13 de abril de 2017

DISCOS DE VINIL # 27

MADONNA – BEDTIME STORIES (1994)



“I’m a role model for those who dare to be different. For those who dare to take a stand in their life and have an opinion.”
(Madonna)


No ano de 1994, Madonna vivenciava uma das maiores encruzilhadas de sua carreira até então. A Pop Star precisava se reinventar urgentemente para que pudesse continuar no topo das paradas de sucesso e, principalmente, sobreviver aos ciclos velozes e (às vezes) furiosos da cena musical dos anos 1990. Like A Virgin já tinha completado uma década de explosão, enquanto o combo bombástico composto pelo álbum Erotica, o livro Sex, o filme Body of Evidence e a turnê The Girlie Show colocaram Madge no topo da lista das celebridades mais controversas e discutidas da mídia do planeta entre 1992 e 1994.


Em suma: Madonna era persona non-grata número 1 de acordo com muitas famílias tradicionais do mundo inteiro por não ter tido a menor vergonha em falar de sexo (em sua plenitude) de maneira extremamente despojada e depravada para o mundo. Seus fãs eram considerados admiradores de uma “vagabunda sem classe” e blá blá blá… Bedtime Stories foi o contra-ataque de Madge aos seus inquisidores de plantão. A começar pelas fotos do próprio CD, que revela uma Madonna mais sóbria, sensual e elegante em um belíssimo ensaio fotográfico de Patrick Demarchelier, renomado fotógrafo do universo da moda. As imagens não lembram em absolutamente nada a mesma Pop Star que estava de chicotes de couro em punho meses antes.


Tal qual seu grande muso inspirador, David Bowie, Madonna também decidiu realizar uma grande transformação em seu som: sai da cabine de som o habitual parceiro Shep Pettibone (que já produzira smash hits como “Vogue” e “Erotica”) e entram em cena um quarteto fantástico de produtores que estavam envolvidos com o Pop e o R&B da época. São eles: Nellee Hooper, Dallas Austin, Dave “Jam” Hall e Babyface. Por conta disto, a música de Madonna nunca soou tão negra quanto na época de Bedtime Stories. Samples de Stevie Wonder, Aaliyah, Herbie Hancock, dentre outros permeiam as batidas deste trabalho. As letras são mais confessionais e tratam de temas altamente presentes nas canções da Pop Star: amor, ausência, hipocrisia, hedonismo, obsessão…



“Inside of Me”, quinta canção do disco, versa sobre uma presença amorosa que existe apenas no retrato da cama e nas memórias da voz que está cantando. Seria esta pessoa um(a) amigo(a) querido(a), ou a própria mãe de Madonna – morta quando a Pop Star ainda era criança? A produção de Hooper e os vocais sussurrados de Madge resultam em uma faixa repleta de groove e sensualidade, espantando a melancolia e o romantismo óbvio para bem longe.






“Survival”, “Human Nature” e “Love Tried to Welcome Me”, por exemplo, revelam o ressentimento e a (eterna!) culpa cristã de Madonna em relação aos que colocaram sua cabeça a prêmio. Versos como “I’ll never be an angel / I’ll never be a saint, it’s true / I’m too busy in surviving / Whether it’s heaven or hell / I’m gonna be living to tell” (“Survival”); “You punished me for telling you my fantasies / I’m breaking all the rules I didn’t make” (“Human Nature”) ou “I know how to laugh, / but I don’t know happiness / And I must confess, instead of spring, it’s always winter / And my heart has always been a lonely hunter (…)” (“Love Tried to Welcome Me”) revelam toda a angústia que Madonna sentia e vivia naquele período – um álbum, um livro e uma turnê que revelaram uma atitude de independência e despudor para falar de tabus em uma era na qual os EUA e o resto do mundo estavam mais conservadores com a cartilha do neoliberalismo e a ascensão das mortes por AIDS, dentre outros problemas lhe renderam um preço altíssimo.







“I’d Rather Be Your Lover”, “Take a Bow” e “Forbidden Love”, produzidas por Dave Hall e Babyface tiveram participações especiais. A primeira delas, por exemplo, chegou a receber a contribuição do rapper Tupac Shakur (que, dizem certas línguas, teve um breve romance com Madonna): como Tupac fora preso na época da finalização de Bedtime Stories, a Warner Bros. Decidiu cortar os versos do artista e substituir o rap pelos improvisos da baixista e cantora Me’Shell N’dgé Ocello, rendendo um resultando tão provocante quanto o original, pois a letra passa a sugerir uma relação lésbica. “Take a Bow” e “Forbidden Love” tiveram a produção e os backing vocals de Babyface (nome verdadeiro de Kenny Edmonds) tiveram bastante popularidade no final da primeira metade dos anos 1990. Se formos pensar nas três das melhores baladas interpretadas por Madonna, “Take a Bow” obrigatoriamente deve constar entre elas.



No grupo das faixas de Bedtime Stories que apontam as transformações mais radicais do som de Madonna estão as faixas 9 e 10 do álbum. “Sanctuary” é marcada por uma batida trip hop hipnótica que flerta com a sonoridade dos álbuns do Massive Attack (grupo com o qual Madge trabalharia pouco depois). “Bedtime Story”, única faixa do disco que não fora composta pela Pop Star”, é uma parceria de Björk com Nellee Hooper e Marius de Vries: uma mistura intricada de sons eletrônicos com batidas de House, Ambient Music, New Age e Techno.


Devemos fazer uma menção à parte para o videoclipe de “Bedtime Story”: dirigido por Mark Romanek – que já trabalhara com a artista no premiadíssimo “Rain” –, o clipe é repleto de efeitos visuais de última geração lá pelos idos de 1994-1995 e inspirado em pinturas surrealistas e na obra de Frida Kahlo. A apresentação desta canção no Brit Awards na qual Madonna vestia um Versace e um longo aplique nos cabelos, é um dos melhores momentos jamais vistos na história de prêmios de música Pop em todos os tempos.




As duas faixas de Bedtime Stories que deixamos para o fim deste texto são “Don’t Stop” e “Secret”. A primeira faixa trata do tema mais recorrente nas canções de Madonna: o hedonismo que surge nas pistas de dança. Após a passagem de vibrações muito pesadas, Madge propõe um convite muito simples para o seu ouvinte – que ele deixe a música e o ritmo lhe levar para o esplendor do êxtase proporcionado pelo bom e velho groove. Já a segunda faixa, que foi o primeiro hit single de Bedtime Stories, é uma das faixas mais enigmáticas da discografia da Pop Star. Versos como “Happiness lies in your own hand / It took me much too long to understand / How it could be / Until you shared your secret with me” não trazem meras constatações por parte de uma das maiores artistas do século XX, pelo contrário, eles provocam ainda mais perguntas em torno da natureza do segredo que tinha sido compartilhado…


“Secret” era a pá de cal que Madonna lançava em relação ao som que estava desenvolvendo até o início da década de 1990. A voz que canta com um violão folk ao fundo para abrir espaço para uma batida R&B marcante. Pela primeira vez em sua carreira, o som e a imagem da loura que sacudiu o planeta com o discurso lascivo de “Like A Virgin” convergiram para um conjunto mais light, porém não menos denso e provocante.



Bedtime Stories não rendeu o primeiro lugar das paradas para Madonna. No entanto, o disco recebeu reviews bastante favoráveis da crítica especializada. Certamente, é um dos discos mais importantes da obra musical da Rainha do Pop e que, por sua deliciosa mistura de sons e imagens, merece sempre ser ouvido com intensidade e paixão...

11 de abril de 2017

TROVA # 118

SEM PARTIDO, COM MORDAÇA


“We don’t need no education
We don’t need no thought control
No dark sarcasm in the classroom (…)”
(Roger Waters, 1979)



Dentre todas as irregularidades que tem acontecido no país desde o golpe de 2016, as piores delas se concentram nos ataques incessantes contra as escolas brasileiras. O Ministério da Educação não apenas limitou o orçamento das Universidade, como também cortou programas universitários (saudades do Ciência sem Fronteiras, amiguinhos?) e realizou uma reforma do Ensino Médio completamente estapafúrdia e autoritária – alunos e professores não foram sequer convidados a debater o tema a fundo. Porém, nenhuma destas arbitrariedades chama mais a minha atenção do que as propostas do grupo Escola sem Partido.
Idealizado por um advogado de São Paulo, o ESP alega que o principal mal das escolas brasileiras reside no fato de que os alunos são doutrinados por docentes esquerdopatas que impõem suas concepções políticas, morais e religiosas em plena sala de aula – ignorando completamente o fato de que os professores ganham mal, de que a educação privada é orientada por lógicas desumanas de mercado e de que as escolas públicas estão cada vez mais sucateadas e sofrem com o descaso das autoridades. De acordo com os mentores, nós, professores, devemos ser combatidos pelo Estado e impedidos de expor nossas crenças e concepções em nosso ambiente de trabalho. O que me pergunto diante de tamanhas propostas é o seguinte: por que docentes engajados e escolas participativas incomodam tanto os conservadores e poderosos?


A escola, em linhas gerais, deixou de ser o espaço opressor e retrógado tal qual observamos no filme The Wall, do Pink Floyd. Os bancos escolares do passado eram repletos de alunos reprimidos por professores e gestores que tratavam os espaços estudantis tal qual se fossem prisões. Em pleno século XXI, os estudantes possuem a liberdade (muitas vezes abusam da mesma!) de agir como desejam; o mesmo deveria valer para aqueles que se dedicam ao ensino, principalmente após a redemocratização do Brasil. Por sermos cidadãos, somos políticos. Por sermos profissionais de educação, temos o compromisso de atuarmos criticamente, pois é através da disseminação do saber é que fazemos um país andar para a frente. Se há um interesse para que o conhecimento se perpetue, é preciso ser responsável e apresentar os dois lados da moeda para cada fato a ser discutido em sala de aula, por exemplo.
O ESP acusa os professores de serem “doutrinadores” por colocarmos em prática preceitos marxistas, no entanto, veem Mises como um guru e Paulo Freire como a personificação de Lúcifer ou apenas um petista ordinário. A partir desta lógica muito pessoal e peculiar, eles se sentem à vontade para cercear e intimidar o trabalho de operários do ensino, estes comunas vermelhos, comedores de criancinhas dispostos a almoçar os cérebros de nossos jovens a qualquer hora do dia. Minha experiência como profissional da rede privada de ensino esfregou na minha cara que a lógica mercadológica, amada pela direita sempre deu o tom da ideologia dos estabelecimentos – o aluno, isto é, o pagante é o cliente que sempre tem e terá razão – e nunca foi objeto de perseguição dos órgãos oficiais ou do ESP.
Duas escolas da Prefeitura de São Paulo receberam a visita de um vereador ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre) no início de abril de 2017. O intuito da “visitação” era o de fiscalizar as condições das instituições e verificar se os professores não estariam doutrinando os alunos daquelas unidades escolares. A repercussão pública foi escandalosa: as redes sociais e seus partidários e seus partidários de esquerda e de direita entraram em mais um debate baixo e violento; a grande imprensa e os vassalos do GAFE (Globo, Abril, folha e Estadão) viram nesta discussão acalorada uma oportunidade e tanto para atirarem mais lenha na fogueira; o Secretário Municipal de Educação – a autoridade mais competente e habilitada para nos orientar e fiscalizar) – decidiu pedir demissão, mas foi demovido da decisão pelo Prefeito de São Paulo, João Dória.
O fator mais revoltante da visita do vereador do MBL não foi a simples e notória patrulha ideológica ou a imposição da tática de mercado de fiscalizar os funcionários para verificar se a produção está de acordo ou não com a meta esperada. Atos como estes restringem a liberdade dos professores através da pura e simples intimidação, tal qual ocorria nos tempos da ditadura militar. Este é o pior retrocesso imposto pelo golpe de estado liderado por Michel Temer e o PMDB: reprimir profissionais de ensino, limitar a atuação crítica das escolas, sucatear a educação pública, atingir o povo com a retirada de um de seus direitos mais importantes.
Escolas são espaços de liberdade: a pluralidade de saberes precisa ser mantida, a diversidade precisa ser respeitada (daí a importância de se discutir questões de gênero com nossos alunos, por exemplo), a liberdade do professor em um ambiente de trabalho tão desgastado – salários baixos, assédio moral, burocratização e mercantilização do ensino – não pode ser patrulhada por fascistoides populistas. A lógica da mordaça para combater nossas crenças em pleno século XXI não nos cabe mais.

É por isto que acredito na importância da luta dos profissionais de Educação para que nosso trabalho não seja golpeado de maneira tão dura pelos defensores do ESP. Sem resistência, há retrocesso. Sem luta, há patrulhamento. Sem a crença em nós mesmos e no nosso poder de alcance, não há um Brasil melhor. 

6 de abril de 2017

DISCOS DE VINIL # 26

ELTON JOHN – GOODBYE YELLOW BRICK ROAD (1973)


O sétimo álbum de estúdio de Reginald Kenneth Dwight foi a peça fundamental para que Elton John (nome artístico de Reg) entrasse de vez para a história da música do planeta. Goodbye Yellow Brick Road é uma obra-prima, não só por demonstrar que Elton estava no auge da forma como músico e cantor (o mesmo pode-se dizer de seus companheiros de banda), como também pelas letras inspiradíssimas de seu parceiro, Bernie Taupin. Um detalhe interessante: Taupin escreveu as 21 letras do disco – que chegou a receber os títulos provisórios de Vodka and Tonics e Silent Movies, Talking Pictures – em menos de TRÊS SEMANAS, repetindo: em menos de TRÊS SEMANAS! Boa parte das canções foi finalizada por Sir Elton em, aproximadamente, TRÊS DIAS! Nada mal para um dos álbuns duplos mais vendidos da história da música...




Elton John já era famoso pelos surtos e exigências que fariam qualquer diva ruborizar de vergonha naquela época. Quis gravar seu disco na Jamaica apenas pelo simples fato de que os Rolling Stones tinham gravado Goats Head Soup na terra de Bob Marley. Quando as dificuldades começaram a surgir em janeiro de 1973, no início das gravações do disco, Elton e a trupe se mudaram de mala e cuia para o belo Château d'Hérouville, na França, onde os álbuns Honky Château e Don't Shoot Me I'm Only the Piano Player foram gravados no ano anterior. Das terras jamaicanas, ficou apenas a ideia da canção “Jamaica Jerk-Off”, sétima faixa de Goodbye Yellow Brick Road. Assim que os trabalhos se reiniciaram no Château, as sessões de gravação duraram apenas DUAS SEMANAS! Só Frank Sinatra teria feito mais rápido do que isso...


Elton & Bernie

As letras de Bernie Taupin se utilizavam de imagens cinematográficas – a mais famosa delas, a estrada de tijolos amarelos, vem do clássico The Wizard of Oz (1939) – para tratar do conflito que assombrava a ele e a Elton na época: a fama, esta permanente roda da fortuna com a qual nenhum dos dois sabia lidar. Marilyn Monroe, por exemplo, foi incrivelmente eternizada na belíssima “Candle in the Wind”. “I’ve Seen That Movie Too” retrata uma relação amorosa conflituosa a partir dos bons e velhos clichês cinematográficos. “Goodbye Yellow Brick Road”, a faixa-título, fala sobre os conflitos internos de ser uma celebridade em um universo frívolo e sufocante. Além disso, a capacidade incrível de Bernie em criar personagens deu a esta coleção de 18 canções um aspecto literário raramente visto na história da música popular em língua inglesa: a trágica Alice, uma jovem lésbica de destino trágico, a lendária Bennie vestindo suas “electric boots” e um “mohair suit” à frente de um grupo de um rock extraordinário, um pub inglês que ferve com as típicas brigas causadas pelo excesso de álcool nos embalos de sábados à noite, a profissional do amor encantadora de jovens mancebos em “Sweet Painted Lady" e um cowboy fictício de vida tão breve quanto James Dean cuja saga foi narrada em “The Ballad of Danny Bailey (1909-34)”. Eis uma galeria fascinante de tipos humanos eternizados em versos e sons.






Acima de tudo, Goodbye Yellow Brick Road é um álbum melancólico. Não possui tintas dramáticas das primas-donnas, mas é nostálgico. A abertura do disco, o espetacular medley “Funeral for a Friend / Love Lies Bleeding”, de 11 minutos, é até hoje um dos melhores números musicais já vistos em cima de um palco. Elton mistura Liberace com Rock ‘n’ Roll, glam com Little Richard com técnica, lirismo e emoção. No entanto, ele não conseguiu esta proeza sozinho: Gus Dudgeon (que produziu vários de seus trabalhos) foi o segundo capitão desta nau pelo caminho de tijolos amarelos. Davey Johnstone, Dee Murray e Nigel Olsson foram muito mais do que o trio composto por guitarra-baixo-bateria: fizeram backing vocals e nos ofertaram o melhor de sua forma para que este disco se tornasse um clássico. Dentre os músicos convidados, está Kiki Dee (que fez muito sucesso ao lado do mesmo Elton em 1976 com “Don’t Go Breaking My Heart”) e o maestro Del Newman, que escreveu e conduziu arranjos de orquestra extraordinários para canções como “Harmony”, “The Ballad of Danny Bailey”, “Roy Rodgers” e “I’ve Seen That Movie Too”.


Dee Murray, Nigel Olsson, Davey Johnstone, Elton John


            Goodbye Yellow Brick Road vendeu cerca de 31 milhões de cópias no mundo inteiro. Isto se deve não apenas aos clássicos do disco – “Candle in the Wind”, “Bennie & The Jets”, “Saturday Night’s Alright for Fighting” e a faixa-título não podem faltar em nenhum show de Elton John! –, mas também aos lados B que compõem o disco: “Sweet Painted Lady”, “Harmony” (que chegou a ser o ultimo single do álbum, mas foi ofuscada pelo lançamento de Caribou, o oitavo álbum do artista), “I’ve Seen That Movie Too”, “Roy Rogers”, “All the Girls Love Alice”, “Your Sister Can't Twist (But She Can Rock 'n Roll)” e “ The Ballad of Danny Bailey (1909–34)”. Não é à toa que este disco é considerado como o preferido de muitos fãs de Elton...



OUÇA O ÁLBUM NA ÍNTEGRA:

5 de abril de 2017

TROVA # 117

A VERDADE, ACIMA DE TUDO


"I'm sick and tired of hearing things
From uptight, short-sighted, narrow-minded hypocritics
All I want is the truth
Just gimme some truth

I’ve had enough of reading things
By neurotic, psychotic, pig-headed politicians
All I want is the truth
Just gimme some truth

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of hope
Money for dope
Money for rope

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of soap
Money for dope
Money for rope

I'm sick to death of seeing things
From tight-lipped, condescending, mamas little chauvinists
All I want is the truth
Just gimme some truth now

I've had enough of watching scenes
Of schizophrenic, ego-centric, paranoiac, prima-donnas
All I want is the truth now
Just gimme some truth

No short-haired, yellow-bellied, son of tricky dicky
Is gonna mother hubbard soft soap me
With just a pocketful of soap
Its money for dope
Money for rope

Ah, I'm sick and tired of hearing things
From uptight, short-sighted, narrow-minded hypocrites
All I want is the truth now
Just gimme some truth now

Ive had enough of reading things
By neurotic, psychotic, pig-headed politicians
All I want is the truth now
Just gimme some truth now

All I want is the truth now
Just gimme some truth now
All I want is the truth
Just gimme some truth
All I want is the truth
Just gimme some truth"
(John Lennon, 1971)


Uma das canções mais fortes do repertório de John Lennon está eternizada em seu segundo álbum após a dissolução dos Beatles: "Gimme Some Truth", primeira faixa do lado B de Imagine (1971), denuncia um sentimento de cansaço de hipócritas, de prima-donnas inúteis,  de políticos porcos, limitados e de pouca visão. Lennon escrevia sobre as pessoas que faziam o mundo do início dos anos 1970. Ao reouvir a canção na segunda metade dos anos 2010, já em pleno século XXI, tenho a impressão de que pouco mudou no Brasil e no mundo de lá para cá.
O conceito de verdade, segundo o dicionário Houaiss, nos diz: "propriedade detestar conforme os fatos ou a realidade; exatidão, autenticidade, veracidade". O grande problema das pessoas hoje é que elas assumiram para si os conceitos mais particulares do que é verdadeiro, sem levar em conta a consistência dos fatos e as consequências deles. A partir deste fator, devemos pensar em alguns aspectos.
Diante deste caos, a quantidade de notícias falsas que se espalham pelo espaço público é simplesmente absurda. O que leva isto a acontecer com tanta frequência em pleno século XXI, momento no qual a informação se propaga com uma rapidez escandalosa? A preguiça das pessoas em verificar a consistência das informações é um fato determinante - muitos não leem ou analisam o que compartilham nas redes sociais e a barbárie se faz através dos botões like e share.
A expressão que mais tem sido utilizada no presente momento é o de “pós-verdade”. Apesar de algumas explicações bem fundamentadas, não consegui mudar minha opinião acerca desta “nova” ideia: para mim, é nada mais, nada menos do que a verdade que bem lhe convém. Tendo em vista que as redes sociais e a grande mídia têm dado voz a lúcidos e aos idiotas de plantão, torna-se ainda mais difícil para mim encontrar outra interpretação. Cada um possui suas verdades pessoais, as suas pós-verdades e muitos querem impor suas concepções como se fossem fatos verdadeiros absolutos.
Depois de 2013 e do golpe de estado parlamentar que atingiu a democracia brasileira três anos depois, as falácias conservadoras tem encontrado eco em muitas pessoas que se diziam apolíticas ou desinteressadas em política. De uma hora para outra, a sensação que eu tenho é de que todo mundo se politizou de uma tal maneira a ponto de provocar uma polarização nos debates e discussões que extrapolam os limites de respeito e da sensatez. Os direitos à liberdade de grupos minoritários são ignorados em prol do sucesso de instituições financeiras e de meia dúzia de famílias endinheiradas que controlam o país na base da rédea curta.
As pessoas que não possuem o hábito de estudo, de leitura e não são versadas em uma tradição humanitária e reflexiva, adotam o discurso da elite como se fosse o seu e dão projeção a vozes ultraconservadoras que alegam serem a opção para a corrupção presente no Brasil desde a sua fundação. Quando as manifestações públicas de 2013 culminaram nos protestos que clamavam os brasileiros a tomarem as ruas de 2015 em diante, esses desinformados pelo GAFE (o conglomerado formado pelos grupos Globo, Abril, Folha e Estadão) se converteram na mesma espécie de massa de manobra que nos levou para uma ditadura reacionária e sangrenta de mais de duas décadas.

Se quisermos evitar a máxima famosa de Karl Marx de que a história se repete pela primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, devemos rasgar os estatutos hipócritas e buscar a natureza humana das coisas, o respeito por todas as partes, exigir a verdade, acima de tudo. É ela que nos liberta, é ela que nos fará cidadãos mais justos e honestos em um país repleto de contradições. Assim, afastamos os hipócritas, chauvinistas, egocêntricos, paranoicos e psicóticos de plantão...

1 de abril de 2017

DISCOS DE VINIL # 25

STEVIE WONDER – TALKING BOOK (1972)



 Em um de seus maiores hits, “Sir Duke” (1976), Stevie Wonder já definia que ‘a música é um universo com uma linguagem própria que todos nós entendemos e que nos proporciona oportunidades iguais para que todos possam cantar, dançar e bater palmas’. O primeiro álbum em que o ‘Mr. Maravilha’ conseguiu tamanha façanha foi com o álbum Talking Book, lançado em 1972.


O ‘livro falante’ de Stevie foi o primeiro álbum que levou uma das revelações mais duradouras da Motown para o topo das paradas da Billboard e lhe garantiu nada mais, nada menos do que TRÊS prêmios Grammy no início de 1974. Além disso, Talking Book é o segundo que compõe uma série de cinco álbuns da chamada ‘fase clássica’ da carreira de Wonder – o último álbum desta série é o magistral Songs in The Key of Life, de 1976.


1972 foi um ano e tanto para Stevie Wonder. Depois de lançar o antecessor deste clássico, Music of my mind, Little Stevie foi chamado para abrir os shows da turnê norte-americana dos Rolling Stones com a turnê norte-americana de Exile on Main Street, lançado naquele mesmo ano. O jovem artista, naqueles idos, tinha um poder de fogo tão intenso no palco e no disco que chegava a deixar Mick Jagger e seus companheiros de trupe em polvorosa antes de subir aos palcos dos EUA. Ao final da vitoriosa turnê com os Stones, Talking Book vinha a público com várias canções que integravam os shows daquelas apresentações memoráveis.


Neste disco, Stevie finalmente conseguiu a liberdade artística que tanto almejara em pouco mais de 10 anos de carreira. A sonoridade deste trabalho está pautada nos teclados (sintetizadores Arp e Moog, Fender Rhodes, Hohner Clavinet e outras parafernálias elétricas) do ‘Mr. Maravilha’ – uma novidade em seus trabalhos até então – e tem como resultado canções memoráveis como as baladas “You and I”, “Blame it on The Sun” e “I Believe (When I Fall in Love it will be Forever)”, os funks “Maybe Your Baby” e “Tuesday Heartbreak” e as obras-primas “You Are The Sunshine of My Life” e “Superstition”. E, dentre os músicos convidados havia uma lista bastante curiosa para os mais puristas: Jeff Beck e Ray Parker, Jr. nas guitarras e o sax de David Sanborn.


Por outro lado, Wonder escrevia e/ou cantava letras bem contundentes para aquele período – o artista pensou seriamente em largar a carreira como uma espécie de protesto aos abusos da política norte-americana em meados da década de 1970. Em “Blame it on the sun” perguntava, por exemplo, ‘Quem tinha derramado o amor? / Quem tornou esta dúvida amarga? / A paz não está aqui para que eu a veja?’ – uma alusão direta aos EUA que ainda viviam em tempos de guerra com o Vietnã; Já “Big Brother” atualizava o sistema tão bem descrito por George Orwell em 1984 para aqueles dias sombrios de 1972 ao retratar um ‘Grande Irmão’ cansado de ver um joão-ninguém, saído das ruas do gueto, protestando na TV enquanto crianças morriam todos os dias a olhos vistos em meio a líderes mortos. Sim, em meio a versos de amor e a grooves irrepreensíveis, Little Stevie ainda encontrava espaço para protestar contra o mundo de 1972.


A partir deste disco, Stevie Wonder passou a ser definitivamente apreciado por públicos de todas as cores, tendências e faixas etárias. Isto se deve não apenas ao fato de 1972 ter sido um ano altamente inspirador para um dos maiores artistas já revelados pela Motown, como também para a música do planeta. O ‘livro falante’ de ‘Mr. Maravilha’ é um esforço do amor que Stevie sempre nutriu pela música e pelo universo. A nota escrita por ele para o disco dizia: ‘Aqui está minha música. É tudo o que eu tenho a dizer a respeito de como eu me sinto. Saibam que é o amor de vocês que mantém meu amor forte.’



São estas e outras palavras que fazem de Talking Book um clássico da música mundial! Ouça o livro, leia o disco! Garanto que os seus olhos e ouvidos não sairão ilesos desta experiência!