14 de setembro de 2017

DISCOS DE VINIL # 42

GAL COSTA – CANTAR (1974)


“Seja o avesso
Seja a metade
Se for começo
Fique à vontade…”
(“Me Deixe Mudo”, de Walter Franco, interpretada por Gal Costa no show Cantar)


Em famoso depoimento concedido no ano de 1967, Caetano Veloso apontava a necessidade que a música popular brasileira tinha de retomar a sua “linha evolutiva” para que seguisse novamente rumo à modernidade perdida. Ao lançar as bases estéticas do movimento tropicalista, o filho de D. Canô demonstrava a importância necessária de reler o melhor da tradição da Bossa Nova sem deixar de referenciar os pontos fortes da produção jovem da época – o Iê-Iê-Iê, a música nordestina, sambalanço, samba-rock y otras cositas más… No entanto, com o fim prematuro do Tropicalismo e o exílio forçado de Caetano e Gilberto Gil na Europa, a retomada proposta pelos velhos baianos foi interrompida injusta e violentamente.


Durante o período 1969-1972, Gal Costa foi o estandarte principal do movimento tropicalista em atividade. Seus três primeiros discos e seu show/disco Fa-Tal: Gal a Todo Vapor fizeram de Maria da Graça Costa Penna Burgos uma das maiores estrelas da canção popular produzida neste país. Índia, lançado por Gal em 1973, foi outra pedra fundamental para a consolidação do legado da cantora e lhe rendeu enorme popularidade. Com uma carreira consolidada, o (merecido) reconhecimento como grande artista e como arauto do desbunde e da contracultura no Brasil, Gracinha estava pronta para correr novos riscos musicais, mais radicais do que quaisquer outros que tinha tomado até então…



Para que este risco tomasse fôlego e para que a retomada das propostas veiculadas pelo Tropicalismo se concretizassem em um projeto musical, Caetano Veloso decidiu dirigir o show e o disco que Gal Costa lançaria no ano de 1974. O resultado desta velha parceria foi o antológico disco Cantar, um dos trabalhos mais injustiçados de Gal na época de seu lançamento. A crítica (e, de certa maneira, o público) tinha a expectativa de que este seria mais um trabalho no qual o canto fosse rasgado, com direito a gritos, urros e solos de guitarra lancinantes. Ledo engano: no final de Índia, com a inclusão de uma releitura feita por Gal para “Desafinado” (Tom Jobim & Newton Mendonça), já se ensaiava um retorno de Gracinha às suas raízes, ou seja, a musa tropicalista cantando Bossa Nova de altíssima qualidade com o melhor de sua técnica joãogilbertiana.

Foto: Thereza Eugênia

Entretanto, enganam-se que Cantar é composto apenas de um repertório consagrado nas décadas de 1950 e 1960. As canções inéditas para o projeto receberam gravações definitivas: “Barato Total”, de Gil, abre o disco e mostra o suingue, a ginga e a mensagem central de tudo que “a gente quer é viver” sem ter grandes preocupações com a vida – uma proposta de vida hippie adornadas com os temperos mais saborosos da Bahia. As experimentalistas “Lua, Lua, Lua, Lua” e “Joia”, de Caetano, com letras curtas e que lembram as canções gravadas pela trupe tropicalista no disco-manifesto Panis et Circensis (1968). Além disto, Caetano é autor e co-autor de outras duas canções fundamentais para o disco: “Flor do Cerrado” (um breve tratado sobre vida, morte, permanência e a beleza que pode haver por trás disso) e a belíssima “A Rã”, que merece uma menção à parte…


Gal ao lado de João Donato

A primeira gravação desta canção surgiu pela primeira em meados da década de 1960 em um disco de Sérgio Mendes & Brazil 66, seguida de uma outra gravação feita pelo criador da música, João Donato. Caetano aproveitou as vogais utilizadas por Donato na gravação original, pôs letra e trouxe um personagem feminino para a canção – o original, “The Frog”, induz o ouvinte em pensar em uma figura masculina… Para a versão gravada em Cantar, Caetano convidou o próprio João Donato para tocar piano elétrico, resultando em um arranjo enxuto, porém sofisticado e bastante moderno.

Gal ao lado de João Donato

Há também três canções do repertório da Bossa Nova que receberam releitura de Gal neste disco: a primeira, “Canção que Morre no Ar” (Carlos Lyra & Ronaldo Bôscoli), recebeu um arranjo de cordas belíssimo de Perinho Albuquerque (produtor musical de todos os discos dos velhos baianos no decorrer da década de 1970) e uma das interpretações mais belíssimas da eterna Gracinha. Os versos “Vem / O mundo é sempre amor / O pranto que desliza / Do seio de uma flor / É a luz / Anjo sol (…)”, ao serem entoados por Gal, são resgatados dos clichês bossanovísticos que tanto encantaram os músicos da geração dos tropicalistas. As demais canções que foram resgatadas para o disco Cantar foram da autoria de João Donato e de seu irmão, Lysias Ênio: “Flor de Maracujá”, que recebeu um arranjo de metais em brasa que valoriza a interpretação e a brejeirice de Gal Costa e a antológica “Até quem Sabe”, faixa na qual a intérprete era acompanhada somente pelo piano de Donato.


Um compacto de Cantar

A seleção de repertório, capitaneada pela direção musical de Caetano Veloso, fizeram da boa e velha Bossa algo irremediavelmente moderno e contemporâneo. Infelizmente, a crítica musical acusou o disco de “saudosista”, “retrógrado”, dentre outras baixarias… O público, como consequência, não deu muita bola para o disco, muito menos para o show, que tinha uma versão insólita e surpreendente para “Me Deixe Mudo”, de Walter Franco, que infelizmente ficou de fora do LP e das reedições de Cantar em CD, para tristeza daqueles que curtem garimpar raridades da bela Gracinha. Outro efeito desta rejeição foi que Gal Costa deixou de buscar grandes inovações em seus trabalhos – ouso dizer que guinada semelhante só foi adotada por Gal em 2011 (36 anos depois do lançamento de Cantar), ao lançar Recanto, que teve direção musical do mesmo Caetano (sem o braço direito de Perinho Albuquerque, substituído pela competência incontestável de Moreno Veloso).



Outra sanção sofrida pelo disco, na época, foi o desprezo geral pela beleza das três faixas finais do lado B do disco. A primeira delas, a saborosa rumba “O Céu & O Som” (Péricles Cavalcanti), continha o verso que deu nome ao disco. A segunda, por sua vez, a pungente “Lágrimas Negras”, pareceria de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, é uma das gravações mais marcantes da música brasileira em todos os tempos. A última é a singela canção de ninar “Chululu”, composta e entoada por D. Mariah Costa para embalar Gracinha em seu colo para que ela dormisse com os anjos.


Foto: Thereza Eugênia


As gerações que não vivenciaram o impacto causado por Cantar e sua retomada da “linha evolutiva” em 1974 entenderam que, tal qual Gal cantou em “O Céu & O Som”, “O caminho do céu é / o caminho do som”. O ato de cantar exercido neste disco foi realizado com tamanha maestria por Gal Costa ao ponto de que ir até as nuvens através de uma bela voz é algo perfeitamente possível. As cantoras do Brasil e do mundo deveriam estudar este disco com muita atenção para que possam exercer seu ofício com mais competência. 

OUÇA O DISCO:



OUÇA O ÁUDIO DO SHOW:


10 de setembro de 2017

TROVA # 136

ROGÉRIA:

DOS HOLOFOTES PARA AS ESTRELAS





Em memória de Rogéria (1943-2017)

“Em cima de Astolfo Barroso Pinto, a Rogeria é uma performance de uma atriz. Porque eu não penso que sou mulher. Por vezes, num devaneio, posso até pensar, mas caio em mim e tenho aquela consciência de que eu sou um ator gay que se veste de mulher porque tem talento para representar e simpatia e educação para com os outros (...)”
(Rogéria, 2016)



Sempre começamos uma semana com feriado prolongado com uma alegria sem fim: três dias úteis de trabalho, um feriado e uma ponte de feriado para incrementar o intervalo que vai da segunda a sexta é um alento para nós, trabalhadores exaustos da labuta implacável do ano letivo. No entanto, a euforia da espera pelo 7 de setembro se dissipou tristemente com a partida inesperada de Rogéria, a travesti da família brasileira, em 4 de setembro de 2017.

Elke Maravilha & Astolfo Barroso Pinto, que gostava de ser chamado de "Seu Rogéria".

Rogéria ocupava, para mim, o mesmo patamar que Elke Maravilha: ela é um tipo de ser humano extraordinário, que irradiava alegria, irreverência e elegância. Não deveria morrer jamais ou deveria envelhecer até os 100 anos ou mais para que o máximo de pessoas lhe conhecessem. Pioneira em um momento no qual o Brasil não estava sequer preparado para compreender a mínima noção de diversidade, Astolfo Barroso Pinto deixou o físico masculino de lado para viver sua feminilidade com toda a sua coragem e plenitude.

 


O preconceito que sofreu no início de sua trajetória, surpreendentemente, não veio da família (sua mãe foi de uma sensibilidade e de um apoio incomuns para uma mãe de transgênero naquela época): a repressão policial por ser travesti foi respondida à altura – na base da porrada, com muito sopapo e tapa na cara de meganha safado ou qualquer autor de bullying disposto a cercear a liberdade sexual dos outros. E fazia questão de deixar claro que era uma "bicha felicérrima" e que queria conquistar todas as faixas de público - das senhorinhas aos mais jovens – dispostos a alguns minutos de alegria e glamour.


Além de ser uma atriz excelente (chegou a fazer uma avó em uma telenovela, inclusive!) e uma showwoman espetacular, Rogéria tinha uma voz e uma afinação ótimas. Choro de rir até hoje ao rever sua participação especial como a irmã de Copélia (Arlette Salles) em um dos episódios da primeira temporada de Toma Lá, Dá Cá. Cantava os clássicos da música francesa e canções de musicais e cabarés com um toque camp muito peculiar, sem deixar de mostrar sua elegância e requinte em cada nota. Ela não deveria ter se restringido apenas aos shows de boates e tinha que ter gravado um disco com a fina flor do repertório dos seus shows.


Ouvir Dalida, Carmen Miranda ou Piaf na voz de Rogéria era um deleite para qualquer pessoa que adorasse música. Numa esquecida ocasião, fui ouvir um CD de Lana Bittencourt e levei um susto ao ver que a diva passional convidou Rogéria para um dueto em "Haja o que Houver", um samba-canção de Fernando César e Nazareno de Brito adorada pela comunidade LGBT. Surpreendentemente, as duas não só deram conta do recado, como protagonizaram um dos melhores momentos daquele disco.





Em uma noite de insônia, não me esqueço de estar zapeando pela TV e cair de paraquedas no Programa do Jô. Para meu deleite, vejo Rogéria à frente do sexteto de Jô Soares com um vestido longo e cabelos soltos como uma mistura de Marilyn Monroe e Rita Rayworth cantando "Ronda", um dos maiores clássicos da dor de corno da história de toda a música brasileira. Com o seu humor peculiar, a personagem criada por Astolfo Barroso Pinto interpretou os de Vanzolini da seguinte maneira: "Ah, se eu tivesse / Quem bem me quisesse / Esse alguém me diria / Desista, bicha louca: essa busca é inútil / E eu não desistia". O público explodia em emoção e gargalhadas para aplaudir a travesti da família brasileira de pé enquanto eu, estarrecido, voltava para a cama com o prazer de ter sido mordido pelo mosquito da insônia.




Quando fui assistir o documentário Divinas Divas, de Leandra Leal, na tela grande, fiquei apaixonado pelas histórias e pelas figuras de Jane di Castro, Divina Valéria, Brigitte de Búzios, Camille K, Eloína dos Leopardos, Fujikka de Halliday e Marquesa. No entanto, Rogéria era de todas a que eu admirava. Não só pela personalidade e pela trajetória, mas pelo fato de que ela era a única que fez parte da minha infância: nunca mais me esqueci daquela cena antológica da novela Tieta, na qual Ninette, exausta do assédio de Aminthas (personagem de Roberto Bonfim), dá um soco em seu algoz e revela que seu nome verdadeiro é Waldemar. Depois daquele soco, a minha infância deixou de ter a mesma inocência de antes: crianças de oito anos criadas por famílias tradicionais jamais sonhariam com a existência de travestis no mundo encantado das novelas de televisão. Ponto para Aguinaldo Silva por ter criado esta personagem antológica para tornar a trama original de Jorge Amado ainda mais explosiva.




Estava assistindo os capítulos da reprise de Tieta com a expectativa de ver a aparição esfuziante de Ninette por Santana do Agreste. Afinal, a novela de Aguinaldo Silva não se permitiu oxidar pelo passar do tempo: não apenas porque a qualidade do trabalho da teledramaturgia é excelente, mas principalmente porque a mentalidade do brasileiro comum não mudou tanto assim. A população brasileira tinha a obrigação de assistir novamente aquela antológica cena em que a personagem de Betty Faria dá uma aula de preconceito e diversidade sexual para o personagem de Cássio Gabus Mendes, diante do retrocesso nosso de cada dia e de tempos nos quais tudo e mais um pouco deve ser politicamente correto. Em tempos de tanta patrulha ideológica, muitos não deveriam entender o brilho de estrelas como Rogéria. É por isso, e por muitas coisas mais, que ela sempre foi e será muito necessária para a humanidade. Quando as ladies que estrelaram Divinas Divas cantavam e choravam "La Vie en Rose" em cima de seu caixão, cantei e chorei junto: afinal, Rogéria fazia parte da minha família de estrelas musicais a habitar o meu imaginário...




Dizer que Rogéria era uma estrela é simplesmente muito pouco. Rogéria brilhava como uma constelação inteira: era muito mais macho que muito macho que conta bravata por aí; era muito mais fêmea do que muita fêmea fazendo selfies e mostrando a bunda por aí só para revoltar as inimigas. Sua alegria de viver é a maior lição que recebemos para que façamos algo bem melhor de nós mesmos. Sem ressentimentos, sem mágoas, com coragem, com brilho e com toda a irreverência que nos cabe. A partir do mês de setembro, Astolfo Barroso Pinto deixa de brilhar sob as luzes de holofotes para ocupar o seu lugar junto de outras estrelas a nos iluminar por aí...




7 de setembro de 2017

DISCOS DE VINIL # 41

CHICO BUARQUE – CARAVANAS (2017)




         O vocábulo caravana é originado do árabe e significa comboio de viajantes, peregrinos ou mercadores dispostos a percorrer grandes distâncias. Isto posto, cabe deixar claro que o mote utilizado por Chico Buarque para batizar o seu 23° álbum de estúdio é bastante peculiar: as nove canções de Caravanas fazem referência direta ou indiretamente a alguma espécie de viagem, seja esta literal ou simbólica.


         Caravanas é composto por nove canções: duas já gravadas por Chico Buarque em projetos alheios e sete inéditas. As referências musicais e literárias utilizadas por Chico para compor as novidades de seu repertório são bem distintas: “Tua Cantiga”, faixa de abertura do álbum e escolhida como o primeiro single do disco, é uma parceria do autor de “Meu Caro Amigo” com o pianista Cristóvão Bastos – com quem compôs e gravou “Todo Sentimento”, em 1987. A melodia de Cristóvão foi levemente inspirada em uma obra de Bach e nos velhos lundus que eram compostos na virada do século XIX para o início do século XX. Alvo de polêmicas devido ao verso “Largo mulher e filhos”, os versos da canção expõem um sujeito poético romântico, disposto a se aventurar por sua musa adorada.



         A segunda faixa do CD, “Blues pra Bia”, é outra caravana amorosa: o eu-lírico forjado por Chico compôs uma canção para outra musa: uma figura inacessível graças ao fato de se enamorar por... mulheres! Chico trata da homossexualidade de Bia sutil e delicadamente, algo impensável em termos de música brasileira décadas atrás – “(...) no coração de Bia / Meninos não têm lugar / Porém nada me amofina / Até posso virar menina / Para ela me enamorar”; uma novidade temática para um compositor acusado recentemente de machista e de não estar sintonizado com os tempos atuais.



         “A Moça do Sonho”, parceria de Chico com Edu Lobo, foi composta para a trilha sonora da peça Cambaio, cuja primeira montagem foi dirigida por João e Adriana e Falcão em 2001. Gravada por Maria Bethânia para seu álbum Maricotinha (2001), nunca tinha recebido a voz de Chico. A canção versa sobre uma figura feminina que habita os devaneios mais selvagens do sujeito poético. Uma caravana poética em busca do desejo: “Há de haver algum lugar / Um confuso casarão / Onde os sonhos serão reais / E a vida não / Por ali reinaria meu bem / Com seus risos, seus ais, sua tez / E uma cama onde à noite / Sonhasse comigo / Talvez”. “Jogo de Bola”, a quarta faixa de Caravanas, é mais uma das canções de Chico Buarque sobre uma de suas maiores paixões: o futebol! Falar sobre os prazeres surgidos das coisas mais simples da vida em tempos nos quais a indelicadeza se tornou uma constante no que diz respeito às relações humanas: “Salve o futebol, salve a filosofia / De botequim, salve o jogar bonito / O não ganhar no grito a simpatia / Quase amor / Da guria que antes do apito final / Vai sem aviso embora”.


Dois Chicos: o Buarque e o Brown

         Chico Buarque decidiu fazer conexões com as gerações mais jovens em seu 23° álbum de estúdio. A valsa “Massarandupió” é uma parceria de Mestre Buarque com o neto Chico Brown (filho de Helena Buarque com o músico Carlinhos Brown). Os versos do avô versando sobre o neto, que brincava nas areias da praia de Massarandupió quando menino foram o mote para uma das faixas mais belas de Caravanas. Já a conexão do autor de “Construção” com a neta Clara se deu com a regravação de uma das obras mais belas do cancioneiro buarqueano: “Dueto” foi gravada pela primeira vez para o álbum Com Açúcar, Com Afeto (1980), de Nara Leão e recebeu uma regravação, brejeira e com menções ao amor que existe nas mídias sociais.


Chico ao lado de sua neta Clara Buarque

         “Casualmente”, é uma parceria de Chico Buarque com o baixista Jorge Helder que tinha sido originalmente idealizada para a voz de Omara Portuondo, uma das maiores vozes de Cuba. Na impossibilidade da estrela principal de Buena Vista Social Club gravar a canção em questão, Chico decidiu retomar os trabalhos de composição para o repertório de Caravanas. A caravana em questão faz uma viagem sentimental à Cuba de tempos românticos, que jamais se materializarão novamente: “Não voltará nunca mais / A canção sentimental / Que casualmente em Havana escutei cantar / Uma mulher / Como já não verei / Outra vez nada igual”. Já a oitava faixa do disco, “Desaforos”, é um plácido recado aos tribunais das redes sociais, sempre dispostos a julgar e condenar qualquer um prestes a desafiar as convenções, o senso comum ou o “coro dos contentes”. O recado de Chico é sutil, porém certeiro e claro: “Alguém me disse / Que tu não me queres / E que até proferes desaforos pro meu lado / Fico admirado por incomodar-te assim / Jamais pensei / Que pensasses em mim”. Parece que, depois desta gravação, os detratores da Família Buarque terão muita artilharia para dedicar ao “mulato que [apenas] toca boleros”, petista e que viveria às custas dos incentivos da Lei Rouanet em um suntuoso apartamento em Paris.


Chico ao lado do baixista Jorge Helder,  seu parceiro musical em "Casualmente"

         A última canção do disco, “As Caravanas”, é uma crônica feroz da classe média carioca em um de seus momentos de maior pânico: a chegada de integrantes das comunidades “negras e imundas” nas praias “alvas e límpidas” da Zona Sul carioca em caravanas infindáveis. A alucinação gerada pela luz forte do sol é apenas um pretexto para justificar a sanha violenta de brancos dispostos a fazer uso dos dispositivos mais covardes para se sentir minimamente protegida ou uma fonte de alucinação de quem ouve vozes de negros escravizados em caravelas, reprimidos em transportes públicos sucateados que os levam para o idílio das praias do Leme ou de Copacabana.


         “As Caravanas” é uma das canções mais políticas do repertório de Chico Buarque, pois relata o sentimento mais torpe e medíocre da classe média brasileira a partir de um viés histórico, que muitos de nós acabamos por esquecer. Os versos de Chico ganharam um tom ainda mais forte graças aos arranjos de cordas de Luiz Cláudio Ramos e a participação de Rafael Mike, do Dream Team do Passinho, fazendo beat box. É o fechamento de um dos melhores álbuns de Chico em mais de 20 anos.

Chico ao lado de Rafael Mike, do Dream Team do Passinho


         Apesar de seus brevíssimos 28 minutos, Caravanas é um álbum que merece ser ouvido por ouvintes de todas as gerações para reconhecer o talento indiscutível de Chico Buarque como um dos maiores tradutores da nação brasileira em matéria de canção.


3 de setembro de 2017

TROVA # 135

UMA BONECA DE NATALIE MERCHANT

Natalie, 1995

“Blue like the winter snow in the full moon
Black like the silhouettes of the trees
Late blooming flowers lie frozen underneath the stars
I want you to remember me that way

Far away... I'll be gone, will you wait for me here
How long... I don't know, will you wait for me here

Still as the river grows in December
Silent and perfect blinding ice
Spring keeps her promises
No cold can keep her back
I want you to remember me that way

Far away... I'll be gone, will you wait for me here
How long... I don't know, but wait for me here
Follow... don't follow me
To where
To where I go

Far away... I'll be gone, will you wait for me here
How long... I don't know, will you wait for me here
Follow... don't follow me, to where I have gone
Follow... don't follow me, to where I have gone
Someday you'll take my place
And I'll wait
For you there”
(Natalie Merchant, 1998)

 
        
         Meninas que gostam de exercer seu instinto maternal veem nas bonecas o seu exercício mais perfeito. Pessoas em busca de um parceiro sexual encontram nas criaturas infláveis uma possibilidade e tanto para o prazer momentâneo. Apesar de gostar de presentear as meninas da família com os brinquedos que elas mais desejam, sempre fico com um pouco de frio na barriga ao olhar para algumas delas.

Uma boneca de Buenos Aires - Foto: Nilton Serra (2011)

Nunca fui fã de bonecas. Nem quando era criança e adorava meus brinquedos. Exceto as miniaturas de super-heróis e coisas do tipo, sempre achei réplicas de seres humanos algo meio assustador, mórbido até. A ponto de ter calafrios e pesadelos ao entrar dentro do Mercado de San Telmo, Buenos Aires, ao ver uma boneca de porcelana antiga de porcelana nas vitrines. A terra de Maradona e Evita quase se transformou em um filme de terror por alguns minutos se não fosse a minha capacidade de sair correndo dos lugares em situações de medo.


          No português do Brasil, boneca é sinônimo de menina ou mulher bonita, de travesti ou homossexual afeminado. A perversidade da língua me dava mais alguns motivos e tanto para odiar o objeto e o vocábulo. Todavia, o fato de eu ser chamado de “Tio Vini” com o passar dos anos e o meu amor pela música fizeram com que eu revisse meus conceitos.

*

         Tenho alguns discos que são tão íntimos, mas tão íntimos que literalmente passaram a fazer parte da minha vida. Minha relação com Ophelia (1998), o segundo álbum solo de Natalie Merchant, se tornou bastante intensa e me acompanha desde o final dos meus 17 anos de idade. Não apenas pelo talento comovente de Natalie para a música, mas pelo fato de ser um trabalho que versa sobre loucura, tristeza, abandono, morte e gratidão de uma maneira completamente anticonvencional de acordo com os padrões da música popular dos Estados Unidos.
         Dentre as faixas mais famosas de Ophelia, “Kind & Generous”, “Break Your Heart” e “Life is Sweet” se tornaram obrigatórias nas apresentações ao vivo de Natalie Merchant. Lados B como “My Skin” e “Thick as Thieves” não só se tornaram duas das favoritas do público, como também atestam que a canção popular pode ser tão complexa ou intrigante quanto qualquer poema publicado em um livro por aí... No entanto, a canção mais enigmática e sombria do álbum é “Frozen Charlotte”, faixa pontuada por um solo de guitarra lancinante de Don Peris e dos vocais de apoio de Karen Peris, do grupo Innocence Mission.


         “Frozen Charlotte” (ou Frozen Charlies, devido ao seu corte de cabelo Joãozinho) era como se chamava uma boneca de porcelana da era vitoriana consumida nos EUA entre a segunda metade do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX. A origem do nome se deve a um poema da época, que conta a história de uma menina chamada em Charlotte que se recusava a se agasalhar para sair para um passeio de trenó. Diante da sua imprudência, a menina congelou até a morte durante o passeio. A doce bonequinha seria uma natureza morta para ser consumida pelo público infantil.


         A canção de Natalie Merchant, até onde me parece, versa sobre um único tema: morte. Por isso, o desejo que todo ser vivo com o mínimo de ego possui é poder ser lembrado para a posteridade, deixar um legado ou uma boa lembrança nas memórias das pessoas que amou. No caso dos versos de “Frozen Charlotte”, o gelo possui um poder gigantesco de destruição ou, por ser sinal do inverno, é sinal de que um ciclo de vida possa estar chegando ao fim.


         Os versos sugerem uma conversa entre duas pessoas – uma mais velha e uma mais jovem (mãe e filha?). Enquanto a criança pede para seguir os passos inevitáveis da outra em direção ao abismo inevitável que todos nós teremos que seguir, a outra suplica para que a infante prossiga seu caminho e deixe a vida tomar o seu curso natural para que um dia as duas possam se encontrar no estágio seguinte do fim da existência de cada um.

*

Em 2017, graças a iniciativa da gravadora Nonesuch, uma das poucas empresas que ainda valorizam a arte musical nos EUA, Natalie Merchant reeditou sua discografia e alguns extras. Dentre o material bônus, Natalie gravou uma nova versão de “Frozen Charlotte” com um belíssimo arranjo de quinteto de cordas. A gravação original, que nunca tinha chamado tanto a minha atenção, passou a me dizer algo em matéria de emoção graças à sua segunda versão.  



Através de obra musical extraordinária, Natalie me ensinou que bonecas podem nos falar muito mais sobre a vida do que as vãs filosofias de vitrines de brinquedos podem nos ensinar...