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11 de maio de 2021

TROVA # 165

“LONGAS CARTAS PRA NINGUÉM”


“Por que escrevemos?

Porque não podemos somente viver”

(Patti Smith – Devoção)



         Do tempo em que escrevíamos cartas, as pessoas davam uma importância gigantesca a papel, caneta, envelope e selos para que notícias, confissões e juras de amor e de ódio pudessem ser transmitidas para o destinatário que fosse. Com a chegada da Internet, das redes sociais e dos smart phones, tamanho encantamento se desfez e as correspondências perderam a sua intensidade: o avanço das tecnologias provocou uma mudança fatal da relação dos humanos com as palavras e as longas correspondências tornaram-se mais um resquício do passado. Quase toda comunicação relacionada às correspondências se tornou restritamente técnico e objetivo, as confissões mais íntimas viraram “textões” ou foram comprimidas em meros 140 caracteres no Twitter.


        A escolha de um blog para dar conta dos pensamentos e memórias que me habitam poderiam ser as crônicas que eu sempre sonhei na coluna do jornal, no portal da Internet ou (quem sabe?) nas páginas de um livro. A escrita que fiz por anos a fio tem sido além de um diário sentimental ou de um journal de críticas e pensamentos avulsos: todos os textos que passaram por aqui são, de certa forma, cartas. Enquanto as palavras do ciberespaço, do jornal e do livro possuem um destinatário específico, certeiro, as minhas correspondências são “longas cartas pra ninguém”, ou melhor, quase ninguém.

        Em uma entrevista de fevereiro de 1977, Clarice Lispector comentou a respeito de um dos assuntos mais discutidos entre literatos: o ato de escrever. Ao ser indagada sobre sua rotina de trabalho, Clarice foi taxativa ao dizer que nunca tinha sido uma escritora profissional e que só se dedicava à Literatura quando queria. Sua afirmação desconcertou por completo seu entrevistador e o público, já que a autora de A Hora da Estrela e Laços de Família já tinha publicado vários romances, contos e textos na grande imprensa até então. Apesar de eu sempre ter nutrido um enorme amor pela escrita (queria ser escritor desde os sete anos de idade!), nunca consegui me sentir um profissional das letras por dois motivos: 1) o anonimato e o meu talento permanente para ser um anônimo; 2) o fato de ter uma profissão que exige tempo e dedicação. Não me satisfaço com o amadorismo, tampouco com o anonimato. Porém, escrever como alternativa foi a solução possível para que eu extravasasse tudo o que eu gostaria de ser, mas que a vida não me permite que eu seja por conta de compromissos e responsabilidades...


         Confessar uma série de coisas nas páginas do papel e pela Internet afora é uma tarefa incomum para alguém que age com a discrição do anonimato. Era uma maneira de compreender a natureza dos fatos e suas consequências. Era um jeito de expressar a pouca saudade que tenho do passado, a vontade intensa de viver o presente e a loucura insustentável de ter o futuro nas mãos. Ou talvez uma forma de esconder minha própria mediocridade e dar a ela alguma espécie de status. Ou nenhuma das respostas anteriores mesmo, afinal há perguntas para as quais não temos solução.


         No entanto, ainda tenho a breve esperança de que cada texto que escrevi para este blog ou para a coluna de jornal dos meus sonhos possa fazer sentido para alguém, afinal foram mais de 115 mil acessos em nove anos de atividade. Tal qual Brás Cubas, um dos personagens mais célebres da ficção de Machado de Assis, também não tive filhos e não transmiti (até então) a nenhuma criatura o legado de minha miséria. Todavia, deixo vários escritos para a posteridade, um livro publicado e a vontade imensa de vida dentro de mim, apesar da barbárie que se abateu no Brasil e pelo mundo a partir de 2020.


         Faz escuro, mas escrevo e também canto. O mundo pode fazer qualquer tipo de acusação contra mim, menos uma: eu sempre tive histórias para contar. E ainda terrei enquanto tiver um papel, uma caneta e um lápis nas mãos. Porque viver apenas não basta para mim: se eu puder viver tendo a possibilidade de escrever já é algo que me deixa mais feliz. E ser feliz em pleno século XXI é um dos maiores desafios que se apresentam para os seres humanos, especialmente para os que vivem no Brasil...

3 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 36

CAETANO VELOSO – VELÔ (1984)


Dentre todos os álbuns lançados por Caetano Veloso na década de 1980, o que mais me toca é Velô, lançado pelo filho mais ilustre de Santo Amaro da Purificação (BA) em 1984. Em seu décimo sexto álbum de estúdio, Caetano soava moderno, sedutor, ferino, feérico, filosófico como nunca tinha sido até então. 

A sonoridade do disco se deve graças aos músicos extraordinários da "Banda Nova", que acompanhava o irmão ilustre de Maria Bethânia na época. Tavinho Fialho e Toni Costa tocaram baixo e guitarra, Marcelo Costa e Armando Marçal ficaram a cargo da bateria e da percussão, Zé Luís Signeri ficou responsável pelos sopros (saxofone e flauta) e Ricardo Cristaldi era o tecladista do grupo e foi o produtor de Velô (junto de Caetano). Enquanto as rádios brasileiras enlouqueciam com as canções do chamado "Rock Brasileiro", Caetano Veloso lançou mão do ritmo amaldiçoado e de outras sonoridades nordestinas, eletrificou tudo à máxima potência e lançou um disco deliciosamente vibrante.

Marcelo Costa, Ricardo Cristaldi, Armando Marçal, Caetano Veloso, Tavinho Fialho, Zé Luís Signeri e Toni Costa

A primeira canção de Velô é uma das obras mais importantes da música brasileira do século XX. "Podres Poderes" é uma das críticas mais ácidas, irreverentes e inteligentes a um Brasil que estava a um passo da redemocratização, repleto de vícios seculares e feito por habitantes que mal sabem respeitar uns aos outros. O verso "motos e fuscas avançam os sinais vermelhos / e perdem os verdes / somos uns boçais" critica a selvageria do trânsito das grandes cidades brasileiras. Graças ao sucesso desta canção, Caetano foi convidado a gravar uma participação para uma série educativa com o objetivo de que os brasileiros aprendessem bons modos em relação aos veículos que conduzem. Na época, as máquinas fotográficas automáticas que captavam os apressadinhos foram apelidadas de "Caetanos".





Três canções do disco são um retrato interessante da música que se ouvia nas rádios brasileiras da época. "Shy Moon", canção romântica repleta de sons de sintetizadores e batidas eletrônicas, recebeu letra em inglês e contou com a participação especial de Ritchie, que fazia muito sucesso com o hit "Menina Veneno". "Comeu", além de ter recebido uma versão de Erasmo Carlos, foi também regravada por Kid Vinil, junto de seu grupo de Rock Magazine, e foi  o tema de abertura da novela global A Gata Comeu (1985), um dos maiores sucessos televisivos da década de 1980. Por fim, "Sorvete", retrata uma relação de amor conflituosa entre o sujeito poético e sua musa amada. Esta última canção caberia perfeitamente no repertório de Angela Rô Rô, que já foi agraciada com uma canção inédita de Caetano Veloso para o seu disco de 1981. Seguem os versos do refrão, pontuados pelos teclados de Cristaldi e pelo sax de Signeri:


"Feras lutam dentro da noite-normal
Todos os insetos, os do belo e os do mal
Anjos e demônios
O amor tomava conta de mim

Ela loura e negra, querubim e animal
Burra, sábia, deusa, mulher, menino e mandarim
Mas se ela não quis meu sorvete
Por que gravá-la em videocassete (...)"

Show Velô - Foto de Thereza Eugênia



"Grafitti", parceria bissexta de Caetano com os poetas Waly Salomão e Antônio Cícero, versava mitos gregos com a cena urbana da cidade grande com uma sonoridade ligeira, típica do período. Além da dobradinha com Waly e Cícero, Velô traz "Pulsar", uma bela parceria de Caetano com Augusto de Campos, um dos exponenciais da Poesia Concreta brasileira. A sexta faixa do disco, por sua vez, é uma gravação do frevo "Vivendo em Paz", do cantor, compositor e produtor musical baiano Tuzé de Abreu, um dos melhores números do disco. Já a terceira canção do disco é uma regravação de "Nine Out of Ten", composta por Caetano Veloso para Transa, seu álbum de 1972, com tons mais caribenhos e pitadas da New Wave que tocava nas rádios dos quatro cantos do planeta.




Velô possui duas canções bastante poéticas e filosóficas. A primeira delas, "O Homem Velho" (dedicada à memória de Zeca Veloso –  pai de Caê –, Chico Buarque de Holanda e Mick Jagger), um Caetano de 42 anos canta sobre o processo de envelhecimento com muita sobriedade e lucidez: 


"Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval
Espalham-nos além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal"



A segunda canção de cunho filosófico de Velô é "O Quereres", um belíssimo tratado musical sobre o desejo. Já regravada por grandes vozes da MPB como Maria Bethânia, Gal Costa e Fafá de Belém, é uma das obras mais populares do cancioneiro de Caetano Veloso:



"Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde possa o chão, minha alma salta
E ganha a liberdade na amplidão (...)"

A última canção de Velô, o samba-rap "Língua", foi dedicado a ativista política Violeta Arraes Gervaiseau e contou com a participação de Elza Soares, na época em baixa em sua carreira: 

Elza Soares & Caetano Veloso durante a temporada do programa Chico & Caetano - TV Globo (1986)

"Flor do lácio, sambódromo
Lusamérica, latim em pó
O que quer, o que pode essa língua?"



A canção de Caetano é um amálgama de expressões da língua portuguesa, de estrangeirismos, de citações filosóficas e de referências a nomes da música, da literatura e da intelligentsia como Luís de Camões, Fernando Pessoa, João Guimarães Rosa, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé. Um carnaval tropicalista encerrando um disco brilhante. Um dos trabalhos que levaram Caetano Veloso ao panteão dos homens mais notáveis da música brasileira.

2 de março de 2017

DISCOS DE VINIL # 22

MARINA LIMA - VIRGEM (1987)




Em 1987, o nome de Marina Lima já era mais do que consagrado no panteão da música brasileira. Sua parceria com seu irmão mais velho, o poeta e filósofo Antônio Cícero, lhe rendeu discos de sucesso e canções gravadas por nomes de peso como Gal Costa, Maria Bethânia e Zizi Possi. Além disso, Marina surgiu na virada da década de 1970 para a de 1980 e foi uma das grandes responsáveis pela inserção de elementos da Pop Music na música brasileira.



Virgem é o oitavo álbum de Marina e contou com a produção do saxofonista Leo Gandelman. A artista ficou a cargo da direção artística e Cícero foi responsável pela assessoria conceitual do trabalho. Os arranjos foram distribuídos entre a cantora, Nico Rezende e os músicos da banda que gravou o disco – William Magalhães, Sérgio dela Mônica, Torcuato Mariano, Renato Rocketh, Sidinho, Paulinho Guitarra e Carlos Maia.




A faixa que abre o disco é a balada de cunho filosófico "Pseudo-Blues", parceria de Nico Rezende e Jorge Salomão. Outra canção de destaque do repertório deste disco é "Doce Espera", assinada apenas por Marina. Originalmente gravada por Maria Bethânia em Dezembros (1986), Marina a retomou com direito a uma longa vinheta de introdução capitaneada por Leo Gandelman. Já a releitura lânguida para "Preciso Dizer Que Te Amo", parceria de Dé Palmeira, Bebel Gilberto e Cazuza, ainda toca nas rádios brasileiras com frequência. Por fim, a regravação de "Hearts", de Jesse Barish (um dos ex-integrantes do Jefferson Airplane) é bastante arrojada e entoada com a energia marcante da autora de "Fullgás".



Marina assinou sozinha mais duas faixas do álbum: "Confessional" é uma ode amorosa a um amor impossível e é uma das canções mais apaixonantes de seu repertório - a versão de Karina Zeviani, gravada no belo disco-tributo Literalmente Loucas - As Canções de Marina Lima (Gravadora Joia Moderna) merece uma audição por ser tão lírica quanto a gravação de original de 1987. Já "Primeiro de Abril (Eu Negar?)", regravada pela própria autora em No Osso (2015), mostra as nuances da voz e do violão de uma das artistas mais inquietas que o Brasil já nos ofertou em matéria de música.




Dentre as demais parcerias de Marina Lima e Antônio Cícero que se encontram em Virgem há o rock "Zerando", faixa dois do disco. O riff marcante da canção é uma das marcas registradas do repertório de Marina e é um dos lados B mais interessantes deste repertório. Já "Prestes a Voar" foi uma outra parceria dos irmãos Correia Lima que foi regravada no especial Acústico MTV, em 2003, com uma versão mais tocante do que a original, de 1987.




O grande sucesso de Virgem foi "Uma Noite e 1/2", de Renato Rocketh, que tocou incessantemente durante o verão da temporada 1987/1988. A letra sexy versava sobre a beleza dos corpos nas praias cariocas, falava em mulheres top less e em "bundinhas de fora" e rendeu um enorme sucesso à Marina. A faixa-título, uma das mais belas parcerias de Marina Lima e Antônio Cícero, recebeu um belo videoclipe do Fantástico e é uma das canções mais frequentes em shows e turnês.



Os ouvintes que desconhecem a chama que emana do cancioneiro de Marina encontrará em Virgem uma excelente porta de entrada para um trabalho musicalmente sofisticado e poeticamente incomum - Cícero contou em uma entrevista de que o verso "os inocentes do Leblon / eles não sabem de você" é uma referência a um poema de Drummond. Além disto, eles poderão constatar que mulheres podem se revelar em verdadeiras esfinges ou fortalezas escondidas nas armadilhas do olhar doce, meigo e levemente desafiador que lhes fitam na capa do disco...


19 de fevereiro de 2017

TROVA # 112

TEMPESTADES & FORTALEZAS


Para Ciça Carvalho, uma das fortalezas que me inspiram

“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”
(Clarice Lispector)


         Desde que a vida começou a me ensinar as lições mais amargas da existência que eu ouço o velho e surrado ditado: “Após a tempestade, vem a bonança”. Apesar de sempre carregar uma pontinha de otimismo dentro de mim, sempre odiei chuvas – as verdadeiras e as simbólicas. O desconforto se sente no corpo e na alma, todavia só construímos nossas fortalezas depois de muitas crises e sem direito a sombrinha ou guarda-chuva para nos reconfortar.


  Tempestades são cursos intensivos de aprendizagem e autoconhecimento, pois nos ensinam a juntar os cacos de mundos que são desfeitos com a agressividade do vento e dos raios. Tempestades nos fazem aprender sobre a importância da dor e do sofrimento para cada um de nós. Tempestades são dolorosamente necessárias, pois são instrumentos de amadurecimento.


        As intempéries doem simplesmente pelo fato de que não possuem tempo determinado para acabar: podem durar minutos, horas, dias, anos ou uma vida inteira. No entanto, sempre haverá o momento no qual o frio passa e o céu se abre para que tudo se renove, se transforme e novos caminhos se abram. Nem sempre as trilhas são lógicas. As trilhas nunca são em linha reta. Porém, elas nunca falham. E, por isso, devemos sempre agradecer aos astros por cada coisa boa e ruim que nos acontece.


   Sempre me julguei uma pessoa forte. No entanto, ao tomar conhecimento da vida de uma de minhas amigas, concluí de que preciso de muito arroz, feijão e experiência de vida para ter metade da força que ela tem. Minha amiga é uma verdadeira fortaleza: sempre disposta a superar seus próprios limites, é corajosa, determinada, guerreira e dona de uma gargalhada inconfundível. Mãe coragem, profissional dedicada e sempre aberta ao aprendizado. Vítima do mal que assola milhares de brasileiras, foi vítima de violência de um antigo companheiro. Tem expiado a dor e a decepção se mostrando ainda mais forte por dentro, mesmo que fragilíssima por fora e sem se esquecer de seu belo sorriso. E ainda consegue tempo para participar de uma bateria de um bloco de Carnaval.


       Já que falei de festividades, os dias de fevereiro são geralmente de bastante celebração por causa do Carnaval que arrasta milhões de pessoas para as ruas de todo o Brasil. Ótima oportunidade não apenas para deixar nossos dilemas de lado, como também é um momento e tanto para exorcizar nossos demônios e protestar contra o que existe de mais torto em matéria de política neste país. E, em meio ao calor acachapante do verão brasileiro, a chuva que cai nas nossas costas é sinal de refresco e de purificação.



   Este Vinícius que vos escreve, hoje tão avesso aos excessos carnavalescos (calor e muita gente não me fazem bem!), pede ao Rei Momo para que muitas pessoas se animem a pular, dançar e cantar o Carnaval a São Pedro para que muita chuva seja enviada para as terras de cá. Afinal de contas, promessas de vida são precisas para que as fortalezas humanas floresçam e resistam diante das tempestades que vem por aí...    


9 de outubro de 2016

TROVA # 91

AS LOUCURAS DA CIDADE



"Mas hoje retorna o medo das loucuras da cidade"
(Marina Lima & Antonio Cícero, 1979)


         Desde o dia em que me mudei de vez para São Paulo que eu sofria com o velho dilema de não ter transferido meu título de eleitor para poder votar nos candidatos que se propõem a “administrar” o Planalto de Piratininga. Primeiro porque sempre tive uma preguiça absurda de ir até o cartório eleitoral mais próximo e enfrentar a burocracia de horas para poder fazer o tal do meu “papel de eleitor”. Em segundo lugar, porque nunca levei muita fé no verdadeiro poder de mudança do meu título de eleitor em um país no qual as elites sempre tomaram as decisões políticas, econômicas e sociais. Por fim, não tiro a importância do voto, mas sei que ele não é o único de nossos instrumentos para lutar contra as injustiças do Brasil. Eu lanço mão de minha militância como cidadão, seja no espaço público, seja em algumas conversas privadas para poder lutar contra os desmandos dos que detém o poder.
         Não votei em Fernando Haddad para que ele se elegesse Prefeito de São Paulo em 2012. Demonstrei até uma certa preocupação pelo fato dele ter subido ao poder graças às alianças políticas duvidosas do PT de Lula com um político asqueroso da estirpe de Paulo Maluf. Por outro lado, Sampa tinha padecido por anos nas mãos de administradores irresponsáveis: Celso Pitta, José Serra, Gilberto Kassab e o próprio Maluf levaram esta cidade para um buraco sem tamanho. As gestões de Luiza Erundina e Marta Suplicy foram exemplos concretos de que o Partido dos Trabalhadores já tinha feito bastante pelos paulistanos. Apesar da força daqueles acontecimentos, acreditei na competência de Haddad e torci para que ele fizesse um bom governo.
         O Brasil adentrou uma espiral de polarização política a partir de meados de 2013. O aumento das tarifas de ônibus aqui em São Paulo foi o estopim para que jovens, trabalhadores, a classe média, a mídia e mais alguns fossem para as ruas e se rebelassem contra quase tudo que era da ordem do governo federal. Ir às ruas se tornou em uma demonstração de ousadia e desejo por revolução em uma fração de segundo. Eu me lembro de ter sido radicalmente contra aqueles protestos – afinal de contas, aquele slogan de “Dá licença, mas estamos mudando o Brasil” nunca soou muito bem para os meus ouvidos desconfiados. Nascia ali o ovo da serpente que gerou os movimentos ditos como “suprapartidários” (MBL, Vem pra Rua e outras falanges da velha direita conservadora e fascista e primas distantes da clássica TFP) e que se aliou à mídia para iniciar uma inquisição dos políticos petistas. Dilma Rousseff e seus correligionários passaram a ser o alvo da insatisfação coletiva. Fernando Haddad foi duramente criticado por ter proposto o aumento das passagens A presidenta se preocupou com a voz das ruas e chegou até a propor um plebiscito para que o povo votasse em reformas urgente, vetado pelo congresso. O prefeito recuou de sua decisão, depois de ter mostrado alguma resistência. O PT, ao contrário, não deu a devida atenção para as palavras de ordem e pagou um preço altíssimo por isso.
         Mesmo sofrendo uma série de bombardeios da mídia, Fernando Haddad fez muito mais do que constituir ciclovias em São Paulo. O trânsito, este eterno demônio paulistano, melhorou consideravelmente depois que as Marginais Tietê e Pinheiros tiveram seus limites de velocidade reduzidos a 70, 60 e 50 km / h. As mortes de paulistanos dirigindo pelas ruas e grandes avenidas diminuíram consideravelmente depois da regulação, irritando as elites e a classe média, influenciadas pelos ataques constantes do GAFE (Globo, Abril, Folha & Estadão) à gestão petista. Milhares de estudantes receberam passe livre em todos os ônibus da cidade, enquanto vários trabalhadores tiveram a opção de utilizar o transporte público graças ao Bilhete Único Mensal. Além disto, Haddad construiu mais de 400 km de ciclovias, faixas exclusivas e corredores de ônibus e regularizou o aplicativo UBER, para que tivéssemos melhores opções de táxis na capital. A classe trabalhadora deveria agradecer imensamente ao prefeito eleito para o mandato 2013-2017: o tempo gasto pelo trabalhador para ir e voltar foi reduzido em 4 horas / semana.
         Outro ponto importantíssimo da administração de Haddad foi em relação ao trato com as minorias e os movimentos sociais: incentivou o reflorescimento do Carnaval de Rua de São Paulo; abriu a Av. Paulista para os pedestres e os ciclistas aos domingos; fez excelentes políticas de apoio à comunidade LGBT (o programa “TRANSCIDADANIA” dentre eles); criou o “Braços Abertos”, que abordou a questão do consumo de entorpecentes de uma maneira muito mais humana; instalou Wi-Fi nas praças e nos ônibus, obrigou os taxistas a cobrarem tarifas através de máquinas de cartão (uma excelente medida de segurança para motoristas e passageiros); construiu creches e quase zerou a fila de espera de vagas nestas instituições; sancionou uma lei obrigando as escolas municipais a incluírem alimentos orgânicos nas merendas dos estudantes; colocou ar-condicionado, carregador de bilhete único e de celular na frota de ônibus; ampliou o horário de trânsito do transporte público (sim, podemos pegar ônibus de madrugada!).



         Em relação à eficiência dos gastos públicos, Fernando Haddad se provou como um verdadeiro trabalhador no quesito eficiência: criou um órgão de auditoria independente (a Controladoria Geral do Município); reduziu a dívida do município; recuperou cerca de 280 milhões de reais para os cofres públicos; combateu a máfia do ISS e a corrupção na cidade; aprovou o plano diretor e teve todas as suas contas aprovadas sem nenhuma ressalva. Um detalhe: Haddad jamais foi acusado de ser corrupto e possui uma trajetória idônea e limpa, ao contrário de muitos de seus colegas de partido, para não citar outros exemplos. Seu governo não foi abalado por nenhum caso de corrupção, algo louvável nos tempos de hoje.
         O fato da terceira gestão petista ter beneficiado o maior número de paulistanos enfureceu a mídia e os conglomerados midiáticos, fiadores do antipetismo e do fascismo observado nas ruas e nas redes sociais. A campanha de massificação e distorção dos fatos a favor de uma elite política mesquinha e incompetente não tinha apenas o intuito de derrubar Dilma Rousseff, como também tinha o principal alvo o prefeito da cidade mais importante do país. Conseguiram: elegeram João Doria Jr., um aristocrata, filho de uma família de escravocratas e membro do PSDB, ainda no primeiro turno das eleições municipais de 2016.


         O quinquagésimo-quarto prefeito eleito para governar a cidade de São Paulo representa a mesma política velha e carcomida que está no Governo do Estado há mais de 20 anos. Fizeram pouquíssimo pelo transporte público; não adotaram medidas para as minorias, tampouco para a educação; são frequentemente acusados de desvio de dinheiro e são coniventes e irresponsáveis com a violência crescente. A eleição de Doria não é apenas a representação do retrocesso político e social que foi instituído no Governo Federal a partir de um golpe parlamentar financiado pelo PSDB: é o fruto da irresponsabilidade das alianças feitas pelo PT no passado e da desunião das forças políticas de esquerda, impossibilitadas de pensar em um projeto coletivo para uma das cidades mais importantes do mundo. Lançaram mão do discurso populista e demagógico da “indústria da multa” e de outras falácias para conquistar o voto das periferias.
         O antipetismo encontrou ecos na classe trabalhadora, descrente no projeto inclusivo e humanista do Partido dos Trabalhadores. Os trabalhadores serão os primeiros a pagar o alto preço de terem eleito um lobista. Os abstinentes e os que votaram nulo vão, mais uma vez, sentir na carne a imprudência de não terem cumprido seu papel de eleitores. A classe média sofrerá os efeitos de um governo feito exclusivamente para as elites no próprio bolso. Não estou lançando mão do discurso tucano do “quanto pior, melhor”, mas a fala do prefeito eleito que ecoa pelos quatro cantos da mídia nos mostram uma tragédia inevitável. São Paulo deve voltar a sentir o gosto amargo das loucuras da cidade...

LEIA AQUI O PREÇO ALTO QUE SÃO PAULO IRÁ PAGAR COM A ELEIÇÃO DE DORIA: