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4 de setembro de 2016

TROVA # 83

AS LIÇÕES DO MESTRE
(o que Chico Buarque me ensinou sobre a política do Brasil)


“A minha tristeza não é feita de angústias
A minha tristeza não é feita de angústias
A minha surpresa

A minha surpresa é só feita de fatos
De sangue nos olhos e lama nos sapatos
Minha fortaleza

Minha fortaleza é de um silencio infame
Bastando a si mesma, retendo o derrame
A minha represa”
(Chico Buarque & Ruy Guerra, 1973)

“Dormia a nossa Pátria Mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”
(Chico Buarque, 1984)

 
 

     Foi em 2000, ano em que ingressei na Faculdade de Letras, que comecei a me interessar de vez pelos clássicos da MPB e descobri a obra de Chico Buarque de Hollanda. Graças à minha avó, D. Magaly, garimpei uma coletânea de Chico em seu quarto de som e minha maneira de olhar o Brasil e o mundo se modificou por completo. Ao ler sobre a biografia do filho de Sérgio Buarque de Hollanda e a importância de seu papel durante os anos de chumbo, constatei o quanto que este já fez e ainda faz por nossas artes e por nosso país ao ser reconhecido como um dos maiores estandartes de resistência contra a ditadura militar.



Em matéria de canção popular, nenhum artista escreveu melhor o Brasil “em versos e trovas” dos anos 1960 até agora do que Chico Buarque. Sua obra musical, suas peças teatrais e sua obra ficcional revelam um homem talentoso, íntegro, coerente e engajado com o processo de redemocratização do país e com os direitos básicos e essenciais dos pobres e necessitados. Uma referência artística, intelectual e moral para mim e para muitos. Um inimigo público de fôlego daqueles que odeiam o povo e a democracia. Não me encantam os seus belos olhos azuis (que realmente são lindos!), ou a sua voz “horrorosa” (discordo!), mas a beleza de seu caráter e talento. Chico foi um dos artistas que me inspiraram a fazer o que mais gosto na vida: escrever sobre literatura e música popular.


*
A campanha presidencial de 2014 me rendeu inúmeras inimizades através das redes sociais. Nenhuma postagem me rendeu tamanhas críticas e agressões gratuitas quanto um meme que colocava Chico Buarque e alguns intelectuais em oposição a Alexandre Frota, Lobão e outros notáveis defensores do antipetismo. Era uma provocação gratuita, dando a entender que apenas os que votavam no projeto de Dilma eram inteligentes e tinham bom gosto musical, por exemplo. Recebi desaforos de dar nojo por defender Chico pelo simples fato dele ser um militante de esquerda.


A internet se tornou um palco político e instrumento de guerra virtual e ver Chico Buarque ser enxovalhado em praça pública como um judas tem sido uma gigantesca ofensa pessoal. Falem mal de Ney Matogrosso perto de mim, falem mal de Maria Bethânia, condenem Caetano, Gil e Gal Costa, mas jamais ataquem a honra e a integridade de Chico em minha presença. Não por mera “chicolatria” e sim por causa do meu imenso respeito e admiração por ele, além do meu desprezo incansável por qualquer forma de injustiça.
Chico Buarque me ensinou três lições básicas: 1.ª) a palavra é algo de suma importância para a arte da escrita e da canção; 2.ª) coerência política é um princípio inquestionável, por isso, jamais devemos abrir mão dela; 3.ª) coragem é fundamental para tudo que se faz.



Um exemplo de como eu fiz uso da terceira lição para minha própria vida foi quando driblei temporariamente minha timidez e (depois de algumas aulas de canto e poucos ensaios) me apresentei cantando para um público aproximado de 50 pessoas em junho de 2014. Procurei várias facetas das canções de Chico para a ocasião: o amante, o lírico, o compositor que traduz a sensibilidade feminina, o malandro, o político... Foi bem legal “brincar” de cantor de palco por apenas uma noite, pois escolhi a obra de um dos artistas mais completos e engajados de nossa canção popular.

Foto: Mayra Peres Lima

A coragem tem sido o traço que Chico Buarque mais tem nos legado nestes anos mais recentes: enfrentou seus algozes de tendências fascistas na imprensa e nas ruas e não deixou de apoiar Dilma, Lula e o PT nem mesmo quando a base governista se esfacelava a olhos vistos e os ataques ao Governo Federal se intensificavam nas vésperas do Golpe de 2016. Driblou a turba fascista com classe e a malandragem digna de um Garrincha. Mesmo quando milhares de pessoas foram às ruas como massa de manobra de uma mídia irresponsável contra Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores. Mesmo quando uma parcela significativa dos intelectuais e da classe artística foi covardemente atacada pelos setores mais reacionários da sociedade brasileira. Mesmo nos momentos nos quais artistas foram abertamente comparados a vagabundos dependentes da Lei Rouanet.



Foi por tudo isso que eu não me surpreendi quando soube que Chico foi para Brasília com o intuito de assistir o discurso histórico de Dilma Rousseff na ocasião do julgamento do impeachment no Senado Federal na manhã de 29 de agosto de 2016. Afinal, tratava-se de um gesto solidário e coerente com as suas (e nossas) convicções sociopolíticas. Ele não estava lá para fazer “um samba bem pra frente” ou para pedir pela enésima vez que lhe afastassem o velho cálice repleto de sangue inocente. Ele estava na Capital Federal para assistir os últimos estertores da democracia que ele ajudou a reestruturar há mais de três décadas. Dilma foi agredida tal qual uma das personagens buarqueanas mais célebres, a Geni: levou pedras por ter desafiado os interesses das elites e dos corruptos, por ser uma mulher à frente de vários homens, por seus erros e por seus acertos políticos, pelo antipetismo fascista.



Consumado o golpe parlamentar que tirou Dilma Rousseff do poder em 31 de agosto de 2016, precisamos andar com a cabeça pelas tabelas de tão aflitos que andamos com o golpe fatal que nossa democracia sofreu. Voltamos a andar olhando pro chão e para os lados, preocupadíssimos com a repressão da polícia nas manifestações contra os golpistas que usurparam o poder sem a chancela do voto popular. Além disso, temos que manter muito cuidado e o bico calado pois o homem vem aí com medidas impopulares e perversas, tais como a reforma da previdência e a “modernização” da CLT, além de outros crimes hediondos contra o povo. Enquanto buscamos abrigo em uma bela canção e aguentar o tranco com dignidade, lutamos para que o estandarte do sanatório geral passe logo de uma vez por nós: afinal, um novo capítulo da História do Brasil precisa ser inaugurado com fatos mais justos e dignos da grandeza de nossa gente...


*
Obrigado por tudo, querido Chico!
Você é mais do que meu caro amigo.
Você é a bússola e o alento daqueles que escolheram o lado mais justo da História. Afinal de contas, a coisa por aqui voltou a ficar preta. Haja mutreta para engolirmos esta situação e segurar este maldito rojão...


12 de junho de 2016

TROVA # 73

O AMOR EM TEMPOS DE PÓLVORA



“Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor vale amar
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor valerá”
(Milton Nascimento & Caetano Veloso, 1978)


“There is good and bad in ev'ryone
We learn to live, we learn to give
Each other what we need to survive together alive”
(Paul McCartney, 1982)


“Twister does anyone see through you
You're a twister, an animal
But you're so happy now
I didn't go along with you”
(Dolores O'Riordan & Noel Hogan, 1995)


Se Gabriel García Márquez fosse ainda vivo e tivesse que escrever uma crônica sobre o dia 12 de junho de 2016, ele poderia colocar o título do texto que escrevo neste momento sem a menor sobra de risco. Acordei no dia de hoje com a determinação em escrever algo sobre o Dia dos Namorados, que é comemorado a cada décimo-segundo dia do sexto mês do ano. No entanto, meus planos foram mais uma vez por água abaixo.
Fiquei perplexo em saber que um atirador tinha entrado na Pulse, uma das boates gays mais famosas de Orlando (FL, EUA) e executou 50 pessoas covardemente, deixando vários feridos. Motivado por homofobia, incomodado com a possibilidade de poder fazer justiça de acordo com os seus sentimentos mais perversos, realizou um ato de pura psicopatia e tirou a vida de dezenas de pessoas que estavam ali para se divertir, para celebrar o seu amor e o seu orgulho em não ter que se curvar às convenções e instituições que ainda fiscalizam a vida sexual de cada um.


O que me deixou ainda mais chocado foi saber que ataques à mão armada como o que ocorreu nos Estados Unidos vitimam milhares de habitantes. Ou seja, a maioria dos norte-americanos está completamente acostumada em saber pelos telejornais, por exemplo, de que facínoras saem com armas em punho todo santo dia motivados por uma série de motivos escusos (religiosos, especialmente) para matar qualquer indivíduo que não esteja de acordo com seus princípios antidemocráticos. Nada tão surpreendente para quem viu e viveu eventos históricos sangrentos como a fatídica Maratona de Boston, o massacre de San Bernardino, a execução na Columbine High School, o assassinato de John Lennon por Mark Chapman, o desaparecimento violento de Martin Luther King e dos irmãos Kennedy, os famigerados ataques de 11 de setembro de 2001.
É fato público e notório de que os Estados Unidos da América, obcecados por normas e mais normas de segurança (vide a burocracia infernal que nós, estrangeiros, enfrentamos ao adentrar qualquer aeroporto norte-americano), padecem de uma doença social agudíssima. Para curá-la existe um remédio amargo para alguns e necessário para todos: o desarmamento do cidadão comum. Enquanto armas continuarem sendo vendidas a torto e a direito para qualquer um comprar, o sangue de inocentes continuará a ser derramado em vão.


Lembro de uma polêmica ocorrida com a cantora norte-americana Sheryl Crow na ocasião do lançamento de seu segundo álbum, em 1996. Vale lembrar que só a capa do disco já demonstrava que a mocinha não estava nem um pouco interessada em ser uma pop star fofa e querida como Alanis Morissette ou Mariah Carey. Em uma das faixas do disco, “Love is a Good Thing”, disse a bela Sheryl despreocupada com a opinião de cachorros grandes: “Watch out sister, watch out brother, / Watch our children while they kill each other / With a gun they bought at Wal-mart discount stores” [Se liga, irmã; se liga, irmão / Veja nossas crianças matando umas às outras / Com uma arma que eles compram nas lojas de descontos do Wal-mart]. A resposta dos comerciantes foi o boicote massivo dos CDs da artista de todas as maneiras possíveis. Por outro lado, o respeito dos fãs por Miss Crow ter colocado o dedo em uma ferida tão aberta do povo de seu país só aumentou...



Tenho a esperança de que Sheryl Crow não seja uma voz isolada a cantar a necessidade de atitudes mais humanas e sensatas. Afinal de contas, amar sem barreiras e distinções em tempos de pólvora está se tornando uma tarefa praticamente impossível. Creio no amor como uma maneira de amenizar a cultura do ódio extremista que permeia as relações dos seres humanos no século XXI. Assim, o amor entre iguais – algo intolerável para conservadores, fascistas e facínoras de todos os tipos – deixa de ser visto como uma mera “ditadura da minoria” e passa a ser visto como um direito adquirido e que merece ser respeitado. Minha voz não soa em vão. Ela há de encontrar outras para lutar para que mais ninguém seja penalizado por demonstrarmos o mais puro de nossos sentimentos, Afinal, já diziam os mestres: "qualquer maneira de amor vale a pena"...

Se você se sentir incomodado com estas cenas, recomendamos que você saia à procura de ajuda especializada urgentemente. Homofobia tem cura! Montagem: Ana M. D. Oliveira



22 de dezembro de 2015

TROVA # 62

CHICO BUARQUE ENTRE A TELONA DO CINEMA & A TELA DA TV

(5 motivos para ir ao cinema assistir Chico – Artista Brasileiro e 5 motivos para esperar este filme sair em DVD)



A música brasileira tem recebido documentários maravilhosos sobre vários de nossos artistas. Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, Tom Jobim, Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Raul Seixas, Jorge Mautner, Luhli & Lucina, Elza Soares, a Era dos Festivais e a Tropicália foram homenageados com toda a pompa e circunstância necessária e merecida por cineastas jovens e experientes. Fiquei bem animado quando soube que Miguel Faria Jr. tinha feito um documentário sobre Chico Buarque e resolvi ir ao cinema assim que as férias batessem a minha porta.

Miguel Faria Jr. & Chico Buarque

Documentários não atraem um público muito extenso: geralmente, em menos de um mês, eles não ocupam mais as salas principais de cinema no Brasil. A preferência do público por blockbusters como Harry Potter, The Lord of The Rings ou Star Wars em tempos nos quais MPB não é mais consumida por um grande número de pessoas é avassaladora. Como consequência, a oferta de cinemas que exibiam o documentário de Miguel Faria Jr. era bem reduzida em uma cidade grande como São Paulo (4 cinemas ao todo!) em pleno final de dezembro.
 Ingressos comprados, assentos tomados, quase prontos para o início de mais uma experiência cinematográfica, exceto... a falta de educação de mais da metade do público da sala de cinema, que foram ao Cine Belas Artes para ver o Pop Star Chico Buarque, não o artista Chico Buarque, o escritor Chico Buarque, o homem público Chico Buarque. Órfãos de turnês extensas do cantor e compositor de "A Banda", mais da metade das pessoas que estavam ali se comportavam como se estivessem em uma casa de shows: falando alto, comentando o filme como se fosse uma partida de futebol ou a novela da Rede Globo. Se houvesse um garçom, bebidas seriam requisitadas em um pronto estalar de dedos e os meus instintos mais antissociais e psicopatas poderiam aflorar dentro de uma sala do Cine Belas Artes. Fui contido. Ainda bem.

Estes motivos seriam suficientes para que eu esperasse Chico – Artista Brasileiro sair em DVD e eu pudesse assistir cada detalhe na santa tranquilidade do meu HD e no silêncio do meu quarto. No entanto, resolvi enumerar alguns motivos, digamos, mais técnicos para justificar minha falta de vontade de voltar a assistir esta película no cinema:

1) A pobreza de depoimentos da família de Chico Buarque
Apesar do documentário focar na trajetória artística de Chico, há um pecado mortal em não termos nenhuma espécie de testemunho de sua ex-mulher, Marieta Severo, e de suas filhas e de seus netos. A única presença familiar que concedeu depoimento para Chico – Artista Brasileiro foi de Miúcha, sua irmã mais velha.


2) A ausência sentida de vários parceiros e intérpretes de Chico
Como Francis Hime, Luiz Cláudio Ramos e Paulo Pontes foram esquecidos / ignorados em uma ocasião tão simbólica? Nara Leão, Bibi Ferreira e Maria Bethânia - intérpretes significativas da obra de Chico – mal aparecem no filme; Elis Regina, Gal Costa, Fafá de Belém, Elza Soares, Simone, Cauby Peixoto, Marisa Monte, Cida Moreira e outras foram sumariamente ignoradas.

3) A presença desnecessária de certas interpretações da obra de Chico
Em primeiro lugar, não consigo conceber o porquê de uma cantora de nacionalidade portuguesa ter que interpretar a obra de um artista brasileiro com tanta cantora brasileira de calibre e envergadura dando sopa por aí! A presença de Carminho em DOIS números do documentário de Miguel Faria Jr. é completamente desnecessária: as canções de Chico se tornam em dois lamentos lusitanos sofridos, que nos faz ter saudades de Amália Rodrigues. A escolha de Moyséis Marques e Péricles para interpretar dois dos sambas mais importantes do repertório buarqueano - "Mambembe" e "Estação Derradeira" - ao sabermos que existem sambistas experientes como Zeca Pagodinho e Diogo Nogueira foi, no meu ver, leviana.

Milton Nascimento ao lado da cantora portuguesa Carminho


4) Os inevitáveis cortes no documentário
Fiquei bem triste ao saber que Laila Garin tinha gravado uma versão para "Bastidores", uma das canções mais belas de Chico. Uma baixa dessas diante de dois números com Carminho é, no mínimo, de gosto duvidoso...

5) O incentivo à "Chicolatria"
Chico - Artista Brasileiro, apesar de possuir momentos de puro humor, peca por, indiretamente, incitar a clássica "Chicolatria" por parte daqueles que se interessam pelas peripécias do Sr. Buarque. Ele é digno de nossa admiração e de nosso respeito, não de nossa idolatria cega, tal qual da metade das pessoas que estavam na sala de cinema na noite em que eu estava lá...

Entretanto, as duas longas horas do filme de Miguel Faria Jr. possuem alguns aspectos encantadores, que valem a ida ao cinema e não poderíamos deixar de apontar aqui. Vamos enumerar um por um?

1) A quebra de alguns mitos populares em torno da figura de Chico Buarque
Sempre fomos levados a crer que Chico era um homem tímido, que detesta fazer shows e etc e tal. Não necessariamente: conhecido pelos familiares como "showboy" quando criança, o Sr. Buarque realmente não é muito dado a longas temporadas para promover seus discos. Além do mais, o extremo humor é muito mais aparente do que a aparente timidez do artista.


2) Alguns números musicais do documentário
Miguel Faria Jr. conseguiu fazer algumas escolhas bastante acertadas para as interpretações que aparecem em Chico - Artista Brasileiro: Ney Matogrosso fez uma releitura emocionante de "As Vitrines" (inédita na sua voz até a realização desta película); Mônica Salmaso fez uma interpretação pungente de "Mar & Lua"; Mart'nália & Adriana Calcanhotto protagonizaram com perfeição o roteiro amoroso meio tortuoso, meio bem-humorado de "Biscate" ao sugerir uma relação entre duas mulheres; Laila Garin me emocionou ao retratar a mãe cruel de "Uma Canção Desnaturada".

Ney Matogrosso em uma das interpretações mais bonitas de toda a sua carreira...

3) As imagens de arquivo
Rever algumas imagens de arquivo e assistir outras raridades, tais como as fotos da montagem censurada de Calabar - O Elogio da Traição, imagens de D. Maria Amélia Buarque de Hollanda indo cumprimentar o filho famoso no palco no auge da era dos festivais ou algumas raríssimas filmagens de Chico durante o seu exílio em Roma já valeram a película de Miguel Faria Jr.


4) Um breve olhar sobre o Chico Buarque escritor
Os momentos do filme de Miguel Faria Jr. nos quais Chico comenta o ofício tardio da Literatura (ele começou a escrever seu primeiro romance, Estorvo, em 1989) e a repercussão diante de seus romances é algo infinitamente interessante. Alguns trechos de suas longas narrativas foram barrados pela já saudosa voz de Marília Pêra. Vale a pena conhecer esta faceta menos óbvia do Sr. Buarque...


5) A busca pelo irmão alemão
Um dos tabus mais latentes dos Buarque de Hollanda foi o fato de que o patriarca da família, o lendário historiador, sociólogo e professor da Universidade de São Paulo Sérgio Buarque de Hollanda teve um filho com uma alemã durante a sua breve estadia em Berlim durante o período compreendido entre 1929-1930. Sérgio Günther (1930-1981), o irmão alemão de Chico Buarque, foi objeto de buscas do irmão brasileiro famoso e inspiração para o quinto romance de Chico. Miguel Faria Jr. nos mostra o processo de investigação para o encontro do paradeiro de Günther, que era cantor e apresentador de TV, com direito a um clipe do filho desaparecido do autor de Raízes do Brasil cantando para a TV alemã nos anos 1960. O que mais me impressionou foi a semelhança entre pai e filho, para deleite dos investigadores e de todos nós, espectadores.


Entre as perdas e ganhos de Chico – Artista Brasileiro, ficamos no zero a zero. Como critério de desempate, sugiro que as salas de cinema sejam a segunda opção para um provável DVD com extras e envolto em um belo package elegante, bem como merece a obra do Sr. Buarque. Assim, poderemos deleitar a beleza de sua poesia no melhor canto jamais inventado: no conforto e no sossego de nosso lar. Afinal, sem a presença de ninguém para perturbar a sua experiência fílmica, a tela do HD sempre será uma opção mais cômoda e reconfortante.


22 de agosto de 2015

TROVA # 54

O REINO SAGRADO DE MARIA BETHÂNIA


“Há canções e há momentos
Eu não sei como explicar
Em que a voz é um instrumento
Que eu não posso controlar
Ela vai ao infinito
Ela amarra todos nós
E é um só sentimento
Na plateia e na voz”
(“Canções & Momentos”, de Milton Nascimento,
composta especialmente para a voz de Maria Bethânia)


Quando Deus e os orixás pensaram nas constelações de estrelas cantantes que iriam arrebatar os palcos do Brasil, eles devem ter tido um trabalho gigantesco para elaborar uma Estrela (sim, com "e" maiúsculo!) do quilate da moça que assina como Maria Bethânia Viana Telles Velloso - para nós apenas Maria Bethânia, para outros Berré, para alguns Mary Beth, para quase todos: Diva! Eu precisei de mais de dois anos de atividades como blogueiro semi-profissional (uma palavra mais gentil para qualificar o meu amadorismo) para poder anotar algumas coisinhas sobre esta Senhora. Não porque palavras me faltam, pois já escrevi sobre Ela em outras ocasiões, mas principalmente porque me faltava a devida vontade e ânimo para escrever sobre uma das cantorias mais admiradas deste país.


Minha relação com a arte de Maria Bethânia começou, por mero acaso, quando ainda era um jovem rapaz que vivia no apartamento de dois quartos dos meus país na Ilha do Governador. Devia ter uns 13 ou 14 anos quando descobri na estante que pertencia ao Sr. Orlando e D. Elizabeth uma versão em LP de Mel, álbum que deu a irmã de Caetano Veloso o apelido de Abelha Rainha graças à popularidade da caribenha faixa-título, assinada por Caetano e Waly Salomão: "Ó abelha rainha / Faz de mim / Um instrumento de teu prazer / Sim, e de tua glória, de tua glória...". Na capa do disco, uma dedicatória de meus tios paternos Silvio e Dagmar aos meus pais datada de 1979, ano em que meus pais decidiram oficializar sua caminhada de tantos anos juntos um do outro. Ao descobrir aquele vinil, colocar aquela agulha para riscar os sulcos pretos e ouvir a voz de Bethânia saudar as soberanas dos apiários ao som de um slide de guitarra caribenha, descobri inconscientemente uma maneira de me reconectar com fatos da minha história que se deram antes de eu nascer.


Por outro lado, pouco depois que descobri aquele LP na casa dos meus pais, outro vinil de Maria Bethânia chegava na casa da irmã do Sr. Orlando. Só que este iria atingir minha sensibilidade de tal maneira que eu nunca mais iria me recuperar daquele impacto. Era o final de 1993 e Bethânia estava lançando um dos trabalhos mais importantes de sua carreira: As Canções que Você Fez Pra Mim, totalmente baseado em canções escritas por Roberto Carlos e Erasmo Carlos. O tratamento classe A que ela deu às canções de Roberto e Erasmo, ao lado de suas interpretações apaixonadas do cancioneiro do Rei não poderia ter resultado em outra coisa a não ser sucesso. Naquela época, ainda poderíamos ouvir trechos de "Fera Ferida" na abertura de uma novela da Globo, de mesmo nome. Enfim, era o auge de uma artista da MPB que vendia milhares de cópias de seus discos em tempos nos quais música sertaneja de péssimo gosto era o que dava o tom nas rádios da época, por exemplo. A partir daquele acontecimento, decidi ficar de olhos bem abertos para os passos musicais que a irmã de Caetano Veloso estava dando desde então.


Mel abriu as portas para a descoberta dos discos antológicos que Bethânia gravou nos anos 1970. Aqueles clássicos foram uma enorme revelação musical para mim: aqueles arranjos requintados e primorosos (capitaneados, em grande parte, por Perinho Albuquerque, produtor dos baianos) revelavam uma cantora que não possuía uma técnica de canto tão profissional (tenho um problema meio sério com as respirações de Mary Beth em vários daqueles discos), mas apontavam uma artista que exercia o seu ofício com a paixão e a intensidade pouco vista em muitas colegas de MPB. Rosa dos Ventos: um show encantado (1971), apesar de ser um disco que não chega a reproduzir a metade do impacto das canções do espetáculo, redefiniu os conceitos da relação da cantora com o showbiz ao misturar poesia e música no palco através de intensa dramaticidade. A tua presença... (1970), Drama: Anjo Exterminado (1972), Pássaro Proibido (1976), Pássaro da Manhã (1977) e o indefectível Álibi (1978) foram os discos de estúdio que fizeram de Maria Bethânia uma das mulheres que mais venderam discos neste país. Os álbuns ao vivo Drama, 3.° Ato: Luz da Noite (1973) e A Cena Muda (1974) são retratos sonoros belíssimos da fúria passional que tomava conta da irmã mais nova de Caetano Veloso quando ela subia no palco. A parceria da artista com Chico Buarque em uma mítica temporada no Rio de Janeiro e a sua participação no grupo Os Doces Bárbaros, somadas à sua extensa discografia - concebida desde a década de 1960 - lhe renderam uma legião considerável de fãs ardorosos, enquanto sua fama de geniosa, temperamental e indomável reproduzia em vida a postura intensa que se via no palco.


Confesso publicamente que pertenci a esta legião de fãs devotos de Maria Bethânia por algum tempo, por sempre achar que ela fosse o tipo de artista que melhor traduzia minhas paixões, meus sentimentos e minha maneira de ver o mundo. Fiz alguns amigos bem queridos graças ao "elo bethânico" que nos reunia e arranjei brigas das mais variadas e surreais pela Internet afora no embate Elis X Bethânia (uma atualização da guerra Emilinha X Marlene para os anos mais recentes). No entanto, quando comecei a ler nas entrelinhas que havia uma diferença entre a pessoa e a artista - algo natural em qualquer um que se aventura pelos palcos do planeta -, meu endeusamento por Mary Beth se tornou limitado a quase zero.


Havia (e ainda há) uma série de coisas que me incomoda(va) em relação às escolhas artísticas de Maria Bethânia: 1) Seus espetáculos, perfeitamente adequados para teatros, sempre são realizados em casas de shows no eixo RJ-SP por preços astronômicos e que não valem a qualidade do que se vê: não digo isso porque os eventos de Bethânia são ruins, mas não dá pra dizer que um show no qual você tenta ouvir um texto de Pessoa ou Lispector com um garçom passando na sua frente ou com pessoas tilintando copos e garrafas de cerveja na mesa do lado foi um acontecimento maravilhoso (a artista deveria se preocupar com a qualidade do espetáculo que é visto pelos seus fãs ao escolher o seu local de trabalho!); 2) A falta de renovação de repertório em seus shows é algo que cansa os desejosos por novidades: ouvir "Explode Coração", "Negue", "O que é, o que é?" ou "Pedrinha de Aruanda" com os mesmos arranjos é algo que já me cansou há algum tempo; 3) Sua postura levemente arrogante, enquanto artista, é outra coisa que me irrita profundamente: sua (quase) obsessão que é cantora e não intérprete, colocando a segunda categoria como algo mais importante do que a primeira é descaradamente pretensioso. Os "pitis" (chiliques, ataques de pelanca, barracos, rebus) ocorridos em entrevistas e shows são até cômicos para nós, os "Senhores" que assistem os seus espetáculos, mas não devem ser nem um pouco engraçados para quem faz parte da Entourage da Diva. Isso sem mencionar em detalhes as patadas públicas dirigidas à Gal Costa, algumas dignas de vergonha alheia.



2015 marca o quinquagésimo aniversário de um dos acontecimentos culturais mais importantes do século XX no Brasil: a substituição de Nara Leão por Maria Bethânia no elenco do musical engajado Opinião, no qual a cena era dividida com João do Vale e Zé Kéti. Na ocasião da passagem por Sampa de um show comemorativo de 50 anos deste fato, Abraçar e Agradecer, decidi que aquele era o momento certo para refazer minhas pazes com Mary Beth e fui vê-la no palco depois de quase dez anos. Sua beleza, sua intensidade e seu talento continuam irretocáveis com o passar do tempo. As "manias" foram perdoadas por mim diante de um show tão belo. A admiração pela artista continua e continuará até onde eu deixar de me entender como um ser humano. No entanto, compreendi que não existe artista que domine tão bem a potencialidade cênica de um show de música brasileira como Bethânia. O palco é o local onde ela pousa soberana, seu reino musical sagrado, seu espaço pleno da apoteose de seu dom.




O reino de Maria Bethânia é tão intrigante quanto o de Hamlet: apesar de sabermos que há algo destoante da beleza que existe por detrás, não podemos dizer que ele é belo e deixa de nos encantar. Que ela, ao contrário do herói trágico de William Shakespeare, consiga nos encantar por muitos anos, trazendo o que existe de melhor em sua profissão.