DIAS
DE FOLIA
Av. Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro |
“Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.
Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!”
(Chico Buarque de Hollanda)
Este é meu trigésimo sétimo Carnaval. Não me lembro de todos, e ainda tenho a memória de alguns inesquecíveis. Já me rendi aos encantos da folia, porém hoje em dia aproveito os dias de festejos não apenas para descansar um pouco da loucura recém-iniciada do ano letivo, como também para ler um pouco, acompanhar os festejos pela TV, ver alguns desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e até tento sair em um ou outro bloco carnavalesco, para não dizer que determinadas emoções eu vivi.
Acadêmicos do Baixo Augusta na Rua da Consolação, com a Pça Roosevelt à esquerda |
No passado, eu adorava desfrutar dos
prazeres da carne durante os dias em que o Rei Momo governava as cidades e nos
garantia quatro dias de folia, irreverência e batucada. Porém, os 30 foram
chegando, me mudei para São Paulo (que só foi resgatar os carnavais de
antigamente de alguns anos para cá) e o meu coração passou a pertencer a
alguém. Além disso, minha resistência para aglomerações foi diminuindo e a
minha paciência para programas coletivos ficou bem limitada. Folia imperdível é
a que fica entre o sofá, a cama e o sol da piscina com algumas saídas com hora
marcada para voltar.
As multidões na folia do Rio de Janeiro |
Além do empurra-empurra e do pessoal
que bebe demais e resolve satisfazer suas vontades fisiológicas no meio da rua
(não existe coisa mais desagradável do que cheiro de urina), o calor do verão
me deixa profundamente angustiado. Outro motivo que me mantém em casa é a
violência que não dá trégua durante o Carnaval: tenho pavor de assaltos e as
cenas de criminalidade na TV me deixaram ainda mais sem vontade de sair às
ruas. Não há irreverência ou marchinha de carnavalesca que resista à falta de
policiamento nas ruas das grandes cidades brasileiras. Por outro lado, a
vontade de protestar contra os governantes e as injustiças e me divertir
cantando e espantando os males diários ainda me dá vontade de sair de casa e
ainda acreditar que posso me sentir melhor...
A lendária Banda de Ipanema |
Diante de uma série de retrocessos e de
direitos que os brasileiros têm perdido nos últimos dois anos, o Carnaval se
tornou em um verdadeiro palco de protesto e resistência do povão e dos
defensores da diversidade contra uma elite que sempre teve amor pelo luxo e
horror a pobre. Enquanto os detentores de um bom capital conseguem investir em
fantasias de alas de escolas de samba, carnavalescos elaboram protestos
inteligentes contra o autoritarismo e a boçalidade que têm dado o tom de tempos
mais recentes. O que seríamos de nós sem a genialidade de Joãosinho Trinta? E como
seria a nossa irreverência se não existissem as marchinhas carnavalescas com
suas letras irreverentes de duplo sentido?
A alegoria de Joãosinho Trinta proibida de desfilar graças à Igreja Católica |
Por outro
lado, é importante deixarmos claro uma questão fundamental: o Carnaval é a
celebração da diversidade. Por isso, é um momento para que todos possam se
expressar da maneira que achar melhor: os foliões podem ir para a rua, os roqueiros
podem curtir seu som preferido nas alturas, os nerds podem ficar em casa em maratonas intensas de Netflix, os mais religiosos podem
praticar a sua fé em retiros espirituais orando por suas almas e antissociais
como eu podem ficar entre a rua e o conforto sagrado do lar. Se a
individualidade de cada um fosse respeitada, a liberdade não seria uma constante
apenas durante quatro dias de fevereiro ou março.
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