MESTRE
PAULINHO
(DUAS OU TRÊS COISINHAS SOBRE PAULINHO DA VIOLA)
“Meu bem, perdoa
Perdoa meu coração pecador
Você sabe que jamais eu viverei
Sem o seu amor”
(Paulinho da Viola, 1976)
Aproveitei
a época do Carnaval e resolvi continuar ouvindo uma de minhas maiores
inspirações musicais, Paulinho da Viola. Um dos maiores estandartes musicais da
Portela, Paulinho é autor de letras inesquecíveis e de melodias belíssimas que
resultam em sambas inesquecíveis e possui mais de cinquenta anos de
indefectível carreira musical.
Paulo
César Baptista de Faria pertence a uma família de enorme tradição no samba:
filho do violonista César Faria, integrante do lendário grupo de choro Época de
Ouro, Paulinho cresceu ouvindo mestres como Pixinguinha e Jacob do Bandolim
tocando na sala de sua casa. Apesar do pai ter lhe dado seu primeiro violão, Sr.
César não queria que o filho se tornasse músico. No entanto, o jovem Paulinho
começou a se interessar por carnaval e organizou um bloco carnavalesco na zona
norte do Rio de Janeiro.
Aos
19 anos, o jovem Paulo César era um contador e estudava economia. Foi nesta
época que ele teve contato direto com Hermínio Bello de Carvalho, que lhe aconselhou
a carreira de músico. Ao ouvir pela primeira vez as gravações de Cartola, Elton
Medeiros, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Carlos Cachaça e outros, o samba lhe
fisgou em cheio. Começou a compor sambas em parceria com Hermínio e deu início
a uma brilhante trajetória musical.
Meu
primeiro contato com Paulinho da Viola se deu graças ao meu avô, Sr. Adhemar,
que tinha comprado um dos álbuns mais importantes da obra do mestre, Bebadosamba
(1996). Logo depois, o videoclipe de “Ame” era transmitido volta e meia pela
MTV Brasil. Por fim, meu pai comprou uma coletânea de mestre portelense e aquele
rio de versos e trovas nunca mais saiu dos meus ouvidos.
Minhas
memórias com a obra musical de Paulinho da Viola sempre passam pela afetividade
e com memórias de pura nostalgia: lembro, por exemplo, que meu avô não gostou
muito de Bebadosamba porque achou o disco lento
demais – hoje, ao ouvir este álbum, tenho o direito de discordar de meu avô e
acho um dos trabalhos de samba mais belos que jamais se produziu nos últimos tempos.
Lembro de um aniversário meu em que cantei “Foi um rio que passou em minha vida”
no meio de uma roda de samba inesquecível. É graças a Mestre Paulinho e à Clara
Nunes que desenvolvi meu amor e minha admiração pela Portela, apesar de ter ido
pouquíssimas vezes a Madureira em mais de 37 anos de existência.
No
entanto, nem todas as minhas lembranças com o filho do Sr. César são
agradáveis. Não por uma questão de desgraça, mas por uma questão de um tédio
mortal. Em abril de 2011, conseguimos ingressos para assistir a um show de
Paulinho da Viola no SESC Pompeia. Não podia me conter de excitação em poder
cantar clássicos como “Argumento”, “Timoneiro”, “Perdoa”, “Na Casa do Vavá” e
tantos outros. Quando o show começou, Paulinho comunicou ao público que aquela
apresentação seria única e somente de lados B de sua obra. Logo de cara, a
decepção tomou conta daquelas cadeiras do SESC. Depois, tentei aceitar o
argumento do artista, mesmo sentindo a falta de sons familiares de cavacos, de
pandeiros e tamborins acompanhados de versos que eu pudesse cantar junto. Todavia,
quem era eu para alterar a ordem dos sambas de uma lenda de nossa música?
Saí
daquele show depois de ter dormido em alguns trechos, triste por não poder
cantar várias daquelas canções que eu tanto esperava ouvir. Fiquei de mal com
Paulinho da Viola por um tempo, mas retomei a ouvi-lo com a mesma devoção. Afinal,
não poderia ter um coração leviano e ignorar um dos maiores artistas do
planeta. Mas, infelizmente, aquela má impressão permaneceu guardada lá no fundo
das gavetas da memória.
Ainda
tenho a esperança de que vou fazer as pazes em definitivo com Paulinho da Viola
e ir em um de seus shows e poder cantar a fina flor de seu cancioneiro sem
jogar um sorriso de ironia sequer. Afinal, a poesia de Paulinho jamais sumirá
pela poeira das ruas...
Marisa Monte e Paulinho da Viola |
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário!