17 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 38

MARISA MONTE – MM (1989)


         Marisa de Azevedo Monte era uma menina graciosa de 21 anos quando desistiu de ser cantora lírica em Roma para se aventurar pelos territórios da música popular. A infância e a adolescência sempre foram marcadas pela música: seu pai, o engenheiro Carlos Saboia Monte foi um dos diretores da Portela, uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro. Além disso, Marisa estudou piano, canto e bateria. Aos 12 anos, participou de uma montagem de Rocky Horror Show dirigida por Miguel Falabella.
         Ao retornar de Roma para a Cidade Maravilhosa, Marisa Monte procurou o produtor e compositor Nelson Motta para montar o seu primeiro espetáculo solo. O repertório escolhido pelos dois era bastante abrangente – de Mutantes a Carmen Miranda, passando por Peninha, Luiz Gonzaga, Kurt Weill, Candeia e Waldick Soriano. A turnê, batizada de Veludo Azul, fez com que Marisa cantasse por várias cidades do Brasil durante o ano de 1988, com direito a aparição na mídia da época e o respeito da crítica. Inclassificável, os meios de comunicação a tacharam como uma artista “eclética”, por ter dificuldade em assimilar a diversidade que sempre foi a marca do trabalho da filha de Carlos e Sylvia Monte.


         Os convites das gravadoras para a realização do disco de estreia não faltaram. Depois de várias propostas rejeitadas, Marisa Monte decidiu assinar com a EMI. Com exceção de uma faixa, MM foi gravado ao vivo durante uma apresentação ao vivo em maio de 1988, sem retoques ou recursos de retoques na voz. Uma medida bastante incomum em termos de marketing estratégico de lançamentos de novos artistas, diga-se de passagem.


      MM é composto de 12 canções – 11 regravações e uma adaptação de um sucesso italiano para o português: Nelson Motta adaptou a letra de “E Po' Che Fa”, do italiano Pino Daniele, para o português. “Bem Que Se Quis” se tornou o primeiro sucesso de Marisa Monte e foi uma das mais tocadas nas rádios brasileiras do ano de 1989 e foi tema da personagem de Lúcia Veríssimo na novela O Salvador da Pátria, da TV Globo. A faixa de abertura é uma versão pungente de “Comida”, de Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Marcelo Frommer, uma das canções mais emblemáticas do repertório dos Titãs. Do universo do Rock nacional, Marisa regravou “Ando Meio Desligado”, de Rita Lee e dos irmãos Sérgio e Arnaldo Dias Baptista, um dos números mais importantes do repertório dos Mutantes.


         A terceira faixa do disco é uma regravação de “Chocolate”, uma das canções mais interessantes do repertório de Tim Maia, por quem Marisa Monte sempre considerou como uma de suas principais influências. O jingle de Tim, uma declaração de amor a um dos doces mais adorados pelos seres humanos, foi uma oportunidade e tanto para que Marisa fizesse um protesto a favor da liberação das drogas através dos versos, inclusos por ela:

“Não quero pó
Não quero rapé
Não quero cocaína
Eu só quero chocolate
Só quero chocolate
(Legalize marijuana!)
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber”


         Do mundo do samba, Marisa Monte resgatou três clássicos do gênero: “Preciso Me Encontrar”, uma das criações mais célebres de Candeia, foi um enorme sucesso na voz de Cartola. “Lenda das Sereias, Rainha do Mar” foi um dos temas de samba-enredo mais populares da história do Carnaval carioca. Por fim, “South American Way” (Al Dublin & Jimmy McHugh) é um dos números mais significativos do repertório que fez de Carmen Miranda uma das maiores lendas do showbiz internacional.
         O trunfo principal de MM é a diversidade de ritmos (Rock, Soul, Samba...). A regravação do Forró “O Xote das Meninas”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, em ritmo de Reggae e a versão espetacular de “Negro Gato” (Getúlio Côrtes) em uma levada Blues com pitadas de Samba evidenciam o quanto Marisa Monte é uma cantora versátil, ousada e marcante. Já as três faixas finais do disco são releituras de clássicos da canção em língua inglesa: “I Heard It Through The Grapevine” (Barrett Strong & Norman Whitfield), um dos números mais importantes do repertório de Marvin Gaye; “Bess, You Is My Woman Now”, um dos números mais belos da ária Porgy & Bess, dos irmãos Gershwin, contou com a participação especial do grupo Nouvelle Cuisine; “Speak Low” (Kurt Weill & Ogden Nash), a única faixa gravada em estúdio, é uma homenagem ao estilo de cantar de João Gilberto.


         O disco de estreia de Marisa Monte é o retrato fiel do talento de uma das artistas mais talentosas da música brasileira. Um trabalho que merece ser reouvido para que sempre possamos nos lembrar da beleza do canto de uma das sereias mais belas do Brasil...   


13 de agosto de 2017

TROVA # 132

A CANTILENA DOS MORALISTAS


“Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E, estrada afora, te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

Quando teu coração suplicar
Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir

Na nossa casa
Serás rainha
Serás cruel, talvez
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre mais feliz

Silentemente
Vou te deitar
Na cama que arrumei
Pisando em plumas
Toda manhã
Eu te despertarei

Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E, estrada afora, te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Entre suspiros
Pode outro nome
Dos lábios te escapar
Terei ciúme
Até de mim
No espelho, a te abraçar

Mas teu amante
Sempre serei
Mais do que hoje sou
Ou estas rimas
Não escrevi
Nem ninguém nunca amou

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

E quando o nosso tempo passar
Quando eu não estiver mais aqui
Lembra-te, minha nega
Desta cantiga
Que fiz pra ti”
(Chico Buarque & Cristóvão Bastos, 2017)


A partir da década de 1990, Chico Buarque começou a dividir suas atenções entre a música e a literatura. Enquanto o ambiente literário ganhou obras ficcionais de fôlego como Estorvo (1991), Leite Derramado (2009) e O Irmão Alemão (2014), o ambiente musical nacional passou a sentir falta do filho mais ilustre do historiador Sérgio Buarque de Hollanda. Por isso, toda vez que Chico anuncia um novo disco, há uma comoção generalizada: os fãs mais ferrenhos se ouriçam, a grande mídia se assanha e os detratores separam as armas para atirar pedras em um dos alvos preferidos dos reacionários nestes últimos 50 anos.


 Fiquei bastante tocado com a primeira pista do que Mestre Buarque tinha aprontado para Caravanas, seu 23.º álbum de estúdio: “Tua Cantiga”, parceria com Cristóvão Bastos, é um lundu repleto de versos no qual um homem não mede esforços, nem escrúpulos para fazer tudo o que for preciso para estar ao lado da mulher amada. Uma canção romântica, com inspiração em Shakespeare, com o lirismo de Vinícius de Moraes e o cinismo típico das obras de Nelson Rodrigues.


A grande doença intelectual dos tempos sórdidos e líquidos que vivemos consiste na falta de leitura, de profundidade de pensamento provocados por noções toscas de interpretação de texto de uma parcela gigantesca das pessoas. O Brasil, em tempos de crise política, social e econômica, não é diferente. E por quais motivos não hesito em afirmar tudo isto: pela polêmica infeliz que os radicais de esquerda criaram com “Tua Cantiga”, acusando Chico de machista. Mais um capítulo chato da série “A Cantilena dos Moralistas”.
É com imenso choque que presencio posts assinados por algumas mulheres vociferando que Chico é um monstro justamente por causa do verso da canção que diz que o sujeito lírico não pensaria em “largar mulher e filhos” para correr atrás da mulher amada. As mesmas mulheres que, meses antes, devem ter ido ao cinema suspirar loucamente e pagar pau para o mesmo Chico Buarque em um documentário de Miguel Faria Jr. como se o monstro de olhos azuis fosse uma espécie de Justin Bieber da terceira idade? As mesmas pessoas que devem ter assistido ao filme Vinícius, do mesmo Faria Jr., e ter se encantado com os nove casamentos do Poetinha?


Não é a primeira vez que acusam o mesmo Chico Buarque de machista. Na época em que lançou Meus Caros Amigos (1976), alguns grupos feministas encontraram uma postura sexista em “Mulheres de Atenas” (parceria de Chico com Augusto Boal), pois as “Helenas” da canção não condiziam com a figura da mulher liberta do sutiã, dos dogmas sexuais e dos homens que a reprimiram séculos e séculos afora. Pura falta de interpretação de texto e de conhecimento de noções básicas de história. A justificativa das críticas à canção de Caravanas (2017) é o fato de que este tipo de amor não representa mais as mulheres do século XXI. Afinal, a leitura de nomes clássicos como Virginia Woolf e Simone de Beauvoir sempre vai bem, viu?


Ora, é importante irmos aos fatos: Chico Buarque não está preocupado em fazer com que as pessoas se sintam representadas em suas canções. Este moralismo torto, típico das esquerdas mais radicais, gosta de problematizar tudo e mais um pouco não abriria o bico se o fato do marido largar “mulher e filhos” estivesse em um romance de Jorge Amado ou em uma das novelas da Rede Globo. Desde que o mundo é mundo, o adultério sempre existiu. O mesmo deve se dizer em relação a famílias desfeitas e grupos familiares chefiados pela figura da mãe ou avó, por exemplo. Todavia, a patrulha de tudo e de todos insiste em nos dizer como devemos agir ou não... Já que o assunto “Chico Buarque” é algo que sempre tem um retorno garantido, se falarmos mal, a quantidade de likes e clicks aumentaria em escala exponencial.


Já nos diz o velho e certeiro ditado, livremente adaptado por este que vos escreve: “Pau que bate em Chico, também bate no Seu Francisco”. Como ele não está nem um pouco interessado no que os tribunais das redes sociais têm a dizer sobre ele, só nos resta dar sonoras gargalhadas e ouvir incessantemente a bela cantiga de Mestre Buarque enquanto ele não aporta pelos palcos do Brasil que ele tanto cantou em forma de canção...

Chico Buarque e o baixista Jorge Helder durante as gravações do álbum Caravanas (2017)
LINKS:


10 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 37

JONI MITCHELL – COURT AND SPARK (1974)


1969 foi o ano que colocou Joni Micthell no mapa da música do planeta ao gravar seu segundo disco solo, o minimalista Clouds. Dois anos depois, Blue dava à autora de “Both Sides, Now!” o reconhecimento perante a crítica especializada. Dois anos depois, a bela loura de cabelos longos era uma cantora e compositora famosa, aclamada e reconhecida pela crítica e, apesar de cult, não era absurdamente popular.
No decorrer de 1973, Joni Mitchell estava em busca de novos rumos para a sua música: cansada das amarras da Folk Music, decidiu buscar no Rock, no Jazz e no próprio Folk a gênese para o seu sexto projeto fonográfico. Decidiu ouvir músicos de Jazz de primeira linha – em uma noite foi ouvir o conjunto LA Express ao vivo e se encantou com a sonoridade do baterista John Guerin e seus companheiros de palco. Guerin, um purista do Jazz, chegou a torcer o nariz para Joni em um primeiro momento para logo reconhecer o talento indiscutível da mocinha, de quem se enamorou tempos depois.

John Guerin & Joni Mitchell

Em Janeiro de 1974, Joni lançou o disco mais importante de toda a sua obra: Court and Spark não só agradou a crítica, como também foi seu o disco mais vendido de toda a sua carreira e considerado um dos melhores álbuns daquele ano. “Help Me” e “Free Man in Paris” se tornaram em sucessos radiofônicos instantâneos. A mistura bem dosada de estilos musicais foi o grande fator que fez com que a obra de Joni Mitchell fosse de encontro com o grande público. Logo em seguida, a canadense saiu em turnê com os músicos do LA Express, o que resultou em Miles of Aisles, um belo registro da passagem da tour por Los Angeles.



No entanto, enganam-se aqueles que acreditaram que os versos de Joni se tornaram açucarados para conquistar o apreço da crítica e do público. Na verdade, sua poética de nunca estivera tão ácida e crítica como naqueles tempos. Na faixa-título, ao falar sobre o amor e à impossibilidade de escapar das tentações do mundo material (Los Angeles), dizia Joni: “His eyes were the color of the sand / And the sea / And the more he talked to me / The more he reached me / But I couldn’t let go of L.A. / City of the fallen angels”.


Em “Free Man in Paris”, ao criar um personagem-narrador baseado no executivo da indústria fonográfica David Geffen, Joni Mitchell filosofava, sarcasticamente: “The way I see it he said / You just can’t win it / Everybody’s in it for their own gain / You can’t please ’em all / There’s always somebody calling you down / I do my best / And I do good business / There’s a lot of people asking for my time / They’re trying to get ahead / They’re trying to be a good friend of mine”.


Por fim, em “Trouble Child”, Mitchell dispara, sem a menor dó: “Well some are going to knock you / And some’ll try to clock you / You know it’s really hard / To talk sense to you / Trouble child /Breaking like the waves at Malibu”. O universo que se desvela através de cada uma das 11 canções do disco (10 de autoria de Joni, 1 cover) é composto de um certo pessimismo, de certeira desilusão perante as pessoas e o mundo e de a única solução restante é rir diante dos problemas e das adversidades – o cover de “Twisted” e a interpretação esquizofrênica de Joni para a composição de Annie Ross, Dave Lambert e Jon Hendricks dá a impressão de que a única coisa que nos resta é dar uma boa risada diante do caos iminente. Afinal, é melhor optar pelo riso sarcástico e crítico do que pelo choro desesperado que não acrescentaria nada ao nosso sofrer…


O lendário grupo L.A. Express, que acompanhou Joni em sua turnê de 1974

Vale um parágrafo com uma menção honrosa para o time de músicos primorosos reunidos por Joni Mitchell neste disco: além do talento indiscutível de John Guerin à frente da bateria e da percussão, Tom Scott ficou responsável por todos os sopros, Wilton Felder tocou baixo, Larry Carlton ficou com a guitarra elétrica, Joe Sample tocou o piano elétrico em “Raised on Robbery”, David Crosby fez backing vocais em “Free Man in Paris” e “Down to You”, Graham Nash também fez os seus backing vocais em “Free Man in Paris”, os guitarristas Wayne Perkins e Robbie Robertson fizeram participações especiais em “Car on a Hill” e “Raised on Robbery” e a própria Joni Mitchell fez boa parte das vozes, tocou violão, piano e o clavinet da faixa “Down to You”, além de outros músicos. Além disto, Mitchell dividiu a produção do disco com o engenheiro de som Henry Lewy, seu parceiro em vários de seus projetos no decorrer da década de 1970.


Graças a Court and Spark, Joni Mitchell finalmente se tornou uma unanimidade de toda a crítica especializada e da maioria do público. Dentre os famosos que se tornaram fãs incondicionais de seu trabalho está o guitarrista Jimmy Page, que disse, certa vez, que se emocionava ao ouvir o trabalho de Joni. No entanto, a própria artista contou um fato interessantíssimo que resolvemos compartilhar por aqui: quando resolveu tocar o disco recém-finalizado para ninguém menos que Bob Dylan, o autor de “Like a Rolling Stone” literalmente caiu no sono durante a audição do álbum, o que deve ter deixado David Geffen enfurecido.



O velho ranheta Dylan não deve ter achado o álbum uma obra-prima, mas o apreço do público e da crítica pelo disco fizeram de Court and Spark um dos discos essenciais em qualquer coleção de discos em língua inglesa…


6 de agosto de 2017

TROVA # 131

A MELODIA FINAL DO NEGRO GATO

Em memória de Luiz Melodia (1951-2017)


"Eu fico com essa dor
Ou essa dor tem que morrer
A dor que nos ensina
E a vontade de não ter
Sofrer de mais que tudo
Nós precisamos aprender
Eu grito e me solto
Eu preciso aprender

Curo esse rasgo ou ignoro qualquer ser
Sigo enganado ou enganando meu viver
Pois quando estou amando é parecido com sofrer
Eu morro de amores
Eu preciso aprender"
(Luiz Melodia, 1978)


Dias cinzentos e nublados não me trazem boas lembranças. Cauby Peixoto nos abandonou em uma segunda-feira assim. Lou Reed se foi em um domingo bastante nublado. A vida levou Luiz Melodia do nosso convívio em uma sexta-feira cinzenta e de chuvas esparsas. Vítima de um câncer de medula óssea, o negro gato, ébano de carteirinha musical, virou mais uma estrela a brilhar na constelação musical brasileira no dia 4 de agosto de 2017. 




A primeira lembrança que eu tenho de Mestre Melodia era de um homem fino e elegante, de voz grave e límpida. Estava assistindo a primeira transmissão do Acústico MTV de Gal Costa pela saudosa Music Television brasileira. No início do terceiro bloco, a banda de Gal começa a atacar "Pérola Negra". Ao invés da eterna musa da Tropicália começar a cantar o primeiro verso – "Tente passar pelo que estou passando" –, surge uma voz de ébano do lado esquerdo do palco. Era Luiz Melodia, em um terno preto elegantíssimo, adentrando o palco como a Irene de Manuel Bandeira: sem pedir licença. 


Em sentido horário: Luiz Melodia, Gal Costa, Nara Leão, Odair José, Caetano Veloso e Maria Bethânia nos bastidores do Festival Phono 73

A intimidade entre Gal e Melodia vinha de uma longa data - para ser mais exato, do início da década de 1970, quando, graças ao auxílio de Waly Salomão, ela incluiu "Pérola Negra" no setlist do lendário show Fa-Tal: Gal a Todo Vapor (1971) e colocou o jovem bardo do morro do Estácio no mapa da mina da MPB. Um ano depois, Maria Bethânia gravou "Estácio Holly Estácio" em seu álbum Drama - Anjo Exterminado (1972), com muito sucesso. O reconhecimento do talento do jovem Luiz Melodia foi fundamental para que ele, enfim, tivesse a chance de gravar seu primeiro álbum.









As dez canções do álbum Pérola Negra foram lançadas na voz de seu divino criador em 1973, um dos anos mais notáveis no que diz respeito a lançamentos de clássicos da dita "MPB". Luiz Melodia atirou Samba, Rock, Jazz, Foxtrot, Forró, Blues, Choro e outros estilos musicais no ventilador para fazer um álbum clássico, simples de compreensão, mas extremamente complexo em relação ao seu conteúdo, um disco irrepreensivelmente inteligente e popular. Luiz não precisava ter feito outro disco para garantir o seu lugar entre os mais notáveis e talentosos cantores e compositores da música brasileira.








Em pouco mais de quatro décadas de carreira, Luiz Melodia gravou cerca de 20 discos. Alguns bastante reconhecidos pela crítica e pelos ouvintes de música brasileira, outros praticamente ignorados por muitos. Apesar de ter travado uma série de picuinhas e batalhas com a mídia e o mercado fonográfico (que não hesitou em tachá-lo de "maldito") era extremamente querido pelo público e por seus colegas de profissão. Sua obra musical encontrou em Zezé Motta a sua maior intérprete e admiradora no meio musical – a nossa eterna Xica da Silva sempre fez questão de incluir canções de Melodia na maioria de seus projetos musicais. 






O eterno negro gato nunca permitiu que vendessem sua pele para que fizessem qualquer tamborim. Sempre se pautou pela coerência, pela generosidade, pela qualidade musical e pela elegância. A partida prematura de Luiz Melodia, em plena criatividade, aos 66 anos deixa uma lacuna gigante no ambiente musical do Brasil. Foi-se o homem, ficaram as melodias inesquecíveis. Cabe a cada um de nós, amantes da boa música, possamos nos inteirar "da coisa, sem haver engano"...


3 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 36

CAETANO VELOSO – VELÔ (1984)


Dentre todos os álbuns lançados por Caetano Veloso na década de 1980, o que mais me toca é Velô, lançado pelo filho mais ilustre de Santo Amaro da Purificação (BA) em 1984. Em seu décimo sexto álbum de estúdio, Caetano soava moderno, sedutor, ferino, feérico, filosófico como nunca tinha sido até então. 

A sonoridade do disco se deve graças aos músicos extraordinários da "Banda Nova", que acompanhava o irmão ilustre de Maria Bethânia na época. Tavinho Fialho e Toni Costa tocaram baixo e guitarra, Marcelo Costa e Armando Marçal ficaram a cargo da bateria e da percussão, Zé Luís Signeri ficou responsável pelos sopros (saxofone e flauta) e Ricardo Cristaldi era o tecladista do grupo e foi o produtor de Velô (junto de Caetano). Enquanto as rádios brasileiras enlouqueciam com as canções do chamado "Rock Brasileiro", Caetano Veloso lançou mão do ritmo amaldiçoado e de outras sonoridades nordestinas, eletrificou tudo à máxima potência e lançou um disco deliciosamente vibrante.

Marcelo Costa, Ricardo Cristaldi, Armando Marçal, Caetano Veloso, Tavinho Fialho, Zé Luís Signeri e Toni Costa

A primeira canção de Velô é uma das obras mais importantes da música brasileira do século XX. "Podres Poderes" é uma das críticas mais ácidas, irreverentes e inteligentes a um Brasil que estava a um passo da redemocratização, repleto de vícios seculares e feito por habitantes que mal sabem respeitar uns aos outros. O verso "motos e fuscas avançam os sinais vermelhos / e perdem os verdes / somos uns boçais" critica a selvageria do trânsito das grandes cidades brasileiras. Graças ao sucesso desta canção, Caetano foi convidado a gravar uma participação para uma série educativa com o objetivo de que os brasileiros aprendessem bons modos em relação aos veículos que conduzem. Na época, as máquinas fotográficas automáticas que captavam os apressadinhos foram apelidadas de "Caetanos".





Três canções do disco são um retrato interessante da música que se ouvia nas rádios brasileiras da época. "Shy Moon", canção romântica repleta de sons de sintetizadores e batidas eletrônicas, recebeu letra em inglês e contou com a participação especial de Ritchie, que fazia muito sucesso com o hit "Menina Veneno". "Comeu", além de ter recebido uma versão de Erasmo Carlos, foi também regravada por Kid Vinil, junto de seu grupo de Rock Magazine, e foi  o tema de abertura da novela global A Gata Comeu (1985), um dos maiores sucessos televisivos da década de 1980. Por fim, "Sorvete", retrata uma relação de amor conflituosa entre o sujeito poético e sua musa amada. Esta última canção caberia perfeitamente no repertório de Angela Rô Rô, que já foi agraciada com uma canção inédita de Caetano Veloso para o seu disco de 1981. Seguem os versos do refrão, pontuados pelos teclados de Cristaldi e pelo sax de Signeri:


"Feras lutam dentro da noite-normal
Todos os insetos, os do belo e os do mal
Anjos e demônios
O amor tomava conta de mim

Ela loura e negra, querubim e animal
Burra, sábia, deusa, mulher, menino e mandarim
Mas se ela não quis meu sorvete
Por que gravá-la em videocassete (...)"

Show Velô - Foto de Thereza Eugênia



"Grafitti", parceria bissexta de Caetano com os poetas Waly Salomão e Antônio Cícero, versava mitos gregos com a cena urbana da cidade grande com uma sonoridade ligeira, típica do período. Além da dobradinha com Waly e Cícero, Velô traz "Pulsar", uma bela parceria de Caetano com Augusto de Campos, um dos exponenciais da Poesia Concreta brasileira. A sexta faixa do disco, por sua vez, é uma gravação do frevo "Vivendo em Paz", do cantor, compositor e produtor musical baiano Tuzé de Abreu, um dos melhores números do disco. Já a terceira canção do disco é uma regravação de "Nine Out of Ten", composta por Caetano Veloso para Transa, seu álbum de 1972, com tons mais caribenhos e pitadas da New Wave que tocava nas rádios dos quatro cantos do planeta.




Velô possui duas canções bastante poéticas e filosóficas. A primeira delas, "O Homem Velho" (dedicada à memória de Zeca Veloso –  pai de Caê –, Chico Buarque de Holanda e Mick Jagger), um Caetano de 42 anos canta sobre o processo de envelhecimento com muita sobriedade e lucidez: 


"Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval
Espalham-nos além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal"



A segunda canção de cunho filosófico de Velô é "O Quereres", um belíssimo tratado musical sobre o desejo. Já regravada por grandes vozes da MPB como Maria Bethânia, Gal Costa e Fafá de Belém, é uma das obras mais populares do cancioneiro de Caetano Veloso:



"Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde possa o chão, minha alma salta
E ganha a liberdade na amplidão (...)"

A última canção de Velô, o samba-rap "Língua", foi dedicado a ativista política Violeta Arraes Gervaiseau e contou com a participação de Elza Soares, na época em baixa em sua carreira: 

Elza Soares & Caetano Veloso durante a temporada do programa Chico & Caetano - TV Globo (1986)

"Flor do lácio, sambódromo
Lusamérica, latim em pó
O que quer, o que pode essa língua?"



A canção de Caetano é um amálgama de expressões da língua portuguesa, de estrangeirismos, de citações filosóficas e de referências a nomes da música, da literatura e da intelligentsia como Luís de Camões, Fernando Pessoa, João Guimarães Rosa, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé. Um carnaval tropicalista encerrando um disco brilhante. Um dos trabalhos que levaram Caetano Veloso ao panteão dos homens mais notáveis da música brasileira.