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11 de maio de 2021

TROVA # 165

“LONGAS CARTAS PRA NINGUÉM”


“Por que escrevemos?

Porque não podemos somente viver”

(Patti Smith – Devoção)



         Do tempo em que escrevíamos cartas, as pessoas davam uma importância gigantesca a papel, caneta, envelope e selos para que notícias, confissões e juras de amor e de ódio pudessem ser transmitidas para o destinatário que fosse. Com a chegada da Internet, das redes sociais e dos smart phones, tamanho encantamento se desfez e as correspondências perderam a sua intensidade: o avanço das tecnologias provocou uma mudança fatal da relação dos humanos com as palavras e as longas correspondências tornaram-se mais um resquício do passado. Quase toda comunicação relacionada às correspondências se tornou restritamente técnico e objetivo, as confissões mais íntimas viraram “textões” ou foram comprimidas em meros 140 caracteres no Twitter.


        A escolha de um blog para dar conta dos pensamentos e memórias que me habitam poderiam ser as crônicas que eu sempre sonhei na coluna do jornal, no portal da Internet ou (quem sabe?) nas páginas de um livro. A escrita que fiz por anos a fio tem sido além de um diário sentimental ou de um journal de críticas e pensamentos avulsos: todos os textos que passaram por aqui são, de certa forma, cartas. Enquanto as palavras do ciberespaço, do jornal e do livro possuem um destinatário específico, certeiro, as minhas correspondências são “longas cartas pra ninguém”, ou melhor, quase ninguém.

        Em uma entrevista de fevereiro de 1977, Clarice Lispector comentou a respeito de um dos assuntos mais discutidos entre literatos: o ato de escrever. Ao ser indagada sobre sua rotina de trabalho, Clarice foi taxativa ao dizer que nunca tinha sido uma escritora profissional e que só se dedicava à Literatura quando queria. Sua afirmação desconcertou por completo seu entrevistador e o público, já que a autora de A Hora da Estrela e Laços de Família já tinha publicado vários romances, contos e textos na grande imprensa até então. Apesar de eu sempre ter nutrido um enorme amor pela escrita (queria ser escritor desde os sete anos de idade!), nunca consegui me sentir um profissional das letras por dois motivos: 1) o anonimato e o meu talento permanente para ser um anônimo; 2) o fato de ter uma profissão que exige tempo e dedicação. Não me satisfaço com o amadorismo, tampouco com o anonimato. Porém, escrever como alternativa foi a solução possível para que eu extravasasse tudo o que eu gostaria de ser, mas que a vida não me permite que eu seja por conta de compromissos e responsabilidades...


         Confessar uma série de coisas nas páginas do papel e pela Internet afora é uma tarefa incomum para alguém que age com a discrição do anonimato. Era uma maneira de compreender a natureza dos fatos e suas consequências. Era um jeito de expressar a pouca saudade que tenho do passado, a vontade intensa de viver o presente e a loucura insustentável de ter o futuro nas mãos. Ou talvez uma forma de esconder minha própria mediocridade e dar a ela alguma espécie de status. Ou nenhuma das respostas anteriores mesmo, afinal há perguntas para as quais não temos solução.


         No entanto, ainda tenho a breve esperança de que cada texto que escrevi para este blog ou para a coluna de jornal dos meus sonhos possa fazer sentido para alguém, afinal foram mais de 115 mil acessos em nove anos de atividade. Tal qual Brás Cubas, um dos personagens mais célebres da ficção de Machado de Assis, também não tive filhos e não transmiti (até então) a nenhuma criatura o legado de minha miséria. Todavia, deixo vários escritos para a posteridade, um livro publicado e a vontade imensa de vida dentro de mim, apesar da barbárie que se abateu no Brasil e pelo mundo a partir de 2020.


         Faz escuro, mas escrevo e também canto. O mundo pode fazer qualquer tipo de acusação contra mim, menos uma: eu sempre tive histórias para contar. E ainda terrei enquanto tiver um papel, uma caneta e um lápis nas mãos. Porque viver apenas não basta para mim: se eu puder viver tendo a possibilidade de escrever já é algo que me deixa mais feliz. E ser feliz em pleno século XXI é um dos maiores desafios que se apresentam para os seres humanos, especialmente para os que vivem no Brasil...

14 de dezembro de 2020

TROVA # 156

 MINHA AMADA CECILINHA

Uma crônica para homenagear a Santa Protetora dos Músicos

Foto: Nilton Serra


    Já advirto ao leitor destas mal traçadas linhas: esta crônica não é sobre Cecília Meirelles. Também não é sobre Cecilia Bartoli, a soprano italiana que encanta qualquer leigo em matéria de música clássica. Quem sabe até poderia ser sobre Cecília Meirelles, uma das maiores expressões brasileiras em matéria de poesia em Língua Portuguesa. Poderia ser sobre a canção “Cecília”, uma das canções mais belas (e desconhecidas) do repertório de Chico Buarque de Hollanda. Talvez esta homenagem seja sobre nossa afilhada, uma menininha de seis anos que tem uma personalidade tão marcante que renderia uma crônica bem legal. Todavia, nenhuma delas é a musa do texto de hoje.




         Para os que me conhecem bem, Cecilinha é Santa Cecília, não o famoso bairro que fica na região central de São Paulo e que é adorado por nove entre dez jovens descolados, mas a Santa mesmo. Nascida em Roma, Itália, por volta do ano 150 D.C., Santa Cecília era filha de uma família nobre. Cristã, decidiu fazer voto de castidade para vivenciar o amor divino típico dos mártires que se sacrificam pela fé. Em uma era na qual a fé em Cristo era sinônimo de perseguição, foi condenada à tortura. Seu martírio levou muito mais do que se esperava, pois a jovem manteve sua fé inabalável e enfrentou seu destino trágico. Condenada à morte por uma machada no pescoço, Cecília recebeu um golpe fatal, porém ainda chegou a sobreviver por mais três dias e chegou a conversar e dar conselhos para aqueles que vinham rezar por ela. Seu ofício final foi o de cantar até não ter mais forças e morrer como uma das principais mártires da Igreja Católica.


         Desde então, Santa Cecília se tornou conhecida não apenas como mártir, mas principalmente como a Santa Padroeira dos Músicos, cujo dia é comemorado no dia 22 de novembro. Apesar de não ser músico profissional e de não tocar nenhum instrumento musical (fiz aulas de canto por um ano), devo muito do que sou profissionalmente à música. Por outro lado, minha vida acadêmica e profissional está intimamente ligada a versos e sons: eu me tornei Professor de Inglês motivado pelo que ouvia no rádio e conduzi minha vida acadêmica pesquisando o que havia de melhor da música brasileira. No entanto, dois episódios ocorridos comigo no dia 22 de novembro fizeram com que eu concluísse de uma vez por todas de que havia uma luz a guiar o meu caminho de um lugar o qual eu jamais poderia enxergar.


         O primeiro deles aconteceu em 2010. Paul McCartney estava prestes a começar uma turnê brasileira depois de quase duas décadas sem tocar por estas bandas. Tentei comprar ingressos para o show de 21 de novembro, domingo, mas, como existem tantos Beatlemaníacos por aqui quanto membros de torcida organizada, as entradas se esgotaram antes de um mero estalar de dedos. Faltando poucos dias para a apresentação, Macca anunciou que faria um show extra na segunda-feira, 22 de novembro de 2010. Diante da oportunidade de ouro, convoquei uma amiga e partimos em retirada para o Estádio do Morumbi e conseguimos três ingressos de pista para o segundo show da turnê Up and Coming.

Foto: Nilton Serra


         Segundo o relato de alguns amigos que foram ao show de 21 de novembro, Paul fez um belíssimo show para um Morumbi lotado e ensolarado. Tudo indicava uma semana sem catástrofes climáticas. Porém, segunda-feira, essa eterna bagunceira dos ânimos e dos humores do ser humano, nos reservava surpresas eletrizantes: São Pedro, em um péssimo dia, se revoltou e enviou uma tempestade daquelas em cima da Cidade de São Paulo! Mas foi uma chuva daquelas de parar a cidade inteira. Saí mais cedo do trabalho e fui para o estádio com seis horas de antecedência com o coração na boca e preocupado com a possibilidade de não chegar no local da apresentação. 

Entre Fabíola Bueno e Nilton Serra, o autor da maioria das imagens que estão na postagem de hoje.

Era dia de Santa Cecília e, sem que eu me desse conta, o aguaceiro resolveu dar uma trégua no Morumbi minutos antes de Paul McCartney entrar no palco. Para compensar os ânimos, Macca abriu o show tocando “Magical Mystery Tour”, dos Beatles (canção que eu jamais imaginei ouvir ao vivo na vida), alegrando o público já nos primeiros segundos da segunda apresentação de sua turnê por São Paulo. Dez anos depois, ao me lembrar daquele dia, constatei que Cecilinha sempre protege os músicos e os amantes de versos e sons como este aqui que vos escreve.



O segundo episódio no qual Santa Cecília apareceu na minha vida se deu quatro anos do show de Paul McCartney. Estávamos na região de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, para o batizado de nossa primeira afilhada. Por questões profissionais, não tínhamos muita opção a não ser postergar a cerimônia para o feriadão da terceira semana de novembro de 2014, já que a distância entre a capital e Rio Preto é de mais de 400 km. Na manhã de sábado, 22 de novembro, descobrimos que estávamos no dia da padroeira dos músicos e que o nome da pimpolha que estava prestes a ser batizada era Maria Cecília. Por maior que fosse a coincidência, já era mais do que tempo de retribuir as graças alcançadas. Afinal, a vida não é feita de acasos e sempre precisamos retribuir o carinho que recebemos...

O primeiro altar de Cecilinha: o RÁDIO!

Alguns anos depois, ganhei uma imagem de Santa Cecília de aniversário de meus pais. Vivia uma fase feliz na minha vida, tinha acabado de me mudar para um apartamento novo e estava às voltas com móveis e eletrodomésticos novos. Não pensei duas vezes antes de escolher um altar, diria, “um tanto peculiar”, para a santinha: ela passou a ficar em cima do meu antigo rádio, abençoando meu lar ao lado de todos os músicos que desfilavam pelo aparelho de som. 


Porém, a vida gosta de armar algumas surpresas para a gente: Cecilinha ficou soberana de versos e sons em cima do meu antigo aparelho de som até o dia em que o rádio quebrou de vez. Enquanto me acostumava ao meu apartamento novo, segundo em menos de dois anos, e com a bagunça de uma mudança e da falta de espaço, mal sabia onde guardava vários dos meus pertences. Certo dia, em um surto de arrumação, quis colocar minha imagem de Santa Cecília em um local seguro, pois receberíamos visitas para um dia de domingo. Acreditem se quiser, mas toda criança que vem nos visitar fica encantada pelo meu escritório: não apenas por causa dos livros, mas por causa das miniaturas e trecos mil que coleciono e se acumulam no caos.

Por motivos de superproteção, guardei minha amada Cecilinha em um lugar secreto da estante. Lugar esse tão secreto, mas tão secreto que eu nem conseguia mais me lembrar. Eu andava tão estressado nos últimos três meses do ano de 2019 que eu mal imaginava para onde minha imagem de Santa Cecília poderia ter ido. Fiquei triste, frustrado, arrasado e cheguei a procurar outras imagens da santinha para substituir a que meus pais me deram de presente. Nenhuma delas à altura da beleza da original, diga-se de passagem.

Minha Cecilinha ficou brincando de pique-esconde, fazendo a Lindoneia desaparecida por quase três meses comigo. Seu “sumiço” chegou a virar piada aqui em casa, com direito a algumas especulações acerca de seu paradeiro: 1) Cecilinha tinha sido levada por acidente, possibilidade que eu prontamente descartei; 2) Tinha guardado a Cecilinha por acidente nas milhares de caixas que ainda sobraram da mudança; 3) Cecilinha se revoltou porque não havia mais rádio em casa, se revoltou com a minha bagunça e simplesmente teria ido embora em sinal de protesto! Hipóteses completamente descartadas no início de janeiro de 2020, quando ela foi encontrada em uma das prateleiras dos meus livros de música. Ela surgiu reluzente e levemente empoeirada, mas pronta para assumir seu posto definitivo: o novo aparelho de som (bem melhor do que o anterior!) que compramos para a nova casa...

A lição que eu tirei depois das “férias” da minha amada Cecilinha foi bem clara: sempre deixe ela próxima do rádio, para que ela esteja sempre a postos para proteger não apenas os músicos, como todos os artistas e os amigos da arte que são de boa índole e bom coração. Além disso, eu sempre posso recorrer a ela no momento em que eu necessitar de cuidados mais específicos ou apenas quando estiver com vontade de conversar com ela. Se ela iluminou o meu caminho mais de uma vez, não custa deixar ela bem perto do canto mais atraente da casa: aquele que sempre tem uma boa música para a gente ouvir.


         O bom de revirar as caixas que ainda sobraram da mudança foi poder achar uma imagem de São Francisco de Assis, vulgo Chiquinho, o outro santinho daqui de casa. Cecilinha ganhou um parceiro e tanto nas preces e nas conversas íntimas que temos com eles. Eis uma dupla e tanto: enquanto uma protege os músicos, o outro é o protetor dos animais e da ecologia: eis uma parceria de muito sucesso...



7 de setembro de 2017

DISCOS DE VINIL # 41

CHICO BUARQUE – CARAVANAS (2017)




         O vocábulo caravana é originado do árabe e significa comboio de viajantes, peregrinos ou mercadores dispostos a percorrer grandes distâncias. Isto posto, cabe deixar claro que o mote utilizado por Chico Buarque para batizar o seu 23° álbum de estúdio é bastante peculiar: as nove canções de Caravanas fazem referência direta ou indiretamente a alguma espécie de viagem, seja esta literal ou simbólica.


         Caravanas é composto por nove canções: duas já gravadas por Chico Buarque em projetos alheios e sete inéditas. As referências musicais e literárias utilizadas por Chico para compor as novidades de seu repertório são bem distintas: “Tua Cantiga”, faixa de abertura do álbum e escolhida como o primeiro single do disco, é uma parceria do autor de “Meu Caro Amigo” com o pianista Cristóvão Bastos – com quem compôs e gravou “Todo Sentimento”, em 1987. A melodia de Cristóvão foi levemente inspirada em uma obra de Bach e nos velhos lundus que eram compostos na virada do século XIX para o início do século XX. Alvo de polêmicas devido ao verso “Largo mulher e filhos”, os versos da canção expõem um sujeito poético romântico, disposto a se aventurar por sua musa adorada.



         A segunda faixa do CD, “Blues pra Bia”, é outra caravana amorosa: o eu-lírico forjado por Chico compôs uma canção para outra musa: uma figura inacessível graças ao fato de se enamorar por... mulheres! Chico trata da homossexualidade de Bia sutil e delicadamente, algo impensável em termos de música brasileira décadas atrás – “(...) no coração de Bia / Meninos não têm lugar / Porém nada me amofina / Até posso virar menina / Para ela me enamorar”; uma novidade temática para um compositor acusado recentemente de machista e de não estar sintonizado com os tempos atuais.



         “A Moça do Sonho”, parceria de Chico com Edu Lobo, foi composta para a trilha sonora da peça Cambaio, cuja primeira montagem foi dirigida por João e Adriana e Falcão em 2001. Gravada por Maria Bethânia para seu álbum Maricotinha (2001), nunca tinha recebido a voz de Chico. A canção versa sobre uma figura feminina que habita os devaneios mais selvagens do sujeito poético. Uma caravana poética em busca do desejo: “Há de haver algum lugar / Um confuso casarão / Onde os sonhos serão reais / E a vida não / Por ali reinaria meu bem / Com seus risos, seus ais, sua tez / E uma cama onde à noite / Sonhasse comigo / Talvez”. “Jogo de Bola”, a quarta faixa de Caravanas, é mais uma das canções de Chico Buarque sobre uma de suas maiores paixões: o futebol! Falar sobre os prazeres surgidos das coisas mais simples da vida em tempos nos quais a indelicadeza se tornou uma constante no que diz respeito às relações humanas: “Salve o futebol, salve a filosofia / De botequim, salve o jogar bonito / O não ganhar no grito a simpatia / Quase amor / Da guria que antes do apito final / Vai sem aviso embora”.


Dois Chicos: o Buarque e o Brown

         Chico Buarque decidiu fazer conexões com as gerações mais jovens em seu 23° álbum de estúdio. A valsa “Massarandupió” é uma parceria de Mestre Buarque com o neto Chico Brown (filho de Helena Buarque com o músico Carlinhos Brown). Os versos do avô versando sobre o neto, que brincava nas areias da praia de Massarandupió quando menino foram o mote para uma das faixas mais belas de Caravanas. Já a conexão do autor de “Construção” com a neta Clara se deu com a regravação de uma das obras mais belas do cancioneiro buarqueano: “Dueto” foi gravada pela primeira vez para o álbum Com Açúcar, Com Afeto (1980), de Nara Leão e recebeu uma regravação, brejeira e com menções ao amor que existe nas mídias sociais.


Chico ao lado de sua neta Clara Buarque

         “Casualmente”, é uma parceria de Chico Buarque com o baixista Jorge Helder que tinha sido originalmente idealizada para a voz de Omara Portuondo, uma das maiores vozes de Cuba. Na impossibilidade da estrela principal de Buena Vista Social Club gravar a canção em questão, Chico decidiu retomar os trabalhos de composição para o repertório de Caravanas. A caravana em questão faz uma viagem sentimental à Cuba de tempos românticos, que jamais se materializarão novamente: “Não voltará nunca mais / A canção sentimental / Que casualmente em Havana escutei cantar / Uma mulher / Como já não verei / Outra vez nada igual”. Já a oitava faixa do disco, “Desaforos”, é um plácido recado aos tribunais das redes sociais, sempre dispostos a julgar e condenar qualquer um prestes a desafiar as convenções, o senso comum ou o “coro dos contentes”. O recado de Chico é sutil, porém certeiro e claro: “Alguém me disse / Que tu não me queres / E que até proferes desaforos pro meu lado / Fico admirado por incomodar-te assim / Jamais pensei / Que pensasses em mim”. Parece que, depois desta gravação, os detratores da Família Buarque terão muita artilharia para dedicar ao “mulato que [apenas] toca boleros”, petista e que viveria às custas dos incentivos da Lei Rouanet em um suntuoso apartamento em Paris.


Chico ao lado do baixista Jorge Helder,  seu parceiro musical em "Casualmente"

         A última canção do disco, “As Caravanas”, é uma crônica feroz da classe média carioca em um de seus momentos de maior pânico: a chegada de integrantes das comunidades “negras e imundas” nas praias “alvas e límpidas” da Zona Sul carioca em caravanas infindáveis. A alucinação gerada pela luz forte do sol é apenas um pretexto para justificar a sanha violenta de brancos dispostos a fazer uso dos dispositivos mais covardes para se sentir minimamente protegida ou uma fonte de alucinação de quem ouve vozes de negros escravizados em caravelas, reprimidos em transportes públicos sucateados que os levam para o idílio das praias do Leme ou de Copacabana.


         “As Caravanas” é uma das canções mais políticas do repertório de Chico Buarque, pois relata o sentimento mais torpe e medíocre da classe média brasileira a partir de um viés histórico, que muitos de nós acabamos por esquecer. Os versos de Chico ganharam um tom ainda mais forte graças aos arranjos de cordas de Luiz Cláudio Ramos e a participação de Rafael Mike, do Dream Team do Passinho, fazendo beat box. É o fechamento de um dos melhores álbuns de Chico em mais de 20 anos.

Chico ao lado de Rafael Mike, do Dream Team do Passinho


         Apesar de seus brevíssimos 28 minutos, Caravanas é um álbum que merece ser ouvido por ouvintes de todas as gerações para reconhecer o talento indiscutível de Chico Buarque como um dos maiores tradutores da nação brasileira em matéria de canção.


24 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 39

CAUBY PEIXOTO – CAUBY INTERPRETA ROBERTO (2009)


         A dupla Roberto & Erasmo é composta por dois dos compositores mais queridos da música de todo o Brasil: desde os anos 1960, são autores das canções mais amadas pelo público brasileiro em todos os tempos. Nara Leão e Maria Bethânia foram as primeiras intérpretes de peso do nicho da MPB que gravaram álbuns dedicados ao repertório gravado por Roberto Carlos. Nara fez uma releitura personalíssima do repertório do Rei. Bethânia, por sua vez, fez um álbum clássico, com direito a arranjos grandiloquentes de cordas e metais.



         Cauby interpreta Roberto, lançado por Cauby Peixoto no final de 2009, transita por estas duas tendências. Ao mesmo tempo que possui releituras nada convencionais do repertório de El Rey, há (bastante) espaço para arranjos de cordas, metais conduzidos por músicos competentíssimos – Hanilton Messias (piano e flauta), Ronaldo Rayol (violão e guitarra ), Eric Budney (baixo acústico) e Nahame Casseb (bateria) –, fazendo com que a voz de Cauby reverberasse com a intensidade de seu talento.



         A voz de Cauby Peixoto, apesar de não estar mais viçosa e com o mesmo brilho dos anos em que esteve no auge de sua carreira musical, ainda soava muito bem aos 78 anos de idade – ano em que gravou e lançou este disco. Senhor pleno de seu ofício, valorizou os tons graves em cada interpretação das canções de Roberto e Erasmo (de apelo extremamente popular) com enorme sutileza e elegância. “Proposta”, lançada por Roberto Carlos em 1973, abre o disco e atesta o talento e a vasta experiência de Cauby na arte da interpretação musical.


  “De Tanto Amor” (1971) recebeu uma releitura bastante “econômica”: sem arranjos de cordas ou metais e sem os vibratos e dós de peito tão característicos do intérprete de “Conceição”. A emoção da dor de versos como “Eu nada vou dizer, perdoa se eu chorar” está, justamente, no fato de ser entoada de maneira sincera e contida e Cauby o faz com uma precisão quase cirúrgica. É uma das melhores faixas de Cauby interpreta Roberto. Outra faixa na qual o talento de Cauby Peixoto se destaca foi para a releitura de “Olha” (1975), na qual o cantor é acompanhado apenas pelo piano de Keco Brandão. Sugestão do próprio Roberto Carlos para ser gravada por Cauby neste projeto, é outro momento de brilhantismo deste CD.


A terceira faixa do CD, “A Volta”, foi composta por Roberto e Erasmo para o repertório da dupla Os Vips em 1966 e gravada pelo Rei em seu disco de 2005, recebeu um arranjo sóbrio, bem ao estilo bossanovístico, algo não muito comum para Cauby. A quarta faixa do disco é “Sentado à Beira do Caminho”, gravada originalmente por Erasmo Carlos no final da década de 1960 e regravada pelo Tremendão ao lado de El Rey para o álbum Erasmo Carlos Convida... (1980). Levemente dramática e com arranjo de cordas, é a única canção não incluída nas tracklists de álbuns de Roberto. Certamente, uma das escolhas menos óbvias do repertório gravado por Cauby neste disco.


As demais canções escolhidas para Cauby interpreta Roberto são clássicos absolutos na voz de Roberto Carlos. A sexy e lasciva “Os Seus Botões” (1976) recebeu um belo arranjo de sax tenor de Ubaldo Versolato; “Música Suave” (1978), gravada originalmente com uma big band, ganhou contornos jazzísticos, típicos de uma gafieira elegante embalados pela interpretação sutil de Cauby; “Desabafo” (1979) se tornou em um tango argentino elegantíssimo, com um arranjo de cordas contundente de Cintia Zanco; “As Flores do Jardim da Nossa Casa” (1969), “À Distância” (1972) e “Não Se Esqueça de Mim” (1977), como não poderia ser diferente, ganharam releituras românticas, com violinos, cellos e violas para acentuar o trabalho competente da banda e da voz belíssima de Cauby Peixoto.


O encerramento de Cauby interpreta Roberto se dá com uma das canções mais emblemáticas do repertório de Roberto Carlos: “O Show Já Terminou” (1973) poderia ser uma marca tão registrada de Cauby (“O show já terminou / vamos voltar à realidade / Não precisamos mais / usar aquela maquiagem”) quanto “Bastidores” – composta por Chico para a voz de sua irmã, Cristina Buarque – sempre o foi. A produção sóbria de Thiago Marques Luiz faz justiça às canções da dupla mais românticas do Brasil e ao talento de uma das vozes mais belas que o mundo já conheceu: a de Cauby Peixoto.




Cauby interpreta Roberto merece ser ouvido e (re)descoberto por ouvintes e estudiosos da música brasileira. É um álbum que jamais sairá dos autofalantes daqui de casa, muito menos de minha memória afetiva. Uma pena que o show deste trabalho nunca gerou um DVD para que um registro audiovisual atestasse a prova de que Cauby Peixoto era um artista extraordinário... 


20 de julho de 2017

DISCOS DE VINIL # 34

MARIA BETHÂNIA – MARIA BETHÂNIA (1965)


Em 1965, o Brasil estava às voltas com o início de um regime militar que duraria mais 20 anos. Enquanto isso, vários artistas da música brasileira buscavam protestar contra o autoritarismo do sistema político e dos desmandos das elites com uma produção artística de fortíssimo cunho social. Uma das vozes que mais se destacaram naquele período no que diz respeito à chamada "canção de protesto" foi a de Nara Leão, que protagonizou o musical Opinião, ao lado de João do Vale e Zé Kéti. Em pouco tempo, o espetáculo dirigido por Augusto Boal se tornou em um dos maiores símbolos da resistência artística contra a ditadura.

Nara Leão entre João do Vale e Zé Kéti

Entretanto, Nara Leão não conseguiria encabeçar o elenco de Opinião até o final da temporada (abril de 1965) devido a um intenso desgaste em suas cordas vocais, o que lhe obrigava repouso absoluto. Em suas andanças pelo Brasil em busca de novos cantores e compositores, Nara descobriu um grupo de artistas formidáveis que viviam em Salvador, um dos maiores polos culturais de nosso país na época. São eles: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Maria da Graça (mais tarde conhecida entre nós como Gal Costa) e a jovem Maria Bethânia, irmã mais nova de Caetano. Foi esta jovem nordestina de Santo Amaro da Purificação, cidade localizada no recôncavo baiano, que foi escolhida pela intérprete de "Diz Que Fui Por Aí" para o seu papel no musical de Augusto Boal.

Maria Bethânia entrou para o elenco do musical no início de 1965

Ao chegar no Rio de Janeiro para cumprir a etapa final da temporada de Opinião, Maria Bethânia chocou uma parcela considerável de espectadores – sua árida persona contrastava com a doçura angelical de Nara Leão: magérrima, nordestina, cabelos crespos presos em um coque, nariz adunco, voz grau é infinitamente potente, a artista conquistou o público através de sua extraordinária dramaticidade. O ponto alto das apresentações de Bethânia era a sua interpretação agressiva de "Carcará" (João do Vale e José Cândido): ao final do número, ela recitava números de um relatório da SUDENE sobre o êxodo de nordestinos para regiões mais desenvolvidas do país (10% do Ceará, 13% do Piauí, 15% da Bahia, 17% de Alagoas) para encerrar com o apoteótico "pega, mata e come".




A partir de então, "Carcará" se associou a sua intérprete de tal maneira ao ponto de Maria Bethânia se recusar a cantar a canção durante um bom tempo. Afinal, a jovem artista não desejava ser apenas uma musa das esquerdas festivas cujo repertório era composto exclusivamente de canções de protesto. Dentro do universo de Bethânia, também havia espaço para os sambas de roda do recôncavo baiano, para os sambas de morro, para as marchas-rancho, para o cancioneiro refinado de Caymmi e Noel, para o romantismo do samba-canção, além dos trabalhos inéditos dos jovens compositores de sua geração – Caetano Veloso, especialmente.


O primeiro compacto de Bethânia apresentava "De Manhã", primeira canção de seu irmão Caetano Veloso gravada em disco.

O álbum de estreia de Maria Bethânia foi lançado pela RCA Victor em junho de 1965 e é um retrato fiel não apenas do talento de uma jovem artista (às vésperas de completar 19 anos de idade), como é uma amostra e tanto de seu extenso universo musical - além de "Carcará", sambas de Batatinha e Noel Rosa figuram lado a lado de canções de João do Vale, Braguinha, Monsueto e de Caetano Veloso, lançado ao mundo artístico (junto de Gal Costa –  o dueto das duas em "Sol Negro" é um dos melhores momentos deste disco) por Bethânia.

Bethânia & Gal


À irmã de Caetano Veloso faltava naquela época muita técnica e suavidade, porém sobrava bravura, ousadia e emoção – três elementos mais do que necessários para atravessar tempos tão complicados como os de 1965 no Brasil...