26 de janeiro de 2021

TROVA # 160

 

A AGRESSIVIDADE ANGELICAL DE DOLORES O’RIORDAN

 

“But I'll miss you when you're gone

That is what I do, hey, baby

And it's going to carry on

That is what I do, hey, baby”

(Dolores O’ Riordan, 1996)

 


A única certeza que possuímos nessa vida é a de que um dia nos encontraremos com a morte. Nossa estadia por aqui pode ser um breve intervalo, pode ser uma pausa longa, com discrição ou com bastante estardalhaço. Apesar de ter uma noção muito clara desse fato, ainda é bem penoso ter que aceitar a ordem natural dos acontecimentos em determinadas ocasiões.

O saudoso Antônio Abujamra, quando estava à frente do programa Provocações (TV Cultura), sempre perguntava aos seus entrevistados ao final de cada entrevista a pergunta eternamente sem resposta: “O que é a vida?”. O convidado sempre procurava respostas inteligentes, com vernizes filosóficos, para responder à indagação de Mestre Abu, que repetia a mesmíssima pergunta, logo em seguida. O sorriso levemente sarcástico e a pausa dramática do entrevistador diante de um entrevistado geralmente desconcertado era um deleite para os espectadores e deixa uma lição bastante interessante: se a morte é fácil de ser definida, ainda faltam-nos palavras para encontrar uma definição do que é viver.



Acordei com um gosto amargo de viver na manhã de 15 de janeiro de 2018. Era uma segunda-feira de férias como outra qualquer, com tempestades de verão que acinzentavam o céu, para a tristeza daqueles que foram curtir uma temporada no Rio de Janeiro. Quando fui ler as notícias do dia, acabei me dando conta de que haveria ansiolítico ou antidepressivo que pudesse conter aquele mal estar: especialistas diziam que estávamos vivendo o “dia mais triste do ano”.


            Antes de sair em busca de New Order no streaming para ouvir “Blue Monday” e me afundar de vez na tristeza que me convidava para dançar, continuei a zapear pelas redes sociais para espantar as vibrações pesadas, mas o tiro saiu pela culatra. Ao abrir o Facebook, dei de cara com uma notícia do The Independent informando que Dolores O’Riordan, vocalista dos Cranberries, tinha morrido em Londres com apenas 46 anos de idade. Em um estalar de dedos, a vida de uma das mulheres mais interessantes do meio musical durante a década de 1990 tinha virado memória...

Dolores O’Riordan era apenas 10 anos mais velha do que eu e estava em plena atividade – estava gravando um novo trabalho e já tinha lançado 7 álbuns de estúdio com os Cranberries, 2 discos solo e ainda tinha um projeto paralelo (o trio D.A.R.K.). Fiquei tão perplexo com a partida tão repentina de Dolores que mal conseguia pensar em outros assuntos. Simplesmente porque sempre estamos bem mais “preparados” para nos despedir de artistas mais velhos e experientes, que já cometeram todos os tipos de abuso químico que a vida lhes permitiu e, evidentemente, estão mais próximos da morte do que nós, nascidos nos insípidos anos 1980.

Em 1996, estava na adolescência e era ávido por novidades musicais, como muitos da minha geração. Assim que a MTV Brasil chegou na minha casa, assisti ao clipe de “Ridiculous Thoughts” e a voz de Dolores à frente dos Cranberries caiu como um verdadeiro raio no meu gosto musical saturado de tanta Pop Music fácil e barata. Tempos depois, descobri que meus primos por parte de pai tinham os três primeiros discos da banda – Everybody Else is Doing It, So Why Can’t We? (1992), No Need to Argue (1994) e To The Faithful Departed (1996). Aproveitava as visitas à casa de minha tia para ficar ouvindo aqueles discos com eles e ficava sonhando com eles rodando no meu aparelho de som e ficar a par das novidades musicais mais quentes da década de 1990.



Meus anos de adolescência não teriam sido os mesmos sem aquela banda composta por quatro jovens irlandeses comandados por uma moça espevitada, de penteados mil e dona de uma voz que conseguia ser agressiva e angelical ao mesmo tempo. Nos já longínquos anos 1990, Dolores O’Riordan era comparada a seu conterrâneo Bono Vox, do U2, não apenas por sua presença de palco marcante, como também por suas letras politizadas e acordes estridentes. É uma pena que ela não viveu o suficiente para fazer de sua banda um acontecimento tão expressivo quanto os músicos que ainda tocam clássicos do Rock como “Sunday Bloody Sunday” ou “Beautiful Day” em vários estádios do mundo.

Logo após a notícia da morte de Dolores, soube que ela vinha de uma família conservadora (e extremamente religiosa) de sete irmãos, que ela sofria de transtorno bipolar e que já tinha sofrido abuso sexual, fatores que devem ter contribuído bastante para a agressividade que ela despejava nas gravações e nos palcos. Nenhuma alma consegue se manter ilesa diante de traumas tão profundos, daí canções como “Zombie”, “Free to Decide” ou “Linger” carregarem um lirismo tão angustiante. Em uma década na qual Madonna, Mariah Carey e as Spice Girls eram símbolos de feminilidade na música Pop, Dolores O’Riordan se juntava ao coro de mocinhas não tão bem-comportadas como Alanis Morissette, Sheryl Crow, Fiona Apple ou Paula Cole e conseguia ser mais feroz do que elas todas juntas.

A melancolia, a honestidade e a intensidade de Dolores O’Riordan nos faz uma falta enorme em um mundo tão necessitado de mulheres fortes, corajosas e inspiradoras. Que a mulher por detrás das canções tenha encontrado a paz e a serenidade tão procuradas por ela em cada um de seus acordes e versos...   


 

17 de janeiro de 2021

TROVA # 159

 

A GLORIFICAÇÃO DA IGNORÂNCIA

Dois episódios de intolerância e burrice que podem levar a democracia para o colapso


“The lunatic is in my head

The lunatic is in my head

You raise the blade,

you make the change

You re-arrange me ‘til I’m sane

You lock the door

and throw away the key

There’s someone in my head

but it’s not me”

(Roger Waters, 1973)

 

                Todos nós sabíamos que os primeiros dias de 2021 não seriam nada fáceis para o Brasil, tampouco para o resto do mundo. Porém, dois eventos ocorridos na primeira quinzena de janeiro demonstram que, tal qual nos diz o ditado, “miséria pouca é bobagem”.

         Nos EUA, Donald Trump entrou no ano novo ainda sem ter admitido que a derrota por Joe Biden nas eleições presidenciais de 2020. O mundo inteiro sabia que o demônio de laquê faria mais uma investida contra as instituições norte-americanas para garantir mais quatro anos dentro da Casa Branca. A transferência de poder, longe de ser harmônica e republicana, tem sido uma troca de acusações, deixando a opinião pública em alerta por se tratar do país mais poderoso do planeta.

         No dia 6 de janeiro de 2021, o mundo tomou conhecimento da cartada de Trump para manter o poder. Diretamente de Washington, incitou uma horda de supremacistas brancos fanáticos para marchar até o prédio do Capitólio e impedir os membros do Congresso Nacional de diplomar Biden como o 46.º Presidente dos EUA. Os invasores invadiram um prédio público com facilidade, promovendo arruaças, quebra-quebras, pondo a vida de centenas de congressistas em risco. Cinco pessoas foram mortas em um dos eventos mais vergonhosos da história da democracia, com direito a transmissão mundial e em tempo real.

         Para estas retinas um tanto fatigadas, a cena mais estarrecedora de 6 de janeiro foi revelada no dia seguinte. Um vídeo divulgado por Donald Trump Jr., filho mais velho do Presidente, mostrava imagens da comitiva presidencial acompanhando a insurreição do Capitólio por meio de imagens de câmeras de segurança diretamente dos jardins da Casa Branca. Enquanto a barbárie avançava ferozmente, acuando os congressistas norte-americanos e demais presentes, os autofalantes tocavam “Gloria”, um sucesso de Laura Branigan que tinha feito enorme sucesso no início dos anos 1980.


Ao mesmo tempo em que correligionários trumpistas dançavam e urravam de alegria e excitação, ouviam-se os versos “Gloria, / don't you think you're fallin'? / If everybody wants you, / why isn't anybody callin'?” [Glória, / você ainda não entendeu que está caindo? / Se todo mundo lhe quer / por que não há ninguém chamando?”]. Por uma ironia do destino, os trumpistas bailavam tinha a trilha sonora perfeita para demonstrar que não se importavam com o fato de que mais de 80 milhões de pessoas e de que centenas de delegados se recusaram a prosseguir com o projeto de governo catastrófico de Donald Trump por mais quatro anos. O escárnio e o deboche daqueles indivíduos me deixaram profundamente revoltado por não haver nenhuma demonstração de empatia ou apreço pelas instituições.


Como consequência do horror que se abateu pelo Capitólio, um pedido de impeachment contra Donald Trump foi impetrado pela oposição do Partido Democrata, julgando-o culpado pela invasão do Congresso dos Estados Unidos. Nenhum político estadunidense conseguiu a marca histórica de ter sido condenado duas vezes por pedidos de impedimento (da primeira vez ele foi absolvido pelo Senado dos EUA). A ignorância trumpista, depois de tantos males feitos em 4 anos, parece estar chegando ao seu apogeu.

         Logo após os States vivenciarem os espasmos das primeiras vertigens de sua democracia, o nosso processo democrático apresentava novos sinais de que está adentrando em falência múltipla. Enquanto o número de doentes por COVID-19 aumentava assustadoramente devido às reuniões familiares e aglomerações das festas de fim de ano, o Indigno Presidente da República Federativa do Brasil se dizia preocupado com o futuro da nação ao demonstrar pesar com a importância do voto impresso e de que o ambiente político-social brasileira ficaria pior do que o norte-americano se ele não for reeleito em 2022. Durante os primeiros dias do ano, o Ministro da Saúde (um militar “especialista” em logística) destilava a sua arrogância e o seu desconhecimento da complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS), deixando a imprensa e a população em estado de perplexidade diante de seus pronunciamentos. O conhecimento científico passou a contar com o deboche do Presidente e de seus asseclas.

         Porém, a tragédia anunciada há tempos por epidemiologistas e outros especialistas em pandemias, controles epidêmicos e cargas virais se concretizou no raiar do dia 14 de janeiro de 2021. O sistema de saúde de Manaus, capital do Amazonas, atingiu o nível máximo de internações, esgotou todo o seu estoque de oxigênio e entrou em colapso. Enquanto doentes morriam por asfixia, profissionais de saúde e familiares se desesperavam para tentar salvar quem agonizava nos leitos hospitalares. Durante a espera de uma vacina para nos protegermos do coronavírus, assistimos milhares de brasileiros mortos por dia sem poder fazer quase nada. A ignorância bolsonarista, depois de tantos males feitos em 2 anos, parece estar chegando ao seu ápice.

*

         A Era da Mediocridade em escala mundial foi inaugurada por Trump em 2016 e teve nas chamadas fake news o seu combustível para tomar a democracia de assalto. Dois anos depois, o Brasil elegeu um dos políticos mais repugnantes da história para o posto político mais alto da República graças a um misto de desinformação, desumanidade e desserviço. O espaço público tem convivido com o que há de mais abominável em matéria de seres humanos ultimamente, deixando todo o ódio de classe, de raça e de gênero aniquilar o que ainda resta de direitos humanos por estas bandas.

Ao contrário do que acontece na letra de “Brain Damage”, uma das canções mais emblemáticas do repertório do Pink Floyd, o louco que estava na minha cabeça não era eu. De uns tempos para cá, ele deixou de habitar os meus pesadelos para apresentar a intolerância com o intuito de ofuscar a sabedoria e a diversidade, causando uma histeria coletiva de ódio e de ignorância. Graças às correntes toscas de redes sociais e de aplicativos de mensagens, passei a ter um respeito maior pela figura pública de Roger Waters, ex-baixista e líder da lendária banda inglesa, pois poucos escreveram tão bem sobre ódio e intolerância em matéria de canção. Em tempos de mediocridade e ignorância, é fundamental louvamos quem preza por liberdade e democracia e Waters sempre fez questão de denunciar fascistas e autoritários para seus ouvintes.


Por fim, nunca é demais dizer que a chamada “Era da Mediocridade” exige um preço alto daqueles que ainda cultivam a inteligência. Mais do que exaltada, a ignorância é glorificada por meio de autofalantes e pelos brados dos idiotas e tem matado milhares de brasileiros por uma peste que não tem previsão de nos abandonar tão cedo. Mas, enquanto estivermos aqui, estaremos respirando, cantando, escrevendo, protestando e xingando contra todo e qualquer autoritarismo. Afinal, os “esquerdistas” também amam. Às vezes, até demais...



11 de janeiro de 2021

TROVA # 158

 

JUDY & FREDDIE

Assistir as vidas de Judy Garland e Freddie Mercury no cinema me deu a oportunidade de saber um pouco mais sobre eles...



“No silêncio da noite, muitas vezes desejei apenas algumas palavras de amor de um homem, em vez do aplauso de milhares de pessoas.”

(Judy Garland)

 “Eu sou uma prostituta musical, querido.”

 (Freddie Mercury)

 

         Biografias nunca fazem jus aos seus respectivos homenageados. Quando a trama é levada para a tela do cinema, as chances de surgirem grandes controvérsias são altamente prováveis, visto que nem todos os roteiros cinematográficos conseguem contar algumas passagens da vida de astros e estrelas como elas realmente aconteceram. John Lennon, Jim Morrison, Cazuza, Tim Maia, Renato Russo e Elis Regina são alguns exemplos deste fato. Mas tem duas que eu assisti recentemente que chamaram bastante minha atenção e a minha curiosidade: a cinebiografia de Judy Garland e a de Freddie Mercury, do Queen.

* 





         Em julho de 2019, os frequentadores da Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Londres receberam a atriz Renée Zellweger como convidada especial para a exibição do trailer de Judy (2019), de Rupert Goold, cinebiografia da estrela de O Mágico de Oz. Graças à película, Zellweger levou o Oscar de Melhor Atriz do ano de 2020 para casa e reacendeu a chama do mito Judy Garland para uma nova geração de fãs, incluindo este que vos escreve.

         Judy reconstitui os principais acontecimentos que envolviam a última turnê de uma das maiores estrelas da história do entretenimento: seus problemas financeiros, suas batalhas com o ex-marido Sidney Luft (pai de Lorna e Joey, seus filhos mais novos), o vício em drogas, seus ataques de insegurança e fúria, sem contar as instabilidades e incertezas que sempre permearam sua vida sentimental e profissional. As origens da estrela apareciam em cenas de flashback (as filmagens de O Mágico de Oz, a relação difícil com os estúdios de Hollywood, a amizade “colorida” com o astro Mickey Rooney) para que o espectador menos informado compreendesse a origem eternos conflitos de Judy Garland.

         Foi em uma noite de domingo que eu me sentei em uma sala de cinema para assistir a Judy, o filme. A atuação de Renée Zellweger é tão irrepreensível a ponto de nos transportar para o universo de Garland sem questionamentos. Quando saí de lá, não fiquei apenas encantado por Judy, como também fiquei abismado com a dimensão de sua sina e de seu talento: a intensidade de uma estrela cujo brilho foi apagado pelas consequências mesquinhas da indústria do entretenimento. Por outro lado, tive a clara convicção de que artistas do porte de Judy Garland são simplesmente insubstituíveis, por mais que existam pessoas que reconheçam o seu legado.

         Depois de assistir ao filme, fui à caça de performances de Ms. Garland no YouTube e achei uma de suas biografias em um sebo no Rio de Janeiro. Descobri, por exemplo, que ela teve um programa de TV nos EUA durante a primeira metade da década de 1960. Dentre as pérolas do baú do audiovisual de Judy, encontrei uma interpretação sensível de “I Can’t Give You Anything But Love” (Dorothy Fields & Jimmy McHugh), canção de 1928 que já tinha sido gravada por Lena Horne, Marlene Dietrich, Billie Holiday, Doris Day, Ella Fitzgerald, para ficarmos apenas com as deusas do bel-canto feminino. Com todo o respeito às artistas citadas, mas a releitura de Judy é de uma intensidade tamanha a ponto de emocionar qualquer um que preste atenção no que ela estava dizendo.


         Se o brilho artístico de Judy Garland tivesse sucumbido com o final de sua trajetória neste mundo, jamais teríamos tido a oportunidade de aprender com ela o que é interpretar uma canção com toda a verdade que a obra de arte exige. Devo isto a Hollywood, ao filme Judy e ao talento indiscutível de Renée Zellweger. Porém, a família da estrela não se interessou pela película: Liza Minnelli, filha mais velha de Judy, se recusou a ver o filme e a dizer qualquer palavra sobre o assunto.

*

 

         A vida de Freddie Mercury, o lendário vocalista do Queen, ganhou as telas de cinema com o filme Bohemian Rhapsody (2018), de Bryan Singer e Dexter Fletcher. Contou com a coprodução de dois dos membros da banda e se tornou em uma das maiores bilheterias do gênero da história em pouco tempo. Precisei de um pouco de tempo para ter a curiosidade suficiente para encarar uma sala de cinema para assistir a versão da vida de um dos artistas mais originais, inquietos e controversos do século XX. Confesso só fui depois que várias pessoas do meu círculo de familiares e amigos já tinham aventurado pelo escurinho do cinema, com combos de pipocas e refrigerantes a tiracolo, e recomendaram que eu fosse ver o filme o quanto antes. Mais uma façanha digna de orgulho para o próprio Freddie, que conseguiu despertar o interesse de um público gigantesco décadas após a sua saída definitiva de cena.


         Ninguém precisa ser um fã devoto do Queen (não me encontro entre eles) para saber que Freddie Mercury não era uma das pessoas mais fáceis de conviver no meio artístico: dono de um talento tão gigantesco quanto seu ego, sua luxúria e seu temperamento explosivo, além de extravagante ao extremo dificultando sua convivência com os demais membros da raça humana. Bohemian Rhapsody retrata tal faceta de Freddie com bastante louvor. No entanto, os admiradores da banda se revoltaram com a omissão de alguns fatos importantes, além da cronologia irregular que se apresentou no roteiro.



         É evidente que essas adaptações / ajustes foram feitos para que a biografia de Freddie Mercury “coubesse” em 90 minutos de filme. Para que a história do vocalista do Queen fosse devidamente aceita pelo grande público e por Hollywood, sua figura precisou ser suavizada, reinventada para ser aceita pelas massas e garantir maior retorno nas bilheterias ao redor do globo. Graças ao sucesso do filme, Rami Malek (ator que interpretou o vocalista do Queen na telona) levou o Oscar de Melhor Ator de 2019 para casa, derrotando concorrentes de maior peso, para surpresa de vários críticos especializados.

         Por outro lado, apesar de reconhecer as falhas de Bohemian Rhapsody (e elas são bem evidentes!), consegui me afeiçoar ao filme e à figura de um dos maiores ídolos da geração dos meus pais. Quando Freddie Mercury morreu por decorrência das complicações geradas pelo vírus da AIDS, em novembro de 1991, eu começava a dar os meus primeiros passos como ouvinte de música e só relacionava a imagem do Queen à foto da capa do álbum Greatest Hits que eles tinham lançado no início da década de 1980. Ver o filme me trouxe não apenas lembranças da minha infância, como também me trouxe a vontade de ouvir e conhecer um pouco mais o trabalho da banda.


         Ao contrário dos fãs mais radicais do Queen, fiquei feliz em ver um Freddie Mercury reinventado nas telonas do cinema. Em tempos nos quais o patrulhamento e a homofobia são gigantescos, é sempre estimulante ver um ícone LGBTQIA+ como protagonista de uma trama cinematográfica adorada por milhões de pessoas. Desta feita, ver um bigodudo bailando com seu microfone para lá e para cá deixa de ser uma aberração em um mundo conservador para ser algo corriqueiro e que faz parte do cotidiano, diverso e sem preconceitos.

* 

Não posso negar que ter ido ao cinema para assistir as vidas de Judy Garland e Freddie Mercury na telona me deu a oportunidade de saber um pouco mais sobre eles. Não apenas porque a arte desses dois artistas tão distintos sempre foi de enorme serventia para a humanidade, como também para entender que a vida dessas pessoas públicas (inventadas ou não) nos trazem duas lições básicas: a primeira delas é que por trás de todo glamour, pode haver um enorme sofrimento; a segunda e mais importante, os conflitos dos “mitos” do entretenimento podem ser parecidos com os meus, os seus e os nossos problemas.

31 de dezembro de 2020

TROVA # 157

 

O CANSAÇO DA ESPERANÇA

Como o ano de 2020 cansou com algumas de nossas esperanças?

 


“Esperança cansa
Cansa de esperar
Já não tô podendo mais
Minha paciência é a razão
 

Minha fúria odiosa já tá na agulha
Minha fúria odiosa já tá na agulha
E um dia poderosa
Poderá dizer que acha tudo muito pouco
 

Fugir quando estiver desesperada, abandonada
E de repente voltar
Cansada esperada
Desapropriada
Fúria amansada descansa
 

E de repente, volta
Cansada esperada
Desapropriada
Fúria amansada descansa
”

(Karina Buhr, 2010)

 



Se você chegou até aqui, é porque sobreviveu junto comigo e junto de tantos outros que fizeram com que as coisas valessem a pena. Escrevo este texto faltando menos de 24 horas para o apagar das luzes do ano da (des)graça de 2020 na tentativa de encontrar uma lógica coerente ou um pouco de esperança para o próximo ciclo de 365 dias que está a caminho. A dificuldade é imensa, já que vivemos anos bastante difíceis: uma pandemia que ceifou a vida de quase 200 mil brasileiros e contaminou (oficialmente) mais de 7 milhões e meio de pessoas; uma crise política permanente aliada a retrocessos econômicos, minando quaisquer possibilidades de avanços sociais;  os órgãos de imprensa vivem sob ataque constante do Governo Federal enquanto milhões retornam ao mapa da fome.

Sempre haverá um ou outro que pode me acusar de pessimista, ou de ser movido apenas por uma “fúria odiosa”, algo totalmente compreensível em tempos de tamanha intolerância. Porém, aproveito para me defender citando uma frase famosa do escritor português José Saramago que se encaixa com perfeição no ano de 2020: “Não sou pessimista, o mundo é que é péssimo!”. Os três exemplos que citei já são suficientes para derrubar a esperança de qualquer um para dar voz ao cansaço.

Mas, apesar de estar exausto de “tanto horror e iniquidade”, como nos disse Chico Buarque, a empatia que ainda habita o meu ser ainda me faz ligar o noticiário para assistir os acontecimentos do Brasil e do mundo durante o período de festas. O resultado é ainda mais desastroso: vejo pessoas curtindo a vida lá fora como se não houvesse um vírus que já matou milhares de pessoas e que tem levado os sistemas de saúde ao colapso – festas clandestinas, reuniões familiares com dezenas de pessoas, hotéis funcionando quase normalmente, máscaras faciais colocadas no queixo ou em lugar nenhum, um desapreço total pelos médicos e cientistas, que nos advertiram dos riscos de contaminação. Para os poucos que ainda estão em confinamento, como eu, ver essa turba toda se divertindo pela TV e pelas redes sociais (ambientes tóxicos por natureza!) é uma ofensa, um desrespeito, um deboche explícito: com medo de me infectar, estou em casa há mais de 9 meses e posso contar nos dedos das mãos quantas vezes eu saí de casa para ir ao trabalho, ao supermercado, ao correio ou ate a farmácia.

 


Deixando as festividades um pouco de lado, vamos fazer um breve retrospecto de alguns fatos e acontecimentos que sacudiram o ano? Enumero alguns deles...

2020 foi mais um ano no qual o racismo mostrou novamente a sua face mais perversa ao Brasil e ao resto do mundo. Para ficarmos apenas em nosso território, aproveito para retomar dois dados alarmantes: Primeiro: MAIS DE 2.000 CRIANÇAS E ADOLESCENTES FORAM MORTOS POR POLICIAIS ENTRE 2017 E 2019; Segundo: ATÉ O INÍCIO DE DEZEMBRO DE 2020, 12 CRIANÇAS E ADOLESCENTES FORAM ASSASSINADOS PELA POLÍCIA APENAS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO! Com a pandemia e com a maior quantidade de pessoas em casa, tivemos de prestar mais atenção a casos hediondos de vidas ceifadas pela irresponsabilidade de quem deveria proteger a sociedade. Fato ainda mais estarrecedor: a maioria das vítimas era negra. Em um texto publicado na Folha de S. Paulo de 6 de dezembro de 2020, afirmou Thiago Amparo, advogado e professor de Direito Internacional: “Balas não são perdidas, porque sempre acham os mesmos corpos negros para os quais foram disparadas.”

Diante do massacre praticado contra negros e pobres, eu me pergunto que tipo de “Boas Festas” tiveram os familiares das primas Emilly e Rebeca, mortas por uma “bala perdida” na frente de casa? Que tipo de “Boas Festas” tiveram os familiares de João Pedro Pinto, de Leônidas Oliveira e de tantos outros mortos pela irresponsabilidade do Estado enquanto famílias brancas puderam comemorar o final de 2020 com toda a irresponsabilidade que eles julgavam ter direito?

Outra palavra que ouvimos aos montes durante o ano da (des)graça de 2020 foi feminicídio. Graças ao assassinato brutal da juíza Viviane Arronenzi pelo marido na Véspera de Natal, os noticiários aproveitaram a ocasião para noticiar outros casos cruéis de mulheres que tiveram suas vidas interrompidas por seus respectivos (ex-)maridos, namorados e companheiros. Com todo o respeito à memória e às filhas da Juíza Viviane, eu me pergunto: precisou que morresse uma mulher branca de forma perversa para que a opinião pública voltasse seu olhar para um problema que atinge mulheres negras aos montes?

 



Nesta época, na qual celebramos o nascimento de Jesus Cristo, deveríamos buscar a reflexão, o amor pelo próximo, a tal da empatia que muitos citam e raramente praticam. Em um texto escrito no Natal de 2014, Guilherme Boulos escreveu algo que ainda se encaixa no Brasil de hoje: “Jesus dedicou sua vida à igualdade, à justiça e à paz entre os povos. Se reaparecesse (...) no Brasil, ficaria espantado com o que dizem e fazem muitos dos cristãos. Seria achincalhado com palavras inomináveis nas seções de comentários da Internet. Seria chamado de bolivariano na Avenida Paulista. Certa comentarista de telejornal o mandaria levar para casa a mulher adúltera que ele salvou do apedrejamento. E alguém, de dentro de algum carro no Leblon, gritaria: ‘Vai pra Cuba, Jesus!’.” Cristãos da boca para fora existem aos montes, levar os ensinamentos bíblicos a sério é algo não permitido pela hipocrisia de cada um. É muito mais cômodo agir como Pôncio Pilatos e lavar as mãos diante da barbárie que se pratica diariamente.

Ficar em isolamento dentro de casa seria um exemplo de olhar para o seu semelhante para que ele não entrasse para as estatísticas que os veículos de imprensa noticiam às 8 da noite com o objetivo de nos informar quantos foram infectados e quantos morreram em 24 horas. Abdicar de festas em família com mais de 10 pessoas seria um ato de sensatez. Dizer não para o convite do amiguinho e ir para qualquer parte seria outro exemplo de sanidade mental. Defender a vacinação para todos os brasileiros o quanto antes enquanto outros países do mundo já estão se vacinando seria ter princípios éticos bem consolidados dentro de si. No entanto, como se diz por aí, miséria pouca é bobagem: bom senso não é algo que faz parte do repertório de todo mundo.

 


Confesso: minha esperança está bem cansada em relação ao que virá. Reitero: cansada, mas (ainda) não está morta! Por isso, procurei ouvir a voz visionária dos artistas para encontrar forças e seguir em frente diante das tragédias. Muitos me ofereceram o conforto por meio de sua arte e me ajudaram a pensar o contexto atual com mais tranquilidade. Por isso, lembro-me de Patti Smith, uma das pessoas que mais me inspiram nos dias de hoje, que estou bem próximo dos 40 anos de idade: “O povo tem o poder / de consertar o trabalho dos tolos”. As linhas que eu escrevo talvez não tragam o conserto para muita coisa, mas me auxiliam a renovar as esperanças para o futuro. Afinal, o que se cansa pode se renovar. Aquilo já morreu, morto está e vai ficar. Sigamos em frente, com ou sem o cansaço para combater a barbárie...



14 de dezembro de 2020

TROVA # 156

 MINHA AMADA CECILINHA

Uma crônica para homenagear a Santa Protetora dos Músicos

Foto: Nilton Serra


    Já advirto ao leitor destas mal traçadas linhas: esta crônica não é sobre Cecília Meirelles. Também não é sobre Cecilia Bartoli, a soprano italiana que encanta qualquer leigo em matéria de música clássica. Quem sabe até poderia ser sobre Cecília Meirelles, uma das maiores expressões brasileiras em matéria de poesia em Língua Portuguesa. Poderia ser sobre a canção “Cecília”, uma das canções mais belas (e desconhecidas) do repertório de Chico Buarque de Hollanda. Talvez esta homenagem seja sobre nossa afilhada, uma menininha de seis anos que tem uma personalidade tão marcante que renderia uma crônica bem legal. Todavia, nenhuma delas é a musa do texto de hoje.




         Para os que me conhecem bem, Cecilinha é Santa Cecília, não o famoso bairro que fica na região central de São Paulo e que é adorado por nove entre dez jovens descolados, mas a Santa mesmo. Nascida em Roma, Itália, por volta do ano 150 D.C., Santa Cecília era filha de uma família nobre. Cristã, decidiu fazer voto de castidade para vivenciar o amor divino típico dos mártires que se sacrificam pela fé. Em uma era na qual a fé em Cristo era sinônimo de perseguição, foi condenada à tortura. Seu martírio levou muito mais do que se esperava, pois a jovem manteve sua fé inabalável e enfrentou seu destino trágico. Condenada à morte por uma machada no pescoço, Cecília recebeu um golpe fatal, porém ainda chegou a sobreviver por mais três dias e chegou a conversar e dar conselhos para aqueles que vinham rezar por ela. Seu ofício final foi o de cantar até não ter mais forças e morrer como uma das principais mártires da Igreja Católica.


         Desde então, Santa Cecília se tornou conhecida não apenas como mártir, mas principalmente como a Santa Padroeira dos Músicos, cujo dia é comemorado no dia 22 de novembro. Apesar de não ser músico profissional e de não tocar nenhum instrumento musical (fiz aulas de canto por um ano), devo muito do que sou profissionalmente à música. Por outro lado, minha vida acadêmica e profissional está intimamente ligada a versos e sons: eu me tornei Professor de Inglês motivado pelo que ouvia no rádio e conduzi minha vida acadêmica pesquisando o que havia de melhor da música brasileira. No entanto, dois episódios ocorridos comigo no dia 22 de novembro fizeram com que eu concluísse de uma vez por todas de que havia uma luz a guiar o meu caminho de um lugar o qual eu jamais poderia enxergar.


         O primeiro deles aconteceu em 2010. Paul McCartney estava prestes a começar uma turnê brasileira depois de quase duas décadas sem tocar por estas bandas. Tentei comprar ingressos para o show de 21 de novembro, domingo, mas, como existem tantos Beatlemaníacos por aqui quanto membros de torcida organizada, as entradas se esgotaram antes de um mero estalar de dedos. Faltando poucos dias para a apresentação, Macca anunciou que faria um show extra na segunda-feira, 22 de novembro de 2010. Diante da oportunidade de ouro, convoquei uma amiga e partimos em retirada para o Estádio do Morumbi e conseguimos três ingressos de pista para o segundo show da turnê Up and Coming.

Foto: Nilton Serra


         Segundo o relato de alguns amigos que foram ao show de 21 de novembro, Paul fez um belíssimo show para um Morumbi lotado e ensolarado. Tudo indicava uma semana sem catástrofes climáticas. Porém, segunda-feira, essa eterna bagunceira dos ânimos e dos humores do ser humano, nos reservava surpresas eletrizantes: São Pedro, em um péssimo dia, se revoltou e enviou uma tempestade daquelas em cima da Cidade de São Paulo! Mas foi uma chuva daquelas de parar a cidade inteira. Saí mais cedo do trabalho e fui para o estádio com seis horas de antecedência com o coração na boca e preocupado com a possibilidade de não chegar no local da apresentação. 

Entre Fabíola Bueno e Nilton Serra, o autor da maioria das imagens que estão na postagem de hoje.

Era dia de Santa Cecília e, sem que eu me desse conta, o aguaceiro resolveu dar uma trégua no Morumbi minutos antes de Paul McCartney entrar no palco. Para compensar os ânimos, Macca abriu o show tocando “Magical Mystery Tour”, dos Beatles (canção que eu jamais imaginei ouvir ao vivo na vida), alegrando o público já nos primeiros segundos da segunda apresentação de sua turnê por São Paulo. Dez anos depois, ao me lembrar daquele dia, constatei que Cecilinha sempre protege os músicos e os amantes de versos e sons como este aqui que vos escreve.



O segundo episódio no qual Santa Cecília apareceu na minha vida se deu quatro anos do show de Paul McCartney. Estávamos na região de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, para o batizado de nossa primeira afilhada. Por questões profissionais, não tínhamos muita opção a não ser postergar a cerimônia para o feriadão da terceira semana de novembro de 2014, já que a distância entre a capital e Rio Preto é de mais de 400 km. Na manhã de sábado, 22 de novembro, descobrimos que estávamos no dia da padroeira dos músicos e que o nome da pimpolha que estava prestes a ser batizada era Maria Cecília. Por maior que fosse a coincidência, já era mais do que tempo de retribuir as graças alcançadas. Afinal, a vida não é feita de acasos e sempre precisamos retribuir o carinho que recebemos...

O primeiro altar de Cecilinha: o RÁDIO!

Alguns anos depois, ganhei uma imagem de Santa Cecília de aniversário de meus pais. Vivia uma fase feliz na minha vida, tinha acabado de me mudar para um apartamento novo e estava às voltas com móveis e eletrodomésticos novos. Não pensei duas vezes antes de escolher um altar, diria, “um tanto peculiar”, para a santinha: ela passou a ficar em cima do meu antigo rádio, abençoando meu lar ao lado de todos os músicos que desfilavam pelo aparelho de som. 


Porém, a vida gosta de armar algumas surpresas para a gente: Cecilinha ficou soberana de versos e sons em cima do meu antigo aparelho de som até o dia em que o rádio quebrou de vez. Enquanto me acostumava ao meu apartamento novo, segundo em menos de dois anos, e com a bagunça de uma mudança e da falta de espaço, mal sabia onde guardava vários dos meus pertences. Certo dia, em um surto de arrumação, quis colocar minha imagem de Santa Cecília em um local seguro, pois receberíamos visitas para um dia de domingo. Acreditem se quiser, mas toda criança que vem nos visitar fica encantada pelo meu escritório: não apenas por causa dos livros, mas por causa das miniaturas e trecos mil que coleciono e se acumulam no caos.

Por motivos de superproteção, guardei minha amada Cecilinha em um lugar secreto da estante. Lugar esse tão secreto, mas tão secreto que eu nem conseguia mais me lembrar. Eu andava tão estressado nos últimos três meses do ano de 2019 que eu mal imaginava para onde minha imagem de Santa Cecília poderia ter ido. Fiquei triste, frustrado, arrasado e cheguei a procurar outras imagens da santinha para substituir a que meus pais me deram de presente. Nenhuma delas à altura da beleza da original, diga-se de passagem.

Minha Cecilinha ficou brincando de pique-esconde, fazendo a Lindoneia desaparecida por quase três meses comigo. Seu “sumiço” chegou a virar piada aqui em casa, com direito a algumas especulações acerca de seu paradeiro: 1) Cecilinha tinha sido levada por acidente, possibilidade que eu prontamente descartei; 2) Tinha guardado a Cecilinha por acidente nas milhares de caixas que ainda sobraram da mudança; 3) Cecilinha se revoltou porque não havia mais rádio em casa, se revoltou com a minha bagunça e simplesmente teria ido embora em sinal de protesto! Hipóteses completamente descartadas no início de janeiro de 2020, quando ela foi encontrada em uma das prateleiras dos meus livros de música. Ela surgiu reluzente e levemente empoeirada, mas pronta para assumir seu posto definitivo: o novo aparelho de som (bem melhor do que o anterior!) que compramos para a nova casa...

A lição que eu tirei depois das “férias” da minha amada Cecilinha foi bem clara: sempre deixe ela próxima do rádio, para que ela esteja sempre a postos para proteger não apenas os músicos, como todos os artistas e os amigos da arte que são de boa índole e bom coração. Além disso, eu sempre posso recorrer a ela no momento em que eu necessitar de cuidados mais específicos ou apenas quando estiver com vontade de conversar com ela. Se ela iluminou o meu caminho mais de uma vez, não custa deixar ela bem perto do canto mais atraente da casa: aquele que sempre tem uma boa música para a gente ouvir.


         O bom de revirar as caixas que ainda sobraram da mudança foi poder achar uma imagem de São Francisco de Assis, vulgo Chiquinho, o outro santinho daqui de casa. Cecilinha ganhou um parceiro e tanto nas preces e nas conversas íntimas que temos com eles. Eis uma dupla e tanto: enquanto uma protege os músicos, o outro é o protetor dos animais e da ecologia: eis uma parceria de muito sucesso...