O sétimo álbum de estúdio de Reginald Kenneth
Dwight foi a peça fundamental para que Elton John (nome artístico de Reg)
entrasse de vez para a história da música do planeta. Goodbye Yellow Brick Roadé uma obra-prima, não só por demonstrar que
Elton estava no auge da forma como músico e cantor (o mesmo pode-se dizer de
seus companheiros de banda), como também pelas letras inspiradíssimas de seu
parceiro, Bernie Taupin. Um detalhe interessante: Taupin escreveu as 21 letras
do disco – que chegou a receber os títulos provisórios de Vodka and Tonicse Silent Movies, Talking Pictures – em
menos de TRÊS SEMANAS, repetindo: em menos de TRÊS SEMANAS! Boa parte
das canções foi finalizada por Sir Elton em, aproximadamente, TRÊS DIAS! Nada
mal para um dos álbuns duplos mais vendidos da história da música...
Elton John já era famoso pelos surtos e exigências que fariam qualquer diva ruborizar de vergonha
naquela época. Quis gravar seu disco na Jamaica apenas pelo simples fato de que
os Rolling Stones tinham gravado Goats Head Soup na terra de
Bob Marley. Quando as dificuldades começaram a surgir em janeiro de 1973, no
início das gravações do disco, Elton e a trupe se mudaram de mala e cuia para o
belo Château d'Hérouville, na França, onde os álbuns Honky Château e Don't Shoot Me I'm Only the Piano Playerforam gravados no ano anterior. Das terras jamaicanas,
ficou apenas a ideia da canção “Jamaica Jerk-Off”, sétima faixa de Goodbye Yellow Brick Road. Assim que os
trabalhos se reiniciaram no Château, as sessões de gravação duraram
apenas DUAS SEMANAS! Só Frank Sinatra teria feito mais rápido do que
isso...
Elton & Bernie
As letras de Bernie Taupin se
utilizavam de imagens cinematográficas – a mais famosa delas, a estrada de
tijolos amarelos, vem do clássico The
Wizard of Oz (1939) – para tratar do conflito que assombrava a ele e a
Elton na época: a fama, esta permanente roda da fortuna com a qual nenhum dos
dois sabia lidar. Marilyn Monroe, por exemplo, foi incrivelmente eternizada na
belíssima “Candle in the Wind”. “I’ve Seen That Movie Too” retrata uma relação
amorosa conflituosa a partir dos bons e velhos clichês cinematográficos. “Goodbye
Yellow Brick Road”, a faixa-título, fala sobre os conflitos internos de ser uma
celebridade em um universo frívolo e sufocante. Além disso, a capacidade
incrível de Bernie em criar personagens deu a esta coleção de 18 canções um
aspecto literário raramente visto na história da música popular em língua
inglesa: a trágica Alice, uma jovem lésbica de destino trágico, a lendária
Bennie vestindo suas “electric boots” e um “mohair suit” à frente de um grupo
de um rock extraordinário, um pub inglês que ferve com as típicas brigas
causadas pelo excesso de álcool nos embalos de sábados à noite, a profissional
do amor encantadora de jovens mancebos em “Sweet Painted Lady" e um cowboy
fictício de vida tão breve quanto James Dean cuja saga foi narrada em “The
Ballad of Danny Bailey (1909-34)”. Eis uma galeria fascinante de tipos humanos
eternizados em versos e sons.
Acima de tudo, Goodbye Yellow Brick Road é um álbum melancólico. Não possui tintas
dramáticas das primas-donnas, mas é nostálgico. A abertura do disco, o
espetacular medley “Funeral for a Friend / Love Lies Bleeding”, de 11
minutos, é até hoje um dos melhores números musicais já vistos em cima de um
palco. Elton mistura Liberace com Rock ‘n’ Roll, glam com Little
Richard com técnica, lirismo e emoção. No entanto, ele não conseguiu esta
proeza sozinho: Gus Dudgeon (que produziu vários de seus trabalhos) foi o
segundo capitão desta nau pelo caminho de tijolos amarelos. Davey Johnstone,
Dee Murray e Nigel Olsson foram muito mais do que o trio composto por
guitarra-baixo-bateria: fizeram backing vocals e nos ofertaram o melhor de sua
forma para que este disco se tornasse um clássico. Dentre os músicos
convidados, está Kiki Dee (que fez muito sucesso ao lado do mesmo Elton em 1976
com “Don’t Go Breaking My Heart”) e o maestro Del Newman, que escreveu e
conduziu arranjos de orquestra extraordinários para canções como “Harmony”, “The
Ballad of Danny Bailey”, “Roy Rodgers” e “I’ve Seen That Movie Too”.
Dee Murray, Nigel Olsson, Davey Johnstone, Elton John
Goodbye Yellow Brick Roadvendeu cerca de 31 milhões de cópias no
mundo inteiro. Isto se deve não apenas aos clássicos do disco – “Candle in
the Wind”, “Bennie & The Jets”, “Saturday Night’s Alright for Fighting” e a
faixa-título não podem faltar em nenhum show de Elton John! –, mas também aos
lados B que compõem o disco: “Sweet Painted Lady”, “Harmony” (que chegou a ser
o ultimo single do álbum, mas foi ofuscada pelo lançamento de Caribou,
o oitavo álbum do artista), “I’ve Seen That Movie Too”, “Roy Rogers”, “All the
Girls Love Alice”, “Your Sister Can't Twist (But She Can Rock 'n Roll)” e “ The
Ballad of Danny Bailey (1909–34)”. Não é à toa que este disco é
considerado como o preferido de muitos fãs de Elton...
From uptight,
short-sighted, narrow-minded hypocritics
All I want is
the truth
Just gimme
some truth
I’ve had
enough of reading things
By neurotic,
psychotic, pig-headed politicians
All I want is
the truth
Just gimme
some truth
No
short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna
mother hubbard soft soap me
With just a
pocketful of hope
Money for dope
Money for rope
No short-haired,
yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna
mother hubbard soft soap me
With just a
pocketful of soap
Money for dope
Money for rope
I'm sick to
death of seeing things
From
tight-lipped, condescending, mamas little chauvinists
All I want is
the truth
Just gimme
some truth now
I've had
enough of watching scenes
Of
schizophrenic, ego-centric, paranoiac, prima-donnas
All I want is
the truth now
Just gimme
some truth
No
short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna
mother hubbard soft soap me
With just a
pocketful of soap
Its money for
dope
Money for rope
Ah, I'm sick
and tired of hearing things
From uptight,
short-sighted, narrow-minded hypocrites
All I want is
the truth now
Just gimme
some truth now
Ive had enough
of reading things
By neurotic,
psychotic, pig-headed politicians
All I want is
the truth now
Just gimme
some truth now
All I want is
the truth now
Just gimme
some truth now
All I want is
the truth
Just gimme
some truth
All I want is
the truth
Just gimme
some truth"
(John Lennon, 1971)
Uma das canções mais fortes do
repertório de John Lennon está eternizada em seu segundo álbum após a
dissolução dos Beatles: "Gimme Some Truth", primeira faixa do lado B
de Imagine
(1971), denuncia um sentimento de cansaço de hipócritas, de prima-donnas
inúteis, de políticos porcos, limitados
e de pouca visão. Lennon escrevia sobre as pessoas que faziam o mundo do início
dos anos 1970. Ao reouvir a canção na segunda metade dos anos 2010, já em pleno
século XXI, tenho a impressão de que pouco mudou no Brasil e no mundo de lá
para cá.
O conceito de verdade, segundo o
dicionário Houaiss, nos diz: "propriedade detestar conforme os fatos ou a
realidade; exatidão, autenticidade, veracidade". O grande problema das
pessoas hoje é que elas assumiram para si os conceitos mais particulares do que
é verdadeiro, sem levar em conta a consistência dos fatos e as consequências
deles. A partir deste fator, devemos pensar em alguns aspectos.
Diante deste caos, a quantidade de
notícias falsas que se espalham pelo espaço público é simplesmente absurda. O
que leva isto a acontecer com tanta frequência em pleno século XXI, momento no
qual a informação se propaga com uma rapidez escandalosa? A preguiça das
pessoas em verificar a consistência das informações é um fato determinante - muitos
não leem ou analisam o que compartilham nas redes sociais e a barbárie se faz
através dos botões like e share.
A expressão que mais tem sido utilizada
no presente momento é o de “pós-verdade”. Apesar de algumas explicações bem
fundamentadas, não consegui mudar minha opinião acerca desta “nova” ideia: para
mim, é nada mais, nada menos do que a
verdade que bem lhe convém. Tendo em vista que as redes sociais e a grande
mídia têm dado voz a lúcidos e aos idiotas de plantão, torna-se ainda mais
difícil para mim encontrar outra interpretação. Cada um possui suas verdades
pessoais, as suas pós-verdades e muitos querem impor suas concepções como se
fossem fatos verdadeiros absolutos.
Depois de 2013 e do golpe de estado
parlamentar que atingiu a democracia brasileira três anos depois, as falácias
conservadoras tem encontrado eco em muitas pessoas que se diziam apolíticas ou
desinteressadas em política. De uma hora para outra, a sensação que eu tenho é
de que todo mundo se politizou de uma tal maneira a ponto de provocar uma
polarização nos debates e discussões que extrapolam os limites de respeito e da
sensatez. Os direitos à liberdade de grupos minoritários são ignorados em prol
do sucesso de instituições financeiras e de meia dúzia de famílias
endinheiradas que controlam o país na base da rédea curta.
As pessoas que não possuem o hábito de
estudo, de leitura e não são versadas em uma tradição humanitária e reflexiva,
adotam o discurso da elite como se fosse o seu e dão projeção a vozes
ultraconservadoras que alegam serem a opção para a corrupção presente no Brasil
desde a sua fundação. Quando as manifestações públicas de 2013 culminaram nos
protestos que clamavam os brasileiros a tomarem as ruas de 2015 em diante,
esses desinformados pelo GAFE (o conglomerado formado pelos grupos Globo, Abril,
Folha e Estadão) se converteram na mesma espécie de massa de manobra que nos
levou para uma ditadura reacionária e sangrenta de mais de duas décadas.
Se quisermos evitar a máxima famosa de
Karl Marx de que a história se repete pela primeira vez como tragédia e a
segunda como farsa, devemos rasgar os estatutos hipócritas e buscar a natureza
humana das coisas, o respeito por todas as partes, exigir a verdade, acima de
tudo. É ela que nos liberta, é ela que nos fará cidadãos mais justos e honestos
em um país repleto de contradições. Assim, afastamos os hipócritas,
chauvinistas, egocêntricos, paranoicos e psicóticos de plantão...
Em um de seus maiores hits, “Sir Duke” (1976), Stevie Wonder já
definia que ‘a música é um universo com uma linguagem própria que todos nós
entendemos e que nos proporciona oportunidades iguais para que todos possam
cantar, dançar e bater palmas’. O primeiro álbum em que o ‘Mr. Maravilha’
conseguiu tamanha façanha foi com o álbum Talking Book, lançado em 1972.
O ‘livro falante’ de Stevie foi o primeiro álbum que levou uma
das revelações mais duradouras da Motown para o topo das paradas da Billboard e lhe garantiu nada mais, nada
menos do que TRÊS prêmios Grammy no início de 1974. Além disso,Talking Booké o segundo que compõe uma série de cinco álbuns da chamada
‘fase clássica’ da carreira de Wonder – o último álbum desta série é o
magistralSongs
in The Key of Life, de
1976.
1972 foi um ano e tanto para Stevie Wonder. Depois de lançar o
antecessor deste clássico, Music of my mind, Little Stevie
foi chamado para abrir os shows da turnê norte-americana dos Rolling Stones com
a turnê norte-americana de Exile on Main
Street, lançado naquele mesmo ano. O
jovem artista, naqueles idos, tinha um poder de fogo tão intenso no palco e no
disco que chegava a deixar Mick Jagger e seus companheiros de trupe em
polvorosa antes de subir aos palcos dos EUA. Ao final da vitoriosa turnê com os
Stones,Talking Bookvinha a público com várias canções que integravam os
shows daquelas apresentações memoráveis.
Neste disco, Stevie finalmente conseguiu a liberdade artística
que tanto almejara em pouco mais de 10 anos de carreira. A sonoridade deste
trabalho está pautada nos teclados (sintetizadores Arp e Moog, Fender Rhodes,
Hohner Clavinet e outras parafernálias elétricas) do ‘Mr. Maravilha’ – uma
novidade em seus trabalhos até então – e tem como resultado canções memoráveis
como as baladas “You and I”, “Blame it on The Sun” e “I Believe (When I Fall in
Love it will be Forever)”, os funks “Maybe Your Baby” e “Tuesday Heartbreak” e
as obras-primas “You Are The Sunshine of My Life” e “Superstition”. E, dentre
os músicos convidados havia uma lista bastante curiosa para os mais puristas:
Jeff Beck e Ray Parker, Jr. nas guitarras e o sax de David Sanborn.
Por outro lado, Wonder escrevia e/ou cantava letras bem
contundentes para aquele período – o artista pensou seriamente em largar a
carreira como uma espécie de protesto aos abusos da política norte-americana em
meados da década de 1970. Em “Blame it on the sun” perguntava, por exemplo,
‘Quem tinha derramado o amor? / Quem tornou esta dúvida amarga? / A paz não
está aqui para que eu a veja?’ – uma alusão direta aos EUA que ainda viviam em
tempos de guerra com o Vietnã; Já “Big Brother” atualizava o sistema tão bem
descrito por George Orwell em 1984
para aqueles dias sombrios de 1972 ao retratar um ‘Grande Irmão’ cansado de ver
um joão-ninguém, saído das ruas do gueto, protestando na TV enquanto crianças
morriam todos os dias a olhos vistos em meio a líderes mortos. Sim, em meio a
versos de amor e a grooves
irrepreensíveis, Little Stevie ainda encontrava espaço para protestar contra o
mundo de 1972.
A partir deste disco, Stevie Wonder passou a ser definitivamente
apreciado por públicos de todas as cores, tendências e faixas etárias. Isto se
deve não apenas ao fato de 1972 ter sido um ano altamente inspirador para um
dos maiores artistas já revelados pela Motown, como também para a música do
planeta. O ‘livro falante’ de ‘Mr. Maravilha’ é um esforço do amor que Stevie
sempre nutriu pela música e pelo universo. A nota escrita por ele para o disco
dizia: ‘Aqui está minha música. É tudo o que eu tenho a dizer a respeito de
como eu me sinto. Saibam que é o amor de vocês que mantém meu amor forte.’
São estas e outras palavras que fazem deTalking Bookum clássico da música mundial! Ouça o livro, leia o disco!
Garanto que os seus olhos e ouvidos não sairão ilesos desta experiência!
“Day to day, the shifting wind just blows us on our
way,
Here and there, our pockets full of things to say,
Oh my love, I proudly represent you in this world,
Little satellite, brightest star tonight, oh my love”
(Elton John & Bernie Taupin, 1997)
A grande atração da casa em 1991 era o novo aparelho de som 3
em 1 (rádio AM | FM) acoplado de leitor de CD, vitrola e tocador de fitas cassete)
que meu pai tinha comprado para o nosso modesto apartamento da Ilha do
Governador, Rio de Janeiro. Vivíamos alguns bons momentos de ascensão social em
meio aos horrores praticados pelo governo Collor, que manteve o Brasil em um
buraco político-econômico que não parecia ter fim. O Sr. Orlando, conhecido por
mim como Papai, fora trabalhar em Santos por uns tempos para garantir o
sustento da casa e o conforto de uma família classe média baixa e sempre trazia
CDs, LPs e cassetes à mão cheia para que a música sempre nos acompanhasse nas
viagens para a Baixada Santista ou em casa. O grande sucesso da época era a
regravação de George Michael com “Don’t Let the Sun Go Down On Me”, ao lado do
cantor que lançou aquela canção.
Naquela época ainda se consumia trilhas sonoras de novelas da
Globo em alta escala, pois aqueles álbuns reuniam o que havia de mais popular e
bacana no dial do rádio daquele
momento. Quando a trilha sonora internacional de Lua Cheia de Amor (novela das sete da noite com Marília Pêra
encabeçando o elenco) chegou lá em casa, fomos ouvir o vinil com a curiosidade
e excitação que dedicávamos às grandes novidades. Um som de piano e uma voz
masculina tomavam o ambiente em questão de segundos: era a magia de Elton John
se revelando para mim quando eu tinha um pouco mais de 10 anos de idade.
A partir daquele momento, minha vida de ouvinte não faria o
menor sentido sem ouvir as canções daquele mago das teclas brancas e pretas. As
letras belíssimas de Bernie Taupin somadas às músicas de acordes complexos de
Elton me fizeram viajar por lugares distantes do senso comum que se ouvia na
década de 1990, para minha total salvação. As opções para um adolescente no meu
tempo não me pareciam nem um pouco atraentes, por isso o meu apreço pela obra
de Elton John é tão grande.
Made in England (1995)
Comecei a acompanhar os passos musicais de Sir Elton mais de
perto a partir de 1995, quando ele lançou um de seus discos mais bacanas de sua
discografia, Made in England, que foi bastante elogiado pelo público e pela
crítica. Senti a emoção da perda trágica de Lady Di enquanto ele cantava os
versos da segunda (e emocionante) versão de "Candle in The Wind", que
Bernie reescreveu especialmente para o funeral da figura mais popular da
realeza britânica nos últimos anos. Ouvi The Big Picture (1997) durante o verão de 1997-98 com o mesmo amor e prazer
que eu dediquei aos títulos mais amados da minha coleção de discos.
The Big Picture (1997)
Anos depois, já nos meus últimos anos da Faculdade de Letras
e já saído da casa dos meus pais pela primeira vez, descobri o álbum mais
importante da discografia de Elton John: o maravilhoso Goodbye
Yellow Brick Road, uma das maiores obras-primas da
história da música. O disco não se tornou apenas
minha discografia básica, como passou a me acompanhar para onde quer que eu
fosse. Durante uma estadia minha em Curitiba, na qual eu tive de me apresentar
em um congresso internacional de Literatura Comparada, passei horas e horas
escrevendo sobre Virginia Woolf ao som de um dos lados B mais bonitos daquele
álbum, “I’ve Seen That Movie Too”.
Goodbye Yellow Brick Road (1973)
No entanto, a força dos discos de Elton John não se compara a
energia de ver o mago das teclas pretas e brancas ao vivo em concerto. Consegui
ir a um show de Elton uma única vez, em 17 de janeiro de 2009, em um Anhembi escuro,
chuvoso e impróprio para shows de grande porte. Apesar das péssimas condições
para o show, Sir Elton fez um show emocionante e com mais de duas horas de
duração, com direito a várias canções de Goodbye Yellow
Brick Road. Apesar do cansaço,
do estresse, dos dois táxis e da chuva, valeu a pena ter testemunhado o mago
das teclas pretas e brancas ao vivo, afinal poderei constar estas memórias
corriqueiras para os meus sobrinhos e para os filhos que um dia eu possa vir a
ter.
Em relação a filhos, o astro possui dois. Casado com David
Furnish, com quem vive junto desde meados da década de 1990, Elton John é um
ferrenho defensor da comunidade LGBT e do combate à AIDS, mais um motivo para
minha admiração por ele. Apesar dele ser dono de uma personalidade difícil, um
tanto intragável com seus colegas de profissão (Madonna e Keith Richards já
foram vítimas da língua ferina de Sir Elton), sempre verei o mago das teclas
pretas e brancas como o senhorzinho bonachão de figurinos extravagantes. E ele
chega aos 70 anos de idade com um gás sem fim: gravando discos novos, saindo em
turnês, fazendo apresentações ao vivo e levando milhares de pessoas de gerações
distintas a estádios.
Salve, Sir Elton! Que o senhor possa ser o grande mago das
teclas pretas e brancas por muito tempo...
Os anos 2000 não foram lá muito significativos para
a carreira musical de Gal Costa. Seus álbuns da primeira metade da
década, Gal de Tantos Amores (2001), Bossa Tropical (2002) e Todas As Coisas e Eu (2003) não lembram nem um
pouco a cantora e intérprete inquieta, provocante e inspirada de álbuns
antológicos como Gal (1969), Índia (1973), Cantar (1974), Gal Canta Caymmi (1976), Aquarela do Brasil (1980), Profana (1984) e Plural (1990).
As declarações feitas por Gracinha no início da década de 2000, nas quais
reclamava abertamente que a MPB carecia de jovens compositores não apenas
enfureceu o público, como também trouxe um consequente ostracismo para a eterna
porta-estandarte do movimento tropicalista.
No afã de recuperar o diálogo com a produção
musical brasileira do século XXI, Gal Costa se associou a João Marcello Bôscoli
e sua gravadora Trama e gravou Hoje (2005), um
dos trabalhos mais belos de sua discografia. O CD contou com os arranjos e a
produção musical de César Camargo Mariano (segundo marido e ex-diretor musical
dos discos de Elis Regina no decorrer da década de 1970 e início dos 1980) e
agrupou canções de compositores menos conhecidos Carlos Rennó, Junio Barreto,
Péri, Lokua Kanza e inéditas de medalhões da MPB como Caetano Veloso, Chico
Buarque e José Miguel Wisnik. No entanto, a direção musical de César e o timbre
forte de Gal nos dão a sensação de que algumas faixas soam como o créme de la créme da Pimentinha ou de
algumas criações das lendárias boates do Beco das Garrafas. Em outras palavras, Hoje, apesar de reunir o melhor da juventude musical
dos anos 2000, soa irremediavelmente retrô – ou vintage, como diríamos nos dias
de hoje.
A primeira década do terceiro milênio ainda nos
levou mais dois discos ao vivo de Gal Costa: o insípido Gal Ao Vivo (2006), um registro em CD e DVD da turnê Hoje, além do burocrático Gal Costa Live At The Blue Note (2006), álbum no
qual ela reinterpreta os clássicos da Bossa Nova para Inglês ver. Depois do
lançamento destes trabalhos, pouquíssimo se ouviu da cantora mais moderna de
todo o Brasil durante a segunda metade dos 2000. Alguns diziam que Gracinha
tinha desistido de cantar e queria apenas se dedicar à família, outros diziam
que era apenas um breve intervalo. O fato é que ficamos sem ouvir Gal lançar
álbuns de canções inéditas por mais de cinco anos – uma eternidade para uma
artista que sempre produziu com alta frequência.
E quando ainda havia boatos de que Gracinha ainda
estava na pior, ela ressurgiu para os olhos de todo o Brasil com um CD que
literalmente sacudiu o meio musical no final de 2011. Recanto contou com 11 canções de seu parceiro
musical mais recorrente, Caetano Veloso, e fez com que Gal refizesse as pazes
com o público e fosse definitivamente louvada pela crítica especializada.
Enganaram-se os tolos que achavam que este disco seria mais um disco de MPB easy-listening, com arranjos que
remetiam aos discos clássicos que ambos faziam para a Philips nos anos 1970 ou
com a musa tropicalista à frente da Banda Cê (power trio que acompanha Caê em
shows e discos desde 2006) cantando temas alegres e fáceis de batucar. Recanto era uma viagem ousada de Caetano e Gal
conduzida por Moreno Veloso, Kassin e cia. e por sonoridades eletrônicas, de
cunho extremamente radical, com letras bastante fortes para serem ditas por aí.
A partir de 2011, Gal Costa passou a desfrutar de
um privilégio que pouquíssimos artistas de sua geração conseguiram vivenciar:
sua música não apenas rejuvenesceu, como também seu público se renovou. A
quantidade de jovens que se somavam aos fãs mais antigos de Gracinha nos shows
aumentou em escalas assustadoramente exponenciais. Gal passou a ser uma cantora
da maior importância para, nada mais, nada menos do que CINCO gerações. Depois
de alguns de ostracismo, a coisa mais linda que existia era simplesmente,
brincando com a bela canção de Torquato e Gil, tê-la perto de nós no disco e,
melhor de tudo, no palco. Recanto Ao Vivo (2013)
é o testemunho audiovisual da paixão e glória de uma das cantoras mais
influentes de todo o Brasil, evidenciando uma artista com uma forma vocal
simplesmente invejável e com um repertório irrepreensível.
Com o fim da turnê de Recanto, Gal Costa começou a arquitetar as bases do
repertório para um novo show. Seguindo às orientações do jornalista Marcus
Preto em relação à direção artística e de repertório, Gal reuniu alguns lados B
de seus discos (“Caras e Bocas”, “Tuareg”, “Passarinho”) e algumas inéditas
para o recital Espelho D’Água, no qual era
acompanhada somente por Guilherme Monteiro na guitarra e no violão. As apresentações,
que ocorreram entre meados de 2014 e o início de 2015, foram não apenas uma
oportunidade para que público e artista revisitassem um legado de décadas, como
também serviu para que Gal e Preto arquitetassem o CD Estratosféricaao lado da produção de Kassin e
Moreno Veloso.
Gal
Costa queria que seu mais recente CD tivesse a mesma sonoridade juvenil de seu
antecessor, porém menos radical do que a experiência musical de Recanto. A
banda-base que foi reunida para as gravações consiste de Guilherme Monteiro
(Guitarra), Kassin (Baixo), Pupillo (Bateria) e André Lima (Órgão e Teclados) e
ainda contou com a participação especial em algumas faixas de Davi Moraes
(Guitarra), Moreno Veloso (Cello, Piano, Violão, Coro, etc.), João Donato
(Fender Rhodes), Armando Marçal (Percussão), Donatinho (Teclados) e o
recém-falecido Lincoln Olivetti (Arranjo de Metais). O grande trunfo de
Estratosférica não apenas consegue realizar as intenções previstas por seu time
criador, como também consegue estabelecer um diálogo com todas as fases da
carreira de Gal: “Sem Medo Nem Esperança”, rock de Antonio Cícero e Artur
Nogueira que abre o disco, lembra “Vaca Profana”, “Quando Você Olha Pra Ela”,
de Mallu Magalhães, nos remete a “Que Pena” (Ela já não gosta mais de mim) e a
outros sambas do bom e velho Jorge Ben (quando este ainda não incluído o sufixo
-Jor ao seu nome artístico), “Ecstasy”, parceria de Thalma de Freitas e João
Donato, parece surgida de Cantar e “Você Me Deu”, parceria de Zeca e Caetano
Veloso, dialoga com o universo pop-eletrônico de Recanto.
Ao
contrário de alguns de seus colegas de MPB que chegaram à faixa dos 70 anos de
idade e dos 50 anos de carreira – a artista em questão atingiu os dois marcos
em setembro de 2015! -, Gal Costa decidiu embarcar em uma nave estratosférica com
15 canções inéditas (além de uma faixa bônus), sem olhar para glórias do
passado ou homenagens revisionistas. Já na primeira faixa de seu novo CD, Gracinha lança mão de um tom tão ousado quanto na época em que berrava a plenos pulmões
que o Brasil precisava estar atento e forte: “Não sou mais tola / Não mais me
queixo / Não tenho medo / Nem esperança / Nada do que fiz / Por mais feliz /
Está à altura do que há por fazer”. Em outras palavras, Gal Costa chega aos 70
anos dizendo claramente que o essencial é olhar para frente, pois ela ainda
sabe que ainda há muito o que ser feito. Permite-se levar pela batida soul de
“Jabitacá”, que parece saída de um dos discos da série Racional, de Tim Maia:
“Mas não me deixe navegar / Se já não crê no encanto deste mar / Se nossas
manhãs se perderam nas ruas sem jardins / Enfeitou a nossa casa / Com a rosa da
mais bela cor / Encontrada nas montanhas do Jabitacá”. Além disso, não tem o
menor pudor de entoar as libidinosas palavras do velho amigo Tom Zé, que
escreveu uma das melhores faixas do disco, “Por Baixo”: “Por baixo do vestido:
a timidez / Baixo da timidez: a seda fina / Baixo dela: uma nuvem de calor /
Baixo desse calor: um perfume da China”.
Estratosférica
traz algumas parcerias inéditas. “Dez Anjos” marca a primeira parceria entre
Milton Nascimento e o incensado rapper pop-star Criolo e traz a voz de Gal
Costa entoando um lamento urbano pontuado pela bateria de Pupillo e pelo cello
de Moreno Veloso: “Seis almas pra tentar / Sete almas dizem não / Oito almas
pra sofrer / Nove almas narrarão / Que dez anjos vão morrer / Todos sem arma na
mão”. Já a filosófica “Espelho D’Água” é o fruto do primeiro encontro musical
entre os irmãos Marcelo e Thiago Camelo: “Eu vi a revoada / O mar, estrela e o
nada / Os olhos da morena / E o nosso espelho d’água”. Já a sensual “Ecstasy”
surgiu de uma colaboração entre a cantora e atriz Thalma de Freitas com João
Donato, que tocou o piano Fender Rhodes na faixa: “Diga que deseja ter pra si /
A maravilha de um pleno existir / Um amor assim / Para chamar de Ecstasy /
Adorado amor, tão elegante / Multicolor, fascinante / Viver com você / É
alcançar o Ecstasy”. Além disto, Gal gravou pela primeira vez uma canção escrita
por Marisa Monte – “Amor Se Acalme” foi uma canção escrita especialmente para a
eterna musa do Tropicalismo e reproduz com exatidão o universo de amores e
paixões intensas tão comuns ao universo de Memórias, Crônicas e Declarações de
Amor: “Amor se acalme / Que a noite já vai dormir / A alma passeia / E o nosso
corpo fica aqui / Se isto é sonhar, não sei / Parece viver, só eu e você”.
Este
CD de Gal Costa mereceria nota 10 se não fosse por um único detalhe sórdido.
Não nos referimos ao repertório, que é irrepreensivelmente belo e moderno. Não
é pela capa com a foto de Bob Wolfenson, que conseguiu produzir mais uma imagem
fantástica e icônica de Gracinha. Não é pela produção e direção artística
impecáveis de Moreno Veloso, Kassin e Marcus Preto. É por causa das
faixas-bônus deste trabalho. Estratosférica ganhou três edições: uma em LP, uma
em CD e outra digital. Por uma estratégia de marketing errônea da Sony Music,
gravadora da artista, o LP não ganhou nenhuma faixa bônus, o CD ficou com
apenas uma (uma releitura belíssima de Gal para “Ilusão à Toa”, de Johnny Alf –
originalmente gravada para a trilha sonora da novela Babilônia, da Rede Globo)
e edição digital concentrou duas gravações que são praticamente inéditas do
grande público: “Átimo de Som”, parceria de Arnaldo Antunes e José Miguel
Wisnik e “Vou Buscar Você Pra Mim”, canção que Guilherme Arantes compôs
especialmente para a intérprete que, por sinal, nunca tinha gravado nada do
autor de “Meu Mundo e Nada Mais”.
Estratosférica
é o testemunho definitivo que a cantora mais moderna deste país responde pelo
nome artístico de Gal Costa. Muitas cantoras tentam imitar, outras tentam
copiar, algumas tentam posar de “moderninha”, mas o fato é que gravações como
“Muita Sorte”, “Casca” e “Anuviar” fazem com que se torne ainda mais difícil
chegar aos pés do Gracinha já fez e ainda irá fazer. Enquanto a concorrência e
os haters chegam de circular, Gal voa
por um céu de brigadeiro em sua nave estratosférica zumbindo eternamente por
nossos ouvidos...