26 de novembro de 2012

TROVA # 14


“Where were you in ’72?”


Ao querido Fabio Bridges e tantos outros que viveram
(ou quiseram ter vivido) intensamente o ano de 1972.


          A pergunta que aparece aí no título está em aspas foi vista por mim pela primeiríssima vez na bolsa de uma bela Professora de Espanhol que já trabalhou comigo. É algo que eu adoraria responder, porém infelizmente não estava em lugar algum quando o mundo viveu os ocorridos no ano de 1972 depois de Cristo. Sou um filho dos anos 1980 e carrego nas minhas memórias afetivas (quase) tudo que se produziu nesta década, mas principalmente o que se sucedeu antes de 1981, ano em que eu nasci.

          Um pouco complicado? Muito bem, vamos explicar...

          Sempre fui fascinado por tudo de bom e de ruim que os anos 1970 produziram em termos musicais para a humanidade. Tenho um enorme respeito (e uma inveja declarada, obviamente...) por aqueles que viveram “esta década mucho louca”. Ouço histórias desta época com um prazer redobrado e cansei de pesquisar o que já se sabe sobre o período – com toda a modéstia, isso não significa que sei tanto quanto outras pessoas que se encontram por aí... Antes que surja a pergunta, eu já respondo: sim, eu queria ter vivido nos anos 1970. Volta e meia eu me imagino vestindo calças boca de sino e sapatos masculinos de salto alto, com aquelas roupas nada discretas e aquele hairdo bem típico daqueles dias – lembrando apenas que gosto é algo que não se discute. Como não resolveram conceder asas a esta cobra que aqui vos escreve, vamos disseminar a informação...

*

          Se existe um ano nesta década que definiu de uma vez por todas o panorama musical do planeta, não temos a menor sombra de dúvidas de que foi o ano de 1972 o responsável por uma série de revoluções na música do Brasil e do planeta. Por isso, vamos trazer 10 exemplos deste fato a partir de já:


10) James Taylor – One Man Dog

One Man Dog, quarto álbum de James Taylor, é um dos títulos mais raros de sua discografia. Seu folk rock, seus “la-la-las” e suas canções (algumas mini-suítes instrumentais, alguns rocks e as belas baladas de sempre!) estão muito bem assessorados pela produção eficiente de Peter Asher e por seus fiéis músicos de apoio: Danny Kortchmar (Guitarras), Clarence McDonald (Pianos e Teclados), Lee Sklar (Baixo) e Russell Kunkel (Bateria). Além disso, o disco conta com as colaborações valiosas de músicos tarimbados como Michael Brecker (Sopros), Carole King (Pianos) e as cantoras Linda Ronstadt e a ex-esposa Carly Simon nos vocais de apoio.

          One Man Dog é o álbum que marca o amadurecimento musical de Taylor. A imagem do cantor, mais polida e menos descontraída, casa com letras mais realistas e influenciadas pelas drogas (o cantor foi usuário de drogas por muitos anos, um dos motivos que arruinaram seu primeiro casamento). Se apenas ouvirmos pérolas como “Don’t Let Me Be Lonely Tonight” já temos motivos para elegermos James Taylor como um dos músicos mais brilhantes de sua geração... Um clássico que devemos resgatar e ouvir mais!


9) Transa – Caetano Veloso


          Depois de viver quase três anos exilado em Londres ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso retornou definitivamente ao Brasil em janeiro de 1972. Além de trazer muita saudade, o “Mano Caetano” trouxe na bagagem um dos discos mais cultuados de sua extensa discografia: Transa, cuja capa traz uma imagem do cantor já atualizada para os padrões da época – com um look bastante andrógino, a imagem Caetano está envolta por uma moldura vermelha e com dizeres que se assemelham às fontes tipográficas utilizadas pelos Concretistas anos antes.

          O time de músicos escalados para este disco é estelar: Gal Costa (Vocais de Apoio), Jards Macalé (Violões), Tutty Moreno (Bateria), o produtor (e violonista!), Perinho Albuquerque e uma ainda desconhecida Angela Ro Ro – na época, também vivendo em Londres – tocando uma discreta gaita na última faixa do disco. Já as sete canções gravadas para este disco mesclam Português e Inglês, letras originais, pontos de macumba e poemas barrocos adaptados para o formato canção. Tudo isto sob o olhar cinematográfico com algumas pitadas filosóficas do arauto do Tropicalismo.

          “You Don’t Know Me”, “Nine Out Of Ten”, “Nostalgia (That’s What Rock ‘n’ Roll Is All About) e “Triste Bahia” são amostras de que, apesar de Caetano Veloso se utilizar de palavras de outro idioma para se expressar, a arte deste mestre da canção soava mais brasileira como nunca tinha soado até aquele momento...


 8) Elis Regina – Elis

          A carreira da Pimentinha tomou um rumo definitivo a partir do disco lançado por ela em 1972. O repertório deste Elis é mais político e a concepção musical ficou a cargo de César Camargo Mariano (que modernizou o som da Musa do Beco das Garrafas). O canto da artista está mais contido e menos exagerado como em trabalhos anteriores – sua voz estava no auge da forma e emocionava milhões de brasileiros como nunca tinha feito anteriormente.

Este disco já nasceu clássico simplesmente porque lançou canções inéditas até então como “Águas de Março” (Antônio Carlos Jobim), “Nada Será Como Antes” (Milton Nascimento & Ronaldo Bastos), “Casa no Campo” (Zé Rodrix & Tavito), “20 Anos Blue” (Sueli Costa & Vitor Martins) e a obra-prima da parceria de Chico Buarque e Francis Hime: “Atrás da Porta”. Esta última gravação em especial foi tão emblemática que fez de Elis Regina Carvalho Costa a estrela-guia das cantoras brasileiras. Elis é um trabalho essencial para aqueles que querem se iniciar na obra de uma das maiores artistas deste país.


 7) Maria Bethânia – Drama: Anjo Exterminado


          O título deste LP – editado em CD recentemente – pode enganar os ouvintes mais desavisados da filha cantora de Dona Canô. O Drama que Maria Bethânia lançou em 1972 (no ano seguinte, a Philips lançou Drama: Luz da Noite – gravação ao vivo do show deste disco) é um disco corajoso, arrojado e ousadíssimo para os padrões da época – mérito dos arranjos e produção de Perinho Albuquerque, produtor de vários trabalhos dos Velhos Baianos durante a década de 1970.

          Do ponto de umbanda até a faixa-título (composta por Caetano Veloso em homenagem à irmã), Bethânia canta o melodrama presente no cancioneiro brasileiro – “Bom Dia” (Aldo Cabral & Herivelto Martins),  “Volta por Cima” (Paulo Vanzolini), “Maldição” (Alfredo Duarte & Armando Vieira Pinto) –, o samba do recôncavo de Batatinha – “O Circo” –, pérolas de futuros malditos da MPB como Luiz Melodia e Jards Macalé, além de uma composição própria em parceria com o Mano Caetano (“Trampolim”). É um disco político sem deixar de ser poético. Moderno sem deixar de estar calcado na tradição. E acima de tudo, um disco que revela o essencial da arte de Maria Bethânia Viana Telles Veloso.


6) Stevie Wonder – Talking Book


          Em 1972, “Mr. Maravilha” já tinha deixado de ser o Little Stevie que seguia a cartilha musical da gravadora Motown. Este “livro falante” não era apenas o grito de independência artística definitivo de um gênio, como acabou se tornando uma das peças fundamentais da obra de Stevie Wonder e da música mundial.

          Entre baladas de amor (“You Are The Sunshine Of My Life”, “You And I”) e grooves sensacionais (“Superstition”, “Tuesday Heartbreak”) e algumas pitadas de discurso político contra os EUA da época (“Big Brother”), Talking Book é uma experiência musical quarentona que não distingue sexo, cor ou idade, tal qual qualquer obra-prima...


5) Gilberto Gil – Expresso 2222


          O ano de 1972 foi um ano felicíssimo para a música brasileira. O retorno de Gilberto Gil ao território brasileiro depois de quase três anos de exílio em Londres foi comemorado por muitos de nós. O Brasil ainda penava com os males da ditadura militar de Médici e seus comparsas, enquanto a classe musical ia obtendo seu ganha-pão graças a muitos jogos de palavras, metáforas e irreverência.

          O Expresso de Gil, tão enriquecido de sons, versos e ritmos tal qual o “livro falante” de Stevie Wonder, é uma verdadeira aula de música brasileira. O filho de D. Claudina queria nos levar para o futuro, porém cabe aqui a seguinte pergunta: que futuro seria este? Resposta: um tempo no qual a música deste país consegue conviver com diversas tendências da cena internacional sem deixar de se pautar no melhor da nossa tradição musical, com um discurso despudoradamente místico e alegre. Canções como “Back in Bahia”, “Oriente” e as regravações de “Sai do Sereno”, “Chiclete com Banana” e “Cada Macaco no Seu Galho (Chô, Chuá) são provas não apenas disto, como também do que a máquina de ritmo de Gil sabe fazer de melhor: música de qualidade!   


4) Carly Simon – No Secrets


          Para o seu 3.º disco solo, Ms. Simon decidiu ir em busca do melhor produtor musical do ramo naqueles idos de 1972 – Richard Perry, que já tinha trabalhado até aquele momento com nomes de altíssimo peso (Ella Fitzgerald, Fats Domino, Barbra Streisand, Harry Nilsson) do mundo musical. Gravado em Londres, No Secrets teve a presença de músicos ilustríssimos: Mick Jagger canta os vocais de apoio de “You’re So Vain”, o casal Paul & Linda McCartney deram um canja de altíssimo peso em “Night Owl”, James Taylor – na época, namorado de Simon – fez várias pontas neste disco.

          Este disco reúne o melhor repertório da filha de Richard Simon (co-fundador da Simon & Schuster, uma gigante empresa do mercado editorial norte-americano) em mais de 40 anos de carreira: o lirismo de “The Right Thing To Do”, “Embrace Me, You Child” e “When You Close Your Eyes” contrasta com a (leve) acidez contida em “It Was So Easy”, “The Carter Family”, “His Friends Are More Than Fond Of Robin”, “(We Have) No Secrets” e o mega clássico “You’re So Vain”. Com exceção da identidade do muso inspirador desta última faixa (Jagger? Taylor? Kris Kristofferson? Warren Beatty?), Carly Simon não tinha segredos para esconder de seu público. Ainda bem...


3) David Bowie – The Rise & Fall of Ziggy Stardust & The Spiders From Mars


          Até 1972, o autor deste disco era um mero cantor que tinha um futuro musical promissor. A partir de Ziggy Stardust..., David Bowie se tornou um rockstar de primeiríssima grandeza.

          Tendo Mick Ronson como seu fiel escudeiro, Bowie arquitetou sua obra-prima e lançou várias das faixas deste disco para a história – “Starman”, “Soul Love”, “Suffragette City” e a faixa título se tornaram obrigatórias em várias turnês seguintes do astro. A intensidade que David Bowie imprimiu ao seu melhor personagem foi tanta que, ao final da turnê, Ziggy precisava ser morto de forma que a arte não se sobrepusesse à vida. As saudades dos fãs são muitas, todavia foi uma decisão acertada de Mr. David Jones, afinal, ele queria encontrar novas (e mais desafiadoras) maneiras de ser eterno. E, pelo visto, trabalhos posteriores como Young Americans (1975), a trilogia Low – Heroes – Lodger (1977-1979), Let’s Dance (1983), Outside (1995), Earthling (1997), ‘Hours...’ (2000) e Reality (2003) conseguiram renovar a figura mítica em torno deste artista tão singular, porém sem o mesmo charme de The Rise & Fall of Ziggy Stardust & The Spiders From Mars.


 2) Novos Baianos – Acabou Chorare


          O que é, o que é? Um grupo de desbundados com muitas ideias musicais na cabeça vivendo em uma comunidade hippie e que resolve misturar João Gilberto, Jimi Hendrix e o melhor da nossa tradição musical com algumas pitadas do que os tropicalistas nos ensinaram? Se você pensou nos Novos Baianos e o seu segundo disco, Acabou Chorare, acertaste em cheio!

          Durante os anos da ditadura militar brasileira, o jovem que queria se rebelar contra o sistema tinha duas parcas opções: ou ele decidia pegar em armas e se debater com os milicos na rua, ou então, decidia se tornar um junkie e automaticamente riscava do seu dicionário todos aqueles ideais de “Brasil: País do Futuro” ou “Brasil: Ame ou Deixe-o” para curtir os astros e demais curtições através de ácidos, pílulas e várias baforadas da erva maldita! Baby Consuelo (convertida, hoje em dia, na “Popstora” Baby do Brasil), Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Galvão eram os embaixadores de uma nova ordem musical e lideravam um grupo de músicos gigantesco e foram as peças fundamentais não apenas de algo novo que surgia, como também de uma parcela da juventude brasileira que discordava, a seu modo, do que acontecia no Brasil de 1972 através do uso indiscriminado de substâncias ilícitas e de uma criatividade musical e poética sem tamanho.

          Enquanto Caetano e Gil (já considerados como velhos baianos, vejam só!) ainda não davam as caras por aqui, os Novos Baianos decidiram buscar em João Gilberto referências de uma “linha evolutiva” que foi interrompida com o sufocamento do Tropicalismo e fizeram de canções como “Mistério do Planeta” (Morais & Galvão), “Besta é Tu” (Morais, Galvão & Pepeu Gomes), “Preta Pretinha” (Morais & Galvão), “Brasil Pandeiro” (Assis Valente), “Tinindo Trincando” (Morais & Galvão) e a faixa-título obras-primas da canção brasileira. Acabou Chorare é um disco para ser ouvido não apenas como uma referência do pensamento do Brasil em 1972, mas como um dos gritos de liberdade mais originais que o planeta já ouviu...


1) The Rolling Stones – Exile On Main Street

         
           Em 1972, os ingleses Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Bill Wyman e Mick Taylor eram nada mais, nada menos do que um grupo de músicos sem pátria tocando em uma banda que vivia à beira da separação. Um tanto radical? Sim. Porém, não havia jeito... Ao contrário de vários brasileiros, que tiveram que buscar exílio na França para escapar da repressão política, os Rolling Stones resolveram se instalar na Riviera Francesa para fugir do cerco do fisco do Reino Unido. Um casarão lúgubre de Villa Nellcote foi o berço de um dos álbuns mais controvertidos e discutidos de toda a história: Exile On Main Street, disco que ocupa o topo deste TOP 10 afetivo.

          Quando Exile foi lançado como LP duplo, em meados de 1972, quase ninguém (para não dizer nenhuma viva alma!) entendeu o que os Stones tinham a dizer. Várias críticas foram bastante negativas ao disco que, hoje em dia, é visto por fãs, especialistas (e pelos próprios músicos) como “a obra-prima do grupo”. Em 18 pérolas originais (e mais algumas inéditas que foram lançadas em uma edição especial de 2010), notamos como Mick Jagger estava no auge de sua forma vocal (estourando as cordas vocais de tanto cantar alto, feito que nem o próprio conseguiu igualar anos depois!); Keith Richards e Mick Taylor faziam de seus riffs e solos de guitarra verdadeiros arsenais de artilharia sonora; Bill Wyman e Charlie Watts eram a cozinha mais elegante e completa do Rock ‘n’ Roll com a imbatível parceria entre baixo e bateria; Os músicos de apoio não ficavam atrás dos membros da banda porque eram de uma eficiência sem tamanho: Nicky Hopkins nos pianos e outras teclas de todos os tipos, Bobby Keyes e Jim Price davam a elegância dos sopros à maioria das faixas do disco, as vocalistas de apoio Venetta Fields e Clydie King (negras, evidentemente!) davam o apoio essencial à voz de Sir Jagger e ao som afro-americano dos Rolling Stones.

          A capa do disco mostra uma quantidade diversa de universos paralelos – são fotos em preto e branco de pessoas anônimas misturadas a Jagger e o seu olhar de eterno desdém; Richards e sua aura de pirata; Watts, Wyman e Taylor como os coadjuvantes necessários para que todas as pedras rolem juntas pelos ouvidos das pessoas. Canções sobre sexo, delírios, jogatinas, política, desilusões amorosas, esperanças perdidas e tantas outras que poderiam ser encontradas em algum verso menos óbvio de Exile On Main Street. Não se trata de um disco para ouvir uma faixa ou duas, é um disco para se ouvir inteiro num sábado de manhã e com o volume bem alto! Para o bem dos Stones, Jagger, Richards & Cia. conseguiram fazer do amargor do exílio uma obra imprescindível para a história da música do planeta. Por isso, ouça-o!


*

          Voltando a pergunta do post de hoje, eu não sei onde eu estava em 1972, mas sei que os caras que estão aqui hoje estavam no ápice de suas carreiras no decorrer deste ano. Seus acordes ressoam como nunca 40 anos depois. E se depender deste blog travestido de máquina do tempo, as notas continuarão ressoando...

 Leia mais sobre outros discos lançados em 1972 no blog Pequenos Clássicos Perdidos, mantido pelo Mestre Fabio Bridges:


13 de novembro de 2012

TROVA # 13*


VIVER: PAIXÃO INVENCÍVEL

Se eu pudesse escolher uma canção para cantar para a lindona da KD Lang, eu escolheria uma do Billy Paul que diz assim: "Thanks for savin' my life, /  for pickin' me up / Dusting me off, making me feel like I'm livin' again..."
 

"Há em tudo o que fazemos
uma razão singular:
É que não é o que queremos
Faz-se porque nós vivemos
E viver é não pensar.
Se alguém pensasse na vida
morria de pensamento.
Por isso, a vida vivida
é essa coisa esquecida
entre um momento e um momento.
Mas nada importa que o seja
ou até que deixe de o ser:
mal é que a moral nos reja,
bom é que ninguém nos veja;
Entre isso fica viver"
(Fernando Pessoa, citado por Zélia Duncan em seu show Pelo Sabor do Gesto)



            Gosto de viver, apesar de saber que esta é uma tarefa bem difícil. Gosto de escrever, mesmo sabendo que o tempo que eu tenho para me dedicar a este blog é bem menor do que eu gostaria. Gosto muito de me expressar, pois sei que cada post é uma tentativa que faço para compreender o universo e expor a maneira pela qual eu vejo as coisas.

            Não tive tantas razões para sorrir nos últimos 30 dias. A decepção com algumas pessoas me fez paralisar temporariamente, porém como bom aquariano que sou, meu lema é sempre o mesmo: andar para frente sem ficar perdendo muito tempo com o que ficou para trás, afinal fazer um museu de si próprio não é nada interessante – é, muitas vezes, uma tremenda tortura.

            E o que podemos fazer para espantar a tristeza e a decepção do nosso caminho? Ouvir música da boa, é claro! Certa vez, depois de um final de semana prolongado que eu enterrei no museu dos meus esquecimentos, me lembrei de um escrito em uma camiseta de uma roqueira brasileira famosa que dizia “Music Saves” – nunca pensei que isto fosse soar algo tão genuíno – e resolvi fazer minhas andanças em busca de novas aquisições musicais para a minha vasta coleção de CDs. Estava caminhando pela rua Teodoro Sampaio, em São Paulo, quando achei um título que há muito tempo queria conhecer: uma coletânea de KD Lang chamada Recollection. Ao encontrar aquela maravilha em promoção em um sebo da Teodoro, veio a lembrança de que Lang cantava uma das canções mais alegres que eu já ouvi em 30 e poucos anos de retinas um tanto fatigadas: “Summerfling”. Ao saber que esta (além de outros hits) compunha o CD duplo que eu encontrei nas minhas mãos em um dia nefasto do mês de outubro, resolvi não pensar duas vezes e peguei o cartão de crédito para efetuar a compra!

Uma coleção e tanto! OUÇA!!!

            “Summerfling” é mais do que uma mera declaração de amor a uma paixão (passageira ou não!), é uma ode e tanto à vida com direito à alegria do verão que existe dentro de cada um de nós. É um recado aos que estão alegres e tristes, é uma celebração da felicidade que existe nas coisas simples e no simples fato de como é importante estarmos ao lado de quem nos quer bem...


SUMMERFLING
(K.D. Lang / David Plitch - 2000)
Early morning mid July
Anticipation`s making me high
The smell of Sunday in our hair
We ran on the beach with Kennedy flair

Sweet, sweet burn of sun and summer wind
And you my friend, my new fun thing, my summerfling
Laugh, oh how we would laugh at anything
And so pretend a never ending summerfling

This uncommon kinda breeze
Did with our hearts whatever it pleased
Forsake the logic of perfect plans
A perfect moment slipped through our hands

Sweet, sweet burn of sun and summer wind
And you my friend, my new fun thing, my summerfling
Laugh, oh how we would laugh at anything
And so pretend a never ending summerfling

Strange the wind can change so quickly without a word of warning
Rearrange our lives until they`re torn in two

Sweet, sweet burn of sun and summer wind
And you my friend, my new fun thing, my summerfling
Laugh, oh how we would laugh at anything
And so pretend a never ending summerfling


            O clipe de “Summerfling” mostra uma KD Lang sorridente, quase esfuziante, surpreendentemente feminina e, principalmente, vivendo o que a vida pode nos proporcionar de melhor. Há momentos em que necessitamos de determinados tropeços para que possamos sorrir com mais intensidade, por isso, se existem portas que se fecham, certamente haverá portões que se abrem para nós. George Harrison dizia, afinal, que “Love Comes to Everyone” – e, quer saber? Ele estava certíssimo!


Love Comes to Everyone
(George Harrison - 1979)
Go do it,
Got to go through that door,
There's no easy way out at all . . .
Still it only takes time
'Til love comes to everyone.
For you who it always seems blue
It all comes, it never rains
But it pours,
Still it only takes time . . .
'Til love comes to everyone.
There in your heart . . .
Something that's never changing;
Always a part of . . .
Something that's never ageing,
That's in your heart . . .
It's so true it can happen to you all; there,
Knock and it will open wide,
And it only takes time
'Til love comes to everyone.


            Por fim, o melhor é ser como a KD Lang – a quem eu devo a proeza de ter me salvo naquele tal dia – e (tentar) viver a vida como se ela fosse um eterno verão, uma eterna paixão de carnaval. Como a minha memória e os meus pensamentos são extremamente musicais, me lembrei de “Not Too Late”, uma das canções mais bonitas do repertório de Norah Jones, outra cantora de quem eu gosto muitíssimo. Quando estamos em vida, nunca é tarde para dizermos o quanto nos importamos com quem nós amamos.


NOT TOO LATE
(Norah Jones / Lee Alexander - 2006)
Tell me how you've been,
Tell what you've seen,
Tell me that you'd like to see me too.
'Cause my heart is full of no blood,
My cup is full of no love,
Couldn't take another sip even if I wanted.
But it's not too late,
It’s not too late for love.
My lungs are out of air,
Yours are holding smoke,
And it's been like that for so long.
I've seen people try to change,
And I know it isn't easy,
But nothin' worth the time ever really is.
And it's not too late,
It's not too late for love,
For love,
For love,
For love.


Depois que o mal já estiver feito e/ou depois que partirmos para o próximo plano – se é que realmente há um –, não vale a pena rememorar o que ficou para trás, basta esquecer (principalmente daquelas pessoas que te fazem mal!) o que ficou pelo caminho. Vale viver o que a vida nos oferece. Com resignação, mas sem excessos de conformismo – afinal, o sistema adora pessoas que se conformam com tudo e eu não estou aqui para me conformar, estou para ir adiante...

 E que o ex-Beatle fale por todos nós!!!

Blow Away
(George Harrison - 1981)
Day turned black, sky ripped apart
Rained for a year 'til it dampened my heart
Cracks and leaks
The floorboards caught rot
About to go down
I'd almost forgot.
All I got to do is to love you
All I got to be is, be happy
All it's got to take is some warmth to make it
Blow Away, Blow Away, Blow Away.
Sky cleared up, day turned to bright
Closing both eyes now the head filled with light
Hard to remember what a state I was in
Instant amnesia
Yang to the Yin.
All I got to do is to love you
All I got to be is, be happy
All it's got to take is some warmth to make it
Blow Away, Blow Away, Blow Away.
Wind blew in, cloud was dispersed
Rainbows appearing, the pressures were burst
Breezes a-singing, now feeling good
The moment had passed
Like I knew that it should.
All I got to do is to love you
All I got to be is, be happy
All it's got to take is some warmth to make it
Blow Away, Blow Away, Blow Away…


* O post de hoje é dedicado a todos os meus amigos que passam por aqui, em especial para o Nilton M. Serra, que completa 31 anos de idade no mesmo dia em que a Trova # 13 vai ao ar!

3 de outubro de 2012

TROVA # 12


DOIS RECANTOS PARA GAL COSTA

 

Um Recanto sem muitos retoques...
 
Para minha querida irmã, Renata Emily Fonseca Rodrigues,

a galcostiana mais que existe e que eu sempre quero ter perto de mim.

 

Recanto # 1: Palco de “neguinho”

 
          Show de Gal Costa hoje em dia ficou tão difícil quanto ver um show de Chico Buarque: é uma verdadeira raridade. Depois que a cantora se afastou das turnês e dos discos para curtir a vida e o filho Gabriel, tornou-se quase uma missão impossível para nós, meros mortais, estarmos diante da Diva Tropicalista em plena ação. Por estas e outras razões, nem pensei duas vezes em garantir meu ingresso para uma única noite de seu espetáculo Recanto no Via Funchal, uma das casas de shows mais chiques de São Paulo. E aproveitei para chamar uma horda de amigos queridos para virem junto! Afinal, emoções como esta precisam ser divididas...
Uma mulher conseguiu a proeza de me fazer mudar de ideia do meu desejo de ir para casa depois de uma maratona intensa de trabalho aos sábados. O nome de batismo da moçoila? Maria da Graça Costa Penna Burgos – mas você também pode chama-la de Gracinha, de Gal, Gal Costa ou, simplesmente, a Musa Maior de várias gerações de cantoras brasileiras.

          Como cheguei cedo demais para o espetáculo e não tinha onde me aconchegar decentemente para esperar o show começar, resolvi ir até um shopping center nas redondezas do Via Funchal para matar o tempo e tentar me distrair um pouquinho. Quando entrei no dito estabelecimento, tive a sensação de que estava diante de uma espécie de corte doa sociedade brasileira, ou melhor, de um dos maiores templos do consumo paulistano: o JK Iguatemi, recém-inaugurado, já se destaca por ser um dos estabelecimentos mais chiques (e caros!) da capital paulista. Várias lojas de grifes nacionais e internacionais de primeiríssima grandeza, vitrines cuidadosamente decoradas, joias que custam tanto quanto carros populares, pessoas risonhas e contentes com sabe-se lá o quê... Ah, e claro: nenhuma livraria, nenhuma loja de discos ou coisa parecida: afinal, ler e ouvir música de qualidade para quê se nós temos a Daslu, não é mesmo?

A única coisa que havia de interessante no JK Iguatemi naquela noite era o banner com as joias... hehehe
 
          Pelo fato de simplesmente não conseguir fugir da minha já não tão infalível memória musical, comecei a dirigir meus pensamentos para “Neguinho”, canção de Caetano Veloso gravada por Gal em seu mais recente CD, Recanto (2011):

 

“Neguinho não lê, neguinho não vê,
não crê, pra quê
Neguinho nem quer saber
O que afinal define a vida de neguinho
Neguinho compra o jornal,
neguinho fura o sinal
Nem bem nem mal, prazer
Votou, chorou, gozou:
o que importa, neguinho?
 
(...)
 
Se o nego acha que é difícil, fácil,
tocar bem esse país
Só pensa em se dar bem –
neguinho também se acha
Neguinho compra 3 TVs de plasma,
 um carro, GPS e acha que é feliz
Neguinho também só quer saber
de filme em shopping
 
(...)
 
Neguinho vai pra Europa, States, Disney
e volta cheio de si
Neguinho cata lixo
no Jardim Gramacho”
 
“Neguinho”
Canção de Caetano Veloso
gravada por Gal Costa em Recanto (2011)
 
 
 
 

 

          Os versos ácidos de Mestre Caetano, materializados em som e fúria pela voz de Gal e pela concepção musical de Kassin, Moreno e Zeca Veloso, revelam um mundo repleto de futilidades, grifes de peso, cinemas (no JK Iguatemi há o primeiro cinema em 4-D do Brasil, cujo ingresso custa uma verdadeira fortuna!!!) e pessoas que, além de preocupadas com a própria imagem que resplandece no espelho de Alice, riem sem razão de um humor real, acham graça em trivialidades das mais excêntricas, etc. Enfim, chega a ser irônico que a crítica dirigida a estas pessoas é propagada a poucos metros de onde elas estão – o Via Funchal fica a menos de 400m do JK Iguatemi...

          Pergunto-me se as pessoas que andam por estes corredores algum dia já apreciaram música de qualidade, leram um livro bacana sem ser por mera obrigação ou se já desligaram a televisão para fazer algo mais inteligente. Não precisa ser tão genial, estudioso e/ou especialista para concluir que os aparelhos de TV que estão nas moradias destas pessoas são de plasma retinta e reluzente e de que nada escapa das lentes potentes de seus aparelhinhos com a maçã mordida e que são movidos a telefonia celular (Sim, a futilidade elege seus símbolos e lhes oferece um significado completamente diferente... / Não, eu não consigo me encaixar em vários destes clichês, já que eu também nasci para ser gauche na vida!).

Nem tudo que reluz é verdadeiramente valioso...
 
      É por estas e outras razões que eu resolvi voltar para a porta do Via Funchal e esperar pelo evento por lá mesmo antes que eu começasse a viver o que Gal canta em “Neguinho”...

 

Recanto # 2: Palco da Voz

 

          Em uma época na qual os recursos da Engenharia de Som como os Pro-Tools e o Autotune conseguem operar milagres com cantoras sem voz e/ou com falta de talento, ouvir a voz de Gal Costa ao vivo é sinônimo de um “bálsamo benigno” para os nossos olhos e ouvidos – aos 67 anos, recém-completados, Gal ainda continua sendo uma das mulheres mais bonitas do Brasil, fato que fica ainda mais evidente para todos quando ela está em cima do palco. Quando a musa surgiu em meio a um palco escurecido e solenemente sentada em um banco (este momento jamais a caracterizaria como uma Diva, por exemplo...) cantando os versos de “Da Maior Importância”, a comoção foi coletiva. Não só porque sua persona de palco se oferecia ao público discretamente, mas principalmente porque a cantora que fez sua aparição no palco do Via Funchal em 22 de Setembro de 2012 ainda é a Gracinha joãogilbertiana que encantou Caetano Veloso e outros milhões de pessoas pelo Brasil afora.



Gal no início do show Recanto

Porém, a Gal Costa que hoje se apresenta ao público é uma soma perfeita de todas as personae as quais ela deu vida em mais de 40 anos de carreira: a musa de banquinhos e violões que nutria seu amor imenso pela música de João Gilberto; a Índia sexy, brejeira e com tanto sabor de Bahia quanto qualquer personagem feminina de Jorge Amado (quem aqui nunca associou a figura de Gal à sensualidade de Gabriela Cravo & Canela em um mero efeito de imagem e semelhança?!); a Diva Tropical, senhora absoluta de seu talento e repertório, que canta(va) o retrato de um país durante as décadas de 1970 e 1980; a (pós-)tropicalista cabeluda que cantava e gritava alto e que era a cantora mais moderna do Brasil. Gal consegue fazer uso das emoções com a experiência de um ator que interpreta um King Lear, de Shakespeare, sem deixar de parecer uma cópia de si mesma ou repetitiva em momentos nos quais precisou revisitar seu já re/conhecido repertório.  


Várias em uma única voz: Tropicalista, Joãogilbertiana, Índia, Diva...
A Gal Costa que ressurgiu para o grande público em 2011 é uma voz que (ainda) está ligada ao que se produz de mais moderno em termos de música neste país. Recanto, seu 35.º disco, é um trabalho que teve a criação e (boa parte da) concepção musical ousada de Caetano Veloso. “Tudo Dói” e “Recanto Escuro” são canções inéditas interpretadas por Gal na primeira parte do show que revelam uma voz amparada por arranjos menos grandiloquentes, marcados pela concisão e com fortíssimo “sotaque” eletrônico – uma ironia genial da parte do Mano Caetano em resgatar a voz feminina principal da Tropicália através de subterfúgios utilizados por artistas de alcance vocal mais limitado. Quando o show prossegue com “Divino, Maravilhoso” (Caetano Veloso & Gilberto Gil), “Folhetim” (Chico Buarque) e “Mãe” (Caetano Veloso), Gal consegue arrancar suspiros de encantamento a lágrimas de emoção ao reviver versos (muitos deles especialmente compostos para a sua voz lá pelos idos dos anos 1960 e dos anos 1970) como “Sou triste, quase um bicho triste / E brilhas mesmo assim / Eu canto, grito, corro, rio / E nunca chego a ti”.
 


O olhar brejeiro mais sedutor da música brasileira...

Logo após uma interpretação pungente de “Segunda” (samba de Caetano Veloso feito à moda do recôncavo baiano), a estrela entoou um dos clássicos mais belos e significativos da canção brasileira, “Minha Voz, Minha Vida”, cujos versos estão reproduzidos aqui, pois não consigo ter a capacidade de descrever a beleza que existe neles:

 

“Minha voz, minha vida
Meu segredo e minha revelação
Minha luz escondida
Minha bússola e minha desorientação
Se o amor escraviza
Mas é a única libertação
Minha voz é precisa
Vida que não é menos minha que da canção
Por ser feliz, por sofrer
Por esperar, eu canto
Pra ser feliz, pra sofrer
Para esperar eu canto
Meu amor, acredite
Que se pode crescer assim pra nós
Uma flor sem limite
É somente por que eu trago a vida aqui na voz
Minha voz, minha vida
Meu segredo e minha revelação
Minha luz escon...dida
Minha bússola e minha desorientação
Se o amor escraviza
Mas é a única libertação
Minha voz é precisa
Vida que não é menos minha que da canção
Por ser feliz, por sofrer
Por esperar, eu canto
Pra ser feliz, pra sofrer
Para esperar eu canto
Meu amor, acredite
Que se pode crescer assim pra nós
Uma flor sem limite
É somente por que eu trago a vida aqui na voz”
 
“Minha Voz, Minha Vida”
Canção de Caetano Veloso
gravada por Gal Costa em Minha Voz (1982)
 
 

Gal & Caetano - o compositor e sua maior intérprete
 
          Nesta altura do espetáculo, Gal Costa já tinha feito 1/3 de um dos melhores shows da temporada 2011/2012. A musa poderia simplesmente assumir seu lado mais Diva e apenas optar por sucessos radiofônicos ou pelas canções (um tanto) obscuras de seu mais recente repertório – uma postura completamente distante do que as cantoras do mainstream geralmente fazem. A saída escolhida por Gal e seus três fiéis escudeiros de palco (Pedro Baby – Guitarra & Violões / Bruno Di Lullo – Baixo / Domenico Lancelotti – Bateria, Programações & Vocais) foi lançar mão das duas tendências. A musa tropicalista de ontem não deixava de “dialogar” com a cantora cult que é uma velha conhecida de todos nós. “Vapor Barato” (Waly Salomão & Jards Macalé), por exemplo, ficou irreconhecivelmente bela neste show não apenas por se tratar de uma canção emblemática com um arranjo brilhante, como também pelo fato de que Pedro Baby e Domenico Lancelotti serem músicos tão ousados a ponto de oferecerem contribuições altamente significativas para o espetáculo. “Um Dia de Domingo” (Michael Sullivan & Paulo Massadas), sucesso imortalizado na vozes de Gal e Tim Maia, teve direito a uma interpretação antológica com direito a uma “aparição” do Síndico no palco, para emoção de todos os que estiveram presentes na plateia. “Neguinho”, ao ser executada ao vivo, ganha uma força absurdamente maior e leva o público ao êxtase.


          Ao final de Recanto – o show –, todo o público já estava completamente arrebatado pela Voz que dançava com “São Dimas, Robin Hood / E o Anjo 45” ao som de “Miami Maculelê”. Gal Costa poderia muito bem retornar ao palco e cantar mais alguns clássicos que fizeram dela uma das cantoras mais importantes da música brasileira, porém não foi o que ela fez – a primeira canção que abriu o encore foi “Mansidão”, um dos lados B mais ocultos do cancioneiro de Caetano Veloso. Uma parte do público, já bem próximo da Voz, aplaudiu a estrela da noite efusivamente e ficou visível e sonoramente extasiado com as três pérolas que fecham o setlist da noite: “Força Estranha” e “Meu Bem, Meu Mal” (Caetano Veloso) e uma surpreendente “Modinha para Gabriela” (Dorival Caymmi), para deleite dos fãs de Gabriela – a novela – de ontem e hoje.


          Recanto – disco e show – coloca Gal Costa de volta ao lugar do qual ela nunca deveria ter saído: na posição da cantora mais moderna deste país. Sem precisar de pose, jogadas publicitárias e/ou a constante necessidade de querer aparecer na mídia através de factoides baratos, para a alegria de todos os amantes da boa música. E dos que amam ver Gal fazer sua arte cantando com muito amor como se estivesse projetando sua voz em uma panela vazia...

 

23 motivos para que você assista Recanto onde você estiver...

 

1.      Da Maior Importância

 

2.      Tudo Dói
 
      3.      Recanto Escuro
 
4.      Divino, Maravilhoso

     5.      Folhetim
 
     6.      Mãe
 
7.      Segunda

 
8.      Minha Voz, Minha Vida

 
9.      Barato Total

    10. Autotune Autoerótico

 
11. Cara do Mundo
 
12. Deus é Amor
 
13. Dom de Iludir

       14. Neguinho

      15. O Amor

     16. Baby
 
17. Vapor Barato
 
18. Um Dia de Domingo
 
19. Miami Maculelê
 
20. Mansidão

     21. Força Estranha
 
22. Meu Bem, Meu Mal
 
23. Modinha para Gabriela


Um show inesquecível ao lado de pessoas muito queridas!!!