, eu jamais saberia distinguir o luxo do lixo em matéria de música popular. Em meio a uma era na qual a Internet, os downloads, o Google e o YouTube não tinham popularidade ou sequer existiam, a Music Television brasileira desempenhou um papel cultural fundamental para pessoas que dependiam das antenas UHF, da TV a cabo e da agilidade do Video Cassette.

 

Astrid Fontenelle: a cara da MTV Brasil
Enquanto muitas pessoas do meu círculo de amizades e contatos profissionais assistiam avidamente as atrações que agitaram o Rock In Rio 2013, eu preferi ficar na solidão do meu quarto assistindo o canto do cisne da MTV Brasil desenterrar imagens de arquivo em sessões de retrospectiva enquanto antigos (ex-)VJs se revezavam na tarefa de relembrar 23 anos de trajetória televisiva. Ao rever pessoas como Astrid Fontenelle, Gastão Moreira, Cuca Lazarotto, Luiz Thunderbird, Sabrina Parlatore, Edgard Piccoli, Soninha Francine, Fábio Massari, Marina Person, João Gordo e Chris Couto no vídeo, foi inevitável sentir um gosto de decepção e saudade. Decepção porque a tentativa brasileira de fazer uma MTV à brasileira, no final das contas, deixou de dar certo. Saudade porque todos sabemos que, a partir de 01 de Outubro de 2013, a MTV feita no Brasil passa a ser uma mera sucursal da original norte-americana, para tristeza de muitos parceiros da minha geração (que viveu o ápice da MTV, no decorrer dos anos 1990).
 

Graças às fitas VHS (hoje mofadas, provavelmente!) que foram convertidas em arquivos do YouTube, podemos assistir a mágica da MTV Brasil na Internet. Assim, podemos resgatar um pedaço de um momento marcante daquela programação incomum, anárquica e (às vezes) bizarra, como também, retomar flashes da nossa própria juventude sem evitar o saudosismo inútil e a lembrança de uma era memorável da televisão brasileira que, por forças do destino, atingiu o estágio final do seu ciclo.

Cheers!