10 de junho de 2012

TROVA # 7

TIM MAIA REVIVIDO...
POR CERCA DE DUAS HORAS E MEIA!


“Mais grave!

Mais agudo!

Mais eco!

Mais retorno!

Mais tudo!”

(Tim Maia, citado por Nelson Motta em Noites Tropicais, seu livro de solos, improvisos e memórias musicais.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p.7)
O poster do musical baseado na vida e obra de Tim Maia
          Existem noites que fazem bastante diferença nas memórias das pessoas. Existem noites que são inesquecíveis. Existem noites que são simplesmente antológicas. A noite que separa os dias 09 do dia 10 de junho de 2012 se enquadra justamente no terceiro caso que eu acabei de citar aqui. Isto se deve graças a um dos grandes reis magos das trilhas sonoras noturnas de muitos brasileiros, Sebastião Rodrigues Maia, mais conhecido entre nós como Tim Maia.

Tim Maia, nos ensaios do show de divulgaçáo de seu primeiro LP, em 1971 - um perfeccionista que deu muito, mas muito trabalho para os técnicos de som e engenheiros de gravação da Philips, sua primeira gravadora.
          Não, eu não estive em nenhuma sessão de mesa branca, em nenhum terreiro de macumba, em nenhum templo espiritista ou em nenhum estabelecimento onde se crê na seita Universo em Desencanto! Eu estive em um local bem distinto para quem curte o melhor das chamadas “Noites Paulistanas”: Rua Augusta 2823, Teatro Procópio Ferreira; em cartaz: Tim Maia Vale Tudo – O Musical. Texto de Nelson Motta (autor de Vale Tudo – O Som & A Fúria de Tim Maia, a biografia oficial de Tim, além de amigo pessoal do mestre), direção de João Fonseca, direção musical de Alexandre Elias, produção geral de Sandro Chaim e Tiago Abravanel revivendo um dos personagens mais carismáticos e controvertidos da música brasileira em todos os tempos.

Tiago Abravanel em sua caracterização impressionante de Tim Maia

          É chocante a fidelidade e a entrega de Abravanel ao papel principal. Seu Tim Maia consegue ser tão verborrágico, carismático, cômico e (levemente) dramático como o original que o Brasil inteiro conheceu. Seu desempenho vocal chega a ser tão fiel às gravações em estúdio e ao vivo que fizeram de Tim um mito que alguns tiveram a impressão que estávamos diante do Maia que foi nascido e criado no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Os clássicos escolhidos para a interpretação do jovem autor foram os mesmos que todos nós esperávamos em um evento como este: “Vale Tudo”, “Azul da Cor do Mar”, “Você”, “Não Vou Ficar”, “Me Dê Motivo”, “Um Dia de Domingo”, “Imunização Racional (Que Beleza)”, “Bom Senso”, “Chocolate”, “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)” ficaram muitíssimo bem executadas e não nos trouxe a menor nostalgia de ouvir os discos em casa... Um primor de interpretação dos atores e dos músicos de apoio que conseguiram soar tão autênticos quanto o som riquíssimo da Banda Vitória Régia, que acompanhou Tim por palcos e roubadas de todo o país.
O mesmo não pode se dizer dos figurinos, das vozes e da caracterização do ator principal e do restante do elenco: são de uma perfeição indiscutível! Viajamos através das décadas numa simples troca de adereços: conseguimos ir das esquinas musicais tijucanas que fervilhavam ao som do Rock ‘n’ Roll aos embalos das noites regadas a Tim Maia Disco Club ou aos dias intensos de Universo em Desencanto em pouco menos de um minuto.
      
O elenco de Tim Maia Vale Tudo - O Musical
        Os demais integrantes do elenco também não devem em absolutamente nada ao talento de Abravanel. Lilian Valeska, Pedro Lima, Reiner Tenente e Evelyn Castro possuem um desempenho impecável em cada um dos vários personagens que interpretam neste trabalho, como Jeanette (a primeira esposa de Tim), Sr. Altivo Maia (pai de Tim), Sr. Manoel Jacintho (guru da seita Universo em Desencanto), Roberto Carlos (que cantou com Tim no grupo vocal Os Sputniks antes de ser coroado Rei), Nelson Motta, D. Maria Imaculada Maia (mãe de Tim), etc. etc. etc. O cast ainda conta com as presenças (corpos e vozes de talento em sincronia plena!) de Izabella Bicalho, Pablo Áscoli, Bernardo La Rocque, Andreh Vieri, Aline Wirley e Letícia Pedroza.
          O texto, dividido em dois atos, consegue contar vários episódios marcantes das trajetórias profissional e pessoal de Tim Maia: seus dias de Tijuca, sua temporada nos EUA, a escalada para o sucesso, o encontro memorável com Elis Regina, o encantamento e a desilusão com a religião, os encontros e desencontros amorosos, as drogas e a solidão... Porém, o musical retratou a vida de Tim com muito bom humor – inclusive nos momentos mais difíceis de seus 55 anos de vida intensamente vividos como o uso intenso de drogas, as dificuldades financeiras, a saúde precária no decorrer dos seus últimos anos de vida, além das inúmeras idas e vindas com as mulheres. Além disso, a voz de Nelson Motta – em off – indica o início e o fim de uma história que é contada em flashback a partir do dia 08 de Março de 1998 no Teatro Municipal de Niterói, em que Tim fez sua derradeira aparição nos palcos.
Tim Maia abraça Nelson Motta em meados da década de 1990.
Nelsinho, além de grande amigo, seria seu biógrafo anos mais tarde.
         Tim Maia Vale Tudo – O Musical é um programa e tanto. Primeiro por se tratar de excelentíssimo teatro musical, com vozes, canções e arranjos que fazem muito bem para a alma. Segundo porque resgata o legado e o talento de um dos maiores ídolos da música brasileira. Terceiro, por razões estritamente pessoais e sentimentais, porque me trouxe “de volta” a presença de uma das vozes que mais povoaram minha infância e adolescência na Ilha do Governador: por pouco mais de duas horas e meia pude reviver um pouquinho do pomposo som e da doce fúria de Sebastião Rodrigues Maia em persona. Longe das polêmicas e para além dos aforismos que são bastante citados por aí, Tim Maia sempre preenche nossos ouvidos e nossos corpos com bastante suingue e alegria. Sempre após vários pedidos para que se aumentassem os ecos, os agudos, os graves e tudo o mais! Afinal, para um mago dos sons, música sempre deve ser apreciada a partir de todas as suas nuances. Não sou tão expert neste assunto, mas devo confessar que neste aspecto concordo com Tim Maia em gênero, número e grau!

Veja o trailer do musical aqui:

E ouça mais 10 LADOS B de Mestre Maia

que valeriam outro musical e tanto...


1. Dance Enquanto é Tempo

2. Sofre

3. Bons Momentos

4. Leva

5. New Love

6. Lábios de Mel

7. A Fim de Voltar

8. A Festa de Santo Reis

9. Rodésia (Zimbabwe)

10. Até Que Enfim Encontrei Você 




18 de maio de 2012

TROVA # 6


A ÚLTIMA DANÇA DE DONNA SUMMER

Donna Summer (1948-2012)


Querida Donna Summer,

           Certamente você não me conhece... Meu nome é Vinícius (vulgo: Vinil), tenho 31 anos, sou Professor (e blogueiro ocasional!), cresci e aprendi Inglês ouvindo seus sucessos! Vivo em um lugar da América do Sul que as pessoas chamam de Brasil - é por isso que escrevo em Português. Acho que você já esteve aqui no meu país algumas vezes para fazer shows, mas infelizmente nunca dei tanta atenção. Yes, shame on me!
           Por que eu decidi te escrever? Porque eu fiquei estarrecido com a sua partida tão repentina e tão sentida! Em 17 de maio de 2012, a Disco Music se calou. Pior do que isso: fez a sua última dança! Com o apagar de sua estrela, Mrs. Summer, ficamos órfãos de uma das criadoras de uma era inesquecível. Você foi referência para talentos de sua geração e que também mais influenciou os que surgiram nas décadas seguintes.
           Posso te dar algumas provas evidentes disso... Madonna seguiu seus passos ao levar para as pistas de dança uma fórmula te deu muito sucesso com o seu primeiro hit, “Love to love you baby”: sexo, um som hipnotizante e muito groove! Moby e David Guetta eram fascinados por seu som incomum; Kylie Minogue, Beyoncé, Nicki Minaj e outras popstars da vez te consideravam uma diva das pistas e uma modelo inquestionável; até Barbra Streisand se rendeu aos seus encantos e se juntou a ti em seus dias inesquecíveis de Disco Queen no final da década de 1970 naquele dueto antológico, “No More Tears (Enough is Enough)”. Seu nome não significou um mero modismo, mas foi um exemplo de música de excelente qualidade!!!
         Ah, já que eu mencionei a Barbra... Como nós, ela ficou bem chocada ao saber da sua saída de cena.  Achou que você estava tão cheia de vida na última vez em vocês se viram. Sempre te admirou por você ter tido uma voz e um talento imbatíveis. E mais do que isso: disse pela enésima vez que adorou ter gravado com você e bla blá blá... Pena que vocês nunca cantaram juntas ao vivo... Teria sido sensacional! Elton John, outro admirador confesso seu, disse que seus discos "soam bem em qualquer época" (...). E disse mais: "É uma desgraça total ela nunca ter sido inclusa no Hall da Fama do Rock, especialmente quando eu vejo artistas de qualidade inferior chegando lá". É duro, mas temos que concordar com as palavras de Sir Elton. Ninguém precisou viver intensamente os chamados “embalos de sábado à noite” para não lembrar clássicos do Pop como “I Feel Love”, “Bad Girls”, “Hot Stuff”, “On The Radio”, “She Works Hard For The Money”, “Last Dance”... E também concordo com Barbra Streisand: tu tinhas uma voz belíssima, formada pelos sons das Igrejas batistas norte-americanas, o que te deixava na mesma galeria de outras divas de formação semelhante como Aretha Franklin, Dionne Warwick e Whitney Houston (para não citar outras!).
             Minha relação com o seu legado começou por volta de 1994/1995, quando você lançou Endless Summer, aquela coletânea na qual você reviu toda a sua carreira e nos deu duas canções inéditas. Evidentemente isto se deu através da influência dos meus pais, que viveram intensamente os já citados “embalos de sábado à noite” e gostavam muito de te ouvir cantar. Porém, as suas canções, Mrs. Summer, não se restringiram apenas a uma era que hoje se encontra distante no tempo: elas fazem parte de um repertório universal que povoa os inconscientes sonoros coletivos. Afinal, todos nós amamos uns aos outros, todos nós desejamos uns aos outros, todos nós dançamos uns com os outros, todos nós fazemos sexo uns com os outros e você soube dizer isto tudo muitíssimo bem com a sua música. Quando Madonna resolveu incluir “I Feel Love” na Confessions Tour, não se tratava apenas de citar um sample seu ou de  realizar um mero tributo ou homenagem a ti. A Rainha do Pop te reconhece como O baluarte da Dance Music, o que é, no mínimo, justo para uma artista negra que abriu portas em um universo mercadológico dominado por brancos (a Disco era um tipo de música feita por negros para ser apreciada por brancos!). Ao ouvirmos a gravação original de “I Feel Love”, temos a nítida sensação foi gravada ontem, de tão moderna que ainda soa para nossos ouvidos tão fatigados de ouvir tantas asneiras por aí...
              Sua perda, Mrs. Summer, foi muito sentida por diversos segmentos da música internacional. O que eu acho mais lastimável é o fato de uma mulher de 63 anos, em momento de alta criatividade profissional (fiquei sabendo que você estava gravando um disco que sucederia seu último trabalho, Crayons, de 2009), ter sido mais uma vítima do câncer. E ainda pior: você apenas lutou 10 meses contra a doença! O Presidente Obama disse que sua voz era inesquecível e que "a música perdeu uma lenda muito cedo". Uma amiga minha de anos comentou no Facebook: “Esta é uma doença que não escolhe: pode ser negro, branco, pobre, rico, jovem, velho, inteligente, burro... tudo o que nos resta é rezar para que os pesquisadores e cientistas achem a cura para o câncer o quanto antes. E rezar para que Deus proteja aqueles que a gente ama!”. Compartilho do mesmo desejo da amiga em questão, mas Deus não me deu esta sorte... já perdi três parentes para o câncer. Espero que seu marido e suas filhas consigam achar forças para viver daqui para diante, pois imagino o quão deve ser difícil!
              Por isto, acho que o melhor a fazer por ora é encerrar esta Trova de Vinil por aqui lembrando que sua música, Donna Summer (parafraseando “Last Dance”) sempre estará “ao nosso lado, para nos guiar e para nos segurar” em nossos maus (e bons momentos).
            Rest in Peace, Mrs. Summer! May you rest in Lord’s arms...
            
            Com amor,

Vinil

 10 Motivos para você lembrar de Donna Summer:

1. Last Dance

       2. On The Radio

       3. Love's Unkind

       4. Bad Girls

  5. No More Tears (Enough is Enough)

       6. Melody of Love

       7. She Works Hard for the Money

       8. Love to Love You Baby  
    
      
        9. I Feel Love

     10. McArthur Park

18 de abril de 2012

TROVA # 5

O BAÚ DE PÉROLAS NEGRAS DE JANIS JOPLIN
Os olhos mais belos que o Texas já produziu!!!

 Ao Nilton Serra, que hoje gosta de Janis Joplin tanto como Eu...

Sempre achei que as melhores surpresas que a vida nos traz são justamente aquelas que surgem quando menos esperamos que elas apareçam. Especialmente quando estas são musicais... Além de renderem ótimas ideias para as crônicas musicais que vou escrevendo e compartilhando por aqui!
            Vamos à surpresa: tinha saído do trabalho em um belo sábado à tarde quando decidi entrar em um dos maiores templos de perdição consumista que conheço: a Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Para quem não conhece ou não vai a este lugar há tempos, a Cultura é uma megastore que vende todos os tipos de livros, CDs, DVDs e outras coisas que faz qualquer indivíduo que goste de entretenimento e informação ficar babando... Pois bem, minha surpresa consiste justamente do seguinte: ao perambular por aqueles corredores de perdição, descobri que foi lançado no Brasil um registro ao vivo inédito de Janis Joplin, até então, à frente do mítico conjunto que a projetou para os olhos do grande público: o Big Brother & The Holding Company! O tal registro consiste de dois shows que eles deram no Carousel Ballroom, casa de shows que deu origem ao lendário Fillmore West nos estertores da década de 1960.

Janis à frente do Big Brother & The Holding Company
           O responsável por ter captado Janis e Cia. a todo vapor foi um produtor e engenheiro de som chamado Owsley Stanley – mais conhecido por todos como Bear (morto aos 76 anos de idade em um acidente de carro fatal em março de 2011). As noites de 22 e 23 de junho de 1968 atestam não apenas um grupo e uma cantora que estavam em plena ascensão profissional, como também é um atestado musical genuíno de um dos momentos mais instigantes e criativos do Rock em todos os tempos: solos de guitarra regados a LSD, a voz de Janis curtida em nicotina e doses cavalares de Southern Comfort (para quem não conhece, é uma marca famosa de whisky de New Orleans e que teve em Miss Joplin uma de suas garotas-propaganda mais célebres!), versos sobre amores partidos (“Piece of My Heart”), liberdade de expressões e sentidos (“Light is Faster than Sound”), desejo e solidão (“Catch Me, Daddy” e “Ball & Chain”), dentre outras.
Janis e sua companheira inseparável, sua garrafinha de whisky Southern Comfort -
foto de Linda McCartney
           O CD também nos mostra o quanto Janis Joplin se entregava de corpo em alma em cada número do setlist. “Summertime”, “Catch Me, Daddy” e “Ball & Chain” são números tão eletrizantes, mas tão eletrizantes de se ouvir, que se torna impossível não ter vontade de ficar com a boca aberta com a excelência vocal deste talento tão precoce para a época bater os pés no chão ou de até sair dançando! Janis foi muito mais do que uma menininha infeliz do Texas que resolveu sair pelas estradas e tentar ganhar a vida como cantora em San Francisco. A partir do momento em que ganhou projeção como vocalista do Big Brother & The Holding Co., a mocinha transformou-se em uma espécie de porta-voz de uma geração que ansiava por liberdade em todos os sentidos. Fez de seus (des)encontros amorosos a matéria-prima de sua arte (um detalhe curioso: Janis era ninfomaníaca! – além de ter se relacionado abertamente com homens e mulheres, isso em uma época em que muitos estavam descobrindo novas alternativas para viver em sociedade). Sofria de depressão, de baixa estima, tinha acessos de ira, tinha problemas com a própria imagem e com o peso (o fato de receber o título de "The ugliest guy on campus" tornou-se em um trauma jamais superado), além do vício em bebidas, cigarros e... narcóticos! Certa vez, Miss Joplin disse que "(...) profissão e vida íntima se misturam um pouco, por isso procuro viver o meu real, ser simplesmente Janis, já que o sentimento é a base das minhas canções". Além disso, era uma cantora branca que, em seu canto, não devia absolutamente nada a gigantes do peso de Aretha Franklin, Etta James, Tina Turner ou as Staples Singers (vozes negras que, por sinal, Janis admirava profundamente!).

           Meu amor pelo legado de Janis Joplin já vem de longa data. Comecei a ouvi-la através de seu maior sucesso, "Me & Bobby McGee", e depois não parei de ouvi-la. Sempre achei intrigante ouvir  grupos de homens  com mulheres no vocal. No entanto, o encanto de Janis era diferente: sempre tive a impressão de que sua voz vinha de um buraco tão profundo, mas tão profundo que ia além de suas cordas vocais. Seu canto vinha de lugares os quais sempre tivemos medo de explorar, de sensações que sempre repelimos e que estão regadas por uma intensidade que sempre nos dispomos a nos afastar. Por outro lado, estando à frente do Big Brother ou não, Janis sempre estava disposta a mexer, a sacudir com o seu ouvinte na medida que ela avisava que ela estava ali para cantar com você (ouça "Combination Of The Two", faixa de abertura de Cheap Thrills e entenda o que estou te dizendo!).
             O que mais me impressiona sobre Janis até os dias de hoje é o quão curta sua trajetória musical foi e como ela se foi tão jovem. Da glória alcançada com Cheap Thrills (o segundo trabalho que gravou com o Big Brother & The Holding Co. - o primeiro disco, de 1966, não fez o menor sucesso!) até às gravações inconclusas de seu trabalho derradeiro, Pearl, foram apenas dois anos e meio. Quando decidiu abandonar o Big Brother em dezembro de 1968 para seguir em carreira solo, Janis conseguiu não só consolidar sua carreira musical, como conseguiu manter seu local cativo dentre as mulheres mais importantes em toda a música. I Got Dem Ol' Kozmic Blues Again Mama! foi lançado em 1969 e apresentou caminhos distintos dos quais Janis trilhava à frente do BB&THC. Faixas como "Try (Just A Little Bit Harder)", "Work Me, Lord" e a regravação do standard "Little Girl Blue" revelavam um som influenciado pela gravadora Motown e pelo selo STAX (as Mecas da música negra norte-americana), com arranjos de metais estridentes e a voz de Janis em pura brasa - a reedição deste trabalho em CD, trazia uma faixa bônus que até hoje tira o meu fôlego: "Dear Landlord". Se você quer ouvir uma regravação de um clássico de Bob Dylan completamente "virado ao avesso", ouçam esta gravação em especial!
               Em suas apresentações, Janis literalmente fazia amor com os que iam assisti-la. (e quem não se lembra de uma de suas máximas mais notáveis: "No palco eu faço amor com 25.000 pessoas, depois vou para casa sozinha."?). Além disso, sempre incitava o público a sair da apatia de suas cadeiras e compartilhar do groove que a embalava pelos palcos afora – ela constantemente falava para todos aqueles que iam assisti-la: “Ei, vocês podem se levantar! Vamos dançar um pouco?”. Sua aparição no lendário Festival de Woodstock é uma parca lembrança que temos deste fato entre nós. Tal qual Jim Morrison, Janis Joplin foi, aos poucos convertida, em uma espécie de persona non grata nas terras de Uncle Sam. Quando a heroína a levou de nós de uma vez por todas, em outubro de 1970, a “Pérola Negra do Texas” estava em busca do prestígio que obtivera durante o seu auge, quando estava à frente de seu antigo grupo.
               Os registros resgatados por Bear não valem tanto pela qualidade técnica do som (se você ouvir este CD em fones de ouvido, verifique se os dois lados estão funcionando BEM, pois a captação do som foi feita em condições extremamente precárias!), mas por boa parte das performances contidas no material estar em qualidade levemente superior ao incensado álbum Cheap Thrills, lançado por Janis e o Big Brother no outono de 1968. De acordo com Myra Friedman, uma das biógrafas de Janis, a maior dificuldade do grupo durante as gravações do disco que os projetou para o estrelato foi a péssima qualidade das gravações e do som dos instrumentos (Isso mesmo, de acordo com Friedman, um dos maiores defeitos do Big Brother era de que Sam Andrew, Peter Albin, Dave Getz e James Gurley tocavam mal!!!), o que chega a ser irônico se pensarmos no som que Janis estava desenvolvendo à frente da Full Tilt Boogie, a competentíssima banda de apoio que tinha formado meses antes de morrer...
Cheap Thrills, lançado por Janis à frente do Big Brother & The Holding Co., em 1968.
Já em carreira solo, Janis lançou o antológico I Got Dem Ol' Kozmic Blues Again Mama! em 1969. 
Infelizmente, Janis não pode desfrutar da glória de seu disco Pearl, seu maior sucesso comercial,
lançado postumamente no ano de 1971...
            De qualquer maneira, nossa proposta não é apenas comemorar o lançamento de um registro histórico, mas de relembrar através de palavras, versos e sons da importância de Janis Joplin entre nós, seres humanos. Nossa esperança é a de que suas interpretações memoráveis e o seu talento inconfundível jamais sejam esquecidos... Graças ao baú de pérolas raras de Bear, guardião da história musical, temos mais um registro antológico (sem retoques, sem Photoshop, sem maquiagem, sem glamour, com leves microfonias, com solos distorcidos, com muito LSD!!!) de Janis para que possamos amenizar um pouco a perda e a saudade de uma artista que hoje é um mito entre nós. Aí vai a tracklist do CD:

  1. Combination of the Two
  2. I Need a Man to Love
  3. Flower in the Sun
  4. Light is Faster Than Sound
  5. Summertime
  6. Catch Me Daddy
  7. It's a Deal
  8. Call on Me
  9. Jam - I'm Mad
  10. Piece Of My Heart
  11. Coo Coo
  12. Ball & Chain
  13. Down On Me
  14. Call On Me (Saturday Show - June 22nd, 1968) - Bonus Track

Janis como Pearl, seu alter-ego.


13 MOTIVOS PARA QUE VOCÊ OUÇA JANIS JOPLIN:

1. Combination of the Two

2. Ball & Chain

3. Summertime

4. Magic of Love

5. Dear Landlord

6. As Good As You've Been To This World

7. Maybe

8. Work Me, Lord

9. Try (Just A Little Bit Harder)

10. Me and Bobby McGee

11. Cry Baby

12. Get It While You Can

13. Half Moon

... E UM DUETO HISTÓRICO!