18 de abril de 2017

TROVA # 120

ANDANÇAS MUSICAIS


Para Caroline Rohan, com amor...

         Lojas de discos sempre foram o meu local preferido no mundo. Se elas são grandes e possuem livros à mancheia, tenho vontade de entrar nelas e não voltar para a vida social nunca mais, afinal eu sempre teria algo de novo para ouvir ou alguma coisa de interessante para ler.
       O século XXI e a Era da Mediocridade infelizmente não conseguem conviver com as lojas de discos. Música se tornou um artigo supérfluo, que basicamente se ouve no rádio do carro ou nos fones de ouvido de celular. Visito as casas das pessoas e não vejo mais as coleções de LPs e CDs impondo suas presenças nas salas de estar, para minha tristeza e decepção. As mídias musicais continuam cada vez mais caras e são embaladas em um digipack vagabundo. As poucas lojas de discos que sobraram se tornaram espaços frequentados por colecionadores e amantes ferrenhos da arte musical como eu, que se satisfazem com tais fetiches encontrados em utopias sonoras.

A lendária Modern Sound, em Copacabana

   As lojas de discos não sobreviveram à chegada do MP3 e ao streaming e muitas tiveram que fechar suas portas. Quase morri de tristeza quando a Modern Sound, a lendária loja da Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, fechou. Toda vez que eu ia ao Ilha Plaza Shopping, localizado na Ilha do Governador, no subúrbio carioca onde nasci e me criei, e constatava que uma loja de CDs tinha encerrado suas atividades, sentia pontadas no coração. Não deixei de bradar o meu ódio mortal quando a Neto Discos, localizada no coração da Rua Augusta e onde comprei alguns dos itens mais adorados da minha coleção de discos, deixou de existir para virar um restaurante mexicano.

Um vendedor da antiga Neto Discos, na Rua Augusta


     Ainda bem que existem alguns recantos nos quais ainda podemos exercitar nossa paixão por versos e sons em LPs e CDs: a Augusta velha de guerra, a Galeria do Rock e o sebo Berinjela são pilares de resistência que ainda me fazem feliz tal qual os protagonistas dos filmes Durval Discos (Anna Muylaert) ou de Aquarius (Kleber Mendonça Filho), ao ouvirem um clássico da música (inter)nacional soando truinfal por uma sala.

Marisa Orth & Ary França em Durval Discos (2002), de Anna Muylaert



Sonia Braga em Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho

*

   Eu poderia encher várias linhas com anedotas cômicas, bizarras, vergonhosas e tristes sobre minhas experiências dentro de lojas de discos. Todavia, gostaria de resgatar uma experiência mais recente e que foi bastante especial para mim...

*
 
Carolzinha & Eu - uma amizade de quase vinte anos
     
      Minhas temporadas de férias no Rio de Janeiro sempre são bastante intensas e animadas. Especialmente porque não consigo mais passar mais de sete dias na Cidade Maravilhosa. Por isso, meus encontros com minha amiga Caroline Rohan, que me ama e me aguenta por quase duas décadas de amizade, sempre são hilários e repletos de boas memórias. Nosso último encontro de 2016 foi na nossa Copacabana velha de guerra e de tantas anedotas para contar.


     Carolzinha me levou a um paraíso que todo amante da boa música gostaria de ir na época de Natal: em uma loja de discos na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Posto 5. Depois de ter jurado que não gastaria nem um centavo com novas aquisições, entrei em contradição ao ver a vitrine com algo extraordinário: uma cópia do álbum de 1973 de Frank Sinatra em LP muito bem-conservada e por um preço baratinho. Ao ver a capa de Ol’ Blue Eyes is Back com o sorriso reluzente e triunfante da Voz, ignorei por alguns minutos de que ainda nem tenho um tocador de discos de vinil em casa. Fiquei namorando outros LPs e alguns CDs, mas minha paixão por Sinatra falou mais alto do que a razão- além da vitrola que ainda não tenho, estou em uma quebra de braços com a falta de espaço para meus livros e meus discos.


   Depois da farra e de algumas conversas e com o meu Sinatra debaixo dos meus braços, continuamos nossas andanças por Copa, fomos visitar a recém-inaugurada estátua de nosso amado mestre Nelson Rodrigues e paramos em um bar para tomar nossas bebidinhas que os canários não bebem. Antes de ir embora da Zona Sul, pedi a Carol que me levasse para o Beco das Garrafas, um beco na Rua Duvivier onde Elis Regina começou a cantar e fez história. Fiquei encantado ao saber que a tal esquina hoje abriga uma loja de discos com uma seção fabulosa de livros de música.



        O melhor da visita à Bossa Nova & Companhia foi poder conversar com os vendedores da loja, entusiasmados em falar comigo porque Carolzinha fez questão de dizer que o amigo dela era escritor e possui um Blog sobre música. Conversamos sobre as discografias de Ney Matogrosso e Maria Bethânia, contei algumas histórias e ouvi outras deliciosas. Fiquei com vontade não apenas de ter lançado meu livro por lá, como quis ficar por lá para sempre, pois a atmosfera do local é composta de versos e sons da melhor qualidade.



         Saí de Copacabana com a crença de que a vida ainda pode ser leve e doce. Tranquila como uma canção de amor entoada por Frank Sinatra, poética como um samba gravado por Maria Bethânia e intensa como uma interpretação antológica de Elis Regina. Graças a uma amiga adorada e que sempre está disposta a me fazer feliz – naquele dia, eu ganhei de presente um chaveiro de lembrança com os nomes de Tom Jobim e de Vinícius de Moraes, dois dos arautos da música brasileira moderna. Graças a Caroline Rohan, meu amor pela arte musical, livros e lojas de discos anda comigo aonde quer que eu vou: afinal, sempre é bom estar em boa companhia...



16 de abril de 2017

TROVA # 119

O SILÊNCIO DOS IMBECIS



“O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
Se eu ganho mais
É por debaixo dos pano
Ou se vou perder
É por debaixo dos pano...

É debaixo dos pano
Que a gente não tem medo
Pode guardar segredo
De tudo que se vê
É debaixo dos pano
Que a gente fala do fulano
E diz o que convém...

É debaixo dos pano
Que eu me afogo
Que eu me dano
Sem perder o bem...

O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
Se eu ganho mais
É por debaixo dos pano
Ou se vou perder
É por debaixo dos pano...

É debaixo dos pano
Que a gente esconde tudo
E não se fica mudo
E tudo quer fazer
É debaixo dos pano
Que a gente comete um engano
Sem ninguém saber...

É debaixo dos pano
Que a gente
Entra pelo cano
Sem ninguém ver...

O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
Se eu ganho mais
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
Se eu ganho mais
É por debaixo dos pano
Ou se vou perder
É por debaixo dos pano...

É debaixo dos pano
Que a gente esconde tudo
E não se fica mudo
E tudo quer fazer
É debaixo dos pano
Que a gente comete um engano
Sem ninguém saber...

É debaixo dos pano
Que a gente
Entra pelo cano
Sem ninguém ver...”
(Cecéu na voz de Ney Matogrosso, 1982)


         Feriado de Páscoa. Segundo os católicos, é o tempo da morte e do renascimento de Jesus Cristo. Um homem bondoso que foi morto como bandido pelos poderosos de sua época e ressuscitou dias depois para salvar a humanidade de todos os seus pecados. Hoje em dia, os cidadãos comuns aproveitam os dias de folga para viajar, esquecer do trabalho, se embrenhar em filas intermináveis para comprar quilos e quilos de bacalhau e ovos de chocolate cada vez mais caros e fazer jus às convenções típicas da classe média.
         Não comprei um ovo de páscoa sequer este ano. Algo bastante chato para um chocólatra assumido e compulsivo que sempre fui. Em tempos de crise econômica, social e política no Brasil, investir 40 reais em um único presente é uma indecência para um trabalhador assalariado como eu. No entanto, muitos brasileiros faziam volume nas filas intermináveis dos supermercados e dos shopping centers, fazendo a alegria das indústrias e da iniciativa privada até o final do sábado de aleluia.


         Além disto, a Páscoa de 2017 tem o sabor amargo do noticiário, pipocando notícias sobre a corrupção da classe política e das empreiteiras que financiavam as campanhas eleitorais através do “Caixa 2”, isto é, dinheiro oficialmente não declarado para as autoridades. O mais revoltante não é o fato de que empresas grandes como a Odebrecht sempre financiou partidos de esquerda e de direita como o PT, o PMDB e o PSDB, e sim a desfaçatez do GAFE, que sempre soube das negociatas feitas por debaixo dos panos da política brasileira e age como se a relação das grandes corporações com os governos fosse a maior novidade desde a invenção da pólvora ou da bomba atômica. Sem mencionar o tratamento distinto para líderes políticos: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi “favorecido” por vantagens indevidas enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria recebido propina das mãos de empresários.
    A classe política brasileira enriqueceu e se manteve no poder graças a orçamentos superfaturados realizados mediante pagamentos gordos de propina. Dinheiro público que poderia ser investido para o bem-estar das instituições públicas, já que são quantias geradas pelos impostos altíssimos que pagamos. Infelizmente os candidatos que se elegem e vencem os pleitos eleitorais não o fazem por desejarem o melhor para o seu povo, mas sim porque possuem interesses exclusivos no fortalecimento de suas contas bancárias.


       Enquanto o GAFE faz barulho e estardalhaço diante do espetáculo das delações premiadas (uma maneira bastante cômoda para estes figurões graúdos se safarem de penas mais agressivas, não?), boa parte da sociedade brasileira que saiu de panelas nas mãos se calou. Não se ouve mais o som incômodo de uma panela vazia nos bairros de classe média ou de classe média alta. O que aconteceu? O poder de compra dessas pessoas aumentou? A perplexidade tomou conta destes lares? Ou será que estas pessoas estão em estado de choque diante desta pantomina ridícula?
         Enquanto isto, o golpista Michel Temer tenta dar prosseguimento a um governo ilegítimo e com o seu pacote de medidas para “resolver” a crise econômica que não foi aprovado por, pelo menos, 54 milhões de brasileiros. Segundo os delatores da Odebrecht, era o próprio Vice-Presidente do governo Dilma Rousseff que comandava os esquemas de propina a serem distribuídos para o PMDB. Nove de seus ministros estão citados nos depoimentos com suspeita de corrupção. Se citarmos os integrantes das comissões especiais da Câmara dos Deputados que votaram a favor do impeachment de Dilma, 35 de 38 deputados estão citados nas delações premiadas. Ouço panelas para este fato? Não...
         Enquanto os funcionários do Palácio do Planalto ficam de olho no que postamos nas redes sócias a respeito dos fatos e acontecimentos sobre a política brasileira, a mudez deixa de ser um privilégio dos inocentes que se vestiram de verde e amarelo com panelas de teflon nas mãos. Passamos a observar o silêncio dos imbecis em meio a este espetáculo dantesco no qual se tornou a política nacional. O radicalismo dos discursos de extrema-direita se agiganta enquanto muitos militantes de esquerda assistem, também em pleno choque, ao desmonte da classe que domina o Poder Executivo.


Lembro-me de alguns versos de uma das pouquíssimas canções da Legião Urbana que me agradam. Em “O Teatro dos Vampiros”, Renato Russo nos diz abertamente que “os assassinos estão livres / nós não estamos”. Os vampiros estão a sugar nossas forças de trabalho, nossas demonstrações de honestidade, nossas crenças em dias melhores. Renato estava certo, infelizmente: ao pensar sobre os horrores, eu tenho a impressão de que envelheço dez semanas a cada hora que passo.


Enquanto os ovos de páscoa farão a festa de milhares de famílias brasileiras para celebrar a ressurreição do homem que foi crucificado (como um marginal, meus caros: não se esqueçam!), o silêncio dos imbecis diante dos escândalos de corrupção se fará ainda mais presente. E a lógica do “bandido bom é bandido morto” diante de qualquer morto de fome que faz de sua navalha o seu cartão de crédito para algo desejado será lembrada como uma maneira de se fazer justiça. Afinal, quem precisa de um bandido de estimação qualquer se criamos a pão de ló 513 deputados, 81 senadores e uma família de parasitas no Palácio do Jaburu, em Brasília?



         Minha consciência diante de todos os fatos e acontecimentos mostrados aqui de maneira não muito polida e elegante fica tranquila, diante da seguinte constatação: não traí minha pátria, não a crucifiquei. Sempre deu o meu melhor pelo meu país e continuarei a fazê-lo enquanto alguém não me crucifica por aí com algum desejo vago de justiça... 


13 de abril de 2017

DISCOS DE VINIL # 27

MADONNA – BEDTIME STORIES (1994)



“I’m a role model for those who dare to be different. For those who dare to take a stand in their life and have an opinion.”
(Madonna)


No ano de 1994, Madonna vivenciava uma das maiores encruzilhadas de sua carreira até então. A Pop Star precisava se reinventar urgentemente para que pudesse continuar no topo das paradas de sucesso e, principalmente, sobreviver aos ciclos velozes e (às vezes) furiosos da cena musical dos anos 1990. Like A Virgin já tinha completado uma década de explosão, enquanto o combo bombástico composto pelo álbum Erotica, o livro Sex, o filme Body of Evidence e a turnê The Girlie Show colocaram Madge no topo da lista das celebridades mais controversas e discutidas da mídia do planeta entre 1992 e 1994.


Em suma: Madonna era persona non-grata número 1 de acordo com muitas famílias tradicionais do mundo inteiro por não ter tido a menor vergonha em falar de sexo (em sua plenitude) de maneira extremamente despojada e depravada para o mundo. Seus fãs eram considerados admiradores de uma “vagabunda sem classe” e blá blá blá… Bedtime Stories foi o contra-ataque de Madge aos seus inquisidores de plantão. A começar pelas fotos do próprio CD, que revela uma Madonna mais sóbria, sensual e elegante em um belíssimo ensaio fotográfico de Patrick Demarchelier, renomado fotógrafo do universo da moda. As imagens não lembram em absolutamente nada a mesma Pop Star que estava de chicotes de couro em punho meses antes.


Tal qual seu grande muso inspirador, David Bowie, Madonna também decidiu realizar uma grande transformação em seu som: sai da cabine de som o habitual parceiro Shep Pettibone (que já produzira smash hits como “Vogue” e “Erotica”) e entram em cena um quarteto fantástico de produtores que estavam envolvidos com o Pop e o R&B da época. São eles: Nellee Hooper, Dallas Austin, Dave “Jam” Hall e Babyface. Por conta disto, a música de Madonna nunca soou tão negra quanto na época de Bedtime Stories. Samples de Stevie Wonder, Aaliyah, Herbie Hancock, dentre outros permeiam as batidas deste trabalho. As letras são mais confessionais e tratam de temas altamente presentes nas canções da Pop Star: amor, ausência, hipocrisia, hedonismo, obsessão…



“Inside of Me”, quinta canção do disco, versa sobre uma presença amorosa que existe apenas no retrato da cama e nas memórias da voz que está cantando. Seria esta pessoa um(a) amigo(a) querido(a), ou a própria mãe de Madonna – morta quando a Pop Star ainda era criança? A produção de Hooper e os vocais sussurrados de Madge resultam em uma faixa repleta de groove e sensualidade, espantando a melancolia e o romantismo óbvio para bem longe.






“Survival”, “Human Nature” e “Love Tried to Welcome Me”, por exemplo, revelam o ressentimento e a (eterna!) culpa cristã de Madonna em relação aos que colocaram sua cabeça a prêmio. Versos como “I’ll never be an angel / I’ll never be a saint, it’s true / I’m too busy in surviving / Whether it’s heaven or hell / I’m gonna be living to tell” (“Survival”); “You punished me for telling you my fantasies / I’m breaking all the rules I didn’t make” (“Human Nature”) ou “I know how to laugh, / but I don’t know happiness / And I must confess, instead of spring, it’s always winter / And my heart has always been a lonely hunter (…)” (“Love Tried to Welcome Me”) revelam toda a angústia que Madonna sentia e vivia naquele período – um álbum, um livro e uma turnê que revelaram uma atitude de independência e despudor para falar de tabus em uma era na qual os EUA e o resto do mundo estavam mais conservadores com a cartilha do neoliberalismo e a ascensão das mortes por AIDS, dentre outros problemas lhe renderam um preço altíssimo.







“I’d Rather Be Your Lover”, “Take a Bow” e “Forbidden Love”, produzidas por Dave Hall e Babyface tiveram participações especiais. A primeira delas, por exemplo, chegou a receber a contribuição do rapper Tupac Shakur (que, dizem certas línguas, teve um breve romance com Madonna): como Tupac fora preso na época da finalização de Bedtime Stories, a Warner Bros. Decidiu cortar os versos do artista e substituir o rap pelos improvisos da baixista e cantora Me’Shell N’dgé Ocello, rendendo um resultando tão provocante quanto o original, pois a letra passa a sugerir uma relação lésbica. “Take a Bow” e “Forbidden Love” tiveram a produção e os backing vocals de Babyface (nome verdadeiro de Kenny Edmonds) tiveram bastante popularidade no final da primeira metade dos anos 1990. Se formos pensar nas três das melhores baladas interpretadas por Madonna, “Take a Bow” obrigatoriamente deve constar entre elas.



No grupo das faixas de Bedtime Stories que apontam as transformações mais radicais do som de Madonna estão as faixas 9 e 10 do álbum. “Sanctuary” é marcada por uma batida trip hop hipnótica que flerta com a sonoridade dos álbuns do Massive Attack (grupo com o qual Madge trabalharia pouco depois). “Bedtime Story”, única faixa do disco que não fora composta pela Pop Star”, é uma parceria de Björk com Nellee Hooper e Marius de Vries: uma mistura intricada de sons eletrônicos com batidas de House, Ambient Music, New Age e Techno.


Devemos fazer uma menção à parte para o videoclipe de “Bedtime Story”: dirigido por Mark Romanek – que já trabalhara com a artista no premiadíssimo “Rain” –, o clipe é repleto de efeitos visuais de última geração lá pelos idos de 1994-1995 e inspirado em pinturas surrealistas e na obra de Frida Kahlo. A apresentação desta canção no Brit Awards na qual Madonna vestia um Versace e um longo aplique nos cabelos, é um dos melhores momentos jamais vistos na história de prêmios de música Pop em todos os tempos.




As duas faixas de Bedtime Stories que deixamos para o fim deste texto são “Don’t Stop” e “Secret”. A primeira faixa trata do tema mais recorrente nas canções de Madonna: o hedonismo que surge nas pistas de dança. Após a passagem de vibrações muito pesadas, Madge propõe um convite muito simples para o seu ouvinte – que ele deixe a música e o ritmo lhe levar para o esplendor do êxtase proporcionado pelo bom e velho groove. Já a segunda faixa, que foi o primeiro hit single de Bedtime Stories, é uma das faixas mais enigmáticas da discografia da Pop Star. Versos como “Happiness lies in your own hand / It took me much too long to understand / How it could be / Until you shared your secret with me” não trazem meras constatações por parte de uma das maiores artistas do século XX, pelo contrário, eles provocam ainda mais perguntas em torno da natureza do segredo que tinha sido compartilhado…


“Secret” era a pá de cal que Madonna lançava em relação ao som que estava desenvolvendo até o início da década de 1990. A voz que canta com um violão folk ao fundo para abrir espaço para uma batida R&B marcante. Pela primeira vez em sua carreira, o som e a imagem da loura que sacudiu o planeta com o discurso lascivo de “Like A Virgin” convergiram para um conjunto mais light, porém não menos denso e provocante.



Bedtime Stories não rendeu o primeiro lugar das paradas para Madonna. No entanto, o disco recebeu reviews bastante favoráveis da crítica especializada. Certamente, é um dos discos mais importantes da obra musical da Rainha do Pop e que, por sua deliciosa mistura de sons e imagens, merece sempre ser ouvido com intensidade e paixão...

11 de abril de 2017

TROVA # 118

SEM PARTIDO, COM MORDAÇA


“We don’t need no education
We don’t need no thought control
No dark sarcasm in the classroom (…)”
(Roger Waters, 1979)



Dentre todas as irregularidades que tem acontecido no país desde o golpe de 2016, as piores delas se concentram nos ataques incessantes contra as escolas brasileiras. O Ministério da Educação não apenas limitou o orçamento das Universidade, como também cortou programas universitários (saudades do Ciência sem Fronteiras, amiguinhos?) e realizou uma reforma do Ensino Médio completamente estapafúrdia e autoritária – alunos e professores não foram sequer convidados a debater o tema a fundo. Porém, nenhuma destas arbitrariedades chama mais a minha atenção do que as propostas do grupo Escola sem Partido.
Idealizado por um advogado de São Paulo, o ESP alega que o principal mal das escolas brasileiras reside no fato de que os alunos são doutrinados por docentes esquerdopatas que impõem suas concepções políticas, morais e religiosas em plena sala de aula – ignorando completamente o fato de que os professores ganham mal, de que a educação privada é orientada por lógicas desumanas de mercado e de que as escolas públicas estão cada vez mais sucateadas e sofrem com o descaso das autoridades. De acordo com os mentores, nós, professores, devemos ser combatidos pelo Estado e impedidos de expor nossas crenças e concepções em nosso ambiente de trabalho. O que me pergunto diante de tamanhas propostas é o seguinte: por que docentes engajados e escolas participativas incomodam tanto os conservadores e poderosos?


A escola, em linhas gerais, deixou de ser o espaço opressor e retrógado tal qual observamos no filme The Wall, do Pink Floyd. Os bancos escolares do passado eram repletos de alunos reprimidos por professores e gestores que tratavam os espaços estudantis tal qual se fossem prisões. Em pleno século XXI, os estudantes possuem a liberdade (muitas vezes abusam da mesma!) de agir como desejam; o mesmo deveria valer para aqueles que se dedicam ao ensino, principalmente após a redemocratização do Brasil. Por sermos cidadãos, somos políticos. Por sermos profissionais de educação, temos o compromisso de atuarmos criticamente, pois é através da disseminação do saber é que fazemos um país andar para a frente. Se há um interesse para que o conhecimento se perpetue, é preciso ser responsável e apresentar os dois lados da moeda para cada fato a ser discutido em sala de aula, por exemplo.
O ESP acusa os professores de serem “doutrinadores” por colocarmos em prática preceitos marxistas, no entanto, veem Mises como um guru e Paulo Freire como a personificação de Lúcifer ou apenas um petista ordinário. A partir desta lógica muito pessoal e peculiar, eles se sentem à vontade para cercear e intimidar o trabalho de operários do ensino, estes comunas vermelhos, comedores de criancinhas dispostos a almoçar os cérebros de nossos jovens a qualquer hora do dia. Minha experiência como profissional da rede privada de ensino esfregou na minha cara que a lógica mercadológica, amada pela direita sempre deu o tom da ideologia dos estabelecimentos – o aluno, isto é, o pagante é o cliente que sempre tem e terá razão – e nunca foi objeto de perseguição dos órgãos oficiais ou do ESP.
Duas escolas da Prefeitura de São Paulo receberam a visita de um vereador ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre) no início de abril de 2017. O intuito da “visitação” era o de fiscalizar as condições das instituições e verificar se os professores não estariam doutrinando os alunos daquelas unidades escolares. A repercussão pública foi escandalosa: as redes sociais e seus partidários e seus partidários de esquerda e de direita entraram em mais um debate baixo e violento; a grande imprensa e os vassalos do GAFE (Globo, Abril, folha e Estadão) viram nesta discussão acalorada uma oportunidade e tanto para atirarem mais lenha na fogueira; o Secretário Municipal de Educação – a autoridade mais competente e habilitada para nos orientar e fiscalizar) – decidiu pedir demissão, mas foi demovido da decisão pelo Prefeito de São Paulo, João Dória.
O fator mais revoltante da visita do vereador do MBL não foi a simples e notória patrulha ideológica ou a imposição da tática de mercado de fiscalizar os funcionários para verificar se a produção está de acordo ou não com a meta esperada. Atos como estes restringem a liberdade dos professores através da pura e simples intimidação, tal qual ocorria nos tempos da ditadura militar. Este é o pior retrocesso imposto pelo golpe de estado liderado por Michel Temer e o PMDB: reprimir profissionais de ensino, limitar a atuação crítica das escolas, sucatear a educação pública, atingir o povo com a retirada de um de seus direitos mais importantes.
Escolas são espaços de liberdade: a pluralidade de saberes precisa ser mantida, a diversidade precisa ser respeitada (daí a importância de se discutir questões de gênero com nossos alunos, por exemplo), a liberdade do professor em um ambiente de trabalho tão desgastado – salários baixos, assédio moral, burocratização e mercantilização do ensino – não pode ser patrulhada por fascistoides populistas. A lógica da mordaça para combater nossas crenças em pleno século XXI não nos cabe mais.

É por isto que acredito na importância da luta dos profissionais de Educação para que nosso trabalho não seja golpeado de maneira tão dura pelos defensores do ESP. Sem resistência, há retrocesso. Sem luta, há patrulhamento. Sem a crença em nós mesmos e no nosso poder de alcance, não há um Brasil melhor.