KID
ABELHA – MEU MUNDO GIRA EM TORNO DE VOCÊ
(1996)
O Kid Abelha foi uma das atrações
principais do chamado “Rock Brasileiro” na década de 1980: a bela vocalista
Paula Toller ao lado do saxofonista George Israel, do guitarrista Bruno
Fortunato e de Leoni (baixista, letrista e vocalista, que participou dos
primeiros discos da banda) foram alçados ao estrelato, com canções estouradas
nas rádios, participações em programas de TV e videoclipes no Fantástico.
Na década seguinte, já sem Leoni, o Kid
Abelha perdeu em termos de lirismo e contestação, mas manteve a qualidade
musical de seus discos. Paula Toller foi alçada à condição de sex symbol e passou a cantar melhor,
fazendo uso de seu belo timbre não apenas para interpretar as canções do Kid,
como também clássicos de Tim Maia e Roberto Carlos. Um dos melhores momentos da
carreira da banda é Meu Mundo Gira em Torno de Você, décimo
álbum da banda, lançado em 1996.
Meu Mundo...é um
dos discos mais vendidos da discografia do Kid Abelha – cerca de meio milhão de
cópias vendidas em um pouco mais de 20 anos. O motivo para o sucesso se deve,
em primeiro lugar, pela guinada de Paula, George e Bruno Fortunato por uma
sonoridade mais voltada para o Pop, tendência
adotada desde o início da década de 1990 com os discos Iê Iê
Iê (1992) e Meio Desligado(1994). Além disto, a escolha do primeiro single foi a regravação de “Na Rua, Na
Chuva, Na Fazenda”, de Hyldon, um dos maiores expoentes da música soul
produzida no Brasil.
O álbum é composto de canções de Paula
Toller e George Israel, porém há algumas parcerias bissextas. A primeira delas,
“Como É Que Eu Vou Embora” (primeira faixa do disco), é uma colaboração da
cantora Cris Braun com George. Já a faixa-título é uma parceria de Paula,
George e Jorge Mautner, além de duas parcerias com Lui Farias – “Combinação” e “La
Nouveauté” –, cineasta e marido de Paula. Por fim, “A Moto” é um trabalho da
vocalista do grupo ao lado de Herbert Vianna, guitarrista e líder do grupo Os
Paralamas do Sucesso.
Paula Toller & Herbert Vianna
“Te Amo Pra Sempre” chegou a ganhar um
videoclipe que tocou bastante no verão de 1997 na extinta e saudosa MTV Brasil, com Paula Toller dançando na
praia de biquíni tal qual uma menininha de dezoito anos. Uma canção jovial, com
um refrão marcante como chiclete, com a duração perfeita para tocar no rádio e
grudar nos seus ouvidos para sempre. Dentre os lados B de Meu Mundo...está
“Vou Mergulhar”, décima faixa do disco, que faz alusão direta a “Além do
Horizonte”, lendária parceria de Roberto e Erasmo Carlos.
A crítica especializada da época
detestou o disco, com versos completamente despretensiosos como os de “O Animal”,
que encerrava o disco: “Me mimar demais / Foi o seu mal / A partir de agora / Seja
um animal”. Os fãs ignoraram a caretice dos críticos e fizeram com que Meu
Mundo...recebesse reedições de ouro e de platina, com
remixes dos sucessos do disco.
Se eu fosse escolher um disco essencial
do Kid Abelha, não pensaria duas vezes e ficaria com Meu Mundo Gira
em Torno de Você. Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato
resumem em um único disco toda a essência de seu trabalho...
Lojas de discos sempre foram o meu
local preferido no mundo. Se elas são grandes e possuem livros à mancheia,
tenho vontade de entrar nelas e não voltar para a vida social nunca mais,
afinal eu sempre teria algo de novo para ouvir ou alguma coisa de interessante
para ler.
O século XXI e a Era da Mediocridade infelizmente
não conseguem conviver com as lojas de discos. Música se tornou um artigo
supérfluo, que basicamente se ouve no rádio do carro ou nos fones de ouvido de
celular. Visito as casas das pessoas e não vejo mais as coleções de LPs e CDs
impondo suas presenças nas salas de estar, para minha tristeza e decepção. As mídias
musicais continuam cada vez mais caras e são embaladas em um digipack vagabundo. As poucas lojas de
discos que sobraram se tornaram espaços frequentados por colecionadores e
amantes ferrenhos da arte musical como eu, que se satisfazem com tais fetiches
encontrados em utopias sonoras.
A lendária Modern Sound, em Copacabana
As lojas de discos não sobreviveram à
chegada do MP3 e ao streaming e
muitas tiveram que fechar suas portas. Quase morri de tristeza quando a Modern Sound, a lendária loja da Rua
Barata Ribeiro, em Copacabana, fechou. Toda vez que eu ia ao Ilha Plaza
Shopping, localizado na Ilha do Governador, no subúrbio carioca onde nasci e me
criei, e constatava que uma loja de CDs tinha encerrado suas atividades, sentia
pontadas no coração. Não deixei de bradar o meu ódio mortal quando a Neto Discos, localizada no coração da
Rua Augusta e onde comprei alguns dos itens mais adorados da minha coleção de
discos, deixou de existir para virar um restaurante mexicano.
Um vendedor da antiga Neto Discos, na Rua Augusta
Ainda bem que existem alguns recantos
nos quais ainda podemos exercitar nossa paixão por versos e sons em LPs e CDs:
a Augusta velha de guerra, a Galeria do Rock e o sebo Berinjela são pilares de
resistência que ainda me fazem feliz tal qual os protagonistas dos filmes
Durval Discos (Anna Muylaert) ou de Aquarius (Kleber Mendonça Filho), ao ouvirem
um clássico da música (inter)nacional soando truinfal por uma sala.
Marisa Orth & Ary França em Durval Discos (2002), de Anna Muylaert
Sonia Braga em Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho
*
Eu poderia encher várias linhas com
anedotas cômicas, bizarras, vergonhosas e tristes sobre minhas experiências dentro
de lojas de discos. Todavia, gostaria de resgatar uma experiência mais recente
e que foi bastante especial para mim...
*
Carolzinha & Eu - uma amizade de quase vinte anos
Minhas temporadas de férias no Rio de
Janeiro sempre são bastante intensas e animadas. Especialmente porque não
consigo mais passar mais de sete dias na Cidade Maravilhosa. Por isso, meus
encontros com minha amiga Caroline Rohan, que me ama e me aguenta por quase
duas décadas de amizade, sempre são hilários e repletos de boas memórias. Nosso
último encontro de 2016 foi na nossa Copacabana velha de guerra e de tantas
anedotas para contar.
Carolzinha me levou a um paraíso que todo
amante da boa música gostaria de ir na época de Natal: em uma loja de discos na
Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Posto 5. Depois de ter jurado que não gastaria
nem um centavo com novas aquisições, entrei em contradição ao ver a vitrine com
algo extraordinário: uma cópia do álbum de 1973 de Frank Sinatra em LP muito
bem-conservada e por um preço baratinho. Ao ver a capa de Ol’ Blue Eyes is Backcom o
sorriso reluzente e triunfante da Voz,
ignorei por alguns minutos de que ainda nem tenho um tocador de discos de vinil
em casa. Fiquei namorando outros LPs e alguns CDs, mas minha paixão por Sinatra
falou mais alto do que a razão- além da vitrola que ainda não tenho, estou em
uma quebra de braços com a falta de espaço para meus livros e meus discos.
Depois da farra e de algumas conversas
e com o meu Sinatra debaixo dos meus braços, continuamos nossas andanças por
Copa, fomos visitar a recém-inaugurada estátua de nosso amado mestre Nelson
Rodrigues e paramos em um bar para tomar nossas bebidinhas que os canários não
bebem. Antes de ir embora da Zona Sul, pedi a Carol que me levasse para o Beco das Garrafas, um beco na Rua
Duvivier onde Elis Regina começou a cantar e fez história. Fiquei encantado ao
saber que a tal esquina hoje abriga uma loja de discos com uma seção fabulosa
de livros de música.
O melhor da visita à Bossa Nova &
Companhia foi poder conversar com os vendedores da loja, entusiasmados em falar
comigo porque Carolzinha fez questão de dizer que o amigo dela era escritor e
possui um Blog sobre música. Conversamos sobre as discografias de Ney
Matogrosso e Maria Bethânia, contei algumas histórias e ouvi outras deliciosas.
Fiquei com vontade não apenas de ter lançado meu livro por lá, como quis ficar
por lá para sempre, pois a atmosfera do local é composta de versos e sons da
melhor qualidade.
Saí de Copacabana com a crença de que a
vida ainda pode ser leve e doce. Tranquila como uma canção de amor entoada por
Frank Sinatra, poética como um samba gravado por Maria Bethânia e intensa como uma
interpretação antológica de Elis Regina. Graças a uma amiga adorada e que
sempre está disposta a me fazer feliz – naquele dia, eu ganhei de presente um
chaveiro de lembrança com os nomes de Tom Jobim e de Vinícius de Moraes, dois
dos arautos da música brasileira moderna. Graças a Caroline Rohan, meu amor
pela arte musical, livros e lojas de discos anda comigo aonde quer que eu vou:
afinal, sempre é bom estar em boa companhia...
Feriado de Páscoa. Segundo os
católicos, é o tempo da morte e do renascimento de Jesus Cristo. Um homem
bondoso que foi morto como bandido pelos poderosos de sua época e ressuscitou
dias depois para salvar a humanidade de todos os seus pecados. Hoje em dia, os
cidadãos comuns aproveitam os dias de folga para viajar, esquecer do trabalho,
se embrenhar em filas intermináveis para comprar quilos e quilos de bacalhau e
ovos de chocolate cada vez mais caros e fazer jus às convenções típicas da
classe média.
Não comprei um ovo de páscoa sequer
este ano. Algo bastante chato para um chocólatra assumido e compulsivo que
sempre fui. Em tempos de crise econômica, social e política no Brasil, investir
40 reais em um único presente é uma indecência para um trabalhador assalariado
como eu. No entanto, muitos brasileiros faziam volume nas filas intermináveis
dos supermercados e dos shopping centers, fazendo a alegria das indústrias e da
iniciativa privada até o final do sábado de aleluia.
Além disto, a Páscoa de 2017 tem o
sabor amargo do noticiário, pipocando notícias sobre a corrupção da classe
política e das empreiteiras que financiavam as campanhas eleitorais através do
“Caixa 2”, isto é, dinheiro oficialmente não declarado para as autoridades. O
mais revoltante não é o fato de que empresas grandes como a Odebrecht sempre
financiou partidos de esquerda e de direita como o PT, o PMDB e o PSDB, e sim a
desfaçatez do GAFE, que sempre soube das negociatas feitas por debaixo dos
panos da política brasileira e age como se a relação das grandes corporações
com os governos fosse a maior novidade desde a invenção da pólvora ou da bomba
atômica. Sem mencionar o tratamento distinto para líderes políticos: o
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi “favorecido” por vantagens
indevidas enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria recebido
propina das mãos de empresários.
A classe política brasileira enriqueceu
e se manteve no poder graças a orçamentos superfaturados realizados mediante
pagamentos gordos de propina. Dinheiro público que poderia ser investido para o
bem-estar das instituições públicas, já que são quantias geradas pelos impostos
altíssimos que pagamos. Infelizmente os candidatos que se elegem e vencem os
pleitos eleitorais não o fazem por desejarem o melhor para o seu povo, mas sim
porque possuem interesses exclusivos no fortalecimento de suas contas
bancárias.
Enquanto o GAFE faz barulho e
estardalhaço diante do espetáculo das delações premiadas (uma maneira bastante
cômoda para estes figurões graúdos se safarem de penas mais agressivas, não?),
boa parte da sociedade brasileira que saiu de panelas nas mãos se calou. Não se
ouve mais o som incômodo de uma panela vazia nos bairros de classe média ou de
classe média alta. O que aconteceu? O poder de compra dessas pessoas aumentou?
A perplexidade tomou conta destes lares? Ou será que estas pessoas estão em
estado de choque diante desta pantomina ridícula?
Enquanto isto, o golpista Michel Temer
tenta dar prosseguimento a um governo ilegítimo e com o seu pacote de medidas
para “resolver” a crise econômica que não foi aprovado por, pelo menos, 54
milhões de brasileiros. Segundo os delatores da Odebrecht, era o próprio
Vice-Presidente do governo Dilma Rousseff que comandava os esquemas de propina
a serem distribuídos para o PMDB. Nove de seus ministros estão citados nos
depoimentos com suspeita de corrupção. Se citarmos os integrantes das comissões
especiais da Câmara dos Deputados que votaram a favor do impeachment de Dilma, 35 de 38 deputados estão citados nas delações
premiadas. Ouço panelas para este fato? Não...
Enquanto os funcionários do Palácio do
Planalto ficam de olho no que postamos nas redes sócias a respeito dos fatos e
acontecimentos sobre a política brasileira, a mudez deixa de ser um privilégio
dos inocentes que se vestiram de verde e amarelo com panelas de teflon nas
mãos. Passamos a observar o silêncio dos imbecis em meio a este espetáculo
dantesco no qual se tornou a política nacional. O radicalismo dos discursos de
extrema-direita se agiganta enquanto muitos militantes de esquerda assistem,
também em pleno choque, ao desmonte da classe que domina o Poder Executivo.
Lembro-me de alguns versos de uma das
pouquíssimas canções da Legião Urbana que me agradam. Em “O Teatro dos
Vampiros”, Renato Russo nos diz abertamente que “os assassinos estão livres /
nós não estamos”. Os vampiros estão a sugar nossas forças de trabalho, nossas
demonstrações de honestidade, nossas crenças em dias melhores. Renato estava
certo, infelizmente: ao pensar sobre os horrores, eu tenho a impressão de que
envelheço dez semanas a cada hora que passo.
Enquanto os ovos de páscoa farão a
festa de milhares de famílias brasileiras para celebrar a ressurreição do homem
que foi crucificado (como um marginal, meus caros: não se esqueçam!), o
silêncio dos imbecis diante dos escândalos de corrupção se fará ainda mais
presente. E a lógica do “bandido bom é bandido morto” diante de qualquer morto
de fome que faz de sua navalha o seu cartão de crédito para algo desejado será
lembrada como uma maneira de se fazer justiça. Afinal, quem precisa de um
bandido de estimação qualquer se criamos a pão de ló 513 deputados, 81
senadores e uma família de parasitas no Palácio do Jaburu, em Brasília?
Minha consciência diante de todos os
fatos e acontecimentos mostrados aqui de maneira não muito polida e elegante
fica tranquila, diante da seguinte constatação: não traí minha pátria, não a
crucifiquei. Sempre deu o meu melhor pelo meu país e continuarei a fazê-lo
enquanto alguém não me crucifica por aí com algum desejo vago de justiça...
“I’m a role
model for those who dare to be different. For those who dare to take a stand in
their life and have an opinion.”
(Madonna)
No ano de 1994, Madonna vivenciava uma
das maiores encruzilhadas de sua carreira até então. A Pop Star precisava se reinventar urgentemente para que pudesse
continuar no topo das paradas de sucesso e, principalmente, sobreviver aos
ciclos velozes e (às vezes) furiosos da cena musical dos anos 1990. Like A Virgin já tinha completado uma
década de explosão, enquanto o combo bombástico composto pelo álbum Erotica, o livro Sex, o filme Body of Evidence
e a turnê The Girlie Show colocaram
Madge no topo da lista das celebridades mais controversas e discutidas da mídia
do planeta entre 1992 e 1994.
Em suma: Madonna era persona non-grata
número 1 de acordo com muitas famílias tradicionais do mundo inteiro por não
ter tido a menor vergonha em falar de sexo (em sua plenitude) de maneira
extremamente despojada e depravada para o mundo. Seus fãs eram considerados
admiradores de uma “vagabunda sem classe” e blá blá blá… Bedtime Storiesfoi o
contra-ataque de Madge aos seus inquisidores de plantão. A começar pelas fotos
do próprio CD, que revela uma Madonna mais sóbria, sensual e elegante em um
belíssimo ensaio fotográfico de Patrick Demarchelier, renomado fotógrafo do
universo da moda. As imagens não lembram em absolutamente nada a mesma Pop Star que estava de chicotes de couro
em punho meses antes.
Tal qual seu grande muso inspirador,
David Bowie, Madonna também decidiu realizar uma grande transformação em seu
som: sai da cabine de som o habitual parceiro Shep Pettibone (que já produzira smash hits como “Vogue” e “Erotica”) e
entram em cena um quarteto fantástico de produtores que estavam envolvidos com
o Pop e o R&B da época. São eles: Nellee Hooper, Dallas Austin, Dave “Jam”
Hall e Babyface. Por conta disto, a música de Madonna nunca soou tão negra
quanto na época de Bedtime Stories. Samples de Stevie Wonder, Aaliyah, Herbie
Hancock, dentre outros permeiam as batidas deste trabalho. As letras são mais
confessionais e tratam de temas altamente presentes nas canções da Pop Star: amor, ausência, hipocrisia,
hedonismo, obsessão…
“Inside of Me”, quinta canção do
disco, versa sobre uma presença amorosa que existe apenas no retrato da cama e
nas memórias da voz que está cantando. Seria esta pessoa um(a) amigo(a) querido(a),
ou a própria mãe de Madonna – morta quando a Pop Star ainda era criança? A produção de Hooper e os vocais
sussurrados de Madge resultam em uma faixa repleta de groove e sensualidade,
espantando a melancolia e o romantismo óbvio para bem longe.
“Survival”, “Human Nature” e “Love
Tried to Welcome Me”, por exemplo, revelam o ressentimento e a (eterna!) culpa
cristã de Madonna em relação aos que colocaram sua cabeça a prêmio. Versos como “I’ll never be an angel / I’ll never be a
saint, it’s true / I’m too busy in surviving / Whether it’s heaven or hell /
I’m gonna be living to tell” (“Survival”); “You punished me for telling you my
fantasies / I’m breaking all the rules I didn’t make” (“Human Nature”) ou “I
know how to laugh, / but I don’t know happiness / And I must confess, instead
of spring, it’s always winter / And my heart has always been a lonely hunter
(…)” (“Love
Tried to Welcome Me”) revelam toda a angústia que Madonna sentia e vivia
naquele período – um álbum, um livro e uma turnê que revelaram uma atitude de
independência e despudor para falar de tabus em uma era na qual os EUA e o
resto do mundo estavam mais conservadores com a cartilha do neoliberalismo e a
ascensão das mortes por AIDS, dentre outros problemas lhe renderam um preço
altíssimo.
“I’d Rather Be Your Lover”, “Take a
Bow” e “Forbidden Love”, produzidas por Dave Hall e Babyface tiveram
participações especiais. A primeira delas, por exemplo, chegou a receber a
contribuição do rapper Tupac Shakur (que, dizem certas línguas, teve um breve
romance com Madonna): como Tupac fora preso na época da finalização de Bedtime Stories,
a Warner Bros. Decidiu cortar os versos do artista e substituir o rap pelos improvisos da baixista e
cantora Me’Shell N’dgé Ocello, rendendo um resultando tão provocante quanto o
original, pois a letra passa a sugerir uma relação lésbica. “Take a Bow” e
“Forbidden Love” tiveram a produção e os backing vocals de Babyface (nome
verdadeiro de Kenny Edmonds) tiveram bastante popularidade no final da primeira
metade dos anos 1990. Se formos pensar nas três das melhores baladas
interpretadas por Madonna, “Take a Bow” obrigatoriamente deve constar entre
elas.
No grupo das faixas de Bedtime Storiesque apontam
as transformações mais radicais do som de Madonna estão as faixas 9 e 10 do
álbum. “Sanctuary” é marcada por uma batida trip hop hipnótica que flerta com a
sonoridade dos álbuns do Massive Attack (grupo com o qual Madge trabalharia
pouco depois). “Bedtime Story”, única faixa do disco que não fora composta pela
Pop Star”, é uma parceria de Björk com Nellee Hooper e Marius de Vries: uma
mistura intricada de sons eletrônicos com batidas de House, Ambient Music, New Age e Techno.
Devemos fazer uma menção à parte para
o videoclipe de “Bedtime Story”: dirigido por Mark Romanek – que já trabalhara
com a artista no premiadíssimo “Rain” –, o clipe é repleto de efeitos visuais
de última geração lá pelos idos de 1994-1995 e inspirado em pinturas
surrealistas e na obra de Frida Kahlo. A apresentação desta canção no Brit
Awards na qual Madonna vestia um Versace e um longo aplique nos cabelos, é um
dos melhores momentos jamais vistos na história de prêmios de música Pop em
todos os tempos.
As duas faixas de Bedtime Storiesque deixamos
para o fim deste texto são “Don’t Stop” e “Secret”. A primeira faixa trata do
tema mais recorrente nas canções de Madonna: o hedonismo que surge nas pistas
de dança. Após a passagem de vibrações muito pesadas, Madge propõe um convite
muito simples para o seu ouvinte – que ele deixe a música e o ritmo lhe levar para
o esplendor do êxtase proporcionado pelo bom e velho groove. Já a segunda faixa, que foi o primeiro hit single de Bedtime Stories,
é uma das faixas mais enigmáticas da discografia da Pop Star. Versos como
“Happiness lies in your own hand / It took me much too long to understand / How
it could be / Until you shared your secret with me” não trazem meras
constatações por parte de uma das maiores artistas do século XX, pelo
contrário, eles provocam ainda mais perguntas em torno da natureza do segredo
que tinha sido compartilhado…
“Secret” era a pá de cal que Madonna
lançava em relação ao som que estava desenvolvendo até o início da década de
1990. A voz que canta com um violão folk
ao fundo para abrir espaço para uma batida R&B marcante. Pela primeira vez
em sua carreira, o som e a imagem da loura que sacudiu o planeta com o discurso
lascivo de “Like A Virgin” convergiram para um conjunto mais light, porém não
menos denso e provocante.
Bedtime Storiesnão
rendeu o primeiro lugar das paradas para Madonna. No entanto, o disco recebeu reviews bastante favoráveis da crítica
especializada. Certamente, é um dos discos mais importantes da obra musical da
Rainha do Pop e que, por sua deliciosa mistura de sons e imagens, merece sempre
ser ouvido com intensidade e paixão...