2 de outubro de 2016

TROVA # 89

LADY STANSFIELD
(algumas memórias públicas e particulares de Lisa Stansfield)


"If I could change the way I live my life today
I wouldn't change a single thing
'Cause if I changed my world into another place
I wouldn't see your smiling face"
(Lisa Stansfield, Ian Devaney & Andy Morris, 1991)


Eu fui um adolescente durante os anos 1990, época da qual não tenho muito orgulho de ter vivido. O Brasil vivia uma sucessão de crises econômicas, tivemos o primeiro presidente deposto por um processo de impeachment e, apesar da sobrevida financeira que obtemos graças ao Plano Real, vivíamos uma era de vacas financeiras bem magras. A música do nosso país e do resto do mundo seguia a onda neoliberal que começava a se abater pelo mundo: uma pobreza musical movida por muitas batidas eletrônicas pasteurizadas, muita pose, hedonismo e pouquíssimo conteúdo musical de consistência. Muitas modas musicais embaladas  com o sabor do que a indústria fonográfica queria que ouvíssemos. Tempos difíceis para suburbanos adolescentes como eu, que estava se iniciando pelo universo da música...

Uma musa do Europop
Uma das raras exceções à regra que mencionei acima, além de Madonna, é Lisa Stansfield, uma cantora inglesa da qual sempre gostei muito. Surgida no final dos anos 1980, em meio aos estertores do rock que batia cabelo e as batidas do Europop, Stansfield era uma exceção das mocinhas que faziam música Pop naquele momento. Para início de conversa, ela compunha boa parte do material que compunha. Em segundo lugar, tinha no Maestro Barry White e em Marvin Gaye, suas principais influências musicais.




Outro aspecto que sempre me chamou atenção em relação à Lisa Stansfield foi o fato dela conseguir cantar bem diversos estilos de música. Sua gravação de "Down in the Depths", de Cole Porter, é um dos melhores tributos já feitos a um dos maiores gigantes do American Songbook. Já a sua participação no primeiro grande tributo a Freddie Mercury cantando "These Are the Days of Our Lives" ao lado de George Michael e os membros remanescentes do Queen no final de 1991 é uma das mais belas intervenções musicais das quais eu tenho notícia. Em poucas palavras: Lady Stansfield é uma cantora singular, de um talento pouco comparável às suas colegas de geração.




Nascida em Lancashire, Inglaterra, em 11 de abril de 1966, Lisa Stansfield lançou seu primeiro álbum (Affection) aos 23 anos de idade. Ainda orientado pelas batidas eletrônicas do Europop do final dos anos 1980 e que orientaria uma boa parte da década seguinte, o disco trazia uma das canções que marcariam todo o repertório da cantora inglesa: "All Around the World", parceria de Lisa com seus fiéis músicos, produtores e escudeiros Ian Devaney e Andy Morris. O disco de estreia de Lady Stansfield vendeu mais de cinco milhões de cópias em todo o planeta, fazendo da jovem inglesa a queridinha do Pop naquele momento.


Real Love, o segundo álbum de Lisa Stansfield, foi lançado em novembro de 1991. O lado dançante foi encorpado por uma sonoridade mais romântica e ligada à soul music. A voz de Lisa se mostrou mais rica e os arranjos eram mais elaborados - cordas, guitarras e teclados e a presença marcante das backing vocals Anna Ross e Aileen McLaughlin resultaram em uma excelente simbiose musical. Sim, o Pop nos rendeu pérolas raríssimas e de enorme complexidade...


A sequência de Real Love foi o belo So Natural, lançado em novembro de 1993, produzido pela artista ao lado de Ian Devaney e Bobby Boughton. Ainda mais romântico do que o anterior, Lisa Stansfield gravou canções ainda mais românticas e sentimentais. A influência da soul music de Philadelphia e dos discos de Barry White e da Love Unlimited Orchestra se fez ainda mais presente, o que fez com que Stansfield se desse ao direito de cantar com uma intonação mais sexy em canções como "Be Mine" e "In All the Right Places" (parceria bissexta de Lisa, Devaney e Morris com o maestro e compositor John Barry, que integrou a trilha sonora do filme Proposta Indecente), além de algumas tendências do velho Europop.




Lisa Stansfield ao lado de seu parceiro na música e na vida, Ian Devaney

Depois de um recesso de quatro anos, Lisa Stansfield retomou sua discografia de forma triunfal com um disco epônimo. A parceria com Ian Devaney se estendeu do meio musical para a vida afetiva - os dois se casaram em 1996, depois de um longo namoro. O quarto álbum de Lady Stansfield era descaradamente mais soul e mais dançante do que seus dois antecessores. O fato de Lisa estar no topo do jogo chamado Pop Music fez, por exemplo, com que a MTV Brasil transmitia-se os clipes de "The Real Thing" (Lisa fazia uma espécie de "cupido" que atraía casais de amantes, dentre estes, dois rapazes, o que surpreendeu este que vos escreve, na época com 16 anos de idade e inocente de tudo e mais um pouco) e "Never Never Gonna Give Ya Up" (cover de Barry White no qual ela aparece se banhando em uma banheira e andando pelas ruas de Londres completamente nua!) até à exaustão. Nada mal para um adolescente suburbano que buscava pérolas em meio ao mar revolto da música Pop daquele momento.





Creio que foi nesta época em que descobri o talento de Lisa e vi o quão ela era diferente dos demais artistas de sua geração. Ouvi o CD Lisa Stansfield por anos até à exaustão em casa, no meu quarto, no carro de meus pais e até na casa de meus avós. Enquanto meus colegas de escola ou do curso de inglês curtiam o som de bandas mais descoladas de Pop Rock ou das odiosas boy bands ou das detestáveis imitações de Madonna, eu adorava cantar o cover delicioso que a bela inglesa tinha feito para o clássico da disco Music "You Know How to Love Me", de Phyllis Hyman.




O período de ouro da obra musical de Lisa Stansfield se deu entre 1989 e 1997. Ela tentou retomar o ritmo musical em seus discos de 2001 e 2004 - Face Up e The Moment. Confesso que o primeiro destes discos não me empolgou nem um pouco e eu parei de seguir o trabalho de Lady Stansfield. Primeiro, por ter perdido a empolgação diante de seu trabalho. Em segundo lugar, por ter expandido meus horizontes musicais com a música brasileira e o rock clássico. Além disto, Lisa decidiu investir em sua carreira de atriz e chegou, inclusive, a gravar uma trilha sonora de um dos filmes dos quais participou. Retornou ao disco em 2014, com o emblemático título Seven, como alusão ao sétimo título de sua discografia, depois de anos de reclusão.






Fiquei empolgado ao saber que Lady Stansfield estava em turnê e passaria novamente pelo Brasil (a primeira vez foi em janeiro de 1991, para a segunda edição do Rock in Rio) em setembro de 2016. Fiquei ainda mais feliz em saber que ela venceu a insegurança e a reclusão e tinha decidido subir aos palcos novamente. Se eu tivesse sido mais atento aos eventos da cidade ou estivesse mais preparado financeiramente, teria me deslocado para o Espaço das Américas para ver a bela inglesa encantando o público brasileiro mais uma vez. Ou, se estivesse em um momento mais apaixonado de minha vida, tentaria obter um autógrafo na minha cópia de So Natural. Ou, se fosse um cara de pau convicto (coisa que estou longe de ser), me ofereceria para fazer tradução simultânea em coletiva de imprensa, assessoria de imprensa, leão de chácara ou o que ela quisesse sem ganhar um centavo sequer do para poder ver o show de perto... Quem sabe terei uma próxima vez?

Lisa Stansfield em São Paulo - 21 de setembro de 2016

Lady Stansfield poderia voltar para mais shows e fazer com que eu despertasse da minha inércia. Não pela subserviência musical, e sim para que eu pudesse assistir uma das cantoras mais belas e talentosas do planeta ao vivo e a cores. Como bom aquariano que sou, mantenho acesa a chama da esperança de ver "The Real Thing" bem de pertinho...





LADY STANSFIELD'S TOP 12:

1. All Around the World

2. This is The Right Time

3. Real Love

4. Set Your Loving Free

5. All Woman

6. A Little More Love

7. Someday (I'm Coming Back)

8. Never Set Me Free

9. Too Much Love Makin'

10. Marvellous & Mine

11. Never Gonna Fall

12. The Line



28 de setembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 1

GAL COSTA – ÍNDIA (1973)



1973 foi um dos anos mais marcantes para a música brasileira. Apesar da censura e dos horrores que a ditadura militar brasileira impunha às artes e aos cidadãos brasileiros, a criatividade de nossos compositores mais populares (Chico, Gil, Caetano, Raul, Jobim, João Bosco) estava em excelente forma. A MPB, apesar de cerceada, vivia um grande momento.
Podemos dizer o mesmo das principais intérpretes da MPB. Elis Regina, Maria Bethânia e Gal Costa (para citar apenas estas três) estavam no auge da forma vocal em 1973 e lançando discos que definiram suas carreiras artísticas. No entanto, das três que citamos a que merece mais destaque é Gal. E por quê? Pela mudança de estilo, pelo encerramento de um ciclo em sua carreira (e pela consequente abertura de outro) e pela capa (putz, mas que capa!) de disco mais sexy de todos os tempos. As suas colegas cantoras, não menos importantes, não conseguiram dar um passo tão longe naquele momento: Elis também renovou seu estilo de certa forma, ao contrário da irmã do Mano Caetano, que apenas consolidou fórmulas anteriores lá pelos idos da primeira metade dos 1970.
Esqueçam as outras cantoras brasileiras que gostam de se dizer sexy e cool: Índia, lançado por Gal Costa em 1973, é uma das provas cabais de como Gracinha é a cantora brasileira mais sensual e afinada de todas as galáxias pré e pós-tropicalistas!
Falemos sobre a capa: um close em Gal, de tanga vermelha, vestindo colares de contas retirando sua saia indígena. O rebu em torno da imagem foi tão grande na época do lançamento do disco que a Philips (gravadora de Gal, na época) precisou envolver a bolacha em um invólucro preto para que o LP pudesse ir rumo às lojas.
É lógico que a polêmica em torno da icônica foto fez com que mais cópias de Índia vendessem como se fosse um exemplar da Playboy. A contracapa não deixa nada a dever à capa do disco: Gal aparece com os seios desnudos (esqueçam aquele par de seios que ela mostrou no polêmico show “O Sorriso do Gato de Alice”, please!), selvagemente vestida como uma bela indígena. Um deleite!
Em termos musicais, Índia é um marco fundamental na discografia de Gal Costa. Sucessor de Fatal (1971) – show e disco ao vivo que levaram a cantora para o topo do panteão das maiores cantoras do Brasil –, este é um disco no qual Gal deixa de lado a sonoridade psicodélica de seu segundo e terceiro discos e decide seguir o procedimento tropicalista de ler os clássicos do cancioneiro brasileiro e latino-americano, sem deixar de cantar o que havia de mais recente no que seus companheiros de geração tinham a dizer musicalmente.
A faixa-título, um dos clássicos da música paraguaia, capitaneia o álbum. Canções inesquecíveis de Lupicínio Rodrigues (“Volta”) e Tom Jobim (“Desafinado”) integram o repertório do disco ao lado de criações de Caetano Veloso (“Da Maior Importância”, “Relance” – parceria de Caê com Pedro Novis), Gilberto Gil (responsável pela adaptação de “Milho Verde”, uma cantiga do folclore português), Luiz Melodia (“Presente Cotidiano”), Tuzé de Abreu (“Passarinho”), Jards Macalé e Waly Salomão.
O time de músicos que contribuíram com seus talentos para Índia é invejável. Sob a direção musical de Mestre Gilberto Gil (que pilotou boa parte dos violões do disco), Roberto Silva e Chico Batera ficaram responsáveis pela bateria, percussão e efeitos, Luiz Alves pelo contrabaixo e Toninho Horta pela guitarra. As participações especiais de Roberto Menescal (em “Desafinado”), Wagner Tiso, Arthur Verocai e Chacal azeitaram a sonoridade deste clássico. Entretanto, devemos destacar a contribuição essencial de dois artistas que foram fundamentais para este trabalho: o Maestro Rogério Duprat (arauto erudito dos Tropicalistas), que recriou “Índia” com um arranjo orquestral épico e Dominguinhos, que trouxe seu indefectível acordeom para várias faixas do disco. Sem a presença destes dois, o canto de Gal não teria atingido a mesma força, pois não teria a precisão dramática do que o Tropicalismo nos ofertou de melhor.
São por estas e algumas outras razões que Índia redefiniu a imagem de Gal Costa. A partir deste trabalho, Gracinha tornou-se uma cantora mais acessível para o grande público e inaugurava uma nova persona: deixou de ser a roqueira tropicalista que se alternava com a discípula de João Gilberto para se tornar em uma Diva Tropical que se sobrepôs a todas as demais personas que criara em cena. O melhor desta reinvenção é que, em momento nenhum, Gal deixou de ter o canto preciso e o olhar maliciosamente brejeiro da baiana verdadeira que sempre foi. Este disco é o documento primordial desta evolução da bela Gracinha…


PS: Gostaria de dedicar este humilde texto à memória de Dominguinhos (1941-2013). O Mestre Sanfoneiro foi fundamental não apenas na concepção deste trabalho de Gal (na gravação do disco e na turnê de Índia), como foi um dos músicos mais importantes da música brasileira. Que seu legado seja sempre um clássico nas memórias musicais das pessoas…

O LINK ORIGINAL ESTÁ NO PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS DESDE O DIA 25 DE JULHO DE 2013:

25 de setembro de 2016

TROVA # 88

A JUSTIÇA ENTRE PEDAÇOS 



Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
Do membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
(Chico Buarque, 1978)


Desde a Olimpíada do Rio de Janeiro, a TV aqui de casa nunca tinha dado tanto expediente assim. Findos os jogos e a normalidade democrática em nosso país, pensei em dar férias para a nossa intrépida Sony Bravia e não dar audiência para a emissora platinada e golpista. Porém, fui tomado de assalto por um item da programação do segundo semestre da Globo: a minissérie Justiça, com roteiro de Manuela Dias e direção geral de José Luiz Villamarin.

Jesuíta Barbosa, Adriana Esteves, Jéssica Ellen e Cauã Reymond em Justiça
Justiça conta com um elenco de fazer inveja a muito diretor de cinema, teatro e televisão: Débora Bloch, Adriana Esteves, Cauã Reymond, Leandra Leal, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Antônio Calloni, Vladimir Brichta, Camila Márdila, Enrique Diaz, além das participações especiais de Marjorie Estiano, Ângelo Antônio e Marina Ruy Barbosa e dos jovens talentos de Jéssica Ellen, Jesuíta Barbosa e Luísa Arraes. Quatro tramas supostamente paralelas, quatro tragédias particulares causadas pelas contradições do Brasil. Em cena: Recife, uma das capitais das belas de nosso país. Um país retratado através dos absurdos que regem nossas instituições.


Os telespectadores viam uma história por semana – às segundas, choramos com o sofrimento da personagem de Débora Bloch, uma advogada e professora universitária que sofria a dor de ter uma filha assassinada pelo noivo e que deseja se vingar do assassino da mesma maneira; às terças, suávamos frio com a agonia de Fátima, infernizada por um vizinho policial e sua esposa (uma mulher vulgar de péssimo trato) que leva a matriarca (Adriana Esteves) para a cadeia por um crime jamais cometido; às quintas, sentíamos a revolta diante das maldades sofridas pela personagem de Jéssica Ellen, uma jovem de 18 anos condenada por tráfico de drogas, pelo simples fato de ser negra e pobre; às sextas, nos solidarizávamos com as injustiças sofridas por Maurício (Cauã Reymond), obrigado a cometer eutanásia em sua esposa (Marjorie Estiano), pois ela jamais voltaria a andar depois de um acidente que lhe deixara tetraplégica. Quatro injustiças, quatro vidas dilaceradas, quatro vidas em pedaços, quatro desejos de vingança.


O que une estes injustiçados não é apenas o fato de terem sofrido desventuras causadas pela vida. Eles levaram golpes de seus semelhantes e irmãos – se levarmos em conta os escritos nos Testamentos de Cristo. Precisam refazer suas vidas a partir dos pedaços que sobraram e sentindo a falta das partes que se perderam. O desejo de vingança se sobrepõe à resignação esperada daqueles que pagam por seus pecados capitais. Afinal, como perdoar aquele que matou sua filha por machismo e ciúme doentio, ou o homem que atropelou sua esposa por mera imprudência e fugiu sem sequer prestar socorro? Como estender a outra face para aquele que te mandou para atrás das grades injustamente e deixou seus dois filhos abandonados pelas ruas do Recife ou para a moça que se omitiu diante de um crime do qual também foi cúmplice, mas não foi sequer interrogada por não ser negra? As tramas de Manuela Dias buscam outros questionamentos e não respostas para estas e outras questões.


Apesar de ter algumas características do velho e conhecido tom folhetinesco imposto pelo Padrão Globo de Qualidade, Justiça tem como pontos positivos o cenário (Recife é uma excelente alternativa para o velho e surrado trinômio cênico RJ - SP - fazendas de coronéis que só as telenovelas globais nos mostram), o elenco (Adriana Esteves, Débora Bloch, Leandra Leal e Drica Moraes nos ofertam atuações arrasadoras), a trilha sonora (Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Fagner, Chico Buarque & Zizi Possi em destaque) e uma trama novelesca fragmentada de uma maneira inteligente e que provoca o interesse do telespectador. Um marco do entretenimento da vênus platinada, sem sombra de dúvidas.


Além do mais, Justiça faz um questionamento feroz das instituições que deveriam zelar pelas leis e pelo cumprimento delas: a Polícia, supostamente designada a nos proteger, é retratada pela sua ineficiência, revanchismo e arrogância – vide o personagem de Enrique Diaz, por exemplo; os políticos, supostamente esperados a serem paladinos da ética e da honestidade, só se preocupam em seu enriquecimento ilícito e em suas próprias vantagens – o personagem de Antônio Calloni é um retrato infeliz daqueles que não nos representam dignamente nos Poderes Executivo e Legislativo. Algo raríssimo em um programa da Rede Globo, mais preocupada em oferecer o circo para complementar o pão que a gente come diariamente...
O que resta a nós, cidadãos comuns e nada privilegiados pela incompetência destas instâncias, é tentar valer o nosso senso de justiça através de nosso próprio mérito e esforço, mesmo que para isso tenhamos que literalmente quebrar as leis e os mandamentos que regem nossa sociedade. Agir com as próprias mãos para tentar curar a dor dos pedaços feitos não por vingança, mas para acreditar na existência de justiça.
Se a dor após fazer justiça por si só se vai eu não sei, mas que o machucado deixa de sangrar um pouco, disto eu não tenho a menor dúvida...


18 de setembro de 2016

TROVA # 87

A MÁQUINA HUMANA
(A Voz & A Máquina, um show de Elza Soares)



Sou negra, índia. Sou samba, jazz, blues, funk, rock ‘n’ roll, bossa, rap, soul, choro, sou punk. Sou claro. Sou escuro. Sou o sagrado. Sou o profano. Bendita. Maldita. Sou tudo. Sou nada. Sou Elzazaza. Elza eu sou.”
(Elza Soares)


Nunca me deixei seduzir pelos sons (re)criados pelos DJs. Sempre achei a música das pick ups um tanto estridentes e entediantes demais, de uma frieza absoluta. Baladas? Boates? Só aquelas que tocam o repertório dos anos 1970/1980, mas não me venham com Trash 80’s para cima de mim! No fundo, no frigir dos ovos, sempre tive a crença de que a máquina servia exclusivamente para que a música se tornasse algo decorativo, impessoal, sem emoção, com gosto de uísque com energético.


Por outro lado, sempre há momentos nos quais somos obrigados a rever os nossos conceitos. Quando soube que Elza Soares faria uma apresentação de seu espetáculo A Voz & A Máquina no Teatro Porto Seguro, fiquei bem receoso. Pensei que a proposta deste show estava completamente distante de trabalhos mais recentes como Elza Canta e Chora Lupi e A Mulher do Fim do Mundo, o que era a mais pura verdade. Fui para o teatro com o coração aberto e várias expectativas, apesar da minha antiga implicância com os DJs. Mais uma vez eu seria surpreendido por mais uma apresentação devastadora da voz do milênio.


Foto: Edson Lopes Jr.
Acompanhada de dois DJs – Ricardo Muralha e Bruno Queiroz – e um tecladista (Antônio Guerra), lá estava Elza Soares, sentada como uma rainha em sua cadeira no alto de um praticável. De início, pensei que estava dentro de uma rave que multiplicava a voz de Elzinha repetida e excessivamente. Estava redondamente enganado. Logo de cara, constatei que as pick ups de Queiroz e Muralha estavam a serviço de uma das vozes mais lendárias do planeta e não o contrário. As máquinas, condicionadas a reproduzir sons de forma sistemática e fria, foram humanizadas pelo talento inconfundível de Elza. A nega subverteu a lógica da invenção do homem branco em prol de seu canto.


Isso é o que os artistas revolucionários fazem: fazem da sua voz algo maquinal e tornam a máquina humana. Este é um dos exemplos que fazem de Lady Elza Soares uma artista singular na música do Brasil e do mundo... Verdade seja dita: com quase (ou mais de) 80 anos de idade, Elza poderia simplesmente focar em trabalhos saudosistas, louvando seu passado musical de grandes sucessos ou colhendo os frutos gerados por A Mulher do Fim do Mundo, um dos CDs/shows mais extraordinários de todos os tempos. Todavia, Elzinha não está no meio musical apenas para dar selinho, agradecer, abraçar e fazer improvisos musicais através de sua voz inconfundível: espetáculos como A Voz & A Máquina nos mostram como ela sabe ser moderna e inquieta.


Diz-se que a proposta de Elza, ao montar este show, era de se aproximar de um público mais jovem. Ela não só alcançou tamanha proeza, como também conseguiu mobilizar fãs mais velhos para uma típica “curtição jovem”. Graças aos rapazes que a acompanham no palco, os velhos clássicos de Vinícius de Moraes (“Corcovado”, “Canto de Ossanha” e “Chega de Saudade), Lupicínio Rodrigues (“Esses Moços”, “Nervos de Aço”) e Jorge Aragão (“Malandro” e “Vou Festejar”) ficaram, a princípio, irreconhecíveis, mas sem deixar de apresentar o selo de qualidade do canto de Elza Soares. “A Carne” (Seu Jorge, Marcelo Yuka & Wilson Capellette), canção gravada por ela em Do Cóccix Até o Pescoço, aparece em A Voz & A Máquina e é um dos pontos altos da noite. Como nos alerta o número de abertura, “Computadores Fazem Arte” (Fred Zero Quatro), “computadores fazem arte / artistas fazem dinheiro”. Elzinha faz a revolução e com muita ousadia.


Apesar da evidente fragilidade física, Elza Soares reina em cima de seu trono musical através de seu canto forte e incansável. É uma rainha dos palcos, sem perder a humildade e a gratidão de quem veio dos estratos menos favorecidos da sociedade brasileira. Canta os encantos da paixão e as dores da desilusão amorosa com a propriedade da experiência de uma vida inteira. Fala de injustiças sociais, de algumas esperanças e conta algumas anedotas de amigos queridos – não contive minhas gargalhadas quando ela nos contou da provável reação de Vinícius de Moraes se ele visse suas canções interpretadas daquele jeito. É uma mulher de “nervos de aço”. Uma artista de “opinião”. É de uma ousadia que pouquíssimos artistas possuem, pois só uma voz tão poderosa quanto uma máquina conseguiria humanizar a fria tecnologia dos DJs.




Espero que alguma gravadora um dia se interesse em registrar A Voz & A Máquina em CD e DVD. Não desejo isso apenas para que possamos ouvir mais um trabalho inquietante de Elza Soares, mas para que as gerações que surgirem depois da minha possam testemunhar (mesmo que pela tela da TV, do smart phone ou do YouTube) que ela é, foi e sempre será uma das artistas mais criativas e revolucionárias de que já tivemos notícia...