30 de dezembro de 2016

TROVA # 105

PIMENTINHA CINEMATOGRÁFICA
(algumas palavras sobre o filme Elis, de Hugo Prata)



Quando pensam que eu estou verde, eu já estou madura. Sou a Elis Regina Carvalho Costa que poucos vão morrer conhecendo.
(Elis Regina)

Nunca tive a menor dúvida de que os 36 anos e 10 meses de vida de Elis Regina renderiam um belo filme. Li quase todas as biografias de Elis com a mesma avidez e curiosidade de um romance de Aluísio Azevedo ou uma crônica de Nelson Rodrigues e sempre imaginei que a Pimentinha um dia iria chegar às telas de cinema. Em primeiro lugar, porque poucas tramas de Hollywood conseguiriam pensar em uma história que aliasse anonimato, luta, fama, amor, ódio, glória, tragédia e música com tamanha perfeição. Em segundo lugar, porque a saga de Elis se confunde com uma era fabulosa da música popular brasileira.
Quando soube que o diretor Hugo Prata, notável por dirigir videoclipes de sucesso, estava levando a história de Elis Regina para os cinemas, não escondi a excitação. Por outro lado, vi com desconfiança de que o projeto tinha sido mais uma realização da Globo Filmes. Quando soube que a Andréia Horta tinha recebido o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Gramado, fiquei mais animado a ver o filme logo na estreia.


Não consegui ver Elis logo quando chegou aos cinemas por motivos de força maior. Como as redes sociais são um termômetro fiel da qualidade dos filmes através impressão das pessoas, vi que o meu pé atrás com o filme fazia sentido. Vários elogios à atriz, poucos elogios à película. Alguns gostaram, poucos odiaram, muitos revelaram indiferença. Precisava ver o filme não apenas pelo meu amor e admiração pela a mulher e artista Elis Regina, como também precisava dar meu parecer sobre o assunto.
 Depois de convencer um grupo de amigos a irem ao cinema comigo, conseguimos comprar os ingressos e seguir rumo a uma sala do Espaço Itaú. Ao assistir a sequência de abertura de Elis – a Pimentinha cantando a para lá de óbvia “Como Nossos Pais” (Belchior) – já tinha visto que meus amigos teriam muito mais a maldizer do que falar bem do filme. Hugo Prata foi extremamente competente ao dirigir um extenso videoclipe de cerca de 1h30 contando alguns episódios da vida de Elis Regina, com direito a reconstituições de entrevistas e de números importantes da carreira da Pimentinha e... só! O roteiro assinado por Prata, Luiz Bolognesi e Vera Egito é de uma superficialidade absurda ao encurtar e condensar passagens importantes e ignorar personagens fundamentais da vida e obra de Elis.


Antes que possíveis detratores meus e defensores da película preparem suas pedras, dou alguns nomes que sequer constaram na chamada: D. Ercy (Mãe de Elis), Rogério Costa (Irmão de Elis), Ângela Maria, Edu Lobo, Maysa, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Antônio Carlos Jobim, Wilson Simonal, Ivan Lins, Fernando Faro, Chico Buarque, João Bosco, Renato Teixeira, Rita Lee, Clara Nunes, Gal Costa, Guilherme Arantes, Samuel MacDowell (que aparece apenas como advogado, não como namorado de Elis) e tantos outros... E vários outros que não foram sequer mencionados por falta de espaço.  


O problema de Elis ronda em torno do velho clichê de qualquer filme produzido pela Globo Filmes: é uma obra feita simplesmente para agradar o público. Apesar do roteiro ser baseado na biografia Elis Regina - Nada Será Como Antes, do jornalista Júlio Maria, uma fonte de informação bastante confiável sobre a artista, ele não consegue nos oferecer contar uma história fiel e completa de quem a Pimentinha realmente foi. Grandes histórias como a de Elis Regina não devem ser contadas em apenas uma hora e meia para poderem ser exibidas entre o intervalo do Vídeo Show e a Malhação. Elas merecem ser contadas no horário nobre para que todo mundo saiba do peso e da importância da personagem principal para as nossas artes.
Apesar das críticas, a escolha da jovem e bela Andréia Horta para viver o papel de Elis Regina foi extremamente acertada. Andréia não se limitou a simplesmente imitar a artista - ela conseguiu a proeza de viver Elis a partir de suas características mais importantes: a intensidade e o carisma. Viver a Pimentinha com medo de quaisquer espécies de medos e riscos foi um ato de coragem de uma atriz bastante corajosa, sem se preocupar com as reações dos amantes da lendária cantora. Não queria estar na situação de Andréia durante a realização da película, pois imagino a dificuldade e a(s) cobrança(s) diante do fato de viver um mito no cinema, por isso ela merece toda a minha admiração por ter feito um trabalho irretocável.


Se eu um dia encontrasse Andréia Horta, faria questão de elogiá-la pelo belíssimo trabalho, gostaria de perguntar como foi gravar algumas das cenas externas no Beco das Garrafas, local onde Elis surgiu de vez para o estrelato no Rio de Janeiro, e o que ela sentia na hora de gravar cada número musical, etc. Por outro lado, não deixaria de lhe dizer que ambas (Andréia e Elis) mereceriam um filme melhor – ou de umas três horas de duração ou um belo documentário – para que a devida justiça em relação à Pimentinha fosse, enfim, feita.

Andréia Horta em uma cena gravada no lendário Beco dos Garrafas, onde Elis Regina fez história


Por ora, deixemos que as novas gerações que se interessem em ver alguns flashes da vida de Elis Regina no cinema façam de Elis a porta de entrada para o universo musical brilhante de uma das artistas mais sensacionais dos últimos tempos. Que os mais jovens possam se encantar pela Pimentinha da mesma maneira que eu o fiz aos 11 anos quando ouvi “Águas de Março” pela primeira vez...


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