9 de fevereiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 19

THE ROLLING STONES – STICKY FINGERS (1971)


A virada da década de 1960 para a de 1970 não trouxe boas vibrações para os Rolling Stones: a morte de Brian Jones, a participação da banda no famigerado festival de Altamont que resultou na morte trágica de um fã do grupo, as disputas financeiras com o ex-empresário Allen Klein que se transformavam em batalhas judiciais intensas e o fim do contrato com a gravadora Decca chegava ao fim de forma amarga e turbulenta. Até o final de 1969, a banda não possuía controle pleno sobre o seu trabalho e vivia com as finanças no vermelho. Keith Richards poderia, enfim, viver a plenitude de seu amor pela explosiva e junkie Anita Pallenberg com direito a todos os narcóticos que quisessem. Mick Jagger deixara Marianne Faithfull para trás para se casar com a exuberante Bianca Pérez-Mora de Macías (futuramente: Bianca Jagger) pouco tempo depois, decidira se aventurar como ator de cinema e dava início à sua egotrip eterna. Tais fatos fizeram com que o futuro da banda fosse considerado como incerto naqueles tempos.

Keith & Anita

Jagger & Richards na virada da década 
Mick & Bianca

O mundo se surpreendeu completamente com o surgimento de Sticky Fingers em 23 de abril de 1971. O álbum não apenas garantiu a redenção musical dos Rolling Stones, como também trouxe a banda com toda a pompa e circunstância para a década mais insana da história dos músicos. Além disto, estamos diante de uma das dez obras-primas do Rock ‘n’ Roll e os Stones são autores de duas destas pedras fundamentais: este disco e o lendário Exile on Main St. (1972), o rosário de todas as obsessões sexuais e lisérgicas de Jagger e Richards. O impacto profundo se dava com a capa do álbum – uma imagem em close-up de um jeans masculino com um órgão sexual proeminente, mais uma das criações escandalosas de Andy Warhol. A primeira edição em vinil deste clássico (hoje em dia, uma raridade!) continha um zíper que, infelizmente, danificava a qualidade do bolachão. Os conservadores de plantão acharam um horror, o que fez com que a capa do disco fosse censurada em países como a Espanha, que colocou uma ilustração no lugar da foto do jeans controverso.


Sticky Fingers foi um álbum que marcou uma série de marcos iniciais para os Rolling Stones: não se trata apenas do primeiro álbum de inéditas da banda na década de 1970, como também foi o primeiro trabalho que contou com a participação plena do guitarrista Mick Taylor (substituto de Brian Jones), o primeiro álbum no qual Mick Jagger apareceu nos créditos tocando guitarra e violão, o primeiro trabalho a exibir o logo que se tornou a marca registrada da banda (a boca e a língua de Mick Jagger estilizadas por John Pasche) e o foi o primeiro produto da Rolling Stones Records, selo fundado por Jagger, Richards e cia via Atlantic Records. A gênese deste disco começou alguns anos antes de 1971: parte das canções foram gravadas no lendário Muscle Shoals Sound Studio em 1969 – templo sagrado de mestres do Soul americano como Aretha Franklin localizado no coração do Alabama – outras foram gravadas no Olympic Studios e no Trident Studios, em Londres e as restantes foram criadas no The Rolling Stones Mobile Studio em Stargroves, propriedade de Jagger e Richards no interior do Reino Unido entre o final de 1969 e 1970. A produção deste clássico ficou a cargo de Jimmy Miller, parceiro musical das pedras rolantes até a primeira metade dos anos 1970.


Apesar das crises internas intensas, a forma musical dos Rolling Stones era invejável durante aquele período. Keith Richards e Mick Taylor conseguiram um entrosamento intenso, Charlie Watts e Bill Wyman eram a cozinha mais elegante e completa do Rock ‘n’ Roll e Mick Jagger estava no auge de sua forma vocal. O time de músicos convidados para tocar em Sticky Fingers é digno de dar inveja a qualquer banda iniciante: Bobby Keys e Jim Price nos metais, Ian Stewart, Billy Preston e Jack Nitzsche no piano e no órgão Hammond B-3, Ry Cooder na guitarra slide, Rocky Dijon nas congas e o arranjo de cordas do maestro Paul Buckmaster. As dez canções do disco são uma espécie de prenúncio do rosário de loucuras e obsessões que fariam de Exile on Main St. um dos cinco discos mais importantes de toda a história da música. “Wild Horses” e “Moonlight Mile”, por exemplo, são as melhores baladas que Jagger e Richards já compuseram e falam de amor e dor em seu estado bruto:


“I know I dreamed you a sin and a lie
I have my freedom but I don’t have much time
Faith has been broken, tears must be cried
Let’s do some living after we die”
(Wild Horses)


“The sound of strangers sending nothing to my mind
Just another mad mad day on the road
I am just living to be lying by your side
But I’m just about a moonlight mile on down the road”
(Moonlight Mile)

“Dead Flowers” é um country rock vingativo e é um dos melhores números ao vivo dos Rolling Stones até os dias de hoje. A letra, entoada sarcasticamente por Mick Jagger e presença constante nos setlists da banda até hoje, deve ter sido dedicado a Marianne Faithfull. “Sister Morphine” foi originalmente gravada por Marianne em 1968 e teria sido supostamente mais uma parceria de Mick Jagger e Keith Richards. No entanto, o relato de um junkie à beira da alucinação decorrente de uma suposta overdose não seria mero fruto do talento indiscutível da interpretação da ex-namorada do vocalista dos Stones. Anos depois, os créditos de composição passaram a apontar Jagger, Richards e Faithfull como os autores de uma das canções mais pungentes de todo o repertório stoniano:


“Take me down, little Susie, take me down
I know you think you’re the queen of the underground
And you can send me dead flowers every morning
Send me dead flowers by the US Mail
Send me dead flowers to my wedding
And I won’t forget to put roses on your grave”
(Dead Flowers)


“Well it just goes to show
Things are not what they seem
Please, Sister Morphine
Turn my nightmares into dreams
Oh, can’t you see I’m fading fast?
And that this shot may be my last”
(Sister Morphine)

Sticky Fingers possui um dos lados B mais importantes da carreira dos Rolling Stones: “Sway”, segunda faixa do disco. O solo de guitarra de Mick Taylor e o arranjo de cordas de Paul Buckmaster resulta em uma das gravações mais intensas de toda a história do Rock, com direito a uma letra inspiradíssima. “I Got the Blues” é um dos números mais emocionantes já gravados pela banda, com direito a um solo belíssimo de Billy Preston e com apoio elegante dos metais de Bobby Keys e Jim Price. A regravação de “You Gotta Move” (número de blues composto por Fred McDowell e Gary Davis que já fazia parte do repertório da banda desde o final da década anterior) destaca a sintonia existente entre Jagger e Richards:


“Did you ever wake up to find
A day that broke up your mind
Destroyed your notion of circular time
It’s just that demon life has got you in its sway
It’s just that demos life has got you in its sway”
(Sway)


“As I stand by your flame
I get burned once again
Feelin’ low down, I’m blue
As I sit by the fire
Of your warm desire
I’ve got the blues for you, yeah”
(I Got the Blues)


“You may be high
You may be low
You may be rich, child
You may be poor
But when the Lord gets ready
You gotta move”
(You Gotta Move)

Os números mais rápidos do disco foram justamente os mais populares de Sticky Fingers. “Can’t You Hear Me Knocking”, jam session de pouco mais de sete minutos e uma das canções preferidas do lendário diretor Martin Scorsese (um dos momentos mais eletrizantes de Casino se dá com os golpes certeiros de NIcky Santoro, personagem de Joe Pesci, nos elementos mais suspeitos de Las Vegas), é o momento mais estridente do disco. Os vocais lancinantes de Jagger, os riffs arrasadores de Keith, as congas furiosas de Dijon e os solos melodiosos e hipnóticos de Taylor e Bobby Keys foram os elementos que fizeram desta gravação um verdadeiro clássico.
“Bitch”, por sua vez, é mais uma grande canção sobre os desencantos amorosos com direito aos metais incendiários de Keys e Jim Price. E o que podemos dizer de “Brown Sugar” além do fato dela ser uma das canções mais perfeitas sobre sexo, drogas e Rock ‘n’ Roll já feitas em toda a história da música?


“Can’t you hear me knockin’, ahh, are you safe asleep?
Can’t you hear me knockin’, yeah, down the gas light street, now
Can’t you hear me knockin’, yeah, throw me down the keys
Alright now
Hear me ringing big bell tolls
Hear me singing soft and low
I’ve been begging on my knees
I’ve been kickin’, help me please
Hear me prowlin’
I’m gonna take you down
Hear me growlin’
Yeah, I’ve got flat-ten feet now, now, now, now
Hear me howlin’
And all, all around your street now
Hear me knockin’
And all, all around your town”
(Can’t You Hear Me Knocking)


“Sometimes I’m sexy, move like a stud
Kicking the stall all night
Sometimes I’m so shy, got to be worked on
Don’t have no bark or bite, alright
Yeah when you call my name
I salivate like a Pavlov dog
Yeah when you lay me out
My heart is bumpin’ louder than a big bass drum, alright”
(Bitch)


“Drums beating, cold English blood runs hot
Lady of the house wonderin’ where it’s gonna stop
House boy knows that he’s doing alright
You shoulda heard him just around midnight
Brown sugar
How come you taste so good, now?
Brown sugar
Just like a young girl should, now”
(Brown Sugar)

Sticky Fingers recebeu críticas moderadas e gerou opiniões diversas dos jornalistas musicais da época. Com o passar dos anos, todos foram unânimes ao perceberem que estamos diante de um dos discos mais coesos e coerentes de toda a história dos Rolling Stones. No entanto, o álbum alcançou os primeiros lugares das paradas de sucesso no Reino Unido e nos Estados Unidos em maio de 1971 e se mantém como um dos mais vendidos por eles até hoje. A banda lançou um de seus maiores sucessos pouco tempo depois de ter feito uma apresentação lendária no Marquee Club de Londres no decorrer de uma turnê de despedida do Reino Unido – os músicos ingleses decidiram deixar a terra de Elizabeth II alegando não ter condições de pagar os impostos exorbitantes que a Coroa Inglesa cobrava.


Obrigados a deixar o país, Jagger, Richards, Taylor, Wyman e Watts seguiram rumo à França para poder reerguer não só as finanças, mas o que sobrou da identidade do grupo. A lendária mansão de Villa Nellcôte seria o QG dos Stones até o final de 1972, com direito a todas as loucuras que estivessem ao alcance deles. Em outras palavras, nenhum dos integrantes do grupo teve a oportunidade de vivenciar o sucesso de sua obra-prima até então devido ao fato de terem seguido em um exílio voluntário.


Em 2015, os Stones nos legaram várias versões deluxe de Sticky Fingers, com direito a uma versão remasterizada deste clássico, além de outtakes e trechos de duas apresentações feitas entre 13 e 14 de março de 1971 em Londres e em Leeds. Dentre os números que ficaram de fora do disco original, está uma versão de “Brown Sugar” datada de 1970 com a participação de Eric Clapton na slide guitar, uma versão estendida de “Bitch” e uma versão eletroacústica de “Dead Flowers” (muitíssimo parecida com a versão que a banda apresenta em suas apresentações até os dias de hoje). A reedição deste álbum não só afirma a perenidade e a importância desta obra fundamental, como também mantém os Rolling Stones como uma das bandas mais importantes de Rock clássico que já surgiu em todos os tempos.


Por isso e muito mais que não está escrito aqui, deixe-se levar pelos dedos grudentos e musicais dos Rolling Stones, afaste o seu sofá e aproveite este momento para cantar e dançar com toda a fúria e o amor que só eles conseguiram expressar nos sulcos de um vinil. Este clássico se renova cada vez mais na medida em que você vibrar ao som de cada nota estridente tocada pelas rolantes do Rock. Divirta-se!


7 de fevereiro de 2017

TROVA # 110

ONDAS DE ÓDIO, MAROLAS DE INTELIGÊNCIA


Em memória de Dona Marisa Letícia Lula da Silva (1950-2017)



“Lies, dripping off your mouth like dirt
Lies, lie in every step you walk
Lies, whispered sweetly in my ear
Lies, how do I get out of here
Why, why you have to be so cruel
Lies, lies, lies, I ain't such a fool”
(Mick Jagger & Keith Richards, 1978)


Existem momentos nos quais a barbárie e os sentimentos negativos em relação à política brasileira são tão grandes que apenas uma frase surge para mim diante dos fatos mais recentes: a humanidade é o projeto mais fracassado deste planeta, sem chances de salvação.


A pior consequência do conservadorismo que tomou conta do cotidiano nacional é a polarização política para cada acontecimento (inter)nacional: tudo se tornou uma questão partidária, com discussões acaloradas e agressões gratuitas, dependendo do teor de seu posicionamento. Minha reação em relação à onda de ódio é um misto de silêncio, tristeza e indignação, além de uma vergonha alheia sem tamanho.


O episódio mais recente destas ondas de ódio aconteceu com a família mais odiada do país, a do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Marisa Letícia, a esposa de Lula, sofreu um AVC em 24 de janeiro de 2017 e foi levada às pressas para o Sírio Libanês, um dos hospitais mais caros do Brasil. A antiga Primeira Dama passou 10 dias em coma induzido até ter sua morte cerebral e falecer na noite de 2 de fevereiro de 2017. Durante este período de agonia, o festival de boçalidades atingiu os níveis do insuportável: uma tomografia de Marisa foi divulgada sem autorização, alguns médicos chegaram a clamar pela morte da esposa de Lula e uma médica do hospital divulgou um boletim médico da paciente sem autorização. As redes sociais ferveram com palavras de ordem desejando o pior. O sadismo estava sendo praticado por profissionais de saúde, as últimas pessoas no planeta que deveriam adotar tamanha maldade. O GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) estava em festa com a morte da companheira do maior líder sindical da história deste país...




A cegueira das pessoas que odeiam o PT – mais um dos trunfos desta mídia conservadora, subserviente e cínica que o Brasil possui – fez com que as pessoas ignorassem a desgraça e o sofrimento de um senhor de idade que é obrigado a conviver sem a companheira de mais de 40 anos de vida em comum. Não cabe debate político ou palavras de ordem em momentos de sofrimento de nossos (ex-)chefes de Estado: o espírito republicano, democrático e a compaixão pelo próximo devem substituir o ódio e as desavenças políticas. Vários integrantes da classe política brasileira entenderam a importância de bandeiras brancas em episódios tão trágicos – Lula recebeu visitas de seus aliados políticos no hospital (Dilma Rousseff, Olívio Dutra, Gleisi Hoffman e outros correligionários), como também recebeu condolências de vários adversários políticos, dentre estes uma comitiva do Presidente Michel Temer.


No entanto, de todos aqueles que foram prestar solidariedade a Lula, a visita que mais me surpreendeu foi a do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso. Inimigos políticos, boxeadores de lados opostos do ringue no qual a política brasileira se tornou, não se falavam há anos. A maior lição de espírito republicano, por incrível que pareça, veio de um político do PSDB: na dor e na desgraça, não existem convicções políticas, o mais importante é a solidariedade. A Internet foi levada à loucura com o encontro de FHC com Lula: como um homem que foi casado com uma das intelectuais mais importantes do país foi se solidarizar com a dor de um marido de uma ex-babá e humilde dona de casa?! Fernando Henrique amargou o fato de ter sobrevivido à morte de Ruth Cardoso e recebeu o afeto e as condolências de seu maior adversário político.


Dona Marisa Letícia nunca recebeu o respeito e o prestígio de Dona Ruth Cardoso: foi ridicularizada, difamada e atacada das maneiras mais torpes durante os oito anos do governo Lula por nunca ter assumido nenhuma tarefa durante os dois mandatos do marido. Decidiu ser dona de casa, a companheira e o esteio do ex-Presidente, mas nunca recebeu o status de “bela, recatada e do lar” da esposa de Michel Temer. Na intimidade da família Lula, quem dava as cartas e era a líder de todos era Marisa: dona de personalidade forte, não tinha meias palavras, era uma mulher muito franca e simples. Costurou a primeira bandeira do PT e levou várias mulheres do ABC às ruas em plena ditadura para que Lula fosse libertado pelos militares de uma pena injusta. Acusada e ré em um dos processos da Operação Lava Jato, sofreu com a perseguição política ao seu clã e teve sua intimidade devassada pelo juiz Sérgio Moro, que autorizou a divulgação de escutas telefônicas sem permissão do Supremo Tribunal Federal.




Apesar da dor e do sofrimento da perda de sua companheira de mais de quatro décadas, Lula fez um discurso eloquente no velório de Marisa Letícia. Deixou claro que a perseguição política que ele e sua família sofreram contribuíram para o AVC da esposa. As críticas das subcelebridades e oportunistas de plantão nos forneceram mais provas de que o ser humano é o projeto mais fracassado de que se tem notícia. O professor e filósofo Leandro Karnal (UNICAMP) resumiu com perfeição o que penso a respeito das pessoas que desejam a morte de outros sem a menor parcela de escrúpulo:


“Atacar ou ter felicidade pela morte de um ser humano é uma prova absoluta de que a dor e o ressentimento podem enlouquecer alguém. Se você sente felicidade pela morte de um inimigo, guarde para si. Trazer à tona torna pública sua fraqueza, sua desumanidade. Acima de tudo, mostra que este inimigo tinha razão ao dizer que você era desequilibrado. Contestem, debatam, critiquem: mas enderecem tudo isto a quem possa revidar. Por enquanto temos apenas um homem que perdeu sua companheira, filhos órfãos e netos sem a avó. Entre os vivos, surgem divergências e debates. Diante da morte, impõe-se silêncio e respeito. (...)”.




         Quando eu vejo o noticiário diário, sinto que há uma enorme onda de ódio ao lado de marolinhas de inteligência. A apatia da classe média que se vestiu de verde e amarelo nas ruas diante da nomeação de um membro do PSDB e ex-advogado do PCC (uma das organizações criminosas mais poderosas do país) é tão grande que eu me pergunto onde as panelas que batiam foram parar. Será que elas não são necessárias ou será que, segundo a nossa ex-Primeira Dama, elas foram enfiadas em algum local indigno de publicação?


3 de fevereiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 18

CHICO BUARQUE & MARIA BETHÂNIA – AO VIVO (1975)



Em meio à guerra entre as estrelas da MPB que povoavam a constelação da gravadora Philips nos anos 1970, os altos executivos da empresa precisavam agradar todos os integrantes de seu casting: Elis Regina, por exemplo, ganhou de presente um disco com o maestro soberano Antônio Carlos Jobim ao comemorar seu décimo ano de carreira no selo. Ao ser questionada em 1975 a respeito de qual mimo gostaria de receber por completar sua primeira década de sucesso, Maria Bethânia não pestanejou, não deixou barato e pediu um show e um disco com o compositor mais importante de sua geração: Chico Buarque de Hollanda.
Junho de 1975 era um momento chave na carreira dos dois artistas: Chico era o artista mais perseguido pela censura, com direto a uma vasta lista de obras vetadas pelos militares. Seu álbum Construção (1971) o colocou no centro das atenções da crítica, do público e (consequentemente) do poder vigente por se tratar de um trabalho extremamente politizado. Chico canta Calabar (1973), que reúne as canções da peça escrita em parceria com Ruy Guerra, sofreu vários vetos da censura oficial. Em Sinal Fechado (1974), o filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, sentiu-se obrigado a interpretar canções de outros compositores, visto que era praticamente impossível para ele gravar canções inéditas naquela época. Bethânia, por sua vez, conseguira se livrar de vez da alcunha de “musa da canção de protesto” recebida graças à sua participação indefectível no musical Opinião.
Ao inaugurar uma sólida parceria com o diretor teatral Fauzi Arap no final dos anos 1960, a irmã de Caetano Veloso passou a realizar shows que aliavam música, poesia e altíssimas doses de dramaticidade. Rosa dos Ventos – Um Show Encantado (1971), Drama, 3.º Ato: Luz da Noite (1973) e A Cena Muda (1974) deram à artista a experiência e a intensidade necessárias para encarar seu projeto musical mais importante até aquele momento – seu encontro com o compositor de “A Banda” nos palcos e no disco.
A temporada de shows de Chico Buarque e Maria Bethânia ocorreria apenas no Rio de Janeiro: foram 118 apresentações entre a noite de estreia – 6 de junho – e o dia 2 de novembro de 1975 na lendária cervejaria/casa de shows Canecão. O espetáculo contou com a direção geral do ator Oswaldo Loureiro, com assessoria de Caetano Veloso e Ruy Guerra. Perinho Albuquerque, produtor musical que era o fiel escudeiro dos baianos durante os anos 1970, fez a direção musical. Já os arranjos de base ficaram a cargo do violonista Luiz Cláudio Ramos (diretor musical dos trabalhos de Chico desde meados da década de 1970 até os dias de hoje) e do Terra Trio (que acompanhava Bethânia nas turnês daquela época). Por fim, os arranjos de orquestra ficaram sob a responsabilidade do maestro Lindolfo Gaya, que regia os músicos durante todas as apresentações.

Um anúncio do show feito em um jornal da época

Os tempos pediam canções e espetáculos que nos ajudassem a compreender a aspereza da repressão imposta pelo regime militar. Havia ditaduras sangrentas em curso na América Latina naquele período, porém a Revolução dos Cravos trouxe um pouco de esperança aos brasileiros quando Portugal decidiu expurgar o salazarismo para fora do poder em 25 de Abril de 1974. Chico Buarque, que já tinha se transformado temporariamente em Julinho da Adelaide para se disfarçar dos censores, tinha se exilado voluntariamente para não ser preso e torturado, além de ter sido covardemente censurado, decidiu não se calar perante os acontecimentos de nossa Pátria Mãe e escreveu uma de suas canções mais belas de todo o seu repertório. “Tanto Mar” não é somente uma homenagem à bravura dos patrícios, como também revela o nosso desejo de esperança em dias melhores:

“Sei que está em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim”

O clima que antecedia a estreia do show era bastante tenso visto que a nova canção de Chico constaria no setlist e, como era de praxe, os órgãos reguladores de censura deveriam assistir à íntegra do espetáculo para que ele fosse liberado. Resultado da visita daquela ocasião: Chico Buarque e Maria Bethânia poderiam se apresentar juntos no Canecão sob a condição de que “Tanto Mar” não fosse cantada em público. Optou-se, como solução para aquele impasse, por uma apresentação instrumental de uma das criações mais belas do cancioneiro buarqueano, como uma espécie de intermezzo do show.
Dos 18 números que constam no disco, 4 foram interpretados apenas por Chico, 6 por Bethânia e 7 em dueto. O autor de “Apesar de Você” selecionou alguns dos números mais pungentes de Gota D’Água (peça teatral escrita em parceria com Paulo Pontes e que tinha Bibi Ferreira como protagonista) e ainda conseguiu se revelar como um intérprete deveras ousado em outras canções, enquanto a irmã de Caetano Veloso ainda era uma cantora em busca de sua melhor forma vocal – os “R”s guturais que Mary Beth emitia naquele período chegam a dar calafrios nos ouvintes menos acostumados. No entanto, a junção dos dois artistas no palco a partir de “Olê, Olá”, número de abertura do espetáculo, revela não apenas a sintonia entre eles, como também a união bela e harmoniosa de dois opostos em cena (a discrição dele contrastava absurdamente com a expansividade dela), como um diálogo entre dois velhos amigos, que se irmanavam através da música e da dor em comum:

CHICO:
“Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar

Seu padre, toca o sino
Que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança
Que o samba é menino
Que a dor é tão velha
Que pode morrer

Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar

Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Para quem cantar

Meu pinho, toca forte
Que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida
Nem fale da morte
Tem dó da menina
Não deixa chorar

Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar”

BETHÂNIA:
“Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir

Luar, espere um pouco
Que é pro meu samba poder chegar
Eu sei que o violão
Está fraco, está rouco
Mas a minha voz
Não cansou de chamar”

JUNTOS:
“Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
Nem há mais lugar
O sol chegou antes
Do samba chegar
Quem passa nem liga
Já vai trabalhar
E você, minha amiga
Já pode chorar”

O show de Chico Buarque e Maria Bethânia se iniciava com um viés explicitamente político. A versão de “The Impossible Dream” e a primeira interpretação do samba “Sinal Fechado”, de Paulinho da Viola, feita por duas vozes explicitava a existência de um Brasil amordaçado e que sonhava com a possível liberdade no horizonte. No entanto, um dos momentos mais eletrizantes do espetáculo ocorria quando Bethânia e Chico entoavam “Sem Fantasia”, canção escrita por ele na década anterior. Os versos apontam o desejo de dois amantes de se (re)encontrarem após um sofrido tempo de separação, com direito a um dos arranjos mais belos do maestro Gaya:

“Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer
Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos

Vou te envolver nos cabelos
Vem perder-te em meus braços
Pelo amor de Deus
Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu

Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar

Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus

E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus”

Chico Buarque & Maria Bethânia Ao Vivo contou com outras seis canções inéditas: “Vai Levando” (uma das parcerias bissextas de Chico Buarque e Caetano Veloso), “Cobras e Lagartos” (Sueli Costa e Hermínio Bello de Carvalho), três composições do musical Gota D’Água – a faixa título, “Flor da Idade” e “Bem Querer” – e “Sem Açúcar”, composta especialmente para a voz de Bethânia. Tal qual “Com Açúcar, Com Afeto” (interpretada por Chico neste espetáculo), esta canção apresenta uma mulher às voltas com o autoritarismo sexista de um marido repressor e retrógrado. As duas obras não apenas apontam o talento do filho de Sérgio Buarque de Hollanda em fazer versos, como também revela a capacidade impressionante de Chico de se expressar através de uma primeira pessoa de voz feminina:

“Todo dia ele faz diferente
Não sei se ele volta da rua
Não sei se ele traz um presente
Não sei se ele fica na sua
Talvez ele chegue sentido
Quem sabe me cobre de beijos
Ou nem me desmancha o vestido
Ou nem me adivinha os desejos

Dia ímpar, tem chocolate
Dia par, eu vivo de brisa
Dia útil, ele me bate
Dia santo, ele me alisa
Longe dele, eu tremo de amor
Na presença dele, me calo
Eu, de dia, sou sua flor
Eu, de noite, sou seu cavalo

A cerveja dele é sagrada
A vontade dele é a mais justa
A minha paixão é piada
Sua risada me assusta
Sua boca é um cadeado
E meu corpo é uma fogueira
Enquanto ele dorme pesado
Eu rolo sozinha na esteira
E nem me adivinha os desejos
Eu, de noite, sou seu cavalo
Eu rolo sozinha na esteira”

Os demais números solos de Maria Bethânia retratam a intensidade de uma cantora jovem e empenhada em atingir a emoção contida em cada verso das canções que interpretava. As releituras feitas para “Camisola do Dia” (Herivelto Martins & David Nasser) e “Foi Assim” (Lupicínio Rodrigues) demonstram o quanto a irmã de Caetano Veloso era uma devota apaixonada do que existia de melhor nas canções da Era do Rádio brasileiro, visto que se tratam de interpretações rasgadas (e belíssimas) de clássicos perenes do cancioneiro brasileiro dos anos 1950, que tanto influenciou os irmãos Caetano e Bethânia. Foi neste espetáculo que ela (belamente) interpretou pela primeira vez algumas partes de “Gita”, uma das criações mais emblemáticas do repertório de Raul Seixas – a Abelha Rainha apenas interpretou a canção na íntegra em Abraçar e Agradecer, seu espetáculo comemorativo de 50 anos de carreira, fazendo justiça ao legado do nosso eterno “Maluco Beleza”. Vale lembrar também a belíssima e incendiária interpretação do samba “Cobras & Lagartos”, de Sueli Costa e Hermínio Bello de Carvalho.

Dois artistas, dois opostos em um mesmo palco

Os números solos de Chico Buarque, por sua vez, revelam um artista destemido e no auge de sua forma poética. Por outro lado, sua versão de “Flor da Idade”, levemente inspirada no famoso poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, se torna cada vez mais tocante na medida em que a voz do cantor precisa evoluir junto com a orquestra de Gaya. E, por fim, as releituras para “Notícia de Jornal” (sucesso na voz da “Divina” Elizeth Cardoso) e a já citada “Com Açúcar, Com Afeto” nos apresentam um Chico levemente irreverente, docemente jocoso, com o charme enigmático que intriga e enlouquece o Brasil há cinco décadas. Por fim, a interpretação sofrida de  “Gota D’Água”, uma das canções mais sinceras de sua própria lavra, é de uma sinceridade absurda e comovente:

“Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia

Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção
Faça não
Pode ser a gota d’água”

No entanto, os momentos nos quais os dois artistas estão juntos no palco são os momentos que valem o disco. Os versos doces da pungente “Bem Querer”, introduzidos uma flauta doce e a voz mansa de Chico Buarque nos indicam uma singela canção de amor parecida com os cânticos de ninar. Entretanto, a poética cruel e sangrenta da peça Gota D’Água (uma atualização brilhante de Medéia para os anos 1970) se faz presente no canto rascante e árido de Maria Bethânia, ungido em um vasto repertório de canções de protesto e fossa da melhor qualidade, quando esta adentra o palco para interpretar a canção na segunda parte para que, no fim, a orquestra de Lindolfo Gaya, conclua o número, dando-nos a impressão de um sangramento aberto pelo escapamento do gás.
O gran finale do show, composto de três sambas emocionantes, alia o saudosismo da poética da canção oriunda da Era dos Festivais com o sabor amargo da vida cultural brasileira de tempos de ditadura: “Quem te viu, Quem te vê” traz o saudosismo típico da poética buarqueana dos anos 1960, “Vai Levando” (parceria bissexta de Chico e Caetano) é uma crônica fiel do sentimento angustiante que vivíamos em tempos de censura e repressão e “Noite dos Mascarados” encerra o show/disco com a bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel tocando junto aos músicos e a orquestra de Lindolfo Gaya com direito a um final apoteótico do espetáculo destes dois gigantes da música brasileira.

Chico Buarque & Maria Bethânia Ao Vivo recebeu uma versão remasterizada em CD no ano de 2006, com direito a um belo texto do jornalista e pesquisador musical Rodrigo Faour sobre o disco. No entanto, a ficha técnica deste clássico deixa a desejar em relação às informações que constam nela, visto que mal sabemos os nomes dos músicos que tocaram no disco, além de ter pouquíssimas imagens do espetáculo – os dados a mais dos quais dispomos surgiram justamente das pesquisas de Faour e de alguns vídeos disponíveis no YouTube. Por outro lado, esta belíssima coleção de 18 canções são não apenas o retrato de dois artistas imprescindíveis de nossa música, como também reúnem a nata do cancioneiro popular brasileiro.