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31 de dezembro de 2020

TROVA # 157

 

O CANSAÇO DA ESPERANÇA

Como o ano de 2020 cansou com algumas de nossas esperanças?

 


“Esperança cansa
Cansa de esperar
Já não tô podendo mais
Minha paciência é a razão
 

Minha fúria odiosa já tá na agulha
Minha fúria odiosa já tá na agulha
E um dia poderosa
Poderá dizer que acha tudo muito pouco
 

Fugir quando estiver desesperada, abandonada
E de repente voltar
Cansada esperada
Desapropriada
Fúria amansada descansa
 

E de repente, volta
Cansada esperada
Desapropriada
Fúria amansada descansa
”

(Karina Buhr, 2010)

 



Se você chegou até aqui, é porque sobreviveu junto comigo e junto de tantos outros que fizeram com que as coisas valessem a pena. Escrevo este texto faltando menos de 24 horas para o apagar das luzes do ano da (des)graça de 2020 na tentativa de encontrar uma lógica coerente ou um pouco de esperança para o próximo ciclo de 365 dias que está a caminho. A dificuldade é imensa, já que vivemos anos bastante difíceis: uma pandemia que ceifou a vida de quase 200 mil brasileiros e contaminou (oficialmente) mais de 7 milhões e meio de pessoas; uma crise política permanente aliada a retrocessos econômicos, minando quaisquer possibilidades de avanços sociais;  os órgãos de imprensa vivem sob ataque constante do Governo Federal enquanto milhões retornam ao mapa da fome.

Sempre haverá um ou outro que pode me acusar de pessimista, ou de ser movido apenas por uma “fúria odiosa”, algo totalmente compreensível em tempos de tamanha intolerância. Porém, aproveito para me defender citando uma frase famosa do escritor português José Saramago que se encaixa com perfeição no ano de 2020: “Não sou pessimista, o mundo é que é péssimo!”. Os três exemplos que citei já são suficientes para derrubar a esperança de qualquer um para dar voz ao cansaço.

Mas, apesar de estar exausto de “tanto horror e iniquidade”, como nos disse Chico Buarque, a empatia que ainda habita o meu ser ainda me faz ligar o noticiário para assistir os acontecimentos do Brasil e do mundo durante o período de festas. O resultado é ainda mais desastroso: vejo pessoas curtindo a vida lá fora como se não houvesse um vírus que já matou milhares de pessoas e que tem levado os sistemas de saúde ao colapso – festas clandestinas, reuniões familiares com dezenas de pessoas, hotéis funcionando quase normalmente, máscaras faciais colocadas no queixo ou em lugar nenhum, um desapreço total pelos médicos e cientistas, que nos advertiram dos riscos de contaminação. Para os poucos que ainda estão em confinamento, como eu, ver essa turba toda se divertindo pela TV e pelas redes sociais (ambientes tóxicos por natureza!) é uma ofensa, um desrespeito, um deboche explícito: com medo de me infectar, estou em casa há mais de 9 meses e posso contar nos dedos das mãos quantas vezes eu saí de casa para ir ao trabalho, ao supermercado, ao correio ou ate a farmácia.

 


Deixando as festividades um pouco de lado, vamos fazer um breve retrospecto de alguns fatos e acontecimentos que sacudiram o ano? Enumero alguns deles...

2020 foi mais um ano no qual o racismo mostrou novamente a sua face mais perversa ao Brasil e ao resto do mundo. Para ficarmos apenas em nosso território, aproveito para retomar dois dados alarmantes: Primeiro: MAIS DE 2.000 CRIANÇAS E ADOLESCENTES FORAM MORTOS POR POLICIAIS ENTRE 2017 E 2019; Segundo: ATÉ O INÍCIO DE DEZEMBRO DE 2020, 12 CRIANÇAS E ADOLESCENTES FORAM ASSASSINADOS PELA POLÍCIA APENAS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO! Com a pandemia e com a maior quantidade de pessoas em casa, tivemos de prestar mais atenção a casos hediondos de vidas ceifadas pela irresponsabilidade de quem deveria proteger a sociedade. Fato ainda mais estarrecedor: a maioria das vítimas era negra. Em um texto publicado na Folha de S. Paulo de 6 de dezembro de 2020, afirmou Thiago Amparo, advogado e professor de Direito Internacional: “Balas não são perdidas, porque sempre acham os mesmos corpos negros para os quais foram disparadas.”

Diante do massacre praticado contra negros e pobres, eu me pergunto que tipo de “Boas Festas” tiveram os familiares das primas Emilly e Rebeca, mortas por uma “bala perdida” na frente de casa? Que tipo de “Boas Festas” tiveram os familiares de João Pedro Pinto, de Leônidas Oliveira e de tantos outros mortos pela irresponsabilidade do Estado enquanto famílias brancas puderam comemorar o final de 2020 com toda a irresponsabilidade que eles julgavam ter direito?

Outra palavra que ouvimos aos montes durante o ano da (des)graça de 2020 foi feminicídio. Graças ao assassinato brutal da juíza Viviane Arronenzi pelo marido na Véspera de Natal, os noticiários aproveitaram a ocasião para noticiar outros casos cruéis de mulheres que tiveram suas vidas interrompidas por seus respectivos (ex-)maridos, namorados e companheiros. Com todo o respeito à memória e às filhas da Juíza Viviane, eu me pergunto: precisou que morresse uma mulher branca de forma perversa para que a opinião pública voltasse seu olhar para um problema que atinge mulheres negras aos montes?

 



Nesta época, na qual celebramos o nascimento de Jesus Cristo, deveríamos buscar a reflexão, o amor pelo próximo, a tal da empatia que muitos citam e raramente praticam. Em um texto escrito no Natal de 2014, Guilherme Boulos escreveu algo que ainda se encaixa no Brasil de hoje: “Jesus dedicou sua vida à igualdade, à justiça e à paz entre os povos. Se reaparecesse (...) no Brasil, ficaria espantado com o que dizem e fazem muitos dos cristãos. Seria achincalhado com palavras inomináveis nas seções de comentários da Internet. Seria chamado de bolivariano na Avenida Paulista. Certa comentarista de telejornal o mandaria levar para casa a mulher adúltera que ele salvou do apedrejamento. E alguém, de dentro de algum carro no Leblon, gritaria: ‘Vai pra Cuba, Jesus!’.” Cristãos da boca para fora existem aos montes, levar os ensinamentos bíblicos a sério é algo não permitido pela hipocrisia de cada um. É muito mais cômodo agir como Pôncio Pilatos e lavar as mãos diante da barbárie que se pratica diariamente.

Ficar em isolamento dentro de casa seria um exemplo de olhar para o seu semelhante para que ele não entrasse para as estatísticas que os veículos de imprensa noticiam às 8 da noite com o objetivo de nos informar quantos foram infectados e quantos morreram em 24 horas. Abdicar de festas em família com mais de 10 pessoas seria um ato de sensatez. Dizer não para o convite do amiguinho e ir para qualquer parte seria outro exemplo de sanidade mental. Defender a vacinação para todos os brasileiros o quanto antes enquanto outros países do mundo já estão se vacinando seria ter princípios éticos bem consolidados dentro de si. No entanto, como se diz por aí, miséria pouca é bobagem: bom senso não é algo que faz parte do repertório de todo mundo.

 


Confesso: minha esperança está bem cansada em relação ao que virá. Reitero: cansada, mas (ainda) não está morta! Por isso, procurei ouvir a voz visionária dos artistas para encontrar forças e seguir em frente diante das tragédias. Muitos me ofereceram o conforto por meio de sua arte e me ajudaram a pensar o contexto atual com mais tranquilidade. Por isso, lembro-me de Patti Smith, uma das pessoas que mais me inspiram nos dias de hoje, que estou bem próximo dos 40 anos de idade: “O povo tem o poder / de consertar o trabalho dos tolos”. As linhas que eu escrevo talvez não tragam o conserto para muita coisa, mas me auxiliam a renovar as esperanças para o futuro. Afinal, o que se cansa pode se renovar. Aquilo já morreu, morto está e vai ficar. Sigamos em frente, com ou sem o cansaço para combater a barbárie...



16 de novembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 7

KARINA BUHR – SELVÁTICA (2015) 



“As mulheres tem servido por todos esses séculos como espelhos que possuem o poder mágico e delicioso de refletir a figura do homem com o dobro do seu tamanho natural.”
(Virginia Woolf – A Room of One’s Own)


Se realizarmos uma pesquisa a respeito de como a música brasileira tem retratado a figura da mulher no decorrer dos anos, vamos chegar à conclusão lógica, clara e evidente de que a fala feminina ela é, na verdade, uma extensão do pensamento masculino: a Amélia de Mário Lago sempre será querida pelo público por ser a fêmea “de verdade” que lava, passa e faz as vontades e desejos de seu macho; a Marina de Caymmi, coitadinha, nem poderia sequer utilizar uma maquiagem para se sentir mais bela, visto que a noção de beleza é definida pelo macho que canta.
Erasmo Carlos, em uma de suas mais belas canções, não apenas pediu inspiração, como também deu uma pequena voz àquelas que não podiam se expressar. Chico Buarque, travestido de mulher em versos, conseguiu traduzir uma parcela dos desejos e contradições da “alma feminina”. Rita Lee, quando era a mulher mais importante da música popular deste país, soube dar voz a uma série de questões que vivíamos na ordem do dia para aquelas que sempre foram reprimidas sumariamente por aqueles que amaram.


Karina Buhr é uma das poucas artistas femininas dispostas a reescrever a história da figura feminina na música brasileira: seus discos, seus desenhos e seus poemas clamam pela defesa das mulheres em geral, em um mundo ideal no qual a igualdade de direitos deveria valer para ambos os sexos. No entanto, o Brasil ainda necessita de manifestos feministas em pleno século XXI para entender o quanto a luta por direitos iguais ainda é necessária e relevante. Selvática, terceiro álbum de Karina, é muito mais do que um simples disco: trata-se de um manifesto que afirma a necessidade do empoderamento da figura feminina em meio à cena contemporânea. A ideia em relação ao conceito deste trabalho surgiu a partir da leitura de uma passagem do livro do Gênesis, da Bíblia (um livro machista, deixemos bem claro), que fala a respeito da criação dos animais selváticos (cobras, insetos e outros bichos peçonhentos) – as mulheres em geral, por serem criaturas ligadas ao pecado e por serem supostamente traiçoeiras e dotadas de fragilidade, também deveriam ser consideradas como selváticas. A artista justifica que sua proposta reside no fato de que é preciso reescrever uma história pautada em silêncio e opressão, visto que os fatos históricos foram escritos e proclamados pelos homens.
A comoção em torno do álbum começou a tomar conta das redes sociais em setembro de 2015 quando a capa do disco foi divulgada na página mantida por Karina Buhr no Facebook. A imagem – que mostra a cantora sem camisa (o que implica os seios à mostra) é caracterizada como uma guerreira do Daomé, com colar, pulseiras e um punhal já demonstrando estar preparada para o combate – foi censurada com a alegação de nudez explícita. O que o Sr. Mark Zuckerberg – e a ala conservadora que tem tido voz e espaço neste país ignora solenemente – é o fato de que o adjetivo selvático significa algo próprio das selvas, que nasce e/ou se cria por lá. A postura, infelizmente, não surpreendeu Buhr, que afirmou ao portal G1 no auge da polêmica: “Achava que o Facebook poderia tirar a foto, bloquear meu perfil ou até a página, como já aconteceu outras vezes, por exemplo, com o fanzine digital ‘Sexo Ágil’, que faço desde 2012 e onde sempre tem peitos. Mas não deixaria de postar a capa do meu disco, nem méis desenhos, nem nada, por conta disso”.
Se Karina Buhr tivesse que atender às expectativas de seus censores (machos, machistas e feminazis exercendo o pior de seu patrulhismo ideológico, político e estético), como ela deveria retratar o conceito de um ser selvagem ou silvestre? Vestindo roupas de Christian Dior para agradar aos que teriam se sentido supostamente agredidos por um par de belos seios?! Enquanto a patrulha em torno dos corpos femininos tomava conta das redes em nome da tradição, dos bons costumes em prol de uma suposta vaidade da artista, outros decidiram repostar e recriar a controvertida foto em seus perfis como um ato de protesto, o que rendeu um efeito instantâneo: a curiosidade em torno do CD aumentou de maneira impressionante, apesar da onda hipócrita e reacionária constante…
Antes de tecermos quaisquer considerações acerca das canções do disco, é importante dizer que Karina Buhr contou com um time de músicos de primeiríssima categoria para as gravações de Selvática: Bruno Buarque (bateria, MPC e percussão), MAU (baixo), André Lima (teclados), Guizado (Trompete), Fernando Catatau e Edgard Scandurra (guitarras). O CD ainda contou com as participações especiais de Manoel Cordeiro (guitarra), Laura Lavieri (vocais), Victor Rice (violoncelo) e da aparição das vozes selváticas de Denise Assunção e Elke Maravilha. A produção do álbum ficou a cargo de Buarque, MAU, Lima e Rice, que gravaram as faixas entre os meses de junho e julho de 2015.

André Lima, Karina Buhr, Bruno Buarque, MAU e Victor Rice (sentido horário)


A faixa de abertura, “Dragão”, ajuda o ouvinte a ser inserido no contexto do disco. Como uma fera que chega sorrateiramente diante de sua presa, o discurso de Karina nos envolve em um belo reggae que nos diz que “a tristeza é amiga da onça, / que ensina a enfrentar leões”, dentre os milhares que devem ser combatidos pelo dia-a-dia. No entanto, a temporária calmaria era um passo em falso para o ouvinte menos avisado de Selvática, visto que a segunda faixa do álbum é o rock “Eu sou um Monstro”, fala de clichês femininos e da necessidade da mulher de abandonar o estado de apatia em um universo majoritariamente misógino e que consegue abalar as estruturas emocionais de qualquer indivíduo através dos versos diretos de Buhr e da guitarra incendiária de Edgard Scandurra:

Mulher, tua apatia te mata
Não queira de graça
O que você nem dá pra você, mulher
Hoje eu não quero falar de beleza
Ouvir você me chamar de princesa
Eu sou um monstro
(…)


O peso da agressividade do primeiro single de Selvática abre espaço para a terceira canção do disco, “Conta Gotas” (Karina Buhr & Guizado), que se destaca pelos solos lancinantes do trompete de Guizado, que interagem com a poesia cortante de Karina, que revela a típica tristeza proveniente de lágrimas derramadas, lástimas ditas de maneira veloz e imperdoável e pensamentos a voar livremente diante de uma relação amorosa supostamente marcada pela infelicidade constante. Já a faixa seguinte, a desaforada “Pic Nic” (com destaque para os riffs nervosos de guitarra de Fernando Catatau, integrante do grupo Cidadão Instigado), é uma nota raivosa, irreverente e debochada ao universo pequeno-burguês e suas mediocridades, com seus ímpetos de ganância (um cacoete masculino?) e seu elenco de indivíduos supostamente descartáveis. Eis os versos de Buhr, repletos de sarcasmo e deboche:


Não me importa de onde vem o dinheiro dele
Vai ter churrasco não sei onde botou o gelo ele
Tem pó de serra, cerveja em cima da mesa
Tem pés em baixo da minha mesa

Não tem graça, não tem graça, toalha de picnic
Não tem graça, não tem graça, toalha de picnic
Não tem graça, não tem graça, toalha de picnic

Não quero saber porque você veio
Nem de sua cerveja, seu gelo, sua ganância
Eu também prefiro coisas
Eu também prefiro coisas
Eu também prefiro coisas
Eu também prefiro coisas

Seu filho ri enquanto o meu chora
Você chama o psicólogo
Eu jogo você fora

Chame o psicólogo!
Chame o psicólogo!
Chame o psicólogo!
Agora, chame o psicólogo!

Corre, pega o gelo
Corre, frita a carne
Corre, não reclama
Corre, não faz drama

Corro pra minha vida
Acordo pra corrida
Corro pro salário
Seu esquema otário

(…)



A quinta e a sexta faixas de Selvática são os dois números mais fortes e ligeiros do disco. “Esôfago”, de Karina Buhr, fala da violência doméstica sofrida por milhares e milhares de mulheres que nunca tiveram a oportunidade de ter seus males reparados por uma sociedade misógina e injusta. “Cerca de Prédio”, parceria de Buhr com Cannibal (baixista e vocalista da banda punk Devotos), versa sobre a especulação imobiliária e do clima sufocante que tomou conta dos grandes centros urbanos. Os versos da canção refletem a impossibilidade do indivíduo de se reconhecer em meio à cidade que o reprime e não o acolhe:


Não te reconheço, minha cidade
Não deixe, não se abandone
Com promessa de felicidade
O asfalto quente consome

Carnaval eu volto
Me espera
Com tanto pé de planta
Você de primavera

Cidade ouve seu grito
Dia de hoje um corte bruto
Estúpido
Estúpido
Estúpido
Estúpido

Não te reconheço, minha cidade
Não deixe, não se abandone
Com promessa de felicidade
O asfalto quente consome

Quando der eu volto, me espera
Me leve pro seu mundo
Um poço de calma
Que alivia a alma
Entristece coração

O tempo faz isso com a gente
O tempo faz isso com a gente
Move montanhas diálogos
Muda o compasso com os passos

Planta dos pés no chão
queimando cansaço
Algumas coisas mudaram
Grades, janelas
Acho que a casa é aquela
Agora é amarela
Planto meus pés na cidade
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Cerca de prédio


Os três números seguintes do terceiro álbum de Karina Buhr são os momentos mais poéticos e reflexivos do disco. “Vela e Navalha” e “Rimã” vão da descrição hábil de uma bela guerreira ao momento de plena devoção à natureza que nos regenera é que merecia maior respeito por parte dos humanos.




No entanto, é a nona faixa de Selvática, “Alcunha de Ladrão”, que expõe o talento genuíno de Buhr para escrever versos. Ao relatar o cotidiano cruel de um ser marginalizado pelo chamado “avanço social”, a autora de Desperdiçando Rima consegue retratar com clareza algumas das principais mazelas do Brasil – a fome, a miséria, a desigualdade social, a repressão policial, o descaso das autoridades perante os excluídos:


Solução às vezes nenhuma
Ou vês alguma saída
Se não tem esperança sobra
Quando tem ela pede comida
Sofrida a boca esquece
Do barulho do estômago aflito
Que o bico seca sem água
Que exige e consegue viver
Que não quer mas precisa, de fome,
Pensar rápido, roubar e correr

Não era esse o seu ofício
Nem o que sonhava pra si
Mas a fome não mede o porvir
E exige na pança o peso
Se ileso consegue fugir
Não entende como passou
Só sabe que precisava
Não teme quase nada
Suas asas que seguem inteiras
Pairam na beira do perigo
Não tem vicio praticamente
não sente arrepio na vista
não tem quase medo de nada
mas teme ainda a polícia



“Desperdiço-te-me”, penúltima canção do disco, é um belo texto sobre paixão e desilusão amorosa. Tal qual uma Carolina buarqueana que vê algo de essencial passar diante de seus olhos tristes sem esboçar quaisquer reações, a Karina Buhr destes versos também se revela como uma mulher dominada pela apatia infeliz de um sentimento avassalador, que vence sua presa pelo cansaço:

Quando você botou o dedo
No meu coração
Abriu um rio
Abri meus olhos
Vi que a sala estava escura
Que brilhava a pele dura
De paixão

Hoje desperdiço-me
Sentada nesse jardim
vendo a vida passar por mim assim
Hoje desperdiço-me
Vendo um pedaço da vida
passar por mim e ir

E não faço nada pra conter
O desvio de poder sobre mim
Que passou de miim pra você
Quando te vi pela segunda vez

Então desperdiço-te-me
Nesse cansaço da vida
que passa por mim

Selvática chega ao fim com a canção-manifesto que dá nome a esta coleção de 11 canções irrepreensíveis. Karina Buhr se propõe a reescrever a história das mulheres a partir do momento presente, resgatando o instinto guerreiro contido em cada indivíduo do sexo feminino que tenha sido vítima de misoginia, de agressão ou de qualquer desmando gerado pelo sexo oposto, abrindo caminho para a liberdade de um sexo tido como inferior ou supostamente frágil:

Refaço! Rechaço!
Não lhe devemos nada
não nos verás na escuridão como capacho
nos temporais amargos
dias penumbrosos anoitecidas
Não moveras do corpo um pelo
a tempestade é vencida
Selváticas, por amor ensandecidas.
Não as tocarão manadas apedrejantes.
Selváticas, de vitórias surpreendentes munidas
cavalgam amazonas delirantes.
Guerreira que bebe sangue
arco e flecha do Daomé
viço do bicho, ebó de mangue
jurema da favela
óleo de palma pra ela
alma na planta do axé


A partir da primeira feitiçaria atirada por Karina aos seus ouvintes sem sinal de dó, surgem duas vozes selváticas que irão corroborar a história a ser reescrita. Denise Assunção (irmã do Nego Dito Itamar Assumpção) reencarna as guerreiras africanas selváticas e lança suas profecias em formas de versos, gritos e uivos desesperadores:


O eclipse perdurará
acharás palha no agulheiro e transmutarás
Perfurarás o mal seu e o alheio e o enforcarás
com o cipó da própria raiz segura
costura de árvores nas alturas
não espirrarás tua violência amanhecida
tantas vezes na aprovação da multidão
tua sanha virará só coração
sem arranhão, nem ferida
Choro trufado, pedregoso
umedece o olho arranhando
refinando a vista embargada
guerrilheira curda vitoriosa
nas curvas das serras teimosas
Mulheres, conforme a espécie na guerra
esbravejam a dor da Terra em uivos
lhes crescem pupilas ruivas
uvas bacantes semeadas
oliveiras palestinas suculentas
avisam: já não há quem possa

Denise Assunção e Karina Buhr na choperia do SESC Pompeia
Foto: Nilton Serra


Elke Maravilha, a segunda voz selvática a aparecer, relembra as mulheres que foram levadas às inquisições por feitiçaria ou qualquer outro tipo de pecado.  Ela nos avisa que os fatos históricos serão reescritos de forma que as cicatrizes indeléveis gravadas em vários corpos femininos sejam finalmente esquecidas – independentemente da aprovação dos homens:

Chifres de marfim nascem devagar
a empurrar entremeando os cabelos
Afiam-se dentes-pontas-de-diamantes
estraçalhadores fulminantes de pecadoras maçãs
Vãs as imagens delas
conforme a sua semelhança
bailarão lança e festança
extirparão o sumo da memória criminosa
refarão a história e a prosa
de tuas eternas inquisições de fogueiras
em beiras de abismos baderneiras flamejantes
ciganas a postos abafarão os berreiros constantes
em fogosas rosas gigantes
filhos meus, os seus e os nossos
Selváticas, elas não necessitam seu elogio
Ela transgride sua orientação

A profecia de Elke, concluída com uma gargalhada típica de uma bruxa horripilante, dá espaço para a conclusão do manifesto de Karina Buhr, que lança mão da prosódia religiosa e finalmente sentencia para concluir, no dizer da filósofa brasileira Márcia Tiburi, esse “heavy metal-macumba feminista, esse deboche bíblico-diabólico, tentando entender o teratológico gênero musical que só a Karina podia inventar para reunir bruxas, fadas, amazonas, iluminadas e guerreiras, perdidas e vitoriosas”:

Refeito o começo bíblico
não ferirás nenhum corpo por ser feminino
com faca, ou murro, ou graveto
eu te prometo
sedarás o mal, interceptarás no meio do caminho o espeto
Super heróis de tuas vítimas estancadas
agora és delas a espada e não o algoz
Selvática, ela come a selva de fora
ela vem da selva de dentro!
Selvática, ela pare a própria hora
ela bale em pensamento!
E no final ideal não terás domínio
algum sobre mulher alguma!
No final ideal não terás domínio
sobre mulher alguma!

Karina Buhr reescrevendo a história das mulheres na canção brasileira a partir do livro do Gênesis
Foto: Vinil

É importante acrescentar que este álbum possui um sem-número de simbolismos que não caberiam em nossa análise. No entanto, é importante citar uma aqui, a partir de um post feito na página de Karina Buhr no Facebook, poucos dias após o lançamento do CD: no caso, foi feita a lembrança em relação aos Bereber, um povo bárbaro e selvagem baseado em uma cultura essencialmente matriarcal, surgido há mais de dois mil anos. Estes indivíduos ocupam a região de Magreb, que fica entre a Argélia, a Tunísia e o Marrocos e preveem ser chamados de “Amazigh”, que significa em português, “pessoas livres”. As mulheres desse povo longínquo são caracterizadas pela beleza e pela força, além de sempre conseguirem manejar armas brancas com notável destreza e de estarem sempre vestidas com muitas pulseiras, colares e outros tipos de ornamento. Sua rainha mais importante viveu por volta do ano 600 e tinha o dom da profecia: foi batizada como Dihya, mulher-luz e rainha dos selvagens, conhecida por todos os seus como Kahina, nome utilizado para denominar todas as sacerdotisas e feiticeiras. Na língua de Camões, este nome ficou conhecido como Karina…
Se os reacionários de plantão tivessem ouvido o disco com atenção e fizessem um mínimo de pesquisa pelo próprio Google ou Facebook antes de julgar o conteúdo pela capa, teriam chegado à óbvia conclusão de que a imagem da capa de Selvática não é apenas um mero convite à afronta ou uma mera demonstração de egolatria, mas um manifesto corajoso muitíssimo bem fundamentado, algo que não se vê na música brasileira há muito tempo. 
Por isso, aproveite a chance e deixe-se enfeitiçar por este manifesto em prol da liberdade chamado Selvática, um disco que já nasce com a pecha de clássico – em nome das mulheres, em nome da igualdade, em nome da poesia e da música de boa qualidade!


ESTE TEXTO FOI ORIGINALMENTE PARA O SITE PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS!