11 de abril de 2017

TROVA # 118

SEM PARTIDO, COM MORDAÇA


“We don’t need no education
We don’t need no thought control
No dark sarcasm in the classroom (…)”
(Roger Waters, 1979)



Dentre todas as irregularidades que tem acontecido no país desde o golpe de 2016, as piores delas se concentram nos ataques incessantes contra as escolas brasileiras. O Ministério da Educação não apenas limitou o orçamento das Universidade, como também cortou programas universitários (saudades do Ciência sem Fronteiras, amiguinhos?) e realizou uma reforma do Ensino Médio completamente estapafúrdia e autoritária – alunos e professores não foram sequer convidados a debater o tema a fundo. Porém, nenhuma destas arbitrariedades chama mais a minha atenção do que as propostas do grupo Escola sem Partido.
Idealizado por um advogado de São Paulo, o ESP alega que o principal mal das escolas brasileiras reside no fato de que os alunos são doutrinados por docentes esquerdopatas que impõem suas concepções políticas, morais e religiosas em plena sala de aula – ignorando completamente o fato de que os professores ganham mal, de que a educação privada é orientada por lógicas desumanas de mercado e de que as escolas públicas estão cada vez mais sucateadas e sofrem com o descaso das autoridades. De acordo com os mentores, nós, professores, devemos ser combatidos pelo Estado e impedidos de expor nossas crenças e concepções em nosso ambiente de trabalho. O que me pergunto diante de tamanhas propostas é o seguinte: por que docentes engajados e escolas participativas incomodam tanto os conservadores e poderosos?


A escola, em linhas gerais, deixou de ser o espaço opressor e retrógado tal qual observamos no filme The Wall, do Pink Floyd. Os bancos escolares do passado eram repletos de alunos reprimidos por professores e gestores que tratavam os espaços estudantis tal qual se fossem prisões. Em pleno século XXI, os estudantes possuem a liberdade (muitas vezes abusam da mesma!) de agir como desejam; o mesmo deveria valer para aqueles que se dedicam ao ensino, principalmente após a redemocratização do Brasil. Por sermos cidadãos, somos políticos. Por sermos profissionais de educação, temos o compromisso de atuarmos criticamente, pois é através da disseminação do saber é que fazemos um país andar para a frente. Se há um interesse para que o conhecimento se perpetue, é preciso ser responsável e apresentar os dois lados da moeda para cada fato a ser discutido em sala de aula, por exemplo.
O ESP acusa os professores de serem “doutrinadores” por colocarmos em prática preceitos marxistas, no entanto, veem Mises como um guru e Paulo Freire como a personificação de Lúcifer ou apenas um petista ordinário. A partir desta lógica muito pessoal e peculiar, eles se sentem à vontade para cercear e intimidar o trabalho de operários do ensino, estes comunas vermelhos, comedores de criancinhas dispostos a almoçar os cérebros de nossos jovens a qualquer hora do dia. Minha experiência como profissional da rede privada de ensino esfregou na minha cara que a lógica mercadológica, amada pela direita sempre deu o tom da ideologia dos estabelecimentos – o aluno, isto é, o pagante é o cliente que sempre tem e terá razão – e nunca foi objeto de perseguição dos órgãos oficiais ou do ESP.
Duas escolas da Prefeitura de São Paulo receberam a visita de um vereador ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre) no início de abril de 2017. O intuito da “visitação” era o de fiscalizar as condições das instituições e verificar se os professores não estariam doutrinando os alunos daquelas unidades escolares. A repercussão pública foi escandalosa: as redes sociais e seus partidários e seus partidários de esquerda e de direita entraram em mais um debate baixo e violento; a grande imprensa e os vassalos do GAFE (Globo, Abril, folha e Estadão) viram nesta discussão acalorada uma oportunidade e tanto para atirarem mais lenha na fogueira; o Secretário Municipal de Educação – a autoridade mais competente e habilitada para nos orientar e fiscalizar) – decidiu pedir demissão, mas foi demovido da decisão pelo Prefeito de São Paulo, João Dória.
O fator mais revoltante da visita do vereador do MBL não foi a simples e notória patrulha ideológica ou a imposição da tática de mercado de fiscalizar os funcionários para verificar se a produção está de acordo ou não com a meta esperada. Atos como estes restringem a liberdade dos professores através da pura e simples intimidação, tal qual ocorria nos tempos da ditadura militar. Este é o pior retrocesso imposto pelo golpe de estado liderado por Michel Temer e o PMDB: reprimir profissionais de ensino, limitar a atuação crítica das escolas, sucatear a educação pública, atingir o povo com a retirada de um de seus direitos mais importantes.
Escolas são espaços de liberdade: a pluralidade de saberes precisa ser mantida, a diversidade precisa ser respeitada (daí a importância de se discutir questões de gênero com nossos alunos, por exemplo), a liberdade do professor em um ambiente de trabalho tão desgastado – salários baixos, assédio moral, burocratização e mercantilização do ensino – não pode ser patrulhada por fascistoides populistas. A lógica da mordaça para combater nossas crenças em pleno século XXI não nos cabe mais.

É por isto que acredito na importância da luta dos profissionais de Educação para que nosso trabalho não seja golpeado de maneira tão dura pelos defensores do ESP. Sem resistência, há retrocesso. Sem luta, há patrulhamento. Sem a crença em nós mesmos e no nosso poder de alcance, não há um Brasil melhor. 

6 de abril de 2017

DISCOS DE VINIL # 26

ELTON JOHN – GOODBYE YELLOW BRICK ROAD (1973)


O sétimo álbum de estúdio de Reginald Kenneth Dwight foi a peça fundamental para que Elton John (nome artístico de Reg) entrasse de vez para a história da música do planeta. Goodbye Yellow Brick Road é uma obra-prima, não só por demonstrar que Elton estava no auge da forma como músico e cantor (o mesmo pode-se dizer de seus companheiros de banda), como também pelas letras inspiradíssimas de seu parceiro, Bernie Taupin. Um detalhe interessante: Taupin escreveu as 21 letras do disco – que chegou a receber os títulos provisórios de Vodka and Tonics e Silent Movies, Talking Pictures – em menos de TRÊS SEMANAS, repetindo: em menos de TRÊS SEMANAS! Boa parte das canções foi finalizada por Sir Elton em, aproximadamente, TRÊS DIAS! Nada mal para um dos álbuns duplos mais vendidos da história da música...




Elton John já era famoso pelos surtos e exigências que fariam qualquer diva ruborizar de vergonha naquela época. Quis gravar seu disco na Jamaica apenas pelo simples fato de que os Rolling Stones tinham gravado Goats Head Soup na terra de Bob Marley. Quando as dificuldades começaram a surgir em janeiro de 1973, no início das gravações do disco, Elton e a trupe se mudaram de mala e cuia para o belo Château d'Hérouville, na França, onde os álbuns Honky Château e Don't Shoot Me I'm Only the Piano Player foram gravados no ano anterior. Das terras jamaicanas, ficou apenas a ideia da canção “Jamaica Jerk-Off”, sétima faixa de Goodbye Yellow Brick Road. Assim que os trabalhos se reiniciaram no Château, as sessões de gravação duraram apenas DUAS SEMANAS! Só Frank Sinatra teria feito mais rápido do que isso...


Elton & Bernie

As letras de Bernie Taupin se utilizavam de imagens cinematográficas – a mais famosa delas, a estrada de tijolos amarelos, vem do clássico The Wizard of Oz (1939) – para tratar do conflito que assombrava a ele e a Elton na época: a fama, esta permanente roda da fortuna com a qual nenhum dos dois sabia lidar. Marilyn Monroe, por exemplo, foi incrivelmente eternizada na belíssima “Candle in the Wind”. “I’ve Seen That Movie Too” retrata uma relação amorosa conflituosa a partir dos bons e velhos clichês cinematográficos. “Goodbye Yellow Brick Road”, a faixa-título, fala sobre os conflitos internos de ser uma celebridade em um universo frívolo e sufocante. Além disso, a capacidade incrível de Bernie em criar personagens deu a esta coleção de 18 canções um aspecto literário raramente visto na história da música popular em língua inglesa: a trágica Alice, uma jovem lésbica de destino trágico, a lendária Bennie vestindo suas “electric boots” e um “mohair suit” à frente de um grupo de um rock extraordinário, um pub inglês que ferve com as típicas brigas causadas pelo excesso de álcool nos embalos de sábados à noite, a profissional do amor encantadora de jovens mancebos em “Sweet Painted Lady" e um cowboy fictício de vida tão breve quanto James Dean cuja saga foi narrada em “The Ballad of Danny Bailey (1909-34)”. Eis uma galeria fascinante de tipos humanos eternizados em versos e sons.






Acima de tudo, Goodbye Yellow Brick Road é um álbum melancólico. Não possui tintas dramáticas das primas-donnas, mas é nostálgico. A abertura do disco, o espetacular medley “Funeral for a Friend / Love Lies Bleeding”, de 11 minutos, é até hoje um dos melhores números musicais já vistos em cima de um palco. Elton mistura Liberace com Rock ‘n’ Roll, glam com Little Richard com técnica, lirismo e emoção. No entanto, ele não conseguiu esta proeza sozinho: Gus Dudgeon (que produziu vários de seus trabalhos) foi o segundo capitão desta nau pelo caminho de tijolos amarelos. Davey Johnstone, Dee Murray e Nigel Olsson foram muito mais do que o trio composto por guitarra-baixo-bateria: fizeram backing vocals e nos ofertaram o melhor de sua forma para que este disco se tornasse um clássico. Dentre os músicos convidados, está Kiki Dee (que fez muito sucesso ao lado do mesmo Elton em 1976 com “Don’t Go Breaking My Heart”) e o maestro Del Newman, que escreveu e conduziu arranjos de orquestra extraordinários para canções como “Harmony”, “The Ballad of Danny Bailey”, “Roy Rodgers” e “I’ve Seen That Movie Too”.


Dee Murray, Nigel Olsson, Davey Johnstone, Elton John


            Goodbye Yellow Brick Road vendeu cerca de 31 milhões de cópias no mundo inteiro. Isto se deve não apenas aos clássicos do disco – “Candle in the Wind”, “Bennie & The Jets”, “Saturday Night’s Alright for Fighting” e a faixa-título não podem faltar em nenhum show de Elton John! –, mas também aos lados B que compõem o disco: “Sweet Painted Lady”, “Harmony” (que chegou a ser o ultimo single do álbum, mas foi ofuscada pelo lançamento de Caribou, o oitavo álbum do artista), “I’ve Seen That Movie Too”, “Roy Rogers”, “All the Girls Love Alice”, “Your Sister Can't Twist (But She Can Rock 'n Roll)” e “ The Ballad of Danny Bailey (1909–34)”. Não é à toa que este disco é considerado como o preferido de muitos fãs de Elton...



OUÇA O ÁLBUM NA ÍNTEGRA:

5 de abril de 2017

TROVA # 117

A VERDADE, ACIMA DE TUDO


"I'm sick and tired of hearing things
From uptight, short-sighted, narrow-minded hypocritics
All I want is the truth
Just gimme some truth

I’ve had enough of reading things
By neurotic, psychotic, pig-headed politicians
All I want is the truth
Just gimme some truth

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of hope
Money for dope
Money for rope

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of soap
Money for dope
Money for rope

I'm sick to death of seeing things
From tight-lipped, condescending, mamas little chauvinists
All I want is the truth
Just gimme some truth now

I've had enough of watching scenes
Of schizophrenic, ego-centric, paranoiac, prima-donnas
All I want is the truth now
Just gimme some truth

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of soap
Its money for dope
Money for rope

Ah, I'm sick and tired of hearing things
From uptight, short-sighted, narrow-minded hypocrites
All I want is the truth now
Just gimme some truth now

Ive had enough of reading things
By neurotic, psychotic, pig-headed politicians
All I want is the truth now
Just gimme some truth now

All I want is the truth now
Just gimme some truth now
All I want is the truth
Just gimme some truth
All I want is the truth
Just gimme some truth"
(John Lennon, 1971)


Uma das canções mais fortes do repertório de John Lennon está eternizada em seu segundo álbum após a dissolução dos Beatles: "Gimme Some Truth", primeira faixa do lado B de Imagine (1971), denuncia um sentimento de cansaço de hipócritas, de prima-donnas inúteis,  de políticos porcos, limitados e de pouca visão. Lennon escrevia sobre as pessoas que faziam o mundo do início dos anos 1970. Ao reouvir a canção na segunda metade dos anos 2010, já em pleno século XXI, tenho a impressão de que pouco mudou no Brasil e no mundo de lá para cá.
O conceito de verdade, segundo o dicionário Houaiss, nos diz: "propriedade detestar conforme os fatos ou a realidade; exatidão, autenticidade, veracidade". O grande problema das pessoas hoje é que elas assumiram para si os conceitos mais particulares do que é verdadeiro, sem levar em conta a consistência dos fatos e as consequências deles. A partir deste fator, devemos pensar em alguns aspectos.
Diante deste caos, a quantidade de notícias falsas que se espalham pelo espaço público é simplesmente absurda. O que leva isto a acontecer com tanta frequência em pleno século XXI, momento no qual a informação se propaga com uma rapidez escandalosa? A preguiça das pessoas em verificar a consistência das informações é um fato determinante - muitos não leem ou analisam o que compartilham nas redes sociais e a barbárie se faz através dos botões like e share.
A expressão que mais tem sido utilizada no presente momento é o de “pós-verdade”. Apesar de algumas explicações bem fundamentadas, não consegui mudar minha opinião acerca desta “nova” ideia: para mim, é nada mais, nada menos do que a verdade que bem lhe convém. Tendo em vista que as redes sociais e a grande mídia têm dado voz a lúcidos e aos idiotas de plantão, torna-se ainda mais difícil para mim encontrar outra interpretação. Cada um possui suas verdades pessoais, as suas pós-verdades e muitos querem impor suas concepções como se fossem fatos verdadeiros absolutos.
Depois de 2013 e do golpe de estado parlamentar que atingiu a democracia brasileira três anos depois, as falácias conservadoras tem encontrado eco em muitas pessoas que se diziam apolíticas ou desinteressadas em política. De uma hora para outra, a sensação que eu tenho é de que todo mundo se politizou de uma tal maneira a ponto de provocar uma polarização nos debates e discussões que extrapolam os limites de respeito e da sensatez. Os direitos à liberdade de grupos minoritários são ignorados em prol do sucesso de instituições financeiras e de meia dúzia de famílias endinheiradas que controlam o país na base da rédea curta.
As pessoas que não possuem o hábito de estudo, de leitura e não são versadas em uma tradição humanitária e reflexiva, adotam o discurso da elite como se fosse o seu e dão projeção a vozes ultraconservadoras que alegam serem a opção para a corrupção presente no Brasil desde a sua fundação. Quando as manifestações públicas de 2013 culminaram nos protestos que clamavam os brasileiros a tomarem as ruas de 2015 em diante, esses desinformados pelo GAFE (o conglomerado formado pelos grupos Globo, Abril, Folha e Estadão) se converteram na mesma espécie de massa de manobra que nos levou para uma ditadura reacionária e sangrenta de mais de duas décadas.

Se quisermos evitar a máxima famosa de Karl Marx de que a história se repete pela primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, devemos rasgar os estatutos hipócritas e buscar a natureza humana das coisas, o respeito por todas as partes, exigir a verdade, acima de tudo. É ela que nos liberta, é ela que nos fará cidadãos mais justos e honestos em um país repleto de contradições. Assim, afastamos os hipócritas, chauvinistas, egocêntricos, paranoicos e psicóticos de plantão...

1 de abril de 2017

DISCOS DE VINIL # 25

STEVIE WONDER – TALKING BOOK (1972)



 Em um de seus maiores hits, “Sir Duke” (1976), Stevie Wonder já definia que ‘a música é um universo com uma linguagem própria que todos nós entendemos e que nos proporciona oportunidades iguais para que todos possam cantar, dançar e bater palmas’. O primeiro álbum em que o ‘Mr. Maravilha’ conseguiu tamanha façanha foi com o álbum Talking Book, lançado em 1972.


O ‘livro falante’ de Stevie foi o primeiro álbum que levou uma das revelações mais duradouras da Motown para o topo das paradas da Billboard e lhe garantiu nada mais, nada menos do que TRÊS prêmios Grammy no início de 1974. Além disso, Talking Book é o segundo que compõe uma série de cinco álbuns da chamada ‘fase clássica’ da carreira de Wonder – o último álbum desta série é o magistral Songs in The Key of Life, de 1976.


1972 foi um ano e tanto para Stevie Wonder. Depois de lançar o antecessor deste clássico, Music of my mind, Little Stevie foi chamado para abrir os shows da turnê norte-americana dos Rolling Stones com a turnê norte-americana de Exile on Main Street, lançado naquele mesmo ano. O jovem artista, naqueles idos, tinha um poder de fogo tão intenso no palco e no disco que chegava a deixar Mick Jagger e seus companheiros de trupe em polvorosa antes de subir aos palcos dos EUA. Ao final da vitoriosa turnê com os Stones, Talking Book vinha a público com várias canções que integravam os shows daquelas apresentações memoráveis.


Neste disco, Stevie finalmente conseguiu a liberdade artística que tanto almejara em pouco mais de 10 anos de carreira. A sonoridade deste trabalho está pautada nos teclados (sintetizadores Arp e Moog, Fender Rhodes, Hohner Clavinet e outras parafernálias elétricas) do ‘Mr. Maravilha’ – uma novidade em seus trabalhos até então – e tem como resultado canções memoráveis como as baladas “You and I”, “Blame it on The Sun” e “I Believe (When I Fall in Love it will be Forever)”, os funks “Maybe Your Baby” e “Tuesday Heartbreak” e as obras-primas “You Are The Sunshine of My Life” e “Superstition”. E, dentre os músicos convidados havia uma lista bastante curiosa para os mais puristas: Jeff Beck e Ray Parker, Jr. nas guitarras e o sax de David Sanborn.


Por outro lado, Wonder escrevia e/ou cantava letras bem contundentes para aquele período – o artista pensou seriamente em largar a carreira como uma espécie de protesto aos abusos da política norte-americana em meados da década de 1970. Em “Blame it on the sun” perguntava, por exemplo, ‘Quem tinha derramado o amor? / Quem tornou esta dúvida amarga? / A paz não está aqui para que eu a veja?’ – uma alusão direta aos EUA que ainda viviam em tempos de guerra com o Vietnã; Já “Big Brother” atualizava o sistema tão bem descrito por George Orwell em 1984 para aqueles dias sombrios de 1972 ao retratar um ‘Grande Irmão’ cansado de ver um joão-ninguém, saído das ruas do gueto, protestando na TV enquanto crianças morriam todos os dias a olhos vistos em meio a líderes mortos. Sim, em meio a versos de amor e a grooves irrepreensíveis, Little Stevie ainda encontrava espaço para protestar contra o mundo de 1972.


A partir deste disco, Stevie Wonder passou a ser definitivamente apreciado por públicos de todas as cores, tendências e faixas etárias. Isto se deve não apenas ao fato de 1972 ter sido um ano altamente inspirador para um dos maiores artistas já revelados pela Motown, como também para a música do planeta. O ‘livro falante’ de ‘Mr. Maravilha’ é um esforço do amor que Stevie sempre nutriu pela música e pelo universo. A nota escrita por ele para o disco dizia: ‘Aqui está minha música. É tudo o que eu tenho a dizer a respeito de como eu me sinto. Saibam que é o amor de vocês que mantém meu amor forte.’



São estas e outras palavras que fazem de Talking Book um clássico da música mundial! Ouça o livro, leia o disco! Garanto que os seus olhos e ouvidos não sairão ilesos desta experiência!

28 de março de 2017

TROVA # 116

O MAGO DAS TECLAS PRETAS E BRANCAS
(algumas memórias ao som de Elton John)


“Day to day, the shifting wind just blows us on our way,
Here and there, our pockets full of things to say,
Oh my love, I proudly represent you in this world,
Little satellite, brightest star tonight, oh my love”
(Elton John & Bernie Taupin, 1997)



A grande atração da casa em 1991 era o novo aparelho de som 3 em 1 (rádio AM | FM) acoplado de leitor de CD, vitrola e tocador de fitas cassete) que meu pai tinha comprado para o nosso modesto apartamento da Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Vivíamos alguns bons momentos de ascensão social em meio aos horrores praticados pelo governo Collor, que manteve o Brasil em um buraco político-econômico que não parecia ter fim. O Sr. Orlando, conhecido por mim como Papai, fora trabalhar em Santos por uns tempos para garantir o sustento da casa e o conforto de uma família classe média baixa e sempre trazia CDs, LPs e cassetes à mão cheia para que a música sempre nos acompanhasse nas viagens para a Baixada Santista ou em casa. O grande sucesso da época era a regravação de George Michael com “Don’t Let the Sun Go Down On Me”, ao lado do cantor que lançou aquela canção.





Naquela época ainda se consumia trilhas sonoras de novelas da Globo em alta escala, pois aqueles álbuns reuniam o que havia de mais popular e bacana no dial do rádio daquele momento. Quando a trilha sonora internacional de Lua Cheia de Amor (novela das sete da noite com Marília Pêra encabeçando o elenco) chegou lá em casa, fomos ouvir o vinil com a curiosidade e excitação que dedicávamos às grandes novidades. Um som de piano e uma voz masculina tomavam o ambiente em questão de segundos: era a magia de Elton John se revelando para mim quando eu tinha um pouco mais de 10 anos de idade.



A partir daquele momento, minha vida de ouvinte não faria o menor sentido sem ouvir as canções daquele mago das teclas brancas e pretas. As letras belíssimas de Bernie Taupin somadas às músicas de acordes complexos de Elton me fizeram viajar por lugares distantes do senso comum que se ouvia na década de 1990, para minha total salvação. As opções para um adolescente no meu tempo não me pareciam nem um pouco atraentes, por isso o meu apreço pela obra de Elton John é tão grande.

Made in England (1995)



Comecei a acompanhar os passos musicais de Sir Elton mais de perto a partir de 1995, quando ele lançou um de seus discos mais bacanas de sua discografia, Made in England, que foi bastante elogiado pelo público e pela crítica. Senti a emoção da perda trágica de Lady Di enquanto ele cantava os versos da segunda (e emocionante) versão de "Candle in The Wind", que Bernie reescreveu especialmente para o funeral da figura mais popular da realeza britânica nos últimos anos. Ouvi The Big Picture (1997) durante o verão de 1997-98 com o mesmo amor e prazer que eu dediquei aos títulos mais amados da minha coleção de discos.

The Big Picture (1997)



Anos depois, já nos meus últimos anos da Faculdade de Letras e já saído da casa dos meus pais pela primeira vez, descobri o álbum mais importante da discografia de Elton John: o maravilhoso Goodbye Yellow Brick Road, uma das maiores obras-primas da história da música. O disco não se tornou apenas minha discografia básica, como passou a me acompanhar para onde quer que eu fosse. Durante uma estadia minha em Curitiba, na qual eu tive de me apresentar em um congresso internacional de Literatura Comparada, passei horas e horas escrevendo sobre Virginia Woolf ao som de um dos lados B mais bonitos daquele álbum, “I’ve Seen That Movie Too”.



Goodbye Yellow Brick Road (1973)

No entanto, a força dos discos de Elton John não se compara a energia de ver o mago das teclas pretas e brancas ao vivo em concerto. Consegui ir a um show de Elton uma única vez, em 17 de janeiro de 2009, em um Anhembi escuro, chuvoso e impróprio para shows de grande porte. Apesar das péssimas condições para o show, Sir Elton fez um show emocionante e com mais de duas horas de duração, com direito a várias canções de Goodbye Yellow Brick Road. Apesar do cansaço, do estresse, dos dois táxis e da chuva, valeu a pena ter testemunhado o mago das teclas pretas e brancas ao vivo, afinal poderei constar estas memórias corriqueiras para os meus sobrinhos e para os filhos que um dia eu possa vir a ter.




Em relação a filhos, o astro possui dois. Casado com David Furnish, com quem vive junto desde meados da década de 1990, Elton John é um ferrenho defensor da comunidade LGBT e do combate à AIDS, mais um motivo para minha admiração por ele. Apesar dele ser dono de uma personalidade difícil, um tanto intragável com seus colegas de profissão (Madonna e Keith Richards já foram vítimas da língua ferina de Sir Elton), sempre verei o mago das teclas pretas e brancas como o senhorzinho bonachão de figurinos extravagantes. E ele chega aos 70 anos de idade com um gás sem fim: gravando discos novos, saindo em turnês, fazendo apresentações ao vivo e levando milhares de pessoas de gerações distintas a estádios.



Salve, Sir Elton! Que o senhor possa ser o grande mago das teclas pretas e brancas por muito tempo...