"All of us are footnotes to the words of Chuck Berry."
(Leonard Cohen)
"If they were to rename Rock 'n' Roll, it would be called Chuck Berry."
(John Lennon)
"The beautiful thing about Chuck Berry's playing was it had such an effortless swing (...)."
(Keith Richards)
O Rock não tinha mãe, mas tinha um pai dedicado, zeloso e bastante presente. Seu nome: Charles Edward Anderson Berry, um nome de monarca; para nós, mortais: Chuck Berry.
A morte de um dos principais criadores do Rock 'n' Roll em março de 2017 marca o desaparecimento de um dos maiores influenciadores da música popular do século XX. Vários músicos que alcançaram a fama a partir da primeira metade dos anos 1960 apontam a importância de Chuck Berry para que eles conseguissem coragem e empunhassem uma guitarra para viver através da sua arte. John Lennon, Keith Richards, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Leonard Cohen, os Beach Boys, os irmãos Young do AC/DC, os mascarados do Kiss, Rod Stewart, Lenny Kravitz e Kurt Cobain são apenas alguns dos músicos que viam Chuck como uma de suas referências principais. Rita Lee e Raul Seixas, os pais do Rock por estas bandas, nunca esconderam a sua admiração pelo autor de "Johnny B. Goode".
Cantor e guitarrista, Chuck Berry misturou elementos do blues, do country, do R&B e do bom e velho boogie para gerar uma das criações mais diabólicas do mundo da música, o Rock 'n' Roll. A lembrança mais frequente que tenho do astro é de vê-lo empunhando uma guitarra em riste e fazendo a sua indefectível "duck dance", copiada por Angus Young e tantos outros guitarristas. O passo de dança, um dos clichês mais famosos da música, surgiu por volta de 1956: sempre preocupado com sua elegância e com a qualidade visual de seus ternos, Chuck decidiu investir em um novo passo de dança para esconder as partes amarrotadas de seu figurino. Quem diria que uma roupa amarrotada faria história?
O maior feito de Chuck Berry não foi apenas a invenção de um dos estilos musicais mais versáteis e populares de todos os tempos. Se Elvis Presley deu asas ao imaginário feminino graças aos acordes de sua guitarra e aos agitos de sua pélvis indecente, isto se deve aos feitos do homem mais notável de Saint Louis. Canções como "Roll Over Beethoven", "Carol", "Johnny B. Goode", "Memphis, Tennessee", "Maybellene" e "Sweet Little Sixteen" fizeram tanto, mas tanto sucesso que extrapolaram as fronteiras de gênero ou classe social. Além disto, ele introduziu um léxico revolucionário na música popular de seu tempo - falar de "monkey business" (negócio sujo) ou de carros e sexo nos Estados Unidos da década de 1950, fazendo uma crítica social violenta, cantando Rock e ainda sendo negro?! Chuck simplesmente fez a revolução, apesar do mundo não ter se preparado para tal.
Obviamente, Chuck Berry pagou um preço alto por ter sido tão ousado. Antes da fama, já tinha sido preso por roubo e porte de arma de fogo e chegou a ficar em detenção por alguns anos. Anos depois, já consagrado, foi acusado injustamente de aliciar uma menina de 14 anos, quase lhe custando a carreira, além de uns tempos no xilindró. Eu me pergunto se a lei foi mais pesada para Chuck simplesmente pelo fato dele ser negro. O que é fato incontestável é que foi graças aos seus amados pupilos - Beatles e Rolling Stones, especialmente - que o Pai do Rock 'n' Roll reergueu sua carreira, já reconhecido pelo seu status de lenda.
Chuck Berry manteve a simplicidade e fez apresentações até recentemente nos cassinos e clubes de Saint Louis, região onde morava, apesar do peso dos anos. A figura do criador desaparece e deixa uma quantidade sem tamanho de órfãos. Já o seu legado musical permanecerá enquanto os acordes de uma guitarra ecoarem por aí...
Muitos músicos
brasileiros disputaram a alcunha de “o músico mais louco do Brasil”. Raul
Seixas bem que tentou; Marcos Valle e Erasmo Carlos passaram longe; Sérgio
Sampaio e Jards Macalé fizeram alguns esforços dignos; Arnaldo Baptista (se não
fosse um caso clínico tão grave) foi o que chegou mais perto. No entanto,
nenhum deles conseguiu bater a meta de loucuras artísticas de Tim Maia, o
detentor do título: o Síndico redefiniu todos os limites de sensatez e
independência artística com este álbum.
Em 1974, Tim
Maia era um dos músicos mais consagrados da MPB: seus quatro primeiros discos –
lançados pela Philips entre 1970 e 1973 – são registros do que se fez de melhor
em termos de música Soul no Brasil. A fina flor do cancioneiro do Síndico se
tornou a trilha sonora de muitos casais apaixonados e que gostavam de dançar
por aí e fez do gordinho Sebastião Rodrigues Maia, ex-presidiário, ex-suburbano
carioca, ex-companheiro de banda de Roberto e Erasmo um astro da canção
brasileira. Em suma: Tim era um músico de sucesso, amado pelo público e
sentindo os prazeres e armadilhas do sucesso.
No início de
1974, Tim saiu da Philips e foi contratado pela RCA a peso de ouro para que
gravasse um álbum duplo (o Brasil queria abocanhar aquela tendência de mercado,
pegando carona no sucesso dos vinis rechonchudos que Elton John e os Rolling
Stones – para não citar outros – tinham lançado há pouco tempo). Porém, a
relação conflituosa do astro brasileiro com as drogas e a bebida, somando-se às
desilusões amorosas constantes, fez com que ele fosse em busca da paz e do
conforto que nenhum narcótico conseguiria lhe oferecer. Ao ler um dos livros da
seita Universo em Desencanto, Tim
Maia decidiu que o caminho para se livrar de todos os conflitos que lhe
desesperavam era se convertendo à seita de Manoel Jacintho Coelho, grão mestre
daquele rebanho localizado em Belford Roxo, na Baixada Fluminense.
De acordo com
aqueles preceitos religiosos, o mundo estava magnetizado por forças maléficas.
Para que encontrássemos a salvação (via imunização
racional), era preciso acreditar na existência e no poder de um Racional
Superior, abolir todas as cores do vestuário em prol do branco e se livrar de
todos os excessos de uma vida materialista. Com isso, Tim abandonou as drogas e
a bebida, emagreceu consideravelmente e cortou suas longas madeixas ao estilo
Black Power, que eram a sua marca registrada. O resultado deste processo foi Racional, um álbum espetacular, com um
artista no auge da sua forma vocal (graças ao fato de ter dado uma pausa na
bebida e nas drogas), mas no apogeu de sua criatividade em relação ao discurso.
“Bom Senso”, a terceira faixa do disco, é o melhor exemplo deste fato:
Já virei calçada maltratada
E na virada quase nada
Me restou a curtição
Já rodei o mundo quase mudo
No entanto num segundo
Este livro veio à mão
Já senti saudade
Já fiz muita coisa errada
Já pedi ajuda
Já dormi na rua
Mas lendo atingi o bom senso
Mas lendo atingi o bom senso
A imunização
Racional
Racional é um trabalho
fenomenal no que diz respeito à qualidade musical: os músicos da banda
(proibidos por Tim de consumir qualquer tipo de droga) produziram acordes
memoráveis e repletos de groove ao
lado de um band leader instintivo e
de uma inteligência musical ímpar. Funk
e Soul se irmanam intensamente com o
canto do Síndico em uma simbiose jamais ouvida em seus discos da fase Philips.
Por outro lado, o disco é repleto de letras panfletárias, de gosto
explicitamente duvidoso e que revelam um esoterismo barato, beirando o tosco (4
das 9 faixas do álbum possuem o termo “racional” no título das canções e quase
todas elas pedem para que os ouvintes leiam o livro da seita liderada por
Manoel Jacintho Coelho).
Basicamente, a
música era incrível, porém o discurso era (infelizmente) de baixa qualidade:
apesar de Tim Maia ter largado o vício em comida, álcool e narcóticos, a
religião revelara-se como mais uma de suas compulsões – a ferocidade de sua
obsessão tinha um outro viés, tão devastador quanto o de alguém que necessitava
largar o crack ou a heroína…
Um exemplo da
fúria santa de Tim Maia: no auge de seu fervor esotérico, o autor de “Azul da
Cor do Mar” e “Réu Confesso” decidiu assinar suas criações como “Tim Maia
Racional” e exigiu que todos os músicos que trabalhavam com ele se convertessem
ao Universo em Desencanto. A banda foi rebatizada de Seroma Racional e todos os
instrumentos musicais deveriam ser pintados de branco. Ingestão de carne
vermelha e praticar sexo sem o intuito de procriar estava completamente fora de
cogitação. Tim finalmente atingira o ápice de sua maluquice enquanto membro da
seita de Belford Roxo: as consequências de sua doideira não tardariam a aparecer…
Quando os
executivos da RCA tomaram conhecimento das loucuras religiosas de Tim Maia,
decidiram remover o contrato com o artista. Tim aceitou o rompimento com a
condição de que levasse consigo todas as bases do disco duplo que já estavam
gravadas e que se encontravam em poder da gravadora. Com o sinal verde dos
homens de terno e gravata, o Síndico lançou seu quinto álbum de maneira
independente através do selo SEROMA (cujo nome veio das primeiras sílabas de
Sebastião Rodrigues Maia, nome de batismo do cantor) e fez história na música
brasileira como um dos primeiros artistas do mainstream musical brasileiro a lançar um disco de forma autônoma
em relação às grandes gravadoras. Racional chegou a ter duas sequências: Racional, Vol. 2 veio a público apenas em
1976, provavelmente porque havia uma enorme dificuldade de Tim para prensar e
distribuir o disco. No final da década de 1990, depois que o Síndico já havia
morrido, as master tapes de Racional, Vol. 3foram
encontradas e só chegaram aos ouvidos dos fãs em 2011, graças a uma iniciativa
conjunta de Carmelo Maia (filho de Tim), Kassin e o falecido maestro/arranjador
Lincoln Olivetti em uma parceria entre a Sony Music, a Vitória Régia (da
família Maia) e a editora Abril.
Tim Maia pagou
um preço altíssimo por sua vontade intensa de autonomia em relação ao mercado: Racional foi sumariamente ignorado pela
crítica e pelo grande público na época – ironicamente, esta fase é uma das mais
admiradas e veneradas pelos fãs do Síndico. Os shows começaram a ficar vazios e
a minguar dramaticamente. A grana e o sucesso desapareceram em um estalar de
dedos. No momento enquete o fracasso finalmente encontrara as portas de Tim,
descobriu-se que Manoel Jacintho Coelho era um charlatão descompromissado com a
fé alheia e interessado apenas em dividendos financeiros. Como consequências, o
Síndico decidiu se “magnetizar” novamente e a obra religiosa de Sebastião
Rodrigues Maia tornou-se eternamente amaldiçoada pelos olhos de seu criador e
foi eternamente renegada enquanto ele esteve vivo.
Racional é o momento
mais criativo e polêmico da discografia de Tim Maia. A viagem místico-musical
do Síndico merece nossa audição, mas não deve ser levada a sério por se tratar
da maior maluquice musical que um artista brasileiro realizara em vida. Tim não
deve em nada a um pastor negro norte-americano em termos vocais, porém as
letras paupérrimas que pregava a nossa leitura dos mais de 1000 livros da seita
Universo em Desencanto. O disco traz um conceito confuso, mas a sobriedade
vocal do maior artista negro da música brasileira o coloca também como a maior
voz gospel surgida neste país: se os cantores evangélicos ou os padres que se
arriscam como cantores que adoram pregar a chamada “palavra de Deus” buscassem
inspiração no som produzido por Sebastião Rodrigues Maia, a qualidade do que se
ouve por aí seria muito melhor – principalmente porque uma canção como
“Imunização Racional (Que Beleza)” nós dá a impressão de que foi gravada
anteontem. Este trabalho é a prova mais cabal que a loucura também consegue
produzir coisas belas de se ver e também de se ouvir…
(Paulo
César Pinheiro & Mauro Duarte na voz de Clara Nunes)
O carnaval de 2017 finalmente acabou.
Aqui na terra da garoa, começou com um final de semana de antecedência e acabou
bem depois do domingo após a quarta-feira de cinzas com muito custo. Os
festejos carnavalescos sempre foram negócio sério por aqui: o Nordeste ferve ao
som do frevo e do axé, enquanto o Rio de Janeiro e São Paulo são animados pelos
blocos de rua, bailes e os desfiles das escolas de samba, por exemplo. Apesar
da seriedade, nunca fui um folião, digamos, característico: minha falta de
apreço por multidões e meu gosto musical incomum me causavam um certo desprezo
por esta época do ano.
Venho, com muito orgulho, de uma
família de foliões. Meus pais são apaixonados pelos desfiles das escolas de
samba do Rio de Janeiro – meu pai, por exemplo, sempre ganha de presente de
aniversário o CD com os sambas-enredo que vão cruzar a Sapucaí no ano seguinte
todo mês de dezembro; facilitando muito a minha vida, pois o Sr. Orlando faz
anos no último mês do ano, época na qual os meus neurônios já deixaram de
funcionar normalmente. Meu avô materno sempre levava os filhos para assistir
aos desfiles da janela do escritório dele na esquina da Av. Rio Branco na época
em que o sambódromo nem sequer existia.
O samba sempre teve seus pés no
protesto e nos ideais de libertação do indivíduo. Por isso, o carnaval não
deixa de ser uma festa política e de celebração dos prazeres da carne sem
restringir classes sociais, etnias ou sexualidade. Como consequência dos
últimos acontecimentos no Brasil, os festejos de rua cresceram assombrosamente
nos últimos anos. São Paulo, por exemplo, tem vivenciado o florescimento dos
blocos carnavalescos e da irreverência dos foliões dispostos a festejar e a
protestar contra o status quo. A
diversidade, por outro lado, tem marcado as agremiações de rua do Rio de
Janeiro, cantando e tocando canções do repertório clássico do samba até as
eternas criações do rock ‘n’ roll a
plenos pulmões.
Em meio à crise econômica e política
que o Brasil tem vivido, a quantidade de pessoas indo às ruas protestar contra
o governo golpista e ilegítimo foi tão expressiva que nem as principais redes
de TV conseguiram esconder os gritos de “Fora Temer” em rede nacional. A
disposição das pessoas para festejar em meio à crise é de fazer vista ao mundo
inteiro. Enquanto a Terra da Garoa fervia com os blocos carnavalescos de todos
os tipos – os Beatles, Rita Lee, Caetano Veloso, David Bowie, Gal Costa e Beth
Carvalho foram alguns dos homenageados –, a Portela reinou soberana durante o
carnaval da Cidade Maravilhosa depois de 47 anos sem levar o título para
Madureira.
Apesar de não ser uma pessoa
necessariamente religiosa, fiz meu pedido em oração para que os foliões fossem
protegidos durante os festejos. Infelizmente, não foi o que ocorreu: os relatos
de furtos e assaltos eram sem fim (um primo meu teve a infelicidade de ter DOIS
celulares roubados no Rio de Janeiro!), as histórias de violência contra
mulheres extrapolaram os limites do suportável – a cada três minutos, uma
mulher foi agredida –, as ruas de São Paulo eram desocupadas com a truculência,
a agressividade e a conivência de um prefeito que se diz preocupado com as
belezas da cidade.
Em relação às violências sofridas
pelas minorias, duas histórias ocorridas durante o período de carnaval me
horrorizaram por completo. A primeira foi o habeas
corpus concedido pelo STF ao goleiro Bruno, acusado e condenado de matar,
esquartejar e ocultar o cadáver de Eliza Samúdio, mãe de seu filho. O fato de
nossa Suprema Corte privilegiar ricos e poderosos já não me causa tanta espécie
hoje em dia, porém a reverência de torcedores e clubes de futebol ao ex-craque
do Flamengo me surpreenderam bastante: ele recebeu ofertas de clubes de futebol
e pedidos de selfies com torcedores e marias chuteiras (?!). A prova de
que o brasileiro médio é fã de bandidos endinheirados como Bruno e Eike Batista
é concreta, abençoada pelo GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) e digna da minha náusea mais intensa e sincera.
A segunda história que me tirou do
sério foi o assassinato brutal da travesti Dandara dos Santos, espancada por
vários homens. O fato da transexual ter entrado para as estatísticas,
infelizmente, não me surpreendeu, pois vivemos sob a égide de uma barbárie
permanente. O dado que me deixou perplexo foi que o crime foi filmado por um
dos agressores: Dandara implorava pela vida, enquanto seus algozes não
hesitavam em agredi-la mais e mais. Não bastava bater, era preciso agredir,
assassinar e filmar para que houvesse uma prova de afirmação da homofobia
travestida com a desculpa de que o homem heterossexual é superior aos que não estariam
no mesmo patamar que o dele. A travesti foi tratada com a indiferença dos
grandes meios de comunicação, não foi notícia nas primeiras páginas dos
jornais, mas foi objeto de comoção daqueles que estão fartos de serem tratados
com desdém pelas maiorias.
Quando Clara Nunes ganhou “Portela na
Avenida” de presente do marido Paulo César Pinheiro e do violonista Mauro
Duarte, ela ficou comovida com a comparação das alas da Portela com o manto
azul e branco de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Minha esperança
é que este manto sirva não apenas para dar a proteção necessária à escola de
samba de Madureira, como também sirva para guardar nosso país tão ferido de
valores, de respeito e de compaixão dos males dos reacionários de tocaia e de
plantão...
Em
1987, o nome de Marina Lima já era mais do que consagrado no panteão da música
brasileira. Sua parceria com seu irmão mais velho, o poeta e filósofo Antônio
Cícero, lhe rendeu discos de sucesso e canções gravadas por nomes de peso como
Gal Costa, Maria Bethânia e Zizi Possi. Além disso, Marina surgiu na virada da
década de 1970 para a de 1980 e foi uma das grandes responsáveis pela inserção
de elementos daPop Musicna música brasileira.
Virgem
é o oitavo álbum de Marina e contou com a produção do saxofonista Leo
Gandelman. A artista ficou a cargo da direção artística e Cícero foi
responsável pela assessoria conceitual do trabalho. Os arranjos foram
distribuídos entre a cantora, Nico Rezende e os músicos da banda que gravou o
disco – William Magalhães, Sérgio dela Mônica, Torcuato Mariano, Renato
Rocketh, Sidinho, Paulinho Guitarra e Carlos Maia.
A
faixa que abre o disco é a balada de cunho filosófico "Pseudo-Blues",
parceria de Nico Rezende e Jorge Salomão. Outra canção de destaque do
repertório deste disco é "Doce Espera", assinada apenas por Marina.
Originalmente gravada por Maria Bethânia em Dezembros
(1986), Marina a retomou com direito a uma longa vinheta de introdução
capitaneada por Leo Gandelman. Já a releitura lânguida para "Preciso Dizer
Que Te Amo", parceria de Dé Palmeira, Bebel Gilberto e Cazuza, ainda toca
nas rádios brasileiras com frequência. Por fim, a regravação de
"Hearts", de Jesse Barish (um dos ex-integrantes do Jefferson
Airplane) é bastante arrojada e entoada com a energia marcante da autora de
"Fullgás".
Marina
assinou sozinha mais duas faixas do álbum: "Confessional" é uma ode
amorosa a um amor impossível e é uma das canções mais apaixonantes de seu
repertório - a versão de Karina Zeviani, gravada no belo disco-tributo Literalmente
Loucas - As Canções de Marina Lima (Gravadora Joia
Moderna) merece uma audição por ser tão lírica quanto a gravação de original de
1987. Já "Primeiro de Abril (Eu Negar?)", regravada pela própria
autora em No Osso(2015),
mostra as nuances da voz e do violão de uma das artistas mais inquietas que o
Brasil já nos ofertou em matéria de música.
Dentre
as demais parcerias de Marina Lima e Antônio Cícero que se encontram em Virgem
há o rock "Zerando", faixa dois do disco. O riff marcante da canção é uma das marcas registradas do repertório
de Marina e é um dos lados B mais interessantes deste repertório. Já
"Prestes a Voar" foi uma outra parceria dos irmãos Correia Lima que
foi regravada no especial Acústico MTV, em 2003, com uma
versão mais tocante do que a original, de 1987.
O
grande sucesso de Virgem
foi "Uma Noite e 1/2", de Renato Rocketh, que tocou incessantemente
durante o verão da temporada 1987/1988. A letra sexy versava sobre a beleza dos
corpos nas praias cariocas, falava em mulheres top less e em "bundinhas de fora" e rendeu um enorme
sucesso à Marina. A faixa-título, uma das mais belas parcerias de Marina Lima e
Antônio Cícero, recebeu um belo videoclipe do Fantástico e é uma das canções
mais frequentes em shows e turnês.
Os
ouvintes que desconhecem a chama que emana do cancioneiro de Marina encontrará
em Virgem uma excelente porta de entrada para
um trabalho musicalmente sofisticado e poeticamente incomum - Cícero contou em
uma entrevista de que o verso "os inocentes do Leblon / eles não sabem de
você" é uma referência a um poema de Drummond. Além disto, eles poderão
constatar que mulheres podem se revelar em verdadeiras esfinges ou fortalezas
escondidas nas armadilhas do olhar doce, meigo e levemente desafiador que lhes
fitam na capa do disco...
(meu
apreço e minha inveja do lendário Solar
da Fossa)
A partir da segunda metade da década de
1960, a expressão “estar na fossa” adquiriu um sentido distinto do original, ou
seja, nada a ver com desilusão amorosa. Tudo isso ocorreu graças a um lendário
casarão convertido em uma suntuosa pensão que abrigou a nata da arte, do
pensamento da cultura do Brasil daquele período. A Pensão Santa Terezinha, mais
conhecido como Solar da Fossa, foi moradia de artistas e intelectuais antenados
e engajados do porte de Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Gal Costa, Ruy
Castro, Naná Vasconcellos, Sueli Costa, Tim Maia, Maria Gladys, Aderbal Freire
Filho, Jards Macalé, Antônio Pedro, Zé Kéti, Abel Silva e mitos outros antes de
alcançarem o reconhecimento e a fama.
Paulinho da Viola em frente ao portão principal do Solar da Fossa na capa de seu disco de 1971
Se eu pudesse pegar o Delorean dos meus
sonhos e voltar ao ano de 1967, eu faria questão de passar uns dias no Solar da
Fossa depois de negociar minha estadia por um precinho bem bacana com D. Jurema
Cavalcanti, a administradora da pensão. Poderia tomar um copo de uísque e
trocar algumas figurinhas com meu amado mestre Ruy Castro sobre música,
literatura e jornalismo. Teria a chance de ouvir Caetano Veloso e Paulinho da
Viola cantarem “Alegria, Alegria” e “Sinal Fechado”, dois clássicos da música
brasileira pela primeira vez. Conheceria o talento imortal de Zé Rodrix, Tim
Maia e de Guarabyra em início de carreira. Assistiria a um show gratuito de
Naná Vasconcellos e seus batuques inconfundíveis no meio do quintal da pensão.
Viveria o deslumbre das belezas juvenis de Gal Costa, Darlene Glória, Maria
Gladys, Betty Faria e Ítala Nandi. E, por fim, poderia xeretar os
relacionamentos amorosos nada discretos de Zé Kéti e Antônio Pedro durante o
meu tempo livre.
O principal celeiro da intelligentsia carioca da época foi
eternizado pelo jornalista Toninho Vaz em Solar
da Fossa: um território de liberdade, impertinências, ideias e ousadias,
publicado em 2011 pela Editora Casa da Palavra. Neste livro, o biógrafo de
Torquato Neto e Paulo Leminski conta como o lendário casarão de Botafogo se
tornou tão conhecido através de centenas de depoimentos de ex-moradores
(ilustres ou não) do Solar da Fossa. Uma leitura deliciosa, que acendeu ainda
mais minha vontade de ter sido um jovem nos anos 1960 só para poder “estar na
fossa”.
Infelizmente, a história do Solar da
Fossa teve os seus altos e baixos, tal qual a trama de qualquer novela global: as
disputas judiciais entre Frederico Mello, o arrendatário do casarão e dos
terrenos e os proprietários do imóvel renderam longas batalhas nos tribunais,
deixando as vidas de várias pessoas em um limbo de incertezas. A guerra entre
Mello, Jurema Cavalcanti, os moradores e os donos do imóvel se findou em 1971
quando a justiça determinou que todos deveriam ser despejados da pensão sob
escolta policial.
Pouco tempo depois, o Solar da Fossa
foi demolido para dar início à construção do Shopping Rio Sul, um dos maiores
templos de consumo da Zona Sul carioca. Era o encerramento de mais um capítulo
das batalhas entre liberdade e capital, entre o conservadorismo da direita
elitista e o sentimento libertador das esquerdas do período, entre a ditadura
militar e a intelligentsia disposta a
resistir contra o regime de exceção. A demolição do casarão e o não-tombamento
pelo patrimônio histórico-cultural do Rio de Janeiro é mais um exemplo de que nossa
tradição em renegar nossa história é muito maior do que o instinto de
preservá-la.
Por outro lado, nem a ditadura, nem os
paladinos do capitalismo, tampouco os militares xucros que comandaram o Brasil
por mais de 20 anos conseguiram que a história do Solar da Fossa fosse legada
ao esquecimento. Afinal, é impossível demolir os edifícios da memória de quem
viveu um momento histórico tão significativo para a história da humanidade como
foi a segunda metade da década de 1960. Para aqueles, a fossa sempre será
libertadora e ensolarada...
Não creio na existência de alguém
mais produtivo e criativo na história do Rock do que o Sr. Neil Percival Young:
são mais de quarenta álbuns em cinco décadas de atividades musicais
ininterruptas. Dentre os títulos mais expressivos de sua ampla discografia, estão
os três álbuns que compõem a chamada Ditch Trilogy(em português: Trilogia do Fundo do Poço): o ao vivo Time Fades Away(lançado
em 15 de outubro de 1973), o irrepreensível On the Beach (lançado em 16 de julho de 1974) e o sombrio Tonight’s the Night(lançado
em 20 de junho de 1975).
Apesar de ter desfrutado de enorme (e
surpreendente) sucesso com o belíssimo álbum Harvest (1972), Neil
Youngvivia
momentos de profunda tristeza e desespero em meados dos anos 1970: seu
relacionamento com sua namorada na época e mãe de seu primeiro filho, a atriz
Carrie Snodgress, estava em frangalhos e próximo do fim; Danny Whitten,
ex-guitarrista da Crazy Horse (banda que acompanha o cantor e compositor
canadense nos palcos até hoje), morrera de uma overdose de heroína no início da
década; Bruce Berry, roadie e amigo
pessoal de Neil fora encontrado morto por abuso de drogas em junho de 1973,
completando o círculo de tragédias pessoais que rondavam o artista. Em meio a
tantas notícias ruins, o autor de “Heart of Gold” abusava dos limites de seu
organismo ao consumir toda espécie de narcóticos para aliviar toda a dor e o
sofrimento, enquanto compunha e produzia com um fervor impressionante.
Último dos três títulos da Ditch Trilogya vir a públicoTonight’s the Night, na verdade, foi o primeiro dos três álbuns a ser produzido. As sessões
de gravação que geraram mais de 80% das canções do disco foram realizadas por
Neil e os músicos do Santa Monica Flyers (Ben Keith – Guitarra / Nils Lofgren –
Piano e Guitarra / Billy Talbot – Baixo / Ralph Molina – Bateria) em Hollywood
entre agosto e setembro de 1973. As demais faixas foram gravas entre março de
1970 e dezembro de 1973 no Broken Arrow Ranch (propriedade particular de Young
localizada em Redwood City, California, EUA) e em uma apresentação ao vivo
feita em Nova York. No entanto, o álbum levou mais de um ano para ser lançado
graças a uma decisão tomadas em conjunto por Neil Young e sua gravadora, a
Reprise.
Os motivos que devem ter feito com
que Tonight’s
the Night levassem tanto tempo para ser lançado são plenamente
compreensíveis: trata-se da coleção de canções mais pesadas (no sentido
psíquico do termo) que um artista jamais poderia ter lançado. A ilustração da
capa mostra um Neil Young morbidamente retratado em preto e branco, envolto em
um mar de sombras com pouquíssimas (ou nenhuma) chances de encontrar a
redentora luz no fim de um infindável túnel de sofrimento. Neil escreveu para
este disco os retratos mais cruéis de sua desilusão com os dias pós-movimento
hippie, nos quais o idealismo da Contracultura tornou-se uma utopia sem fim. As
mortes dos amigos Whitten e Berry fizeram com que as letras fossem influenciadas
pela depressão daquele que sobreviveu para testemunhar o desaparecimento
repentino de seus pares.
Os versos de “Mellow my Mind”, canção
gravada pelo grupo inglês Simply Red no final da década de 1990, resumem com
perfeição o espírito depressivo de Tonight’s the Night:
I’ve been down the road
and I’ve come back
Lonesome whistle
on the railroad track
Ain’t got nothing on those feelings
That I had.
A canção que dá o nome ao sétimo
álbum solo de Neil Young recebeu duas versões e são elas que aparecem como
primeira e última faixas do disco. Neil faz uma ode para o recém-partido Bruce
Berry, relatando um episódio típico da rotina corriqueira e cansativa da
estrada:
Well, late at night
when the people were gone
He used to pick up my guitar
And sing a song in a shaky voice
That was real as the day was long.
A quinta faixa de Tonight’s the Nightfoi
gravada de um trecho de um show de Neil Young com a Crazy Horse no lendário
Fillmore East, casa de shows situada em Nova York, realizado em março de 1970.
Neil divide os vocais de “Come on Baby, Let’s Go Downtown” com Danny Whitten
(homenageado pelo compositor canadense em uma das mais belas faixas de Harvest,
“The Needle and The Damage Done”), canção que expõe as mazelas do vício em
drogas, ignorando qualquer possibilidade de diversão:
Sure enough,
They’ll be sellin’ stuff
When the moon begins to rise
Pretty bad when
you’re dealin’ with the man
And the light shines in your eyes.
Em meio à solidão inevitável de um
sobrevivente que segue seu caminho sem encontrar nenhuma espécie de amor, Neil
Young deixa bastante evidente a sua necessidade de falar, de forma que ele
possa expor seus conflitos e encará-los frente a frente. “Speaking Out”,
segunda faixa do álbum, trata justamente deste fato:
I’ve been a searcher, I’ve been a fool
But I’ve been a long time comin’ to you
I’m hopin’ for your love to carry me through
You’re holdin’ my baby, and I’m holdin’ you
And it’s all right.
No entanto, viver em um mundo
completamente tomado pela dor e pela melancolia tornou-se uma tarefa
extremamente dolorosa para Neil Young na primeira metade da década de 1970.
“World on a String” e “Borrowed Tune” (terceira e quarta faixas de Tonight’s the Night) apontam a ausência de esperanças em um momento de plena exaustão, de
crise desesperadora, na qual a música dos Rolling Stones serve de inspiração
para combater a solidão reinante:
It’s not all right
to say goodbye,
And the world on a string
Doesn’t mean a thing.
(“World on a
String”)
I’m singin’ this borrowed tune
I took from the Rolling Stones,
Alone in this empty room
Too wasted to write my own.
(“Borrowed
Tune”)
“Lookout Joe”, gravada em dezembro de
1972, é um encontro de Neil Young com o grupo The Stray Gators, que participou
das gravações de Harvest. As guitarras em fúria de Neil e de Ben Keith
encontram os pianos do tecladista e arranjador Jack Nitzche, resultando em uma
das melhores faixas de Tonight’s the Night. A letra elenca típicos personagens junkies em uma tragédia pós-hippie
(“a hip drag queen”, “a side walkin’ streetwheeler”, “Millie from down in
Philly” e “Bill from up the hill”) que parecem ter saído do universo de sexo,
drogas e paranoias ilusórias tão bem cunhadas por Lou Reed em Transformer
(1972). Se, em certos momentos, Reed optou por um olhar paródico-corrosivo do
underground, Young estilhaça sem dó o saudosismo em acordes furiosos de
guitarra:
Lookout Joe, you’re comin’ home
Old times were good times
Old times were good times.
Neil ao lado da Crazy Horse em 1975
Ao ouvirmos as canções do sétimo
álbum de Neil Young, temos a impressão de que ele não apenas possuía o desejo
de prestar um tributo aos que foram embora cedo demais por causa das drogas,
como também era um pedido de socorro ou um alerta aos ainda presentes de que
havia perigos implacáveis a nos espreitar. “Tired Eyes”, a penúltima faixa de Tonight’s the Night, versa sobre este conflito:
Well, it wasn’t
supposed to go
down that way
But they burned his brother,
you know,
And they left him lying
in the driveway.
They let him down with nothin’
He tried to do his best
but he could not.
A saída para os conflitos e o
sofrimento, de acordo com Neil Young, consiste em colocar o pé na estrada,
fugir das tentações e sair em busca do tão cobiçado conforto nos braços da
pessoa amada ou na independência tão desejada. “New Mama”, “Roll Another
Number” e “Albuquerque” são exemplos dos quais Neil parece ir em busca de um
idílio em meio à loucura inevitável:
New Mama’s got a sun in her eyes
No clouds are in my changing skies
Each morning when I wake up to rise
I’m livin’ in a dreamland.
(“New Mama”)
It’s too dark
to put the Keys
in my ignition,
And the mornin’ sun is yet
to climb my hood ornament.
But before too long I might
see those flashing red lights
Look out, mama,
‘cause I’m comin’ home tonight.
(“Roll
Another Number”)
I’ve been flyin’
down the road
And I’ve been starvin’ to be alone,
And independent from the scene
that I’ve known
Albuquerque.
(“Albuquerque")
O disco se encerra com a segunda
versão de “Tonight’s the Night”, que chega a ser ainda mais pesada do que a
versão da abertura. Podemos interpretar esta escolha de Neil como um exemplo de
que a vida é feita de círculos que repetem a mesma série de conflitos e
fantasmas a nos assombrar intensamente. O testemunho musical oferecido por Neil
Young aponta um beco com pouquíssimas saídas, entretanto ainda existe beleza em
meio a dor e ao sofrimento que brotam das trevas e da escuridão.
Para que você, leitor e ouvinte,
possa desfrutar de tudo isto, ouça abaixo Tonight’s the Nighte
embarque na noite sem fim de Neil Percival Young, um dos músicos mais
brilhantes da história do Rock.