11 de janeiro de 2021

TROVA # 158

 

JUDY & FREDDIE

Assistir as vidas de Judy Garland e Freddie Mercury no cinema me deu a oportunidade de saber um pouco mais sobre eles...



No silêncio da noite, muitas vezes desejei apenas algumas palavras de amor de um homem, em vez do aplauso de milhares de pessoas.

(Judy Garland)

 “Eu sou uma prostituta musical, querido.

 (Freddie Mercury)

 

         Biografias nunca fazem jus aos seus respectivos homenageados. Quando a trama é levada para a tela do cinema, as chances de surgirem grandes controvérsias são altamente prováveis, visto que nem todos os roteiros cinematográficos conseguem contar algumas passagens da vida de astros e estrelas como elas realmente aconteceram. John Lennon, Jim Morrison, Cazuza, Tim Maia, Renato Russo e Elis Regina são alguns exemplos deste fato. Mas tem duas que eu assisti recentemente que chamaram bastante minha atenção e a minha curiosidade: a cinebiografia de Judy Garland e a de Freddie Mercury, do Queen.

* 





         Em julho de 2019, os frequentadores da Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Londres receberam a atriz Renée Zellweger como convidada especial para a exibição do trailer de Judy (2019), de Rupert Goold, cinebiografia da estrela de O Mágico de Oz. Graças à película, Zellweger levou o Oscar de Melhor Atriz do ano de 2020 para casa e reacendeu a chama do mito Judy Garland para uma nova geração de fãs, incluindo este que vos escreve.

         Judy reconstitui os principais acontecimentos que envolviam a última turnê de uma das maiores estrelas da história do entretenimento: seus problemas financeiros, suas batalhas com o ex-marido Sidney Luft (pai de Lorna e Joey, seus filhos mais novos), o vício em drogas, seus ataques de insegurança e fúria, sem contar as instabilidades e incertezas que sempre permearam sua vida sentimental e profissional. As origens da estrela apareciam em cenas de flashback (as filmagens de O Mágico de Oz, a relação difícil com os estúdios de Hollywood, a amizade “colorida” com o astro Mickey Rooney) para que o espectador menos informado compreendesse a origem eternos conflitos de Judy Garland.

         Foi em uma noite de domingo que eu me sentei em uma sala de cinema para assistir a Judy, o filme. A atuação de Renée Zellweger é tão irrepreensível a ponto de nos transportar para o universo de Garland sem questionamentos. Quando saí de lá, não fiquei apenas encantado por Judy, como também fiquei abismado com a dimensão de sua sina e de seu talento: a intensidade de uma estrela cujo brilho foi apagado pelas consequências mesquinhas da indústria do entretenimento. Por outro lado, tive a clara convicção de que artistas do porte de Judy Garland são simplesmente insubstituíveis, por mais que existam pessoas que reconheçam o seu legado.

         Depois de assistir ao filme, fui à caça de performances de Ms. Garland no YouTube e achei uma de suas biografias em um sebo no Rio de Janeiro. Descobri, por exemplo, que ela teve um programa de TV nos EUA durante a primeira metade da década de 1960. Dentre as pérolas do baú do audiovisual de Judy, encontrei uma interpretação sensível de “I Can’t Give You Anything But Love” (Dorothy Fields & Jimmy McHugh), canção de 1928 que já tinha sido gravada por Lena Horne, Marlene Dietrich, Billie Holiday, Doris Day, Ella Fitzgerald, para ficarmos apenas com as deusas do bel-canto feminino. Com todo o respeito às artistas citadas, mas a releitura de Judy é de uma intensidade tamanha a ponto de emocionar qualquer um que preste atenção no que ela estava dizendo.


         Se o brilho artístico de Judy Garland tivesse sucumbido com o final de sua trajetória neste mundo, jamais teríamos tido a oportunidade de aprender com ela o que é interpretar uma canção com toda a verdade que a obra de arte exige. Devo isto a Hollywood, ao filme Judy e ao talento indiscutível de Renée Zellweger. Porém, a família da estrela não se interessou pela película: Liza Minnelli, filha mais velha de Judy, se recusou a ver o filme e a dizer qualquer palavra sobre o assunto.

*

 

         A vida de Freddie Mercury, o lendário vocalista do Queen, ganhou as telas de cinema com o filme Bohemian Rhapsody (2018), de Bryan Singer e Dexter Fletcher. Contou com a coprodução de dois dos membros da banda e se tornou em uma das maiores bilheterias do gênero da história em pouco tempo. Precisei de um pouco de tempo para ter a curiosidade suficiente para encarar uma sala de cinema para assistir a versão da vida de um dos artistas mais originais, inquietos e controversos do século XX. Confesso só fui depois que várias pessoas do meu círculo de familiares e amigos já tinham aventurado pelo escurinho do cinema, com combos de pipocas e refrigerantes a tiracolo, e recomendaram que eu fosse ver o filme o quanto antes. Mais uma façanha digna de orgulho para o próprio Freddie, que conseguiu despertar o interesse de um público gigantesco décadas após a sua saída definitiva de cena.


         Ninguém precisa ser um fã devoto do Queen (não me encontro entre eles) para saber que Freddie Mercury não era uma das pessoas mais fáceis de conviver no meio artístico: dono de um talento tão gigantesco quanto seu ego, sua luxúria e seu temperamento explosivo, além de extravagante ao extremo dificultando sua convivência com os demais membros da raça humana. Bohemian Rhapsody retrata tal faceta de Freddie com bastante louvor. No entanto, os admiradores da banda se revoltaram com a omissão de alguns fatos importantes, além da cronologia irregular que se apresentou no roteiro.



         É evidente que essas adaptações / ajustes foram feitos para que a biografia de Freddie Mercury “coubesse” em 90 minutos de filme. Para que a história do vocalista do Queen fosse devidamente aceita pelo grande público e por Hollywood, sua figura precisou ser suavizada, reinventada para ser aceita pelas massas e garantir maior retorno nas bilheterias ao redor do globo. Graças ao sucesso do filme, Rami Malek (ator que interpretou o vocalista do Queen na telona) levou o Oscar de Melhor Ator de 2019 para casa, derrotando concorrentes de maior peso, para surpresa de vários críticos especializados.

         Por outro lado, apesar de reconhecer as falhas de Bohemian Rhapsody (e elas são bem evidentes!), consegui me afeiçoar ao filme e à figura de um dos maiores ídolos da geração dos meus pais. Quando Freddie Mercury morreu por decorrência das complicações geradas pelo vírus da AIDS, em novembro de 1991, eu começava a dar os meus primeiros passos como ouvinte de música e só relacionava a imagem do Queen à foto da capa do álbum Greatest Hits que eles tinham lançado no início da década de 1980. Ver o filme me trouxe não apenas lembranças da minha infância, como também me trouxe a vontade de ouvir e conhecer um pouco mais o trabalho da banda.


         Ao contrário dos fãs mais radicais do Queen, fiquei feliz em ver um Freddie Mercury reinventado nas telonas do cinema. Em tempos nos quais o patrulhamento e a homofobia são gigantescos, é sempre estimulante ver um ícone LGBTQIA+ como protagonista de uma trama cinematográfica adorada por milhões de pessoas. Desta feita, ver um bigodudo bailando com seu microfone para lá e para cá deixa de ser uma aberração em um mundo conservador para ser algo corriqueiro e que faz parte do cotidiano, diverso e sem preconceitos.

* 

Não posso negar que ter ido ao cinema para assistir as vidas de Judy Garland e Freddie Mercury na telona me deu a oportunidade de saber um pouco mais sobre eles. Não apenas porque a arte desses dois artistas tão distintos sempre foi de enorme serventia para a humanidade, como também para entender que a vida dessas pessoas públicas (inventadas ou não) nos trazem duas lições básicas: a primeira delas é que por trás de todo glamour, pode haver um enorme sofrimento; a segunda e mais importante, os conflitos dos “mitos” do entretenimento podem ser parecidos com os meus, os seus e os nossos problemas.

31 de dezembro de 2020

TROVA # 157

 

O CANSAÇO DA ESPERANÇA

Como o ano de 2020 cansou com algumas de nossas esperanças?

 


Esperança cansa
Cansa de esperar
Já não tô podendo mais
Minha paciência é a razão
 

Minha fúria odiosa já tá na agulha
Minha fúria odiosa já tá na agulha
E um dia poderosa
Poderá dizer que acha tudo muito pouco
 

Fugir quando estiver desesperada, abandonada
E de repente voltar
Cansada esperada
Desapropriada
Fúria amansada descansa
 

E de repente, volta
Cansada esperada
Desapropriada
Fúria amansada descansa

(Karina Buhr, 2010)

 



Se você chegou até aqui, é porque sobreviveu junto comigo e junto de tantos outros que fizeram com que as coisas valessem a pena. Escrevo este texto faltando menos de 24 horas para o apagar das luzes do ano da (des)graça de 2020 na tentativa de encontrar uma lógica coerente ou um pouco de esperança para o próximo ciclo de 365 dias que está a caminho. A dificuldade é imensa, já que vivemos anos bastante difíceis: uma pandemia que ceifou a vida de quase 200 mil brasileiros e contaminou (oficialmente) mais de 7 milhões e meio de pessoas; uma crise política permanente aliada a retrocessos econômicos, minando quaisquer possibilidades de avanços sociais;  os órgãos de imprensa vivem sob ataque constante do Governo Federal enquanto milhões retornam ao mapa da fome.

Sempre haverá um ou outro que pode me acusar de pessimista, ou de ser movido apenas por uma “fúria odiosa”, algo totalmente compreensível em tempos de tamanha intolerância. Porém, aproveito para me defender citando uma frase famosa do escritor português José Saramago que se encaixa com perfeição no ano de 2020: “Não sou pessimista, o mundo é que é péssimo!”. Os três exemplos que citei já são suficientes para derrubar a esperança de qualquer um para dar voz ao cansaço.

Mas, apesar de estar exausto de “tanto horror e iniquidade”, como nos disse Chico Buarque, a empatia que ainda habita o meu ser ainda me faz ligar o noticiário para assistir os acontecimentos do Brasil e do mundo durante o período de festas. O resultado é ainda mais desastroso: vejo pessoas curtindo a vida lá fora como se não houvesse um vírus que já matou milhares de pessoas e que tem levado os sistemas de saúde ao colapso – festas clandestinas, reuniões familiares com dezenas de pessoas, hotéis funcionando quase normalmente, máscaras faciais colocadas no queixo ou em lugar nenhum, um desapreço total pelos médicos e cientistas, que nos advertiram dos riscos de contaminação. Para os poucos que ainda estão em confinamento, como eu, ver essa turba toda se divertindo pela TV e pelas redes sociais (ambientes tóxicos por natureza!) é uma ofensa, um desrespeito, um deboche explícito: com medo de me infectar, estou em casa há mais de 9 meses e posso contar nos dedos das mãos quantas vezes eu saí de casa para ir ao trabalho, ao supermercado, ao correio ou ate a farmácia.

 


Deixando as festividades um pouco de lado, vamos fazer um breve retrospecto de alguns fatos e acontecimentos que sacudiram o ano? Enumero alguns deles...

2020 foi mais um ano no qual o racismo mostrou novamente a sua face mais perversa ao Brasil e ao resto do mundo. Para ficarmos apenas em nosso território, aproveito para retomar dois dados alarmantes: Primeiro: MAIS DE 2.000 CRIANÇAS E ADOLESCENTES FORAM MORTOS POR POLICIAIS ENTRE 2017 E 2019; Segundo: ATÉ O INÍCIO DE DEZEMBRO DE 2020, 12 CRIANÇAS E ADOLESCENTES FORAM ASSASSINADOS PELA POLÍCIA APENAS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO! Com a pandemia e com a maior quantidade de pessoas em casa, tivemos de prestar mais atenção a casos hediondos de vidas ceifadas pela irresponsabilidade de quem deveria proteger a sociedade. Fato ainda mais estarrecedor: a maioria das vítimas era negra. Em um texto publicado na Folha de S. Paulo de 6 de dezembro de 2020, afirmou Thiago Amparo, advogado e professor de Direito Internacional: “Balas não são perdidas, porque sempre acham os mesmos corpos negros para os quais foram disparadas.”

Diante do massacre praticado contra negros e pobres, eu me pergunto que tipo de “Boas Festas” tiveram os familiares das primas Emilly e Rebeca, mortas por uma “bala perdida” na frente de casa? Que tipo de “Boas Festas” tiveram os familiares de João Pedro Pinto, de Leônidas Oliveira e de tantos outros mortos pela irresponsabilidade do Estado enquanto famílias brancas puderam comemorar o final de 2020 com toda a irresponsabilidade que eles julgavam ter direito?

Outra palavra que ouvimos aos montes durante o ano da (des)graça de 2020 foi feminicídio. Graças ao assassinato brutal da juíza Viviane Arronenzi pelo marido na Véspera de Natal, os noticiários aproveitaram a ocasião para noticiar outros casos cruéis de mulheres que tiveram suas vidas interrompidas por seus respectivos (ex-)maridos, namorados e companheiros. Com todo o respeito à memória e às filhas da Juíza Viviane, eu me pergunto: precisou que morresse uma mulher branca de forma perversa para que a opinião pública voltasse seu olhar para um problema que atinge mulheres negras aos montes?

 



Nesta época, na qual celebramos o nascimento de Jesus Cristo, deveríamos buscar a reflexão, o amor pelo próximo, a tal da empatia que muitos citam e raramente praticam. Em um texto escrito no Natal de 2014, Guilherme Boulos escreveu algo que ainda se encaixa no Brasil de hoje: “Jesus dedicou sua vida à igualdade, à justiça e à paz entre os povos. Se reaparecesse (...) no Brasil, ficaria espantado com o que dizem e fazem muitos dos cristãos. Seria achincalhado com palavras inomináveis nas seções de comentários da Internet. Seria chamado de bolivariano na Avenida Paulista. Certa comentarista de telejornal o mandaria levar para casa a mulher adúltera que ele salvou do apedrejamento. E alguém, de dentro de algum carro no Leblon, gritaria: ‘Vai pra Cuba, Jesus!’.” Cristãos da boca para fora existem aos montes, levar os ensinamentos bíblicos a sério é algo não permitido pela hipocrisia de cada um. É muito mais cômodo agir como Pôncio Pilatos e lavar as mãos diante da barbárie que se pratica diariamente.

Ficar em isolamento dentro de casa seria um exemplo de olhar para o seu semelhante para que ele não entrasse para as estatísticas que os veículos de imprensa noticiam às 8 da noite com o objetivo de nos informar quantos foram infectados e quantos morreram em 24 horas. Abdicar de festas em família com mais de 10 pessoas seria um ato de sensatez. Dizer não para o convite do amiguinho e ir para qualquer parte seria outro exemplo de sanidade mental. Defender a vacinação para todos os brasileiros o quanto antes enquanto outros países do mundo já estão se vacinando seria ter princípios éticos bem consolidados dentro de si. No entanto, como se diz por aí, miséria pouca é bobagem: bom senso não é algo que faz parte do repertório de todo mundo.

 


Confesso: minha esperança está bem cansada em relação ao que virá. Reitero: cansada, mas (ainda) não está morta! Por isso, procurei ouvir a voz visionária dos artistas para encontrar forças e seguir em frente diante das tragédias. Muitos me ofereceram o conforto por meio de sua arte e me ajudaram a pensar o contexto atual com mais tranquilidade. Por isso, lembro-me de Patti Smith, uma das pessoas que mais me inspiram nos dias de hoje, que estou bem próximo dos 40 anos de idade: “O povo tem o poder / de consertar o trabalho dos tolos”. As linhas que eu escrevo talvez não tragam o conserto para muita coisa, mas me auxiliam a renovar as esperanças para o futuro. Afinal, o que se cansa pode se renovar. Aquilo já morreu, morto está e vai ficar. Sigamos em frente, com ou sem o cansaço para combater a barbárie...



14 de dezembro de 2020

TROVA # 156

 MINHA AMADA CECILINHA

Uma crônica para homenagear a Santa Protetora dos Músicos

Foto: Nilton Serra


    Já advirto ao leitor destas mal traçadas linhas: esta crônica não é sobre Cecília Meirelles. Também não é sobre Cecilia Bartoli, a soprano italiana que encanta qualquer leigo em matéria de música clássica. Quem sabe até poderia ser sobre Cecília Meirelles, uma das maiores expressões brasileiras em matéria de poesia em Língua Portuguesa. Poderia ser sobre a canção “Cecília”, uma das canções mais belas (e desconhecidas) do repertório de Chico Buarque de Hollanda. Talvez esta homenagem seja sobre nossa afilhada, uma menininha de seis anos que tem uma personalidade tão marcante que renderia uma crônica bem legal. Todavia, nenhuma delas é a musa do texto de hoje.




         Para os que me conhecem bem, Cecilinha é Santa Cecília, não o famoso bairro que fica na região central de São Paulo e que é adorado por nove entre dez jovens descolados, mas a Santa mesmo. Nascida em Roma, Itália, por volta do ano 150 D.C., Santa Cecília era filha de uma família nobre. Cristã, decidiu fazer voto de castidade para vivenciar o amor divino típico dos mártires que se sacrificam pela fé. Em uma era na qual a fé em Cristo era sinônimo de perseguição, foi condenada à tortura. Seu martírio levou muito mais do que se esperava, pois a jovem manteve sua fé inabalável e enfrentou seu destino trágico. Condenada à morte por uma machada no pescoço, Cecília recebeu um golpe fatal, porém ainda chegou a sobreviver por mais três dias e chegou a conversar e dar conselhos para aqueles que vinham rezar por ela. Seu ofício final foi o de cantar até não ter mais forças e morrer como uma das principais mártires da Igreja Católica.


         Desde então, Santa Cecília se tornou conhecida não apenas como mártir, mas principalmente como a Santa Padroeira dos Músicos, cujo dia é comemorado no dia 22 de novembro. Apesar de não ser músico profissional e de não tocar nenhum instrumento musical (fiz aulas de canto por um ano), devo muito do que sou profissionalmente à música. Por outro lado, minha vida acadêmica e profissional está intimamente ligada a versos e sons: eu me tornei Professor de Inglês motivado pelo que ouvia no rádio e conduzi minha vida acadêmica pesquisando o que havia de melhor da música brasileira. No entanto, dois episódios ocorridos comigo no dia 22 de novembro fizeram com que eu concluísse de uma vez por todas de que havia uma luz a guiar o meu caminho de um lugar o qual eu jamais poderia enxergar.


         O primeiro deles aconteceu em 2010. Paul McCartney estava prestes a começar uma turnê brasileira depois de quase duas décadas sem tocar por estas bandas. Tentei comprar ingressos para o show de 21 de novembro, domingo, mas, como existem tantos Beatlemaníacos por aqui quanto membros de torcida organizada, as entradas se esgotaram antes de um mero estalar de dedos. Faltando poucos dias para a apresentação, Macca anunciou que faria um show extra na segunda-feira, 22 de novembro de 2010. Diante da oportunidade de ouro, convoquei uma amiga e partimos em retirada para o Estádio do Morumbi e conseguimos três ingressos de pista para o segundo show da turnê Up and Coming.

Foto: Nilton Serra


         Segundo o relato de alguns amigos que foram ao show de 21 de novembro, Paul fez um belíssimo show para um Morumbi lotado e ensolarado. Tudo indicava uma semana sem catástrofes climáticas. Porém, segunda-feira, essa eterna bagunceira dos ânimos e dos humores do ser humano, nos reservava surpresas eletrizantes: São Pedro, em um péssimo dia, se revoltou e enviou uma tempestade daquelas em cima da Cidade de São Paulo! Mas foi uma chuva daquelas de parar a cidade inteira. Saí mais cedo do trabalho e fui para o estádio com seis horas de antecedência com o coração na boca e preocupado com a possibilidade de não chegar no local da apresentação. 

Entre Fabíola Bueno e Nilton Serra, o autor da maioria das imagens que estão na postagem de hoje.

Era dia de Santa Cecília e, sem que eu me desse conta, o aguaceiro resolveu dar uma trégua no Morumbi minutos antes de Paul McCartney entrar no palco. Para compensar os ânimos, Macca abriu o show tocando “Magical Mystery Tour”, dos Beatles (canção que eu jamais imaginei ouvir ao vivo na vida), alegrando o público já nos primeiros segundos da segunda apresentação de sua turnê por São Paulo. Dez anos depois, ao me lembrar daquele dia, constatei que Cecilinha sempre protege os músicos e os amantes de versos e sons como este aqui que vos escreve.



O segundo episódio no qual Santa Cecília apareceu na minha vida se deu quatro anos do show de Paul McCartney. Estávamos na região de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, para o batizado de nossa primeira afilhada. Por questões profissionais, não tínhamos muita opção a não ser postergar a cerimônia para o feriadão da terceira semana de novembro de 2014, já que a distância entre a capital e Rio Preto é de mais de 400 km. Na manhã de sábado, 22 de novembro, descobrimos que estávamos no dia da padroeira dos músicos e que o nome da pimpolha que estava prestes a ser batizada era Maria Cecília. Por maior que fosse a coincidência, já era mais do que tempo de retribuir as graças alcançadas. Afinal, a vida não é feita de acasos e sempre precisamos retribuir o carinho que recebemos...

O primeiro altar de Cecilinha: o RÁDIO!

Alguns anos depois, ganhei uma imagem de Santa Cecília de aniversário de meus pais. Vivia uma fase feliz na minha vida, tinha acabado de me mudar para um apartamento novo e estava às voltas com móveis e eletrodomésticos novos. Não pensei duas vezes antes de escolher um altar, diria, “um tanto peculiar”, para a santinha: ela passou a ficar em cima do meu antigo rádio, abençoando meu lar ao lado de todos os músicos que desfilavam pelo aparelho de som. 


Porém, a vida gosta de armar algumas surpresas para a gente: Cecilinha ficou soberana de versos e sons em cima do meu antigo aparelho de som até o dia em que o rádio quebrou de vez. Enquanto me acostumava ao meu apartamento novo, segundo em menos de dois anos, e com a bagunça de uma mudança e da falta de espaço, mal sabia onde guardava vários dos meus pertences. Certo dia, em um surto de arrumação, quis colocar minha imagem de Santa Cecília em um local seguro, pois receberíamos visitas para um dia de domingo. Acreditem se quiser, mas toda criança que vem nos visitar fica encantada pelo meu escritório: não apenas por causa dos livros, mas por causa das miniaturas e trecos mil que coleciono e se acumulam no caos.

Por motivos de superproteção, guardei minha amada Cecilinha em um lugar secreto da estante. Lugar esse tão secreto, mas tão secreto que eu nem conseguia mais me lembrar. Eu andava tão estressado nos últimos três meses do ano de 2019 que eu mal imaginava para onde minha imagem de Santa Cecília poderia ter ido. Fiquei triste, frustrado, arrasado e cheguei a procurar outras imagens da santinha para substituir a que meus pais me deram de presente. Nenhuma delas à altura da beleza da original, diga-se de passagem.

Minha Cecilinha ficou brincando de pique-esconde, fazendo a Lindoneia desaparecida por quase três meses comigo. Seu “sumiço” chegou a virar piada aqui em casa, com direito a algumas especulações acerca de seu paradeiro: 1) Cecilinha tinha sido levada por acidente, possibilidade que eu prontamente descartei; 2) Tinha guardado a Cecilinha por acidente nas milhares de caixas que ainda sobraram da mudança; 3) Cecilinha se revoltou porque não havia mais rádio em casa, se revoltou com a minha bagunça e simplesmente teria ido embora em sinal de protesto! Hipóteses completamente descartadas no início de janeiro de 2020, quando ela foi encontrada em uma das prateleiras dos meus livros de música. Ela surgiu reluzente e levemente empoeirada, mas pronta para assumir seu posto definitivo: o novo aparelho de som (bem melhor do que o anterior!) que compramos para a nova casa...

A lição que eu tirei depois das “férias” da minha amada Cecilinha foi bem clara: sempre deixe ela próxima do rádio, para que ela esteja sempre a postos para proteger não apenas os músicos, como todos os artistas e os amigos da arte que são de boa índole e bom coração. Além disso, eu sempre posso recorrer a ela no momento em que eu necessitar de cuidados mais específicos ou apenas quando estiver com vontade de conversar com ela. Se ela iluminou o meu caminho mais de uma vez, não custa deixar ela bem perto do canto mais atraente da casa: aquele que sempre tem uma boa música para a gente ouvir.


         O bom de revirar as caixas que ainda sobraram da mudança foi poder achar uma imagem de São Francisco de Assis, vulgo Chiquinho, o outro santinho daqui de casa. Cecilinha ganhou um parceiro e tanto nas preces e nas conversas íntimas que temos com eles. Eis uma dupla e tanto: enquanto uma protege os músicos, o outro é o protetor dos animais e da ecologia: eis uma parceria de muito sucesso...



9 de dezembro de 2020

TROVA # 155

ME & MR. LENNON

Algumas memórias pessoais regadas ao legado de John Lennon

Strawberry Fields (2012) - Foto: Nilton Serra

 

People say I'm lazy

Dreaming my life away

Well they give me all kinds of advice

Designed to enlighten me

When I tell them that I'm doing fine watching shadows on the wall

‘Don't you miss the big time boy, you're no longer on the ball?’

(John Lennon, 1980)

 

 

         Quando John Lennon foi alvejado pela arma de fogo de um facínora em frente ao Dakota Building, no coração de Nova York, eu ainda não tinha nascido. Lennon foi morto na noite de 8 de dezembro de 1980. Eu nasci em 23 de janeiro de 1981 e “(Just Like) Starting Over” estava em primeiro lugar nas paradas de sucesso das rádios no mundo inteiro. Por culpa de uma margem de erro infeliz, não pude ter a honra de habitar o mesmo universo de um dos artistas mais importantes de todos os tempos. Eis mais um item a ser incluído no ranking das minhas invejas musicais...




         Dentre os Beatles, John Lennon foi o primeiro que atravessou minha vida. Eu tinha de 12 para 13 anos quando uma de minhas tias-avós nos emprestou um LP que continha os maiores sucessos dos Fab Four e outro que era a coletânea Shaved Fish (1975), que continham as gravações mais importantes dos primeiros 6 anos de carreira solo de John. Em poucos dias, canções como “Instant Karma”, “#9 Dream”, “Whatever Gets You Thru the Night”, “Mind Games”, “Give Peace a Chance” e a incansável “Imagine” passaram a fazer parte do que eu mais ouvi em quase 4 décadas de vida. Isso porque eu não mencionei “Merry Xmas (War is Over)”, composta por Lennon e Yoko Ono (sua eterna companheira na vida e na arte), uma das canções natalinas mais tocantes de todos os tempos – sim, eu ouço essa canção todo final de ano no modo repeat com a eterna vontade de renovação das esperanças para o ano seguinte. Um dia ainda há de dar certo...






Na mesma época, dezembro de 1993, consegui ouvir Double Fantasy (1980), último disco que Lennon lançou em vida e com aquela capa deslumbrante mostrando John e Yoko na capa, apaixonados e felizes. Esse LP que apareceu lá em casa, emprestado por não sei quem, também fez de mim um fã do eterno Beatle . A aparição desse disco na mesma época que minha tia emprestou os outros vinis são exemplos de situações que somente o destino consegue oferecer uma explicação. Para minha alegria, ele ficou lá em casa por um bom tempo, período suficiente para que eu decorasse os versos de canções como “Woman”, que eu sei de cor até hoje.



         Para mim, todo mês de dezembro está associado à figura de John Lennon. Não somente por causa dos Beatles, ou de Shaved Fish ou Double Fantasy ou por causa das lembranças de seu destino insólito que as reportagens especiais resgatam todo final de ano. Nessa época do ano, prefiro deixar de lado o tradicional catálogo de canções natalinas para ouvir os clássicos que John deixou para nós e sair cantando “So this is Christmas / and what have you done? / Another year over/ And a new one just begun...” por aí sem pudor nenhum.

       Outros episódios marcantes da minha vida adulta estão intimamente atrelados ao legado de John Lennon. O primeiro deles foi no final de 2005 quando eu precisei apresentar um seminário em meu último curso na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde fazia meu Mestrado em Letras. Um dos capítulos mais interessantes de Paixões – amores e desamores que mudaram a História, da jornalista e escritora espanhola Rosa Montero, era justamente sobre o relacionamento de John e Yoko, marcado por turbulências de todo o tipo – drogas, ciúmes, choques de ego, traições, idas e vindas e coube a mim a tarefa de fazer a apresentação daquele livro. A coincidência absurda foi justamente que a minha participação no seminário ocorreu no dia 8 de dezembro de 2005, data que marcava o 25.º aniversário de John Lennon: lá estava eu a falar sobre um dos meus artistas preferidos no meio acadêmico. Foi uma conjunção de astros bem interessante e que rendeu conversas bem bacanas sobre o livro de Rosa e o legado de Lennon.

Outro momento marcante na minha vida também foi regado à música de John. Quando me mudei do Rio para São Paulo em março de 2006, precisei me adaptar rapidamente a uma nova cidade, com uma nova rotina e um emprego difícil. A trilha sonora daqueles dias desafiadores era o álbum Imagine (1971), um dos maiores sucessos comerciais de toda a carreira de Lennon, que eu tinha em MP3. Faixas como “It’s So Hard”, “Gimme Some Truth” e “How?” ajudaram a alegrar meus dias de cão, nos quais eu mal tinha dinheiro para pegar o ônibus.




Em 2012, já vivendo uma fase financeira bem melhor, aproveitei um feriado prolongado em meados de novembro para visitar Nova York, uma das cidades mais incríveis do planeta. Não é preciso ser um conhecedor profundo da vida e obra de John Lennon para saber que a sua imagem pós-Beatles se confundia com a Big Apple, lugar que ele escolheu como lar durante os seus últimos anos de vida. Assim que pisei em terras norte-americanas, fiz questão de passear pelo Central Park, onde John e Yoko caminhavam com bastante frequência, no meu primeiro dia nos EUA. Logo depois, aproveitei para fazer uma parada na frente do Dakota e tirar algumas fotos no Strawberry Fields, memorial em homenagem a John, não muito distante de lá. Quem diria que aquele menino de 12 para 13 anos que descobriu a música de John Lennon graças a três LPs emprestados chegaria tão perto de lugares por onde passou um dos maiores ídolos da história da música?


Dakota Building (2012) - Foto: Nilton Serra

O ano de 2020 traz uma marca melancólica para os admiradores de John Lennon: se estivesse vivo, o ex-Beatle teria completado 80 anos de idade no dia 9 de outubro. E o dia 8 de dezembro marca o 40.º aniversário da noite em que começamos a chorar e a amargar sua partida precoce. Antes de morrer, Lennon vivia uma nova fase a todo vapor: retornava à carreira artística depois de 5 anos longe dos holofotes, estava feliz com o álbum que acabara de lançar em parceria com Yoko Ono e planejava uma turnê mundial.

Graças aos esforços de Yoko e de Sean Lennon (filho do casal), o legado do ex-Beatle se mantém vivo nas memórias e nos corações de muitos fãs ao redor do mundo inteiro. E eu me incluo orgulhosamente entre esses admiradores... Como ele cantou muito bem: “And we all shine on / Like the moon and the stars and the sun”. Que possamos viver cantando e brilhando como a lua, as estrelas e o sol. Sem medo de sermos julgados e sem medo de sermos felizes...      


    

 

22 de novembro de 2020

TROVA # 154

O DIA DA INFÂMIA

Como comemorar o Dia da Consciência Negra depois de vermos mais um corpo negro sendo abatido por brancos em rede nacional?

 



Lord have mercy on this land of mine

We all gonna get it in due time

'Cause I don't belong here

I don't belong there

I've even stopped believing in prayer

(Nina Simone, 1964) 

 


            O ano de 2020 estava bem propício para o Dia da Consciência Negra no Brasil: depois de mais de cinco décadas, os Estados Unidos foram varridos por uma convulsão político-social por causa do assassinato brutal de George Floyd. Os norte-americanos (e o resto do mundo) ficaram perplexos e revoltados ao ver um homem negro sendo assassinado por asfixia por policiais brancos em rede mundial. Cansados da perpetuação de tantos corpos afro-americanos dizimados por aqueles que possuem o privilégio de cor em uma sociedade racista, os movimentos negros, aliados aos progressistas, foram às ruas de várias cidades norte-americanas clamando por justiça.

            A conta para tanto descaso foi cobrada com juros altíssimos: custou a reeleição de Donald Trump. O magnata, sempre acostumado a vencer seus oponentes usando métodos nada ortodoxos, amargou uma derrota fragorosa nas urnas para o democrata Joe Biden, que não só se aliou ao movimento #BlackLivesMatter, como escolheu uma mulher negra e filha de imigrantes – Kamala Harris – para ser sua vice-presidente. O Brasil assistiu com atenção aos resultados do pleito eleitoral norte-americano: para os progressistas, a derrota de Trump significaria o início do fim do surto extremista que invadiu a política nacional; para os bolsonaristas, significaria não apenas o desespero, como a elaboração de uma estratégia narrativa para justificar uma provável derrota de seu “mito” nas urnas em 2022.

            Feito este breve retrospecto, retornemos à nossa infame realidade: somos um país composto por 54% de negros. Somos um país que não oferece igualdade salarial para brancos e negros. Somos um país que possuem poucos negros nas Câmaras de Vereadores, nas Assembleias Legislativas e no Parlamento. No entanto, apesar da quantidade expressiva de ataques do atual Governo Federal às conquistas da comunidade afrodescendente brasileira e apesar de tantos negros assassinados no país por violência policial (para não citar outros casos), estávamos prontos para passar o dia 20 de novembro de 2020 refletindo a respeito da importância dos negros para o Brasil. Porém, tudo mudou quando recebemos uma notícia na madrugada do Dia da Consciência Negra – João Alberto Silveira Freitas, um homem negro, foi brutalmente espancado até a morte em um supermercado da rede Carrefour por dois seguranças brancos na cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

      Em poucos minutos, o 20 de novembro de 2020 deixou de ser o Dia da Consciência Negra, com reflexões edificantes sobre igualdade racial, colorismo ou os desmandos da branquitude. A data se converteu no Dia da Infâmia: os noticiários pipocando análises relevantes, alguns preconceitos gritantes, causando o horror de viver em um país profundamente racista e desigual. A crônica que eu estava me prometendo para o dia 22 de novembro, dia de Santa Cecília (Padroeira dos Músicos), minha Santinha de devoção, vai ter que esperar. Cecilinha sabe que a angústia precisava ser expiada por meio das teclas do computador e ela vai me entender por isso...



A morte brutal de João Beto, como muitos o chamavam, em pleno Dia da Consciência Negra, serviu não apenas para reacender a revolta de muitos que se sentem injustiçados, como também reabriu a ferida causada pela perda de tantos outros que morreram em vão por conta da irresponsabilidade de homens brancos.

Os que não se esquecem da barbárie diária que mata um negro a cada 23 minutos no Brasil vão se lembrar de Ágatha Félix, menina de oito anos, morta em 20/09/2019 por uma bala disparada da arma de um Policial Militar;


Ou vão relembrar de Miguel Otávio, de 5 anos, morto em 02/06/2020, ao cair de um prédio em Recife (PE) por culpa da negligência da patroa branca de sua mãe, que se recusou a cuidar do menino enquanto a empregada saía para passear com o pet da família;


 

Ou não vão se esquecer de João Pedro, baleado em uma ação policial no dia 18/05/2020 em São Gonçalo (RJ), região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro;




Ou podem mencionar o caso brutal do homicídio do músico Evaldo Rosa, cujo carro foi alvejado por 80 tiros disparados em uma desastrosa operação do Exército Brasileiro em 08/04/2019;





Ou até se relembrar do caso hediondo de Cláudia Silva Ferreira, vítima de uma operação militar da PM do Rio de Janeiro – a moça, além de baleada, foi arrastada por uma viatura policial pelas ruas do subúrbio carioca até a morte.



Os casos, infelizmente, são vários. A incompetência do Estado é a mesma. As autoridades mais importantes do Brasil de 2020 (no caso o Presidente e o Vice-Presidente da República) negam a existência do racismo e minimizam a dor de muitos que já perderam seus entes queridos por conta de um racismo estrutural que sempre corroeu a credibilidade das instituições. Como comemorar o Dia da Consciência Negra depois de vermos mais um corpo negro sendo abatido por brancos em rede nacional? Como comemorar o Dia da Consciência Negra, feriado que deveria ser nacional, mas é sempre refutado por achar que deveríamos ter o “dia da consciência humana”?




A resposta do movimento negro diante do assassinato brutal de João Alberto foi instantânea: manifestações públicas se seguiram de protestos e quebradeiras de supermercados Carrefour, cuja rede é reincidente em casos de racismo – dentre os casos mais recentes, há o de uma funcionária demitida por denunciar um caso de injúria racial. Automaticamente, a mídia brasileira (majoritariamente branca) se apressou em classificar os manifestantes que participaram dos protestos contra o racismo como “vândalos” e “arruaceiros”, uma ironia infeliz, pois os mesmos setores da imprensa brasileira viam os manifestos norte-americanos que varreram as ruas dos EUA como “legítimos”. Eis mais um sinal do quanto que o Brasil precisa de muitos momentos de reflexão como o “Dia da Consciência Negra” para desconstruirmos uma série de estereótipos.





Apesar dos retrocessos, a Avenida Paulista amanheceu com a inscrição “# VIDAS PRETAS IMPORTAM” no trecho que cobre o MASP sentido Consolação. Não é necessariamente uma revolução, mas já é o início de um movimento bastante objetivo: não aceitaremos mais injustiças contra corpos negros em silêncio! A reles crônica que você lê aqui hoje é mais um manifesto contra as injustiças raciais que são recorrentes no cotidiano brasileiro. E tenta ser uma breve homenagem a Zumbi, a João Alberto, Miguel, João Pedro, Evaldo, Ágatha, Cláudia e tantos outros cujos nomes não podemos esquecer jamais!

 

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·        https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36461295

·        https://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2020/11/no-brasil-nao-existe-racismo-fala-de-mourao-e-a-mais-racista-das-frases.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

·        https://www.conjur.com.br/2020-nov-20/carrefour-historico-agressoes-casos-injuria-racial