8 de novembro de 2015

TROVA # 57

ENTRE LUZES & SOMBRAS
Uma carta-crônica de amor para 
os 72 anos de Joni Mitchell


“Every picture has its shadows
And it has some source of light
Blindness blindness and sight
The perils of benefactors
The blessings of parasites
Blindness blindness and sight
Threatened by all things
Devil of cruelty
Drawn to all things
Devil of delight
Mythical devil of the ever-present laws
Governing blindness blindness and sight

Suntans in reservation dining rooms
Pale miners in their lantern rays
Night night and day
Hostage smile on presidents
Freedom scribbled in the subway
It's like night night and day
Threatened by all things
God of cruelty
Drawn to all things
God of delight
Mythical god of the everlasting laws
Governing day day and night

Critics of all expression
Judges in black and white
Saying it's wrong saying it's right
Compelled by prescribed standards
Or some ideals we fight
For wrong wrong and right
Threatened by all things
Man of cruelty-mark of Cain
Drawn to all things
Man of delight-born again born again
Man of the laws the ever-broken laws
Governing wrong wrong and right
Governing wrong wrong and right
Wrong and right”


(Joni Mitchell - "Shadows and Light" - canção que encerra seu álbum de 1975, The Hissing of Summer Lawns, e dá nome ao seu segundo álbum ao vivo, de 1980.)

Dear Joni,

Mais um 7 de novembro chegou para ti e eu não consegui te escrever com a antecedência que eu gostaria. Tal qual o poema escrito por um poeta brasileiro a Mário Andrade há exatos 70 anos atrás, queria te escrever uma crônica tão bela e digna de suspiros, que te deixaria tão estupefata quanto eu fico ao ouvir a sua música. Porém, há dois problemas bem sérios aí: 1) crônica não deve ser um gênero literário tão benquisto aí pelos lados do hemisfério norte, ainda mais em Português; 2) quisera eu escrever tão bem assim como o Carlos Drummond de Andrade.


2015 tem sido um ano bem difícil para ti e para os que amam o legado de Joni Mitchell. Estávamos felizes em te ver dando entrevistas aqui e ali falando sobre sua música, fazendo fotos históricas para a coleção de Yves Saint-Laurent, quando chegou a notícia de que você fora hospitalizada e estaria inconsciente. Tempos depois, soubemos que se tratava de um aneurisma e de que era bem grave. Passado o susto, fostes reconduzida à merecida paz de seu lar driblando toda a imprensa e os paparazzi, enquanto os fãs rezavam por sua rápida e plena recuperação. Aparentemente tem dado certo: as poucas notícias que surgem por aqui, ali e acolá apontam que a batalha pela vida está longe de acabar.


Como você desceu aos infernos devido a uma traição de seu cérebro privilegiado, My Beloved Joni, esta carta-crônica de amor também precisava ser feita "da impureza do minuto" não para celebrar o seu legado diante de seu corpo sem vida, mas diante de seus olhos ainda abertos (mesmo que eles não consigam ler em Português), para que você não se esqueça do quanto que a sua música é significativa para muitos de nós que ainda acreditamos em opções inteligentes de "entretenimento musical", digamos assim... Dentre os poucos e fiéis leitores que temos por aqui, talvez tenhamos ameaças de benfeitores ou bênçãos de parasitas (tal qual você mesma nos diz desde 1975), ou simplesmente nada disso, sempre haverá um ou outro que acha a sua arte tão intrigante e significativa quanto eu. E é isso o que importa.


Uma das tarefas mais desafiadoras e caras que eu já tive enquanto colecionador de discos e amante de música foi conseguir reunir sua discografia de estúdio completa. Primeiro porque aqui no Brasil, qualidade em termos musicais é algo que está bem restrito. Segundo porque CDs importados são caríssimos! O último item que faltava para completar minha coleção era o relativamente obscuro The Hissing of Summer Lawns, achado depois de muitíssimo custo. Minhas cópias de Hejira, Shadows and Light, Ladies of the Canyon e Miles of Aisles vieram de países diferentes e percorreram milhares e milhares de milhas nas minhas malas para estarem aqui comigo. Guardo minhas edições de Both Sides, Now! e Travelogue com o carinho típico que decicamos às joias preciosas não só por terem sido um absurdo de caro, mas pelo fato de que são alguns dos produtos (leia-se: resultado final, não no sentido da mercadoria!) mais belos que já tive em mãos... A justificativa para isso? Amor pela sua música!


Temos feito alguns esforços para divulgar sua obra para além de Blue, álbum que muitos consideram como a sua obra-prima. Já escrevi dois textos sobre seus discos em colaboração especial para o Pequenos Clássicos Perdidos, o que me deu uma enorme satisfação. Primeiro, porque a gente pode escrever sobre o que mais gostamos; segundo, porque podemos abordar discos mais obscuros e sem o menor tipo de restrição, pois o editor do Blog é, além do cara mais legal e antenado do planeta, uma pessoa democrática e aberta para todas as tendências da boa música; terceiro motivo: através das pesquisas para cada disco que escrevemos, descobrimos um pouco da inquietude de uma das artistas mais provocantes do século XX.


Que em meio a esta infinidade de sombras, Joni, você tenha encontrado a luz e a paz necessária para aproveitar o sossego de sua aposentadoria dos discos e dos palcos. Meu único lamento é de não ter nascido uns trinta anos antes para poder ter ido a um show seu. Como eu nasci em 1981, peguei o bonde bem adiantado. Aproveitei a chance e mandei importar o DVD do Shadows and Light diretamente dos States para o Brasil para poder te ver no auge da forma, da beleza e da criatividade. Deu um trabalhão para poder assistir o vídeo do show, mas consegui depois de muita insistência... A foto não é das melhores, mas foi tirada com carinho!


E que você possa ter, My Dearest Joni Mitchell, razões para cantar e (quem sabe?) compor. O mundo sente falta de mulheres sensíveis, sofisticadas e inteligentes como você.

Um beijo do seu fã brasileiro
Vinil

Leia os textos escritos para o Blog Pequenos Clássicos Perdidos:

Court & Spark (1974) – 



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