“She is an
observer and a thief. She waits to share what she has stolen on that sacred
place, which is the screen. She makes the most heroic characters vulnerable,
the most known familiar, the most despised relatable. Dame Streep. Her artistry
reminds us of the impact of what it means to be an artist, which is to make us
feel less alone.”
(Viola Davis, 2017)
"Disrespect invites disrespect, violence incites
violence. And when the powerful use their position to bully others we all
lose."
(Meryl Streep, 2017)
Meryl Streep & Viola Davis em Doubt (2008)
Se eu tivesse um mínimo de talento
para a atuação, gostaria de ter um décimo, ou um centésimo do dom de Meryl
Streep. Atriz mais consagrada de Hollywood nos últimos 40 anos, essa senhora de
67 anos já acumulou, até janeiro de 2017, 19 indicações para o Oscar e 30 para o Globo de Ouro, sendo que ela já levou três estatuetas douradas e
nove globinhos dourados para casa, além de já ter participado de mais de 60
películas.
Meryl Streep & Woody Allen em Manhattan (1979)
Meryl Streep já foi várias mulheres na
sétima arte: já viveu executiva de moda, uma mãe solteira que abandona o único
filho, uma roqueira desgarrada da família, uma freira obcecada pela sua
definição de verdade, uma professora de música que faz arte a partir do lado
esquerdo do peito, uma atriz de musicais em plena decadência que descobre como
a morte lhe caía muito bem, uma polonesa fugida de um campo de concentração
atormentada pela escolha mais difícil de sua vida, a autora de A Festa de Babette, uma editora de
livros preocupada com a festa em homenagem ao amigo artista que estava morrendo
de AIDS, uma escritora de best-sellers
que enfrenta a ira da diabólica ex-mulher de seu marido, a bonachona cozinheira
que encantou os EUA nos anos 1950/1960, a temida Dama de Ferro, dentre tantas
outras.
Meryl Streep como a famigerada editora de moda Miranda Priestley em The Devil Wears Prada (2005)
Diziam algumas línguas há uns tempos atrás de que ela
viveria Clarice Lispector no cinema, para meu deleite e de tantos outros
leitores apaixonados pela ucraniana mais brasileira já surgida por estas
bandas. Infelizmente, era um boato. Mas a esperança ainda permanece...
Meryl Streep como Florence Foster Jenkins (2016)
Preciso acrescentar um valioso detalhe: em vários
desses papeis, precisou cantar. E, sim: Meryl possui uma voz belíssima e canta
muitíssimo bem! Mesmo quando teve que interpretar Florence Foster Jenkins,
considerada a pior cantora do planeta, Dame Streep o fez com perfeição:
cantava muitíssimo mal com uma perfeição gigantesca, absurda! Ou quando teve
que dar voz à bruxa amargurada de Caminhos
da Floresta (Into the Woods), nos
brindando com alguns dos raros momentos de brilhantismo daquela película. Ou ainda quando teve que fazer a nata do repertório do ABBA em Mamma Mia! (2008)...
Meryl Streep em Into the Woods (2014)
Meryl Streep & Clint Eastwood em The Bridges of Madison County (1995)
Comecei a prestar atenção nos filmes
de Meryl Streep já na adolescência, apesar de ter algumas memórias remotas das
exibições de Ela é o Diabo (She Devil) na Sessão
da Tarde na época em que eu era criança. Fiquei encantado quando
a vi ao lado de Clint Eastwood em As
Pontes de Madison (The Bridges of
Madison County) e infernizando as vidas dos personagens de Goldie Hawn e
Bruce Willis em A Morte lhe Cai Bem (Death Becomes Her). Rolei de dar risadas
com cada desmando de Miranda Priestley em O
Diabo Veste Prada (The Devil Wears
Prada). Fiquei tenso em cada segundo de sua atuação surpreendente ao lado
de Philip Seymour-Hoffman, Amy Adams e da extraordinária Viola Davis em Dúvida (Doubt).
Meryl Streep, Bruce Willis & Goldie Hawn em Death Becomes Her (1992)
Dustin Hoffman & Meryl Streep em Kramer vs. Kramer (1979)
No entanto, foi no momento em que vi
sua atuação comovente de Joanna Kramer em Kramer
vs. Kramer no qual descobri o quão Meryl é uma atriz muito especial. Ela
consegue te fazer rir e chorar com uma facilidade tão impressionante quanto que
ela tem de encarnar personagens tão distintos entre si. Daquele momento em
diante, sempre procurei assistir seus filmes na telona do cinema. De algumas
produções gostei muito, de outras nem tanto. Porém, sempre tinha alguma coisa
boa a dizer acerca do talento de Dame Streep, minha atriz preferida.
*
Meryl Streep em Sophie's Choice (1982)
Ao ser reconhecida pelo conjunto da
obra e pelos 40 anos de carreira completados em 2017, Meryl Streep foi
agraciada por ter recebido o Prêmio Especial
Cecil B. DeMille na septuagésima-quarta cerimônia do Globo de Ouro. Diante do
redemoinho político no qual os EUA se encontram, Meryl Streep fez um discurso
contundente sobre o presidente eleito Donald Trump e da intolerância cada vez
mais reinante. Falou de preconceitos, da arrogância dos poderosos, de
xenofobia. Uma fala histórica, surpreendente e que deixa claro o posicionamento
da maioria dos trabalhadores de Hollywood em relação ao novo chefe da nação
norte-americana.
Meryl Streep vivendo a ex-Primeira Ministra Margaret Thatcher em The Iron Lady (2011)
As reações foram energéticas de ambos
os lados: os detratores do presidente enalteceram o discurso incendiário de
Meryl Streep com citações, inúmeros likes
e vários compartilhamentos nas redes sociais. O GAFE vibrava com a polêmica do momento. Do outro lado, a atitude deselegante
já esperada de Donald Trump, alegando que Streep é uma atriz supervalorizada,
dentre outras baixezas. O mais impressionante foi ver pessoas as quais eu
considerava sãs e respeitáveis endossando o discurso fascista e conservador de
Trump acusando Meryl de hipocrisia e oportunismo. Hollywood promete travar
quatro anos de disputas verbais e batalhas com Washington. No meio desta
confusão, alguns princípios democráticos, interesses pessoais, artísticos e
econômicos. E com direito à ampla cobertura da mídia, sedenta por notícias em
meio à mediocridade dos tempos de hoje.
Em meio à avalanche de informações, de
meias-verdades e de muita arrogância, saber da existência de ideias tão
libertárias quanto as de Meryl Streep serve como alento para aguentarmos as
insanidades dos medíocres com a cabeça erguida, sem desistir de lutar por
aquilo que acreditamos: a liberdade irrestrita para todos, para justificar o
nome da estátua que atrai milhões e milhões de pessoas para Nova York a cada
ano. Ou, como diz Suzanne Vale (uma de suas personagens mais célebres): a vida não deveria imitar a arte, a vida deveria ser arte.
Shirley MacLaine & Meryl Streep em Postcards From the Edge (1990)
Salve, Dame Streep! Que o seu
exemplo seja seguido por todos os cidadãos revoltados com os desmandos dos
canalhas tanto dentro como fora das telas...
Meryl Streep com suas três estatuetas do Oscar nas mãos - 1979, 1982 e 2011
“I know
when to go out
I know when to stay in
And get things done”
(“Modern Love” – David Bowie, 1983)
1983
foi, definitivamente, o ano em que David Bowie brilhou como poucos no
mundo da música neste planeta. O camaleão não gravava um álbum de inéditas há
cerca de três anos quando lançou um dos títulos mais importantes de sua
discografia: Let’s Dance.
Entre Scary Monsters (And Super Creeps)e este
clássico (que completou 30 anos de lançamento em 14 de abril de 2013), Bowie
esteve em recesso. Apesar de ter feito uma parceria incandescente com o Queen (“Under
Pressure”) e de ter gravado com o produtor e compositor (e um dos papas da
disco music) Giorgio Moroder (“Cat People”), todos
esperavam um grande passo do Mestre em direção aos holofotes no ano de 1983.
Para
que David Bowie estivesse pronto a fazer o seu grande retorno à cena, era
preciso entender as modificações que ocorriam na música Pop da época. O surgimento da MTV acelerou a popularização do
videoclipe; “Thriller”, de Michael Jackson, tinha tomado o planeta de assalto
no ano anterior e Madonna já tinha iniciado seu plano (bem-sucedido) de
conquista do universo pop com o lançamento de seu álbum de estreia, também de
1983. Além disto, o Rock tinha
definitivamente se tornado em um enorme espetáculo e dominava grandes arenas e
espetáculos. O camaleão velho de guerra deveria agir de forma precisa e
marcante para garantir seu espaço ao sol e não ficar para trás em relação aos
seus contemporâneos. E David Bowie fez isso com enorme brilhantismo…
Bowie no Festival de Cinema de Cannes de 1983
Primeiramente,
o visual e o som: a versão 1983 de David Bowie era indefectível: cabelos louros
platinados (como nunca estivera até então), ternos elegantes ao som de uma
música simples, dançante e com versos diretos para a fácil compreensão do
ouvinte; passo 2: seguir os conselhos dos colegas do Queen e assinar um
contrato de $17,5 m com a EMI, depois de anos gravando pela RCA; terceiro
passo: trocar seu fiel produtor (e escudeiro musical) Tony Visconti –
responsável pela produção de cinco trabalhos de Bowie até então – pelo renomado
Nile Rodgers para trabalhar em Let’s Dance.
Troca realizada, tudo estava pronto para que o astro desse início às gravações
das oito faixas do novo trabalho.
David Bowie e Nile Rodgers
Rodgers
já era um dos nomes mais famosos do showbiz musical naquela época graças ao seu
trabalho à frente da banda Chic, na qual era guitarrista, produtor e compositor
ao lado de Bernard Edwards. Também produziu hits
de Diana Ross, Sister Sledge, Debbie Harry (Blondie) e Carly Simon. No entanto,
ao encontrar com David Bowie em uma boate de Nova York no início dos anos 1980,
o talento deste Midas do Pop foi
definitivamente posto à prova. Em pouco menos de 20 dias de gravação, Nile
conseguiu revirar as demos Folk do
camaleão de cabeça para baixo ao transformá-las em verdadeiros hinos dançantes.
Conforme
o esperado, a associação Bowie + Rodgers resultou no maior sucesso comercial do
astro inglês até hoje. A crítica especializada reconheceu Let’s Dancecomo um dos
melhores trabalhos do autor de “Space Oddity”. Já os fãs mais puristas acharam
o disco comercial demais, devido à sonoridade Pop (sem o mesmo experimentalismo de lançamentos anteriores) das
canções.
O
inesperado sucesso do álbum surpreendeu o próprio David Bowie. Afinal, este é
um dos poucos trabalhos nos quais o artista não tocou um instrumento musical
sequer no decorrer das gravações. Também é importante acrescentar que sete das
oito faixas do disco foram singles
(lados A e B) de relativo sucesso, o que é uma clara evidência do quanto o
público de Bowie se expandiu a partir deste lançamento. Ao contrário do que
muitos especialistas acreditavam, Let’s Danceé um
disco tão conceitual quanto The Rise and
Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars (1972), Diamond Dogs (1974), Station to Station (1976)
ou a trilogia berlinense Low – Heroes
– Lodger(1977-1979).
Por
outro lado, este foi o último momento no qual o camaleão conseguiu ter uma
sequência de álbuns reconhecidos por público e crítica – os sucessores Tonight(1984) e Never Let Me Down(1987)
não tiveram a mesma aclamação de momentos anteriores –, prova cabal de que a
crueldade artística da década de 1980 não poupou sequer o próprio David Bowie.
O
reencontro com o sucesso teve como resultado a Serious Moonlight World Tour, uma das turnês mais
bem-sucedidas de 1983. Por outro lado, Bowie confessou que a partir daquele
período teve um longo período de crise criativa. De qualquer maneira, Let’s Dance já tinha garantido ao seu autor um lugar
garantido entre os clássicos absolutos da década de 1980.
Let’s Dance–
Faixa a Faixa:
1)“Modern
Love” (4:48) - Nesta faixa, Bowie já avisa logo de cara que sabe o momento
certo de sair, de ficar e de como conseguir o que quer. Uma das faixas mais
conhecidas do disco, era a canção escolhida para fechar os shows da Serious Moonlight
Tour.
2)“China
Girl” (5:32) - Composta em 1976 por Bowie em parceria com Iggy Pop para o disco
The Idiot (1977), do amigo. O toque Pop dado pelo co-autor ao lado de Nile
Rodgers fez com que “China Girl” fosse um dos maiores hits do camaleão em todos os tempos…
Versão
de Iggy
Versão
de Bowie
3)“Let’s Dance” (7:37)
- Aqui, vemos como David Bowie consegue conciliar uma aura cool distante (“Put on your red shoes and dance the blues”) e um
homem meramente sedutor (“If you should fall into my arms, tremble like a
flower”). O
clipe, dirigido pelo renomado diretor David Mallet, mostra um casal de indianos dançando ao som dos blues do camaleão em uma remota comunidade aborígene no interior da Austrália… A versão
original, de 7 minutos e 37 segundos oferece destaque para os sons titânicos da
bateria de Tony Thompson…
4)“Without
You” (3:08) - Balada romântica escrita em parceria com Audrey Auld, foi
lançada como single apenas na Holanda, Espanha e Japão. A impressão à primeira
audição é de que esta música saiu de um disco clássico do Roxy Music não apenas
pela sonoridade incomum, como também pelo fato de que os vocais de Bowie imitam
descaradamente o estilo cool de Bryan Ferry.
5)“Ricochet”
(5:13) - De autoria do próprio Bowie, esta foi a única canção do disco que não
ganhou um single. Primeiro porque o resultado final desagradou o artista, que
deixou os arranjos nas mãos de Nile Rodgers. Porém, há registro de um vídeo
desta canção datado da época da Serious Moonlight Tour. Vale a pena ver o registro
por causa das imagens da época… E só!
6)“Criminal
World” (4:24) - Cover da banda inglesa Metro, este é um dos exemplos mais
clássicos de como David Bowie e Nile Rodgers conseguiram arranjar esta canção
tão perfeitamente que soa como se fosse uma composição escrita pelo próprio
camaleão. Ouça as duas versões (a original é de 1977) e tire suas próprias
conclusões…
Versão
do Metro
Versão
de Bowie
7)“Cat
People (Putting Out Fire)” (5:09) - Graças a um convite do diretor de cinema
Paul Schrader, David Bowie compôs a letra para o tema principal do filme Cat People, de 1981. A versão original
saiu na trilha sonora do filme e em um single pela MCA (gravadora de Moroder,
na época), em 1982. O camaleão tinha planos de utilizar a mesma versão gravada
para o filme em Let’s Dance,
porém, por questões contratuais, a autorização não foi concedida. Com isso,
Stevie Ray Vaughan, que tocou as guitarras na gravação original, foi convocado
novamente ao estúdio e regravou a canção ao lado de Bowie. Os fãs mais jovens
do astro, no entanto, se lembram de “Cat People” na trilha sonora de Bastardos Inglórios (2009), de Quentin
Tarantino…
Versão
1
Versão 2
Bowie ao lado do lendário guitarrista Stevie Ray Vaughan
8)“Shake
It” (3:49) - Faixa que encerra Let’s Dance, “Shake It” faz referências a Nova York
(cidade que já fora retratada pelo autor em outros de seus clássicos) e ao
espírito de celebração que permeia todo o disco. Uma versão estendida de 5
minutos e meio desta canção foi lançada como lado B do single China
Girl em maio de 1983. Especialistas apontam esta criação de Bowie como
precursora de parte do trabalho desenvolvido pelo U2 na década de 1990… Definitivamente, Ziggy
Stardust não foi único trabalho do camaleão que se tornou referência
para vários músicos das gerações seguintes…
Versão
original
Long version
Serious Moonlight
World Tour:
E, por fim,
confira o universo de Let’s Danceem cena
com a Serious Moonlight World
Tour: