Dias
cinzentos e nublados não me trazem boas lembranças. Cauby Peixoto nos abandonou
em uma segunda-feira assim. Lou Reed se foi em um domingo bastante nublado. A
vida levou Luiz Melodia do nosso convívio em uma sexta-feira cinzenta e de
chuvas esparsas. Vítima de um câncer de medula óssea, o negro gato, ébano de
carteirinha musical, virou mais uma estrela a brilhar na constelação musical
brasileira no dia 4 de agosto de 2017.
A
primeira lembrança que eu tenho de Mestre Melodia era de um homem fino e
elegante, de voz grave e límpida. Estava assistindo a primeira transmissão do Acústico MTV de Gal Costa pela saudosa Music Television brasileira. No início
do terceiro bloco, a banda de Gal começa a atacar "Pérola Negra". Ao
invés da eterna musa da Tropicália começar a cantar o primeiro verso –
"Tente passar pelo que estou passando" –, surge uma voz de ébano do
lado esquerdo do palco. Era Luiz Melodia, em um terno preto elegantíssimo,
adentrando o palco como a Irene de Manuel Bandeira: sem pedir licença.
Em sentido horário: Luiz Melodia, Gal Costa, Nara Leão, Odair José, Caetano Veloso e Maria Bethânia nos bastidores do Festival Phono 73
A
intimidade entre Gal e Melodia vinha de uma longa data - para ser mais exato,
do início da década de 1970, quando, graças ao auxílio de Waly Salomão, ela
incluiu "Pérola Negra" no setlist do lendário show Fa-Tal: Gal a Todo
Vapor (1971) e colocou o jovem bardo do morro do Estácio no mapa da mina da
MPB. Um ano depois, Maria Bethânia gravou "Estácio Holly Estácio" em
seu álbum Drama - Anjo Exterminado (1972), com muito sucesso. O reconhecimento
do talento do jovem Luiz Melodia foi fundamental para que ele, enfim, tivesse a
chance de gravar seu primeiro álbum.
As
dez canções do álbum Pérola Negra foram lançadas na voz de seu divino criador
em 1973, um dos anos mais notáveis no que diz respeito a lançamentos de
clássicos da dita "MPB". Luiz Melodia atirou Samba, Rock, Jazz,
Foxtrot, Forró, Blues, Choro e outros estilos musicais no ventilador para fazer
um álbum clássico, simples de compreensão, mas extremamente complexo em relação
ao seu conteúdo, um disco irrepreensivelmente inteligente e popular. Luiz não
precisava ter feito outro disco para garantir o seu lugar entre os mais
notáveis e talentosos cantores e compositores da música brasileira.
Em
pouco mais de quatro décadas de carreira, Luiz Melodia gravou cerca de 20
discos. Alguns bastante reconhecidos pela crítica e pelos ouvintes de música
brasileira, outros praticamente ignorados por muitos. Apesar de ter travado uma
série de picuinhas e batalhas com a mídia e o mercado fonográfico (que não
hesitou em tachá-lo de "maldito") era extremamente querido pelo
público e por seus colegas de profissão. Sua obra musical encontrou em Zezé
Motta a sua maior intérprete e admiradora no meio musical – a nossa eterna Xica
da Silva sempre fez questão de incluir canções de Melodia na maioria de seus
projetos musicais.
O
eterno negro gato nunca permitiu que vendessem sua pele para que fizessem
qualquer tamborim. Sempre se pautou pela coerência, pela generosidade, pela
qualidade musical e pela elegância. A partida prematura de Luiz Melodia, em
plena criatividade, aos 66 anos deixa uma lacuna gigante no ambiente musical do
Brasil. Foi-se o homem, ficaram as melodias inesquecíveis. Cabe a cada um de
nós, amantes da boa música, possamos nos inteirar "da coisa, sem haver
engano"...
Dentre
todos os álbuns lançados por Caetano Veloso na década de 1980, o que mais me
toca é Velô, lançado pelo filho mais
ilustre de Santo Amaro da Purificação (BA) em 1984. Em seu décimo sexto álbum
de estúdio, Caetano soava moderno, sedutor, ferino, feérico, filosófico como
nunca tinha sido até então.
A
sonoridade do disco se deve graças aos músicos extraordinários da "Banda
Nova", que acompanhava o irmão ilustre de Maria Bethânia na época. Tavinho
Fialho e Toni Costa tocaram baixo e guitarra, Marcelo Costa e Armando Marçal
ficaram a cargo da bateria e da percussão, Zé Luís Signeri ficou responsável
pelos sopros (saxofone e flauta) e Ricardo Cristaldi era o tecladista do grupo
e foi o produtor de Velô(junto
de Caetano). Enquanto as rádios brasileiras enlouqueciam com as canções do
chamado "Rock Brasileiro", Caetano Veloso lançou mão do ritmo
amaldiçoado e de outras sonoridades nordestinas, eletrificou tudo à máxima
potência e lançou um disco deliciosamente vibrante.
Marcelo Costa, Ricardo Cristaldi, Armando Marçal, Caetano Veloso, Tavinho Fialho, Zé Luís Signeri e Toni Costa
A
primeira canção de Velô é uma das obras mais
importantes da música brasileira do século XX. "Podres Poderes" é uma
das críticas mais ácidas, irreverentes e inteligentes a um Brasil que estava a
um passo da redemocratização, repleto de vícios seculares e feito por
habitantes que mal sabem respeitar uns aos outros. O verso "motos e fuscas
avançam os sinais vermelhos / e perdem os verdes / somos uns boçais" critica
a selvageria do trânsito das grandes cidades brasileiras. Graças ao sucesso
desta canção, Caetano foi convidado a gravar uma participação para uma série
educativa com o objetivo de que os brasileiros aprendessem bons modos em
relação aos veículos que conduzem. Na época, as máquinas fotográficas
automáticas que captavam os apressadinhos foram apelidadas de
"Caetanos".
Três
canções do disco são um retrato interessante da música que se ouvia nas rádios
brasileiras da época. "Shy Moon", canção romântica repleta de sons de
sintetizadores e batidas eletrônicas, recebeu letra em inglês e contou com a
participação especial de Ritchie, que fazia muito sucesso com o hit
"Menina Veneno". "Comeu", além de ter recebido uma versão de Erasmo Carlos, foi também regravada por Kid Vinil, junto de seu grupo de Rock Magazine, e foi o tema de abertura da novela
global A Gata Comeu (1985), um dos
maiores sucessos televisivos da década de 1980. Por fim, "Sorvete",
retrata uma relação de amor conflituosa entre o sujeito poético e sua musa
amada. Esta última canção caberia perfeitamente no repertório de Angela Rô Rô,
que já foi agraciada com uma canção inédita de Caetano Veloso para o seu disco
de 1981. Seguem os versos do refrão, pontuados pelos teclados de Cristaldi e
pelo sax de Signeri:
"Feras lutam dentro da
noite-normal
Todos os insetos, os do belo
e os do mal
Anjos e demônios
O amor tomava conta de mim
Ela loura e negra, querubim
e animal
Burra, sábia, deusa, mulher,
menino e mandarim
Mas se ela não quis meu
sorvete
Por que gravá-la em
videocassete (...)"
Show Velô - Foto de Thereza Eugênia
"Grafitti",
parceria bissexta de Caetano com os poetas Waly Salomão e Antônio Cícero,
versava mitos gregos com a cena urbana da cidade grande com uma sonoridade
ligeira, típica do período. Além da dobradinha com Waly e Cícero, Velô traz "Pulsar", uma bela
parceria de Caetano com Augusto de Campos, um dos exponenciais da Poesia
Concreta brasileira. A sexta faixa do disco, por sua vez, é uma gravação do
frevo "Vivendo em Paz", do cantor, compositor e produtor musical
baiano Tuzé de Abreu, um dos melhores números do disco. Já a terceira canção do
disco é uma regravação de "Nine Out of Ten", composta por Caetano
Veloso para Transa, seu álbum de 1972, com tons mais caribenhos e pitadas da New Wave que tocava nas rádios dos
quatro cantos do planeta.
Velô possui duas
canções bastante poéticas e filosóficas. A primeira delas, "O Homem
Velho" (dedicada à memória de Zeca Veloso – pai de Caê –, Chico Buarque de Holanda e Mick
Jagger), um Caetano de 42 anos canta sobre o processo de envelhecimento com
muita sobriedade e lucidez:
"Os filhos, filmes,
livros, ditos como um vendaval
Espalham-nos além da ilusão
do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único,
indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que
é imortal"
A
segunda canção de cunho filosófico de Velô
é "O Quereres", um belíssimo tratado musical sobre o desejo. Já
regravada por grandes vozes da MPB como Maria Bethânia, Gal Costa e Fafá de
Belém, é uma das obras mais populares do cancioneiro de Caetano Veloso:
"Onde queres revólver,
sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou
paixão
Onde queres descanso, sou
desejo
E onde sou só desejo, queres
não
E onde não queres nada, nada
falta
E onde voas bem alto, eu sou
o chão
E onde possa o chão, minha
alma salta
E ganha a liberdade na
amplidão (...)"
A
última canção de Velô, o samba-rap
"Língua", foi dedicado a ativista política Violeta Arraes Gervaiseau
e contou com a participação de Elza Soares, na época em baixa em sua carreira:
Elza Soares & Caetano Veloso durante a temporada do programa Chico & Caetano - TV Globo (1986)
"Flor do lácio,
sambódromo
Lusamérica, latim em pó
O que quer, o que pode essa
língua?"
A
canção de Caetano é um amálgama de expressões da língua portuguesa, de
estrangeirismos, de citações filosóficas e de referências a nomes da música, da
literatura e da intelligentsia como Luís de Camões, Fernando Pessoa, João
Guimarães Rosa, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé. Um carnaval tropicalista
encerrando um disco brilhante. Um dos trabalhos que levaram Caetano Veloso ao
panteão dos homens mais notáveis da música brasileira.
Às vésperas de completar 76 anos de
idade (em 1° de agosto de 2017) e 45 de carreira musical (se levarmos em conta
a primeira apresentação ao vivo do Secos & Molhados, em dezembro de 1972), Ney
Matogrosso recebeu uma belíssima homenagem durante o 28º Prêmio da Música
Brasileira, organizado pelo empresário José Maurício Machline. Em uma série de
entrevistas concedidas pelo artista para divulgar o evento, Ney concedeu uma
série de entrevistas para os principais veículos da imprensa nacional,
incluindo a Folha de S. Paulo, que
fez a seguinte chamada para a matéria ficar bem nos moldes de um bom “caça-clique”:
“’Que gay o caralho! Eu sou um ser humano’,
diz Ney Matogrosso”.
Quando li a tal chamada, levei um susto
e fui ler a tal entrevista antes de tomar qualquer conclusão ou juízo de valor –
objetivo principal de qualquer coisa que o GAFE
(Globo, Abril, Folha e Estadão) possui em seus jornais físicos e virtuais. Em
palavras um tanto descuidadas, Ney Matogrosso respondeu se ele se considerou,
em algum momento, representante de uma minoria dizendo o seguinte:
“Eu
não. Nunca peguei essa bandeira, não me interessa. Acho que eu sou útil assim:
falando, conversando. Teve um encontro internacional gay no Rio, queriam que eu
fosse presidir. Eu disse que não, não penso assim. Aí foi o Renato [Russo]. Tá certo,
ele é quem tinha de ir, a cabeça dele era assim. Eu não defendo gay apenas,
defendo índios, fiz um vídeo recentemente pedindo a demarcação de terras. Defendo
os negros, que estão na mesma situação que viviam nas senzalas, estão presos
aos guetos.
Me
enquadrar como o “gay” seria muito confortável para o sistema. Que gay o
caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa. O que eu faço com a minha
sexualidade não é a coisa mais importante na minha vida. Isso é um aspecto de
terceiro lugar”.
Ney Matogrosso foi hippie,
isto é, vem da geração da contracultura: sempre rejeitou rótulos, limitações,
imposições, qualquer coisa que cerceasse o seu desejo de ser livre. Nunca
comprou nenhum peixe vendido pelo sistema apenas para agradar a sociedade. O que
ele quis deixar muito claro em sua entrevista para a Folha de S. Paulo era justamente isso: a recusa em ser enquadrado sob qualquer rótulo, de forma que não fosse tachado ou limitado a uma ideia só ("cantor das minorias"). Infelizmente, nem todos entenderam assim...
2) A revolta da turminha do lacre
Em primeiro lugar, vamos definir quem
faz parte da turminha do lacre: são artistas LGBT surgidos na segunda metade da
década de 2010 que não possuem a menor vergonha em desafiar padrões de gênero e
tem feito bastante sucesso com as gerações mais jovens que saíram do armário. Adoram
falar alto e ouvir pouco (ou quase nada!), acham Beyoncé e Elza Soares mulheres
que “empoderam” (a palavrinha da moda!) seus pares e sempre curtem dar um
pitaco em como devemos nos posicionar enquanto membros da causa cor de rosa.
Artistas como Liniker & Os
Caramellows e a dupla As Bahias & A Cozinha Mineira são exponentes bastante
talentosos dessa turma. Inspirados nas atitudes desse pessoal, a turminha em
questão adora reverenciar o que é “lacre” (ou seja: tudo o que é ousado e que
está, segundo Valesca Popozuda, “lacrando o cu das inimigas”). Se você diz ou faz
algo que não é “lacrativo”, “fechativo” ou “bapho” (com “PH” mesmo!), você é
digno de um “pisa menos”, de um “tombamento” e dizeres do tipo.
Eis a questão: quando a controvertida chamada
para a entrevista de Ney chegou aos olhos de um dos exponentes dessa turma – um
cantor em início de carreira cujo nome me recuso a citar não por questões de
querer poupá-lo, mas porque qualquer menção ao nome do indivíduo é forma de
publicidade indireta para o trabalho daquele ingrato –, a revolta de uma
geração que lê mal, se posiciona mal e obcecada por “dar um close”, fez uma
postagem arrasando com Ney Matogrosso em uma rede social. Disse o cidadão:
“É inconcebível ler a frase ‘Que gay o
caralho, eu sou um ser humano’ no país que mais mata LGBTs do MUNDO(!!). Vinda
de um artista cuja carreira em grande parcela se apoiou na bandeira da luta
dessa comunidade, de seu próprio público”, comentou. (...) Um artista genial
que perdeu o andar que o mundo tomou, ficou cristalizado, um cânone. (…) E em
tempos de ‘Gay é o caralho’ a única resposta possível é que vai ter gay pra
caralho, vai ser gay pra caralho sim, cada dia mais gay, cada dia um level a mais igual Pokémon”.
Diante da sucessão de enganos a
respeito de Ney Matogrosso, é preciso deixar algumas coisas bastante claras:
a)Apesar de
sempre ter se recusado a fazer militância no sentido tradicional da coisa, Ney
Matogrosso é um dos homens que mais batalharam pelo desenvolvimento da causa
LGBT no Brasil: desafiou a ditadura e a censura durante os governos Médici e
Geisel, seja à frente do lendário grupo Secos & Molhados ou em bem-sucedida
carreira solo, ao quebrar padrões de gênero com coreografias e figurinos
extravagantes, se maquiando e rebolando em pura demonstração de deboche,
insubmissão e irreverência. Deixo para a turminha do lacre um trecho de uma entrevista
para O GLOBO, na qual Ney deixa isso muito claro:
“O
GLOBO:
Quarenta anos depois dos Secos & Molhados, a gente chega a um momento da
música brasileira em que os artistas não escondem sua sexualidade, e isso abriu
uma discussão enorme sobre a questão de gênero. Você se reconhece no trabalho
desses artistas?
NEY MATOGROSSO: Me
reconhecer, não, porque eles são eles. Mas a verdade é que quem derrubou a
porta fui eu. E o resto é consequência. Porém, não espero que ninguém fique
batendo cabeça para mim. Não fiz nada além de atender à necessidade de me impor
sobre uma mentalidade muito atrasada, muito estreita”;
b)A carreira de Ney
Matogrosso nunca se apoiou na causa LGBT. Pelo contrário: a causa LGBT sempre
necessitou (e fez amplo uso!) do legado de Ney para poder se desenvolver no
Brasil;
c)Um artista que
sempre se assumiu como homossexual e está há quase cinco anos dizendo que “Todo
mundo tem direito à vida / Todo mundo tem direito igual” não é alguém que está
desatento aos sinais de nosso tempo. O talento de Ney Matogrosso está longe de
ser ou estar “cristalizado”: ele está há quase meia década percorrendo as casas
de espetáculo do Brasil com o show Atento aos Sinais,
um dos mais bem-sucedidos de sua carreira;
Ney Matogrosso no encerramento do Festival de Inverno de Bonito em 29/07/2017 - Foto: Rodrigo Motta
d)Se
artistas como Liniker e As Bahias conseguem “ botar a cara no sol” hoje em dia,
elas deveriam agradecer a Ney Matogrosso por ter “dado a cara a tapa” há quase
cinco décadas por fazer o que faz nos discos, nos palcos e nos programas de
televisão. Não reconhecer isso não é simplesmente uma mera demonstração de
petulância, é uma demonstração de burrice.
Show Destino de Aventureiro (1984)
3) As nuances do oportunismo
As redes sociais ferveram com a provocação de Ney e a
revolta do integrante da “turminha do lacre”. Textos de opinião defendendo e
enxovalhando Ney Matogrosso sem dó surgiram com uma avalanche. Infelizmente, o “embate”
entre os defensores e os detratores de um dos maiores artistas da música
brasileira deixou uma série de questões bastante caras:
a) A
militância LGBT, infelizmente, precisa ser menos radical e sair do estratagema
de que “todo bom gay é aquele que levanta bandeira” e não permitir que os haters determinem regras de como todos
deveriam agir. Pelo conjunto da obra, Ney Matogrosso está acima de qualquer
questão em relação à causa e muita gente ainda não entendeu isso;
b) O
episódio serviu como uma luva para ajudar na divulgação do recente álbum do
aspirante ao lugar insubstituível de Ney Matogrosso na música brasileira.
Oportunismo barato e grotesco: se utilizar do nome de outra pessoa para criar
polêmica com a justificativa de que faz muito pela causa LGBT é sinônimo de
falta de ética, de canalhice. Comparar a declaração de Ney com uma suposta
declaração de Madonna (“Mulher é o caralho!”) é demonstração de maniqueísmo, de
falta de instrução.
Ney Matogrosso é o arauto da liberdade (diretamente ou
não) de muitos integrantes da população LGBT no Brasil. Fez uso de um discurso
libertário, ousado e irreverente para lutar por um pouco mais de igualdade. Dizer
se é gay ou não, usar um rímel e delineador em um rosto com um bigode estilo “Freddie
Mercury” é fazer muito pouco, quase nada para que um dia gays, lésbicas,
bissexuais, travestis e transgêneros adquiram direitos iguais. O intérprete de “Sangue
Latino” não está observando atentamente os sinais de nosso tempo do alto de sua
cobertura no Leblon: ele está em todos os cantos deste país cantando e
dançando, longe do universo de um grupo reduzido de pessoas só sabem “evacuar
regras para a vida alheia”.
Por isso e por muito mais que devemos agradecer ao Ney
por tanto que ele fez pelos LGBTs, pelos amantes de música popular e pelo
Brasil por estar fazendo o que faz com o mesmo primor de sempre. Muito obrigado
por tudo, Ney! Eu sei que você não liga para essa gente careta e covarde. A partir
de hoje, passarei a fazer o mesmo...
Entre 1973 e 1975, David Bowie fez jus ao seu
apelido: CAMALEÃO DO ROCK. Em um espaço de um ano e meio, Ziggy Stardust foi
morto na frente de milhares de pessoas no Hammersmith Odeon, um álbum de covers
(Pin-Ups) foi lançado para que o
mundo se refizesse da morte do roqueiro alienígena e Halloween Jack foi a
persona que anunciou a era dos Diamond
Dogs em meio à catastrófica Hunger City. Em poucas palavras, podemos dizer
que o universo de som e imagem de Bowie vivia sob o signo constante da
renovação na década de 1970. Quando tínhamos uma imagem icônica do autor de
“Changes” em mente, lá vinha ele com uma mudança de visual e concepção musical
para confundir as cabeças de todo mundo…
Em meados de 1974, ao estrear a Diamond Dogs Tour, veio a primeira
surpresa: enquanto o mundo esperava um artista andrógino e que traria uma
persona semelhante à de Ziggy Stardust (visto que nem Aladdin Sane, tampouco
Halloween Jack eram tão distintos da figura do alienígena), surge a figura de
um astro do Rock com um corte de
cabelo levemente mais discreto (as madeixas cor de fogo de Ziggy, mais curtas,
passaram a dar espaço a mechas loiras), magérrimo, esguio e elegantemente
vestido em um terno azul bebê da Pierre Cardin com direito a suspensórios –
Bowie, que na época, devia pesar pouco mais de 40 kg, seguia uma “dieta” a base
de leite integral, café, pimentões, pastilhas de menta, cigarros e… cocaína
(Basta observar a capa do álbum David
Live, lançado pelo astro em 1974, para constatar o estado de degradação
física pelo qual ele atravessava naquele tempo)…
A turnê de divulgação de Diamond Dogs foi um marco não apenas para a carreira de David Bowie
ou do Rock: ela foi precursora de muitos espetáculos de música que passaram a
ser realizados a partir de então. Ao misturar música, teatro e cenários típicos
de qualquer show da Broadway, Bowie
tornou-se referência para artistas como arautos de outras tribos e gerações
como Madonna, Kanye West, Lady Gaga e Morrissey e inspirou colegas de profissão
como Elton John, Kiss e até (quem diria?) os Rolling Stones (leia-se: Mick
Jagger e a sua eterna obsessão em parecer jovem através de sua música!). No
entanto, quando a tour estreou em julho de 1974, o camaleão inglês andava
fascinado pela música negra americana como nunca esteve, o que já indicava uma
mudança de direção musical para caminhos paralelos aos do Rock durante aqueles shows.
No mês de agosto de 1974, durante o primeiro
intervalo das excursões de Diamond Dogs, o autor de “Space Oddity” decidiu ir
para o estúdio gravar as novas composições que já tinha dentro da gaveta. O
local escolhido para as gravações do álbum que viria a ser conhecido como Young Americansfoi o
Sigma Sound Studios, no estado da Philadelphia, berço do Soul norte-americano.
A produção do disco ficou dividida entre Tony Visconti, Harry Maslin e o
próprio Bowie e estabeleceu-se o acordo de que todas as faixas seriam gravadas
ao vivo, com todos os músicos compartilhando o mesmo espaço – o próprio
Visconti, ao falar sobre este trabalho, relatou que o disco é nada mais, nada
menos que “85% Live David Bowie”.
Durante as gravações do disco, a turnê Diamond
Dogs voltou para a estrada, mas já rebatizada como Philly Dogs, em alusão descarada ao som que se produzia no lendário
estúdio da Philadelphia.
Bowie no estúdio junto de Robin Clark, Ava Cherry e o jovem Luther Vandross
O termo que define o som que o camaleão inglês
queria produzir naquele momento era “Plastic
Soul”, uma espécie de música Soul
feita por um branco! Se David Bowie quisesse realmente alcançar tamanho nível
de excelência, teria que ir em busca de músicos que estivessem em sintonia com
o Soul, o Funk e o Jazz. Para tal,
o jovem astro não mediu esforços: verdadeiras autoridades no assunto foram
convocadas para as gravações do novo projeto – Andy Newmark (baterista do Sly
& The Family Stone), o guitarrista Carlos Alomar (que se tornou parceiro e
colaborador fixo por alguns anos), o saxofonista de jazz David Sanborn, o já
experiente pianista e tecladista Mike Garson (que já acompanhava Bowie em
turnês desde 1973) e um jovem fã de Diana Ross que fez os arranjos vocais e se
tornaria famoso como cantor no final daquela mesma década de 1970 – Luther
Vandross.
Em 1974/75 era incomum vermos artistas brancos
flertarem descaradamente com a música negra a ponto de cantar e tocar como um Bluesman do Delta do Mississipi, por
exemplo. Elvis Presley aprendeu tudo com os negros. O canto de Janis Joplin
sofreu influências de Bessie Smith e Tina Turner. Os Beatles e os Rolling
Stones não teriam feito os sons que mudaram os rumos do planeta se não
conhecessem as bandas de Blues dos Estados Unidos. E David Bowie estava mais
alucinado do que nunca pelo Soul
americano. No entanto, fazer com que sua música cruzasse a fronteira das rádios
negras não era tarefa para qualquer um: a partir de Young Americans,
Bowie foi um dos primeiros a transcender tais limites com “Fame” (parceria do
astro com John Lennon e o guitarrista Carlos Alomar), que foi catapultada para
o primeiro lugar das paradas de sucesso americanas, fato inédito para o próprio
homem que estava por detrás da máscara de Ziggy Stardust.
Bowie entre Warren Peace e Ava Cherry, sua namorada na época
Seis faixas que constam em Young Americansforam
gravadas na Philadelphia entre agosto e novembro de 1974. A faixa-título, que
narra a rapsódia de um casal nativo da terra de Uncle Sam, conta com a participação brilhante dos backing vocais de
Ava Cherry, Robin Clark, Diane Sumler, Anthony Hilton, Warren Peace e Luther
Vandross. Estes cantores emprestaram seu talento para outras faixas do disco
como as baladas “Win” e “Can You Hear Me?”, faixas que contam o sax alto de
David Sanborn e belíssimos arranjos de cordas. Em faixas mais rápidas do disco
como “Somebody Up There Likes Me” e “Fascination” (parceria de Bowie com Vandross),
as vozes destes artistas também brilham intensamente. E a interação destes
cantores com Bowie é impressionante em “Right”: as frases e palavras que lead singer e backup singers trocam dão a impressão de golpes de boxe na medida
em que um completa as falas do outro em um jogo vocal alucinante.
As duas faixas que completam Young Americanssurgiram
de um encontro importantíssimo entre David Bowie e John Lennon. Os dois se
conheceram em meados de 1974, enquanto a Diamond
Dogs Tour passava pelos EUA e o “final de semana perdido” do ex-Beatle
chegava ao fim. Bowie chegou a apresentar faixas do disco que estava gravando
para Lennon, o que rendeu alguns conselhos valiosíssimos para o autor de “Life
on Mars?” (o mais importante deles era a dispensa do empresário Tony Defries,
que se consumou pouco tempo depois) e rendeu algumas parcerias que acabaram
entrando no álbum que Bowie lançara em 1975: a já citada “Fame” – uma mistura
de Rock e Funk capitaneada por um riff
arrasador de Carlos Alomar – e uma releitura de “Across The Universe” – canção
lançada pelos Fab Four em Let It Be
(1970). Um detalhe interessante é que esta segunda faixa contou com a
participação especial de John, já reintegrado a New York e reconciliado com
Yoko.
Bowie ao lado de John e Yoko
Apesar das duas faixas gravadas nos estúdios
Electric Ladyland, em NYC, serem particularmente interessantes, não acho que
elas necessariamente dialogam com a proposta do disco pelo fato que elas não
são um retrato do som da Philadelphia que Bowie tanto quis produzir em seu
ambicioso projeto. Ironicamente, “Fame” já prenuncia a proposta a ser
desenvolvida por David Bowie em seu próximo projeto pós – Young Americans: o
antológico e aclamadíssimo Station to Station,
lançado em 23 de janeiro de 1976.
Bowie ao lado de Liz Taylor
As faixas de Young Americansque
foram descartadas do álbum vieram a público anos depois. A segunda versão para
“John I’m Only Dancing” deixou de lado a sonoridade Rock dos tempos de Ziggy
Stardust para abrir as portas para as batidas da Disco Music que surgia no final de 1974 e chegou a ser tocada em
algumas apresentações de Philly Dogs.
Já as baladas “Who Can I Be Now?” e “It’s Gonna Be Me” – lançadas em uma edição
especial de 2007 de Young
Americans(que você ouve acima) – são duas interpretações
marcantes de David Bowie que atestam a sua evolução enquanto cantor. Já a releitura de “It’s Hard To Be A Saint In Te City” (de Bruce Springsteen) e a inédita “After Today”
saíram na caixa Sound + Vision
(1990).
Young Americansfez
com que David Bowie deixasse de ser o homem das estrelas deliciosamente bizarro
para se transformar em um elegante homem do Soul,
com ternos impecáveis e com um som indefectível. Ao analisarmos o legado que
este álbum ofertou para a música do planeta, quatro décadas após o seu
surgimento, concluímos que foi um dos primeiros trabalhos de um artista branco
que fazem música negra sem oportunismos, modismos e cacoetes. Um disco que deve
ser ouvido bem alto, com muito carinho e com muita atenção…