6 de agosto de 2017

TROVA # 131

A MELODIA FINAL DO NEGRO GATO

Em memória de Luiz Melodia (1951-2017)


"Eu fico com essa dor
Ou essa dor tem que morrer
A dor que nos ensina
E a vontade de não ter
Sofrer de mais que tudo
Nós precisamos aprender
Eu grito e me solto
Eu preciso aprender

Curo esse rasgo ou ignoro qualquer ser
Sigo enganado ou enganando meu viver
Pois quando estou amando é parecido com sofrer
Eu morro de amores
Eu preciso aprender"
(Luiz Melodia, 1978)


Dias cinzentos e nublados não me trazem boas lembranças. Cauby Peixoto nos abandonou em uma segunda-feira assim. Lou Reed se foi em um domingo bastante nublado. A vida levou Luiz Melodia do nosso convívio em uma sexta-feira cinzenta e de chuvas esparsas. Vítima de um câncer de medula óssea, o negro gato, ébano de carteirinha musical, virou mais uma estrela a brilhar na constelação musical brasileira no dia 4 de agosto de 2017. 




A primeira lembrança que eu tenho de Mestre Melodia era de um homem fino e elegante, de voz grave e límpida. Estava assistindo a primeira transmissão do Acústico MTV de Gal Costa pela saudosa Music Television brasileira. No início do terceiro bloco, a banda de Gal começa a atacar "Pérola Negra". Ao invés da eterna musa da Tropicália começar a cantar o primeiro verso – "Tente passar pelo que estou passando" –, surge uma voz de ébano do lado esquerdo do palco. Era Luiz Melodia, em um terno preto elegantíssimo, adentrando o palco como a Irene de Manuel Bandeira: sem pedir licença. 


Em sentido horário: Luiz Melodia, Gal Costa, Nara Leão, Odair José, Caetano Veloso e Maria Bethânia nos bastidores do Festival Phono 73

A intimidade entre Gal e Melodia vinha de uma longa data - para ser mais exato, do início da década de 1970, quando, graças ao auxílio de Waly Salomão, ela incluiu "Pérola Negra" no setlist do lendário show Fa-Tal: Gal a Todo Vapor (1971) e colocou o jovem bardo do morro do Estácio no mapa da mina da MPB. Um ano depois, Maria Bethânia gravou "Estácio Holly Estácio" em seu álbum Drama - Anjo Exterminado (1972), com muito sucesso. O reconhecimento do talento do jovem Luiz Melodia foi fundamental para que ele, enfim, tivesse a chance de gravar seu primeiro álbum.









As dez canções do álbum Pérola Negra foram lançadas na voz de seu divino criador em 1973, um dos anos mais notáveis no que diz respeito a lançamentos de clássicos da dita "MPB". Luiz Melodia atirou Samba, Rock, Jazz, Foxtrot, Forró, Blues, Choro e outros estilos musicais no ventilador para fazer um álbum clássico, simples de compreensão, mas extremamente complexo em relação ao seu conteúdo, um disco irrepreensivelmente inteligente e popular. Luiz não precisava ter feito outro disco para garantir o seu lugar entre os mais notáveis e talentosos cantores e compositores da música brasileira.








Em pouco mais de quatro décadas de carreira, Luiz Melodia gravou cerca de 20 discos. Alguns bastante reconhecidos pela crítica e pelos ouvintes de música brasileira, outros praticamente ignorados por muitos. Apesar de ter travado uma série de picuinhas e batalhas com a mídia e o mercado fonográfico (que não hesitou em tachá-lo de "maldito") era extremamente querido pelo público e por seus colegas de profissão. Sua obra musical encontrou em Zezé Motta a sua maior intérprete e admiradora no meio musical – a nossa eterna Xica da Silva sempre fez questão de incluir canções de Melodia na maioria de seus projetos musicais. 






O eterno negro gato nunca permitiu que vendessem sua pele para que fizessem qualquer tamborim. Sempre se pautou pela coerência, pela generosidade, pela qualidade musical e pela elegância. A partida prematura de Luiz Melodia, em plena criatividade, aos 66 anos deixa uma lacuna gigante no ambiente musical do Brasil. Foi-se o homem, ficaram as melodias inesquecíveis. Cabe a cada um de nós, amantes da boa música, possamos nos inteirar "da coisa, sem haver engano"...


3 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 36

CAETANO VELOSO – VELÔ (1984)


Dentre todos os álbuns lançados por Caetano Veloso na década de 1980, o que mais me toca é Velô, lançado pelo filho mais ilustre de Santo Amaro da Purificação (BA) em 1984. Em seu décimo sexto álbum de estúdio, Caetano soava moderno, sedutor, ferino, feérico, filosófico como nunca tinha sido até então. 

A sonoridade do disco se deve graças aos músicos extraordinários da "Banda Nova", que acompanhava o irmão ilustre de Maria Bethânia na época. Tavinho Fialho e Toni Costa tocaram baixo e guitarra, Marcelo Costa e Armando Marçal ficaram a cargo da bateria e da percussão, Zé Luís Signeri ficou responsável pelos sopros (saxofone e flauta) e Ricardo Cristaldi era o tecladista do grupo e foi o produtor de Velô (junto de Caetano). Enquanto as rádios brasileiras enlouqueciam com as canções do chamado "Rock Brasileiro", Caetano Veloso lançou mão do ritmo amaldiçoado e de outras sonoridades nordestinas, eletrificou tudo à máxima potência e lançou um disco deliciosamente vibrante.

Marcelo Costa, Ricardo Cristaldi, Armando Marçal, Caetano Veloso, Tavinho Fialho, Zé Luís Signeri e Toni Costa

A primeira canção de Velô é uma das obras mais importantes da música brasileira do século XX. "Podres Poderes" é uma das críticas mais ácidas, irreverentes e inteligentes a um Brasil que estava a um passo da redemocratização, repleto de vícios seculares e feito por habitantes que mal sabem respeitar uns aos outros. O verso "motos e fuscas avançam os sinais vermelhos / e perdem os verdes / somos uns boçais" critica a selvageria do trânsito das grandes cidades brasileiras. Graças ao sucesso desta canção, Caetano foi convidado a gravar uma participação para uma série educativa com o objetivo de que os brasileiros aprendessem bons modos em relação aos veículos que conduzem. Na época, as máquinas fotográficas automáticas que captavam os apressadinhos foram apelidadas de "Caetanos".





Três canções do disco são um retrato interessante da música que se ouvia nas rádios brasileiras da época. "Shy Moon", canção romântica repleta de sons de sintetizadores e batidas eletrônicas, recebeu letra em inglês e contou com a participação especial de Ritchie, que fazia muito sucesso com o hit "Menina Veneno". "Comeu", além de ter recebido uma versão de Erasmo Carlos, foi também regravada por Kid Vinil, junto de seu grupo de Rock Magazine, e foi  o tema de abertura da novela global A Gata Comeu (1985), um dos maiores sucessos televisivos da década de 1980. Por fim, "Sorvete", retrata uma relação de amor conflituosa entre o sujeito poético e sua musa amada. Esta última canção caberia perfeitamente no repertório de Angela Rô Rô, que já foi agraciada com uma canção inédita de Caetano Veloso para o seu disco de 1981. Seguem os versos do refrão, pontuados pelos teclados de Cristaldi e pelo sax de Signeri:


"Feras lutam dentro da noite-normal
Todos os insetos, os do belo e os do mal
Anjos e demônios
O amor tomava conta de mim

Ela loura e negra, querubim e animal
Burra, sábia, deusa, mulher, menino e mandarim
Mas se ela não quis meu sorvete
Por que gravá-la em videocassete (...)"

Show Velô - Foto de Thereza Eugênia



"Grafitti", parceria bissexta de Caetano com os poetas Waly Salomão e Antônio Cícero, versava mitos gregos com a cena urbana da cidade grande com uma sonoridade ligeira, típica do período. Além da dobradinha com Waly e Cícero, Velô traz "Pulsar", uma bela parceria de Caetano com Augusto de Campos, um dos exponenciais da Poesia Concreta brasileira. A sexta faixa do disco, por sua vez, é uma gravação do frevo "Vivendo em Paz", do cantor, compositor e produtor musical baiano Tuzé de Abreu, um dos melhores números do disco. Já a terceira canção do disco é uma regravação de "Nine Out of Ten", composta por Caetano Veloso para Transa, seu álbum de 1972, com tons mais caribenhos e pitadas da New Wave que tocava nas rádios dos quatro cantos do planeta.




Velô possui duas canções bastante poéticas e filosóficas. A primeira delas, "O Homem Velho" (dedicada à memória de Zeca Veloso –  pai de Caê –, Chico Buarque de Holanda e Mick Jagger), um Caetano de 42 anos canta sobre o processo de envelhecimento com muita sobriedade e lucidez: 


"Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval
Espalham-nos além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal"



A segunda canção de cunho filosófico de Velô é "O Quereres", um belíssimo tratado musical sobre o desejo. Já regravada por grandes vozes da MPB como Maria Bethânia, Gal Costa e Fafá de Belém, é uma das obras mais populares do cancioneiro de Caetano Veloso:



"Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde possa o chão, minha alma salta
E ganha a liberdade na amplidão (...)"

A última canção de Velô, o samba-rap "Língua", foi dedicado a ativista política Violeta Arraes Gervaiseau e contou com a participação de Elza Soares, na época em baixa em sua carreira: 

Elza Soares & Caetano Veloso durante a temporada do programa Chico & Caetano - TV Globo (1986)

"Flor do lácio, sambódromo
Lusamérica, latim em pó
O que quer, o que pode essa língua?"



A canção de Caetano é um amálgama de expressões da língua portuguesa, de estrangeirismos, de citações filosóficas e de referências a nomes da música, da literatura e da intelligentsia como Luís de Camões, Fernando Pessoa, João Guimarães Rosa, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé. Um carnaval tropicalista encerrando um disco brilhante. Um dos trabalhos que levaram Caetano Veloso ao panteão dos homens mais notáveis da música brasileira.

30 de julho de 2017

TROVA # 130

O ARAUTO DA LIBERDADE
(OU A NECESSIDADE DE RESPEITARMOS NEY MATOGROSSO)


“Demasiadas palavras
Fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia”
(Caetano Veloso, 1983)


1) Uma provocação

         Às vésperas de completar 76 anos de idade (em 1° de agosto de 2017) e 45 de carreira musical (se levarmos em conta a primeira apresentação ao vivo do Secos & Molhados, em dezembro de 1972), Ney Matogrosso recebeu uma belíssima homenagem durante o 28º Prêmio da Música Brasileira, organizado pelo empresário José Maurício Machline. Em uma série de entrevistas concedidas pelo artista para divulgar o evento, Ney concedeu uma série de entrevistas para os principais veículos da imprensa nacional, incluindo a Folha de S. Paulo, que fez a seguinte chamada para a matéria ficar bem nos moldes de um bom “caça-clique”: “’Que gay o caralho! Eu sou um ser humano’, diz Ney Matogrosso”.


         Quando li a tal chamada, levei um susto e fui ler a tal entrevista antes de tomar qualquer conclusão ou juízo de valor – objetivo principal de qualquer coisa que o GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) possui em seus jornais físicos e virtuais. Em palavras um tanto descuidadas, Ney Matogrosso respondeu se ele se considerou, em algum momento, representante de uma minoria dizendo o seguinte:

“Eu não. Nunca peguei essa bandeira, não me interessa. Acho que eu sou útil assim: falando, conversando. Teve um encontro internacional gay no Rio, queriam que eu fosse presidir. Eu disse que não, não penso assim. Aí foi o Renato [Russo]. Tá certo, ele é quem tinha de ir, a cabeça dele era assim. Eu não defendo gay apenas, defendo índios, fiz um vídeo recentemente pedindo a demarcação de terras. Defendo os negros, que estão na mesma situação que viviam nas senzalas, estão presos aos guetos.
Me enquadrar como o “gay” seria muito confortável para o sistema. Que gay o caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa. O que eu faço com a minha sexualidade não é a coisa mais importante na minha vida. Isso é um aspecto de terceiro lugar”.



Ney Matogrosso foi hippie, isto é, vem da geração da contracultura: sempre rejeitou rótulos, limitações, imposições, qualquer coisa que cerceasse o seu desejo de ser livre. Nunca comprou nenhum peixe vendido pelo sistema apenas para agradar a sociedade. O que ele quis deixar muito claro em sua entrevista para a Folha de S. Paulo era justamente isso: a recusa em ser enquadrado sob qualquer rótulo, de forma que não fosse tachado ou limitado a uma ideia só ("cantor das minorias"). Infelizmente, nem todos entenderam assim... 


2) A revolta da turminha do lacre

Em primeiro lugar, vamos definir quem faz parte da turminha do lacre: são artistas LGBT surgidos na segunda metade da década de 2010 que não possuem a menor vergonha em desafiar padrões de gênero e tem feito bastante sucesso com as gerações mais jovens que saíram do armário. Adoram falar alto e ouvir pouco (ou quase nada!), acham Beyoncé e Elza Soares mulheres que “empoderam” (a palavrinha da moda!) seus pares e sempre curtem dar um pitaco em como devemos nos posicionar enquanto membros da causa cor de rosa.
Artistas como Liniker & Os Caramellows e a dupla As Bahias & A Cozinha Mineira são exponentes bastante talentosos dessa turma. Inspirados nas atitudes desse pessoal, a turminha em questão adora reverenciar o que é “lacre” (ou seja: tudo o que é ousado e que está, segundo Valesca Popozuda, “lacrando o cu das inimigas”). Se você diz ou faz algo que não é “lacrativo”, “fechativo” ou “bapho” (com “PH” mesmo!), você é digno de um “pisa menos”, de um “tombamento” e dizeres do tipo.
Eis a questão: quando a controvertida chamada para a entrevista de Ney chegou aos olhos de um dos exponentes dessa turma – um cantor em início de carreira cujo nome me recuso a citar não por questões de querer poupá-lo, mas porque qualquer menção ao nome do indivíduo é forma de publicidade indireta para o trabalho daquele ingrato –, a revolta de uma geração que lê mal, se posiciona mal e obcecada por “dar um close”, fez uma postagem arrasando com Ney Matogrosso em uma rede social. Disse o cidadão:

“É inconcebível ler a frase ‘Que gay o caralho, eu sou um ser humano’ no país que mais mata LGBTs do MUNDO(!!). Vinda de um artista cuja carreira em grande parcela se apoiou na bandeira da luta dessa comunidade, de seu próprio público”, comentou. (...) Um artista genial que perdeu o andar que o mundo tomou, ficou cristalizado, um cânone. (…) E em tempos de ‘Gay é o caralho’ a única resposta possível é que vai ter gay pra caralho, vai ser gay pra caralho sim, cada dia mais gay, cada dia um level a mais igual Pokémon”.

Diante da sucessão de enganos a respeito de Ney Matogrosso, é preciso deixar algumas coisas bastante claras:

a)  Apesar de sempre ter se recusado a fazer militância no sentido tradicional da coisa, Ney Matogrosso é um dos homens que mais batalharam pelo desenvolvimento da causa LGBT no Brasil: desafiou a ditadura e a censura durante os governos Médici e Geisel, seja à frente do lendário grupo Secos & Molhados ou em bem-sucedida carreira solo, ao quebrar padrões de gênero com coreografias e figurinos extravagantes, se maquiando e rebolando em pura demonstração de deboche, insubmissão e irreverência. Deixo para a turminha do lacre um trecho de uma entrevista para O GLOBO, na qual Ney deixa isso muito claro:

“O GLOBO: Quarenta anos depois dos Secos & Molhados, a gente chega a um momento da música brasileira em que os artistas não escondem sua sexualidade, e isso abriu uma discussão enorme sobre a questão de gênero. Você se reconhece no trabalho desses artistas?
NEY MATOGROSSO: Me reconhecer, não, porque eles são eles. Mas a verdade é que quem derrubou a porta fui eu. E o resto é consequência. Porém, não espero que ninguém fique batendo cabeça para mim. Não fiz nada além de atender à necessidade de me impor sobre uma mentalidade muito atrasada, muito estreita”;

b)  A carreira de Ney Matogrosso nunca se apoiou na causa LGBT. Pelo contrário: a causa LGBT sempre necessitou (e fez amplo uso!) do legado de Ney para poder se desenvolver no Brasil;
c)  Um artista que sempre se assumiu como homossexual e está há quase cinco anos dizendo que “Todo mundo tem direito à vida / Todo mundo tem direito igual” não é alguém que está desatento aos sinais de nosso tempo. O talento de Ney Matogrosso está longe de ser ou estar “cristalizado”: ele está há quase meia década percorrendo as casas de espetáculo do Brasil com o show Atento aos Sinais, um dos mais bem-sucedidos de sua carreira;



Ney Matogrosso no encerramento do Festival de Inverno de Bonito em 29/07/2017 - Foto: Rodrigo Motta

d)  Se artistas como Liniker e As Bahias conseguem “ botar a cara no sol” hoje em dia, elas deveriam agradecer a Ney Matogrosso por ter “dado a cara a tapa” há quase cinco décadas por fazer o que faz nos discos, nos palcos e nos programas de televisão. Não reconhecer isso não é simplesmente uma mera demonstração de petulância, é uma demonstração de burrice.

Show Destino de Aventureiro (1984)

3) As nuances do oportunismo

As redes sociais ferveram com a provocação de Ney e a revolta do integrante da “turminha do lacre”. Textos de opinião defendendo e enxovalhando Ney Matogrosso sem dó surgiram com uma avalanche. Infelizmente, o “embate” entre os defensores e os detratores de um dos maiores artistas da música brasileira deixou uma série de questões bastante caras:

a) A militância LGBT, infelizmente, precisa ser menos radical e sair do estratagema de que “todo bom gay é aquele que levanta bandeira” e não permitir que os haters determinem regras de como todos deveriam agir. Pelo conjunto da obra, Ney Matogrosso está acima de qualquer questão em relação à causa e muita gente ainda não entendeu isso;
b) O episódio serviu como uma luva para ajudar na divulgação do recente álbum do aspirante ao lugar insubstituível de Ney Matogrosso na música brasileira. Oportunismo barato e grotesco: se utilizar do nome de outra pessoa para criar polêmica com a justificativa de que faz muito pela causa LGBT é sinônimo de falta de ética, de canalhice. Comparar a declaração de Ney com uma suposta declaração de Madonna (“Mulher é o caralho!”) é demonstração de maniqueísmo, de falta de instrução.


Ney Matogrosso é o arauto da liberdade (diretamente ou não) de muitos integrantes da população LGBT no Brasil. Fez uso de um discurso libertário, ousado e irreverente para lutar por um pouco mais de igualdade. Dizer se é gay ou não, usar um rímel e delineador em um rosto com um bigode estilo “Freddie Mercury” é fazer muito pouco, quase nada para que um dia gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros adquiram direitos iguais. O intérprete de “Sangue Latino” não está observando atentamente os sinais de nosso tempo do alto de sua cobertura no Leblon: ele está em todos os cantos deste país cantando e dançando, longe do universo de um grupo reduzido de pessoas só sabem “evacuar regras para a vida alheia”.
Por isso e por muito mais que devemos agradecer ao Ney por tanto que ele fez pelos LGBTs, pelos amantes de música popular e pelo Brasil por estar fazendo o que faz com o mesmo primor de sempre. Muito obrigado por tudo, Ney! Eu sei que você não liga para essa gente careta e covarde. A partir de hoje, passarei a fazer o mesmo...
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27 de julho de 2017

DISCOS DE VINIL # 35

DAVID BOWIE – YOUNG AMERICANS (1975)


Entre 1973 e 1975, David Bowie fez jus ao seu apelido: CAMALEÃO DO ROCK. Em um espaço de um ano e meio, Ziggy Stardust foi morto na frente de milhares de pessoas no Hammersmith Odeon, um álbum de covers (Pin-Ups) foi lançado para que o mundo se refizesse da morte do roqueiro alienígena e Halloween Jack foi a persona que anunciou a era dos Diamond Dogs em meio à catastrófica Hunger City. Em poucas palavras, podemos dizer que o universo de som e imagem de Bowie vivia sob o signo constante da renovação na década de 1970. Quando tínhamos uma imagem icônica do autor de “Changes” em mente, lá vinha ele com uma mudança de visual e concepção musical para confundir as cabeças de todo mundo…




Em meados de 1974, ao estrear a Diamond Dogs Tour, veio a primeira surpresa: enquanto o mundo esperava um artista andrógino e que traria uma persona semelhante à de Ziggy Stardust (visto que nem Aladdin Sane, tampouco Halloween Jack eram tão distintos da figura do alienígena), surge a figura de um astro do Rock com um corte de cabelo levemente mais discreto (as madeixas cor de fogo de Ziggy, mais curtas, passaram a dar espaço a mechas loiras), magérrimo, esguio e elegantemente vestido em um terno azul bebê da Pierre Cardin com direito a suspensórios – Bowie, que na época, devia pesar pouco mais de 40 kg, seguia uma “dieta” a base de leite integral, café, pimentões, pastilhas de menta, cigarros e… cocaína (Basta observar a capa do álbum David Live, lançado pelo astro em 1974, para constatar o estado de degradação física pelo qual ele atravessava naquele tempo)…


A turnê de divulgação de Diamond Dogs foi um marco não apenas para a carreira de David Bowie ou do Rock: ela foi precursora de muitos espetáculos de música que passaram a ser realizados a partir de então. Ao misturar música, teatro e cenários típicos de qualquer show da Broadway, Bowie tornou-se referência para artistas como arautos de outras tribos e gerações como Madonna, Kanye West, Lady Gaga e Morrissey e inspirou colegas de profissão como Elton John, Kiss e até (quem diria?) os Rolling Stones (leia-se: Mick Jagger e a sua eterna obsessão em parecer jovem através de sua música!). No entanto, quando a tour estreou em julho de 1974, o camaleão inglês andava fascinado pela música negra americana como nunca esteve, o que já indicava uma mudança de direção musical para caminhos paralelos aos do Rock durante aqueles shows.


No mês de agosto de 1974, durante o primeiro intervalo das excursões de Diamond Dogs, o autor de “Space Oddity” decidiu ir para o estúdio gravar as novas composições que já tinha dentro da gaveta. O local escolhido para as gravações do álbum que viria a ser conhecido como Young Americans foi o Sigma Sound Studios, no estado da Philadelphia, berço do Soul norte-americano. A produção do disco ficou dividida entre Tony Visconti, Harry Maslin e o próprio Bowie e estabeleceu-se o acordo de que todas as faixas seriam gravadas ao vivo, com todos os músicos compartilhando o mesmo espaço – o próprio Visconti, ao falar sobre este trabalho, relatou que o disco é nada mais, nada menos que “85% Live David Bowie”. Durante as gravações do disco, a turnê Diamond Dogs voltou para a estrada, mas já rebatizada como Philly Dogs, em alusão descarada ao som que se produzia no lendário estúdio da Philadelphia.

Bowie no estúdio junto de Robin Clark, Ava Cherry e o jovem Luther Vandross

O termo que define o som que o camaleão inglês queria produzir naquele momento era “Plastic Soul”, uma espécie de música Soul feita por um branco! Se David Bowie quisesse realmente alcançar tamanho nível de excelência, teria que ir em busca de músicos que estivessem em sintonia com o Soul, o Funk e o Jazz. Para tal, o jovem astro não mediu esforços: verdadeiras autoridades no assunto foram convocadas para as gravações do novo projeto – Andy Newmark (baterista do Sly & The Family Stone), o guitarrista Carlos Alomar (que se tornou parceiro e colaborador fixo por alguns anos), o saxofonista de jazz David Sanborn, o já experiente pianista e tecladista Mike Garson (que já acompanhava Bowie em turnês desde 1973) e um jovem fã de Diana Ross que fez os arranjos vocais e se tornaria famoso como cantor no final daquela mesma década de 1970 – Luther Vandross.


Em 1974/75 era incomum vermos artistas brancos flertarem descaradamente com a música negra a ponto de cantar e tocar como um Bluesman do Delta do Mississipi, por exemplo. Elvis Presley aprendeu tudo com os negros. O canto de Janis Joplin sofreu influências de Bessie Smith e Tina Turner. Os Beatles e os Rolling Stones não teriam feito os sons que mudaram os rumos do planeta se não conhecessem as bandas de Blues dos Estados Unidos. E David Bowie estava mais alucinado do que nunca pelo Soul americano. No entanto, fazer com que sua música cruzasse a fronteira das rádios negras não era tarefa para qualquer um: a partir de Young Americans, Bowie foi um dos primeiros a transcender tais limites com “Fame” (parceria do astro com John Lennon e o guitarrista Carlos Alomar), que foi catapultada para o primeiro lugar das paradas de sucesso americanas, fato inédito para o próprio homem que estava por detrás da máscara de Ziggy Stardust.

Bowie entre Warren Peace e Ava Cherry, sua namorada na época

Seis faixas que constam em Young Americans foram gravadas na Philadelphia entre agosto e novembro de 1974. A faixa-título, que narra a rapsódia de um casal nativo da terra de Uncle Sam, conta com a participação brilhante dos backing vocais de Ava Cherry, Robin Clark, Diane Sumler, Anthony Hilton, Warren Peace e Luther Vandross. Estes cantores emprestaram seu talento para outras faixas do disco como as baladas “Win” e “Can You Hear Me?”, faixas que contam o sax alto de David Sanborn e belíssimos arranjos de cordas. Em faixas mais rápidas do disco como “Somebody Up There Likes Me” e “Fascination” (parceria de Bowie com Vandross), as vozes destes artistas também brilham intensamente. E a interação destes cantores com Bowie é impressionante em “Right”: as frases e palavras que lead singer e backup singers trocam dão a impressão de golpes de boxe na medida em que um completa as falas do outro em um jogo vocal alucinante.


As duas faixas que completam Young Americans surgiram de um encontro importantíssimo entre David Bowie e John Lennon. Os dois se conheceram em meados de 1974, enquanto a Diamond Dogs Tour passava pelos EUA e o “final de semana perdido” do ex-Beatle chegava ao fim. Bowie chegou a apresentar faixas do disco que estava gravando para Lennon, o que rendeu alguns conselhos valiosíssimos para o autor de “Life on Mars?” (o mais importante deles era a dispensa do empresário Tony Defries, que se consumou pouco tempo depois) e rendeu algumas parcerias que acabaram entrando no álbum que Bowie lançara em 1975: a já citada “Fame” – uma mistura de Rock e Funk capitaneada por um riff arrasador de Carlos Alomar – e uma releitura de “Across The Universe” – canção lançada pelos Fab Four em Let It Be (1970). Um detalhe interessante é que esta segunda faixa contou com a participação especial de John, já reintegrado a New York e reconciliado com Yoko.


Bowie ao lado de John e Yoko

Apesar das duas faixas gravadas nos estúdios Electric Ladyland, em NYC, serem particularmente interessantes, não acho que elas necessariamente dialogam com a proposta do disco pelo fato que elas não são um retrato do som da Philadelphia que Bowie tanto quis produzir em seu ambicioso projeto. Ironicamente, “Fame” já prenuncia a proposta a ser desenvolvida por David Bowie em seu próximo projeto pós – Young Americans: o antológico e aclamadíssimo Station to Station, lançado em 23 de janeiro de 1976.



Bowie ao lado de Liz Taylor

As faixas de Young Americans que foram descartadas do álbum vieram a público anos depois. A segunda versão para “John I’m Only Dancing” deixou de lado a sonoridade Rock dos tempos de Ziggy Stardust para abrir as portas para as batidas da Disco Music que surgia no final de 1974 e chegou a ser tocada em algumas apresentações de Philly Dogs. Já as baladas “Who Can I Be Now?” e “It’s Gonna Be Me” – lançadas em uma edição especial de 2007 de Young Americans (que você ouve acima) – são duas interpretações marcantes de David Bowie que atestam a sua evolução enquanto cantor. Já a releitura de “It’s Hard To Be A Saint In Te City” (de Bruce Springsteen) e a inédita “After Today” saíram na caixa Sound + Vision (1990).



Young Americans fez com que David Bowie deixasse de ser o homem das estrelas deliciosamente bizarro para se transformar em um elegante homem do Soul, com ternos impecáveis e com um som indefectível. Ao analisarmos o legado que este álbum ofertou para a música do planeta, quatro décadas após o seu surgimento, concluímos que foi um dos primeiros trabalhos de um artista branco que fazem música negra sem oportunismos, modismos e cacoetes. Um disco que deve ser ouvido bem alto, com muito carinho e com muita atenção…