A vida tem me ofertado uma série de "nãos" nos últimos dois anos. Daqueles bem grandes, em letras garrafais, típicos de serem expostos em outdoors em praça pública. Às vezes me revoltei, em outras me deprimi. Em nenhuma, baixei a cabeça e deixei de me levantar e seguir lutando. Afinal de contas, se chorei ou se sorri, o importante é que muitos "nãos" eu vivi...
Chorar de pena de si próprio é aceitável. Porém, a sua lágrima pode ser o troféu do inimigo, por isso, evito o choro em público a qualquer custo. Depois do susto da queda, é preciso praticar a arte do sorriso: na impossibilidade de sorrir de felicidade, vamos sorrir nem seja de raiva, de ódio ou pelo puro exercido do sarcasmo nosso de cada dia. Levantar, sacudir a poeira, dar a volta por cima e seguir lutando.
Não creio em perfis de sucesso. Creio no resultado de muito trabalho, persistência e excelência naquilo que se faz. Creio em episódios bem-sucedidos, em circunstâncias distintas - isto é, o velho "estar no lugar certo e na hora certa". Não creio em resultados obtidos por meio de bajulação ou "puxasaquice", creio em competência. Minhas crenças não me oferecem um lugar confortável no meio acadêmico, tampouco no mercado de trabalho. Infelizmente, eu preciso pagar um preço alto por ser íntegro e coerente com os meus princípios. Eis o maior "não" que a vida me dá.
As pessoas acostumadas com a importância do sucesso e da felicidade em suas vidas arrotam meias-verdades e frases feitas por aí como se tivessem o maior conhecimento filosófico possível. Pessoas obcecadas por princípios éticos e justos são sempre aquelas que leem mais, que pesquisam mais, que questionam mais, que incomodam mais. Os "bem-sucedidos" de acordo com as leis do mercado de um mundo capitalista são os oportunistas limitados que creem em perfis de sucesso. Os incompreendidos e marginalizados pela sociedade são os que não se enquadram nas caixinhas que aprisionam toda espécie de pensamento.
Eu me orgulho de pertencer ao segundo grupo. Com muitos "nãos", com poucos sons de "sim" e inúmeras respostas dizendo "talvez" ou "quem sabe?". Repito: o preço é alto. O retorno e a recompensa são poucos. Por outro lado, ter minha liberdade de pensamento e a independência intelectual preservadas são duas coisas para as quais não há preço algum. Em meio à dor da negação e o livre trânsito por portas que se fecham e portais que se abrem, é importante sorrir. Apesar da incerteza, mesmo com a temporária escuridão, sigamos sorrindo e cantando. Afinal, esta é a maior arte a ser desenvolvida por cada um de nós...
Patti
Smith é, sem a menor sombra de dúvidas, a mulher mais inteligente que já surgiu
no universo do Rock ‘n’ Roll. Não
canta como Janis Joplin ou Tina Turner; não tem o glamour punk/new-wave de Debbie Harry, não é tão agressiva e/ou
arrogante como Joan Jett e tampouco faz parte da tendência
diva-oportunista-rebolativa-comercial de Madonna, Taylor Swift, Beyoncé ou
Barbra Streisand.
Avessa
a estratégias de marketing que ditam as regras do mainstream fonográfico, Smith foi uma poetisa que adentrou os
portões do Olimpo do Rock por mero acaso e que se manteve distante dos clichês
regidos pelo trinômio Sexo, Drogas e Rock
‘n’ Roll.
Oriunda
de uma família de classe média baixa dos EUA sempre foi uma mulher simples e fiel
a seus princípios morais e às suas referências artísticas (Arthur Rimbaud,
Allen Ginsberg, Jimi Hendrix, Jim Morrison e Bob Dylan são algumas das
principais). Ao mesmo tempo em que se aventurou pela música, esta senhora que
completará 70 anos de idade em 30 de dezembro de 2016 sempre publicou livros de
poemas (Auguries of Innocence, de 2005 é o mais recente) e,
em 2010, publicou Just Kids (em português: Só
Garotos), livro que conta as suas memórias ao lado de seu grande amigo, o
fotógrafo e artista plástico Robert Mapplethorpe (1946-1989).
Sua
discografia, no entanto, merece comentários mais extensos do que meras menções
neste post: seu an-to-ló-gi-co (sim, separado por sílabas!) disco de estreia, Horses
(1975), é um dos discos mais importantes dos últimos tempos e seus demais
álbuns – Radio Ethiopia (1976), Easter (1978), Wave (1979), Dream of Life(1988),
Gone Again (1996), Peace & Noise(1997), Gung Ho(2000), Trampin’
(2004) e Twelve (2007)– são provas
definitivas de como a aliança entre poesia, Rock,
atitude, humildade e engajamento é algo que faz de Patti um verdadeiro
clássico, porém, às vezes, perdido: infelizmente são poucos os brasileiros que
conhecem o poder de fogo que Patti Smith lança através de suas performances
gravadas em discos e livros.
Banga
é o 13.º álbum lançado por Mrs. Smith (incluindo coletâneas e trabalhos de canções
inéditas). Concebido entre viagens de Patti pelo mundo, é um trabalho que
dialoga diretamente com Just Kids,
pois os dois projetos revelam ao grande público o universo particular de
Patricia Lee Smith: seus amores, seus ideais artísticos, sua íntima relação com
Mapplethorpe, seus olhares sobre o que aconteceu no mundo nos últimos cinco
anos, sua saudade dos que já se foram deste mundo… (Amy Winehouse, Johnny Depp,
Maria Schneider, Nikolai Gogol, Américo Vespúcio e Andrei Tarkovsky são alguns
dos homenageados por Patti Smith no disco.
A
coleção de 12 canções que compõe Banga fala das mais variadas formas de
viagem – relatos de um explorador (“Amerigo” – em homenagem a Américo
Vespúcio), voos literários e cinematográficos (“April Fool” e “Tarkovsky” –
tributos ao escritor russo Nikolai Gogol e ao cineasta russo Andrei Tarkovsky),
ondas devastadoras (“Fuji San” – Rock composto para homenagear o povo japonês,
seriamente abalado pelo terremoto e pelo tsunami que se abateu sobre o seu
território em 2011), baladas em homenagem a uma menina tristonha e a um ícone
da sétima arte (“This is the girl” e “Maria” foram compostas para homenagear a
cantora Amy Winehouse e a atriz Maria Schneider, mortas em 2011), um mosaico de
sons e outro caleidoscópio de imagens (“Mosaic” – que narra uma viagem de Patti
pela Turquia), uma ode ao astro de cinema e uma lullaby song para o querido afilhado (“Nine é uma homenagem a
Johnny Depp; já “Seneca” é um mini-diário de aventuras e conquistas
poético-musicais dedicado a Seneca Sebring), o projeto transcendental de um
velho italiano e o protesto do velho roqueiro canadense (o épico “Constantine’s
Dream” – de mais de 10 minutos – descreve um sonho que Patti teve em 1988 e uma
belíssima releitura de “After the Gold Rush”, de Neil Young, resgatando o
lamento de 1970 para as gerações que sofrem com os autoritarismos da espécie
humana em pleno século XXI)…
Estes
pares todos entremeados pelo latido intermitente de um cão (“Banga” é o nome do
cão do romance russo Magarita e o Mestre, de Mikhail Bulgákov) vindo
diretamente da ficção para nos avisar: “Believe
or Explode!” (Creia ou Exploda!).
Concebido
após o lançamento de seu livro de memórias, Banga
foi gravado no Electric Lady Studios (construído e popularizado por Hendrix) e
é mais uma colaboração de Patti, seus já habituais parceiros musicais (o
guitarrista Lenny Kaye, o baterista Jay Dee Daugherty e o baixista e tecladista
Tony Shanahan), alguns convidados especiais (Johnny Depp toca bateria e
guitarra na faixa-título; já Tom Verlaine, guitarrista do Television e velho
amigo de Smith, participa de “Nine”) e membros da família (Jackson Smith e
Jesse Paris Smith, frutos do casamento de Patti com o guitarrista do MC-5, Fred
“Sonic” Smith, tocam, respectivamente, guitarra e piano em algumas faixas deste
trabalho).
Há
pessoas (eu me incluo nesta lista!) que acreditam que Banga
é o melhor trabalho lançado por Patti Smith desde Easter.
Existem outros que dizem que este está entre os melhores discos lançados em
2012. Trata-se de um disco com referências poéticas mais evidenciadas pela
própria autora no encarte deste trabalho e que deixa a ferocidade do discurso
punk em segundo plano. De fato, é um disco que não carrega a agressividade tão
característica de trabalhos anteriores como Radio Ethiopia e os
gêmeos Gone Again e Peace & Noise,
mas ainda mantém Patti como um baluarte do Rock mundial e pode tornar seu
legado musical ainda mais perceptível para os jovens do século XXI que deveriam
conhecê-la e/ou ouvi-la com mais frequência.
É
preciso dizer que o primeiro disco de inéditas de Patti Smith nos anos 2010 não
deixa de ser um grande disco de Rock.
Afinal, ouvir música inteligente em tempos não tão inspirados como os nossos é
mais do que uma necessidade: é uma obrigação para o bem-estar dos seus
ouvidos... Como diria o mote deste disco: “Believe
or Explode”!
“Dizem
que a mulher é o sexo frágil Mas que mentira absurda”
(Erasmo Carlos, 1981)
O mundo do cinema
foi abalado recentemente por uma revelação bombástica do cineasta italiano
Bernardo Bertolucci: a atriz Maria Schneider, que tinha estrelado o filme cult O Último Tango em
Parisao lado de Marlon Brando, tinha sido estuprada por seu colega
de elenco graças a uma orientação do diretor. A suposta verdade que Schneider
transmitia ao ser violada por um Brando com as mãos lambuzadas de manteiga era
uma dor verdadeira e fruto de uma indignação sem tamanho com Marlon e,
principalmente, com Bertolucci.
Marlon Brando & Maria Schneider
A confissão
do crime do cineasta italiano não só abalou Hollywood, como também deixou o
mundo do cinema em polvorosa. Maria Schneider jamais se recuperou do trauma e
se tornou em uma viciada em drogas, com vários episódios de crises depressivas
e de overdoses. Entretanto, Maria fez de sua dor e de sua depressão estandartes
para que ela se tornasse uma verdadeira defensora ferrenha dos direitos das
mulheres no meio cinematográfico.
A história
de Maria Schneider é mais um capítulo dramático do quanto a repressão do
universo machista, misógino e cruel pode fazer mal para muitas mulheres. No entanto,
ela não foi a única que fez de sua dor e sofrimento um instrumento de
contestação e resistência contra aqueles que sempre ditaram as regras do jogo. Exemplos
de fortalezas femininas que se levantaram contra o ódio sexista devem ser
lembrados e homenageados sempre que possível. Eu, como um aberto defensor do
feminismo e esperançoso na necessidade de equiparação entre homens e mulheres, também
me aproprio da luta destas guerreiras e aproveito para reverenciar algumas
delas...
Virginia Woolf ao lado de seu pai, Sir Leslie Stephen
Uma das fortalezas
femininas que sempre renderam minha admiração é a escritora inglesa Virginia
Woolf. Terceira filha do casal Leslie e Julia Stephen e casada com o editor
Leonard Woolf, Virginia sofreu horrores por ter sido estuprada por um de seus
meios-irmãos, pela perda precoce da mãe e por nunca ter ido à Universidade – “privilégio”
concedido aos homens da família Stephen.
Leonard Woolf & Virginia Woolf
Virginia aproveitou
a impossibilidade de ir à Cambridge e passava horas e horas estudando na
extensa biblioteca do Pai, um grande intelectual da Inglaterra Vitoriana. Não
foi apenas uma das maiores revolucionárias da Literatura do século XX, como
também se projetou como uma das intelectuais mais importantes de todos os
tempos. A Room of One’s Own (1929) é
um de seus ensaios mais importantes e é uma das bíblias do feminismo.
Rita Lee e o primeiro filho, Beto Lee, em 1977
Uma das
passagens mais comoventes do livro de memórias de Rita Lee é justamente o
momento no qual ela nos conta sobre um aborto realizado em 1977. Ritz nos deixa
claro que não era nenhuma alegria ter que realizar um procedimento daquele
porte. No caso da Rainha do Rock Brasileiro, era uma decisão necessária, pois
ela tinha acabado de sair de uma gravidez de altíssimo risco e de uma passagem
pela cadeia.
Aposto que o
episódio será mais um argumento para que as camadas mais conservadoras da
sociedade brasileira se mobilizem contra a legalização do aborto com a desculpa
esfarrapada do histórico de porralouquices de Rita Lee, ignorando toda as
questões relacionadas à cultura do estupro, que sempre permeou nossa vida
social. Rita não hesitaria em dar de ombros para os conservadores e mostrar-lhes
a bunda; afinal de contas, o pioneirismo maior da velha “Ovelha Negra” foi de
subverter as regras masculinas ao fazer Rock em um país no qual os machos eram
aqueles que empunhavam guitarras em riste e encaravam o microfone diante de
plateias imensas.
Maria Bethânia, Doutora Maricotinha ou Doutora Honoris Causa pela UFBA
Um dos fatos
mais surpreendentes do ano de 2016 aqui no Brasil foi a escolha da Universidade
Federal da Bahia (UFBA) em conceder o título de Doutora Honoris Causa à Maria Bethânia pelo conjunto da obra. Dona de
uma carreira musical de mais de cinco décadas, Bethânia foi pioneira em
integrar música, poesia e dramaticidade em seus trabalhos musicais. E uma das
primeiras artistas da canção popular em receber tamanha honraria. Doutora Maricotinha,
emocionada, fez um belo discurso no momento da entrega do título e passou a
ocupar um lugar em uma galeria geralmente dominada por homens.
Outra
pioneira que merece não apenas o meu aplauso, como também minha gigantesca admiração, é
Patricia Lee Smith, mais conhecida entre nós como Patti Smith. Matriarca do Punk, poetisa intensa, prosadora
inteligentíssima, uma mulher de um histórico de vida extraordinária. Mostrou para
o mundo que as mulheres que fazem Rock’n’Roll
não precisam ser belas, maquiadas e repletas de glamour. A beleza não é fruto de sua maquiagem ou do seu penteado,
e sim resultado de sua inteligência.
Patti gravou
11 discos, publicou 15 livros de poesia e 2 excelentes livros de memórias. Seu disco
de estreia, Horses (1975), é uma verdadeira aula de poesia,
rebeldia e Rock ‘n’ Roll. Influenciou
vários músicos de sua geração e de outras que surgiram. Seus livros de prosa
receberam vários prêmios literários e foram aclamados pela crítica
especializada. Não me surpreendi quando ela foi escolhida por Bob Dylan para
receber o Prêmio Nobel de Literatura em seu nome e cantar um de seus clássicos
diante de um teatro lotado. Nervosa, Patti Smith errou a letra duas vezes e
pediu desculpas para os presentes e nos ofertou com uma das interpretações mais
belas em décadas de atividades.
Patti durante a cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de 2016
O Pop também nos revelou a maior fortaleza
feminina do mundo da música. Madonna está no mundo musical há mais de três décadas,
sempre se reinventando em termos de imagem e som. Aclamada pelos fãs, odiada
por setores da crítica musical e pelos conservadores de plantão e
incompreendida por uma vasta parcela da intelectualidade e de seus pares na
música, Madge se manteve como referência de qualidade e longevidade.
Ao aceitar o
prêmio de Mulher do Ano de 2016 da
Revista Billboard, Madonna falou não
apenas daqueles que lhe deram inspiração, mas também falou a respeito das limitações
sofridas pelo fato de ser uma mulher em universo musical predominantemente
masculino: “Eu me inspirei, é claro, em Debbie Harry, Chrissie
Hynde e Aretha Franklin, mas meu muso verdadeiro era David Bowie. Ele
personificava o espírito masculino e feminino e isso me agradava. Ele me fez
pensar que não havia regras, mas eu estava errada. Não há regras se você é um
garoto. Há regras se você é uma garota. Se você é uma garota, você tem que
jogar o jogo. Você tem permissão para ser bonita, fofa e sexy. Mas não pareça
muito esperta. Não aja como se você tivesse uma opinião que vá contra o status
quo. Você pode ser objetificada pelos homens e pode se vestir como uma
prostituta, mas não assuma e se orgulhe da vadia em você. E não, eu repito, não
compartilhe suas próprias fantasias sexuais com o mundo. Seja o que homens
querem que você seja, e mais importante, seja alguém com quem as mulheres se
sintam confortáveis por você estar perto de outros homens. E por fim, não
envelheça. Porque envelhecer é um pecado. Você vai ser criticada e humilhada e
definitivamente não tocará nas rádios”.
Além disto, Madonna fala da importância de estar viva e da necessidade
das novas gerações de mulheres de se espelharem em outras pioneiras para
continuar seguindo na sua trajetória de fortalezas femininas: “Eu acho que a coisa mais controversa que eu já fiz foi ficar
aqui. Michael se foi; Tupac se foi; Prince se foi; Whitney se foi; Amy
Winehouse se foi; David Bowie se foi. Mas eu continuo aqui. Eu sou uma das
sortudas e todo dia eu agradeço por isso. O que eu gostaria de dizer para todas
as mulheres que estão aqui hoje é: mulheres têm sido oprimidas por tanto tempo
que elas acreditam no que os homens falam sobre elas. Elas acreditam que elas
precisam apoiar um homem. E há alguns homens bons e dignos de serem apoiados,
mas não por serem homens, mas porque eles valem a pena. Como mulheres, nós
temos que começar a apreciar nosso próprio mérito. Procurem mulheres fortes
para que sejam amigas, para que sejam aliadas, para aprender com elas, para as
inspirem, apoiem e instruam”.
O discurso de
Madonna, infelizmente, faz bastante sentido em um contexto no qual as mulheres
são constantemente criticadas e cerceadas pelos homens. Elas recebem salários
inferiores do que os dos homens. São, muitas vezes, chefiadas, assediadas e
injustiçadas pelo sexo oposto. Por isso, lembrar de algumas referências de
fortalezas femininas é algo fundamental para que acreditemos que um dia a
igualdade entre os sexos possa ser uma realidade e não mero fruto de nossas
imaginações.
Existe um profissional da canção
brasileira que representa tudo que há de mais criativo na música deste país:
seu nome é Gilberto Passos Gil Moreira. Com mais de 50 anos de atividades
musicais, Gil é uma verdadeira máquina de ritmos da canção nacional: transita
por diversos universos musicais com bastante naturalidade, possui parceiros dos
mais variados e é detentor de uma obra extensa, multifacetada e reconhecida no
Brasil e no mundo inteiro.
Porém cabe aqui uma questão importante: por onde andava Gilberto Gil em 1972?
Em 14 de janeiro de 1972, Gilberto Gil
retornava ao Brasil depois de um exílio forçado pela ditadura militar
brasileira de quase três anos em Londres. Ao contrário de Caetano Veloso – seu
companheiro musical, de exílio e andanças tropicalistas –, Gil retornou da
Inglaterra com várias ideias musicais para o seu primeiro disco brasileiro
depois de anos ausente. Sua condição de exilado, por incrível que pareça, lhe
trouxe benefícios: a ausência do Brasil lhe obrigou a entrar em contato com o
que existia de melhor na cena da música internacional. Por outro lado, o filho
de D. Claudina finalmente pôs em prática a partir de sua temporada londrina
toda a ousadia em termos de invenções musicais da época do
Tropicalismo.
Expresso 2222foi lançado em
julho de 1972 e marca não apenas o retorno de Gilberto Gil ao seu país de
origem, como também a evolução de seu projeto musical. Um time
excelente de músicos foi convocado por Gil e pelo produtor Guilherme Araújo
para dar forma a este disco antológico: Lanny Gordin ficou responsável pela
guitarra (e às vezes pelo baixo), Bruce Henry pelo baixo, Tutty Moreno pela
bateria e percussão e Antônio Perna Fróes comandou os teclados (piano e celeste)
– além das participações especialíssimas de Gal Costa e Caetano Veloso.
Este álbum de Gil se caracteriza
pelo hibridismo musical, alia a nostalgia ao futuro, a tradição com
a modernidade, além de conter o canto alegre e espontâneo de um dos cantores
mais originais do universo. Por isso, resolvemos dividir a análise deste disco
em três grupos: canções tradicionais, canções inéditas e a faixa-título.
No grupo das canções
tradicionais reunidas estão “Pipoca Moderna” (Caetano Veloso /
Sebastião Biano), “O Canto da Ema” (Alventino Cavalcante / Ayres Viana / João
do Vale), “Chiclete com Banana” (Gordurinha / Almira Castilho), “Sai do Sereno”
(Onildo Almeida) e “Cada Macaco No Seu Galho (Chô Chuá)” (Riachão). Apesar de
ter optado por obras que pertencem ao cancioneiro nordestino tradicional, Gil
optou por não gravar meros covers, mas em realizar verdadeiras releituras dos
clássicos com a linguagem do Pop Rock
dos anos 1970. As participações de Gal Costa (“Sai do Sereno”) e Caetano Veloso
(“Cada Macaco No Seu Galho”) confirmam a vontade de Gilberto Gil em reler
canções de maneiras bastante modernas para o período. Afinal, os “velhos
baianos” ainda eram exemplos de modernidade musical lá pelos idos de 1972.
Já o grupo de canções inéditas compostas
por Gil especialmente para Expresso 2222 traz seis canções:
“Back in Bahia”, “Ele e Eu”, “O Sonho Acabou”, “Oriente”, “Vamos Passear no
Astral” e “Está Na Cara, Está Na Cura”. As três primeiras são belíssimas
crônicas poéticas que abordam a saudade dos tempos do exílio em Londres, a
alegria em retornar à tão amada Bahia e, concluem, lucidamente que “o sonho
acabou” e “quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”.
Sim, Gil sabia que, apesar de ter reconquistado a liberdade, muitas coisas
haviam mudado no Brasil em 1972. E como proceder diante da rigidez dos novos
tempos? Se seguirmos os passos ditados pela voz que canta em “Oriente”, devemos
nos orientar, determinar, (re)considerar novas opções sempre com um sorriso
estampado de forma que possamos dar “continuidade” ao “sonho de Adão”. As
demais canções deste grupo (“Vamos Passear no Astral” e “Está Na Cara, Está Na
Cura”) também refletem a preocupação de Gil em se voltar para o misticismo como
uma maneira de buscar conforto aos sobressaltos do espírito.
Enfim, chegamos à faixa-título do
disco: “Expresso 2222” não é apenas uma das canções mais populares de Gilberto
Gil, como também é um de seus hinos mais significativos. É uma canção sem idade
não só porque quer se projetar para além do ano 2000 que, em
1972, parecia tão distante para os seres humanos, mas principalmente porque
resume em um pouco mais de dois minutos uma mensagem de esperança e crença no
futuro. Quando ouvimos Gil cantar sobre seu mítico ônibus fazendo de seu violão
e de sua voz duas armas brancas de versos, sons e ritmos inconfundíveis,
descobrimos a presença de um embaixador da alegria tão risonho e sorridente que
chega a ser impossível não deixar de sorrir, cantar alto, bater palmas, ou tudo
isso junto.
Por tudo isto e tudo mais que Gilberto
Gil fez pela música do planeta é que devemos ouvir Expresso 2222. Mestre Gil
ainda tem muito a ensinar para os jovens de hoje, não por ser ousado,
inteligente, alegre e irreverente. Simplesmente porque Gil é sinônimo de moderno e,
por isso, um verdadeiro clássico!
"A sorte de ter sido quem sou, de estar onde estou, não é nada
comparada ao meu maior gol: sim, acho que fiz um monte de gente
feliz."
(Rita Lee – Rita Lee: Uma Autobiografia, p. 269)
Rita Lee lançou suas memórias em livro. Um livro para lá de esperado,
interessantíssimo, encantador, honesto, sincero, brutal. Uma narrativa tão
envolvente, que eu li em menos de sete noites (por motivos de força maior, eu
só podia ler as memórias de Rita durante a parte da noite, antes de
dormir).
Se eu fosse a Rainha do Rock Brasileiro, eu teria dado outro título ao
invés de "Uma Autobiografia": daria o título de "Memórias de uma Roqueira Malcomportada"
por causa do conjunto da obra mais sincera que a filha de Dr. Charles e D.
Chesa nos legou. Rita não se compromete em dar detalhes complexos de sua
relação com Os Mutantes ou com os Tropicalistas, tampouco dá explicações
detalhadas sobre sua relação de vida e trabalho de décadas ao lado do parceiro
/ marido Roberto de Carvalho. Datas não são o forte de Madame Lee, o que
compreensível para alguém que foi por anos e anos a livre-docente em
porra-louquice (só perdendo para Ozzy Osborne ou Keith Richards no quesito
"drogas").
Já distante dos palcos e dos holofotes há alguns anos, Rita Lee decidiu
fugir dos clichês que rondam o universo do showbiz
e reuniu suas memórias em livro sem necessitar de um ghost writer, mas com “causos” bem picantes...
Por isso e muito mais, decidi elencar 15 motivos para que você não deixe
de ler o livro de Rita Lee de maneira alguma:
1)Rita Lee relata os seus problemas com as
drogas e com alcoolismo sem rodeios - Sem discurso de "madalena arrependida", a Rainha do Rock
Brasileiro fala de seus antigos vícios sem arrependimento, conta um pouquinho
sobre suas internações em clínicas de reabilitação, do acidente que esfacelou o
seu maxilar e quase a impediu de cantar em meados dos anos 1990 e de várias de
suas operações (mastectomia, hemorroida, cordas vocais, reconstrução dos ossos do
rosto, retirada da vesícula) e de uma surpreendente suspeita de Mal de
Parkinson;
2) Rita Lee encanta os leitores com a
bela família que constituiu - O amor
intenso e verdadeiro por Roberto de Carvalho, por seus três belos filhos, sua
neta e a devoção incansável por seus bichos mil chega a comover o mais
insensível dos leitores. Apesar de toda a inconstância da rotina da mulher
que mais vendeu discos no país (ela vendeu mais discos do que Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia JUNTAS!), Rita conseguiu dar a prioridade desejada ao seu
ninho;
3) Rita Lee conta alguns bastidores
surpreendentes do grupo Os Mutantes, do qual foi uma das fundadoras - A arrogância e os egos estratosféricos dos irmãos Cláudio Cesar, Arnaldo
e Sérgio Dias Baptista, a falta de asseio da residência dOzmano da Pompeia, os
ataques de D. Clarisse (a matriarca da família) não passaram incólumes pelo
olhar e a memória de Rita. Dos episódios com Arnaldo e Serginho, há três fatos
inesquecíveis e surpreendentes:
3a) A prima ninfomaníaca dos Mutantes
- segundo Madame Lee, Claudia Dias
Baptista teria literalmente "passado o rodo" em vários homens que
frequentavam uma academia de artes marciais que todos frequentavam na Vila
Mariana, a ponto do dono do estabelecimento ter sido obrigado a fechar as
portas por conta do escândalo de um homem casado ter se envolvido com uma
aluna. Hoje, Claudia é conhecida pelo público brasileiro como Monja Coen, uma
liderança budista;
3b) A irreverência e a anarquia dos
irmãos Mutantes assombrava mais da metade do mundo musical - De acordo com a autora, o ataque cardíaco fulminante de Vicente
Celestino teria sido causado pelo choque de ver os irmãos Baptista aprontando
suas estripulias com seus instrumentos musicais. O intérprete de "Coração
Materno", que tinha sido convidado para participar do programa coletivo Divino Maravilhoso, tinha ficado
bastante transtornado com a passagem de som dos rapazes, que tinham ligado os
instrumentos no volume máximo durante uma passagem de som e fez com que
Celestino começasse a passar mal dentro dos estúdios de TV. Segundo Rita, o
episódio "pegou mal" para a reputação dos Irmãos Baptista;
3c) Desligando Edu - O episódio no qual Os Mutantes deveriam abrir um show de Edu Lobo em
Portugal me rendeu altas gargalhadas. Depois de terem sido esnobados pelo autor
de "Ponteio" de maneira bem grosseira, Arnaldo, Sérgio e Rita, em um
ato de molecagem explícita, decidiram procurar pelos fios que ligavam o
equipamento de som de Edu e simplesmente cortaram os fios da apresentação,
inviabilizando o show. Sim, aqueles meninos poderiam ser mais terríveis do que
se poderia imaginar...
4) Rita Lee e o lendário casarão
da Vila Mariana - Localizada
no número 670 da rua Joaquim Távora, a residência dos Jones abrigou várias
histórias hilárias e algumas tristes do casal Charles Fenley Jones e Romilda
Padula Jones (mais conhecida pelo apelido de Chesa), pais de Rita e de suas
irmãs mais velhas - Mary Lee Jones e Virgínia Lee Jones. A presença de Balú e
Carú, amigas de parentes que se tornaram, posteriormente, em babás e anjos da
guarda da família, formava o harém irreverente e católico (Dona Romilda
colocava a imagem de Nossa Senhora Aparecida em cima da TV durante as
eliminatórias dos festivais da canção dos quais Os Mutantes participavam) que
contrastava com o exército de um homem só formado pelo sargento Charles, que
controlava tudo com seu olhar intimidador e com mão de ferro.
5) Rita Lee Fã - É, no mínimo, surpreendente que a mulher que mais vendeu discos no
Brasil seja uma fã tão ardorosa de James Dean (sua eterna paixão!) e de David
Bowie (a quem confessou ser fãzoca - Disse ela a Bowie: "I'm such an old fan of yours", no
que ele respondeu, com sua elegância indefectível e seu humor inglês: "Oh yeah, I'm such and old singer").
Pelo fato de sempre ter sido tiete de seus ídolos, Rita alega sempre ter
compreendido a idolatria (às vezes, desmedida e excessiva) de muitos de seus
admiradores.
6) Rita Lee conta os detalhes de sua
primeira vez na prisão, em 1976 - O grande público toma conhecimento dos detalhes que levaram a autora de
"Ovelha Negra" para detrás das grades. Em solidariedade à mãe de um
fã dos Mutantes que foi morto em uma apresentação do grupo em Itaquera, Zona
Leste de São Paulo, anos antes, Rita decidiu prestar depoimento esclarecendo
que o rapaz foi morto por policiais que deveriam estar fazendo a segurança do
local. Em represália, os "meganhas" surgiram na residência da artista,
na época grávida de seu primeiro filho, "plantaram" drogas pelos
cantos da casa e levaram Madame Lee em cana. Um detalhe: com todo o apoio da
Ditadura Militar.
7) Rita Lee e seus queridos amigos - A artista não apenas fala da amizade com ilustres e famosos, como também
nos brinda com algumas curiosidades deliciosas:
7a) Ritz & Gil - Amigos desde a época da Tropicália, Rita Lee e Gilberto Gil formaram
uma parceria musical sólida e uma amizade de muitos anos. Foi ele quem fez com
que a filha mais nova de Charles e Chesa largasse de vez os estudos em
Comunicação na USP para assumir, de vez, a carreira artística. Padrinho do
filho mais velho de Rita e Roberto de Carvalho, Gilberto Gil estava prestes a
reeditar a segunda versão do show Refestança junto de sua querida pupila quando teve que declinar do convite pelo
fato de ter que assumir o Ministério da Cultura do primeiro governo Lula;
7b) Ritz & Elis - A amizade entre ambas surgiu quando Rita estava presa e Elis Regina foi
visitar a colega na prisão, exigindo condições decentes para o encarceramento
de Rita. Apesar de César Camargo Mariano ter torcido o nariz em um primeiro
momento, Elis se tornou uma intérprete constante da dupla Lee-Carvalho. Foi
Madame Lee quem convenceu a geniosa intérprete de "Dois pra Lá, Dois pra
Cá" a participar de Mulher 80, lendário especial de TV que reuniu as duas ao lado de Gal Costa, Maria
Bethânia, Simone, Fafá de Belém, Joanna, Marina Lima, Zezé Motta e Quarteto em
Cy. Uma parceria musical da Pimentinha com o casal mais ilustre da MPB (na qual
Elis seria autora dos versos) estava programada, porém nunca aconteceu: a maior
cantora do Brasil morreu em janeiro de 1982;
7c) Rita & Ney - Foi graças a Ney Matogrosso que os destinos de Rita Lee e Roberto de
Carvalho (guitarrista que o acompanhava durante a turnê Bandido, em 1976) se cruzaram e nunca mais se separaram. Além de um grande intérprete das canções de Rita, a voz principal do
grupo Secos & Molhados foi o cupido de um dos casamentos mais duradouros da
música brasileira;
7d) Rita & Tim - Colegas de gravadora no início da década de 1970, Rita Lee e Tim Maia,
insatisfeitos com as políticas comerciais da Philips, quebraram todo o
escritório de André Midani, o Big Boss da gravadora na época.
Ao sair de lá, Tim diz para a secretária, atônita: "Nada pessoal viu,
lindinha!"...
8) Rita Lee desfere todo o seu rancor - Ferina e venenosa, Rita não perdoa vário desafetos, a saber:
8a) Arnaldo Baptista - o ex-marido e ex-companheiro de banda teve algumas intimidades
conjugais reveladas no livro, com alfinetadas à atual esposa de Arnaldo,
Lucinha Barbosa (um clone de "Rita Lee", segundo a autora das memórias)
e com relatos tristes de episódios de insanidade de Lóki - o episódio do fim de
Charles, o Jeep ano 1951, e do incêndio na casa alugada da Cantareira são dois
exemplos bem tristes do desequilíbrio de um dos músicos mais brilhantes do
Brasil;
8b) Mônica Lisboa - A ex-empresaria de Rita Lee só foi citada no livro através do apelido
pejorativo de "Governanta". Ex-assistente de Guilherme Araújo,
empresário de Gil, Gal e Caetano, foi acusada pela autora de "Esse Tal de
Roque Enrow" de ser controladora demais, dentre outros pecados mortais;
8c) Luís Sérgio Carlini - Foi acusado por Rita de ter feito vários motins dentro da banda contra
a band leader (Ritz) e de ter roubado o nome da banda "Tutti Frutti"
ao registrar o título sob sua propriedade intelectual exclusiva;
8d) Okky de Souza - Casado com uma prima de Roberto de Carvalho, foi padrinho de Antônio,
terceiro filho do casal Rita & Roberto. Rita Lee diz que ele passou a fazer
parte da maioria absoluta de jornalistas que sempre falaram mal dela na grande
imprensa;
8e) Ezequiel Neves - Rita Lee o acusa o anjo protetor de Cazuza de ter espalhado um boato de
que ela estava com leucemia (o que rendeu uma música hilária que fecha o LP de
1985). A Rainha do Rock Brasileiro chegou até a ensaiar uma trégua com o
"Abominável das Neves" em 1990, quando Cazuza estava em seu leito de
morte e implorava por uma reconciliação. Rita confessa que chegou a doar uma
quantia em dinheiro para custear um tratamento médico na época em que Zeca
estava prestes a morrer, em 2010;
8f) Carlos Calado - Jornalista de respeito, biógrafo e autor de A Divina Comédia dos
Mutantes (Ed. 34), Calado não escapou da escrita ferina de Rita Lee, por ter
supostamente escrito "masturbações literárias";
8g) Zélia Duncan - Parceira de Rita Lee e amiga de infância até o episódio do revival dOs
Mutantes, entre 2005-2007, Zélia Duncan chegou até a receber a bênção da Rainha
do Rock Brasileiro para integrar a "nova" formação do grupo. Rita
chegou a receber vários convites para reintegrar o grupo, porém
declinou todos. Arnaldo, em tom de revanche, deu várias declarações para a
imprensa dizendo que ZD era bem superior à Rita, o que deve ter agigantado o
ego e a mágoa de Madame Lee. A autora das memórias não chega a dirigir nenhuma
palavra de ódio contra Zélia, mas lhe destina o pior de todos os castigos: o da
indiferença, mesmo depois de ZD ter gravado uma canção em homenagem à Rita;
9) Rita Lee nos oferta belas imagens
de arquivo - Fotos do
arquivo pessoal da família Jones ("unida e jamais vencida") se juntam
às fotos de Rita ao lado de Roberto, dos filhos Beto, Juca e Tui e de momentos
marcantes de uma carreira musical vitoriosa. Cá, para nós: ver Madame Lee
fazendo topless na praia ou posando
seminua para as câmeras, às vésperas do nascimento de dois de seus filhos, somados
aos momentos de intimidade ao lado de seus bichinhos é algo belo e inusitado;
10) Rita Lee está acompanhada de
Phantom, um fantasminha pra lá de camarada - Phantom,
na verdade uma intervenção bem-humorada do jornalista Guilherme Samora,
esclarece fatos, datas, aponta curiosidades e chega até a criticar a inaptidão
de Rita em precisar momentos e datas. Um dos fatos curiosos mais interessantes
apontados pelo fantasminha foi de que o show Acústico
MTVcontinha
uma versão acapella de "Dias
Melhores Virão", algo que todos os fãs gostariam de ver e ouvir.
11) Rita Lee fala de suas canções
mais importantes e nos conta um pouquinho sobre o processo decriação - Madame Lee
fala sobre todos os discos dOs Mutantes dos quais participou, dos seus discos à
frente da banda Tutti Frutti e dos discos gravados em parceria com Roberto de
Carvalho até 1990. A partir daquele período, suas memórias e/ou sua vontade se
tornam mais seletivas. No entanto, há três fatos que devem ser elencados:
11a) as
"parcerias" entre Rita, Sérgio e Arnaldo que na verdade não
aconteceram, visto que todos tinham uma espécie de acordo em colocar seus nomes
em todos os créditos de composição do repertório dos álbuns dOs Mutantes;
11b)
"Baila Comigo" foi composta depois de um sonho: grávida de João Lee,
seu segundo filho, Rita acordou e compôs esta canção em poucos minutos, em um
momento de plena inspiração;
11c)
"Arrombou a Festa", uma canção esculachando a MPB da época, chegou a
ser um dos maiores sucessos de Rita, em 1977. A Rainha do Rock chegou a gravar
a segunda versão em seu álbum de 1979 e uma versão zombando de políticos da
época em 1983. Uma quarta versão - Arrombou a Festa número pi" -
chegou a ser composta em 1993, mas foi vetada pela própria Rita Lee, pois
anarquizava sem dó com os artistas da época: "Marisa traz dos montes as
cantoras mais ecléticas / Quebrando o padrão das sapatas mais atléticas /
Senhoras e senhores, o negócio é ser famoso / Quem nasce pra Lulu jamais chega
a cão raivoso".
12) Rita Lee lembra de alguns
acontecimentos incríveis ao lado de outros famosos - Madame Lee conta algumas situações inusitadas ao lado de lendas do showbiz, das quais selecionamos algumas:
12a) Hebe chegou a encontrar Rita doidona de
drogas, na sarjeta em uma rua de São Paulo. A lenda da TV levou Ritz para casa
e lhe deu banho e comida, além de implorar para que ela jamais passasse por tal
vexame novamente;
12b) Um
rapaz loiro e magricela sempre vinha trocar ideias com Rita e Os Mutantes na
época do programa Divino, Maravilhoso na TV Tupi. Tempos depois, ela descobriu
que o rapaz era Stuart Angel, filho
de Zuzu Angel;
12c) Ulysses Guimarães chegou a ser um dos
pretendentes de D. Romilda, a mãe de Rita. No entanto, a paixão dela pelo Dr.
Charles deixou o velho Ulysses a ver navios...
12d) Sonia Braga trabalhava como assistente
de palco do programa de Ronnie Von na década de 1960 e fez amizade com Rita,
que chegou a convidá-la a integrar Os Mutantes. La Braga, ciente de que o seu
amor maior era pelo teatro e pelo cinema, declinou do convite;
12e)
Durante a turnê do disco Flerte Fatal, Rita escolhia uma gostosona ou uma transexual
para se vestir de Miss Brasil 2000 com apenas uma capa de miss e... nada mais!
Em Porto Alegre, a escolhida a abrir a capa por poucos segundos e se mostrar
para o público como veio ao mundo foi ninguém mais, ninguém menos do que Adriana Calcanhotto antes da fama;
12f) MickJagger ficou tão encantado com a apresentação de Rita na abertura
do primeiro show da turnê dos Rolling Stones pelo Brasil que liberou as
passarelas laterais do gigantesco palco da Voodoo
Lounge (geralmente vetadas para os números
de abertura) para que Madame Lee fizesse o que ela quisesse em cena. Detalhe: durante
o show de Santa Rita de Sampa, Jagger estava de câmera em punho para fotografar
a nudez da "Miss Brasil 2000" daquela noite;
12g) Em um
jantar de gala oferecido para Shirley
MacLaine, Rita ouviu da lendária atriz hollywoodiana que elas pareciam
irmãs;
12h)
Indignada com o tratamento que Alice
Cooper dava para as cobras que ele utilizava em seus shows, Rita adentrou o
backstage e roubou as duas
coitadinhas em represália ao roqueiro;
12i) Antes
de sua apresentação no Hollywood Rock,
em 1975, Madame Lee recebeu a visita ilustríssima de Eric Clapton e sua esposa na época, Pattie Boyd - ex-George Harrison e musa inspiradora de
"Layla", de Clapton. Detalhe: foi Pattie quem ajudou Rita a costurar
o figurino no corpo minutos antes do show;
12j) Em
uma de suas tentativas de querer alisar os cabelos crespos, Mary Lee Jones (a
irmã mais velha de Rita) chegou a raspar os cabelos e teve que pedir uma
peruca emprestada para o namorado do farmacêutico do bairro. Anos depois, o
dono da peruca seria conhecido por todo o Brasil como Clodovil.
13) Rita Lee fala, sem deixar uma
certa dose de ironia e deboche de lado, a respeito de sua depressão, de
bipolaridade e de outros episódios tristes - Madame Lee deixou bastante claro em suas memórias de que sua depressão,
dentre outros aspectos, era fruto da falta de coragem em ter que encarar as
mortes em sua família - Mary, Charles, Chesa, amigos mortos pela AIDS, etc.
Além disto, ela relata um estupro sofrido na primeira infância e em um aborto
realizado em 1977. O primeiro episódio é tratado com serenidade, enquanto o
segundo é tratado com tristeza, mas com uma honestidade impressionante;
14) Rita Lee adiciona mais um fato à
histórica polêmica envolvendo o grupo Secos & Molhados e a banda
norte-americana KISS - Madame Lee afirma, com plena convicção de que os americanos realmente
copiaram a maquiagem do grupo que revelou a voz e o talento de Ney Matogrosso
para o Brasil e o mundo. Diz Rita: "Entre outros papos, comentamos que o
KISS, por meio da estilista brasileira Maria Contessa (que confeccionava o
figurino deles), teria sugerido aos gringos a maquiagem inspirada na dos Secos
& Molhados. A história procede, uma vez que os Secos aconteceram antes do
KISS, portanto pioneiros no quesito 'pintar a cara de branco e preto' (p.
142)".
15) Rita Lee e a ajuizada decisão em
sair dos holofotes, aos 65 anos de idade - A autora
explica em suas memórias alguns de seus motivos para abandonar os palcos (saúde
bastante debilitada, falta de disposição para as exigências do showbiz são as principais), além de
deixar claro que não deseja vivenciar os clichês que marcam o fim da vida de um
roqueiro: morrer de overdose ou de AIDS, se converter a uma religião radical ou
ter que (re)viver por aí em revivals
oportunistas, em turnês bilionárias para alimentar o bolso ou o ego não são
opções do agrado de Rita Lee, que prefere seguir seus próximos dias como
"Tiranassaura Regina" (pp.236-237).
Em uma linguagem bastante coloquial e "adolescente" (segundo
críticos mais ferrenhos), Rita Lee deixa claro o seu ódio por jornalistas e
críticos. Não se preocupa em verificar datas e nomes de determinados
acontecimentos, entretanto oferece um material riquíssimo para quem um dia
quiser se lançar no trabalho monumental de escrever sua biografia definitiva.
Rita faz um balanço de uma vida inteira dedicada à música e aos que ela sempre
amou. E sem se esquecer daqueles que a admiram de paixão.
Se eu pudesse ter a oportunidade de conversar com Rita Lee novamente
(tive esta honra duas vezes, assunto para outro texto!), eu lhe faria a
seguinte indagação - "Mas afinal de contas, Lady Ritz, conta uma coisa
aqui no ouvido da gente (juro de pés juntos que não conto pra ninguém!): quem é
a tal cantora famosa em início de carreira com quem você trombou no apartamento
do Jorge Ben quando você foi pedir repertório para o primeiro disco dOs
Mutantes, hein?".
Eu tenho minhas suspeitas de quem seja a tal fulana, mas ouvir a resposta de um milhão de dólares
dos lábios de Santa Rita de Sampa seria de um prazer inenarrável... Espero, de
coração, que ambos possamos estar por aqui para vivenciarmos isto...