Para Ciça Carvalho, uma das fortalezas que me inspiram “Sim, minha força está na solidão. Não tenho
medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também
sou o escuro da noite.”
(Clarice Lispector)
Desde que a vida começou a me ensinar
as lições mais amargas da existência que eu ouço o velho e surrado ditado: “Após
a tempestade, vem a bonança”. Apesar de sempre carregar uma pontinha de
otimismo dentro de mim, sempre odiei chuvas – as verdadeiras e as simbólicas. O
desconforto se sente no corpo e na alma, todavia só construímos nossas
fortalezas depois de muitas crises e sem direito a sombrinha ou guarda-chuva
para nos reconfortar.
Tempestades são cursos intensivos de
aprendizagem e autoconhecimento, pois nos ensinam a juntar os cacos de mundos
que são desfeitos com a agressividade do vento e dos raios. Tempestades nos
fazem aprender sobre a importância da dor e do sofrimento para cada um de nós. Tempestades
são dolorosamente necessárias, pois são instrumentos de amadurecimento.
As intempéries doem simplesmente pelo
fato de que não possuem tempo determinado para acabar: podem durar minutos,
horas, dias, anos ou uma vida inteira. No entanto, sempre haverá o momento no
qual o frio passa e o céu se abre para que tudo se renove, se transforme e
novos caminhos se abram. Nem sempre as trilhas são lógicas. As trilhas nunca são
em linha reta. Porém, elas nunca falham. E, por isso, devemos sempre agradecer
aos astros por cada coisa boa e ruim que nos acontece.
Sempre me julguei uma pessoa forte. No entanto,
ao tomar conhecimento da vida de uma de minhas amigas, concluí de que preciso
de muito arroz, feijão e experiência de vida para ter metade da força que ela
tem. Minha amiga é uma verdadeira fortaleza: sempre disposta a superar seus
próprios limites, é corajosa, determinada, guerreira e dona de uma gargalhada
inconfundível. Mãe coragem, profissional dedicada e sempre aberta ao
aprendizado. Vítima do mal que assola milhares de brasileiras, foi vítima de violência
de um antigo companheiro. Tem expiado a dor e a decepção se mostrando ainda
mais forte por dentro, mesmo que fragilíssima por fora e sem se esquecer de seu
belo sorriso. E ainda consegue tempo para participar de uma bateria de um bloco
de Carnaval.
Já que falei de festividades, os dias
de fevereiro são geralmente de bastante celebração por causa do Carnaval que
arrasta milhões de pessoas para as ruas de todo o Brasil. Ótima oportunidade
não apenas para deixar nossos dilemas de lado, como também é um momento e tanto
para exorcizar nossos demônios e protestar contra o que existe de mais torto em
matéria de política neste país. E, em meio ao calor acachapante do verão
brasileiro, a chuva que cai nas nossas costas é sinal de refresco e de
purificação.
Este Vinícius que vos escreve, hoje tão
avesso aos excessos carnavalescos (calor e muita gente não me fazem bem!), pede
ao Rei Momo para que muitas pessoas se animem a pular, dançar e cantar o Carnaval
a São Pedro para que muita chuva seja enviada para as terras de cá. Afinal de
contas, promessas de vida são precisas para que as fortalezas humanas floresçam
e resistam diante das tempestades que vem por aí...
Desde que ouvimos os anúncios de que o
terceiro álbum de Tulipa Ruiz já estava a caminho, criou-se um tremendo frisson
nas redes sociais em torno da questão da velha e batida questão “será que este
álbum vai superar o anterior?” que estamos enfastiados em ter que ler e
responder.
Para os ouvintes que agiram como
abelhas atentas do pólen musical deixado por Tulipa após os cultuados álbuns Efêmera (2010) e Tudo
Tanto(2012), não ficaram
muito surpresos com os rumos musicais que a cantora decidiu trilhar em seu
terceiro CD. O single “Megalomania” e o EP Tulipa Ruiz Remixes já eram pistas
claríssimas de que a flor cantante iria fazer como David Bowie fez conosco em
1983 e iria literalmente colocar a gente para dançar…
Sejamos diretos ao assunto: Dancê (2015), como diz o título, é um CD
para o ouvinte bater o pé, tirá-lo do chão, mexer a cabeça de um lado para o
outro e sair dançando, embarcando na levada loucamente musical (Sorry, Ivete!)
para a qual Tulipa nos convida, sem deixar de nos fazer refletir em uma série
de coisas, tal qual em “Prumo”, faixa de abertura do disco, assinada por ela em
parceria com Gustavo Ruiz:
Começou
Agora você vai tomar conta de si
Das tuas minhocas, caraminholas,
das encucações, dos teus pepinos
Das pérolas, das abobrinhas,
dos abacaxis, dos nós, dos faniquitos.
Se você está na dúvida se ouvir o CD
realmente vale a pena ou não, Dona Tulipa e banda enviam um recado muito claro
para os indecisos em “Reclame” (Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz, Caio Lopes, Marcio
Arantes e Luiz Chagas):
Trato azedume, mau-olhado, ‘quebrante’, vício
Trato treta de trabalho
Trabalho com amarração
Resolvo o seu problema com baralho, com pôquer,
bingo
Pra bituca de cigarro eu tenho a solução
Trago seu amor de volta se me fizer uma visita
A gente faz uma combinação, você acerta e acredita
No duro, dá certo
Nunca houve reclame.
Enquanto bailamos entre sons de metais
e brasa e acordes de guitarra capitaneados por Luiz Chagas e Gustavo Ruiz,
Tulipa segue disparando seu arsenal de provocações aos ouvintes de Dancê. “Jogo do Contente”, outra parceria
dela com Gustavo, traz uma sequência interessante de cutucadas àqueles que
insistem em viver dentro de uma determinada zona de conforto:
Todo motivo te leva a querer
Todo querer te faz ter vontade
Toda vontade te faz ter impulso
Todo impulso sempre me estimula
Toda sequência tem uma rotina
Toda rotina te causa estrago
Todo estrago merece um conserto
Todo conserto te modifica.
“Proporcional” questiona, com bom
humor, as diferenças entre as medidas das pessoas e aponta que não existem (ou
deveriam existir) obstáculos entre as diferenças:
Cada um tem seu formato
Apertado, colado, justo
Largo, folgado, amplo, vasto
Cheio, graúdo, forte, farto
Esguio, fino, compacto.
Visto GG, você P
Você P, eu GG
Visto GG, você P
Você P, eu GG.
“Expirou”, mais uma parceria dos
irmãos Tulipa e Gustavo Ruiz, traz a nostalgia de eventos dos quais não tivemos
a oportunidade de participar pelo simples fato de que ainda não vivíamos por
estas bandas. Alguns exemplos: os barulhentos festivais da canção brasileira
nos anos 1960 e 1970, São Francisco, Woodstock e a Swinging London, “Carcará”, “Aquele
Abraço” e “Divino Maravilhoso”, os Novos Baianos, as Dunas da Gal, FA-TAL e
Cantar, Itamar Assumpção e a Isca de Polícia, Grupo Rumo, Madame Satã são
apenas alguns exemplos de coisas que nós, nascidos após 1975, faríamos de um
tudo para ter ouvido e vivido na época de seu surgimento. Embalada pela
guitarra mítica de Lanny Gordin (que acompanhou Gal Costa em sua também mítica
turnê de 1971-72), Tulipa Ruiz saúda a alquimia dos mestres com o devido
respeito:
Sinto falta de um tempo que ouvi dos amigos
Tava escrito num livro
Tocou numa vitrola
Foi dançado, cantado, recitado, falado
Publicado, sentido, decupado, contado
Mas eu não tava ali
Quando é que a saudade daquilo que a gente não
viveu passa?
Se passa, parece que já foi, mas quando você vê
volta
Volta porque tem a sua cara, tem a ver com a sua
história.
“Elixir”, quarta faixa do disco, é um
petardo para uma sociedade que acorda com Prozac e dorme com Rivotril e
acredita que vive um fluxo extremamente natural de sua existência. Fruto de uma
noite em claro da própria Tulipa, a canção nos indica o sonho dourado de muitos
notívagos angustiados por aí:
Apaga, filtra, manera
Massageia o esqueleto
A cuca, a cabeça, a traqueia
Cotovelo do esqueleto
A lombriga, clavícula, pé e a costela do esqueleto
Dormir é o meu sonho principal
Legado aos olhos como se fosse elixir
Dormir é o meu sonho principal
Legado aos olhos como se fosse elixir
Zero reflexão, zero
Zero reflexão, zero
Zero reflexão, zero
E entra no estado zen.
Uma das faixas mais divertidas de Dancê é “Físico”, mais uma parceria de
Tulipa e Gustavo assumidamente inspirada no hit “Physical”, eternizado por
Olivia Newton-John em 1981. Para resgatar a sonoridade disco do início dos anos
1980, a trupe contou com a participação especial de Kassin, que tocou baixo,
guitarras e sintetizadores. O desejo de Tulipa Ruiz, ao contrário do que sugere
a tendência apontada pela estrela de Grease
e por pessoas obcecadas em viver relações baseadas somente em atributos
físicos, descreve alguém que vai além do que é obviamente esperado nas típicas
atrações sexuais:
Tudo que eu gosto tá em você
É puramente físico
(…)
O formato do nariz
Osso pontudo do pescoço
Lóbulo da orelha
Desenho da sobrancelha
Pintas pela pele
Pelos, tornozelo
Dedo, nuca, calcanhar, cabelo
Da boca pra fora
Fora de fora pra dentro
(…)
Você veio assim sem defeito.
“Old Boy”, décima faixa do disco, fala
sutilmente sobre a importância do viver com a certeza de que teremos um
aprendizado em relação ao que foi vivido. Em outras palavras: uma bela canção
sobre a morte, com versos singelos e uma interpretação sóbria de Tulipa:
Vai ter tempo de sobra
Mesmo sendo velho, sabe sobre tudo
Sempre pra valer
Volta e meia, cê volta
Nunca é tarde, pelas tantas recomeça
Vence em convencer
Não tem fim, nem começo
O agora é agora, voa
Já passou, olha, passou
E fica também na sua memória
Sempre você
O tempo e você.
O brilho de Dancê
também está nos convidados especiais que participam do disco. A elegância e a
jovialidade de João Donato fazem de “Tafetá” um dos momentos mais belos do
disco. Balada ao estilo do balancê inconfundível do criador de “A Rã” sem
deixar de incorporar o balancê frenético das produções musicais da flor
cantante, a faixa é uma ode à beleza masculina capitaneada pelos vocais em
canto e contracanto Donato e Tulipa, pontuados pelos metais, violão, percussão
e pelo piano fender rhodes em menos
de 4 minutos de duração:
Fino
Só você
Elegante
Sabe bem
Muito trato
Combinar
Na lapela
Tem o dom
Tem um padrão
Já que tem
Desenhado
Sabe usar
Tem casaco
Dégradé
Engomado
Tafetá
“Virou”, parceria de Tulipa Ruiz com
Felipe Cordeiro, Gustavo Ruiz, Manoel Cordeiro e Luiz Chagas, é uma colaboração
que contou com a participação de Felipe Cordeiro, dividindo os vocais com
Tulipa e de Manoel Cordeiro (pai de Felipe) que tocou guitarra na faixa. Os
versos do refrão já garantem a memorização do ouvinte já a partir das primeiras
audições de uma das faixas mais alegres de Dancê:
Era pra ficar no chão
Deu pé, decolou
Era pra ter sido em vão
Como é que durou?
Era pra ficar ali e por aí caminhou
Era pra ser menos sério
Mais cara-de-pau
Era para ser só nuvem e precipitou
Podia não ter dado em nada
Então como é que virou?
No entanto, a participação especial
mais intrigante de Dancê foi a do Metá Metá (Juçara Marcal – Voz, Kiko Dinucci
– Guitarra, Marcelo Cabral – Baixo, Sergito Machado – Bateria, Thiago França –
Sopros em “Algo Maior”, parceria de Tulipa Ruiz, com Gustavo Ruiz e Luiz
Chagas. As vozes fortíssimas e distintas de Tulipa e Juçara resultam na
sensação angustiante de uma tormenta que está a caminho, mas nunca chega – algo
típico para uma interpretação de um grupo de balé contemporâneo, com
coreografias típicas de Deborah Colker:
Tá pra nascer algo maior
que vá tirar do lugar as coisas que cismam em não
andar
Tá pra nascer algo maior
que tudo o que você já viu, leu, sentiu, soube ou
ouviu
Não sinta medo nem dó de ser feliz e se soltar,
de saber bem o que lhe convém
Tá pra nascer quem viva só,
pois de me,
myself and I já basta eu, você e nada
mais.
Ao ser encerrado com este épico de cinco
minutos e trinta e nove segundos, Dancê
deixa muito claro que Tulipa Ruiz não é uma cantora que segue os caminhos
óbvios já traçados pelo Pop e pela MPB recentes. Também revela um grande disco,
feito com inteligência acima do comum. E o melhor de tudo: ele consolida de vez
a parceria Tulipa Ruiz – Gustavo Ruiz, que tem um potencial gigantesco para já
constar no rol de parceiros célebres de nossa música como Marina Lima – Antonio
Cícero (irmãos e parceiros, tal qual Tulipa e Gustavo), Roberto Carlos – Erasmo
Carlos e tantas outras…
Enquanto isso, aproveite para afastar
os móveis da sala, abrir um espaço bem amplo para que você dar o play e colocar
Dancê para rodar na sua cabeça e sair
bailando sem a menor vergonha de dançar alegremente. Se Tulipa nos diz que um
bom estímulo pode nos trazer boas influências, deixe-se levar por este CD que,
para nós, já nasceu clássico.
Foi numa
madrugada de domingo, daquela de intervalos perturbadores entre uma cochilada e
outra, nos quais o corpo mais se cansa do que descansa. Recebi a notícia em uma
das vezes em que acordei: Whitney Houston já não estava mais entre nós. Uma das
vozes mais belas do mundo tinha morrido aos 48 anos.
Tal qual
vários artistas de sua geração, Whitney possuía a maldição autodestrutiva de
todo artista: ao mesmo tempo em que ele pode originar e erguer as coisas mais
belas em matéria de arte, ele também consegue ser extremamente eficiente em
matéria de sabotagem própria. Tal qual Michael Jackson, Prince ou Amy
Winehouse, Whitney Houston sucumbiu aos prazeres efêmeros das drogas e do
alcoolismo e não sobreviveu aos dilemas existenciais de ser uma celebridade em
uma terra que respira o sucesso a qualquer preço.
A voz
potente de Whitney me pegou em cheio quando eu ainda era criança, lá pelos idos
de 1989-1990, graças às trilhas sonoras das novelas da TV Globo. Tinha 11 anos
de idade quando a filha de Cissy Houston tomou as paradas de sucesso do planeta
de assalto com as canções de The
Bodyguard ("O Guarda Costas"). Lembro bem de ver um sem-fim de
reportagens sobre a estrela Pop do
momento, além de revistas de meninas com traduções de "I Will Always Love
You", de Dolly Parton, que tocou nos rádios e na MTV até cansar nossos
olhos e ouvidos e fez com que o álbum com as canções do filme fosse o mais
vendido de toda a história. Já a película em si era de uma pobreza dramatúrgica
sem tamanho: Kevin Costner é tão expressivo quanto uma estátua de cera, porém
os videoclipes nos quais a personagem Rachel Marron estava em ação mostrava o
que Whitney Houston sabia fazer melhor: cantar!
Pensando
bem, Whitney Houston tinha um outro talento indiscutível: ela conseguia
arranjar confusão tão bem quanto cantava. Os episódios de manchetes nos jornais
por causa de abuso de drogas, álcool, de canos em aparições públicas e barracos
com o ex-marido Bobby Brown fizeram a festa dos tabloides e dos programas de
celebridades - com direito a um reality show estrelado pelo marido que renovou
os limites do mau gosto. Sem esquecer de somar algumas pitadas de arrogância e
uma vontade sem fim de dizer que está tudo bem para Deus e o mundo. Vergonha?
Vontade de tapar o sol com a peneira? Ou os dois? Só ela poderia saber...
Os anos 1990
acabaram para mim ao som das músicas de My Love is Your
Love (1998), que ganhei de presente em um dos meus aniversários.
Whitney aparece linda e loira na capa do disco, cantando como nunca. A diva
procurou se reconectar com o universo da música Pop ao gravar com nomes de peso como Mariah Carey, Missy Elliot e
Lauryn Hill para continuar, digamos, na crista da onda daquele momento. E, com
o seu talento indiscutível, conseguiu. "It's Not Right, But It's
Okay", "If I Told You That" e "I Learned From the
Best" foram a trilha sonora do final de uma década de brilho e sucesso
para Whitney e de anos de tédio e amargura para mim.
Os anos 2000
não foram muito agradáveis para a estrela: os escândalos sucessivos e o consumo
de drogas começaram a afetar sua forma física e a arranhar sua carreira
musical. As vendas caíram e as turnês apontaram a decepção dos fãs e o desgaste
de Whitney Houston perante o público. O brilho da estrela começava a se apagar.
O novo milênio começava a ficar órfão de grandes vozes e de talentos genuínos.
As pessoas teriam uma voz a menos para poder acreditar de que este mundo seria
um lugar melhor de se habitar.
Em um
universo musical cada vez mais fake e
plastificado, a voz poderosa de Whitney Houston faz uma falta sem tamanho. Sua
partida trágica de nosso convívio - ela morreu afogada em uma banheira de um
hotel em Los Angeles por causa de abuso de drogas e álcool - e seus dramas
pessoais que se tornaram públicos compuseram uma aura extremamente negativa de
uma das vozes mais belas que o mundo já ouviu. Depois de viver 1825 dias sem a
voz de Whitney entre nós, vejo que ela ainda é referência para muitos artistas
a se aventurarem pelo mundo musical. Que ela sempre seja lembrada pelo seu
talento...
A virada da década de 1960 para a de
1970 não trouxe boas vibrações para os Rolling Stones: a morte de Brian Jones,
a participação da banda no famigerado festival de Altamont que resultou na
morte trágica de um fã do grupo, as disputas financeiras com o ex-empresário
Allen Klein que se transformavam em batalhas judiciais intensas e o fim do
contrato com a gravadora Decca chegava ao fim de forma amarga e turbulenta. Até
o final de 1969, a banda não possuía controle pleno sobre o seu trabalho e
vivia com as finanças no vermelho. Keith Richards poderia, enfim, viver a
plenitude de seu amor pela explosiva e junkie
Anita Pallenberg com direito a todos os narcóticos que quisessem. Mick Jagger
deixara Marianne Faithfull para trás para se casar com a exuberante Bianca
Pérez-Mora de Macías (futuramente: Bianca Jagger) pouco tempo depois, decidira
se aventurar como ator de cinema e dava início à sua egotrip eterna. Tais fatos fizeram com que o futuro da banda fosse
considerado como incerto naqueles tempos.
Keith & Anita
Jagger & Richards na virada da década
Mick & Bianca
O mundo se surpreendeu completamente
com o surgimento de Sticky Fingersem
23 de abril de 1971. O álbum não apenas garantiu a redenção musical dos Rolling
Stones, como também trouxe a banda com toda a pompa e circunstância para a
década mais insana da história dos músicos. Além disto, estamos diante de uma
das dez obras-primas do Rock ‘n’ Roll e
os Stones são autores de duas destas pedras fundamentais: este disco e o
lendário Exile on Main St.(1972), o rosário de todas as obsessões
sexuais e lisérgicas de Jagger e Richards. O impacto profundo se dava com a
capa do álbum – uma imagem em close-up de
um jeans masculino com um órgão sexual proeminente, mais uma das criações
escandalosas de Andy Warhol. A primeira edição em vinil deste clássico (hoje em
dia, uma raridade!) continha um zíper que, infelizmente, danificava a qualidade
do bolachão. Os conservadores de plantão acharam um horror, o que fez com que a
capa do disco fosse censurada em países como a Espanha, que colocou uma
ilustração no lugar da foto do jeans controverso.
Sticky Fingersfoi um álbum
que marcou uma série de marcos iniciais para os Rolling Stones: não se trata
apenas do primeiro álbum de inéditas da banda na década de 1970, como também
foi o primeiro trabalho que contou com a participação plena do guitarrista Mick
Taylor (substituto de Brian Jones), o primeiro álbum no qual Mick Jagger
apareceu nos créditos tocando guitarra e violão, o primeiro trabalho a exibir o
logo que se tornou a marca registrada da banda (a boca e a língua de Mick
Jagger estilizadas por John Pasche) e o foi o primeiro produto da Rolling Stones Records, selo fundado por
Jagger, Richards e cia via Atlantic Records. A gênese deste disco começou
alguns anos antes de 1971: parte das canções foram gravadas no lendário Muscle
Shoals Sound Studio em 1969 – templo sagrado de mestres do Soul americano como Aretha Franklin localizado no coração do
Alabama – outras foram gravadas no Olympic Studios e no Trident Studios, em
Londres e as restantes foram criadas no The Rolling Stones Mobile Studio em
Stargroves, propriedade de Jagger e Richards no interior do Reino Unido entre o
final de 1969 e 1970. A produção deste clássico ficou a cargo de Jimmy Miller,
parceiro musical das pedras rolantes até a primeira metade dos anos 1970.
Apesar das crises internas intensas, a
forma musical dos Rolling Stones era invejável durante aquele período. Keith
Richards e Mick Taylor conseguiram um entrosamento intenso, Charlie Watts e
Bill Wyman eram a cozinha mais elegante e completa do Rock ‘n’ Roll e Mick Jagger estava no auge de sua forma vocal. O
time de músicos convidados para tocar em Sticky Fingersé digno de dar inveja a qualquer banda iniciante:
Bobby Keys e Jim Price nos metais, Ian Stewart, Billy Preston e Jack Nitzsche
no piano e no órgão Hammond B-3, Ry Cooder na guitarra slide, Rocky Dijon nas
congas e o arranjo de cordas do maestro Paul Buckmaster. As dez canções do
disco são uma espécie de prenúncio do rosário de loucuras e obsessões que
fariam de Exile on Main St.um dos cinco discos mais importantes de toda a
história da música. “Wild Horses” e “Moonlight Mile”, por exemplo, são as
melhores baladas que Jagger e Richards já compuseram e falam de amor e dor em
seu estado bruto:
“I know I
dreamed you a sin and a lie
I have my freedom but I don’t have much time
Faith has been broken, tears must be cried
Let’s do some living after we die”
(Wild Horses)
“The sound of
strangers sending nothing to my mind
Just another mad mad day on the road
I am just living to be lying by your side
But I’m just about a moonlight mile on down the road”
(Moonlight Mile)
“Dead Flowers” é um country rock
vingativo e é um dos melhores números ao vivo dos Rolling Stones até os dias de
hoje. A letra, entoada sarcasticamente por Mick Jagger e presença constante nos
setlists da banda até hoje, deve ter
sido dedicado a Marianne Faithfull. “Sister Morphine” foi originalmente gravada
por Marianne em 1968 e teria sido supostamente mais uma parceria de Mick Jagger
e Keith Richards. No entanto, o relato de um junkie à beira da alucinação decorrente de uma suposta overdose não
seria mero fruto do talento indiscutível da interpretação da ex-namorada do
vocalista dos Stones. Anos depois, os créditos de composição passaram a apontar
Jagger, Richards e Faithfull como os autores de uma das canções mais pungentes
de todo o repertório stoniano:
“Take me down,
little Susie, take me down
I know you think you’re the queen of the underground
And you can send me dead flowers every morning
Send me dead flowers by the US Mail
Send me dead flowers to my wedding
And I won’t forget to put roses on your grave”
(Dead Flowers)
“Well it just
goes to show
Things are not what they seem
Please, Sister Morphine
Turn my nightmares into dreams
Oh, can’t you see I’m fading fast?
And that this shot may be my last”
(Sister Morphine)
Sticky Fingerspossui um dos
lados B mais importantes da carreira dos Rolling Stones: “Sway”, segunda faixa
do disco. O solo de guitarra de Mick Taylor e o arranjo de cordas de Paul
Buckmaster resulta em uma das gravações mais intensas de toda a história do
Rock, com direito a uma letra inspiradíssima. “I Got the Blues” é um dos
números mais emocionantes já gravados pela banda, com direito a um solo
belíssimo de Billy Preston e com apoio elegante dos metais de Bobby Keys e Jim
Price. A regravação de “You Gotta Move” (número de blues composto por Fred
McDowell e Gary Davis que já fazia parte do repertório da banda desde o final
da década anterior) destaca a sintonia existente entre Jagger e Richards:
“Did you ever
wake up to find
A day that broke up your mind
Destroyed your notion of circular time
It’s just that demon life has got you in its sway
It’s just that demos life has got you in its sway”
(Sway)
“As I stand by
your flame
I get burned once again
Feelin’ low down, I’m blue
As I sit by the fire
Of your warm desire
I’ve got the blues for you, yeah”
(I Got the Blues)
“You may be
high
You may be low
You may be rich, child
You may be poor
But when the Lord gets ready
You gotta move”
(You Gotta Move)
Os números mais rápidos do disco foram
justamente os mais populares de Sticky Fingers. “Can’t You Hear Me Knocking”, jam session de pouco mais de sete
minutos e uma das canções preferidas do lendário diretor Martin Scorsese (um
dos momentos mais eletrizantes de Casino
se dá com os golpes certeiros de NIcky Santoro, personagem de Joe Pesci, nos
elementos mais suspeitos de Las Vegas), é o momento mais estridente do disco.
Os vocais lancinantes de Jagger, os riffs
arrasadores de Keith, as congas furiosas de Dijon e os solos melodiosos e
hipnóticos de Taylor e Bobby Keys foram os elementos que fizeram desta gravação
um verdadeiro clássico.
“Bitch”, por sua vez, é mais uma
grande canção sobre os desencantos amorosos com direito aos metais incendiários
de Keys e Jim Price. E o que podemos dizer de “Brown Sugar” além do fato dela
ser uma das canções mais perfeitas sobre sexo, drogas e Rock ‘n’ Roll já feitas em toda a história da música?
“Can’t you
hear me knockin’, ahh, are you safe asleep?
Can’t you hear me knockin’, yeah, down the gas light street, now
Can’t you hear me knockin’, yeah, throw me down the keys
Alright now
Hear me
ringing big bell tolls
Hear me singing soft and low
I’ve been begging on my knees
I’ve been kickin’, help me please
Hear me prowlin’
I’m gonna take you down
Hear me growlin’
Yeah, I’ve got flat-ten feet now, now, now, now
Hear me howlin’
And all, all around your street now
Hear me knockin’
And all, all around your town”
(Can’t You Hear Me Knocking)
“Sometimes I’m
sexy, move like a stud
Kicking the stall all night
Sometimes I’m so shy, got to be worked on
Don’t have no bark or bite, alright
Yeah when you
call my name
I salivate like a Pavlov dog
Yeah when you lay me out
My heart is bumpin’ louder than a big bass drum, alright”
(Bitch)
“Drums
beating, cold English blood runs hot
Lady of the house wonderin’ where it’s gonna stop
House boy knows that he’s doing alright
You shoulda heard him just around midnight
Brown sugar
How come you taste so good, now?
Brown sugar
Just like a young girl should, now”
(Brown Sugar)
Sticky Fingersrecebeu
críticas moderadas e gerou opiniões diversas dos jornalistas musicais da época.
Com o passar dos anos, todos foram unânimes ao perceberem que estamos diante de
um dos discos mais coesos e coerentes de toda a história dos Rolling Stones. No
entanto, o álbum alcançou os primeiros lugares das paradas de sucesso no Reino
Unido e nos Estados Unidos em maio de 1971 e se mantém como um dos mais
vendidos por eles até hoje. A banda lançou um de seus maiores sucessos pouco
tempo depois de ter feito uma apresentação lendária no Marquee Club de Londres
no decorrer de uma turnê de despedida do Reino Unido – os músicos ingleses
decidiram deixar a terra de Elizabeth II alegando não ter condições de pagar os
impostos exorbitantes que a Coroa Inglesa cobrava.
Obrigados a deixar o país, Jagger,
Richards, Taylor, Wyman e Watts seguiram rumo à França para poder reerguer não
só as finanças, mas o que sobrou da identidade do grupo. A lendária mansão de
Villa Nellcôte seria o QG dos Stones até o final de 1972, com direito a todas
as loucuras que estivessem ao alcance deles. Em outras palavras, nenhum dos
integrantes do grupo teve a oportunidade de vivenciar o sucesso de sua
obra-prima até então devido ao fato de terem seguido em um exílio voluntário.
Em 2015, os Stones nos legaram várias
versões deluxe de Sticky Fingers, com direito a uma versão
remasterizada deste clássico, além de outtakes e trechos de duas apresentações
feitas entre 13 e 14 de março de 1971 em Londres e em Leeds. Dentre os números
que ficaram de fora do disco original, está uma versão de “Brown Sugar” datada
de 1970 com a participação de Eric Clapton na slide guitar, uma versão
estendida de “Bitch” e uma versão eletroacústica de “Dead Flowers” (muitíssimo
parecida com a versão que a banda apresenta em suas apresentações até os dias
de hoje). A reedição deste álbum não só afirma a perenidade e a importância
desta obra fundamental, como também mantém os Rolling Stones como uma das
bandas mais importantes de Rock
clássico que já surgiu em todos os tempos.
Por isso e muito mais que
não está escrito aqui, deixe-se levar pelos dedos grudentos e musicais dos
Rolling Stones, afaste o seu sofá e aproveite este momento para cantar e dançar
com toda a fúria e o amor que só eles conseguiram expressar nos sulcos de um
vinil. Este clássico se renova cada vez mais na medida em que você vibrar ao
som de cada nota estridente tocada pelas rolantes do Rock. Divirta-se!