19 de julho de 2016

TROVA # 76

AS VERDADES DE JANIS JOPLIN
(o que o documentário Janis: Little Girl Blue, de Amy J. Berg, nos revela sobre a pérola negra do Texas)


Ah, ah, don’t you forget me Lord
Well I don’t think I’m any very special
Kind of person down here, I know better,
But I don’t think you’re gonna find anybody,
Not anybody who could say that they tried like I tried,
The worst thing you can say all about me
Is that I’m never satisfied…
(“Work Me, Lord”, de Nick Gravenites, eternizada por Janis Joplin em I Got Dem ‘Ol Kozmic Blues Again, Mama! em 1969)


Para Lilian Severino, que sobreviveu alegremente a quase duas horas de documentário

         O bom das férias de julho para mortais como eu é poder ter a liberdade de reencontrar velhos e queridos amigos sem pensar na tarefa insana de conciliar as obrigações profissionais com o lazer de que muito precisamos. Ah, e assistir aos filmes que estávamos loucos para ver na tela grande do cinema, felicidade extrema deste incorrigível fã de música... e de Janis Joplin!
         Não me contive de tanta alegria e excitação quando meus amigos concordaram em ir ao cinema para assistir o premiado documentário Janis: Little Girl Blue, de Amy J. Berg. Fruto de décadas de pesquisas e entrevistas, a película percorreu festivais renomados como os de Toronto, Veneza e Rio de Janeiro antes de entrar em cartaz pelo circuito nacional brasileiro. Em uma época repleta de documentários musicais de extrema qualidade, artistas como os Rolling Stones, John Lennon, Bob Dylan e Amy Winehouse receberam tributos fabulosos da sétima arte. Janis Joplin merecia algo que estivesse à altura de sua grandiosidade artística.


*

         O principal trunfo de Amy J. Berg reside no fato de que ela conseguiu retratar com a exatidão a essência da pérola negra do Texas: Janis Joplin não era simplesmente uma garota que falava alto, bebia, fumava, transava e se drogava desenfreadamente. A filha mais velha do casal Seth e Dorothy Joplin foi alguém que enfrentou milhares de dificuldades de relacionamento com o mundo por ser inteligente, contestadora e fora dos padrões de beleza tiranos do Meio Oeste dos EUA. Little Girl Blue foi o elemento que apimentou o Verão do Amor que varreu San Francisco e o resto do planeta de jeito. Além disto, ela viveu a liberdade sexual em seu pleno esplendor – a entrevista de Jae Whitaker, ex-namorada de Janis no início dos anos 1960 é um dos pontos altos do filme; Peggy Caserta, outro affair de Janis, aparece apenas com sua voz em “off” e nos deu uma bela explicação a respeito do temperamento melancólico da estrela.

Janis ouvindo um segredo de Peggy Caserta nos bastidores de Woodstock

         Janis não era uma mulher envolvida pela ambiciosa vontade de ser rica e famosa. Pelo contrário: sua música era uma expressão livre de sua dor e do seu desejo de amar e de ser amada por todos. Tudo o que ela queria era fazer com que as pessoas que iam aos seus shows se divertissem tanto quanto ela se doava a partir do momento em que o microfone estava em suas mãos para que o verbo fosse rasgado através de gritos, ganidos, sussurros, miados, guitarras em fúria e metais em brasa. Miss Joplin não falava necessariamente de amor a partir de uma perspectiva romântica: Janis falava de tesão e solidão como ninguém falou. Algo nada comum inclusive para mulheres dos anos 1960, o que lhe rendeu um altíssimo preço por sempre buscar sua liberdade e integridade artística.


A infante Janis Lyn Joplin


         O filme de Amy J. Berg mostra a rápida e sensacional escalada de Janis Joplin como artista popular: de uma mera cantora de bares e pés-sujos (incapacitada em se tornar uma estrela de Folk por ter influências musicais de enorme peso como Odetta e Bessie Smith), à tímida vocalista do Big Brother & The Holding Co. e, posteriormente, à uma das maiores estrelas de Rock de todos os tempos. A mítica aparição no Monterey Pop Festival (com direito à boca aberta de Cass Elliot, do The Mamas & The Papas, que estava no gargarejo da plateia) e a fama estrondosamente repentina deram à filha mais ilustre de Port Arthur uma popularidade tão grande que literalmente extrapolou os limites do próprio Big Brother – um grupo formado por músicos amadores e autodidatas por excelência. Cheap Thrills (1968), com suas distorções, dissonâncias e desafinações, foi um álbum muito bem recebido pela crítica e pelo público. A estreia solo de Janis, I Got Dem ‘Ol Kozmic Blues Again, Mama! (1969) foi extrema e duramente criticado pelos jornalistas da época. Miss Joplin, por ser inexperiente e por não ter condições de liderar uma banda, foi injustamente comparada pelo fato de querer soar como cantoras do porte de Aretha Franklin e Tina Turner – afinal, uma branca que soasse como negra ainda era um crime artístico inafiançável nos States dos libertários anos 1960.



Janis à frente do Big Brother & The Holding Co.


Janis à frente da Kozmic Blues Band

         A Kozmic Blues Band ainda precisava de uma série de ajustes que estavam fora do alcance de uma jovem cantora que não tinha a qualificação de uma Band Leader, tampouco conseguia controlar a sua voz de trovão com a precisão necessária – Woodstock, por exemplo, apesar de ter sido um evento importante e memorável, não trouxe Janis em sua melhor forma artística. Apesar das críticas ferozes e injustas, I Got Dem ‘Ol Kozmic Blues Again, Mama!, estreia solo de Janis Joplin, é um dos documentos mais belos e intensos das agruras sentimentais do ser humano e um dos itens essenciais e prediletos de minha coleção de discos.



         A década de 1960 não acabaria bem para Janis, tal qual nos mostrara Amy J. Berg em seu filme. O vício crescente em heroína e álcool foi a reação de Little Girl Blue às críticas violentas que a imprensa norte-americana (tão cruel quanto seus ex-colegas de colégio e faculdade, que a taxavam de “feia”). Sua capacidade de trabalho estava cada vez mais comprometida pela ilusão da fama e as desilusões amorosas frequentes. A pérola negra do Texas precisava de um refúgio longe dos EUA para que pudesse, enfim, se ver livre das drogas. O local escolhido para a rehab de Miss Joplin foi o Brasil – com direito a estadias no Rio Janeiro e Salvador, viagens pela Floresta Amazônica, alguns barracos em público, um pouco de samba e a um novo amor surgido na Praia de Ipanema, David Niehaus.

Janis e David Niehaus (dir.) curtindo o verão de 1970 no Brasil

         Ao retornar aos EUA, as pressões e a necessidade de bisar o sucesso de Cheap Thrills fizeram com que Little Girl Blue voltasse a consumir heroína em doses industriais. O relacionamento com Niehaus não sobreviveu ao vício de sua namorada famosa – ele a abandonou e voltou a viajar pelo mundo, mas prometeu retomar contato se Janis largasse a heroína. Em decisão conjunta com seu empresário, Albert Grossman, Miss Joplin decidiu desfazer a Kozmic Blues Band e recomeçar do zero. O ex-produtor do The Doors, Paul Rothchild, foi convocado para produzir o sucessor de I Got Dem ‘Ol Kozmic Blues Again, Mama! e convocar os músicos que formariam a Full Tilt Boogie Band, última banda que acompanhou Janis Joplin. Ao oferecer a orientação técnica de que a ex-vocalista do Big Brother & The Holding Co. tanto necessitava, ela passou a cantar de um jeito que jamais cantou antes – sua voz estava mais leve, mais controlada, praticamente limpa da heroína mas não menos intensa.

Janis durante a sessão de fotos de Pearl


Janis ao lado de Paul Rothchild, produtor de Pearl

       Janis Joplin, por ter sofrido tanto com a agressividade de seus pares no passado e por ter uma necessidade incontrolável de ser amada, não sabia lidar com a solidão. Estar sozinha lhe deixava vulnerável a ponto de duvidar de sua autoestima e dar abertura para que os fantasmas que tanto lhe assombravam voltassem para lhe infernizar. Sua última turnê, o lendário Festival Express, reuniu Janis com seus indefectíveis boás no cabaelo ao lado de grandes nomes do Blues e do Rock como Buddy Guy, The Band e o Grateful Dead entre os EUA e o Canadá durante 28 de junho e 4 de julho de 1970. Paul Rothchild relatou que sua pupila odiava os intervalos de gravação do disco porque ela sabia que teria de voltar sozinha para o seu quarto de hotel de Los Angeles enquanto seus companheiros de trabalho sempre teriam alguém que os acompanhassem assim que o expediente se encerrasse. Little Girl Blue, solitária e desesperada, foi procurar em sua última dose de heroína a companhia que David Niehaus (ou talvez Peggy Caserta) não poderia lhe dar.


O encontro, como sabermos, foi fatal e abalou os rumos da vida, da carreira de Janis Joplin e da música a partir de então: uma das maiores estrelas do Rock foi morta por uma overdose aos 27 anos de idade e no auge de sua forma artística. A amante apaixonada que, infelizmente, não leu o telegrama enviado por Niehaus a tempo de dar o rumo necessário para que sua vida, enfim, adquirisse o sentido que buscava. Miss Joplin estava finalmente livre, pois definitivamente não tinha mais nada a perder.

Família Joplin - Seth, Dorothy, Laura, Janis e Michael Joplin 


Os emocionantes depoimentos de seus irmãos, Laura e Michael Joplin, dos ex-companheiros de banda Sam Andrew e David Getz e de John Byrne Cooke (ex-road manager de Janis) ajudam a compor o vasto quebra-cabeça das verdades de Janis Joplin. Enquanto os créditos começam a subir com a releitura avassaladora de “Little Girl Blue” (de Richard Rodgers e Lorenz Hart), somos surpreendidos pela aparição de um vídeo do início da década de 1970 que mostrava Dorothy Joplin lendo uma carta de uma fã saudosa de sua filha mais velha que dizia que Janis era sua melhor amiga, nos trouxe lágrimas de imensa tristeza: a amizade platônica suscitada pela estrela de Rock era tão intensa e verdadeira quanto as ofensas e xingamentos recebidos pela personalidade mais ilustre de Port Arthur. O brilhante documentário de Amy J. Berg consegue reconstituir o brilho, a tristeza, a intensidade (graças à voz linda de Cat Power, que interpretou as cartas escritas pela pérola negra do Texas com tanta perfeição que tínhamos a sensação de estarmos diante da filha primogênita do casal Dorothy e Seth Joplin) e a tragédia de uma das artistas mais visionárias do século XX: uma mulher diferente, intensa, à frente de seu tempo e que se transformou em um dos símbolos mais evidentes de liberdade.


P.S.: Há um fato que aparece em Janis: Little Girl Blue que chamou muito minha atenção: o encontro de Bob Dylan em ascensão com uma de suas maiores fãs, Janis Joplin. Ao dizer para seu ídolo de que um dia seria uma cantora muito famosa, Mr. Zimmermann fez pouco da texana com quem ele conversava e disse que todos teriam direito aos seus minutos de fama. Cinco anos depois, Janis gravaria “Dear Landlord”, canção de Dylan que infelizmente ficou fora de I Got Dem ‘Ol Kozmic Blues Again, Mama!...


We love you, Pearl!

1 de julho de 2016

TROVA # 75

O CASTELO DE NOSSOS SONHOS
(ou buscando a autoestima perdida através de 
Marina Lima e Carlos Drummond de Andrade)





"Meu corpo vai sobreviver
Mesmo estando ferido
E até na hora de morrer
Eu não vou me dar por vencido 
Porque sei que os meus perdões 
Vão estar bem ao lado dos teus

Olhei pro amanhã 
E não gostei do que vi
Sonhos são como deuses
Quando não se acredita neles
Deixam de existir
Jurei por sua alma
Mas... perdi 
Admito que perdi"

(“Admito que Perdi” – Paulinho Moska na voz de Marina Lima, 1995)


Se desejamos que nossos sonhos se transformem em castelos altos, suntuosos e vistosos, é preciso que nossos desejos se convertam em tijolos sólidos e saudáveis. No entanto, o que devemos fazer quando rajadas de chuvas e ventos sempre derrubam o que você construiu?
Sou um aquariano incorrigível. Sonhador, viciado em olhar para a o dia de hoje e querer vislumbrar à frente, sem nostalgias de glórias do passado. O grande problema é que meu ascendente em touro e minha lua em virgem acabam atrapalhando tudo. Perfeccionista e ansioso, sinto desespero quando as coisas não saem do jeito planejado por mim (isso vai desde uma aula preparada e minuciosamente descrita em um plano de aula até as frustrações das mais inevitáveis). 


Já reagi das maneiras mais inusitadas e variadas aos espasmos que a vida nos oferece sem dó, nem piedade: deixar claro que não me importo e que não faço questão de fazer por onde é a minha preferida. Fingir que nada daquilo está acontecendo comigo é outra. Chorar, berrar e espernear de tristeza e desespero é bem menos recorrente hoje em dia. Entrar em estado de apatia absoluta perante tudo e todos é a mais perigosa para mim e quem está ao meu redor: a apatia me leva à depressão, azeitada por uma agressividade e doses altíssimas de sarcasmo e ironia que conseguem corroer até o melhor humor das redondezas... Elis Regina dizia que podia ser mais ardida que pimenta. Eu também! E confessar isso não é algo tão legal assim: é dizer que viver dói e pode fazer doer nos outros. E ser motivo de dor para quem você ama é áspero, é duro, muitas vezes é bem cruel.

Marina Lima

O medo tem uma eficiência plena em relação a quem o sente: ele te paralisa. Como diz uma velha canção do Dalto brilhantemente regravada por Marina Lima, ele corre por fora como um maratonista dos mais esforçados, entra por dentro de ti, vai por dentro de você e volta sem sair. E não existe temor maior para mim do que o do fracasso pura e simplesmente. Admitir uma falha e outra até vai, é possível engolir, mas ter a plena percepção de que fracassou?! É duríssimo para alguém que sempre batalhou arduamente para conquistar uma parcela mínima de sucesso no que faz. O jeito é dormir com um barulho desses. Ou tentar achar o som de uma bela sinfonia em meio ao silêncio desesperador quando quase nada de bom acontece na sua vida.
Às vezes eu canso de acreditar na força dos tijolos de meu castelo. Ou dos desejos que são os ingredientes dos meus sonhos. Não, vida: não tente me fazer feliz, afinal o fracasso é algo que dói demais sentir. Admito de peito aberto e coração ferido que perdi feio, vamos partir para o próximo sonho do fundo do coração? Infelizmente a vida, através da depressão (esta agente boa e má) me esfrega na cara de que desistir de seus sonhos seria a maior de todas as frustrações que poderíamos vir a ter, apesar de meu coração estar cansado de sofrer e de amar até o fim...


Carlos Drummond de Andrade


Ao atingir o fundo do poço e sair dele para encarar a vida lá fora, é preciso ativar nossos olhos como um grande farol a mirar os olhos da vida e suas inesperadas e constantes armadilhas. Se é fácil juntar os caquinhos do mundo que sempre está quebrado? Não, não é fácil mesmo. It ain't easy, baby. Mas já que preciso de mundo e de sonhos para chamarem de Meus, o jeito é levantar a cabeça e procurar uma nova trilha para buscar os tijolos que se adaptem melhor ao nosso castelo dos sonhos. Saio pelo mundo como o elefante do belíssimo poema de Drummond: caminhando sem muitos recursos e com muito amor no coração em um mundo cada vez mais descrente de tudo. Ao final de um dia comum - cuja missão é sempre de aniquilar os sonhos de cada um em troca do mero vil metal -, tudo o que nos resta é permitir que a matéria de nossos desejos se desmanche em pleno tapete da sala de estar, expondo a nossa imensa fragilidade. Assim, podemos recomeçar no dia seguinte e sair em busca da velha utopia do castelo suntuoso de nossos sonhos mais valiosos.




21 de junho de 2016

ESTAMOS NA CENTRAL DO TEXTÃO!!!

 Este reles blogueiro não poderia estar mais feliz em divulgar este acontecimento!

A partir desta semana, o Trovas de Vinil passou a fazer parte do site Central do Textão, o Blog dos Blogs. Tem muita coisa bacana por lá: páginas sobre viagens, sobre feminismo, sobre literatura... Enfim, um ponto de encontro obrigatório e imperdível para os blogueiros e os leitores de blogs!

Nossos posts também podem ser encontrados na Central. Para você acessar o site, basta clicar no banner à sua direita (para quem visualiza o Trovas na versão para computadores) ou ir diretamente ao endereço: www.centraldotextao.com

Tina Lopes, muito obrigado por esta oportunidade maravilhosa!
Também quero agradecer à Ana M. D. Oliveira por me apresentar a Central graças à sua Psiulândia...

Um abraço a todos do
Vinil 




17 de junho de 2016

TROVA # 74

CHAMAS MUSICAIS DA MADRUGADA
(ou tentando dormir ao som de Tori Amos e Leonard Cohen...)



"And I'm so sad like a good book
I can't put this day back
A sorta fairytale with you
A sorta fairytale with you..."
(Tori Amos, "A Sorta Fairytale", canção de seu disco Scarlet's Walk, de 2002)

"Goodnight, my darling, 
I hope you're satisfied, 
The bed is kind of narrow,
But my arms are open wide. 
And here's a man 
still working for your smile."
(Leonard Cohen, "I Tried to Leave You", canção de seu disco New Skin for The Old Ceremony, de 1974)

Quando as madrugadas se tornam sinônimo de insônia plena, o jeito é recorrer ao celular para tentar distrair a cabeça e deixar de pensar nos problemas do momento. Muitas vezes sou levado invariavelmente aos rumos propostos pela música. 

Leonard Cohen, um Poeta em cena...

Lembro certa vez de ter passado uma noite quase inteira de quinta para sexta-feira - geralmente o momento mais infeliz para ficar acordado, pois muita coisa já ocorreu durante uma semana de trabalho e ainda há mais um leão a ser morto antes de irmos felizes e contentes para o final de semana - ouvindo Leonard Cohen no modo repeat. Precisava escrever um texto técnico chatíssimo, em inglês, e que tinha que ser entregue na manhã daquela sexta-feira de 2013. O que deveria ser o fogo brando para te manter em pleno conforto e perto da inspiração, me deixou completamente inquieto por causa da poesia inebriante do nobre canadense. Consegui escrever o que era preciso, mas depois de ficar vidrado no som de "The Gypsy's Wife" e "I Tried to Leave You".


Leonard Cohen & Suzanne Elrod em Miami (1973)

Leonard compôs a canção no primeiro semestre de 1979, na ocasião da gravação de seu sexto álbum, Recent Songs. A infidelidade da musa amada e a angústia do homem em busca de seu amor em estado de fuga emparelhavam com a separação de Cohen de Suzanne Elrod, sua companheira de anos e mãe de seus dois filhos - Adam e Lorca. Ao mesmo tempo, minhas angústias e meus questionamentos em relação à vida e a carreira se faziam cada vez mais frequentes.


Para coroar ainda mais aquela madrugada de sonhos nada tranquilos e tentar me concentrar no trabalho que precisava acabar, decidi seguir para a canção de Leonard Cohen que mais me toca: "I Tried to Leave You", lançada originalmente no álbum New Skin for The Old Ceremony, de 1974. Acabei me lembrando da primeira vez em que ouvi este clássico, durante um evento de professores no qual a única pessoa que conhecia a arte de Cohen era eu e o palestrante, e fiquei refletindo mais intensamente a respeito dos rumos que a minha tomava naquele momento. Mais uma canção sobre desilusão amorosa, mais uma crise reflexiva sobre o nosso amor próprio. E a noite seguia interminável...


Pensei que epifanias geradas a minutos angustiantes de insônia não aconteceriam comigo tão cedo. Primeiro porque achar palavras para descrever estados de espírito em plena madrugada é bem difícil para quem precisa viver e produzir obrigatoriamente à luz do dia (sempre achei a vida boêmia de pessoas que escrevem e trabalham seus escritos à noite um tremendo luxo). Em segundo lugar porque nem sempre somos atingidos por chamas musicais que nos tragam insights às quatro ou cinco horas da manhã. Terceiro, e mais importante, o cansaço que surge depois de uma noitada de insônia é incalculável. Porém, sempre há uma preocupação que nos mantém acordado e uma trilha sonora para acompanhar a angústia que carcome a nossa calma e o nosso sono...

Tori Amos, o fogo em teclas pretas e brancas...



Estava navegando pela Apple Music quando "caí" acidentalmente em uma playlist que me trouxe a voz, o piano e a poesia incendiária da cantora e compositora norte-americana Tori Amos. Fui inebriado pela melancolia intensa da bela ruiva e fiquei sem dormir por mais algumas horas. "A Sorta Fairytale", carro-chefe de Scarlet's Walk, seu álbum de 2002, me tomou de assalto e me fez pensar mais uma vez nos encontros e desencontros amorosos que nos conduzem pela vida afora. Como curioso incurável que sou, fui até o Google e ao YouTube e descobri o belo é perturbador clipe gravado por Tori na época, que contou com a participação especial do ator Adrien Brody, ganhador do Oscar de Melhor Ator por O Pianista.

Tori Amos & Adrien Brody no videoclipe de "A Sorta Fairytale" (2002)


Graças à uma insônia que insiste em me perturbar e à minha eterna capacidade de racionalizar e explicar tudo, acabei me apaixonando por Tori Amos. As chamas das paixões musicais precisam nos queimar durante a madrugada para que possamos sentir a beleza da sensibilidade de um artista comprometido em trazer o mais profundo recôndito de suas paixões em forma de canção. É através deles que tentamos achar respostas para as nossas perguntas que nunca terão fim...


12 de junho de 2016

TROVA # 73

O AMOR EM TEMPOS DE PÓLVORA



Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor vale amar
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor valerá
(Milton Nascimento & Caetano Veloso, 1978)


There is good and bad in ev'ryone
We learn to live, we learn to give
Each other what we need to survive together alive
(Paul McCartney, 1982)


Twister does anyone see through you
You're a twister, an animal
But you're so happy now
I didn't go along with you
(Dolores O'Riordan & Noel Hogan, 1995)


Se Gabriel García Márquez fosse ainda vivo e tivesse que escrever uma crônica sobre o dia 12 de junho de 2016, ele poderia colocar o título do texto que escrevo neste momento sem a menor sobra de risco. Acordei no dia de hoje com a determinação em escrever algo sobre o Dia dos Namorados, que é comemorado a cada décimo-segundo dia do sexto mês do ano. No entanto, meus planos foram mais uma vez por água abaixo.
Fiquei perplexo em saber que um atirador tinha entrado na Pulse, uma das boates gays mais famosas de Orlando (FL, EUA) e executou 50 pessoas covardemente, deixando vários feridos. Motivado por homofobia, incomodado com a possibilidade de poder fazer justiça de acordo com os seus sentimentos mais perversos, realizou um ato de pura psicopatia e tirou a vida de dezenas de pessoas que estavam ali para se divertir, para celebrar o seu amor e o seu orgulho em não ter que se curvar às convenções e instituições que ainda fiscalizam a vida sexual de cada um.


O que me deixou ainda mais chocado foi saber que ataques à mão armada como o que ocorreu nos Estados Unidos vitimam milhares de habitantes. Ou seja, a maioria dos norte-americanos está completamente acostumada em saber pelos telejornais, por exemplo, de que facínoras saem com armas em punho todo santo dia motivados por uma série de motivos escusos (religiosos, especialmente) para matar qualquer indivíduo que não esteja de acordo com seus princípios antidemocráticos. Nada tão surpreendente para quem viu e viveu eventos históricos sangrentos como a fatídica Maratona de Boston, o massacre de San Bernardino, a execução na Columbine High School, o assassinato de John Lennon por Mark Chapman, o desaparecimento violento de Martin Luther King e dos irmãos Kennedy, os famigerados ataques de 11 de setembro de 2001.
É fato público e notório de que os Estados Unidos da América, obcecados por normas e mais normas de segurança (vide a burocracia infernal que nós, estrangeiros, enfrentamos ao adentrar qualquer aeroporto norte-americano), padecem de uma doença social agudíssima. Para curá-la existe um remédio amargo para alguns e necessário para todos: o desarmamento do cidadão comum. Enquanto armas continuarem sendo vendidas a torto e a direito para qualquer um comprar, o sangue de inocentes continuará a ser derramado em vão.


Lembro de uma polêmica ocorrida com a cantora norte-americana Sheryl Crow na ocasião do lançamento de seu segundo álbum, em 1996. Vale lembrar que só a capa do disco já demonstrava que a mocinha não estava nem um pouco interessada em ser uma pop star fofa e querida como Alanis Morissette ou Mariah Carey. Em uma das faixas do disco, “Love is a Good Thing”, disse a bela Sheryl despreocupada com a opinião de cachorros grandes: “Watch out sister, watch out brother, / Watch our children while they kill each other / With a gun they bought at Wal-mart discount stores” [Se liga, irmã; se liga, irmão / Veja nossas crianças matando umas às outras / Com uma arma que eles compram nas lojas de descontos do Wal-mart]. A resposta dos comerciantes foi o boicote massivo dos CDs da artista de todas as maneiras possíveis. Por outro lado, o respeito dos fãs por Miss Crow ter colocado o dedo em uma ferida tão aberta do povo de seu país só aumentou...



Tenho a esperança de que Sheryl Crow não seja uma voz isolada a cantar a necessidade de atitudes mais humanas e sensatas. Afinal de contas, amar sem barreiras e distinções em tempos de pólvora está se tornando uma tarefa praticamente impossível. Creio no amor como uma maneira de amenizar a cultura do ódio extremista que permeia as relações dos seres humanos no século XXI. Assim, o amor entre iguais – algo intolerável para conservadores, fascistas e facínoras de todos os tipos – deixa de ser visto como uma mera “ditadura da minoria” e passa a ser visto como um direito adquirido e que merece ser respeitado. Minha voz não soa em vão. Ela há de encontrar outras para lutar para que mais ninguém seja penalizado por demonstrarmos o mais puro de nossos sentimentos, Afinal, já diziam os mestres: "qualquer maneira de amor vale a pena"...

Se você se sentir incomodado com estas cenas, recomendamos que você saia à procura de ajuda especializada urgentemente. Homofobia tem cura! Montagem: Ana M. D. Oliveira



5 de junho de 2016

TROVA # 72

“RIO É AMOR”
(ou “Eu não sei dizer / nada por dizer”...)

Foto: Nilton Serra

Falam de Paris de LaFrance de L’Amour
Dizendo que lá tudo é bom
Mas é aqui que a gente sente
Neste Rio quente, quente
O verdadeiro hino do amor.
(“Rio é Amor”)

Brasil, quem te vê e te conhece
Nunca mais de ti se esquece,
E te traz no coração
(“Inspiração”)

(Canções de Bruno Marnet gravadas por Ângela Maria e interpretadas por Ney Matogrosso em seu espetáculo Estava Escrito [1995], em homenagem à bela Sapoti)


Depois de dez anos longe do Rio de Janeiro, cidade que me trouxe ao mundo, sempre sinto uma enorme alegria é uma pontinha de tristes quando faço o caminho do “retorno às origens”. Em primeiro lugar porque a Cidade Maravilhosa se tornou cada vez mais estranha para mim – apesar de toda a sua indiscutível beleza; em segundo lugar, porque vejo o Rio em um dos momentos mais críticos de toda a sua existência.
Foto: Nilton Serra

A felicidade de poder realizar o lançamento de meu primeiro livro nesta cidade é algo pelo qual ainda não sei descrever com exatidão. Poder compartilhar a fina flor do seu trabalho com os meus conterrâneos e cariocas de coração é simplesmente gratificante. Uma honra. Um bálsamo. Uma grande realização pessoal. Um desejo realizado. Porém, ao assistir o noticiário matutino nos informando o andar da carruagem pelos lados de cá, me deu uma preocupação enorme. Tudo bem que o que está sendo dito por aí era algo que já constatava pelos jornais e pelas redes sociais dos amigos e conhecidos, mas ver o discurso na prática foi (e tem sido) bem doloroso.

Foto: Nilton Serra

         A segurança pública nas ruas é praticamente inexistente – a Polícia anda tão desaparelhada ao ponto de membros da sociedade se verem obrigados a arrecadar dinheiro para comprar bicicletas para que os policiais possam ajudar a manter a ordem (isso porque estamos falando dos bairros mais centralizados). O sistema local de saúde ainda é o retrato do caos e do descaso dos poderosos com as camadas mais humildes da população carioca. Vários museus – e boa parte do patrimônio cultural da antiga Capital Federal – se encontram em um estado digno de pena enquanto o portentoso e belo Museu do Amanhã expõe as nossas contradições a céu aberto, ao lado da eternamente imunda Baía de Guanabara. Os servidores públicos e a Educação se encontram reféns de um Estado moral e financeiramente falido enquanto muitos se preparam para receber os Jogos Olímpicos de 2016: escolas ocupadas, servidores em greve e sem perspectivas de reajuste salarial enquanto muitos se preocupam em saber por onde anda a Tocha Olímpica...

Foto: Nilton Serra

         Em contrapartida, a ocupação das escolas estaduais e do palácio Gustavo Capanema tem nos demonstrado que a insatisfação dos cariocas com os rumos que a cidade e o país vem tomando é bem gritante. Os manifestantes declararam que não pretendem recuar não for solucionado enquanto o impasse em relação à educação, ao (brevemente) extinto Ministério da Cultura e ao Governo Federal ilegítimo de Michel Temer. Em meio ao luxo e ao lixo, aos que possuem muito e aos que mal conseguem se sustentar com o pouco que têm em mãos, palavras de ordem se encontram escritas e pichadas por muitos cantos da cidade. O Rio de Janeiro ainda é sinônimo de amor, apesar de tanto descaso de seus governantes em relação aos cariocas. Os hinos de amor se apresentam através de protestos políticos e que pedem mais carinho pela Cidade Maravilhosa amada por tantos...

Foto: Nilton Serra

Bem, parece que o Cristo Redentor não tem encontrado muitos motivos para ficar de braços abertos para nós. No entanto, as belezas da Cidade Maravilhosa estão protegidas pelos artistas eternizados em forma de estátua – Drummond e Braguinha estão em Copacabana para nos alumiar com a sua irreverência e sua poesia; Clarice Lispector e Tom Jobim podem ser (re)encontrados no Leme e em Ipanema para que possamos lhes pedir a bênção e proteção. Fazer este périplo era uma obrigação para um escritor amador e em início de carreira como eu.

Nós & Clarice

         Passar um final de semana prolongado no Rio de Janeiro em um momento tão crítico para lançar um livro sobre um grupo que é a maior representação de liberdade em forma de música é de uma ironia tremenda. Na verdade (e digo isso sem a menor pretensão), é algo necessário em meio ao “purgatório da beleza e do caos” gigantesco que muitos cariocas estão vivendo. Tenho a esperança de que as canções do Secos & Molhados sejam um alento e um incentivo não apenas para que a crença na luta por dias melhores ainda esteja viva, como também possibilite o simples prazer de fazer algo de bom para os outros...

Foto: Nilton Serra

PAUSA PARA O COMERCIAL:

Nosso livro no Moviola Bistrô
Foto: Vinícius Rangel

Se você quiser adquirir o livro “O Doce & O Amargo do Secos & Molhados: poesia, performance e política na música brasileira” (Ed. Terceira Margem), é só entrar em contato comigo por e-mail (vinnieprof@gmail.com) ou ligar para o Moviola Bistrô – Rua das Laranjeiras 280 – Lojas B e C – Tel. (21) 2285-8339 / 3040-2800 – e encomendar o seu exemplar.

Lançamento do Livro O Doce & O Amargo do Secos & Molhados: poesia, performance e política na música brasileira no Rio de Janeiro 
Foto: Nilton Serra