10 de janeiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 15

DAVID BOWIE – LET’S DANCE (1983)


 “I know when to go out
I know when to stay in
And get things done
”
(“Modern Love” – David Bowie, 1983)


1983 foi, definitivamente, o ano em que David Bowie brilhou como poucos no mundo da música neste planeta. O camaleão não gravava um álbum de inéditas há cerca de três anos quando lançou um dos títulos mais importantes de sua discografia: Let’s Dance.
Entre Scary Monsters (And Super Creeps) e este clássico (que completou 30 anos de lançamento em 14 de abril de 2013), Bowie esteve em recesso. Apesar de ter feito uma parceria incandescente com o Queen (“Under Pressure”) e de ter gravado com o produtor e compositor (e um dos papas da disco music) Giorgio Moroder  (“Cat People”), todos esperavam um grande passo do Mestre em direção aos holofotes no ano de 1983.


Para que David Bowie estivesse pronto a fazer o seu grande retorno à cena, era preciso entender as modificações que ocorriam na música Pop da época. O surgimento da MTV acelerou a popularização do videoclipe; “Thriller”, de Michael Jackson, tinha tomado o planeta de assalto no ano anterior e Madonna já tinha iniciado seu plano (bem-sucedido) de conquista do universo pop com o lançamento de seu álbum de estreia, também de 1983. Além disto, o Rock tinha definitivamente se tornado em um enorme espetáculo e dominava grandes arenas e espetáculos. O camaleão velho de guerra deveria agir de forma precisa e marcante para garantir seu espaço ao sol e não ficar para trás em relação aos seus contemporâneos. E David Bowie fez isso com enorme brilhantismo…

Bowie no Festival de Cinema de Cannes de 1983
Primeiramente, o visual e o som: a versão 1983 de David Bowie era indefectível: cabelos louros platinados (como nunca estivera até então), ternos elegantes ao som de uma música simples, dançante e com versos diretos para a fácil compreensão do ouvinte; passo 2: seguir os conselhos dos colegas do Queen e assinar um contrato de $17,5 m com a EMI, depois de anos gravando pela RCA; terceiro passo: trocar seu fiel produtor (e escudeiro musical) Tony Visconti – responsável pela produção de cinco trabalhos de Bowie até então – pelo renomado Nile Rodgers para trabalhar em Let’s Dance. Troca realizada, tudo estava pronto para que o astro desse início às gravações das oito faixas do novo trabalho.

David Bowie e Nile Rodgers

Rodgers já era um dos nomes mais famosos do showbiz musical naquela época graças ao seu trabalho à frente da banda Chic, na qual era guitarrista, produtor e compositor ao lado de Bernard Edwards. Também produziu hits de Diana Ross, Sister Sledge, Debbie Harry (Blondie) e Carly Simon. No entanto, ao encontrar com David Bowie em uma boate de Nova York no início dos anos 1980, o talento deste Midas do Pop foi definitivamente posto à prova. Em pouco menos de 20 dias de gravação, Nile conseguiu revirar as demos Folk do camaleão de cabeça para baixo ao transformá-las em verdadeiros hinos dançantes.


Conforme o esperado, a associação Bowie + Rodgers resultou no maior sucesso comercial do astro inglês até hoje. A crítica especializada reconheceu Let’s Dance como um dos melhores trabalhos do autor de “Space Oddity”. Já os fãs mais puristas acharam o disco comercial demais, devido à sonoridade Pop (sem o mesmo experimentalismo de lançamentos anteriores) das canções.


O inesperado sucesso do álbum surpreendeu o próprio David Bowie. Afinal, este é um dos poucos trabalhos nos quais o artista não tocou um instrumento musical sequer no decorrer das gravações. Também é importante acrescentar que sete das oito faixas do disco foram singles (lados A e B) de relativo sucesso, o que é uma clara evidência do quanto o público de Bowie se expandiu a partir deste lançamento. Ao contrário do que muitos especialistas acreditavam, Let’s Dance é um disco tão conceitual quanto The Rise and Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars (1972), Diamond Dogs (1974), Station to Station (1976) ou a trilogia berlinense Low – Heroes – Lodger (1977-1979).
Por outro lado, este foi o último momento no qual o camaleão conseguiu ter uma sequência de álbuns reconhecidos por público e crítica – os sucessores Tonight (1984) e Never Let Me Down (1987) não tiveram a mesma aclamação de momentos anteriores –, prova cabal de que a crueldade artística da década de 1980 não poupou sequer o próprio David Bowie.
O reencontro com o sucesso teve como resultado a Serious Moonlight World Tour, uma das turnês mais bem-sucedidas de 1983. Por outro lado, Bowie confessou que a partir daquele período teve um longo período de crise criativa. De qualquer maneira, Let’s Dance já tinha garantido ao seu autor um lugar garantido entre os clássicos absolutos da década de 1980.
Let’s Dance – Faixa a Faixa:

1)          “Modern Love” (4:48) - Nesta faixa, Bowie já avisa logo de cara que sabe o momento certo de sair, de ficar e de como conseguir o que quer. Uma das faixas mais conhecidas do disco, era a canção escolhida para fechar os shows da Serious Moonlight Tour.



2)          “China Girl” (5:32) - Composta em 1976 por Bowie em parceria com Iggy Pop para o disco The Idiot (1977), do amigo. O toque Pop dado pelo co-autor ao lado de Nile Rodgers fez com que “China Girl” fosse um dos maiores hits do camaleão em todos os tempos…

Versão de Iggy


Versão de Bowie



3)          “Let’s Dance” (7:37) - Aqui, vemos como David Bowie consegue conciliar uma aura cool distante (“Put on your red shoes and dance the blues”) e um homem meramente sedutor (“If you should fall into my arms, tremble like a flower”). O clipe, dirigido pelo renomado diretor David Mallet, mostra um casal de indianos dançando ao som dos blues do camaleão em uma remota comunidade aborígene no interior da Austrália… A versão original, de 7 minutos e 37 segundos oferece destaque para os sons titânicos da bateria de Tony Thompson…


4)         “Without You” (3:08) - Balada romântica escrita em parceria com Audrey Auld, foi lançada como single apenas na Holanda, Espanha e Japão. A impressão à primeira audição é de que esta música saiu de um disco clássico do Roxy Music não apenas pela sonoridade incomum, como também pelo fato de que os vocais de Bowie imitam descaradamente o estilo cool de Bryan Ferry.


5)          “Ricochet” (5:13) - De autoria do próprio Bowie, esta foi a única canção do disco que não ganhou um single. Primeiro porque o resultado final desagradou o artista, que deixou os arranjos nas mãos de Nile Rodgers. Porém, há registro de um vídeo desta canção datado da época da Serious Moonlight Tour. Vale a pena ver o registro por causa das imagens da época… E só!


6)          “Criminal World” (4:24) - Cover da banda inglesa Metro, este é um dos exemplos mais clássicos de como David Bowie e Nile Rodgers conseguiram arranjar esta canção tão perfeitamente que soa como se fosse uma composição escrita pelo próprio camaleão. Ouça as duas versões (a original é de 1977) e tire suas próprias conclusões…

Versão do Metro


Versão de Bowie



7)          “Cat People (Putting Out Fire)” (5:09) - Graças a um convite do diretor de cinema Paul Schrader, David Bowie compôs a letra para o tema principal do filme Cat People, de 1981. A versão original saiu na trilha sonora do filme e em um single pela MCA (gravadora de Moroder, na época), em 1982. O camaleão tinha planos de utilizar a mesma versão gravada para o filme em Let’s Dance, porém, por questões contratuais, a autorização não foi concedida. Com isso, Stevie Ray Vaughan, que tocou as guitarras na gravação original, foi convocado novamente ao estúdio e regravou a canção ao lado de Bowie. Os fãs mais jovens do astro, no entanto, se lembram de “Cat People” na trilha sonora de Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino…

Versão 1


Versão 2



Bowie ao lado do lendário guitarrista Stevie Ray Vaughan

8)          “Shake It” (3:49) - Faixa que encerra Let’s Dance, “Shake It” faz referências a Nova York (cidade que já fora retratada pelo autor em outros de seus clássicos) e ao espírito de celebração que permeia todo o disco. Uma versão estendida de 5 minutos e meio desta canção foi lançada como lado B do single China Girl em maio de 1983. Especialistas apontam esta criação de Bowie como precursora de parte do trabalho desenvolvido pelo U2 na década de 1990… Definitivamente, Ziggy Stardust não foi único trabalho do camaleão que se tornou referência para vários músicos das gerações seguintes…

Versão original


Long version



Serious Moonlight World Tour:


E, por fim, confira o universo de Let’s Dance em cena com a Serious Moonlight World Tour:

Parte I
1. “Look Back In Anger” (1979)


2. “Heroes” (1977)


3. “What In The World” (1977)


4. “Golden Years” (1976)


5. “Fashion” (1980) / “Let’s Dance” (1983)


6. “Breaking Glass (1977)


7. “Life on Mars” (1971)


8. “Sorrow” (1973)


9. “Cat People (Putting Out Fire)” (1982)


10. “China Girl” (1983)


11. “Scary Monsters” (1980) / “Rebel Rebel” (1974)


12. “White Light, White Heat” (1973)


Parte II

13. “Station to Station” (1976)


14. “Cracked Actor” (1973)


15. “Ashes to Ashes” (1980)


16. “Space Oddity” (1969)


17. “Young Americans” (1975)



18. “Fame” (1975)


19. Modern Love [Encore]


New York City - Madison Square Garden, 27 de Julho de 1983

A primeira versão deste texto foi escrita para o site Pequenos Clássicos Perdidos!

8 de janeiro de 2017

TROVA # 106

INIMIGOS DO POVO


“É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando, que também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão”
(Chico Buarque, 1976)


         A pergunta que ainda me faço, no apagar das luzes de ano velho e do acender dos interruptores do ano novo, é a seguinte: como devemos proceder para explicar todos os acontecimentos nos planos político, social e econômico de 2016 para as gerações seguintes? De que maneira meus afilhados, sobrinhos, filhos (se eu os tiver) e alunos compreenderão a complexidade dos ocorridos? Como deixar claro a concretização de um golpe de estado em meio ao bombardeio de informação e supostas verdades atiradas sem critério ao léu? Se desejarmos a realização deste feito no futuro, será preciso muita frieza, bom caráter e lucidez para distinguirmos o joio do trigo...
         Dentre erros grotescos e acertos indiscutíveis, o Brasil viveu por 13 anos sob a chancela do PT no Governo Federal. A mídia brasileira passou 13 anos berrando aos quatro ventos do planeta de que Luís Inácio Lula da Silva e seus comparsas ao lado da suposta incompetência administrativa de Dilma Rousseff afundariam o Brasil de uma vez. As famílias detentoras dos oligopólios midiáticos, insatisfeitas em verem a ascensão das classes C, D e E nos últimos 13 anos, financiaram o golpe ao lado dos setores principais do empresariado e dos membros mais pérfidos da classe política brasileira. A desculpa? “Precisamos salvar o país desta crise econômica galopante  antes que a corrupção do PT afunde de vez com o Brasil!” – uma justificativa bem parecida com a desculpa esfarrapada que os militares lançaram mão para tomar o poder dos civis em 1964.


*

A parcela majoritária da classe política que se encontra nas esferas municipal, estadual e federal não representa os interesses da população que a elegeu: são políticos comprometidos com seus próprios benefícios, não se importam com o bem-estar social, são traidores da democracia, inimigos do povo. Em meio a uma das crises econômicas mais agudas dos últimos tempos e o surgimento de milhões de brasileiros desempregados, vereadores paulistanos aprovaram aumento de salário; o Judiciário apoiou a queda uma Presidente eleita pela soberania do voto popular em troca de mais benefícios e melhores ordenados; o chefe de estado golpista não apenas foi acusado de corrupção, como também levou os espécimes mais desonestos do país para ocuparem cargos de confiança no novo governo.


Dentre os principais feitos que o governo golpista de Michel Temer conseguiu em menos de um ano de atividades, destaco a aprovação do limite de gastos públicos por 20 anos, o aumento do salário mínimo abaixo da inflação pela primeira vez em 13 anos, uma reforma previdenciária que obriga as pessoas a se aposentarem mais tarde, uma proposta de reformulação do Ensino Médio que torna o sistema educacional ainda mais ineficiente e autoritário, desobrigando os alunos a desenvolverem um pensamento crítico. O retrocesso histórico com a aprovação destas medidas é incalculável, pois o povo tem muito a perder com mais de 743 bilhões a menos em saúde e 510 bilhões a menos em educação.


Outra pergunta que eu me faço: não seria a tal “Ponte para o Futuro” que levaria o Brasil para bem longe da crise?!


Enquanto Temer dizia sua mensagem de fim de ano para mais de 200 milhões de brasileiros, milhares de funcionários públicos cariocas amargavam uma das piores de Natal dos últimos tempos. O Governo do Estado do Rio de Janeiro não chegou a pagar os salários de novembro aos servidores – décimo-terceiro salário, então, nem chegou a ser cogitado. A crise do funcionarismo público também atinge outros Estados do país, gerando incertezas e preocupação. Os concursados tentam encontrar meios para poder fugir da roda-viva na qual foram atirados ao mesmo tempo em que a preocupação do poder oficial é com os festejos de fim de ano na orla de Copacabana. Sim, a velha tática do pão e circo ainda faz um enorme sucesso...

*

A virada do ano deveria nos trazer a renovação de esperanças nas instituições e na humanidade e a crença em dias melhores. Ao ler as notícias de uma chacina ocorrida em Campinas na virada do ano, já senti um embrulho no estômago. Ao saber que o crime foi motivado pelos discursos mais fascistóides da extrema direita, a minha fé no ser humano diminuiu ainda mais um pouco. Ao tomar conhecimento da segunda maior catástrofe em presídios brasileiros logo depois do início de 2017, meus nervos foram postos à prova. Ao descobrir que o maior inimigo do povo, aquele que se diz Presidente da República tratou do ocorrido como um “ACIDENTE PAVOROSO” e que um de seus secretários de governo tinha feito apologia às chacinas presidiárias, minha revolta diante de tudo só aumenta. Ao ver as fotos do Prefeito de São Paulo fantasiado de gari para fazer proselitismo e demagogia enquanto aumenta o preço das passagens de ônibus e metrô, o meu ódio contra os oportunistas cresce ainda mais...


Enquanto a sociedade brasileira vai fazendo careta para aguentar a situação, os inimigos do povo vão saqueando os cofres públicos através de propinas, lavagens de dinheiro e cartões corporativos no mesmo passo em que a mídia faz nenhum alarde, o judiciário faz pouco caso e o povo, aos poucos, é passado para trás. E assim seguimos fazendo uma série de piruetas financeiras para garantir o santo e suado ganha-pão...  


4 de janeiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 14

CARLY SIMON – SPY (1979)


No final da década de 1970, Carly Simon já era uma artista consagrada tanto como cantora, mas também como compositora. Em um espaço de quase dez anos de carreira, lançou sete álbuns solo, teve discos no primeiro lugar das paradas de sucesso (o primeiro deles foi o belo álbum No Secrets, de 1972), teve convidados especiais de peso em seus projetos – Paul McCartney, Ringo Starr, Rita Coolidge, Linda Ronstadt e Carole King são alguns deles –, gravou uma canção-tema de filme de James Bond – 007: The Spy who Loved Me – e firmou uma parceria musical e afetiva de peso com James Taylor, com quem teve dois filhos.

James Taylor & Carly Simon em 1979


O sucesso de Carly Simon agradava muitos e incomodava alguns. Dentre os incomodados com a popularidade dos discos da filha de Richard Simon estava James Taylor, que desde meados da década de 1970 amargava vendas medianas de seus trabalhos. O casamento deles já não andava muito bem naquele tempo – o vício em narcóticos de James, somado às crises de ciúmes de ambas as partes e a saúde frágil de Ben Taylor (segundo filho do casal) foram alguns dos fatores que levaram os dois a pedir o divórcio no início dos anos 1980. Em meio à crise, Carly produzia intensamente: Spy, seu nono trabalho de estúdio, veio a público em junho de 1979 e foi o último trabalho da estrela a ser lançado pelo selo Elektra, da Warner Bros. Records.

Ben Taylor no colo da mãe no final da década de 1970

O título do disco surgiu de uma frase atribuída à escritora Anaïs Nin: “I am an international spy in the house of love” [Sou uma espiã internacional na casa do amor]. As nove canções do disco, gravadas entre dezembro de 1978 e abril de 1979, versam sobre o sentimento amoroso em algumas de suas variantes – vingança, desejo, abandono tristeza, saudade, tesão... – e foram produzidas pelo renomado produtor Arif Mardin, que já tinha trabalhado com Carly Simon em Boys in the Trees (1978).


“Vengeance” foi o primeiro single hit single do disco, foi indicada para o Grammy de “Melhor Performance Rock feminina” de 1980 e chegou a fazer algum sucesso na época, com direito a um belo videoclipe, que nos brinda com o ápice da beleza de Carly Simon. A faixa de abertura de Spy mostra todo o veneno de Carly, completamente disposta a não deixar barato a dor da traição:


“ (…) You’ve taken your half out of middle
Time and time again
But now I’m damned if I’ll give you an inch
Till I get even (…)”


“Just Like You Do” é uma bela love song com um alvo provável: James Taylor! O verso “But let’s try to return / To that brave inocence we once knew” é um petardo certeiro para o homem com quem ela estava casada há sete anos e é pai de seus dois filhos. A canção chegou a fazer sucesso no Brasil na época – chegou a fazer parte da trilha sonora internacional da novela global Água Viva, de Gilberto Braga – e ainda toca nas rádios brasileiras especializadas em flashback até hoje. Já “We’re So Close”, segundo hit single do disco, ganhou um belo videoclipe com Carly sentada ao piano cantando os versos tristíssimos da canção:


“(…) Sometimes I go out to the car,
Turn on the headlights
Intending to leave –
Sometimes I need to hear the words,
My imagination’s not as strong as you’d believe (…)”

         Outra faixa de Spy que merece destaque é “Never Been Gone”, uma parceria de Carly Simon com o letrista Jacob Brackman. A canção foi regravada duas vezes por Carly: a primeira no álbum ao vivo Greatest Hits Live! (1988) e a segunda em Never Been Gone (2009), trabalho no qual a autora de “You’re So Vain” revisitou as principais canções de seu catálogo musical. Os belos versos de Brackman, entoados por Carly e um coral são alguns dos poucos sinais de otimismo presentes no disco:


“ (…) I’m bound for the island
The tide is with me
I think I can make it by dawn
It’s night on the ocean
I’m going home
And it feels like I’ve never
I’ve never been gone (…)”

         “Coming to Get You” e “Pure Sin” (Carly Simon & Frank Carillo) são faixas que tratam abertamente de ciúme e traição. A figura feminina, em nenhum momento, se encontra abaixo da presença masculina e fará de tudo não apenas para manter o seu amor, como também para dar o troco para as humilhações sofridas:

“Last night you called me from Arkansas
So that’s where you are!
I’m coming to get you, let there be no mistaking
So they think they can take you can away from your Ma –
I’m coming to get you, let there be no mistaking”


“ (…) Do you know what I’ll do, do you know what I’ll do
When I go out in the street?

Pure sin, pure sin
The kind you won’t mind
The kind there could be trouble in”


“Love You By Heart” e a faixa-título são duas belas declarações de amor. A primeira, uma parceria de Carly Simon, Jacob Brackman e Libby Titus, trata do eterno desejo de amar quem mais desejamos (as más línguas dizem que é um pedido desesperado dela para que o marido largasse a heroína de vez). A segunda, por sua vez, é uma parceria de Carly com James Taylor e o produtor Arif Mardin e aborda o mistério e o tesão presente em toda a paixão:


“I’m right here beside you
There’s nobody else to set you straight
To shake you
And let you know
That it’s still not too late
I want to show you my heart
I want to know you by heart
And love you by heart”


“Got my eye on you
Nothing’s slipping by
I come here every night
I’m like a firefly
Moving through the strobe lights
Like a spy”

         Spy fecha com um épico de quase oito minutos: “Memorial Day” retrata um crime passional com uma letra semelhante a um roteiro cinematográfico de um Filme B:


“So strong was the message
And the man who planned her life
commanded all that followed:
Well they bellowed and they hollered
And they threw each other down
Down in this valley
This cruel and lovely valley
Oh it should have been an alley
In some low part of town”

         “Memorial Day” é entrecortada por solos de alguns dos músicos excelentes que acompanharam Carly Simon neste disco. Dentre estes profissionais, destacam-se os nomes de David Sanborn e Michael Brecker(sax), Mike Manieri, Warren Bernhardt, Don Grolnick e Richard Tee (vibrafone e teclados), Steve Gadd (bateria), Will Lee (baixo), David Spinozza, John Hall e Joe Caro (guitarras), Libby Titus, Lucy Simon e James Taylor (vocais de apoio). Arif Mardin produziu um disco atemporal, pois ele não possui os cacoetes musicais clássicos da década de 1970 e se baseia em um tema que nunca estará fora de moda.

Arif Mardin, o produtor do disco
         Spy é um dos álbuns essenciais da discografia de Carly Simon. Ouvir este disco décadas depois de seu lançamento é garantir que a música Pop já nos legou pepitas musicais de grande valor. Vale a pena ouvir este clássico e nos certificar de como classe, elegância e bom gosto podem andar juntos em um trabalho musical tão elaborado.