12 de outubro de 2016

DISCOS DE VINIL # 3

NORAH JONES - DAY BREAKS (2016)


Desde o início de sua brilhante carreira, Norah Jones surpreendeu o público. Seu disco de estreia, o hiper premiado Come Away With Me (2002), vendeu milhões de cópias no mundo tudo e conquistou fãs de todas as idades. Em pouco tempo, Ms. Jones foi considerada como uma das mais novas "musas do Jazz", o que não deve ter agradado a mocinha de 20 e poucos anos naquela época. Afinal de contas, tratava-se de uma imensa responsabilidade.
Em 15 anos de carreira, Norah gravou seis discos solo, fez participações especiais em inúmeros projetos, sem contar a quantidade imensa de trabalhos paralelos. No entanto, depois de uma década e meia andando pelo mundo, depois de dois filhos e de muito sucesso, a filha de Ravi Shankar desejou retornar às suas origens musicais, isto é, à sonoridade do Jazz que lhe tornou famosa. O resultado deste esforço é Day Breaks, o sexto álbum solo de Norah Jones, que teve lançamento mundial em 7 de outubro de 2016.


O disco possui 12 faixas, contando com três regravações e nove composições inéditas. Dentre as inéditas, Norah escolheu a balada "Carry On" como primeiro single do CD - o videoclipe mostra a artista tocando piano na cozinha embalando um casal da terceira idade vivendo a plenitude de seu amor e de suas inúmeras lembranças. As outras duas canções escolhidas para divulgar Day Breaks até a data de lançamento foram "Flipside", um jazz rápido e certeiro que me lembrou bastante os números interpretados por Nina Simone, e o belíssimo blues "Tragedy".


As três canções escolhidas de repertórios alheios comprovam o brilho de Day Breaks, mostrando o quanto Norah Jones se destaca como intérprete. "Don't Be Denied", de Neil Young, foi gravada pelo cantor e compositor canadense em 1973 no renegado álbum Time Fades Away, que nunca recebeu uma edição em CD. Norah adaptou alguns trechos da letra não apenas para poder se expressar no feminino, como também para cantar algumas de suas glórias e dores pessoais. "Peace", de Horace Silver, já tinha recebido uma gravação de Jones em 2002 e chegou a figurar entre as faixas bônus de Come Away With Me; no entanto, a releitura de 2016 contou com o apoio luxuoso de músicos do porte de Brian Blade (bateria) e Wayne Shorter (saxofone). São estes mesmos músicos, inclusive, que fazem da versão de "Fleurette Africaine (African Flower)", de Duke Ellington, o momento mais sublime do disco: a filha de Ravi Shankar dedilha o piano e apenas sussurra enquanto Shorter nos transporta para outra dimensão através de seu sax extraordinário.



Dentre as canções inéditas, "Burn" (Norah Jones / Sarah Oda) e a faixa-título (Norah Jones / Peter Remm) me lembram um pouco da Joni Mitchell de Court and Spark (1974) e The Hissing of Summer Lawns (1975). Já "Sleeping Wild", "It's a Wonderful Time for Love" e "Once I Had a Laugh" são três provas que Jazz é o que Norah sabe fazer melhor, apesar dela ter se enveredado muito bem pelo Folk, pelo Rock, pelo Country, pelo Indie e até pela música Pop. É através do piano que a filha de Shankar consegue expressar melhor seus sentimentos em música e despertar o que há de mais sublime e romântico em cada um de nós.



Day Breaks não é apenas o retorno de Norah Jones ao disco depois de quatro anos longe da música. É o retorno de uma das artistas mais bem-sucedidas do século XXI às suas raízes, ao Jazz, e, tomara, ao merecido sucesso.

9 de outubro de 2016

TROVA # 91

AS LOUCURAS DA CIDADE



"Mas hoje retorna o medo das loucuras da cidade"
(Marina Lima & Antonio Cícero, 1979)


         Desde o dia em que me mudei de vez para São Paulo que eu sofria com o velho dilema de não ter transferido meu título de eleitor para poder votar nos candidatos que se propõem a “administrar” o Planalto de Piratininga. Primeiro porque sempre tive uma preguiça absurda de ir até o cartório eleitoral mais próximo e enfrentar a burocracia de horas para poder fazer o tal do meu “papel de eleitor”. Em segundo lugar, porque nunca levei muita fé no verdadeiro poder de mudança do meu título de eleitor em um país no qual as elites sempre tomaram as decisões políticas, econômicas e sociais. Por fim, não tiro a importância do voto, mas sei que ele não é o único de nossos instrumentos para lutar contra as injustiças do Brasil. Eu lanço mão de minha militância como cidadão, seja no espaço público, seja em algumas conversas privadas para poder lutar contra os desmandos dos que detém o poder.
         Não votei em Fernando Haddad para que ele se elegesse Prefeito de São Paulo em 2012. Demonstrei até uma certa preocupação pelo fato dele ter subido ao poder graças às alianças políticas duvidosas do PT de Lula com um político asqueroso da estirpe de Paulo Maluf. Por outro lado, Sampa tinha padecido por anos nas mãos de administradores irresponsáveis: Celso Pitta, José Serra, Gilberto Kassab e o próprio Maluf levaram esta cidade para um buraco sem tamanho. As gestões de Luiza Erundina e Marta Suplicy foram exemplos concretos de que o Partido dos Trabalhadores já tinha feito bastante pelos paulistanos. Apesar da força daqueles acontecimentos, acreditei na competência de Haddad e torci para que ele fizesse um bom governo.
         O Brasil adentrou uma espiral de polarização política a partir de meados de 2013. O aumento das tarifas de ônibus aqui em São Paulo foi o estopim para que jovens, trabalhadores, a classe média, a mídia e mais alguns fossem para as ruas e se rebelassem contra quase tudo que era da ordem do governo federal. Ir às ruas se tornou em uma demonstração de ousadia e desejo por revolução em uma fração de segundo. Eu me lembro de ter sido radicalmente contra aqueles protestos – afinal de contas, aquele slogan de “Dá licença, mas estamos mudando o Brasil” nunca soou muito bem para os meus ouvidos desconfiados. Nascia ali o ovo da serpente que gerou os movimentos ditos como “suprapartidários” (MBL, Vem pra Rua e outras falanges da velha direita conservadora e fascista e primas distantes da clássica TFP) e que se aliou à mídia para iniciar uma inquisição dos políticos petistas. Dilma Rousseff e seus correligionários passaram a ser o alvo da insatisfação coletiva. Fernando Haddad foi duramente criticado por ter proposto o aumento das passagens A presidenta se preocupou com a voz das ruas e chegou até a propor um plebiscito para que o povo votasse em reformas urgente, vetado pelo congresso. O prefeito recuou de sua decisão, depois de ter mostrado alguma resistência. O PT, ao contrário, não deu a devida atenção para as palavras de ordem e pagou um preço altíssimo por isso.
         Mesmo sofrendo uma série de bombardeios da mídia, Fernando Haddad fez muito mais do que constituir ciclovias em São Paulo. O trânsito, este eterno demônio paulistano, melhorou consideravelmente depois que as Marginais Tietê e Pinheiros tiveram seus limites de velocidade reduzidos a 70, 60 e 50 km / h. As mortes de paulistanos dirigindo pelas ruas e grandes avenidas diminuíram consideravelmente depois da regulação, irritando as elites e a classe média, influenciadas pelos ataques constantes do GAFE (Globo, Abril, Folha & Estadão) à gestão petista. Milhares de estudantes receberam passe livre em todos os ônibus da cidade, enquanto vários trabalhadores tiveram a opção de utilizar o transporte público graças ao Bilhete Único Mensal. Além disto, Haddad construiu mais de 400 km de ciclovias, faixas exclusivas e corredores de ônibus e regularizou o aplicativo UBER, para que tivéssemos melhores opções de táxis na capital. A classe trabalhadora deveria agradecer imensamente ao prefeito eleito para o mandato 2013-2017: o tempo gasto pelo trabalhador para ir e voltar foi reduzido em 4 horas / semana.
         Outro ponto importantíssimo da administração de Haddad foi em relação ao trato com as minorias e os movimentos sociais: incentivou o reflorescimento do Carnaval de Rua de São Paulo; abriu a Av. Paulista para os pedestres e os ciclistas aos domingos; fez excelentes políticas de apoio à comunidade LGBT (o programa “TRANSCIDADANIA” dentre eles); criou o “Braços Abertos”, que abordou a questão do consumo de entorpecentes de uma maneira muito mais humana; instalou Wi-Fi nas praças e nos ônibus, obrigou os taxistas a cobrarem tarifas através de máquinas de cartão (uma excelente medida de segurança para motoristas e passageiros); construiu creches e quase zerou a fila de espera de vagas nestas instituições; sancionou uma lei obrigando as escolas municipais a incluírem alimentos orgânicos nas merendas dos estudantes; colocou ar-condicionado, carregador de bilhete único e de celular na frota de ônibus; ampliou o horário de trânsito do transporte público (sim, podemos pegar ônibus de madrugada!).



         Em relação à eficiência dos gastos públicos, Fernando Haddad se provou como um verdadeiro trabalhador no quesito eficiência: criou um órgão de auditoria independente (a Controladoria Geral do Município); reduziu a dívida do município; recuperou cerca de 280 milhões de reais para os cofres públicos; combateu a máfia do ISS e a corrupção na cidade; aprovou o plano diretor e teve todas as suas contas aprovadas sem nenhuma ressalva. Um detalhe: Haddad jamais foi acusado de ser corrupto e possui uma trajetória idônea e limpa, ao contrário de muitos de seus colegas de partido, para não citar outros exemplos. Seu governo não foi abalado por nenhum caso de corrupção, algo louvável nos tempos de hoje.
         O fato da terceira gestão petista ter beneficiado o maior número de paulistanos enfureceu a mídia e os conglomerados midiáticos, fiadores do antipetismo e do fascismo observado nas ruas e nas redes sociais. A campanha de massificação e distorção dos fatos a favor de uma elite política mesquinha e incompetente não tinha apenas o intuito de derrubar Dilma Rousseff, como também tinha o principal alvo o prefeito da cidade mais importante do país. Conseguiram: elegeram João Doria Jr., um aristocrata, filho de uma família de escravocratas e membro do PSDB, ainda no primeiro turno das eleições municipais de 2016.


         O quinquagésimo-quarto prefeito eleito para governar a cidade de São Paulo representa a mesma política velha e carcomida que está no Governo do Estado há mais de 20 anos. Fizeram pouquíssimo pelo transporte público; não adotaram medidas para as minorias, tampouco para a educação; são frequentemente acusados de desvio de dinheiro e são coniventes e irresponsáveis com a violência crescente. A eleição de Doria não é apenas a representação do retrocesso político e social que foi instituído no Governo Federal a partir de um golpe parlamentar financiado pelo PSDB: é o fruto da irresponsabilidade das alianças feitas pelo PT no passado e da desunião das forças políticas de esquerda, impossibilitadas de pensar em um projeto coletivo para uma das cidades mais importantes do mundo. Lançaram mão do discurso populista e demagógico da “indústria da multa” e de outras falácias para conquistar o voto das periferias.
         O antipetismo encontrou ecos na classe trabalhadora, descrente no projeto inclusivo e humanista do Partido dos Trabalhadores. Os trabalhadores serão os primeiros a pagar o alto preço de terem eleito um lobista. Os abstinentes e os que votaram nulo vão, mais uma vez, sentir na carne a imprudência de não terem cumprido seu papel de eleitores. A classe média sofrerá os efeitos de um governo feito exclusivamente para as elites no próprio bolso. Não estou lançando mão do discurso tucano do “quanto pior, melhor”, mas a fala do prefeito eleito que ecoa pelos quatro cantos da mídia nos mostram uma tragédia inevitável. São Paulo deve voltar a sentir o gosto amargo das loucuras da cidade...

LEIA AQUI O PREÇO ALTO QUE SÃO PAULO IRÁ PAGAR COM A ELEIÇÃO DE DORIA:

















7 de outubro de 2016

TROVA # 90

SOB O LUAR DE HAVANA
(ou o amor correspondido dos Rolling Stones por Cuba)


Para Gabi Medelo, com muito amor...

“I thought you needed my lovin',
But it's my heart that you stole.
I thought you wanted my money,
But you plundered my soul.”
(Mick Jagger & Keith Richards, 1972/2009)

       
         Foi na noite em que vi um concerto inesquecível da Buena Vista Social Club que eu passei a desejar umas férias em Cuba. Não apenas pela história de lutas e repressão que a ilha de Che e Fidel viveram por anos de comunismo, radicalismo político, como também pela beleza “vintage” do lugar, com também pela música belíssima dos cubanos e pela admiração que possuo por toda aquela bela gente. A partir de outubro de 2016, ganhei mais um excelente motivo para querer fazer as malas e conhecer Havana o quanto antes.


         Quando soube que os Rolling Stones iriam encerrar sua gloriosa Olé Tour com um concerto gratuito em Cuba depois de varrer várias cidades da América do Sul com muito Rock ‘n’ Roll não achei apenas algo justo. Tinha a certeza de que seria um evento inédito e extraordinário ou até um pouco mais do que isso: algo revolucionário mesmo. Afinal de contas, o Rock tinha sido banido na terra de Che Guevara desde que o Comunismo subiu ao poder e o embargo imposto pelos EUA e Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ron Wood foram os primeiros artistas do universo roqueiro a dar expediente por lá após a retomada das relações dos norte-americanos com os cubanos.




         No entanto, uma coisa deve ficar bastante clara: o concerto dos Rolling Stones em Cuba na noite de 25 de março de 2016 não foi mais um mero feito notável para a banda. Foi a realização mais importante para a primeira banda de Rock que tocou na China após a abertura da economia daquele regime, que reuniu cerca de 2 milhões de pessoas na Praia de Copacabana e que sempre bate recordes constantes de bilheteria após o final de cada uma de suas turnês. O fato de estarem na estrada há mais de meio século e de ocuparem o posto mais inalcançável no panteão da música popular dos últimos tempos ao lado dos Beatles é algo insuficiente para Mick Jagger e seus companheiros musicais. Eles sempre descobrem outras barreiras a serem derrubadas através de sua música que está sempre a prova de qualquer sinal de envelhecimento.


         A Ciudad Desportiva de Havana recebeu cerca de 1 milhão e duzentos mil cubanos que estavam ávidos e excitadíssimos para verem os Stones ao vivo. Graças às lentes e à direção eficientíssima de Paul Dugdale, aquela noite de março de 2016 foi registrada no belíssimo documentário Havana Moon, que registrou não apenas os momentos mais emocionantes do concerto, como também nos mostrou a felicidade dos membros da banda em estarem naquele palco. Um esforço cinematográfico que não deve nada ao trabalho notável de cineastas de renome como Martin Scorcese, Jean-Luc Godard, Brett Morgen, Hal Ashby ou Robert Frank, que já fizeram filmes excelentes com os músicos.


         Qual são os verdadeiros trunfos de Paul Dugdale em Havana Moon? Ele consegue transmitir a energia de Jagger, Richards, Watts e Wood no palco nos dando a impressão de que eles estão bem na nossa frente – conquista a qual apenas Martin Scorcese pode ter o poder de se orgulhar. No entanto, ao contrário do diretor de Taxi Driver, Dugdale nos ofertou algo que eu jamais tinha conseguido observar em um documentário sobre os Stones: poder ter a oportunidade de ver o que o acontece por detrás no palco segundos antes do espetáculo começar ou durante as corriqueiras trocas de figurino ao lado da mesa de som da banda, por exemplo. Ver que Mick Jagger e Keith Richards ainda se revelam ansiosos antes de entrar em cena é algo surpreendente e comovente ao mesmo tempo, pois nos dá a oportunidade de ver o quão humanos estes músicos são. Outro fator fascinante do filme é a alegria emocionante dos cubanos presentes em assistir, cantar, chorar e bailar com os longevos ingleses – o amor daquela gente pela música dos Rolling Stones se traduzia em cada lágrima, em cada aplauso, em cada palma que se batia na Ciudad Desportiva de Havana.


         Havana Moon teve uma única exibição nos cinemas dos EUA e do Reino Unido na noite de 23 de setembro de 2016 e passou como um cometa pelas salas do Cinemark na noite de 06 de outubro de 2016. Por se tratar de um evento único, nem hesitei ao correr para o cinema mais próximo do trabalho para testemunhar uma das noites mais inesquecíveis da trajetória dos Rolling Stones. Para meu consolo e de muitos fãs da banda desejosos em ver ou rever o filme, um DVD será lançado em novembro de 2016 para que possamos ter mais imagens de arquivo de uma das bandas mais queridas de toda a história da música.






Por se tratar de um registro belíssimo, o trabalho de Paul Dugdale se torna tão representativo quanto outros documentários já realizados por Martin Scorcese (Shine a Light), Jean-Luc Godard (Sympathy for the Devil), Robert Frank (Cocksucker Blues), Hal Ashby (Let’s Spend the Night Together) e Brett Morgen (Crossfire Hurricane). Não apenas por suas câmeras eficientíssimas, sensíveis e precisas, mas principalmente por desvendar o principal mistério do sucesso dos Rolling Stones após tantas décadas: é o público quem mantém a banda unida; a partir de tamanha admiração, Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ron Wood conseguem reestabelecer o encantamento dos fãs, como também se mantém como referência absoluta de espetáculos ao vivo. Havana Moon nos mostra o porquê dos Stones serem simplesmente incomparáveis e insubstituíveis enquanto artistas e, por isso, é um documento histórico de suma importância para quem deseja compreender os rumos da história recente da arte e da política dos séculos XX e XXI.

     

5 de outubro de 2016

DISCOS DE VINIL # 2

SECOS & MOLHADOS - SECOS & MOLHADOS (1973)




O que é, o que é: qual o nome que se dá ao cruzamento de um músico português, de um jovem compositor e de um cantor tímido e magricelo com um timbre de voz agudo que se transformava em pleno palco?
Some-se a isso muita purpurina, maquiagem pesada, um som que ia do rock clássico ao folclore português, sem deixar de passar por ritmos brasileiros e com um discurso poético baseado em poemas de autores consagrados convertidos em canção, além de letras originais…
Ah, e claro: uma boa pitada de contestação dos valores morais, estéticos e, consequentemente, políticos da época na qual surgiu e o nome mais insólito que uma banda brasileira poderia ter…
Se você, leitor, pensou no grupo Secos & Molhados, a sua resposta está definitivamente COR-RE-TA!
A charada acima dá uma vaga ideia de que foi até fácil para que três rapazes, cada um com o seu respectivo papel, revolucionasse a música do planeta com apenas UM disco! E em apenas 12 meses! E, melhor de tudo, sem precisar recorrer ao puro escracho que beirava os limites da baixaria, tal qual os Mamonas Assassinas assim fizeram nos anos 1990.
O Secos & Molhados tinha tudo, menos uma receita pronta para o estrondoso sucesso que fez na época, que tem feito há décadas e que ainda fará por muitas outras: um vocalista com voz de mulher, um compositor de mão cheia, o compositor “One Hit Wonder” mais significativo da história da música popular brasileira e um som estranho para os padrões da época eram apenas alguns dos elementos que NENHUMA gravadora de grande porte acreditaria hoje em dia!
E o que mais faz do disco de estreia do Secos & Molhados um dos discos mais importantes dos últimos tempos? Vamos te dar 10 motivos para que você possa saber:

1) A voz de Ney Matogrosso ainda tem o poder de encantar gerações e mais gerações, de crianças de 9 anos a senhorinhas de 90 anos;

2) As composições originais de João Ricardo (em parceria com Luhli e Paulinho Mendonça) conseguem fazer as pessoas cantarem, dançarem, pularem com versos inesquecíveis como “Vira vira vira homem / vira vira / vira vira lobisomem” ou “E o que me importa é não estar vencido”;

3) “Rosa de Hiroshima”, poema de Vinícius de Moraes musicado por Gerson Conrad, é mais do que uma ode às pessoas que sofreram os horrores da guerra, é um dos hinos pacifistas mais belos em toda a história de versos, sons e ritmos da língua portuguesa;

4) As maquiagens utilizadas por Gerson Conrad, João Ricardo e Ney Matogrosso sempre vão nos dar a impressão de que eles não são cantores e músicos, mas sim criaturas que vieram de outro mundo!

5) A música do Secos & Molhados, brasileira e da maior qualidade, mescla ritmos dos mais diversos – Rock, Fado, Folk, Era do Rádio. Uma mistura de Bob Dylan com Crosby, Stills, Nash & Young, conduzido pelo canto de uma Ângela Maria glitterizada e com riffs de guitarras que parecem ter saído de The Rise & Fall of Ziggy Stardust & The Spiders from Mars.

6) Foi um dos poucos discos da música brasileira que tocou todas as faixas (sim, as treze faixas do disco!) nas ondas do rádio do Oiapoque ao Chuí!

7) A capa deste disco é, sem dúvida nenhuma, a capa de disco mais ousada que já foi feita neste planeta: quatro cabeças sendo servidas como pratos principais em uma mesa de jantar!

8) Os refrões das canções deste disco são fáceis de memorizar e, nem por isso, são pobres ou desprovidos de inteligência musical!

9) Os músicos de apoio que tocaram neste disco – Emilio Carrera, John Flavin, Willie Verdaguer, Sérgio Rosadas, Marcelo Frias – fizeram dos teclados, guitarras, baixo, flauta, bateria e percussão elementos de uma massa sonora complexa e de uma riqueza extraordinária de sons e ritmos;

10) Este disco vendeu cerca de 1 milhão de cópias em um ano de lançamento e desbancou o “Rei” Roberto Carlos como o artista que mais vendia discos neste país! Além disto, o Secos & Molhados conseguiu lotar o Maracanãzinho em uma apresentação histórica em fevereiro de 1974.

Com o seu aclamado álbum de estreia e com a inesperada receptividade do público e da crítica, o Secos & Molhados deixou de ser um mero conjunto pop para se transformar em uma espécie de Beatlemania à brasileira e com toques e temperos glitter. A consequência imediata de tamanha popularidade foi a dissolução da formação clássica do grupo em agosto de 1974, quando Ney Matogrosso decidiu abandonar o grupo alegando “diferenças irreconciliáveis” com o seu companheiro de banda, João Ricardo.
Com apenas 13 faixas, o “disco das cabeças cortadas” se tornou uma das pérolas mais brilhantes da canção brasileira! A cada audição deste disco, somos transportados ao universo atemporal de “corujas e pirilampos” que falam e dançam “entre os sacis e as fadas”.
Afinal, sempre haverá uma maneira de iluminarmos “a dança, a roda, a festa”! E você pode ouvir este disco na íntegra aqui:



O LINK ORIGINAL ESTÁ NO PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS DESDE O DIA 2 DE JANEIRO DE 2014:


ESTE TEXTO E OUTRAS CURIOSIDADES SOBRE O GRUPO SECOS & MOLHADOS TAMBÉM SE ENCONTRA NO LIVRO O DOCE & O AMARGO DO SECOS & MOLHADOS:



SAIBA MAIS SOBRE O LIVRO AQUI:

2 de outubro de 2016

TROVA # 89

LADY STANSFIELD
(algumas memórias públicas e particulares de Lisa Stansfield)


"If I could change the way I live my life today
I wouldn't change a single thing
'Cause if I changed my world into another place
I wouldn't see your smiling face"
(Lisa Stansfield, Ian Devaney & Andy Morris, 1991)


Eu fui um adolescente durante os anos 1990, época da qual não tenho muito orgulho de ter vivido. O Brasil vivia uma sucessão de crises econômicas, tivemos o primeiro presidente deposto por um processo de impeachment e, apesar da sobrevida financeira que obtemos graças ao Plano Real, vivíamos uma era de vacas financeiras bem magras. A música do nosso país e do resto do mundo seguia a onda neoliberal que começava a se abater pelo mundo: uma pobreza musical movida por muitas batidas eletrônicas pasteurizadas, muita pose, hedonismo e pouquíssimo conteúdo musical de consistência. Muitas modas musicais embaladas  com o sabor do que a indústria fonográfica queria que ouvíssemos. Tempos difíceis para suburbanos adolescentes como eu, que estava se iniciando pelo universo da música...

Uma musa do Europop
Uma das raras exceções à regra que mencionei acima, além de Madonna, é Lisa Stansfield, uma cantora inglesa da qual sempre gostei muito. Surgida no final dos anos 1980, em meio aos estertores do rock que batia cabelo e as batidas do Europop, Stansfield era uma exceção das mocinhas que faziam música Pop naquele momento. Para início de conversa, ela compunha boa parte do material que compunha. Em segundo lugar, tinha no Maestro Barry White e em Marvin Gaye, suas principais influências musicais.




Outro aspecto que sempre me chamou atenção em relação à Lisa Stansfield foi o fato dela conseguir cantar bem diversos estilos de música. Sua gravação de "Down in the Depths", de Cole Porter, é um dos melhores tributos já feitos a um dos maiores gigantes do American Songbook. Já a sua participação no primeiro grande tributo a Freddie Mercury cantando "These Are the Days of Our Lives" ao lado de George Michael e os membros remanescentes do Queen no final de 1991 é uma das mais belas intervenções musicais das quais eu tenho notícia. Em poucas palavras: Lady Stansfield é uma cantora singular, de um talento pouco comparável às suas colegas de geração.




Nascida em Lancashire, Inglaterra, em 11 de abril de 1966, Lisa Stansfield lançou seu primeiro álbum (Affection) aos 23 anos de idade. Ainda orientado pelas batidas eletrônicas do Europop do final dos anos 1980 e que orientaria uma boa parte da década seguinte, o disco trazia uma das canções que marcariam todo o repertório da cantora inglesa: "All Around the World", parceria de Lisa com seus fiéis músicos, produtores e escudeiros Ian Devaney e Andy Morris. O disco de estreia de Lady Stansfield vendeu mais de cinco milhões de cópias em todo o planeta, fazendo da jovem inglesa a queridinha do Pop naquele momento.


Real Love, o segundo álbum de Lisa Stansfield, foi lançado em novembro de 1991. O lado dançante foi encorpado por uma sonoridade mais romântica e ligada à soul music. A voz de Lisa se mostrou mais rica e os arranjos eram mais elaborados - cordas, guitarras e teclados e a presença marcante das backing vocals Anna Ross e Aileen McLaughlin resultaram em uma excelente simbiose musical. Sim, o Pop nos rendeu pérolas raríssimas e de enorme complexidade...


A sequência de Real Love foi o belo So Natural, lançado em novembro de 1993, produzido pela artista ao lado de Ian Devaney e Bobby Boughton. Ainda mais romântico do que o anterior, Lisa Stansfield gravou canções ainda mais românticas e sentimentais. A influência da soul music de Philadelphia e dos discos de Barry White e da Love Unlimited Orchestra se fez ainda mais presente, o que fez com que Stansfield se desse ao direito de cantar com uma intonação mais sexy em canções como "Be Mine" e "In All the Right Places" (parceria bissexta de Lisa, Devaney e Morris com o maestro e compositor John Barry, que integrou a trilha sonora do filme Proposta Indecente), além de algumas tendências do velho Europop.




Lisa Stansfield ao lado de seu parceiro na música e na vida, Ian Devaney

Depois de um recesso de quatro anos, Lisa Stansfield retomou sua discografia de forma triunfal com um disco epônimo. A parceria com Ian Devaney se estendeu do meio musical para a vida afetiva - os dois se casaram em 1996, depois de um longo namoro. O quarto álbum de Lady Stansfield era descaradamente mais soul e mais dançante do que seus dois antecessores. O fato de Lisa estar no topo do jogo chamado Pop Music fez, por exemplo, com que a MTV Brasil transmitia-se os clipes de "The Real Thing" (Lisa fazia uma espécie de "cupido" que atraía casais de amantes, dentre estes, dois rapazes, o que surpreendeu este que vos escreve, na época com 16 anos de idade e inocente de tudo e mais um pouco) e "Never Never Gonna Give Ya Up" (cover de Barry White no qual ela aparece se banhando em uma banheira e andando pelas ruas de Londres completamente nua!) até à exaustão. Nada mal para um adolescente suburbano que buscava pérolas em meio ao mar revolto da música Pop daquele momento.





Creio que foi nesta época em que descobri o talento de Lisa e vi o quão ela era diferente dos demais artistas de sua geração. Ouvi o CD Lisa Stansfield por anos até à exaustão em casa, no meu quarto, no carro de meus pais e até na casa de meus avós. Enquanto meus colegas de escola ou do curso de inglês curtiam o som de bandas mais descoladas de Pop Rock ou das odiosas boy bands ou das detestáveis imitações de Madonna, eu adorava cantar o cover delicioso que a bela inglesa tinha feito para o clássico da disco Music "You Know How to Love Me", de Phyllis Hyman.




O período de ouro da obra musical de Lisa Stansfield se deu entre 1989 e 1997. Ela tentou retomar o ritmo musical em seus discos de 2001 e 2004 - Face Up e The Moment. Confesso que o primeiro destes discos não me empolgou nem um pouco e eu parei de seguir o trabalho de Lady Stansfield. Primeiro, por ter perdido a empolgação diante de seu trabalho. Em segundo lugar, por ter expandido meus horizontes musicais com a música brasileira e o rock clássico. Além disto, Lisa decidiu investir em sua carreira de atriz e chegou, inclusive, a gravar uma trilha sonora de um dos filmes dos quais participou. Retornou ao disco em 2014, com o emblemático título Seven, como alusão ao sétimo título de sua discografia, depois de anos de reclusão.






Fiquei empolgado ao saber que Lady Stansfield estava em turnê e passaria novamente pelo Brasil (a primeira vez foi em janeiro de 1991, para a segunda edição do Rock in Rio) em setembro de 2016. Fiquei ainda mais feliz em saber que ela venceu a insegurança e a reclusão e tinha decidido subir aos palcos novamente. Se eu tivesse sido mais atento aos eventos da cidade ou estivesse mais preparado financeiramente, teria me deslocado para o Espaço das Américas para ver a bela inglesa encantando o público brasileiro mais uma vez. Ou, se estivesse em um momento mais apaixonado de minha vida, tentaria obter um autógrafo na minha cópia de So Natural. Ou, se fosse um cara de pau convicto (coisa que estou longe de ser), me ofereceria para fazer tradução simultânea em coletiva de imprensa, assessoria de imprensa, leão de chácara ou o que ela quisesse sem ganhar um centavo sequer do para poder ver o show de perto... Quem sabe terei uma próxima vez?

Lisa Stansfield em São Paulo - 21 de setembro de 2016

Lady Stansfield poderia voltar para mais shows e fazer com que eu despertasse da minha inércia. Não pela subserviência musical, e sim para que eu pudesse assistir uma das cantoras mais belas e talentosas do planeta ao vivo e a cores. Como bom aquariano que sou, mantenho acesa a chama da esperança de ver "The Real Thing" bem de pertinho...





LADY STANSFIELD'S TOP 12:

1. All Around the World

2. This is The Right Time

3. Real Love

4. Set Your Loving Free

5. All Woman

6. A Little More Love

7. Someday (I'm Coming Back)

8. Never Set Me Free

9. Too Much Love Makin'

10. Marvellous & Mine

11. Never Gonna Fall

12. The Line