5 de abril de 2017

TROVA # 117

A VERDADE, ACIMA DE TUDO


"I'm sick and tired of hearing things
From uptight, short-sighted, narrow-minded hypocritics
All I want is the truth
Just gimme some truth

I’ve had enough of reading things
By neurotic, psychotic, pig-headed politicians
All I want is the truth
Just gimme some truth

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of hope
Money for dope
Money for rope

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of soap
Money for dope
Money for rope

I'm sick to death of seeing things
From tight-lipped, condescending, mamas little chauvinists
All I want is the truth
Just gimme some truth now

I've had enough of watching scenes
Of schizophrenic, ego-centric, paranoiac, prima-donnas
All I want is the truth now
Just gimme some truth

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of soap
Its money for dope
Money for rope

Ah, I'm sick and tired of hearing things
From uptight, short-sighted, narrow-minded hypocrites
All I want is the truth now
Just gimme some truth now

Ive had enough of reading things
By neurotic, psychotic, pig-headed politicians
All I want is the truth now
Just gimme some truth now

All I want is the truth now
Just gimme some truth now
All I want is the truth
Just gimme some truth
All I want is the truth
Just gimme some truth"
(John Lennon, 1971)


Uma das canções mais fortes do repertório de John Lennon está eternizada em seu segundo álbum após a dissolução dos Beatles: "Gimme Some Truth", primeira faixa do lado B de Imagine (1971), denuncia um sentimento de cansaço de hipócritas, de prima-donnas inúteis,  de políticos porcos, limitados e de pouca visão. Lennon escrevia sobre as pessoas que faziam o mundo do início dos anos 1970. Ao reouvir a canção na segunda metade dos anos 2010, já em pleno século XXI, tenho a impressão de que pouco mudou no Brasil e no mundo de lá para cá.
O conceito de verdade, segundo o dicionário Houaiss, nos diz: "propriedade detestar conforme os fatos ou a realidade; exatidão, autenticidade, veracidade". O grande problema das pessoas hoje é que elas assumiram para si os conceitos mais particulares do que é verdadeiro, sem levar em conta a consistência dos fatos e as consequências deles. A partir deste fator, devemos pensar em alguns aspectos.
Diante deste caos, a quantidade de notícias falsas que se espalham pelo espaço público é simplesmente absurda. O que leva isto a acontecer com tanta frequência em pleno século XXI, momento no qual a informação se propaga com uma rapidez escandalosa? A preguiça das pessoas em verificar a consistência das informações é um fato determinante - muitos não leem ou analisam o que compartilham nas redes sociais e a barbárie se faz através dos botões like e share.
A expressão que mais tem sido utilizada no presente momento é o de “pós-verdade”. Apesar de algumas explicações bem fundamentadas, não consegui mudar minha opinião acerca desta “nova” ideia: para mim, é nada mais, nada menos do que a verdade que bem lhe convém. Tendo em vista que as redes sociais e a grande mídia têm dado voz a lúcidos e aos idiotas de plantão, torna-se ainda mais difícil para mim encontrar outra interpretação. Cada um possui suas verdades pessoais, as suas pós-verdades e muitos querem impor suas concepções como se fossem fatos verdadeiros absolutos.
Depois de 2013 e do golpe de estado parlamentar que atingiu a democracia brasileira três anos depois, as falácias conservadoras tem encontrado eco em muitas pessoas que se diziam apolíticas ou desinteressadas em política. De uma hora para outra, a sensação que eu tenho é de que todo mundo se politizou de uma tal maneira a ponto de provocar uma polarização nos debates e discussões que extrapolam os limites de respeito e da sensatez. Os direitos à liberdade de grupos minoritários são ignorados em prol do sucesso de instituições financeiras e de meia dúzia de famílias endinheiradas que controlam o país na base da rédea curta.
As pessoas que não possuem o hábito de estudo, de leitura e não são versadas em uma tradição humanitária e reflexiva, adotam o discurso da elite como se fosse o seu e dão projeção a vozes ultraconservadoras que alegam serem a opção para a corrupção presente no Brasil desde a sua fundação. Quando as manifestações públicas de 2013 culminaram nos protestos que clamavam os brasileiros a tomarem as ruas de 2015 em diante, esses desinformados pelo GAFE (o conglomerado formado pelos grupos Globo, Abril, Folha e Estadão) se converteram na mesma espécie de massa de manobra que nos levou para uma ditadura reacionária e sangrenta de mais de duas décadas.

Se quisermos evitar a máxima famosa de Karl Marx de que a história se repete pela primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, devemos rasgar os estatutos hipócritas e buscar a natureza humana das coisas, o respeito por todas as partes, exigir a verdade, acima de tudo. É ela que nos liberta, é ela que nos fará cidadãos mais justos e honestos em um país repleto de contradições. Assim, afastamos os hipócritas, chauvinistas, egocêntricos, paranoicos e psicóticos de plantão...

1 de abril de 2017

DISCOS DE VINIL # 25

STEVIE WONDER – TALKING BOOK (1972)



 Em um de seus maiores hits, “Sir Duke” (1976), Stevie Wonder já definia que ‘a música é um universo com uma linguagem própria que todos nós entendemos e que nos proporciona oportunidades iguais para que todos possam cantar, dançar e bater palmas’. O primeiro álbum em que o ‘Mr. Maravilha’ conseguiu tamanha façanha foi com o álbum Talking Book, lançado em 1972.


O ‘livro falante’ de Stevie foi o primeiro álbum que levou uma das revelações mais duradouras da Motown para o topo das paradas da Billboard e lhe garantiu nada mais, nada menos do que TRÊS prêmios Grammy no início de 1974. Além disso, Talking Book é o segundo que compõe uma série de cinco álbuns da chamada ‘fase clássica’ da carreira de Wonder – o último álbum desta série é o magistral Songs in The Key of Life, de 1976.


1972 foi um ano e tanto para Stevie Wonder. Depois de lançar o antecessor deste clássico, Music of my mind, Little Stevie foi chamado para abrir os shows da turnê norte-americana dos Rolling Stones com a turnê norte-americana de Exile on Main Street, lançado naquele mesmo ano. O jovem artista, naqueles idos, tinha um poder de fogo tão intenso no palco e no disco que chegava a deixar Mick Jagger e seus companheiros de trupe em polvorosa antes de subir aos palcos dos EUA. Ao final da vitoriosa turnê com os Stones, Talking Book vinha a público com várias canções que integravam os shows daquelas apresentações memoráveis.


Neste disco, Stevie finalmente conseguiu a liberdade artística que tanto almejara em pouco mais de 10 anos de carreira. A sonoridade deste trabalho está pautada nos teclados (sintetizadores Arp e Moog, Fender Rhodes, Hohner Clavinet e outras parafernálias elétricas) do ‘Mr. Maravilha’ – uma novidade em seus trabalhos até então – e tem como resultado canções memoráveis como as baladas “You and I”, “Blame it on The Sun” e “I Believe (When I Fall in Love it will be Forever)”, os funks “Maybe Your Baby” e “Tuesday Heartbreak” e as obras-primas “You Are The Sunshine of My Life” e “Superstition”. E, dentre os músicos convidados havia uma lista bastante curiosa para os mais puristas: Jeff Beck e Ray Parker, Jr. nas guitarras e o sax de David Sanborn.


Por outro lado, Wonder escrevia e/ou cantava letras bem contundentes para aquele período – o artista pensou seriamente em largar a carreira como uma espécie de protesto aos abusos da política norte-americana em meados da década de 1970. Em “Blame it on the sun” perguntava, por exemplo, ‘Quem tinha derramado o amor? / Quem tornou esta dúvida amarga? / A paz não está aqui para que eu a veja?’ – uma alusão direta aos EUA que ainda viviam em tempos de guerra com o Vietnã; Já “Big Brother” atualizava o sistema tão bem descrito por George Orwell em 1984 para aqueles dias sombrios de 1972 ao retratar um ‘Grande Irmão’ cansado de ver um joão-ninguém, saído das ruas do gueto, protestando na TV enquanto crianças morriam todos os dias a olhos vistos em meio a líderes mortos. Sim, em meio a versos de amor e a grooves irrepreensíveis, Little Stevie ainda encontrava espaço para protestar contra o mundo de 1972.


A partir deste disco, Stevie Wonder passou a ser definitivamente apreciado por públicos de todas as cores, tendências e faixas etárias. Isto se deve não apenas ao fato de 1972 ter sido um ano altamente inspirador para um dos maiores artistas já revelados pela Motown, como também para a música do planeta. O ‘livro falante’ de ‘Mr. Maravilha’ é um esforço do amor que Stevie sempre nutriu pela música e pelo universo. A nota escrita por ele para o disco dizia: ‘Aqui está minha música. É tudo o que eu tenho a dizer a respeito de como eu me sinto. Saibam que é o amor de vocês que mantém meu amor forte.’



São estas e outras palavras que fazem de Talking Book um clássico da música mundial! Ouça o livro, leia o disco! Garanto que os seus olhos e ouvidos não sairão ilesos desta experiência!

28 de março de 2017

TROVA # 116

O MAGO DAS TECLAS PRETAS E BRANCAS
(algumas memórias ao som de Elton John)


“Day to day, the shifting wind just blows us on our way,
Here and there, our pockets full of things to say,
Oh my love, I proudly represent you in this world,
Little satellite, brightest star tonight, oh my love”
(Elton John & Bernie Taupin, 1997)



A grande atração da casa em 1991 era o novo aparelho de som 3 em 1 (rádio AM | FM) acoplado de leitor de CD, vitrola e tocador de fitas cassete) que meu pai tinha comprado para o nosso modesto apartamento da Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Vivíamos alguns bons momentos de ascensão social em meio aos horrores praticados pelo governo Collor, que manteve o Brasil em um buraco político-econômico que não parecia ter fim. O Sr. Orlando, conhecido por mim como Papai, fora trabalhar em Santos por uns tempos para garantir o sustento da casa e o conforto de uma família classe média baixa e sempre trazia CDs, LPs e cassetes à mão cheia para que a música sempre nos acompanhasse nas viagens para a Baixada Santista ou em casa. O grande sucesso da época era a regravação de George Michael com “Don’t Let the Sun Go Down On Me”, ao lado do cantor que lançou aquela canção.





Naquela época ainda se consumia trilhas sonoras de novelas da Globo em alta escala, pois aqueles álbuns reuniam o que havia de mais popular e bacana no dial do rádio daquele momento. Quando a trilha sonora internacional de Lua Cheia de Amor (novela das sete da noite com Marília Pêra encabeçando o elenco) chegou lá em casa, fomos ouvir o vinil com a curiosidade e excitação que dedicávamos às grandes novidades. Um som de piano e uma voz masculina tomavam o ambiente em questão de segundos: era a magia de Elton John se revelando para mim quando eu tinha um pouco mais de 10 anos de idade.



A partir daquele momento, minha vida de ouvinte não faria o menor sentido sem ouvir as canções daquele mago das teclas brancas e pretas. As letras belíssimas de Bernie Taupin somadas às músicas de acordes complexos de Elton me fizeram viajar por lugares distantes do senso comum que se ouvia na década de 1990, para minha total salvação. As opções para um adolescente no meu tempo não me pareciam nem um pouco atraentes, por isso o meu apreço pela obra de Elton John é tão grande.

Made in England (1995)



Comecei a acompanhar os passos musicais de Sir Elton mais de perto a partir de 1995, quando ele lançou um de seus discos mais bacanas de sua discografia, Made in England, que foi bastante elogiado pelo público e pela crítica. Senti a emoção da perda trágica de Lady Di enquanto ele cantava os versos da segunda (e emocionante) versão de "Candle in The Wind", que Bernie reescreveu especialmente para o funeral da figura mais popular da realeza britânica nos últimos anos. Ouvi The Big Picture (1997) durante o verão de 1997-98 com o mesmo amor e prazer que eu dediquei aos títulos mais amados da minha coleção de discos.

The Big Picture (1997)



Anos depois, já nos meus últimos anos da Faculdade de Letras e já saído da casa dos meus pais pela primeira vez, descobri o álbum mais importante da discografia de Elton John: o maravilhoso Goodbye Yellow Brick Road, uma das maiores obras-primas da história da música. O disco não se tornou apenas minha discografia básica, como passou a me acompanhar para onde quer que eu fosse. Durante uma estadia minha em Curitiba, na qual eu tive de me apresentar em um congresso internacional de Literatura Comparada, passei horas e horas escrevendo sobre Virginia Woolf ao som de um dos lados B mais bonitos daquele álbum, “I’ve Seen That Movie Too”.



Goodbye Yellow Brick Road (1973)

No entanto, a força dos discos de Elton John não se compara a energia de ver o mago das teclas pretas e brancas ao vivo em concerto. Consegui ir a um show de Elton uma única vez, em 17 de janeiro de 2009, em um Anhembi escuro, chuvoso e impróprio para shows de grande porte. Apesar das péssimas condições para o show, Sir Elton fez um show emocionante e com mais de duas horas de duração, com direito a várias canções de Goodbye Yellow Brick Road. Apesar do cansaço, do estresse, dos dois táxis e da chuva, valeu a pena ter testemunhado o mago das teclas pretas e brancas ao vivo, afinal poderei constar estas memórias corriqueiras para os meus sobrinhos e para os filhos que um dia eu possa vir a ter.




Em relação a filhos, o astro possui dois. Casado com David Furnish, com quem vive junto desde meados da década de 1990, Elton John é um ferrenho defensor da comunidade LGBT e do combate à AIDS, mais um motivo para minha admiração por ele. Apesar dele ser dono de uma personalidade difícil, um tanto intragável com seus colegas de profissão (Madonna e Keith Richards já foram vítimas da língua ferina de Sir Elton), sempre verei o mago das teclas pretas e brancas como o senhorzinho bonachão de figurinos extravagantes. E ele chega aos 70 anos de idade com um gás sem fim: gravando discos novos, saindo em turnês, fazendo apresentações ao vivo e levando milhares de pessoas de gerações distintas a estádios.



Salve, Sir Elton! Que o senhor possa ser o grande mago das teclas pretas e brancas por muito tempo...


23 de março de 2017

DISCOS DE VINIL # 24

GAL COSTA – ESTRATOSFÉRICA (2015)


Os anos 2000 não foram lá muito significativos para a carreira musical de Gal Costa.  Seus álbuns da primeira metade da década, Gal de Tantos Amores (2001), Bossa Tropical (2002) e Todas As Coisas e Eu (2003) não lembram nem um pouco a cantora e intérprete inquieta, provocante e inspirada de álbuns antológicos como Gal (1969), Índia (1973), Cantar (1974), Gal Canta Caymmi (1976), Aquarela do Brasil (1980), Profana (1984) e Plural (1990). As declarações feitas por Gracinha no início da década de 2000, nas quais reclamava abertamente que a MPB carecia de jovens compositores não apenas enfureceu o público, como também trouxe um consequente ostracismo para a eterna porta-estandarte do movimento tropicalista.


No afã de recuperar o diálogo com a produção musical brasileira do século XXI, Gal Costa se associou a João Marcello Bôscoli e sua gravadora Trama e gravou Hoje (2005), um dos trabalhos mais belos de sua discografia. O CD contou com os arranjos e a produção musical de César Camargo Mariano (segundo marido e ex-diretor musical dos discos de Elis Regina no decorrer da década de 1970 e início dos 1980) e agrupou canções de compositores menos conhecidos Carlos Rennó, Junio Barreto, Péri, Lokua Kanza e inéditas de medalhões da MPB como Caetano Veloso, Chico Buarque e José Miguel Wisnik. No entanto, a direção musical de César e o timbre forte de Gal nos dão a sensação de que algumas faixas soam como o créme de la créme da Pimentinha ou de algumas criações das lendárias boates do Beco das Garrafas. Em outras palavras, Hoje, apesar de reunir o melhor da juventude musical dos anos 2000, soa irremediavelmente retrô – ou vintage, como diríamos nos dias de hoje.


A primeira década do terceiro milênio ainda nos levou mais dois discos ao vivo de Gal Costa: o insípido Gal Ao Vivo (2006), um registro em CD e DVD da turnê Hoje, além do burocrático Gal Costa Live At The Blue Note (2006), álbum no qual ela reinterpreta os clássicos da Bossa Nova para Inglês ver. Depois do lançamento destes trabalhos, pouquíssimo se ouviu da cantora mais moderna de todo o Brasil durante a segunda metade dos 2000. Alguns diziam que Gracinha tinha desistido de cantar e queria apenas se dedicar à família, outros diziam que era apenas um breve intervalo. O fato é que ficamos sem ouvir Gal lançar álbuns de canções inéditas por mais de cinco anos – uma eternidade para uma artista que sempre produziu com alta frequência.


E quando ainda havia boatos de que Gracinha ainda estava na pior, ela ressurgiu para os olhos de todo o Brasil com um CD que literalmente sacudiu o meio musical no final de 2011. Recanto contou com 11 canções de seu parceiro musical mais recorrente, Caetano Veloso, e fez com que Gal refizesse as pazes com o público e fosse definitivamente louvada pela crítica especializada. Enganaram-se os tolos que achavam que este disco seria mais um disco de MPB easy-listening, com arranjos que remetiam aos discos clássicos que ambos faziam para a Philips nos anos 1970 ou com a musa tropicalista à frente da Banda Cê (power trio que acompanha Caê em shows e discos desde 2006) cantando temas alegres e fáceis de batucar. Recanto era uma viagem ousada de Caetano e Gal conduzida por Moreno Veloso, Kassin e cia. e por sonoridades eletrônicas, de cunho extremamente radical, com letras bastante fortes para serem ditas por aí.


A partir de 2011, Gal Costa passou a desfrutar de um privilégio que pouquíssimos artistas de sua geração conseguiram vivenciar: sua música não apenas rejuvenesceu, como também seu público se renovou. A quantidade de jovens que se somavam aos fãs mais antigos de Gracinha nos shows aumentou em escalas assustadoramente exponenciais. Gal passou a ser uma cantora da maior importância para, nada mais, nada menos do que CINCO gerações. Depois de alguns de ostracismo, a coisa mais linda que existia era simplesmente, brincando com a bela canção de Torquato e Gil, tê-la perto de nós no disco e, melhor de tudo, no palco. Recanto Ao Vivo (2013) é o testemunho audiovisual da paixão e glória de uma das cantoras mais influentes de todo o Brasil, evidenciando uma artista com uma forma vocal simplesmente invejável e com um repertório irrepreensível.


Com o fim da turnê de Recanto, Gal Costa começou a arquitetar as bases do repertório para um novo show. Seguindo às orientações do jornalista Marcus Preto em relação à direção artística e de repertório, Gal reuniu alguns lados B de seus discos (“Caras e Bocas”, “Tuareg”, “Passarinho”) e algumas inéditas para o recital Espelho D’Água, no qual era acompanhada somente por Guilherme Monteiro na guitarra e no violão. As apresentações, que ocorreram entre meados de 2014 e o início de 2015, foram não apenas uma oportunidade para que público e artista revisitassem um legado de décadas, como também serviu para que Gal e Preto arquitetassem o CD Estratosférica ao lado da produção de Kassin e Moreno Veloso.


Gal Costa queria que seu mais recente CD tivesse a mesma sonoridade juvenil de seu antecessor, porém menos radical do que a experiência musical de Recanto. A banda-base que foi reunida para as gravações consiste de Guilherme Monteiro (Guitarra), Kassin (Baixo), Pupillo (Bateria) e André Lima (Órgão e Teclados) e ainda contou com a participação especial em algumas faixas de Davi Moraes (Guitarra), Moreno Veloso (Cello, Piano, Violão, Coro, etc.), João Donato (Fender Rhodes), Armando Marçal (Percussão), Donatinho (Teclados) e o recém-falecido Lincoln Olivetti (Arranjo de Metais). O grande trunfo de Estratosférica não apenas consegue realizar as intenções previstas por seu time criador, como também consegue estabelecer um diálogo com todas as fases da carreira de Gal: “Sem Medo Nem Esperança”, rock de Antonio Cícero e Artur Nogueira que abre o disco, lembra “Vaca Profana”, “Quando Você Olha Pra Ela”, de Mallu Magalhães, nos remete a “Que Pena” (Ela já não gosta mais de mim) e a outros sambas do bom e velho Jorge Ben (quando este ainda não incluído o sufixo -Jor ao seu nome artístico), “Ecstasy”, parceria de Thalma de Freitas e João Donato, parece surgida de Cantar e “Você Me Deu”, parceria de Zeca e Caetano Veloso, dialoga com o universo pop-eletrônico de Recanto.


Ao contrário de alguns de seus colegas de MPB que chegaram à faixa dos 70 anos de idade e dos 50 anos de carreira – a artista em questão atingiu os dois marcos em setembro de 2015! -, Gal Costa decidiu embarcar em uma nave estratosférica com 15 canções inéditas (além de uma faixa bônus), sem olhar para glórias do passado ou homenagens revisionistas. Já na primeira faixa de seu novo CD, Gracinha lança mão de um tom tão ousado quanto na época em que berrava a plenos pulmões que o Brasil precisava estar atento e forte: “Não sou mais tola / Não mais me queixo / Não tenho medo / Nem esperança / Nada do que fiz / Por mais feliz / Está à altura do que há por fazer”. Em outras palavras, Gal Costa chega aos 70 anos dizendo claramente que o essencial é olhar para frente, pois ela ainda sabe que ainda há muito o que ser feito. Permite-se levar pela batida soul de “Jabitacá”, que parece saída de um dos discos da série Racional, de Tim Maia: “Mas não me deixe navegar / Se já não crê no encanto deste mar / Se nossas manhãs se perderam nas ruas sem jardins / Enfeitou a nossa casa / Com a rosa da mais bela cor / Encontrada nas montanhas do Jabitacá”. Além disso, não tem o menor pudor de entoar as libidinosas palavras do velho amigo Tom Zé, que escreveu uma das melhores faixas do disco, “Por Baixo”: “Por baixo do vestido: a timidez / Baixo da timidez: a seda fina / Baixo dela: uma nuvem de calor / Baixo desse calor: um perfume da China”.


Estratosférica traz algumas parcerias inéditas. “Dez Anjos” marca a primeira parceria entre Milton Nascimento e o incensado rapper pop-star Criolo e traz a voz de Gal Costa entoando um lamento urbano pontuado pela bateria de Pupillo e pelo cello de Moreno Veloso: “Seis almas pra tentar / Sete almas dizem não / Oito almas pra sofrer / Nove almas narrarão / Que dez anjos vão morrer / Todos sem arma na mão”. Já a filosófica “Espelho D’Água” é o fruto do primeiro encontro musical entre os irmãos Marcelo e Thiago Camelo: “Eu vi a revoada / O mar, estrela e o nada / Os olhos da morena / E o nosso espelho d’água”. Já a sensual “Ecstasy” surgiu de uma colaboração entre a cantora e atriz Thalma de Freitas com João Donato, que tocou o piano Fender Rhodes na faixa: “Diga que deseja ter pra si / A maravilha de um pleno existir / Um amor assim / Para chamar de Ecstasy / Adorado amor, tão elegante / Multicolor, fascinante / Viver com você / É alcançar o Ecstasy”. Além disto, Gal gravou pela primeira vez uma canção escrita por Marisa Monte – “Amor Se Acalme” foi uma canção escrita especialmente para a eterna musa do Tropicalismo e reproduz com exatidão o universo de amores e paixões intensas tão comuns ao universo de Memórias, Crônicas e Declarações de Amor: “Amor se acalme / Que a noite já vai dormir / A alma passeia / E o nosso corpo fica aqui / Se isto é sonhar, não sei / Parece viver, só eu e você”.




Este CD de Gal Costa mereceria nota 10 se não fosse por um único detalhe sórdido. Não nos referimos ao repertório, que é irrepreensivelmente belo e moderno. Não é pela capa com a foto de Bob Wolfenson, que conseguiu produzir mais uma imagem fantástica e icônica de Gracinha. Não é pela produção e direção artística impecáveis de Moreno Veloso, Kassin e Marcus Preto. É por causa das faixas-bônus deste trabalho. Estratosférica ganhou três edições: uma em LP, uma em CD e outra digital. Por uma estratégia de marketing errônea da Sony Music, gravadora da artista, o LP não ganhou nenhuma faixa bônus, o CD ficou com apenas uma (uma releitura belíssima de Gal para “Ilusão à Toa”, de Johnny Alf – originalmente gravada para a trilha sonora da novela Babilônia, da Rede Globo) e edição digital concentrou duas gravações que são praticamente inéditas do grande público: “Átimo de Som”, parceria de Arnaldo Antunes e José Miguel Wisnik e “Vou Buscar Você Pra Mim”, canção que Guilherme Arantes compôs especialmente para a intérprete que, por sinal, nunca tinha gravado nada do autor de “Meu Mundo e Nada Mais”.



Estratosférica é o testemunho definitivo que a cantora mais moderna deste país responde pelo nome artístico de Gal Costa. Muitas cantoras tentam imitar, outras tentam copiar, algumas tentam posar de “moderninha”, mas o fato é que gravações como “Muita Sorte”, “Casca” e “Anuviar” fazem com que se torne ainda mais difícil chegar aos pés do Gracinha já fez e ainda irá fazer. Enquanto a concorrência e os haters chegam de circular, Gal voa por um céu de brigadeiro em sua nave estratosférica zumbindo eternamente por nossos ouvidos...