20 de novembro de 2017

TROVA # 141

O DIA DA CONSCIÊNCIA



“A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra

Que vai de graça pro presídio
E para debaixo do plástico
Que vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos

A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra

Que fez e faz história
Segurando esse país no braço
O cabra aqui não se sente revoltado
Porque o revólver já está engatilhado
E o vingador é lento
Mas muito bem intencionado
E esse país
Vai deixando todo mundo preto
E o cabelo esticado

Mas mesmo assim
Ainda guardo o direito
De algum antepassado da cor
Brigar sutilmente por respeito
Brigar bravamente por respeito
Brigar por justiça e por respeito
De algum antepassado da cor
Brigar, brigar, brigar

A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra
A carne mais barata do mercado é a carne negra”
(Marcelo Yuka, Seu Jorge & Wilson Cappellette na voz de Elza Soares, 2002)


         Há pouco tempo que foi instituído o Feriado do Dia da Consciência Negra. Infelizmente, não para todas as cidades do país e sem o reconhecimento unânime de toda a população brasileira (alguns acham que precisamos de mais “consciência humana” e não de mais conscientização a respeito da luta e das mazelas da população negra). Zumbi dos Palmares (morto em 20 de novembro de 1695), se estivesse entre nós, teria um trabalho e tanto para acalmar a turba xucra e insensível de cidadãos que expõem os seus pensamentos mais horrendos pela Internet afora.


O que os detratores do feriado de 20 de novembro ignoram ou não reconhecem é que a população negra trazida da África à força para o Brasil ajudou a construir as bases deste país debaixo de muito suor, dor, sangue e chicote. Se levarmos em conta que o racismo nunca deixou de estar presente nas relações entre nós e se faz cada vez mais gritante em tempos nos quais vivemos uma retirada constante de direitos civis, é preciso declaramos apoio incondicional a momentos como este.
Ao acordar mais tarde na manhã de 20 de novembro de 2017, aproveitei para descansar mais um pouco e tomar um café da manhã mais demorado na frente da televisão: vejo a lendária atriz Ruth de Souza, no alto dos seus 96 anos de idade, sendo homenageada em um programa de variedades, assistido por milhões de brasileiros. Senti uma pontinha de orgulho e esperança ao ver uma atriz de um pioneirismo tão grande como Ruth em cadeia nacional, depois de mais de quatro décadas de carreira nas artes cênicas.
Entretanto, a minha euforia foi para as cucuias quando tive a infeliz ideia de acessar as redes sociais e ver comentários de profissionais de educação criticando o Dia da Consciência Negra. Um detalhe importante: são colegas de profissão que, como eu, convivem com uma quantidade expressiva de alunos e pais negros e que possuem muito menos privilégios do que qualquer um de nós que teve a chance de ouro de estudar em boas universidades.


Pausa para as trivialidades do Instagram e do Facebook para ir até a janela ver a origem do barulho ensurdecedor que invade o meu quarto em um passe de mágica: vejo um trânsito absurdo na Rodovia Raposo Tavares para um dia normal (imagine para um feriado...) e dois helicópteros fazendo a ronda da região onde moro. Ao investigar pelo noticiário, descubro que um carro tinha sido interceptado pela polícia com um carregamento de drogas. Vi a figura do criminoso pela televisão sentado no meio-fio perto do ponto de ônibus de frente para a minha janela. Detalhe importante: o meliante estava sem algemas. Perguntei-me: e se ele fosse negro? Estaria provavelmente algemado e espancado pelos meganhas ou até morto, dependendo de sua (falta de) sorte...


Depois da sessão “mundo cão”, fui almoçar enquanto assistia o noticiário do dia. Ao assistir a notícia de um rapaz negro que foi perseguido, acusado de roubo e espancado por seguranças de um terminal de ônibus de São Paulo, senti a comida começando a embrulhar no estômago. Apesar de não ser negro, tenho a compaixão mínima de me colocar no lugar da pessoa que foi agredida. Poderia ser um aluno meu. Poderia ser um amigo meu. Não poderia ter sido eu, pelo fato das pessoas olharem para a cor da minha pele, para as roupas que eu visto e ver que jamais estaria sob suspeita de qualquer delito.


A solução para o mal-estar era dormir um pouco depois do almoço para ver se o desconforto passava. Não passou... Antes de me preparar para as tarefas do dia, caí na infelicidade de ler um texto escrito por um projeto mal-acabado de filósofo, intelectual reacionário, defendendo o jornalista William Waack, flagrado em um vídeo praticando o racismo da forma mais deplorável e abjeta que já vimos nos últimos tempos na TV.


Enquanto arrumava a casa, decidi ouvir música. Escolhi dois CDs dos Rolling Stones para me animar a fazer a faxina da semana. Enquanto ouvia aqueles rocks entremeados de blues clássicos de Howlin’ Wolf e Willie Dixon, fui me lembrando de passagens da biografia das pedras rolantes: o que teria sido de Mick Jagger e Keith Richards se eles não tivessem bebido no manancial poderoso da música negra norte-americana? Duvido que eles teriam tido metade da relevância que possuem para o mundo do entretenimento se Mick e Keith não reverenciassem os negros com tanto respeito...


E teve gente que pensou que Madonna era negra quando surgiu para o mundo do Pop em 1982. Levaram um susto ao ver que a voz de “Everybody” não era de uma “afro-americana” e sim de uma branquela de Michigan recém-radicada em Nova York.  Em mais de 35 anos de carreira, Madge é o que é graças à contribuição da musicalidade dos negros (Rap, Soul, Hip-Hop, etc.) e porque preconceito nunca esteve em seu dicionário musical. Aprendeu mais uma das lições mais importantes de seu guru David Bowie, que fez discos maravilhosos nos quais misturou Soul, Funk com androginia, narcóticos e Rock ‘n’ Roll. Dois exemplos de artistas brancos que sempre trataram os negros com enorme respeito.


Se formos falar em matéria de música brasileira, temos um material gigantesco de músicos brancos que reverenciaram os negros com todo o respeito. Elis Regina, para citar um exemplo feminino, encontrou em “Upa, Neguinho!” um de seus maiores sucessos: a canção de Edu Lobo & Gianfrancesco Guarnieri fala do infante Zumbi dos Palmares e o retrata como uma alternativa para a liberdade que os negros tanto procuraram em séculos de exploração.



Apesar dos negros terem encontrado uma parcela de liberdade e uma boa dose de respeito dentro do universo da música, eles ainda ganharão menos do que os brancos (fato que contribui para o atraso da economia brasileira) e estarão no topo das estatísticas de pessoas assassinadas no Brasil. Enquanto os brancos ainda torcerem o pescoço com medo ou repulsa daqueles que escravizaram no passado, teremos milhares de motivos para que todo dia 20 de novembro seja lembrado dos horrores que nós e nossos antepassados já cometeram por pura maldade, burrice e ignorância... 


2 de novembro de 2017

DISCOS DE VINIL # 47

LED ZEPPELIN – HOUSES OF THE HOLY (1973)


     Em 1973, o Led Zeppelin já era uma das maiores bandas de toda a história do Rock ‘n’ Roll. Jimmy Page (guitarra e produção), Robert Plant (voz), John-Paul Jones (baixo e teclados) e John Bonham (bateria) precisaram de quatro discos para que seus nomes constassem no panteão dos gênios do Rock: Led Zeppelin I, Led Zeppelin II, Led Zeppelin III e o álbum sem título com um velhinho em meio às ruínas de uma moradia abandonada, que ficou conhecido pelos fãs e críticos como Led Zeppelin IV.


        
         Entre janeiro e agosto de 1972, Page, Plant, Jones e Bonham gravaram uma quantidade assombrosa de material inédito para o que seria o quinto álbum da banda. Além de realizaram gravações no estúdio de gravação móvel dos Rolling Stones (administrado por Ian Stewart, o pianista e tecladista que teria sido o sexto Stone), os músicos gravaram nos estúdios mais badalados da época – o Olympic de Londres e o Electric Lady em Nova York. Definitivamente, Jimmy Page não estava disposto a jogar baixo e queria repetir o sucesso do quarto álbum do Zeppelin, lançado um ano antes: apesar de terem registrado várias canções, apenas OITO ficaram para a seleção final do quinto álbum da banda, batizado como Houses of the Holy, lançado em 28 de março de 1973.



         (Antes de tratarmos das faixas que fazem parte do quinto álbum do Led Zeppelin, cabe um parêntesis sobre duas das canções que ficaram de fora do disco: a faixa-título, “Night Flight” e “Boogie with Stu” [Ian Stewart, ele mesmo!] foram três preciosidades que teriam figurado em Houses of the Holy se a tesoura do produtor Jimmy Page não tivesse sido tão implacável!)



         O disco abre com um dos melhores números da história do Led Zeppelin: “The Song Remains the Same” pode ser interpretada como uma canção que relata um sonho que reconstitui os desejos de uma banda em ser ouvida pelos quatro cantos do planeta. A comunhão entre artistas e público se faz através do poder unificador das canções que se tocam e se ouvem por aí – Master Page, em um ápice de seu virtuosismo, fez uso de simplesmente OITO guitarras diferentes para gravar esta faixa.


         Depois dos cinco minutos e meio da faixa de abertura, o Zeppelin propõe o seu ouvinte para um momento de calmaria e reflexão: “The Rain Song” é pontuada pela guitarra e pelo violão de Page, pelo mellotron de Jones (que consegue simular uma orquestra sinfônica com perfeição!), pela batida inconfundível de Bonham e pela voz de Robert Plant, que consegue ser feroz, doce, agressiva e solene na medida certa, o que o torna em um dos maiores cantores da história da música do planeta! A segunda canção de Houses of the Holy é um dos melhores números acústicos da história do Rock ‘n’ Roll e chegou a ser revivida no especial No Quarter, gravado por Page e Plant para a MTV em 1994, sem o talento de John-Paul Jones e sem as baquetas extraordinárias de Bonzo.



         A terceira faixa, “Over the Hills and Far Away” é um clássico típico do Led Zeppelin: os violões de Jimmy Page levam mais de 40 segundos para introduzir a voz de Robert Plant e nos transporta a ambientes místicos, mágicos. Quando o baixo de John-Paul Jones e a bateria de Bonzo atacam junto com a guitarra de Page, o vocalista abandona o tom solene e quase romântico para declarar sem pudor: “Many have I loved / And many times been bitten / Many times I’ve gazed / Along the open road”. Afinal, o sujeito poético deixa bem claro que a sua razão de viver é o seu sonho e um bolso repleto de ouro. Viver intensamente é o que realmente vale a pena, não colocar o pé na estrada e encarar os obstáculos sem medo e desconhecer o que pode haver de melhor nesta vida.




         As duas faixas seguintes de Houses of the Holy, “The Crunge” e “Dancing Days” são dois números nos quais a banda demonstra uma sintonia impressionante. Juntos, Page, Plant, Jones e Bonham conseguiram escrever os princípios do Rock com riffs cortantes, vocais rasgados, uma certa dose de irreverência e deboche, baixo e teclados para trazer mais camadas de som e uma batida ligeira para formatar o andamento. Confesso que teria ficado muito feliz se o Led Zeppelin tivesse incluído “Dancing Days” no lendário concerto de 2007, por se tratar de um B-Side admirado por uma série de fãs.
        
         

     “D’Yer Maker”, sexta faixa de Houses of the Holy, é uma das canções mais irreverentes de todo o repertório do Led Zeppelin: o título da canção é uma alusão à contração da frase em Inglês “Did You Make Her?” [Você trepou com ela?] e “Jamaica” tal qual pronunciada no inglês britânico Robert Plant canta sobre uma figura feminina estonteante que faz seu macho de gato e sapato, apesar dele lhe jurar amor eterno. A canção foi redescoberta em 1994 quando Sheryl Crow, na época um artista em ascensão, regravou esta canção para o álbum-tributo Encomium, com um toque Folk pontuado pelo acordeom da moça.


         A penúltima faixa do disco, “No Quarter”, é, sem sombra de dúvidas, o momento mais sombrio do disco. A voz de Robert Plant nos dá a impressão de que tinha sido congelada pelo frio aterrorizante da letra da canção. Os teclados e o piano de John-Paul Jones deixam o virtuosismo de Jimmy Page um pouco de lado para que o mundo tivesse a certeza de que o baixista e o tecladista do Led Zeppelin é um dos músicos mais talentosos, brilhantes e injustiçados de toda a história do Rock. Apesar de Page e Plant terem reinterpretado este número em 1994, a versão ao vivo que permanecerá nas memórias afetivas dos fãs e críticos musicais é a de 2007, na qual o vocalista e o guitarrista da banda trouxeram Jones de volta para o mesmo palco que eles para que tocar esta canção juntos, como sempre deveria ter sido.



A última canção de Houses of the Holy é “The Ocean” (a minha preferida do disco!) é introduzida por John Bonham conclamando os músicos para o número final depois de atacar com o seu “1, 2, 3, 4” para que o zepelim prateado voasse mais alto do que nunca através da velocidade do som... Geralmente utilizada para encerrar as apresentações ao vivo da banda durante a turnê de 1973, “The Ocean” é um resumo das imagens mais poéticas deste disco do Led Zeppelin em quatro minutos: traz imagens solares (“The Song Remains the Same”), de montanhas (“Over the Hills...”), de chuva e destruição (“The Rain Song” e “No Quarter”) e de figuras femininas marcantes (“The Crunge”, “Dancing Days” e “D’Yer Maker”). O tal oceano da canção é o mar de gente que peregrinava alegremente para ver os quatro cavaleiros do zepelim prateado em ação em cima de um palco e que transmite a energia para que seja possível cantar sobre o amor e as coisas mais simples da vida. De acordo com Robert Plant, um excelente modo de estabelecer um recomeço é cantar para quem se ama – no caso sua filha, Carmen Jane, uma menininha naquela época.



Houses of the Holy é um retrato e tanto do que existe de melhor do Led Zeppelin: uma aula de Rock ‘n’ Roll ousado, poético e infinitamente energético. Se eu fosse indicar um disco do Led para que um desconhecido ouvisse, seria este. Assim, o oceano de peregrinos do zepelim de Page, Plant, Jones e Bonham sempre teria novos integrantes.


UM BÔNUS PARA QUEM ACREDITA QUE OS ÁLBUNS DO LED ZEPPELIN SÃO REPLETOS DE SATANISMO: 



29 de outubro de 2017

TROVA # 140

O EROTISMO SEGUNDO MADONNA
(EROTICA: 25 ANOS DEPOIS)




“When you know the notes to sing
You can sing most anything
That’s what my mama told me”
(Madonna, 1992)



O mundo andava bastante conturbado em 1992. Vivíamos o auge da 1ª Era Bush com direito a conflitos armados de toda espécie. O Brasil vivia a deposição do primeiro presidente eleito pelo voto através de um impeachment. A AIDS tinha tragado alguns nomes do entretenimento em todo o planeta: enquanto chorávamos a morte de Cazuza, o resto do mundo amargava a partida precoce de Freddie Mercury. Tempos conservadores aqueles. Falar de sexo se restringia apenas à prevenção para que a tal síndrome (que nunca escolheu cor, sexo ou sexualidade) não viesse bater à sua porta. Mencionar prazer sexual ainda era um tabu e tanto no início da década de 1990.



Em outubro de 1992, uma das vozes mais controversas e revolucionárias do mundo do entretenimento resolveu acender o pavio eterno de toda e qualquer discussão em torno de sexo. Madonna já comprara uma quantidade sem tamanho de brigas ao beijar um Cristo negro e tinha dançado freneticamente na frente de cruzes em chamas. Já tinha simulado sexo oral e masturbação durante a turnê Blond Ambition anos antes. Em outras palavras, Madge não precisava de muito pretexto para arranjar confusão, pois seu nome constava no topo da lista negra dos conservadores mais ferrenhos e radicais. Mesmo assim, ela resolveu dobrar a sua artilharia contra a caretice.




Em 20 de outubro de 1992, Madonna deu uma cartada e tanto contra os conservadores e o medo de se falar sobre sexo: Erotica, seu quinto álbum de estúdio, foi lançado simultaneamente com Sex, um coffee table book com fotos artísticas de Steven Meisel no qual o mundo conheceu todos os ângulos possíveis e imagináveis da Rainha do Pop em colorido e em preto e branco. Foi o primeiro empreendimento da artista através do selo multimídia Maverick, ligado à Warner Records. O livro trata de vários tipos de fantasias sexuais com a Pop Star nua ao lado de anônimos e famosos - sexo grupal, relações em locais públicos, ménage a trois, sadomasoquismo e sexo oral são alguns dos temas abordados pela obra. O álbum, por sua vez, trata dos mesmos temas do livro, de maneira bastante França e explícita. Na pele do alter-ego “Dita”, Madonna apresenta uma síntese da importância do prazer durante o sexo em “Erotica”, sua canção-manifesto, uma anti-canção pregando a sacanagem com todas as letras. A missão de Dita era a de ensinar as pessoas a terem uma vida com menos inibição e mais prazer, desmistificando o sadomasoquismo e o sexo oral. E some a este caldeirão fumegante canções sobre obsessão sexual, promiscuidade, confissões de amor e ódio e duas odes contra o preconceito.






Quando a Rainha do Pop se vestiu de Dita, lançou este compêndio sobre o sexo (CD e livro), eu tinha um pouco de mais de 11 anos de idade e estava descobrindo os prazeres da música naquele momento de minha vida. Lembro com clareza do linchamento público sofrido por Madonna e da excitação pública que os fãs sentiam com cada clipe, cada escândalo e com a turnê The Girlie Show, que passou pelo Brasil em novembro de 1993 – até hoje eu me lembro do choque de D. Magaly, minha avó ao ver o número de abertura do espetáculo, no qual uma das bailarinas descia seminua fazendo pole dancing. Apesar do álbum e do show terem recebido críticas favoráveis, os conservadores de plantão não perdoaram Madge por ter tocado em tabus sexuais tão controversos de uma tacada só e a partir de uma perspectiva tão pessoal. Querendo ou não, os anos 1992-1993 foram muito difíceis para a Pop Star por terem lhe imposto uma imagem de degenerada e irresponsável, o que fez com que Erotica fosse o primeiro álbum de Madonna a não atingir o topo das paradas da Billboard.




Apesar de ser um disco adorado pelos fãs, Erotica é, infelizmente, um dos trabalhos mais subestimados de Madonna – creio que foi o primeiro disco com aquele selo “Parental Advisory Label” que eu me lembro de ter visto. Foi um álbum bem menos vendido comparado a True Blue, Like a Prayer e Like a Virgin, porém é o único disco em que a Rainha do Pop trata de sexo, vida, morte, agonia, desejo, liberdade e prazer sexual com tamanha contundência. Para um menino suburbano que estava entrando na adolescência, descobrindo os prazeres da música (e os sexuais também!), as 14 gravações daquele CD se tornaram em um desejo incontrolável de libertação, contestação e de pensar do lado de fora da caixinha que nos impõem para que possamos viver harmoniosamente em sociedade.



Musicalmente falando, Erotica também é uma aula de diversidade musical: seduzida pela Dance Music do início dos anos 1990, como também pela da década de 1970, Madonna se aliou aos produtores Shep Pettibone (com quem fez “Vogue”) e André Betts para a realização de um trabalho que reúne baladas e canções dançantes em ritmo de R & B, Hip Hop, Soul, Jazz, House e uma guitarra flamenca sensacional em “Deeper and Deeper”. Enquanto eu me encantava cada vez mais pela Rainha do Pop, seu som, suas imagens e mutações mil através da extinta MTV Brasil, aprendi algumas lições básicas de como se faz música popular, sem deixar a peteca da qualidade cair.






Além disto, Madonna me ensinou a importância de não temos que depender de ninguém para termos a liberdade de pensar e existir da maneira que for mais conveniente para cada um de nós, sem se prender a quaisquer espécies de amarras morais ou ideológicas. E como ela mesma já nos disse, pobre é aquele que depende do outro para encontrar o seu próprio prazer. Em uma época na qual não podíamos falar de sexo tranquilamente por causa de uma epidemia que varria as pessoas para o vale da morte indistintamente, a Rainha do Pop reinventou a noção de erotismo na música. Graças a sua coragem e ao nosso desejo de liberdade, Erotica não ficará no limbo do esquecimento que os conservadores criaram para nos queimar vivos. Afinal de contas, as genuínas obras de arte não merecem e não podem ser esquecidas...  


26 de outubro de 2017

DISCOS DE VINIL # 46

ZÉLIA DUNCAN – INTIMIDADE (1996)


         Em 1996, o Brasil já conhecia o talento único de Zélia Duncan: voz grave, delicada e ao mesmo tempo de uma força avassaladora. O pop brasileiro precisava de mais mulheres inteligentes em meados daquela década – enquanto Marina Lima tinha uma linguagem mais Rock ‘n’ Roll, Marisa Monte e Adriana Calcanhotto conquistavam as ondas do rádio com trabalhos que, ao mesmo tempo aliavam a modernidade e a tradição da MPB. Zélia tinha como trunfos uma influência da vanguarda paulistana, de Folk Music e parceiros musicais de primeira categoria.


         Intimidade, seu terceiro álbum de carreira, foi lançado em 1996, dois anos após Zélia Duncan ter estourado nas paradas de sucesso com uma versão em Português de “Cathedral Song”, de Tanita Tikaram. Apesar do sucesso estrondodo causado por uma canção que foi trilha sonora de novela, Zélia procurou compor canções que fugissem do óbvio, da tal receita fácil para tocar nas rádios e TVs. Como consequência, o brasileiro médio teve a chance de ouvir um tipo de música mais elaborado, com letras repletas de rimas improváveis e inteligentes. Uma provocação e um deleite de Miss Duncan para cada um que se aventurasse a ouvir o seu terceiro disco naquela época.
         Produzido por Liminha, um dos produtores mais famosos do país, Intimidade conseguiu emplacar mais dois sucessos para a cantora de “Nos Lençois Desse Reggae”: “Enquanto Durmo” (Christiaan Oyens & Zélia Duncan) fez parte da trilha sonora da novela Salsa & Merengue, de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa e até hoje é um dos números preferidos dos fãs durante os shows da artista. “Não Tem Volta” é uma das melhores parcerias de Zélia com Christiaan Oyens:

Se você vai por muito tempo
Você nunca volta
Você retorna, você contorna
Mas não tem volta
A estrada te sopra pro alto
Pra outro lado
Enquanto aquele tempo vai mudando
Aí, de quando em quando você lembra

Aquele beijo
Aquele medo
Mas você sabe que tudo ficou antigo
E você não volta
Nem com escolta
Nem amarrado, porque o passado já te perdeu

E o perigo muda mesmo de endereço.
Não existe pretexto, o dia mudou
O carteiro não veio
O princípio é o meio
E você retorna, mas não tem volta.



         Foi neste trabalho no qual Zélia Duncan conseguiu gravar uma canção de um de seus maiores ídolos, o cantor e compositor Itamar Assumpção, cuja obra ela sempre reverenciou sem medir paixões ou consequências. “Vou Tirar Você do Dicionário”, parceria do eterno Nego Dito com a poeta Alice Ruiz, ganhou uma de suas melhores releituras e fez com que milhares de pessoas pudessem conhecer melhor o legado de Itamar:

Eu vou tirar do dicionário
A palavra você
Vou trocar-lá em miúdos
Mudar meu vocabulário
e no seu lugar
vou colocar outro absurdo
Eu vou tirar suas impressões digitais
da minha pele
Tirar seu cheiro
dos meus lençóis
O seu rosto do meu gosto
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos "nãos" se faz um sim
Eu vou tirar o sentimento
do meu pensamento
sua imagem e semelhança
Vou parar o movimento
a qualquer momento
Procurar outra lembrança
Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz
dos meus ouvidos
Eu vou tirar você e eu de nós
o dito pelo não tido
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos "nãos" se faz um sim
"Tudo que você disser
deve fazer bem
Nada que você comer
deve fazer mal"
"Eu quero as mulheres
que dizem sim
E quem não tem vergonha
de ser assim?"




Outra parceria frequente nos trabalhos de Zélia Duncan é a da artista com a cantora e compositora Lucina. Intimidade registrou três belos exemplos deste trabalho: as faixas “Coração na Boca”, “Minha Fé” e “Primeiro Susto”. Dentre as colaborações com Christiaan Oyens, “Bom pra Você”, “Me Gusta”, “Assim Que Eu Gosto” e a faixa-título, cujos versos retratam as pequenas coisas (boas e ruins) das relações amorosas:

Não nega
Fui eu que senti

Renega
Ninguém vai te ouvir

Intimidade é fato
Não dá pra fingir

Impeça
Senão vou cumprir

Carrega
Seus traumas daqui

Envelhecer é fato
Nâo dá pra fugir

Se esfrega em outro rosto pra deixar de me amar
Você me deu o gosto e esqueceu o lugar

Passos largos fora de hora
Não vão me afastar

Confessa
Seu tombo é aqui
Na queda
Quem vai se exibir?

Dignidade é fato
Não dá pra pedir

Se esfrega em outro rosto pra deixar de me amar
Você me deu o gosto e esqueceu o lugar

Passos largos fora de hora
Não vão me afastar

Confessa
Seu tombo é aqui
Na queda
Quem vai se exibir?

Dignidade é fato
Não dá pra pedir

Envelhecer é fato
Não dá pra fugir

Intimidade é fato
Não dá pra fingir


         Depois de mais de 20 anos de lançamento, Intimidade ainda se revela como um dos melhores trabalhos da discografia diversificada de Zélia Duncan. Se você quiser se aventurar pela música de uma das artistas mais criativas da música brasileira hoje, este CD é uma ótima pedida para você conhecer o que esta bela moça de cabelos cacheados tem para te dizer...