9 de abril de 2012

TROVA # 4


O FEITIÇO DE MADONNA


               Sim, sim, sim... ELA voltou! Não se satisfaz em apenas relegar um álbum novo com canções para sair dançando nas pistas, nos quartos ou em outras partes da casa... Madonna, como sempre, resolveu voltar às lentes e aos olhares do público com CD novo, turnê nova, filme nos cinemas, uma apresentação memorável na final do Super Bowl e algumas notícias (de teor sensacionalista, quase sempre!) para que ELA sempre seja o assunto do momento! Yes, baby: ela se reinventa sempre através de um COMBO de informações para que todos saibam que ela ainda está on duty!

           

É lógico que Madonna não é apenas um assunto do momento. No que diz respeito à música Pop, ela foi a ÚNICA mulher que conseguiu ser O assunto por quase três décadas de carreira ininterruptas. Por ser cantora, compositora, atriz (lembro-me bem de quando eu prestei atenção nela pela primeira vez no cinema quando eu a vi ao lado de Warren Beatty em Dick Tracy, em 1990!), cineasta (OI?!), escritora de livros infantis (bons os tempos em que ela publicava maravilhas como o comentadíssimo livro Sex – uma raridade nos dias de hoje!) mãe e o que mais você quiser que ela seja, Madonna é a única mulher que pode se (auto-) proclamar Pop Star com “P” e “S” maiúsculos.


Fui praticamente com uma excitação de adolescente fã do Justin Bieber correndo até a Livraria Cultura do Conjunto Nacional quando descobri que minha Deluxe Version de MDNA, estava esperando por seu dono no setor de encomendas da megastore. O novo CD da Diva ainda coloca a filha de Silvio Ciccone no rol dos assuntos do dia. É uma coleção de canções mega dançantes e que fazem de Madonna uma artesã da Música Pop. Refrões-chiclete como o “Oh la-la-la” de “Superstar” (Madonna & Indiigo Muanza) e a chant que abre “Give Me All Your Luvin” (“L-U-V Madonna / Y-O-U you wanna”) colam no ouvido de uma maneira tão eficiente, que é impossível se esquecer destes acordes nos próximos momentos!

 

            Aos 53 anos de idade (54 em poucos meses!), Madonna se recusa a envelhecer musicalmente. Seu elixir musical desafia gigantes do mainstream musical como Mick Jagger ou Tina Turner – MDNA consegue ser melhor do que muitos lançamentos de muitas Pop Stars do momento (Britney?! Gaga?! Beyoncé?! Katy Perry?! Rihanna?!) e renova a imagem e o legado da Material Girl para a posteridade. Por outro lado, não esperem NADA de novo, revolucionário ou diferente neste trabalho. O CD traz os velhos temas e clichês que fizeram de Madonna a estrela feminina mais polêmica e inventiva da música em todos os tempos. Canções sobre religião (“I’m A Sinner”), amores feitos e desfeitos (“Give Me All Your Luvin’”, “I Don’t Give A...”, “I Fucked Up”), baladas levemente açucaradas (“Masterpiece”, “Falling Free” – Madge ainda sabe escrever e interpretar baladas como nenhuma outra!) e hinos para serem eternizados nas pistas de dança (“Turn Up The Radio”, “Some Girls” – Madge ainda consegue colocar todo mundo para dançar em uma dancefloor, bebê!).


            Lembro que minha paixão por esta mulher que hoje é mãe de quatro filhos começou quando eu era bem jovem. Certa vez, meus pais resolveram me enviar para passar uns dias na casa de minha tia Ana Cristina, irmã de minha mãe (e minha madrinha!), durante as férias de julho. Como ela não podia dedicar boa parte de seu tempo ao sobrinho de nove anos de idade na época, visto que havia outra criança naquela casa (meu primo Kevin, que tinha poucos meses de vida em julho de 1990), coube ao meu Tio John a tarefa de garantir diversão ao sobrinho visitante de nove anos de idade. Neste caso, a “operação diversão” consistiu de algumas rodadas de Banco Imobiliário (jogo que ainda adoro!) e de uma ida ao Shopping Rio Sul para assistir Dick Tracy, filme de Warren Beatty que trazia a Pop Star no elenco. Nesta trama, Madonna era Breathless Mahoney, cantora-vedete dos anos 1920 que se envolve com Tracy (interpretado por Beatty).



            As rádios naquela época tocavam um dos maiores sucessos de Madonna, “Vogue”. O verão de 1991 seria sacudido por outras três “hecatombes maddônicas” o vídeo polêmico de “Justify my Love”, a coletânea The Immaculate Collection e o documentário Na Cama Com Madonna, o qual traz todos os bastidores da turnê Blonde Ambition e do lançamento de Dick Tracy. Por causa desta sequência arrasadora de lançamentos, Madge tornou-se uma presença nociva para a moral e os bons costumes lá de casa. Para mim, ela tornou-se um ídolo, uma referência de paradigmas a serem quebrados diariamente, já que eu sempre gostei de indivíduos quer iam contra ao que já estava para lá de estabelecido...

            A partir desta época, não deixei de prestar atenção em nenhuma empreitada que Madonna deu no showbiz. Delirei com Erotica e a Girlie Show, aprendi a curtir um som mais R&B e lounge com o seu ótimo Bedtime Stories; chorei escondido com as baladas que ela reuniu em Something to Remember e com o belo Evita, de Alan Parker; "curti" com ela as dores e as delícias da maternidade com Ray of Light. Quando ela veio com Music, em 2000, perdi um pouco do interesse. Madonna começava a repetir uma fórmula que tinha dado certo em seu trabalho anterior (a dobradinha que ela fez com os produtores William Orbit e Mirwäis soou chinfrim para estes ouvidos tão fatigados!). Provavelmente esta virada de gosto pessoal se deve ao fato de eu ter ingressado na Faculdade de Letras e caído de amores pela MPB de Chico, Caetano, Gil, Os Mutantes e outros. Porém, este fato também se deve ao fato de Madge ter começado a apresentar limitações no seu repertório – fato!



American Life, seu trabalho de inéditas de 2003, não me agradou nem um pouco: 1.º) Madonna perdeu uma oportunidade de ouro de ter sido tão ou até mais polêmica do que na época de Like A Prayer ou (o fofinho) True Blue, ao satirizar Bush, os absurdos da Guerra do Iraque e gravidez indesejada ("Papa Don't Preach / I'm in trouble deep...") – para uma senhora casada com um inglês (no caso, o mala do diretor Guy Ritchie, pai de Rocco, seu segundo filho); 2.º) Seu som, urdido ao lado do produtor Mirwäis, não me soou nada bem para os ouvidos. Madonna tinha se tornado sinônimo de chatice, de algo ultrapassado, de uma Tia que tinha muito que aprender com suas colegas de Pop. Em uma era na qual menininhas mais jovens queriam brincar de Pop Star, não optar pela ousadia, falar exaustivamente de cabala em versos e repetir velhos clichês com um som um tanto "manjado" fez com que vários se afastassem da Sra. Ritchie naquele momento (não é a toa que American Life foi um puta fiasco!). A partir daí, ela precisou se reinventar para que ela pudesse garantir mais tempo de sobrevida no showbiz.


Madge virou o jogo quando fez a turnê Re-Invention (a qual reciclou sua imagem) e se uniu ao produtor Stuart Price e fez um disco dançante de sabor disco. Confessions On A Dance Floor não só mostrou que Madonna ainda era a maior Pop Star do mundo, como também sabia se reinventar quantas vezes achasse necessário. “Hung Up” tornou-se um de seus maiores hinos e foi o passaporte para que muitos a vissem em uma das turnês mais bem-sucedidas de todos os tempos: a Confessions Tour. Quando vejo Madonna misturando “Music” com “Disco Inferno”, tenho a plena certeza de que perdi um dos maiores espetáculos de toda a história da música (veja o vídeo do TOP 20 da Tia - não dá vontade de sair dançando com ela?). Ainda bem que existem registros audiovisuais de qualidade para que possamos nos sentir menos pior diante das nossas ausências.

A partir de Hard Candy, um disco com um sabor mais anos 1980 e com fortes pitadas de Hip Hop, Madonna retomou contatos com o Brasil. Sua temporada em terras tupiniquins em dezembro de 2008 foram tão memoráveis para fãs e não-fãs que Madge decidiu se divertir por aqui, arranjou namorado brasileiro, pulou Carnaval no Rio de Janeiro, visitou favelas pacificadas (?) e ainda brincou um pouquinho de “Embaixadora da Boa Vontade” ao solicitar verbas para seus projetos sociais. Sim, ela precisa de novos factoides para chamar a atenção, né?


E retomamos o ciclo com MDNA, cujo título faz trocadilho com a sigla MDMA, de uma droga similar ao ecstasy – droga mais do que comum para aqueles que estão na pista de dança! Em “I’m Addicted”, uma das canções de seu novo trabalho, Madonna faz a seguinte pergunta: “When did your name change from language to magic?” (Quando seu nome deixou de ser linguagem e se tornou mágica?). Se o nome em questão é o da moça que se chama Madonna Louise Ciccone, isso aconteceu para o mundo em 1982 – quando Madonna lançou “Everybody” –, para mim, em 1990. Se os amantes do Pop estão viciados no que esta mulher ainda tem a dizer, simplesmente isto acontece porque MDNA resume 30 anos de uma carreira conquistada com muito trabalho, com muita (auto-)promoção e (indiscutivelmente!) muito talento! Por isso, Turn Up The Radio, pois Ela está no pedaço!


Leia sobre o DNA das canções
do novo disco de Madonna:   
http://musica.uol.com.br/infografico/2012/04/02/uol-analisa-o-dna-das-novas-musicas-da-madonna-ouca.jhtm

20 Videoclipes para você jamais duvidar
do poder de sedução de Tia Madge:

1.   Vogue







2.   Rain

3.   Like A Prayer

4.   Music Inferno

5.   Bad Girl

6.   Erotica

7.   Justify My Love

8.   Deeper & Deeper

9.   Like A Virgin


10.  Frozen

11.  You'll See

12.  Material Girl

13.  Hung Up

14.  Ray Of Light

15.  Beautiful Stranger

16.  Papa Don’t Preach

17. Burning Up

18. Holiday

19.  Love Profusion

20.  Give Me All Your Luvin’

4 de março de 2012

TROVA # 3

MEU AVÔ E AS ESTRELAS MUSICAIS DE WILLIE NELSON*

            Se o interfone de casa tocasse no início da noite no meio de uma semana qualquer e minha mãe atendesse o mesmo com uma felicidade do tamanho de um bonde, a certeza era absoluta: meu avô Adhemar resolvera fazer um happy hour lá em casa depois do expediente no trabalho, para total felicidade da gente.

            Lembro-me daquela noite como se fosse anteontem. Meu avô tinha o hábito de trabalhar ouvindo música (acho que temos isso no DNA) e tinha ouvido uma gravação desconhecida de “All Of Me”, um dos maiores standards da música norte-americana – coincidência, tinha sido composta por Gerald Marks e Seymour Simons em 1931, ano em que ele nasceu. A curiosidade do seu Adhemar foi tanta, que ele ligou para a rádio Antena 1 (inexistente no Rio de Janeiro nos dias de hoje) para tentar descobrir quem tinha gravado aquela versão que ele tinha ouvido e que lhe tinha cativado tanto. 

               Louis Armstrong? Ella Fitzgerald? Frank Sinatra? Nenhuma das alternativas! A voz que meu avô tanto queria descobrir era a de Willie Nelson, um dos maiores nomes do country dos EUA. Eu tinha 14 anos de idade e devo confessar que descobrir Willie através do entusiasmo de meu saudoso avô foi uma das pequenas revoluções que ocorreram na minha vida de amante de sons e versos desde então.

           Confesso que, na época, fiquei um tanto surpreso do Seu Adhemar ter se interessado por um estilo musical tão diferente do que ele e minha avó Magaly costumavam ouvir em casa (standards norte-americanos, trilhas sonoras de filmes, música clássica, samba, MPB, etc. etc. etc.). Por outro lado, o álbum Stardust, lançado por Willie Nelson em 1978 não deixa de fugir desta tradição.

            Um pouco mais sobre este disco... Willie conseguiu uma proeza para os artistas do country norte-americano para a época: dialogar com gêneros musicais que seriam antíteses do próprio tipo de música que o consagrou. Sim, em Stardust, encontramos gravações que vão do country ao pop e com boas pitadas de jazz e folk music. A firme decisão de Willie fez com que ele pagasse um preço um pouco alto: o desprezo dos altos executivos da Columbia foi um deles; a alcunha de um traidor da tradição musical norte-americana foi outra.

            São dez as faixas que fizeram de Stardust um grande sucesso (o disco permaneceu por 10 anos ininterruptos no Top Country Albums da Revista Billboard, para não citar outros feitos!). Willie as selecionou seguindo sua memória afetiva e não fez nenhuma escolha duvidosa ou que destoasse do conjunto de sua obra. Aí vai o tracklist, que foi gravado em apenas NOVE dias (entre os dias 3 e 12/12/1977):

1.      Stardust (Hoagy Carmichael, Mitchell Parish)

2.      Georgia On My Mind (Hoagy Carmichael, Stuart Gorrell)

3.      Blue Skies (Irving Berlin)

4.      All Of Me (Seymour Simons, Gerald Marks)

5.      Unchained Melody (Alex North, Hy Zaret)

6.      September Song (Kurt Weill, Maxwell Anderson)

7.      On The Sunny Side Of The Street (Jimmy McHugh, Dorothy Fields)

8.      Moonlight In Vermont (Karl Suessdorf, John Blackburn)

9.      Don’t Get Around Much Anymore (Duke Ellington, Bob Russell)

10.  Someone To Watch Over Me (George Gershwin, Ira Gershwin)

11.  Scarlet Ribbons (Evelyn Danzig, Jack Segal) (Bonus Track)

12.  I Can See Clearly Now (Johnny Nash) (Bonus Track)

De fato, Willie fez um album country com um repertório que resgata o que existe de melhor na tradição da canção popular norte-americana. Reuniu compositores de talento indiscutível como Kurt Weill, Duke Ellington, os irmãos Gershwin, Hoagy Carmichael e outros. Todas estas canções fizeram parte das memórias infantis do próprio artista, que cantava estes clássicos ao lado de sua irmã, a cantora e pianista Bobbie Nelson.

A resposta da crítica especializada e do público foi bastante animadora. Singles deste álbum garantiram locais de destaque nas paradas de sucesso da Billboard e fez de Willie Nelson um dos artistas mais respeitados em todo o mundo. Vários foram os prêmios e as reedições de luxo que este disco recebeu. A única versão deste disco que eu lamento que meu avô não tenha ouvido, foi uma reedição que foi lançada em 1999 e que apenas descobri recentemente. Nela, há duas faixas bônus que eu acredito que ele teria adorado: “Scarlet Ribbons” e o megahit “I Can See Clearly Now”...

Se o Sr. Adhemar ainda estivesse diante de nosso convívio diário, ele continuaria a ouvir Stardust sempre que pudesse (ele adorava ouvir este disco aos domingos, geralmente no horário do almoço, em um momento "família reunida"). Como ele está impossibilitado de curtir as melodias das estrelas musicais que Willie interpretou tão belamente, eu passei a fazer isto por ele. Por admiração, por carinho, pela saudade de um ser que hoje está tão distante e (principalmente!!!) pela consagração de um disco que, certamente, mudou as nossas percepções e (por quê não dizer?) as nossas vidas... 

Ouçam este clássico de Willie Nelson e entendam o que estou escrevendo aqui. As melodias das estrelas não irão te decepcionar!!!

* Este post foi escrito enquanto ouvíamos Stardust, de Willie Nelson, é claro!!!! Para que você possa entender este post um pouco melhor, "ouça o vídeo e veja a música"! rsrs




21 de janeiro de 2012

TROVA # 2*

A MAGIA DO SECOS & MOLHADOS**

* Quando era adolescente, lá pelos idos da década de 1990, era o típico jovem “aborrecente” que só ouvia música em inglês. No entanto, apenas três artistas chamavam minha atenção naquela época: Rita Lee, Ney Matogrosso e Maria Bethânia – artistas que não tinham surgido na minha geração, mas que me diziam muito. No ano em que iniciei a Faculdade de Letras, resolvi prestar mais atenção na banda que projetou Ney para os quatro cantos deste planeta. Descobri o Secos & Molhados e me tornei não apenas fã, como pesquisador deste fenômeno meteórico que foi sinônimo de ousadia, liberdade e música de primeiríssima qualidade. Concluí a graduação, a pós-graduação (não, necessariamente!) e minha paixão por este grupo continua... Por isso, não poderia deixar de fazer meu tributo ao Secos & Molhados e o que este grupo significou/significa para mim.

** Este texto foi publicado há exatamente cinco anos no site oficial de Ney Matogrosso. Na época, eu estava em fase de conclusão de minha Dissertação de Mestrado sobre o Secos & Molhados e fiz um breve perfil do grupo que tomou o Brasil inteiro de assalto entre 1973 e 1974. A versão que aqui apresento foi devidamente atualizada de acordo com o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa. Nada foi acrescentado ao conteúdo do texto. Afinal de contas, time que está ganhando não deve ser alterado, não é verdade?

Aquelas noites de dezembro de 1972 jamais teriam sido as mesmas se um grupo musical composto por três rapazes não tivesse se apresentado na Casa de Badalação & Tédio, uma espécie de anexo do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo. Surgia, naquele palco, ao lado de João Ricardo e Gerson Conrad, uma criatura bem estranha: um rapaz bigodudo requebrando provocativamente, com uma voz incomum e insólita para alguém do sexo masculino, vestido com uma calça de cetim e uma grinalda na cabeça, bastante maquiado e repleto de purpurina. Não parecia nem homem nem mulher, nem rumbeira nem cigana, nem animal nem ser humano. Era Ney Matogrosso que vinha a público com todo o seu fogo cênico e desaforado, acalentado por anos e anos de teatro.
Graças ao empenho do empresário Moracy do Val, que decidira contratar o grupo assim que o assistiu pela primeira vez, a temporada de shows no Ruth Escobar rendeu uma série de apresentações em outros locais, transformando o Secos & Molhados em uma sensação das noites paulistanas como num passe de mágica. Poucos meses depois de sua estreia nos palcos, o grupo entrou no estúdio Prova (SP) para as gravações de seu primeiro disco. Entre maio e junho de 1973, o álbum foi gravado.

João Ricardo (violão) e Ney Matogrosso durante ensaio para um show do Secos & Molhados
A capa do primeiro disco do Secos & Molhados foi fotografada e produzida por Antônio Carlos Rodrigues, que, ao tomar conhecimento do nome do grupo, decidiu criar uma mesa de jantar com produtos perecíveis normalmente vendidos em um armazém (um nome genérico para secos e molhados). Porém, o prato principal do banquete consistia simplesmente das cabeças de Ney Matogrosso, João Ricardo, Gerson Conrad e Marcelo Frias (baterista que não aceitou integrar o grupo).
Ao lançar o álbum, a gravadora Continental produziu apenas 1.500 cópias do primeiro trabalho do Secos & Molhados. No entanto, a aparição do grupo em rede nacional na estreia do programa Fantástico, da Rede Globo, provocou uma enorme curiosidade por parte do grande público em relação à novidade que surgia. Em aproximadamente uma semana, os 1.500 discos já tinham sido vendidos. Os executivos da indústria fonográfica se viram obrigados a derreter vinis de outros artistas que não vendiam tanto para fabricar mais álbuns do Secos & Molhados, uma vez que faltava matéria-prima disponível para prensar mais discos. Enquanto isso, as rádios tocavam sucessos como “O Vira” (João Ricardo – Luhli), “Sangue latino” (João Ricardo – Paulinho Mendonça) e “Rosa de Hiroshima” (Gerson Conrad – Vinícius de Moraes).
Os shows de lançamento do primeiro disco foram no Teatro Itália, em setembro de 1973, rendendo uma série de lembranças inesquecíveis para os que estiveram lá para assistir o grupo nos palcos. A partir daí, Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso começaram a se apresentar por todo o Brasil, causando frenesi por onde passavam. Um exemplo deste fato se deu no Rio de Janeiro em novembro do mesmo ano, numa temporada no Teatro Tereza Rachel: o assédio dos fãs era tão grande que filas e filas se formavam na expectativa de ver o Secos & Molhados no palco!
Era evidente que uma manifestação tão rica e intensa como o Secos & Molhados incomodava a ditadura militar que castigava o Brasil no início da década de 70. O incômodo não se justificava por algo político sem querer ser (o Secos não era um grupo politicamente engajado), mas por possuir uma irreverência que afrontava a moralidade de muitas famílias brasileiras. Abordar a falta de liberdade e expor a sexualidade incomum (até então) provocava a inquietação nas altas patentes do governo. Entretanto, censurar um fenômeno maciço de crítica e público era tarefa impossível.
A aparição de Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso no Rio de Janeiro foi tão bem-sucedida que eles foram convidados para uma temporada de um mês no Tereza Rachel, com direito a uma censora dentro do camarim de Ney o tempo todo. O sucesso foi tamanho que eles decidiram fazer um show de encerramento no Ginásio do Maracanãzinho, em 13 de fevereiro de 1974. Muitos acharam o convite um absurdo, pois nenhuma atração brasileira tinha tido a oportunidade de se apresentar naquele palco apenas com seu próprio espetáculo. Outros temiam que Ney fosse agredido pelo público. Havia expectativas de que não haveria pessoas suficientes para preencher o local.

Gerson Conrad, Ney Matogrosso e João Ricardo em ação...
A receptividade dos mexicanos também foi muito positiva. Em pouco tempo, a postura ousada e provocante do Secos & Molhados deixou o país em polvorosa, com direito a uma foto deles na capa da famosa revista norte-americana Billboard. Segundo os membros do grupo, empresários norte-americanos, fascinados com o impacto visual provocado pela maquiagem de Ney, João e Gerson, convidaram-nos para apresentações nos Estados Unidos. Ney Matogrosso relatou, certa vez, que um destes executivos lhe propôs a abandonar o Secos & Molhados e fazer uma carreira solo na terra do Tio Sam com um repertório mais pesado e mantendo sua indefectível presença de palco. A possibilidade de se transformar em uma versão glitter e caricatural de Carmen Miranda em um território cuja língua jamais dominara não o animou, para o alívio de muitos brasileiros...
Em pouco mais de um ano, o primeiro LP do Secos & Molhados vendeu cerca de um milhão de cópias, concorrendo com o maior vendedor de discos do Brasil em todos os tempos, Roberto Carlos. Pela primeira vez em sua história, o “Rei” se viu obrigado a dividir seu trono com corujas, pirilampos, sacis e fadas.
O sucesso do primeiro LP do Secos & Molhados foi tamanho que a gravadora Continental precisou derreter vinis de outros artistas para fabricar LPs deste fenômeno de vendas.
          Ao retornarem do México, iniciaram-se as sessões de gravação do disco sucessor ao álbum das cabeças cortadas. As turbulências internas entre os integrantes do Secos & Molhados provocaram rumores de sua dissolução antes do início das gravações. Ney Matogrosso já tinha optado por abandonar o grupo, decisão que só seria oficialmente tomada assim que o segundo disco fosse para as lojas. João Ricardo assumiu a produção do trabalho, função que antes cabia a Moracy do Val, que, nesta altura dos acontecimentos, não era mais empresário do Secos. As gravações do segundo álbum do Secos & Molhados se deram em meio a uma atmosfera de desentendimentos, disputas e crises.
Previa-se que o lançamento do segundo disco do Secos & Molhados seria o principal acontecimento fonográfico de 1974, mas as notícias da separação de seus integrantes chegaram aos jornais antes da primeira semana de agosto. Muitos compraram o novo álbum com um sabor de tristeza ao saber que Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso já não eram mais um único grupo. Os três decidiram sair em carreira solo a partir da dissolução do fenômeno: Gerson Conrad se uniu a Paulinho Mendonça (co-autor de “Sangue latino” e “Delírio...”, do segundo disco) gravou um álbum em parceria com a cantora e atriz Zezé Motta no ano seguinte e depois fez um trabalho solo em 1981 (Rosto marcado); João Ricardo se dividiu em projetos solo e em formações alternativas do Secos & Molhados; Ney Matogrosso, por sua vez, seguiu em carreira solo e estreou em 1975 com o show Homem de Neanderthal e o disco Água do Céu-Passaro.
Contrariando todas as previsões, o Secos & Molhados não só conseguiu a façanha de ser a primeira atração nacional a lotar o Maracanãzinho (20 mil pessoas foram assisti-los e eles ainda deixaram outras milhares de pessoas do lado de fora!), como teve a sua apresentação transmitida pela Rede Globo para todo o Brasil. Tal acontecimento rendeu em uma das noites mais importantes da História da Música Popular Brasileira e foi fundamental para que o grupo seguisse rumo a uma turnê de duas semanas pelo México, tempos depois. Em 1980, foi lançado o LP Secos & Molhados Ao vivo no Maracanãzinho, com supervisão de Gerson Conrad e com os melhores momentos daquele show. Este trabalho nunca foi lançado oficialmente em CD por não possuir uma boa qualidade técnica e problemas de som.
Brigas e farpas à parte, a carreira do Secos & Molhados marca um dos momentos mais importantes da música popular brasileira. Seus discos e suas apresentações ao vivo renderam legiões de fãs e admiradores até os dias de hoje. Falar sobre a magia em torno do Secos & Molhados não é apenas se referir à trajetória de nossas artes, mas é também recorrer à memória coletiva de muitos brasileiros.

Acessem:

A fonte original deste texto, retirada do site oficial de Ney Matogrosso - http://www2.uol.com.br/neymatogrosso/show01_t01.html
O link de minha Dissertação de Mestrado, O Doce & O Amargo do Secos & Molhados, defendida a ferro e fogo por mim, em 2007 - http://www.bdtd.ndc.uff.br/tde_arquivos/23/TDE-2009-07-27T143936Z-2143/Publico/Vinicius%20Silva-Dissert.pdf

Vejam:

19 de janeiro de 2012

TROVA # 1


ALGUMAS COISAS DO MUNDO DE NARA LEÃO


“Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando o violão debaixo do braço”
“Diz que fui por aí” – Hortênsio Rocha & Zé Kéti
Canção gravada por Nara Leão em seu disco de estreia, de 1964.
Um sentimento de amargor sempre toma conta de mim quando o dia 19 de janeiro se aproxima. Meus motivos são apenas dois, porém bastante convincentes: em 1943, nasceu Janis Joplin, a “pérola negra do Texas” (morta, precocemente, aos 27 anos de idade); em 1982, o Brasil chorava copiosamente a morte de sua cantora maior, a “Pimentinha” Elis Regina (falecida aos 36 anos de idade, no auge de sua forma vocal).
Por outro lado, 19 de janeiro também foi uma data marcante para outra estrela de nossa canção popular. Sim, refiro-me à Nara Leão que, se estivesse entre nós, completaria 70 anos de idade no dia de hoje.
Quando ouço essas cantoras brasileiras de atitude e sabor cool (Adriana Calcanhotto, Tiê, Céu, Nina Becker, Fernanda Takai, etc. etc. etc.), é impossível não reconhecer a influência de Nara. A filha do casal Jairo Leão e Altina Lofêgo Leão foi, desde muito jovem, uma alma à frente de seu tempo. Recebeu uma educação liberal (o que era incomum para as meninas brasileiras dos anos 1950) e fugiu do arquétipo da “menina rica de Copacabana”.

Sua relação com a música começou ainda menina quando começou a fazer aulas de violão com um dos maiores Mestres no assunto, o violonista Patrício Teixeira (1893-1972). Com o passar do tempo, Nara passou a fazer aulas acompanhada de um amigo, (depois, futuro namorado) que, como ela, tinha o desejo de aprender a tocar um instrumento. O nome do rapaz? Roberto Menescal! Uma duplinha e tanto, não?

As aulas de violão logo evoluíram para reuniões musicais que tinham como sede a residência da família Leão, na Avenida Atlântica, Posto 4 da Praia de Copacabana – um dos lugares mais privilegiados do Rio de Janeiro. Aos poucos, o tal cômodo se transformou em um dos polos criativos de uma nova maneira de se fazer música, a chamada “música de apartamento”. Nascia, a Bossa Nova, graças a um desejo coletivo de vários jovens em querer fazer uma arte que se diferenciava dos dramalhões que a Rádio Nacional veiculava diariamente. Vinícius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto transformaram-se na Santíssima Trindade do movimento. Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli passaram a atuar como arautos da Bossa que se anunciava para o Brasil inteiro. Nara, já namorada de Bôscoli, foi eleita a musa do movimento.

No entanto, Nara Leão não queria apenas ser a musa de uma vertente musical. Queria se comunicar com um Brasil que fervilhava cada vez mais na medida em que a primeira metade da década de 1960 avançava com suas mudanças nos planos político, social e cultural. A moça acreditava que a música popular deveria se comunicar diretamente com a sociedade e com as transformações que surgiam com o passar dos tempos. Seu primeiro disco, lançado no início de 1964 já atestava isso: Nara gravou, em seu trabalho de estreia, clássicos de Carlos Lyra, Baden Powell, Vinícius de Moraes (autores que já estavam ligados à chamada Canção de Protesto), além de nomes consagrados do samba como Cartola e Nelson Cavaquinho. Alguns especialistas apontam este trabalho como o primeiro disco de uma nova ordem musical que logo foi chamada de “MPB”.
E os pioneirismos de Nara não ficaram por aí. Tornou-se um dos principais expoentes da Canção de Protesto ao estrelar os musicais Opinião e Liberdade, Liberdade!; descobriu cantores e compositores que foram definitivos para a formação da música brasileira contemporânea como Chico Buarque de Hollanda, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Sidney Miller, Jards Macalé, Raimundo Fagner, dentre outros; reconheceu a importância estética do Iê-Iê-Iê dos Beatles, Stones e do programa Jovem Guarda, além de ter dado chancela a um dos movimentos culturais mais importantes de todos os tempos, o Tropicalismo – sua participação no disco Tropicália ou Panis et Circensis interpretando “Lindoneia” (Caetano Veloso / Gilberto Gil) foi fundamental para que Caetano e Gil estabelecessem as propostas estéticas do movimento; além disso, foi uma das primeiras cantoras do mainstream brasileiro a gravar um disco de duetos e a dedicar trabalhos exclusivos ao cancioneiro infantil e às líricas de Roberto & Erasmo Carlos e Chico Buarque de Hollanda. Realmente, os serviços que esta mulher prestou para nossa música não foram de pouca qualidade!
           Um tumor no cérebro foi o responsável da ausência de Nara entre nós. Quando a Musa se foi, em 1989, o Brasil começava a viver a democracia depois de 21 anos de uma ditadura ferrenha que esta artista tanto combateu. Se tivéssemos o privilégio do convívio desta grande mulher, ela teria tido a oportunidade de ver uma mulher Presidente da República e de ter obtido o reconhecimento devido por parte da crítica e do público. Por isso, esta primeira trova é dedicada aos 70 anos do nascimento de Nara Lofêgo Leão. Faz escuro, mas nós ainda cantamos sua magnífica obra.
Acessem:
Site oficial de Nara Leão, mantido por sua filha, Isabel Diegues - http://naraleao.com.br/index.php
Um artigo acadêmico sobre as relações de Nara Leão e o Tropicalismo, escrito por mim em 2008 - http://www.abralic.org.br/anais/cong2008/AnaisOnline/simposios/pdf/030/VINICIUS_SILVA.pdf
Um texto sobre Nara escrito por Rafael Cortez -  http://rafael.cortez.zip.net/arch2008-04-27_2008-05-03.html

Vejam: